PREFÁCIO.¶
cacoëthes [vício] de escrever que domina em quase toda parte, estudos crus e indigestos são lançados ao público por vários autores, e proferem-se coisas que ou deveriam ter sido inteiramente suprimidas, ou certamente guardadas até o nono ou décimo ano; quem, cônscio de sua pequenez, não julgaria melhor permanecer oculto e ponderar seriamente o que seus ombros suportam e o que recusam carregar, do que sair temerariamente a público e causar incômodo ao leitor? Eu, certamente, por esta razão principal, confesso de bom grado que até agora estive alheio a tal escrita, como a qualquer outra, o que não ignoram aqueles que me conhecem. Acrescia-se outra razão: que, tendo percebido que tantos homens celebérrimos e teólogos veteranos trataram este argumento tão solidamente que, após a colheita deles, dificilmente restaria lugar para qualquer respiga; não pude ser tão complacente comigo mesmo a ponto de julgar que, desta obra tumultuária e destas escaramuças acadêmicas, que não foram nem exornadas pelo engenho, nem elaboradas pela indústria, pudesse retornar muita utilidade e fruto para a Igreja. Todavia, ao entender que estes nossos esforços não foram totalmente reprovados por vários; e não estando mais sob meu poder o que já havia sido emitido a público; as exortações e desejos dos amigos e daqueles que muito podem sobre mim fizeram com que eu permitisse ao tipógrafo que pedia, embora com relutância, este primeiro fruto do engenho e este trabalho, seja ele qual for.
Não há, ademais, por que perguntares por que este argumento foi selecionado de preferência a qualquer outro; pois, além de não ter sido assumido por minha própria vontade, mas proposto por piedosos estudiosos para συζήτησιν [discussão]; se ponderares a coisa em si, facilmente confessarás comigo que nenhum outro em toda a nossa Teologia é mais momentoso, e cujo conhecimento seja mais necessário aos fiéis; nenhum, decerto, que Satã, aquele inimigo ἄσπονδος [implacável] de nossa salvação, sempre tenha tentado subverter com maior ímpeto: e especialmente nestes tempos novíssimos, através de heréticos pestilentíssimos que, para arruinarem a Religião Cristã, empenharam-se com todo esforço em abalar seus dois fundamentos primordiais: a Divindade de nosso Senhor Jesus Cristo e a sua Satisfação. Seria desejável, por certo, que monstros deste tipo fossem mortos logo no nascimento, e que fetos tão infaustos não encontrassem mãos obstétricas que se lhes estendessem; mas, como já consta suficientemente que este veneno rasteja de forma excessivamente ampla, e que estes escritos letais são hoje manuseados por muitos; foi justo que se preparassem amiúde alexifármacos [antídotos], com os quais os mais jovens fossem prevenidos contra essa peste perniciosa, e os ânimos dos piedosos fossem confirmados cada vez mais na verdade. Com este desígnio, homens doutíssimos, que Deus sucessivamente suscitou para que fossem fortíssimos πρόμαχοι [defensores] da Verdade Ortodoxa na Igreja, empregaram até aqui utilissimamente o seu trabalho; seguindo os vestígios destes, embora não com passos iguais, julgamos que não agiríamos fora de propósito se explicássemos nossa modesta indústria na defesa desta Verdade contra os dardos inflamados de Satã.
Visto que comumente se pode inquirir três coisas sobre a SATISFAÇÃO DE CRISTO: i. Se foi Necessária; ii. Se foi Verdadeira; iii. Se foi Perfeita. Julgamos que deveríamos tratar distintamente destas três questões; nas duas primeiras, tivemos de lutar contra os Socinianos; na última, contra os Pontifícios. Mas versamos nelas de tal modo que concluímos mais brevemente a primeira e a terceira, sobre a Necessidade e a Perfeição; a segunda, porém, sobre a Verdade, que parecia exigir uma explicação mais ampla e que os adversários atacam com maior empenho, perseguimos de forma um pouco mais difusa, e nada omitimos, tanto quanto nos foi possível, do que pudesse contribuir para a confirmação da Verdade e para a confutação do Erro, não apenas resolvendo as objeções contrárias, mas também reivindicando os argumentos ortodoxos das sutilezas e cavilações τῶν ἐξ ἐναντίας [dos opositores], adicionando também várias coisas, enquanto a prensa corria, que pareciam pertencer à ilustração do argumento. Se, ademais, algo foi por nós aqui realizado, o juízo será teu, Cândido Leitor; para nós terá sido suficiente ter-te provado, nesta parte, o nosso zelo em afirmar este gravíssimo mistério de nossa religião. Aceita isto, portanto, de bom grado, e favorece nossos esforços para o futuro. Vale.