SEGUNDA DISPUTA¶
Que é a primeira
SOBRE A IDOLATRIA ROMANA.¶
Respondente: MARCO MICHEL de Genebra.
I. Na disputa anterior, afirmamos que três razões principais tornam nossa separação necessária e o sincretismo impossível: a Heresia na doutrina, a Idolatria no culto e a Tirania no governo. Já tratamos da Heresia e demonstramos que o papado mantém tantos erros capitais e fundamentais que ninguém pode defendê-los ou professá-los sem um perigo imediato para a salvação. Agora, devemos discutir os outros dois pontos: primeiro, a Idolatria; depois, a Tirania.
A idolatria como causa justa para a separação.
II. Trataremos agora da Idolatria. Como este assunto é de extrema importância e comprova abundantemente, por si só, a necessidade de nossa separação, devemos discuti-lo com mais profundidade. Este será o nosso argumento principal: temos o dever de nos separar da comunhão e dos ritos de qualquer igreja que seja culpada de múltiplas idolatrias em seu culto. Ora, a Igreja Papal é claramente culpada desse crime. Portanto, a conclusão é óbvia. Quase não precisamos provar a preposição maior, pois a Escritura condena a Idolatria em todo lugar como um crime abominável e totalmente incompatível com a verdadeira comunhão com Deus. Por isso, Paulo, em 1 Coríntios 6:9, exclui os idólatras do reino dos céus; em 1 Coríntios 10:14, ordena que os coríntios fujam da idolatria; e em 2 Coríntios 6:16-17, declara que não pode haver comunhão entre o Templo de Deus e os ídolos. Pedro, em sua primeira carta (4:3), lista a idolatria entre os pecados dos gentios que os cristãos devem evitar. João, no último versículo de sua primeira epístola, recomenda acima de tudo: Filhinhos, guardai-vos dos ídolos. Além disso, lemos que o Senhor nunca se irou tão gravemente contra o povo de Israel por qualquer outro pecado. Nenhum outro crime o impeliu com mais força a abandoná-los e a dar-lhes carta de divórcio, como vemos repetidamente nos Profetas. E isso não é surpreendente: se nada acende mais a ira de um marido contra sua esposa do que vê-la violar a fidelidade conjugal, quanto mais o Deus zeloso — que não tolera rivais nem aceita iguais ou superiores — se moverá contra a Igreja que rompe o vínculo sagrado da aliança e do casamento espiritual com o adultério infame da idolatria? O vínculo da Religião, que nos liga somente a Deus, é igual ao do casamento. Deus testifica na Escritura que é nosso esposo e que a Igreja é sua esposa (Oseias 2:2, 16, 20; Ezequiel 16:8). Por isso, a Igreja comete adultério espiritual sempre que presta culto religioso a qualquer outra coisa além do Deus verdadeiro. Não existe crime mais grave do que este, nem que acenda mais intensamente o zelo de Deus, como mostram os Profetas. Assim, Tomás de Aquino afirma (2. 2. q. 94. 3): Entre os pecados cometidos contra Deus, que são os maiores, o mais grave parece ser quando alguém presta honra divina a uma criatura. Portanto, se demonstrarmos que a Igreja Romana Papal é idolátrica, não haverá argumento contra a necessidade de nossos antepassados se separarem dela. Também não poderemos dizer que o sincretismo com ela é possível. Que tipo de associação legítima poderia haver? Que união pode existir com uma adúltera enquanto suas fornicações continuam? (2 Reis 9:22; Apocalipse 17:4). Que ela abandone essas práticas e retorne à graça de seu Senhor, e então teremos paz com ela.
III. Embora a verdade da preposição maior seja tão evidente que apenas um idólatra assumido poderia negá-la, nossos adversários tentam enfraquecê-la de todas as formas. Primeiro, Gregório de Valência não se envergonha de distinguir entre idolatria lícita e ilícita. Para confirmar essa invenção terrível, ele tenta usar 1 Pedro 4:3, onde são condenadas as "idolatrias abomináveis". Ele interpreta isso como se apenas a idolatria ilícita fosse proibida pela Lei de Deus, e não a idolatria "lícita" que eles praticam. Respondemos: essa doutrina é um monstro que envergonharia o próprio Satanás, quanto mais um cristão. Se ele e seus companheiros acreditam nisso, por que se esforçam tanto para se livrar da acusação de idolatria? Por que ficam tão furiosos quando os chamamos de idólatras, se poderiam simplesmente usar essa distinção? Mas quem suportaria tal insanidade? É como se os adjetivos usados para descrever as coisas fossem sempre distintivos e não, muitas vezes, explicativos ou enfáticos. Seguindo essa lógica, ele poderia concluir que existem pecadores piedosos, já que a Escritura fala do julgamento de Deus contra os pecadores ímpios (Judas 15). Seria como dizer que existem abominações excelentes porque Ezequiel (8:9) menciona as "piores". Ou como se Cícero sugerisse que existem estupros lícitos quando chama os crimes de Clódio de estupros e crimes nefastos. Quem não vê que Pedro usou esse adjetivo apenas para condenar a idolatria infame dos gentios e descrever a gravidade de tal crime?
IV. Segunda Objeção: A idolatria não seria causa suficiente para a separação porque: 1. A Igreja Israelita caiu frequentemente na idolatria, mas os piedosos não se separaram dela imediatamente, nem Deus ordenou isso. 2. Elias não se retirou da Igreja Israelita, embora pensasse ser o único fiel ao Deus verdadeiro (1 Reis 19). 3. Aqueles sete mil que não dobraram os joelhos diante de Baal permaneceram, embora a igreja estivesse corrompida. 4. Reis como Asa, Josafá e outros são elogiados por andarem retamente, embora não tenham removido os Lugares Altos onde o povo sacrificava (1 Reis 15:14; 2 Reis 12:3). Por que, então, os abusos da Igreja Romana não poderiam ser tolerados mantendo-se a consciência limpa? 5. Naamã, o Sírio, após sua conversão, curvou-se no templo de Rimom quando o rei se prostrava diante do ídolo, e o profeta permitiu que ele fosse em paz (2 Reis 5:18). Portanto, dizem eles, o mesmo nos é permitido. 6. A Igreja Judaica no tempo de Cristo estava corrompida na fé e nos costumes, mas Zacarias, Simeão, Ana e a Virgem Maria não a abandonaram. Assim, mesmo que houvesse erros na Igreja Romana, ela não deveria ter sido deixada.
V. Como essas objeções reaparecem constantemente, devemos examiná-las com cuidado. Respondemos: 1. Ao suporem que a idolatria não justifica a separação, eles cometem uma petição de princípio, assumindo como certo o que está em questão. Na verdade, essa única razão bastaria para nos obrigar a sair, pois Deus não tem comunhão com ídolos. 2. Os exemplos que trazem são falsos ou irrelevantes. Primeiro, negamos que os piedosos do Antigo Testamento não se separaram dos idólatras. Eles se separavam, no mínimo, por uma separação mental e negativa, abstendo-se dos erros. Frequentemente, faziam também uma separação aberta e pública, protestando seriamente contra as corrupções. Assim fez Moisés contra o bezerro de ouro (Êxodo 32). Assim fizeram os profetas em suas pregações. Assim, os fiéis mantinham-se puros ao gemer pelas abominações de Israel (Ezequiel 9:4), como Ló em Sodoma (2 Pedro 2). Além disso, Deus ordenava essa separação. A pena de morte para idólatras (Êxodo 22:20) e as exortações dos profetas provam isso. Isaías 52:11 diz explicitamente: Retirai-vos, retirai-vos, saí daí, não toqueis coisa imunda; saí do meio dela. Oseias 2:2 também ordena: Contendei com vossa mãe... para que ela afaste as suas prostituições.
VI. Eles dirão: a separação deles não foi positiva como a nossa, que criou assembleias separadas. Respondemos: é falso supor que ninguém se separou positivamente. Quem pode dizer que, no tempo dos reis piedosos, ninguém deixou as dez tribos e seus bezerros para voltar a Jerusalém? Além disso, se a separação não foi idêntica à nossa, é porque a situação era diferente. 1º. No Antigo Testamento, Deus fixou seu culto em um único lugar (Judéia). Os fiéis não podiam erguer novas igrejas em outros lugares com promessa de salvação, mas deviam permanecer onde a Palavra e os sinais da presença de Deus estavam. 2º. Embora a idolatria ocorresse, ela nunca se tornou a lei oficial a ponto de obrigar todos à força; caso contrário, os sete mil de Elias teriam sido forçados a dobrar o joelho, o que Deus nega. O povo pecava por seguir o exemplo dos reis, mas não havia uma imposição legal universal. Os profetas continuavam pregando e denunciando os erros livremente. Havia sempre cultores puros, como Obedias, que escondeu os profetas de Deus sob o reinado de Acabe (1 Reis 18:3-4). Mesmo quando o altar de Damasco foi erguido no Templo, o altar mosaico não foi destruído, mas apenas deslocado, permitindo que os sacrifícios continuassem (2 Reis 16:14-15). Mas hoje, no Novo Testamento, a situação mudou. Deus não limitou sua Igreja a um lugar, mas a estendeu a todas as nações. Agora podemos adorar em espírito e verdade em qualquer lugar (Malaquias 1). Portanto, os fiéis são livres para se retirar de uma igreja idolátrica, tanto negativa quanto positivamente. Além disso, a separação tornou-se necessária porque a idolatria romana não é apenas um abuso ocasional, mas tornou-se lei, sancionada sob pena de anátema, especialmente no Concílio de Trento. Não restou outra opção aos fiéis senão a separação positiva ou a participação na idolatria.
VII. Respondemos assim à primeira razão. A segunda também é fácil de resolver. Embora Elias não tenha se retirado positivamente, isso não significa que não devêssemos sair da Igreja Papal. Elias tinha uma vocação especial para enfrentar Acabe e converter o povo. Mas quem diria que os fiéis no papado tinham tal poder? Todos sabem que ou deviam silenciar sobre a verdade conhecida, ou enfrentar o exílio, a espada e o fogo se ousassem murmurar contra os erros. Quando Roma tornou seu mal incurável e passou a perseguir cruelmente quem a alertava, o único caminho foi a fuga. Não negamos que as dez tribos estavam corrompidas, mas nossa situação e a de Elias são distintas. Elias não participou dos cultos idolátricos; ele esteve presente apenas para zombar e denunciar a impiedade (1 Reis 18:27). Nenhum profeta ou homem piedoso jamais adorou em Betel ou ofereceu sacrifícios ali.
VIII. Sobre os reis piedosos que não removeram os Lugares Altos: 1º. Sua piedade é elogiada, mas esse fato específico é sempre criticado (1 Reis 3:3; 2 Reis 14:3). Antes da construção do Templo, o sacrifício nesses lugares era tolerado, mas depois tornou-se um erro. 2º. Os reis piedosos toleravam esses lugares porque neles se adorava o Deus verdadeiro, não ídolos. Eles destruíram os Baains e os ídolos falsos. O pecado estava no lugar do culto, não no objeto do culto. Os católicos romanos, porém, pecam contra o próprio Objeto e o modo do culto. Portanto, o exemplo não se aplica.
IX. Sobre Naamã, o Sírio (2 Reis 5): 1º. Devemos viver por leis, não por exemplos isolados. Naamã era um recém-convertido com pouca luz; os cristãos de hoje, sob a luz do Evangelho, não têm a mesma desculpa. 2º. O exemplo de Naamã, na verdade, nos favorece: ele abjurou publicamente os ídolos e prometeu sacrificar apenas ao Deus de Israel. 3º. O ato de se curvar não era um culto religioso ao ídolo, mas um dever político e obediência civil ao rei, a quem ele servia de apoio físico. As palavras dele deixam claro que era um serviço civil, não uma adoração. 4º. Ao pedir perdão, ele reconhece que o ato poderia ser pecaminoso. Quem diria que devemos imitar Naamã em seu pecado? 5º. O profeta não aprova o ato formalmente, apenas o despede em paz, o que não significa que ele deva continuar na prática.
X. Sobre a Igreja Judaica no tempo de Cristo: A situação era diferente. Primeiro, os abusos eram vícios de pessoas e seitas (como os fariseus), não da doutrina oficial de toda a religião. Não havia ídolos no Templo. Segundo, embora Cristo fosse abrogar o culto mosaico, ele ainda não o fizera. Os sacrifícios no Templo ainda eram legítimos e não havia outra igreja instituída. Hoje, porém, a Igreja Papal está cheia de idolatria e Cristo já estabeleceu igrejas puras em outros lugares. Permanecer na Babilônia quando o tempo da libertação chegou é tornar-se escravo por escolha. Quando soa a trombeta dizendo "Saí da Babilônia", não se deve demorar.
XI. Após defender a preposição maior, provaremos a menor: a Igreja Papal é verdadeiramente idolátrica. Não dizemos que ela pratica a idolatria grosseira dos gentios (adorando Júpiter ou Marte), mas que comete o mesmo pecado de forma mais sutil. Existem duas espécies principais de idolatria: a primeira diz respeito ao Objeto (proibida no primeiro mandamento), que ocorre quando se presta culto divino a qualquer coisa que não seja o Deus verdadeiro. A segunda diz respeito ao Modo (proibida no segundo mandamento), que ocorre quando se adora o Deus verdadeiro por meio de imagens, ou quando se adora um deus falso por meio de imagens. Afirmamos que Roma é culpada de ambas.
XII. Começando pela primeira espécie (o Objeto): Quem presta culto divino e religioso a criaturas comete idolatria. Ora, a Igreja Romana presta tal culto a criaturas. Logo, é idolátrica. A definição de idolatria do Apóstolo (Romanos 1:25) é "servir e adorar a criatura em lugar do Criador". Até Tomás de Aquino concorda que a idolatria ocorre quando se dá à criatura a honra devida a Deus. O culto religioso compreende o aspecto interno (do coração) e o externo (do corpo). O culto interno inclui a esperança e a confiança, que devem estar apenas em Deus (Salmo 71; Colossenses 1:27). Quando colocamos nosso coração em algo, aquilo se torna nosso deus. Por isso, os avarentos são chamados de idólatras (Efésios 5:5), pois confiam nas riquezas. Quem põe sua confiança na criatura afasta seu coração de Deus (Jeremias 17:5).
XIII. O Culto Externo consiste em adoração e serviço. Ambos pertencem somente a Deus (Êxodo 20:5; Mateus 4:10). Os teólogos católicos admitem que a exclusividade "só a ele" em Mateus 4:10 aplica-se tanto ao serviço quanto à adoração. Nenhuma criatura pode participar da adoração divina sem sacrilégio. Esta era a mente dos Padres da Igreja: Justino Mártir disse que "adoramos somente a Deus"; a Igreja de Esmirna negou que pudesse adorar qualquer outro além de Cristo; Epifânio afirmou que a Igreja não adora a criatura; e Atanásio disse que adorar uma criatura é um delírio dos pagãos e arianos. Por isso, os antigos acusavam os arianos de idolatria, pois eles adoravam Cristo enquanto o consideravam uma mera criatura.
XIV. A mesma lógica se aplica ao serviço religioso. Atos como: 1. Invocação; 2. Votos; 3. Juramentos; 4. Consagração de Templos e Altares; 5. Uso de Incenso, pertencem apenas a Deus. 1º. A invocação dirige-se apenas a Deus (Salmo 50:12), pois só ele é objeto de fé e só ele pode nos ouvir. 2º. Os votos devem ser feitos apenas a Deus (Salmo 76:12). O próprio Belarmino admite que não há base bíblica para fazer votos aos santos. 3º. O juramento é um ato de adoração ao Deus verdadeiro (Deuteronômio 6:13). Jurar por uma criatura é atribuir a ela a capacidade de ler corações e vingar a mentira, o que é deificar a criatura. 4º. Templos, Altares e Festas são destinados apenas ao culto de Deus na Escritura. Até o católico Durando reconhece que estas coisas pertencem à latria e devem ser dadas apenas a Deus. 5º. O incenso é uma parte do sacrifício e, portanto, deve ser oferecido apenas a Jeová. Ora, como a Igreja Romana pratica todos esses atos em relação a criaturas, ela comete idolatria.
XV. A prática e as leis de Roma provam essa acusação em relação a quatro objetos: 1. Santos falecidos e Anjos; 2. O Papa; 3. O Sacramento; 4. A Cruz e as Relíquias. Sobre os Santos: embora devamos honrá-los por imitação, negamos que devam ser adorados religiosamente. Mas os católicos romanos fazem o contrário. Comecemos pela Virgem Maria. Eles atribuem a ela títulos e cultos divinos, chamando-a de esperança do mundo, mãe de misericórdia, vida, doçura e salvação. No "Ofício da Bem-Aventurada Maria", ela é chamada de "salvação de todos os que esperam em ti". No Saltério de Maria, transferem-se para ela versículos que pertencem apenas a Deus, como "Senhora, em ti esperei" (Salmo 7) e "Vinde, adoremos e prostremo-nos diante dela" (Salmo 94).
XVI. Quanto à Invocação, ela é interpelada mais frequentemente que o próprio Deus, não apenas como mediadora, mas como distribuidora de graça e proteção. Ensinam que Deus deu a ela metade do seu reino (a misericórdia), reservando para si apenas a justiça. Dizem que ela divide o império com Deus. Às vezes, colocam-na acima de Cristo, pedindo que ela "mostre que é mãe e use seu direito de mãe para ordenar ao Filho". Cassandro e outros católicos indignaram-se com isso. Eles a chamam de Rainha do Céu e até de Deusa. Colocam a criatura no lugar do Criador.
XVII. O mesmo ocorre com os outros santos e anjos. Eles os tratam como deuses tutelares, depositam neles sua confiança, juram por eles e lhes dirigem preces. Invocam anjos como protetores e distribuidores de bens. O jesuíta Espencaeu admitiu que muitos confiam mais nos santos do que em Deus, pois acham Deus menos aplacável. Invocam os apóstolos para que perdoem seus pecados e os levem ao reino celestial, usando hinos que atribuem a eles o poder de curar almas e abrir o céu. Assim, as partes principais do culto divino são dadas aos santos.
Canonização dos Santos.
XVIII. Todos esses atos baseiam-se na Canonização. Por decreto do Papa, alguém falecido é inserido no catálogo dos santos e a Igreja é ordenada a adorá-lo, erguer-lhe altares e oferecer missas em sua honra. É um processo longo onde muitos falham por não terem o favor do Papa. Tratam o título de "Beato" como um degrau para a santidade. Nós aprendemos que os pagãos faziam apoteoses, mas não encontramos na Bíblia que qualquer mortal tenha o poder de colocar alguém no céu ou ler o livro da vida. Consideramos isso uma invenção pagã que insulta a Deus. Se os santos na glória vissem o que se passa aqui, rejeitariam esse culto com indignação.
XIX. Esse culto estende-se também aos vivos, pois adoram o Papa como uma divindade. O Papa recém-eleito é colocado sobre o Altar e adorado pelos cardeais. Ele exige beijos nos pés e adoração até de reis e imperadores. Nas procissões, é carregado sobre os ombros como os ídolos dos gentios. Chamam o Papa de "Deus na terra". Na Glosa do Direito Canônico, diz-se que é heresia não acreditar que o Papa tenha tal poder. Em um discurso diante do Papa Júlio II, chamaram-no de "outro Deus na terra". Recentemente, os jesuítas defenderam que o Papa tem a mesma infalibilidade que Cristo, tanto em questões de direito quanto de fato. Ao fazerem do homem um Deus e da palavra do homem a palavra de Deus, cometem idolatria. Pois a idolatria ocorre não apenas quando se usa o nome de Deus, mas quando se atribui as qualidades de Deus a uma criatura.
XX. Assim, provamos que a Igreja Romana é culpada de múltipla idolatria. Sabemos que eles usam distinções sutis para tentar limpar o rosto, negando o crime. Mas nenhum desses argumentos resiste à verdade. I. Eles negam que prestam "adoração" às criaturas, alegando que prestam apenas "veneração" ou "reverência". Dizem que os abusos do povo ignorante não devem ser atribuídos à Igreja. Respondemos: ou eles apenas mudam os nomes para enganar, ou estão fugindo da própria religião. Seus próprios doutores ensinam que se deve adorar a Cruz, as Relíquias e os Santos. O Concílio de Trento e o Catecismo Romano ordenam que os anjos e imagens sejam adorados. O "Index Expurgatorius" mandou apagar passagens dos pais da igreja que diziam que só Deus deve ser adorado. Portanto, a adoração às criaturas é parte oficial do sistema deles.
XXI. II. Objeção: Dizem que existe uma adoração suprema (para Deus) e uma subalterna (para os santos). Respondemos: 1º. Isso é uma petição de princípio; não existem graus no culto religioso. Honra divina não se divide. 2º. Esta era a mesma desculpa dos pagãos, que adoravam divindades menores como mediadoras. 3º. Dizer que se presta culto divino à criatura, mas "não como se fosse a Deus", é uma contradição. É como uma esposa adúltera que diz que se entregou a outro homem "não como marido, mas como amigo do marido". Isso não diminui o crime. O culto religioso pertence exclusivamente a Deus, assim como a fidelidade conjugal pertence apenas ao esposo.
Latria e dulia não diferem.
XXII. III. Objeção: Eles distinguem entre latria (só para Deus) e dulia (para as criaturas). Respondemos que essa distinção é falsa por várias razões: 1. Pela etimologia, pois são palavras sinônimas. Os dicionários gregos explicam uma pela outra. Na verdade, se fôssemos rigorosos, latria significaria um serviço menor (de mercenário) e dulia um serviço maior (de escravo). Se os católicos usam essa distinção, acabam dando o menor culto a Deus.
XXIII. 2. Pelo uso da Escritura, que usa os termos de forma intercambiável. Servir a Deus é chamado de douleuein (1 Tessalonicenses 1:9). Os gentios são condenados por prestar douleia a falsos deuses (Gálatas 4:8). Se a distinção deles fosse válida, Paulo não poderia condenar os gentios por isso. 3. Pela confissão dos adversários. Belarmino admite que essa distinção não está na Bíblia, mas foi criada pela escola teológica. O jesuíta Vasquez confessa que nenhum dos antigos Pais da Igreja aplicou o termo dulia ao culto dos santos.
XXIV. 4. Pela natureza da coisa. Qualquer culto religioso prestado a uma criatura insulta a Deus, pois atribui à criatura perfeições infinitas (como ler corações). Se os arianos conhecessem essa distinção, poderiam ter escapado da acusação de idolatria dizendo que davam a Cristo apenas dulia. O anjo que proibiu João de adorá-lo (Apocalipse 19:10) não aceitou tal desculpa. 5. Pela prática. O povo comum não faz essa distinção sutil. Eles prestam os mesmos sinais de reverência aos santos que dão a Deus. Na prática, a distinção é inexistente.
XXV. Não devem usar a autoridade de Agostinho para isso. Embora ele tenha usado os termos às vezes, ele nunca ensinou que o culto religioso deve ser dividido entre Deus e os santos. Por dulia, Agostinho entendia o culto civil e a honra que damos uns aos outros por amor, não por religião. Ele afirmou explicitamente que não devemos fazer dos mortos nossa religião. Por latria, ele entendia o culto religioso integral, que inclui templos e sacrifícios, e que deve ser dado apenas a Deus. Agostinho distinguia entre o culto a Deus e a honra aos homens; os católicos romanos, porém, tentam criar graus dentro do próprio culto religioso, o que é bem diferente.
XXVI. Sobre os graus de excelência: concordamos que devemos distinguir entre culto religioso e civil. Honramos um Rei de uma forma e um Pai de outra, mas ambos são honra civil. Podemos honrar os santos por sua eminência de glória, mas isso deve ser um amor social, não um culto religioso. O culto religioso a Deus e o culto às criaturas pertencem a categorias totalmente diferentes (primeira e segunda tábua da lei). Como a excelência de Deus é infinita e a da criatura é finita, não pode haver proporção entre os dois cultos.
XXVII. A distinção entre adoração absoluta e relativa também é absurda. Primeiro, toda adoração é relativa ao seu objeto. Segundo, os gentios também diziam que seu culto aos ídolos era relativo. Terceiro, muitos teólogos católicos defendem que o culto deles é, de fato, absoluto.
XXVIII. Também não serve a distinção entre atos elícitos e imperados. Os atos que pertencem à religião (como prece e voto) não podem ser transferidos às criaturas, independentemente de como são classificados.
XXIX. Sobre a Invocação dos Santos, as desculpas são vãs: 1. Dizem que a Igreja apenas recomenda a invocação como "útil", não como "necessária". Respondemos: o Concílio de Trento manda que os bispos instruam os fiéis sobre isso e anatematiza quem nega que os santos devam ser invocados. Se quem nega é amaldiçoado, então a prática é imposta como necessária. O Catecismo Romano e a Profissão de Fé confirmam essa obrigatoriedade.
XXX. 2. Dizem que invocar santos é como pedir a um amigo na terra que ore por nós. Respondemos: pedir ajuda a um irmão vivo é um ato humano e civil ordenado pela Bíblia. Invocar um morto por meio de oração, votos e adoração é um ato religioso sem base bíblica. Se fosse a mesma coisa, poderíamos construir templos e oferecer incenso aos amigos vivos.
XXXI. 3. Dizem que pedem apenas que os santos "orem por eles", não que lhes deem bens diretamente. Respondemos: isso contradiz a prática. Suas orações oficiais pedem que os santos "tenham misericórdia, libertem do mal e apaguem pecados". Se eles são apenas intercessores, por que são tratados como protetores de cidades e curadores de doenças específicas? O povo comum, ao pedir misericórdia a um santo, certamente espera receber isso dele diretamente.
XXXII. 4. Dizem que isso não fere a mediação de Cristo porque tudo vem através dele. Respondemos: o nome de Cristo é usado apenas como fachada. Na prática, as orações romanas confiam nos méritos e virtudes dos santos. Eles associam o nome de Maria ao nome de Deus em juramentos e confissões. Isso rouba de Cristo sua glória exclusiva de Redentor e Intercessor.
XXXIII. Para confirmar isso, basta ler o livro do jesuíta Crasset, onde ele afirma que Deus não concede nenhuma graça ordinária sem a intercessão de Maria. Ele diz que ela tem "toda a autoridade" no céu e na terra e que pode "ordenar a Jesus Cristo como mãe". Diz que o Filho e a Mãe têm a mesma carne e o mesmo poder. Ele pede diretamente que Maria o salve e receba sua alma. Um livro aprovado oficialmente em Paris não pode ser visto apenas como um erro privado; ele representa a doutrina recebida.
XXXIV. Finalmente, a idolatria romana é evidente no Sacrifício da Missa, oferecido em honra aos santos. Como o sacrifício pertence apenas a Deus e o objeto oferecido deve ser inferior àquele a quem se honra, oferecer Cristo (o superior) em honra a um santo (o inferior) é uma inversão blasfema que coloca o santo acima de Cristo.