TERCEIRA DISPUTAÇÃO. Que é a Primeira SOBRE A VERDADE DA SATISFAÇÃO DE CRISTO.¶
Respondente: MELCHISEDEC PINALDO, Genebrino.
I. Visto que três coisas costumam vir a exame sobre a Satisfação de Cristo: a Necessidade, a Verdade e a Perfeição, e tendo sido por Nós instituída há pouco uma discussão sobre a Necessidade, a Ordem agora exige que disputemos sobre a Verdade: argumento que devemos executar com não menos cuidado e zelo, ou melhor, parece exigir uma ἀκρίβειαν [precisão] um tanto maior: pois nele gira o eixo principal de toda esta controvérsia capital e fundamental: pois debalde se teria afirmado a Necessidade da Satisfação, se a Verdade da mesma pudesse ser negada, ou ao menos posta em dúvida.
II. Aqui, porém, teremos que lidar com aqueles mesmos Adversários com os quais já tivemos que lutar anteriormente. Pois os Socinianos, que impugnam a Necessidade, tentam também por todos os meios abalar a Verdade: aliás, não movem a lide sobre a Necessidade por outro fim senão para poderem mais facilmente destruir a Verdade; Certamente esta peste tetérrima e perniciosa de heréticos, última desonra do nome Cristão, não se contentou em arguir de blasfêmia a suma ὑπεροχὴν [superioridade] da Natureza de nosso Salvador, rejeitando insolentemente sua eterna Divindade, a menos que também negasse impiamente o sacrossanto ofício de Mediador e o sumo Benefício para conosco, a saber, a Satisfação e o mérito; pois, como esses homens facilmente entendiam que a satisfação pelos pecados do mundo é de tal magnitude que ninguém que nada seja senão um ψιλὸς ἄνθρωπος [mero homem] poderia realizá-la, não puderam deixar de, ao eliminar a divindade de Cristo, rejeitar pela mesma razão a sua Satisfação.
III. Seria deveras desejável que este dogma nefasto e verdadeiramente Anticristão (que merece antes detestação do que refutação) ou nunca tivesse sido evocado do Orco, ou tivesse sido imediatamente suprimido entre os Cristãos e condenado ao silêncio eterno, para que este ponto e fundamento inabalável da fé fosse mantido sempre ilibado: mas como tal é a calamidade de nosso século que para ele, como para a sentina de todos os outros, confluíram heresias de todo gênero, e esta natriz pestilencial começou a grassar amplamente e a espalhar ainda hoje seu veneno tetérrimo por várias partes da Europa, o que todos os piedosos lamentam, a ninguém deve ser imputado como vício se, enquanto o Príncipe das trevas e Pai da mentira contende com todo esforço através destas fúrias infernais para opugnar e arrebatar dos fiéis a verdade mais momentosa, existam, por outro lado, aqueles que trabalham virilmente em defesa da verdade para o consolo dos piedosos, e empenham sua pequena operosidade em afastar o mal, do qual nenhum outro saiu do poço do abismo mais inimigo e pernicioso ao rebanho do Senhor.
IV. Para que, porém, a Verdade possa ser mais facilmente confirmada e a mentira convencida, deve-se discernir antes de tudo o que pensam aqui os Adversários e o que pensam os Ortodoxos, para que o estado da Questão possa ser mantido com precisão e o que é controvertido possa ser distinguido do que não é; E para que tudo isso seja claramente percebido, antepomos certas distinções necessárias para a elucidação de toda a Controvérsia.
V. Que Jesus Cristo é o nosso Salvador, como a Escritura prega tão constante e claramente, e o nome que lhe foi imposto pelo Anjo o demonstra, ninguém ousa negar; mas como Ele é Salvador, nem todos explicam da mesma maneira; Com efeito, salvar é empenhar-se para que alguém seja arrancado do perigo que o ameaça, ou da miséria em que jaz, mas isso pode ser feito de dois modos; pois salva aquele que opera de tal modo que por sua virtude salva próxima e imediatamente, quer seja necessário exercer apenas o seu poder, como quando alguém arranca da mão do inimigo um soldado capturado na guerra, ou um piloto conduz a salvo ao porto um navio açoitado aqui e ali pelos ventos e ondas por sua própria indústria; quer seja necessário satisfazer à justiça, como quando alguém liberta um cativo dos grilhões e do fétido cárcere pelo pagamento de um preço justo; mas também se diz às vezes que salva aquele que, embora nada realize pelo qual a salvação seja obtida próxima e imediatamente, mostra todavia a razão e o caminho pelo qual pode ser salvo aquele que se encontra em perigo e miséria, como quando alguém indica a um soldado prestes a cair no poder dos inimigos algum lugar seguro para onde se retirar, ou quando alguém, estando na praia, encoraja com a voz e o gesto os marinheiros agitados e próximos do naufrágio e lhes mostra o porto para o qual devem dirigir-se com velas e remos.
VI. Daí nasceu a distinção de Salvador em Salvador por proclamação, conselho e exemplo e Salvador por mérito, obra e eficácia; pois Deus e os homens são ditos salvar-nos, de onde na Escritura os pregadores da Palavra são ditos salvar aqueles a quem anunciam o Evangelho (Rom. XI. 14. 1. Tim. IV. 16.), mas por uma razão muito diversa: Deus nos salva por obra e eficácia, os homens porém por exemplo e conselho, na medida em que nos exortam a lutar com todas as forças pela salvação (Fil. II. 12, 13.) e com seu exemplo nos iluminam no caminho da salvação, para que os sigamos.
VII. Quando, portanto, se controverte entre nós e os Adversários sobre o modo da salvação alcançada por Cristo; não se pergunta se Cristo pode ser dito e é realmente dito Salvador por alguma razão; pois eles nos concedem voluntariamente que Cristo é proclamado Salvador de quatro modos. 1. Pela Anunciação e Proclamação, porque nos expôs toda a vontade de Deus sobre o modo da salvação e ensinou o que devemos fazer para obter a salvação. 2. Pela Confirmação e exemplo, porque não contente em ter proposto sua doutrina, Ele mesmo primeiro mostrou com seu exemplo o caminho que deveríamos seguir e expressou a forma mais absoluta de justiça em todo o curso de sua vida, aliás, selou o anúncio da salvação não apenas pelo exemplo de vida, mas pelo testemunho de inumeráveis milagres e pelo martírio de uma morte crudelíssima. 3. Pela Iniciação e princípio, porque pela ressurreição aplanou este caminho enquanto mostrou pelo próprio evento que este é o modo certíssimo de obter a salvação, de sorte que todos os que insistirem neste caminho hão de ressurgir sem dúvida para a vida eterna. 4. Pela Comunicação e Complemento, porque Ele mesmo, enfim, conforme o poder que lhe foi concedido pelo Pai, há de conferir a vida eterna a todos os piedosos que tiverem obedecido fielmente aos seus mandamentos, como declara extensamente Socin. lib. 1. de Serva. cap. 4. 5. 6. Mas pergunta-se se Ele foi verdadeira e propriamente Salvador pela satisfação e pelo mérito. Pois, embora não neguemos que por estas causas a designação de Salvador lhe possa ser atribuída de algum modo, embora menos propriamente, visto que por tais meios promoveu não pouco a nossa salvação, julgamos todavia que seu ofício é nefastamente encerrado nestes limites, quando Ele recebeu este nome glorioso primordialmente porque nos salvou pelo mérito de sua obediência absolutíssima, modo pelo qual é proclamado o único verdadeiro Salvador, pois de outro modo, se o primeiro sentido prevalecesse, os Profetas e Apóstolos, e não poucos outros, viriam a participar do mesmo encargo, eles que explicaram fielmente a vontade de Deus, iluminaram os outros pelo exemplo de vida inculpável e selaram a verdade celeste pelo sofrimento da morte e de tormentos acerbíssimos.
VIII. II. Deve-se distinguir a Satisfação verdadeira e própria, que se faz integralmente pela Justiça do Juiz e pelo pagamento da coisa devida, e alcança meritoriamente a libertação e a vida: da Satisfação imprópria e metafórica, que se faz pela aceitação da parte lesada e obtém a libertação e a vida precariamente e pela misericórdia e indulgência do Príncipe; sobre esta última não se move questão, pois os οἱ ἐξ ἐναντίας [os da oposição] a confessam de boa vontade e frequentemente a ostentam para encobrir de algum modo seu dogma pestífero, mas sobre a primeira, que nós afirmamos constantemente a partir da Palavra de Deus e eles, por um invento de seu cérebro, rejeitam pervicazmente.
IX. III. Uma coisa é Cristo ter morrido utilmente por nós, i. e., para nosso bem e proveito, outra coisa, porém, substitutivamente por nós, i. e., em nosso lugar e vez; uma coisa é o mesmo ter sido entregue por causa dos pecados ocasionalmente e para nos afastar deles, outra coisa causalmente e meritoriamente, para que, derivando para si mesmo o reato deles e sofrendo em seu corpo todas as penas a eles devidas, os expiasse; o primeiro é ἀναμφισβήτητον [indiscutível] e posto fora do risco da controvérsia, sobre o posterior apenas, que eles ousam negar impiamente contra a Escritura, se disputa. IV. Uma coisa é falar de uma satisfação qualquer, pela qual Cristo satisfez a todas aquelas coisas que lhe foram impostas pela vontade de Deus para procurar a nossa salvação; Outra sobre a satisfação penal e propriamente dita, pela qual satisfez não apenas à vontade, mas também à justiça divina, assumindo sobre si as nossas penas; a questão não é sobre a primeira, que os Adversários não negam (vide Crelli. cont. Groti. c. 6. Smalci. contra Smiglecium de satisfact. in Resp. ad praefat.), mas apenas sobre a segunda, que rejeitam insolentemente.
X. Assim, o estado da controvérsia reduz-se a estes termos: Se Cristo Θεάνθρωπος [Deus-homem] foi nosso Salvador (não apenas por proclamação e exemplo), mas por satisfação e mérito; Se enfrentou a morte (não apenas para o bem), mas em nosso lugar; Se prestou uma satisfação (não imprópria e metafórica pela qual satisfizesse apenas à vontade divina cumprindo as coisas que lhe foram impostas pelo Pai para a nossa salvação, e que alcançaria o perdão e a salvação gratuita e precariamente, mas verdadeira e propriamente dita pela qual satisfizesse à justiça divina por um suficiente ἀντίλυτρον [resgate substitutivo], e que realmente, meritoriamente e integralmente adquiriu a remissão dos pecados e a vida. Pois isso os heréticos atacam com grande esforço e todo ímpeto (vid. Soci. de serva. passim Crelli. contra Groti. Smalci. contra Smiglecium Volkel. de vera Relig. li. v. c. 22.). Nós, porém, com toda a Igreja Ortodoxa, cremos santamente e constantemente professamos e defendemos a partir da Escritura.
XI. A Escritura e a reta razão fornecem-nos não poucos argumentos para estabilizar a Verdade: Nós aqui provaremos os principais e mais potentes e os vindicaremos das argúcias dos Adversários. O primeiro é tomado do Ofício Mediador de Cristo; Por isso mesmo que se afirma ter sido Ele Mediador entre Deus e Nós, que compôs e dirimiu o dissídio e a guerra originada do pecado, e conciliou entre si as partes dissidentes, a verdade da Satisfação já se confirma lucidamente: Pois a Escritura não nos propõe um Mediador que tenha sido apenas Intérprete e Mensageiro da vontade Divina, qual se diz ter sido Moisés entre Deus e o povo (Deut. v. 5. Eu estava naquele tempo entre o Senhor e vós para vos anunciar a palavra do Senhor: pois disseram a Moisés por medo: fala tu conosco e ouviremos, mas não fale Deus conosco para que não morramos Exod. xx. 19.), ou que conserve as partes já unidas em união e amizade, sentido no qual alguns sustentam que Cristo pode ser dito Mediador da confirmação e conservação dos Anjos, para que, constituídos fora do perigo de queda, adiram plenamente a Deus por sua graça; mas um que seja verdadeiramente εἰρηνοποιὸς [pacificador] e fiador, que conciliou a paz eterna entre Deus e os homens, removidas de ambos os lados as causas de ódio e de guerra pelo próprio sangue; pois assim aprouve ao Pai que nele habitasse toda a plenitude, e que, feita a paz pelo sangue de sua cruz, reconciliasse consigo todas as coisas Col. I. 20. nem poderia entrar no Santuário senão pelo próprio sangue para nos abrir o caminho ao trono da graça, ou alcançar a eterna Redenção, que é o fim primário da Mediação (Heb. ix. 12.). Certamente, visto que, por um lado, nossos pecados nos tornavam inimigos de Deus não apenas ativamente, mas também passivamente, e por outro lado, a santíssima e inviolável Justiça, que não pode nem ver o pecado nem deixá-lo impune, incitava contra nós sua ira e indignação por causa dos mesmos (Is. LIX. 2.), devia nosso Mediador pagar algum ἀντίλυτρον [resgate] pelo qual tanto a Ira de Deus fosse aplacada quanto nossos pecados fossem expiados, para que nada mais obstasse, quer da parte dos homens ofensores, quer de Deus ofendido, para a execução da obra de perfeita reconciliação que Ele empreendia.
XII. E isto é o que quer a Escritura, que coloca o ato primário e potíssimo desse μεσιτεύοντος [mediador] na morte e na efusão do sangue (Heb. ix. 15.). Por isso, a saber, Cristo é chamado Mediador da nova Aliança, para que, intervindo a morte para a redenção das transgressões precedentes, os chamados recebessem a vida eterna. Assim (Heb. xii. 24.), ao título de Mediador acrescenta-se continuamente o sangue da aspersão [ῥαντισμοῦ] feita alusão ao sangue das vítimas com que foi aspergido o povo (Exod. xxiv. 8.) para a purificação legal e típica, para que se insinue que as consciências devem ser igualmente aspergidas pelo sangue de Cristo pela verdadeira fé para a purificação espiritual e mística (1. Joa. I. 7.). Mas o Apóstolo o diz clarissimamente de todos (1. Tim. II. 5, 6.), onde depois de dizer que há um só Mediador entre Deus e os homens, acrescenta imediatamente para explicar a natureza e as partes principais desse ofício: O qual se deu a si mesmo em resgate [pretium Redemptionis] por todos. Mas certamente, tendo o clementíssimo Pai nos exibido um tríplice remédio neste ofício de Cristo para o nosso tríplice mal, para que a luz do Profeta afugentasse as trevas da mente, a virtude e o poder do Rei destruísse e domasse a mancha e o domínio do pecado, assim a Justiça do Sacerdote devia tirar o reato e a maldição do mesmo por uma satisfação pleníssima. De novo, tendo o Mediador que agir de ambos os lados para conciliar as partes; como perante nós devia agir por Deus ensinando e persuadindo as condições da aliança como Profeta, e como Rei regendo, protegendo e libertando a nós recebidos na fé; assim perante Deus lhe coube agir pelos homens como Sacerdote aplacando a ira, conciliando a graça e impetrando dele dons. Pois o que o herético argumenta aqui, que a função sacerdotal consistiu apenas em que Cristo intercedesse por nós nos céus, é facilmente refutado; pois, embora não neguemos que esta seja uma parte do múnus sacerdotal, negamos porém que tenha sido a única ou a principal, visto que a intercessão a ser realizada nos céus pressupõe necessariamente a satisfação feita na terra, como sob o V. T. o sumo Sacerdote não entrava no Santuário para rogar pelo povo antes de ter oferecido a vítima no Altar das propiciações, cujo sangue devia levar consigo, como extensamente ensina o Apóstolo aos Heb. cap. ix. e nós provaremos no que segue. De onde surge agora um argumento firme e sólido para a Verdade da Satisfação de Cristo: Pois aquele que foi constituído Mediador para fazer a paz pelo sangue, para dar-se a si mesmo em preço de redenção, e até para sofrer a morte para a redenção das transgressões, não pode deixar de ter satisfeito verdadeiramente quando cumpriu estas partes; Ora, Cristo nos é descrito como tal Mediador.
XIII. O argumento, porém, apertará ainda mais forte se acrescentarmos que Ele não é chamado apenas Mediador, mas também ἔγγυον [fiador], caução e Fiador (Heb. vii. 22.). Pois o Mediador certamente se coloca no meio entre as partes dissidentes para as reconciliar de qualquer modo que seja, mas o Fiador presta algo mais: ele responde de ambos os lados pela observação dos pactos e da aliança e afiança pela outra parte e satisfaz realmente se ela não for solvente, substituindo-se no lugar do Réu ou devedor, seja para pagar a dívida (Provérbios xxii. 26. 27.) seja para sofrer a pena, à qual se obrigou voluntariamente (Gên. xliv. 32. 33.); daí o ditado de Tales ἐγγύα πάρεσι ἄτη [afiança e o prejuízo está próximo]. Como, portanto, Cristo foi constituído Fiador da nova aliança, devia confirmar este pacto de ambos os lados: e enquanto por Deus nos afiança a graça e a benevolência constante e imutável do Pai, assim por nós, por sua vez, afiança a Deus a satisfação devida pelos pecados passados e a fé e obediência perpétua para o futuro. E este vocábulo é usado pelo Espírito Santo tanto mais convenientemente quanto nossos pecados são comumente chamados dívidas na Escritura, pelas quais, a saber, somos devedores da pena perante a Justiça de Deus. Portanto, como ninguém é dito fiador do devedor senão aquele que afiança por ele e realmente satisfaz se necessário, assim nem Cristo seria chamado fiador com direito, senão porque se obrigou por sua própria vontade a prestar a satisfação por nós, e realmente a exibiu a Deus.
XIV. Para desviar este dardo, os Adversários excetuam várias coisas. 1. Que a voz de Mediador não infere precisamente a satisfação, porque também Moisés é dito Mediador (Gál. III. 19.), onde a Lei é dita dada ἐν χειρὶ μεσίτου i. e. pela obra e ministério de um Mediador que não pode ser outro senão Moisés a partir de Levit. xxvi. 46. e Atos vii. 38., o qual todavia não se lê ter prestado nada disso. 2. Que Mediador na Escritura não significa outra coisa senão o intérprete de Deus de quem Deus se utiliza para estabelecer alianças com os homens, e por quem o povo, instruído no conhecimento da vontade divina, se aproxima de Deus, e que por estas duas causas Cristo é dito Mediador, porque sancionou a nova e eterna aliança em nome de Deus com os homens, e expôs toda a vontade de Deus pela qual nos foi aberto o acesso a Deus. 3. Que por isso mesmo que é dito Mediador da nova aliança porque a pactuou conosco em nome de Deus, consta suficientemente que nenhuma satisfação foi empregada e que Deus, antes de Ele exercer o ofício de Mediador por seu mando, já estava muitíssimo aplacado, pois os Príncipes não enviam seus mensageiros para pactuar alianças com rebeldes a menos que primeiro lhes tenham perdoado de coração a rebelião e já estejam verdadeiramente aplacados com eles, nem se requeira além disso nada para estabilizar a paz senão que eles queiram aceitar as condições da aliança, o que nesta aliança deve obter tanto mais quanto ali Deus prega sua clemência e misericórdia ao conceder a remissão dos pecados, mas não faz menção de nenhuma satisfação devida ou exigida (Jer. xxxi. 34.). 4. Que o lugar de Paulo (1. Tim. II. 6.) não conclui, porque depois de dizer que Cristo foi dado como ἀντίλυτρον ὑπὲρ πάντων [resgate por todos], acrescenta imediatamente τὸ μαρτύριον καιροῖς ἰδίοις testemunho a seu tempo; e assim quis insinuar que aquela Mediação consistiu apenas em que Ele deu o decreto de Deus sobre o salvar-nos como testemunhado cumuladissimamente por sua morte. Assim o Catec. Racovi. c. 8. q. 29. 30. Socin. de Servat. l. 1. c. 7.
XV. Mas debalde tergiversam aqui: Pois para o primeiro a resposta é fácil: 1. Nós não tomamos o argumento tanto da própria palavra (que todavia deve ter aqui também seu peso, visto que entre os eruditos é frequentemente usada para aquele que aplaca alguém, de onde Suidas interpreta μεσίτην por εἰρηνοποιὸν [pacificador]), quanto da natureza do ofício, da condição das partes dissidentes e da descrição da Mediação confiada a Cristo. Visto que Ele veio para compor tal dissídio no qual experimentávamos Deus irado por causa do pecado, não podia desempenhar o múnus de Mediador com sucesso senão aplacando a ira da divindade pela satisfação por nós: De onde nos é proposto tal Mediador que não apenas exerce o lugar de Deus perante os homens, mas o lugar dos homens perante Deus (Heb. v. 1.), que fez a paz pelo sangue, que se deu a si mesmo como ἀντίλυτρον por muitos, etc., todas as quais coisas importam uma mediação não apenas interpretativa, se assim se pode dizer, mas também redentora e reconciliadora.
XVI. 2. O lugar de Gál. III. 19. não favorece o Adversário, quer o entendamos de Cristo, quer de Moisés; Pois se o referimos a Cristo, como fez nosso Calvino seguindo muitos dos Antigos, cai por terra totalmente a sua ἔνστασις [objeção]; se porém o interpretamos de Moisés, o que Beza prefere seguindo Epifânio contra Manich., Genádio e Teodoreto, nem assim se acrescenta nada à sua sentença nem se retira nada da nossa, visto que consta que este título é atribuído a Moisés apenas tipicamente e simbolicamente, porque nesta função ele portou a figura de Cristo, o Anjo da aliança, por quem o Pai sempre falou como por sua Palavra; Portanto, embora Moisés não se leia ter satisfeito neste ofício de mensageiro, mal porém daí colherás que nem Cristo também satisfez, pois é sabido que do Tipo para o Antítipo não vale o argumento negativamente, porque muitas vezes há mais no Antítipo do que no Tipo, máxime quando o tipo é parcial e inadequado, o qual esboça alguma σχέσιν [relação] e qualidade de seu antítipo de tal modo que todavia não negue ou exclua outras coisas que possam estar nele. Certamente porque este mistério divino, como muitos outros, não pôde ser perfeitamente devolvido e expresso por um único simulacro tomado das coisas terrenas, o Espírito Santo empregou vários tipos para descrever este único, para que o que parecia faltar em um, o outro suprisse e completasse, imitando o pintor que o que não pode em uma só tela, devolve em várias, para representar seu arquétipo com a maior precisão possível sob aqueles vários aspectos. Como, portanto, não ocorria nenhum sob o V. T. que sustentasse ao mesmo tempo o tríplice múnus de Cristo, Real, Profético e Sacerdotal, foi necessário repartir aquilo mesmo que foi conjunto no antítipo em vários tipos, e por isso alguns exibiram o Profético como Moisés e os Profetas, outros o Sacerdotal como Arão e os que dele descenderam, outros enfim o Real como Davi e Salomão; Mas assim cada um contribuiu com o que era seu para exprimir a verdade, de modo que todavia nunca se deva julgar sobre o Antítipo a partir de um separadamente, mas de todos ἀθρόως [em conjunto] e tomados simultaneamente; De onde, visto que Moisés foi tipo da Mediação de Cristo apenas quanto à Profecia ou mesmo quanto ao Reino, ao menos em certa medida no governo do povo, não se pode daí tirar um argumento para a negação da Satisfação no Antítipo, que estava incluída em outro tipo do múnus Sacerdotal, a saber, Arão e os sacrifícios legais.
XVII. Para o 2º Resp.: supõe-se erradamente o que está em questão, a saber, que Mediador significa apenas Intérprete e Mensageiro, o que já refutamos: De onde também se resolve o que se acrescenta sobre as duas razões pelas quais Cristo é dito Mediador, tanto porque sancionou a nova aliança quanto porque nos expôs a vontade de Deus; Pois como aquela aliança não pôde ser sancionada a menos que fosse removida de ambos os lados a causa do ódio, requeria necessariamente uma satisfação prévia que executasse isso, de onde se diz sancionada no sangue do Mediador (Heb. ix. 15. e Luc. xxii. 20.). Como, porém, a proclamação da vontade divina preencha apenas uma parte do ofício mediador, não pôde ser dito Mediador apenas por este respeito, mas potissimamente por aquilo que devia agir pelos homens perante Deus, de outro modo Paulo mal chamaria Cristo de ἕνα μεσίτην único Mediador, visto que os Profetas e Apóstolos também nos expuseram todo o conselho de Deus (Atos xx. 27. e xxvi. 22.). Aliás, até os próprios Pastores poderiam ser assinalados com este elogio não sem mérito, o que todavia a Escritura lhes nega constantemente, nem lhes pode ser atribuído não só sem abuso, mas também sem perigo: somente Cristo, que quanto à pessoa como Θεάνθρωπος [Deus-homem] foi verdadeiramente μέσος [meio], aderindo a ambos os extremos, ao Pai pela Divindade, a nós porém pela humanidade ὁμοουσίως [consubstancialmente], pôde quanto ao ofício consociar ambos os extremos entre si por um nexo indissolúvel, feita a paz pelo sangue.
XVIII. Nem é de qualquer peso a razão que se apresenta em terceiro lugar, a saber, que Deus, por isso mesmo que constituiu Cristo Mediador para sancionar conosco a aliança, já estava muitíssimo aplacado, e por isso não teve necessidade de nenhuma satisfação, assim como os Príncipes não enviam seus mensageiros aos rebeldes a menos que primeiro lhes tenham perdoado toda a rebelião: Pois uma coisa é Deus ser misericordioso e placável, outra coisa porém já propício e realmente aplacado; Deus pôde, de fato, ao ordenar o Mediador para sancionar a aliança, assumir a primeira σχέσιν [relação], porque esta própria missão do Mediador foi efeito de um ânimo benevolente e prono à misericórdia, mas aplacado não pode ser dito senão pela própria satisfação quando por este mesmo motivo quis que o Mediador intercedesse para que, removido o óbice da Justiça, abrisse caminho ao exercício da Misericórdia; Nem o exemplo dos Príncipes prova o contrário, pois nada obsta que os mesmos, não estando de fato aplacados, mas desejando todavia ser aplacados, enviem Legados que pactuem sobre as condições da paz, e se assim lhes apraz, satisfaçam pelos próprios rebeldes para que a autoridade das leis permaneça ilibada, aliás, ao prescreverem-lhes as condições da aliança, por isso mesmo mostram que ainda não estão suficientemente aplacados. Além disso, o herético não tem aqui nenhum auxílio da descrição da N. aliança feita por Jeremias, pois embora se faça menção da misericórdia e clemência suma na remissão dos pecados, já provamos anteriormente que ela não exclui, mas inclui necessariamente a satisfação do próprio Mediador, e isso é suficientemente evidente pelo fato de que em Jesus Cristo todas as promessas são Sim e Amém (2. Cor. I. 20.) e esta aliança não pôde ser sancionada senão pela morte do Mediador (Heb. ix. 15, 16. etc.).
XIX. No IV. não há mais força: Pois para não dizermos aqui o que todavia Beza observa ter descoberto escrito em um antigo códice, não μαρτύριον [testemunho] mas μυστήριον [mistério]; da lição recebida nada se poderá extrair que ajude a heresia; Pois nem a morte de Cristo é chamada μαρτύριον como se a tivesse enfrentado apenas para a confirmação da doutrina, mas tanto porque produz em nós uma plena fé da benevolência divina, pois quem não poupou o próprio filho, o que não nos daria com ele? quanto porque é aquilo mesmo de que dão testemunho todos os Profetas e Apóstolos, pois ambos falaram das paixões e da glória que se seguiria. Assim, a morte de Cristo será dita Testemunho não ativamente simples, como se tivesse servido apenas para testemunhar e confirmar sua doutrina, mas principalmente passivamente porque sobre ela todos os homens de Deus na Escritura testemunham. 2. Aquele testemunho não deve ser referido precisamente à morte, mas ao próprio μυστήριον [mistério] do Evangelho em geral de que falara no vers. preced., para significar que Deus sapientissimamente dispôs todas estas coisas assim segundo o Testemunho reservado a seus tempos próprios, a saber, a doutrina do Evangelho que muitíssimas vezes é dita μαρτύριον (1. Cor. I. 6. e 1. Cor. XI. 1.) porque ali Deus testemunha de sua benevolência e do mérito de Cristo; pois estas coisas, escondidas de outros séculos passados, deviam ser reveladas nos últimos tempos (Rom. xvi. 25. Ef. III. 5.). E o sentido aqui é plano, a partir do escopo do Apóstolo, pois dissera no vers. 4: Deus quer que todos os homens sejam salvos e venham ao conhecimento da verdade, dos quais o primeiro respeita ao fim, o posterior ao meio necessário para alcançar o fim; Mas confirma ambos e o primeiro certamente a partir do fato de que Deus é um só, e um só o Mediador de Deus e dos homens que se deu como ἀντίλυτρον por todos, não por todos e cada um universalmente, o que repugna ao conselho de Deus segundo o qual Cristo veio apenas para salvar o seu povo (Mat. I. 21.) e à intenção de Cristo que se deu por sua Igreja e pelos que lhe foram dados pelo Pai (Jo. xvii. 6, 9. Ef. v. 25.), mas por todos indistintamente de qualquer gênero, condição e sexo que sejam. O outro porém quando acrescenta que isto é segundo o Testemunho reservado a seus tempos próprios do qual ele mesmo foi constituído arauto, para insinuar decerto que Deus, que quer a salvação de todos e que por isso quis que Cristo fosse entregue por todos, quer também que pela proclamação do Evangelho aquele mistério se torne testemunhado a todos os homens promiscuamente, tempo esse prefixado pela providência divina no qual, para a verdade e pela verdade, todos e cada um dos eleitos sejam conduzidos à salvação.
XX. E assim está vindicado e afirmado nosso I. argumento. II. é tomado do fim primário e efeito da Mediação de Cristo, a saber, a Redenção que ele obteve. Pois se Cristo, para nos libertar da Ira de Deus, do Poder do Diabo, da Servidão do Mundo, do laço dos pecados e da caligem das trevas e da morte, ofereceu a Deus Pai um preço muito superior ao ouro e à prata, a saber, sua própria alma e sangue, certamente deve ser dito Salvador não apenas pelo exemplo mas pelo mérito, e não impropriamente e metaforicamente, mas verdadeira e plenamente satisfez por nós; Ora, inumeráveis lugares da Escritura ensinam que Cristo prestou isso mesmo, e estes em particular o provam manifestissimamente: Mat. xx. 28. O Filho do homem veio para dar a sua alma em resgate [λύτρον] por muitos. 1. Cor. vi. 20. Por preço fostes comprados. 1. Tim. II. 6. deu-se a si mesmo em resgate [ἀντίλυτρον] por todos. 1. Ped. I. 18. Fostes resgatados pelo precioso sangue de Cristo como de um Cordeiro imaculado &c. Tito II. 14. Cristo deu-se a si mesmo por nós para nos resgatar de toda a iniquidade &c. Ef. I. 7. No qual temos a redenção no seu sangue. A isto pertencem também muitos outros (Rom. III. 24. Gál. III. 13. Apoc. v. 9. &c.) que falam da Redenção feita pelo sangue e pela morte.
XXI. Para que porém este Argumento seja colocado em luz clara, deve-se observar que o vocábulo de Resgatar não é usado em um só sentido na Escritura; Algumas vezes denota o uso oportuno e cômodo de alguma coisa, como quando o Apóstolo (Ef. v. 16. e Col. iv. 14.) nos exorta a remir o tempo, significa a saber, tanto que se deve captar solicitamente a ocasião de fazer o bem, quanto que se deve compensar o tempo que nos passou ou sem nada fazer, ou fazendo outra coisa, ou fazendo o mal, para que nos apliquemos tanto mais fervorosamente às boas obras quanto mais frequentemente antes nos dedicamos às más, e não omitamos nenhumas ocasiões pelas quais possamos, mesmo com a perda de nossos prazeres, promover a glória de Deus e a nossa salvação e a do próximo. 2. Algumas vezes, em um significado mais frouxo e metafórico, designa qualquer libertação feita mesmo sem a intervenção de um preço, sentido no qual a Escritura mui frequentemente comemora a Redenção Israelita da servidão Egípcia e não hesita em chamar Moisés, de cuja obra Deus se usou para esse fim, de λυτρωτὴν ou Redentor (Atos vii. 35.); assim passim nos Salmos diz-se que Deus redime a alma daqueles que liberta de algum mal e perigo, de alguma aflição e angústia; mas 3. mui propriamente é tomado por aquela libertação pela qual alguém é libertado de algum incômodo ou coisa nociva mediante um preço [pretio], e chamo de preço aquilo pelo qual algo é compensado, ou por cujo gasto se adquire uma coisa ou algum direito, e cuja natureza e propriedade é tal que por seu valor e estimação mova o outro a prestar a libertação ou a conceder o direito, assim em Terêncio no Eunuco: quid agas? nisi ut redimas te captum quàm queas minimo, si nequeas paululo at quanti queas [o que farias? senão que te resgatasses da captura pelo mínimo que pudesses, se não pudesses por pouco, ao menos por quanto pudesses] e em Virgílio:
fratrem Pollux alterna morte redemit. [Pólux resgatou o irmão por uma morte alternada.] Neste sentido, alguns dos primogênitos foram resgatados pelo pagamento de certo preço (Num. III. 46, 47.) e o direito de redenção dos bens entre os parentes vigorava, sobre o qual em Levit. xxv.
XXII. Quando, portanto, a Escritura atribui a nossa Redenção a Cristo, sustentamos que esta voz deve ser tomada não no 1º ou 2º significado, mas enfim no 3º e mui próprio: As razões porém que nos movem a crer assim são muitas e gravíssimas: 1. a misérrima condição do homem a ser resgatado, pois éramos oprimidos por uma quádrupla servidão: do Pecado, da Lei, da Morte, do Diabo; o pecado nos enviou sob o seu jugo (ᾧ τις ἥττηται τούτῳ καὶ δεδούλωται 2. Ped. II. 19. e Jo. VIII. 34. quem comete pecado é servo do pecado;); pelo pecado fomos feitos sujeitos à maldição da Lei e à Ira divina, pois por natureza somos filhos da ira Ef. II. 3. e todos os que são das obras da Lei estão sob maldição Gál. III. 10. A Lei, por causa do pecado, nos escraviza à morte (Rom. IV. 15.); o Diabo, pelo pecado e pela morte, exerce sua tirania sobre nós (1. Jo. III. 8. e Hebr. II. 14, 15.). Daqui somos ditos cativos (Isa. LXI. 1.) que experimentamos toda sorte de misérias do cativeiro; o Cárcere em que somos detidos ou é este corpo corruptível que agrava a alma, do qual por isso o Apóstolo pede para ser libertado (Rom. VII. 24.), ou antes este mundo cheio de misérias e verdadeiro vale de lágrimas que é como que a parte superior do cárcere para onde são condenados os pecadores, de onde, a menos que a libertação venha divinamente, são enfim lançados na inferior de fogo e enxofre; o Lictor e Carcereiro é o Diabo, príncipe das trevas e Deus deste século; as sordidezas e trevas em que jazemos são os pecados e iniquidades que são chamados μιάσματα [miasmis] e μολυσμοὶ [contaminações] (2. Cor. II. VII. 1.) e obras das trevas (Rom. XIII. 12.); os vínculos e laços são tanto o domínio do pecado e as concupiscências da Carne com que somos constrangidos como por laços do diabo (2. Tim. II. 26.), quanto o reato da morte e da condenação consequente do pecado, pelo qual somos mantidos atados como por um grilhão apertadíssimo, e restritos pelo juízo divino; Mas, para aqueles a quem o reino do Pecado, o temor da Morte, a Tirania de Satanás e o jugo ἀβάστακτον [insuportável] da Lei e da Justiça divina ocupam por todos os lados, como é possível que escapem, a menos que o Redentor empregue tanto a suma potência para debelar o Diabo e o pecado, quanto a justiça absolutíssima para aplacar a majestade divina?
XXIII. 2. Isso mesmo persuade a própria nomenclatura da Redenção; pois é certo que λυτροῦν e ἀπολυτροῦν entre os Gregos, e Redimere [resgatar] o que a eles corresponde entre os Latinos, na significação primária e mui própria insinuam a Redenção propriamente dita, a saber, a que se faz mediante algum preço, e aqui temos o réu que confessa, pois o herético no lib. II. de Serv. c. 1. ensina isto expressamente: Resgatar alguém não significa propriamente outra coisa senão libertar o cativo das mãos daquele que o detém pelo preço dado a ele. Ora, como é de confissão entre todos, nunca se deve recuar da significação própria e nativa das palavras a menos que causas gravíssimas instem, como quando o sentido próprio incorre aberta e verdadeiramente em algum artigo da fé ou preceito da caridade, ou o discurso figurado se detecta e prova evidentemente a partir do mesmo ou de outros lugares: Agostinho lib. 3. de doctr. Christi c. 10. & 15. dá este indício de interpretação figurada: se o dito aceito propriamente não puder ser acomodado nem à fé, nem à dileção ou a qualquer edificação omnímoda. Se porém contribuir para ambas o máximo possível e puder ser comprovado evidentemente tanto pelas circunstâncias do próprio lugar quanto por outros paralelos, quem senão injurioso ao próprio Espírito Santo que quis nos transmitir isto, poderia rejeitá-lo?
XXIV. Que a coisa se passa assim neste argumento não é difícil mostrar, pois quanto aos lugares paralelos ensinaremos no que segue que não apenas não conotam a redenção metafórica, mas inferem necessariamente a propriamente dita; agora porém damos isso demonstrado a partir das próprias circunstâncias do lugar, que a saber descrevem o modo e a natureza de nossa Redenção, que será para nós a terceira razão da asserção superior. Pois nem a Escritura apenas menciona a Redenção, mas nomeia abertamente o próprio preço e o λύτρον [resgate] pelo qual foi feita: Mat. xx. 28. O Filho do homem veio para dar a sua alma em resgate [λύτρον] por muitos. Assim 1. Cor. VI. 20. por preço fostes comprados e em 1. Ped. I. 18. aquele preço é posto no sangue do Cordeiro: ora, assim como λύεσθαι é Resgatar, assim λύτρον é aquilo que se despende para impetrar aquela redenção, como quem diz o preço da Redenção, como διδαίκτρον o que se paga pelo ensino; Gloss. λύτρα redimias [resgates], que Homero chama de ἄποινα [compensações], Hesych. λύτρα καθάρματα λυτήρια & πάντα τὰ διδόμεna εἰς ἀνάκλησιν ἀνθρώπων [resgates, purificações, meios de soltura e tudo o que é dado para a recuperação dos homens]; repõe ἀνάκτισιν [reintegração]. Daqui os Latinos Antigos, de quem muitas vozes foram transumptas dos Gregos, chamaram o λύτρον, com uma letra interposta, de Lustrum [lustro], e disseram λυτροῦν como lustrare [lustrar]; de onde em Lívio lib. 2.: Todas as Centúrias e Cavaleiros convocados ao campo de Marte, imolaram porcos, ovelhas e touros abatidos, o que foi chamado lustrum, e lustrare a cidade é libertá-la da pena por um lustro, isto é, uma pena sucedânea, que também se chama piaculum [expiação]; assim os Décios são ditos ter lustrado o exército Romano devotando-se a si mesmos, isto é, por sua pena e morte ter desviado dele toda a pena, e Tebas por Meneceu, de quem a Mãe em Papírio diz:
Luſtralemne feris ego te puer inclyte Thebis Devotumque caput vilis ceu Mater alebam ? [Acaso eu te alimentava, ó menino ilustre, como cabeça devotada e lustral para a Tebas feroz, como uma mãe vil?] Sobre cujo lugar o antigo Escoliaste diz: Lustrar a cidade com hóstia humana é costume Gálico. De onde se colhe que a Redenção, máxime aquela que se faz pelo λύτρον, não pôde ser procurada senão por uma verdadeira satisfação.
XXV. Por que razão a Escritura teria mencionado os λύτρα [resgates] tantas vezes se não subjazesse um preço verdadeira e propriamente dito? Pois o que o Adversário subitamente replica, que isto é dito impropriamente porque somos libertados à sua presença embora não por sua eficiência; nada mais é do que uma absurda petição de princípio, que deveria ser provada e não estabelecida tão confidentemente, pois além das coisas que já foram ditas do contrário e ainda serão ditas no que segue, isso também se refuta suficientemente pelo fato de que não apenas mencionou aquele preço, mas instituiu a comparação dele com as coisas mais caras que costumam ser despendidas pelos homens, quer para a redenção de cativos, quer para a compra de qualquer coisa, a saber, ouro, prata, etc. 1. Ped. I. 18. Sabendo que não por ouro e prata ou coisas corruptíveis fostes resgatados de vossa vã conversação, mas pelo precioso sangue de Cristo &c. compara, portanto, ou melhor, prefere o sangue de Cristo ao ouro e à prata como algo maior e mais excelente no gênero de preço. Portanto, assim como o ouro e a prata são preço verdadeiramente e não figuradamente, assim igualmente devemos filosofar sobre o sangue de Cristo, a menos que queiramos que o Apóstolo tenha instituído esta comparação de modo pouco apropriado, o que seria ímpio até de pensar; Confesso que tais comparações nem sempre devem ser cortadas ao vivo, mas deve-se todavia observar o escopo do Espírito Santo e atender à formalidade da semelhança na qual ambas as partes devem convir ao menos em seu gênero; Portanto, aqui, visto que o ouro e a prata são comparados sob esta formalidade de preço com o sangue de Cristo, omnimodamente alguma Verdade de preço deve competir também ao sangue de Cristo, não decerto no gênero Físico, mas místico e moral, de tal modo que a Redenção não seja apenas consequente ao λύτρον, mas seu efeito próprio e real.
XXVI. Mas se não parecesse prova suficientemente eficaz a partir disso, embora já seja fortíssima, torna-se decerto invicta se acrescentarmos o peso da voz ἀντίλυτρον [resgate substitutivo] de que o Espírito Santo usou neste argumento; pois não diz apenas que Cristo nos resgatou, o que já suficientemente pela propriedade da voz conota a satisfação, não acrescenta enfim que aquela redenção foi feita por um preço, o que a prova ainda mais fortemente, mas para que não reste lugar algum para dúvida, testemunha que interveio um ἀντίλυτρον, a saber, que Cristo se deu por todos como ἀντίλυτρον (1. Tim. II. 6.) e o que dá no mesmo, pôs sua alma como λύτρον em lugar de muitos (ἀντὶ πολλῶν, Mat. xx. 28.), o que a V. V. [Vulgata] erradamente traduz por redemptionem [redenção], visto que se nota não a Redenção em si, mas o preço da redenção e decerto tal preço que denote a troca do devedor e a compensação da dívida: pois também a preposição ἀντὶ [em lugar de] significa mui propriamente a substituição e a vez: Mat. v. 38. olho por [ἀντὶ] olho, dente por [ἀντὶ] dente. 1. Ped. III. 9. Mat. II. 22. Arquelau é dito reinar em lugar de [ἀντὶ] Herodes seu pai, isto é, no lugar e vez, assim Luc. ix. 11. 1. Cor. xi. 15. 1. Tes. II. 15. e frequentemente alhures; na composição, porém, costuma significar três coisas, como observam os Gramáticos: igualdade e paridade como ἀντίθετος Hesy. ἰσόθεος ἀντιάνειρα Aristarcho ἰσάνδρα, virago, ou contrariedade e oposição como ἀντίδικος [adversário], ἀντίπαλος [rival], ἀντίγραφος [cópia oposta] &c. ou compensação e troca como ἀντίψυχοι aqueles que se devotavam à morte por outros para os libertar, como se narra de Dámon e Pítias: aqui, porém, nem a igualdade nem a contrariedade podem ter lugar. Logo, resta que apenas a compensação e a troca sejam conotadas; Assim, o ἀντίλυτρον será tal λύτρον no qual o libertador, sustentando a vez do réu e do cativo, sofre um mal semelhante àquele que ameaçava o que é libertado, quando a cabeça é resgatada pela cabeça, o que o Apóstolo explica elegantemente em Gál. III. 13. quando diz que Cristo nos resgatou da maldição da Lei, fazendo-se maldição por nós.
XXVII. E isso mesmo os Adversários foram forçados a confessar de algum modo, enquanto reconhecem que a partícula ἀντὶ infere alguma troca, embora depois tentem tirar com uma mão o que pareceram dar com a outra, acrescentando que tal é a troca que não argui nenhuma compensação ou satisfação: Mas quão torpemente aqui se degolam com sua própria espada é fácil de reconhecer; Pois por que Cristo teria sido sub-rogado em nosso lugar por troca, senão para que, sofrendo Ele mesmo as penas que tínhamos merecido, nos libertasse das mesmas? o que o Ap. aos Gálatas já insinuava. Nem seu vaníssimo comentário pode ser sustentado por Crelli. contra Groti. em dois lugares Prov. xxi. 18. & Is. XLIII. 3. onde parece que a troca é posta sem compensação; Pois além de que em nenhum deles se encontra a voz ἀντίλυτρον sobre cuja força inquirimos, acrescenta-se também que isso não foi cumprido sem alguma compensação, visto que Deus derivava para os Egípcios e outros povos as penas que justamente poderia exigir de seu povo, mas que misericordiosamente decretou transferir para outros para poupar a este. Assim, decerto, sofreram a vez deles de modo que, feita como que uma permutação, foram forçados a sustentar a calamidade que ameaçava a estes, pois para salvar a este, destruiu aqueles evocando para outro lado os inimigos que ruíam com todo ímpeto para a perdição deste.
XXVIII. Pelas quais coisas julgamos agora constar suficientemente que a Redenção propriamente dita e não apenas metafórica deve ter lugar aqui: Para que isso se torne mais límpido, deve-se observar que a Redenção ou libertação de cativos se faz de muitos modos entre os homens, ou por manumissão gratuita, como quando o Senhor solta espontaneamente e manda embora livre o seu servo, ou por permutação, como costuma ser feito frequentemente nas guerras, ou por ablação violenta, como quando Davi liberta e recupera os seus pelas armas das mãos dos Amalequitas (1. Sam. xxx.) e Abraão arranca Ló seu sobrinho dos Reis Cananeus (Gên. xiv.), ou por justa satisfação, como o fiador que paga pelo devedor; Neste negócio, porém, nem a manumissão gratuita pôde obter simplesmente, porque a razão da Justiça vingadora não permitia que o pecado ficasse impune: nem a permutação, porque por nenhuma permutação de qualquer criatura poderia ser compensada a contumélia infligida a Deus pelo homem: nem, enfim, a ablação violenta, pois embora por bom direito Cristo pudesse arrancar sua presa do diabo que ele por má fraude reivindicara para si, não pôde porém desse modo reconciliar o homem réu de lesa-Majestade com Deus. Restava, portanto, apenas o modo suficiente de resgatar pela via da Justiça, pagas todas as nossas dívidas pelo nosso Fiador, Cristo.
XXIX. De resto, embora os três primeiros modos de libertação separadamente não valham aqui, não se deve negar todavia que sob alguma σχέσει [relação] todos concorrem simultaneamente nesta obra salutar, e por aqui podem ser conciliados vários lugares da Escritura aparentemente em conflito, dos quais uns dizem que fomos justificados e salvos gratuitamente pela graça de Deus e sem obras (Rom. III. 24. Ef. II. 8, 9.); Outros insinuam que fomos resgatados por um preço (1. Cor. vi. 20. & 1. Ped. I. 19. &c.); Outros ensinam que foi feita alguma permutação (Gál. III. 13. & 2. Cor. v. 21.); Outros mostram que fomos libertados dos inimigos por força e poder (Heb. II. 14. Col. II. 15. Is. LXIII. 5.); mas todas estas coisas são ditas mui verdadeiramente: Pois visto que nossa salvação pode ser considerada sob um quádruplo respeito: ou de Deus que julga, ou de Cristo que resgata, ou dos Homens resgatados, ou do Diabo que assedia e tiranicamente impera; quanto ao Diabo fomos libertados pela suma potência e virtude eficacíssima, pois Cristo despojou pela força e pelas armas aquele que primeiro fora vencido e legitimamente feito seu escravo; quanto a nós, fomos resgatados e salvos gratuitamente, pois nada de nós mesmos contribuímos para a nossa libertação: quanto a Cristo, fomos permutados porque Ele se fez por nós pecado e maldição para que fôssemos bênção de Deus nele; quanto a Deus, enfim, fomos resgatados por um preço quando Cristo exibiu a si mesmo como ἀντίλυτρον à Justiça divina por nós. Porque não raramente a Escritura considera esta obra admirável da Redenção sob uma dupla σχέσει [relação] potíssima, tanto de Deus quanto do Diabo, de quem devíamos ser libertados de modos diversos; Por isso, costuma atribuir estas duas coisas peculiarmente a Cristo Redentor: Justiça e potência, aquela pela qual nos isenta da ira de Deus, esta pela qual nos liberta da tirania do Diabo; E daqui surge aquela dupla denominação de Cordeiro e Leão, que tantas vezes é atribuída a Cristo; o Cordeiro refere-se à vítima, o Leão à vitória; o Cordeiro à paixão, o Leão ao triunfo; o Cordeiro ao mérito, o Leão à virtude; o Cordeiro derrama o próprio sangue, o Leão o alheio; o Cordeiro porque resgata a Igreja com seu sangue, o Leão porque destrói os inimigos com seu vigor; o Cordeiro em relação a Deus para aplacá-lo, o Leão em relação ao Diabo para vencê-lo: Daqui também nascem as várias denominações da morte e da cruz, enquanto aquela é dita às vezes altar do Sacerdote (Heb. xiii. 10.), quando é dita carro triunfal do Vencedor (Col. ii. 15.), e λύτρον pelo qual Deus é aplacado (Mat. xx. 28.), e ὅπλον [arma] pela qual o Diabo é debelado (Heb. ii. 14.).
XXX. A isto pertence também o que no V. T. se refere a גאל [Goel], pois ele também foi um tipo exímio nesta parte de Cristo redentor, de onde o próprio Messias é assinalado não raramente com este nome: Jó xix. 25. eu sei que גאלי o meu Redentor vive; Is. LIX. 20. virá a Sião גואל Targ. פוריק Redentor e Libertador. Tinha o Goel o direito de: 1. Resgatar as coisas vendidas e alienadas do irmão ou parente, como o campo, a casa, etc. (Levit. xxv. 25.), devolvendo גאלו o preço pelo qual aquelas coisas tinham sido compradas, guardada decerto a proporção do tempo. 2. Libertar o cativo ou escravo da mesma família (ibid. v. 47, 48. se teu irmão empobrecer e se vender ao estrangeiro e adventício, haverá redenção para ele, um de seus irmãos o resgatará.). 3. Vingar o assassinado, de onde era chamado גאל הדם Vingador do sangue, sobre o qual em Num. xxxv. & Deut. xix. 6. Os Hebreus transmitem muitas coisas sobre ele, como que perseguia o homicida e tinha o direito de matá-lo onde quer que o encontrasse onde não pudesse apelar ao Magistrado, a menos que ele se retirasse para as cidades de refúgio, pois então não era lícito infligir-lhe mãos violentas: e ali o homicida, máxime se era שוגג isto é, se por erro e ignorância cometera o homicídio (pois o מזיד que o fizera espontaneamente e de propósito, depois que no בית דין [Bet Din] Consistório a causa fora discutida e ele fosse encontrado חייב מיתה réu de morte, era punido pela autoridade do magistrado), devia permanecer até a morte do sumo Pontífice, com a qual se lhe abria o retorno para sua casa e aos antigos ofícios se porventura os sustentara antes (onde temos um ilustre tipo do imenso benefício que nosso sumo Sacerdote mereceu, pois por sua morte nossos pecados são expiados e perdoados para que doravante se dê o retorno à pátria celeste da qual exilávamos por causa de nossos crimes). E daqui acontecia, conforme relatam os Hebreus, que as mães dos sumos Pontífices frequentemente enviavam presentes aos homicidas exilados para que não optassem pela morte do sumo Pontífice, pois dizem que o sumo Sacerdote morria tanto mais cedo se muitos homicidas ansiosamente pedissem a Deus sua morte com preces. 4. Finalmente, o mesmo devia tomar a mulher do irmão ou parente defunto para suscitar-lhe descendência, dispondo Deus assim por sua suma sabedoria na Rep. Israelita peculiarmente isso para a conservação das famílias e tribos: Deut. xxv. 5. se irmãos habitarem juntos e um deles morrer sem filho, a mulher do defunto não se casará fora com homem estranho, para que a saber não passe para família alheia, mas seu irmão entre a ela e a tome por mulher, e em fé dessa coisa o homem estendia a orla de sua veste sobre ela, como consta em Rute III. 9. Rute falando ao seu parente Boaz: Estende a tua Ala sobre a tua serva גאל כי אתה porque tu és parente de sangue, insinuando tacitamente que desejava que ele contraísse matrimônio com ela, o que o Chald. [Targum Caldaico] lucidamente expõe: יקרא שמך על אמתיך לקניא לי לאנתו i. e. seja chamado o teu nome sobre a tua serva para me receber por mulher; pois isso costumava ser feito entre os Judeus para que o esposo, em sinal do direito e autoridade que adquiria sobre a esposa, e ao mesmo tempo em penhor do ofício conjugal mútuo, amor e proteção, estendesse a orla da veste sobre ela, o que se colhe de Deut. xxii. 30. & Ezeq. xvi. 8.
XXXI. Todas estas coisas porém se quadram plena e perfeitamente em Cristo. Ele, certamente, assumiu nossa carne e tornou-se nosso irmão para que pudesse ser nosso גאל [Goel] e tivesse sobre nós o direito de Redenção; tinha decerto antes o Direito de propriedade como Deus, mas não teve o Direito de parentesco senão como verdadeiro homem. Prestou decerto tudo o que costumava ser feito por ele; Pois tanto nos libertou cativos e escravizados ao pecado e ao diabo (Luc. I. 71.), como tomou vingança dos inimigos que nos infligiram a morte (Col. ii. 14. Rom. vi. 6. Heb. ii. 14.); recuperou por seu justo mérito os bens perdidos e a herança celeste da qual caímos por nosso mau mérito (1. Ped. I. 4. Tito III. 9. Heb. ix. 12.). E a nós, soltos do primeiro marido, a saber a Lei e o pacto das obras, copulou consigo por um conúbio eterno e indissolúvel pelo pacto da graça (Rom. vii. 4. Ef. v. 25, 26.); e em fé dessa coisa estendeu sobre nós a veste de sua justiça perfeitíssima (Gál. III. 27.), o que foi adumbrado naquela virgem sórdida e nua em Ezeq. xvi. 8. sobre a qual Deus estendeu sua orla e contraiu matrimônio com ela; pois sendo a Igreja nua e sórdida por natureza, o Esposo estende sobre ela o fimbria de sua veste pela qual tanto a nudez quanto as sordidezas são cobertas, e ele por isso mesmo adquire o direito de Marido sobre nós e cultiva conosco a mais estreita comunhão.
XXXII. Porque se sentem premidos por estas razões, os Adversários buscam por todos os lados vários χρησφύγετα [refúgios] pelos quais escapem: pretendem, portanto, que da Redenção não se pode de modo algum colher a verdade da Satisfação: 1. porque a Redenção nem sempre é tomada propriamente, sentido no qual inclui algum preço, mas mui frequentemente metafórica e impropriamente, tal como nota a simples libertação feita sem a intervenção de nenhum preço, como em Exod. xv. 13. Deus é dito ter resgatado seu povo do Egito, assim em Deut. vii. 8. Sl. lxxvii. 16. &c. Portanto, esta significação também pode obter aqui, e tanto mais que esta nossa Redenção é frequentemente comparada com a Israelita e esta foi tipo e figura daquela (Luc. I. 68.). 2. Moisés também é chamado λυτρωτὴς [redentor] (Atos vii. 35.), o qual todavia é certo que não deu nenhuma satisfação. 3. se a Redenção devesse ser entendida propriamente, para a libertação dos Cativos o preço deveria ter sido pago ao detentor; Ora, nem foi pago a ele, nem pôde ser pago, pois quem diria que algo foi pago ou ao Diabo, ou às iniquidades, ou à vã conversação, ou à maldição da Lei pelas quais éramos detidos? 4. Que não se pode dizer que Deus recebeu aquele preço, como vulgarmente se crê, quando ele próprio nos fez a Redenção e despendeu seu Filho por nós. 5. Acrescentam que Cristo nos liberta da ira pela vida (Rom. v. 9.); Logo não pela morte, não pagando algum preço por nós, mas por sua potência no dia do juízo livrando-nos da morte eterna. 6. Finalmente, que somos resgatados do mesmo modo que fomos vendidos, mas fomos vendidos gratuitamente e sem preço quando nos mancipamos a nós mesmos à servidão do diabo e do pecado. Logo, também resgatados sem preço. De todas as quais coisas concluem que não se pode urgir os lugares que falam de redenção para que daí se infira a verdadeira satisfação, quando não importam outra coisa senão a simples libertação que se diz feita pela morte de Cristo porque a nossa vindicação da servidão do pecado a seguiu: Assim Soci. lib. 2. c. 1, 2. Volkel. de vera Rel. lib. 3. c. 18. Catec. Rakovi. c. 8. q. 25, 26. &c.
XXXIII. Mas estes são σοφὰ φάρμακα [remédios astutos] que não podem trazer nenhum alívio à causa laborante e desesperada. Pois quanto ao 1º, quem suportará os Adversários raciocinando tão ineptamente e argumentando do particular para o particular ou universal? Resgatar algumas vezes é tomado metaforicamente e significa a libertação simples. Logo, também aqui, ou logo, sempre deve ser assim usado. Quem não vê o vício da consequência? Como se o Espírito Santo tivesse fixado para si esta lei de usar sempre a mesma voz no mesmo sentido? Aliás, nada ocorre mais frequentemente do que ele usar vozes πολυωνύμοις [com muitos nomes/sentidos] de diversos modos conforme a τῇ ὑλῃ ὑποκειμένῃ ὕλῃ [matéria sujeita]; Não negamos, portanto, que mui frequentemente seja tomado em um significado mais frouxo na Escritura, nem foi essa a nossa questão, mas se deve obter neste argumento o que meritoriamente rejeitamos, não apenas pela propriedade da própria voz, mas pelas outras várias circunstâncias que necessariamente importam a Redenção propriamente dita, o que acaba de ser mostrado: E isso podemos extorquir dos próprios Adversários, mesmo contra a vontade deles; pois sustentam que apenas quatro coisas são requeridas na verdadeira Redenção: que haja um Cativo, um detentor do cativo, um Redentor e um λύτρον ou preço de redenção; Ora, nenhum destes falta neste negócio: os homens são os Cativos por causa do pecado, Deus como Juiz detinha-os sob a ira e a maldição e outras penas que seguem o pecado mui justamente, o Redentor é Cristo e sua Morte é o preço da Redenção, nada portanto pode ser dito de causa por que a própria Redenção não possa ou não deva ser entendida aqui, pois o que eles viciosamente litigam, que se requeira além disso que aquele que detém o cativo receba o preço, logo diremos em que lugar deve ser posto.
XXXIV. Pelas quais coisas se entende facilmente o que deve ser respondido em espécie àqueles lugares que falam da Redenção Israelita, pois nem se não podem ser tomados propriamente segue-se continuamente que estes nossos devam ser usados impropriamente. E decerto intervém uma longa e larga diferença entre a libertação corpórea e externa que foi feita simplesmente pela mão do Tirano e a libertação espiritual e Jurídica que se faz da maldição da Lei e da Ira de Deus; Aquela realmente pôde ser feita sem λύτρῳ [resgate] e pela potência de Deus; mas esta não do mesmo modo, visto que intercediam tanto a Justiça de Deus imutável quanto a sua Verdade infalível; de onde nenhuma pena infligida ao Libertador se lê naquela que servisse de λύτρῳ como nesta, nem nunca aquela é dita feita por λύτρον e ἀντίλυτρον como esta muitíssimas vezes; Não nego todavia que mui frequentemente ambas sejam comparadas entre si e uma porte a figura e o tipo da outra, mas a semelhança é não identidade ou igualdade por todas as coisas, e se a comparação é instituída quanto à coisa, não imediatamente quanto ao modo da coisa, porque a razão da matéria sujeita não o permite; aliás, como retamente diz Crisóst. Homil. 61. in Genes., convém que a figura tenha menos do que a verdade, porque de outro modo não teria sido sinal das coisas futuras. Sejam, portanto, semelhantes nisto: que assim como Deus libertou seu povo de uma servidão duríssima e de inimigos crudelíssimos, debelando de modo plenamente extraordinário aqueles sob cujo império estavam sujeitos, assim aqui liberta sua Igreja de uma servíssima servidão do Diabo e do pecado, de modo plenamente extraordinário e admirável, postos em fuga e prostrados nossos inimigos; mas a diferença é múltipla; Ali a libertação corpórea, aqui a espiritual; ali a libertação simples, aqui tal que seja mediante um λύτρον; ali a libertação pela potência de Deus das mãos dos homens, aqui a redenção pela Justiça da ira de Deus; ali Deus quis usar a obra e o ministério do servo Moisés, aqui de Cristo o próprio Senhor e ἀρχηγοῦ σωτηρίας [autor da salvação].
XXXV. Que dizer que, se queremos falar com precisão, nem aquela Redenção Israelita foi feita de todo modo sem qualquer respeito a um λύτρον [resgate]? pois sendo certo que todas as promessas e libertações especiais concedidas ao antigo povo estavam apoiadas na promessa geral do Messias vindouro, visto que não podia de modo algum esperar ajuda e auxílio de Deus senão como propício e reconciliado, e ser propício não pode senão por Cristo, de onde Paulo afirma que todas as promessas de Deus são Sim e Amém em Cristo (2. Cor. I. 20.); ninguém deve duvidar também de que esta singular e exímia libertação não foi indultada aos pais senão por causa de Cristo, o que também foi adumbrado não obscuramente pelo sangue do Cordeiro Pascal. Mas nem isto deve ser passado em silêncio: que duas coisas foram primordialmente memoráveis naquela Redenção: daí a libertação do ἐξολοθρευτοῦ [exterminador] que matava todos os primogênitos dos Egípcios, do qual foram isentos pelo sangue do Cordeiro aspergido sobre as vergas das casas; daqui porém a vindicação da mão saivíssima de Faraó e do jugo de ferro com que eram premidos e do qual foram libertados נצח יד [com mão forte]. Ora, ambas as coisas se depreendem aqui, e se apresentam para ser vistas muito mais claramente: pois Cristo, verdadeiro Cordeiro de Deus, nos torna seguros por seu sangue aspergido pela fé em nossos corações do Abadom, a saber, da Ira de Deus e da morte que grassa por todos os lados através de todo o Egito do mundo, e por uma potência fortíssima nos arranca das mãos do Faraó infernal e da servidão duríssima com que éramos oprimidos. Visto que, portanto, nem aqui falta alguma razão de comparação, patet que o herético erradamente tirou daquela para esta um argumento para negar a verdade da satisfação.
XXXVI. Mas não prova com mais solidez o que acrescenta em 2º lugar sobre Moisés que é chamado λυτρωτὴς [redentor] embora nunca tenha satisfeito: Pois embora não neguemos que sob esta σχέσει [relação] Moisés portou o Tipo de Cristo, não é porém um tipo ὁλικός [total] e adequado, mas apenas μερικός [parcial] e inadequado, de onde diferem multiformemente: Aquele foi apenas homem e servo (Heb. III.); este porém Deus e Senhor. Aquele Redentor típico e temporal de um só povo; este porém verdadeiro e eterno de todas as nações. Aquele Mediador μονόπλευρος [unilateral] da parte de Deus para nós, anunciando as palavras de Deus ao povo (Deut. v. 5.); Este porém διπλοῦς [bilateral] também da nossa parte perante Deus para aplacá-lo e nos reconciliar a Ele com seu sangue. Aquele resgatou de Faraó; Este do Diabo. Aquele do Egito; Este do Juízo. Aquele sem a morte e o sangue próprio, pois em lugar nenhum se diz que tenha resgatado o povo pela morte e sangue próprio como por preço, aliás, sua morte jaz oculta; mas apenas pela vida e pela potência; mas Cristo pôs sua alma pelo pecado, e por seu próprio sangue nos alcançou a eterna redenção. Nem deve parecer admirável, pois Moisés e outros libertadores eram tipos do múnus Real, não da função sacerdotal; prestavam o que podiam contra os inimigos por potência e virtude, mas não o que se requeria da parte da Justiça para aplacá-la. Portanto, referiam-se a Ele não como Sacerdote que oferece sacrifício para propiciar a Divindade, mas como Rei que triunfa sobre os inimigos arrancando-lhes a presa; Enfim, todos aqueles Salvadores libertaram não fazendo algo acerca dos que deveriam ser libertados, o que se atribui a Cristo, mas apenas removendo os impedimentos da liberdade. Logo, não deve ser urgida a semelhança quanto ao modo da Libertação, de outro modo muitos absurdos se seguiriam: deveria dizer-se decerto que Cristo nos libertou por milagres e prodígios e pela morte de homens, o que Moisés fez, mas não pelo próprio sangue, o que a Moisés nem se atribui, nem se pode atribuir.
XXXVII. Para a 3ª Exc. Resp.: peca-se por dupla falsa hipótese: 1. que em toda verdadeira Redenção se requeira sempre alguém que receba o λύτρον [resgate], pois como λύτρον nota promiscuamente ou a coisa ou o fato mediante o qual alguém é libertado de algum perigo ou incômodo, e o fato ou a pena por ninguém propriamente falando pode ser recebido, nada obsta que seja um verdadeiro λύτρον o que todavia ninguém precisamente receba; certamente Virgílio entendia a Redenção própria quando disse: si fratrem Pollux alterna morte redemit [se Pólux resgatou o irmão por uma morte alternada]; ora, aquela morte de Pólux, pela qual Castor seu irmão é libertado da perdição perpétua, é tal λύτρον do qual não se pode bem dizer a quem seja dado e por quem seja recebido. Confesso que na dívida pecuniária o pagamento do preço se faz ao credor que recebe aquele preço, de modo que se faça a translação do domínio e por isso mesmo se torne mais rico e locupletado aquele a quem se paga; Mas outra é a razão da dívida penal, pois nem o supremo Magistrado que exige a pena assume a razão de Credor, mas de Juiz, como mostrado em outro lugar, o qual respeita não a utilidade própria mas o bem de toda a coletividade e a conservação das Leis, de onde não há necessidade de ser por ele recebido um preço pelo qual se torne mais rico; basta apenas que na aplicação das penas o réu ou o fiador satisfaça à Lei. Mas embora propriamente falando aquele preço por ninguém possa ou deva ser recebido: não negamos todavia que em um significado frouxo possa ser dito dado e recebido, do modo como aquele que deve penas ao Magistrado é considerado como dando e pagando-as quando é punido; assim Cristo verdadeiramente pagou aquele preço a Deus supremo Juiz, de onde se diz ter-se oferecido a Deus (Ef. v. 2. Heb. ix. 14.).
XXXVIII. 2. A razão do herético apoia-se também em uma falsa hipótese, como se a todos aqueles que nos detêm de qualquer modo se devesse pagar o preço, quando deve ser despendido apenas ao detentor principal e primário. Aquele que isenta o réu e facinoroso do cárcere e do patíbulo, acaso paga o preço ao cárcere e ao patíbulo ou aos Lictores e ao Carrasco? De modo algum, mas apenas ao Juiz cujas Leis violou, e a cujo domínio e Jurisdição está sujeito. Assim aqui: os Pecados, as Iniquidades, a vã conversação eram o cárcere em que éramos detidos, e os vínculos com que éramos constrangidos, o Diabo porém, Ministro e Torturador da Justiça divina, nos vexava continuamente; mas Deus é o supremo Juiz, a quem como somente pecamos, assim a ele propriamente competia e o direito e o poder de exigir penas e receber o preço. Portanto, embora o cativo seja libertado de todos, todavia o preço da redenção não se paga senão ao supremo Juiz e Senhor do Cárcere; devia ser pago decerto por causa deles mas não a eles, de onde o sofisma se resolve facilmente pela limitação da Maior: A saber, o preço devia ser pago àquele que nos detinha cativos primariamente, principalmente e como Senhor e Juiz: ora, nem Satanás, nem os pecados, nem a maldição da Lei nos detinham cativos assim, e por isso a eles não pôde ou não devia ser exibido tal preço, mas a Deus.
XXXIX. Além disso, o que ele cavila em 4º lugar, que o preço não poderia ter sido pago a Deus visto que ele mesmo é dito ter feito a Redenção (Luc. i. 68.) e ter entregado seu filho por nós, é inane e fútil: Pois embora ele tenha procurado a Redenção, nada obsta todavia a que o preço lhe pudesse ser dado: 1. porque não ἀμέσως [imediatamente] e em própria pessoa o prestou, o que fingiam os Patripassianos, mas em Cristo e por Cristo. 2. κατ’ ἄλλο καὶ ἄλλο [conforme uma coisa e outra] ambas as coisas lhe podem ser retamente atribuídas: a primeira segundo a misericórdia, a posterior quanto à Justiça; a esta pertenceu que exigisse o preço e postulasse as penas a nós devidas, à misericórdia porém que, como não fôssemos capazes de pagar, ele mesmo tenha querido fornecer-nos de bom grado o λύτρον em seu filho, como se o Rei em favor de algum réu fizesse pagar tudo o que este devia ao fisco, para que por um lado proteja a autoridade das Leis sã e salva, e por outro exerça sua clemência para com o réu que quer libertar, modo pelo qual Zaleuco Locrense de seu próprio bolso suportou parte da pena devida ao filho para que a autoridade da Lei por ele sancionada permanecesse ilibada.
XL. Para a 5ª: distingo a Redenção de Direito e de fato; do mesmo modo que o pecado nos mancipava 1. quanto ao reato. 2. quanto à mancha e às penas consequentes. Assim uma dupla redenção ou antes dois graus de uma só redenção deveriam existir; a primeira pelo mérito do sangue, a posterior pela eficácia do espírito; sobre a primeira fala Paulo (Efés. i. 7. temos a redenção no seu sangue); sobre a posterior (Rom. viii. 23. Aguardamos a redenção do nosso corpo) e (Ef. i. 14.). A primeira na morte de Cristo, a posterior por sua vida; Aquela tira o reato do pecado adquirindo-nos a remissão dele e o direito à vida, esta porém de fato nos liberta da mancha e das penas do pecado, e nos transfere por vários graus para a vida, por isso somos ditos a serem salvos pela vida de Cristo Rom. v. 10. Mas esta segunda Redenção não exclui a primeira mas a supõe, pois nunca de fato Cristo nos teria podido introduzir na vida, a menos que primeiro tivesse alcançado o direito e o poder de prestar isso mesmo, de onde o Ap. no mesmo lugar conjuga como ἀδιαίρετα [indivisíveis] a reconciliação pelo sangue e a salvação pela vida: aquela salva pelo mérito, esta pela eficácia; aliás, a primeira como a mais potente é por ele posta por baixo, visto que argumenta do maior para o menor: se Deus reconciliou pelo sangue a nós inimigos, muito mais nos salvará da ira por ele agora reconciliados; se obtivemos o que é maior quando fomos plenamente indignos, não nos daria o que é menos quando nos fez ἱκανὸς [capazes/idôneos] por sua graça? Além disso, aquela Ira de que fala não denota propriamente a indignação de Deus que está nele, mas metonimicamente o efeito da ira que é dele, isto é, o suplício e a morte eterna, como em Mat. iii. 7. quem vos ensinou a fugir da ira vindoura?
XLI. De resto, quando somos ditos ser resgatados da ira de Deus e do seu Juízo, isto não deve ser entendido como se por esta redenção fôssemos arrancados de sua potência, nem por isso somos resgatados para sermos apartados de Deus como de um mal, modo como o preço é pago ao inimigo para que aquele que ele detém cativo seja libertado de sua potência, mas antes para que voltemos à graça com ele como sumo bem e sejamos unidos a ele novamente de quem fôramos alienados pelo pecado (Apoc. v. 9.); como o súdito rebelde e réu de lesa-majestade, quando a satisfação por ele foi prestada, é reconciliado com o Príncipe e volta à graça com ele de quem, por causa do crime, fora entregue ao lictor para ser metido no cárcere e ao carrasco para ser multado com a morte; Portanto, na redenção deve-se distinguir a dupla σχέσις [relação] do detentor: ou é o inimigo que iniquamente nos escravizou, ou o Juiz e Príncipe que mui justamente por causa do crime de rebeldia nos encarcerou; daquele somos resgatados de tal modo que dele sejamos apartados, modo como o capturado na guerra dá o λύτρον ao Imperador para que seja vindicado da potência do inimigo e restituído à liberdade; mas do juízo deste somos libertados de tal modo que, alienados dele, lhe sejamos novamente reconciliados: do Diabo decerto como inimigo somos resgatados e de sua potência arrancados; mas como Deus não é nosso inimigo mas nosso Juiz e Príncipe, a redenção não importa alienação mas conjunção e reconciliação.
XLII. Para a 6ª Resp.: peca-se por falsa paridade. pois a venda e a compra convêm nisto: que assim como aquela metáf. significa a abjeção, a alienação de Deus e a mancipação ao diabo, do mesmo modo que as coisas que são vendidas passam para o poder de outro para que use delas a seu arbítrio; assim a compra ou redenção importa a aquisição e o direito peculiar que obtemos na coisa comprada, que por isso é dita nosso pecúlio e סגלה [tesouro peculiar]: mas diferem em várias coisas, pois gratuitamente caímos e viemos ao poder do diabo por nossa culpa e desobediência e pelo justo juízo de Deus, mas não pudemos ser resgatados senão pela intervenção da satisfação, porque deveríamos ser libertados da maldição que nos iminência; nem é de admirar, pois o que veio vilmente muitas vezes é resgatado por muito: Adão pôde perder-se a si mesmo, mas salvar-se ou arrancar-se da morte de modo algum. Agost. Enarr. in Sl. 95. Os homens eram mantidos cativos sob o Diabo e serviam aos demônios, mas foram resgatados do Cativeiro, pois puderam vender-se, mas não puderam resgatar-se.
XLIII. Seja concluído, portanto: que Cristo, porque nos resgatou com seu sangue, verdadeiramente satisfez por nós; Pois o que o herético pretende, que a morte de Cristo é chamada preço pelo qual somos resgatados porque intervém para que alcancemos a libertação do cativeiro espiritual e nos ergue na esperança da vida eterna a partir da ressurreição alcançada, é mero subterfúgio. Pois acaso a nossa fé, a penitência e a pregação do Evangelho não intervêm para isso mesmo? Acaso somos ditos ser resgatados por elas ou alguma vez a Escritura as disse como pelo preço pelo qual alcançamos a libertação? Mas o que é aquilo que, visto que ele próprio estima que aquela libertação seguiu a ressurreição de Cristo muito mais do que a morte, todavia a redenção é atribuída sempre à morte, e nunca ou rarissimamente à ressurreição? pois o fato de ele estimar que isso se faz porque na morte brilhou mais ou é plenamente ἀλογώτατον [absurdo] ou faz por nós: pois o que quer que tenha havido na morte não teria sido todavia Redenção, se o efeito da libertação dela não tivesse seguido, nem por aquela coisa que não foi tanto por causa de nosso bem quanto simples ocasião, a caridade de Deus pôde ser demonstrada tão magnificamente e esplendidamente conforme é insinuado pela Escritura. Mas quão luculenter a inefável dileção de Deus se manifesta aqui a partir de nossa sentença, que como não ocorresse outro modo mais cômodo de Satisfação, não poupou o próprio Filho para poupar a nós ímpios e rebeldes (Ro. v. 8. &c.).
XLIV. III. Argu. fornece-nos a razão da Reconciliação que Cristo Mediador, morrendo, instituiu e firmou entre nós e Deus: pois do fato de ser dito ter-nos reconciliado com Deus e decerto pela morte e pelo sangue segue-se necessariamente que Ele satisfez, visto que Deus nunca teria deposto a ira contra nossos pecados a menos que se tivesse sacrificado à sua Justiça. Certamente Reconciliar não é outra coisa senão restaurar a amizade rompida por grave ofensa e assim reduzir os inimigos à antiga concórdia: Aqui, porém, deve ser trazido à memória que todas as Criaturas racionais eram muitíssimo conjuntas a Deus antes da queda, mas pela apostasia do homem fez-se como que uma avulsão da Criatura para com Deus e uma aversão de Deus para com a Criatura, de tal modo que aquele mesmo Deus que amara o homem por si criado como a um filho, odeie o homem já caído e corrupto como a um rebelde; Portanto, não pôde ser feita a reconciliação a menos que de ambos os lados a causa do ódio e da inimizade fosse tirada, tirada porém não pôde ser senão pela morte de Cristo, que tanto aplacou a ira da Divindade quanto expiou nossos pecados; não pôde aquela espada flamejante que nos afastava da presença de Deus e fechava o acesso ao paraíso ser removida e extinta senão no sangue de Cristo. E daqui é que Paulo tantas vezes mencionou aquela reconciliação feita pelo sangue de Cristo (Rom. v. 10. Se quando éramos inimigos fomos reconciliados com Deus pela morte de seu filho) e (2. Cor. v. 18, 19, 21. Todas as coisas são de Deus que nos reconciliou consigo por Jesus Cristo &c.). Assim (Col. i. 20.) aprouve ao Pai por ele reconciliar todas as coisas consigo, feita a paz pelo sangue de sua Cruz. Assim (Ef. ii. 16.) para que em um só corpo reconciliasse a ambos com Deus pela cruz, matando nela as inimizades.
XLV. De resto, para que a razão dessa Reconciliação se torne mais clara, deve-se observar que a Reconciliação é atribuída às vezes tanto a Deus Pai, quanto a Cristo Mediador, quanto aos próprios fiéis, mas sob uma e outra σχέσει [relação]: Pois tanto é dito reconciliar aquele que é a causa primária da reconciliação, quanto aquele que realiza algo que merece ou alcança a reconciliação, quanto aquele que aplica a si a graça da reconciliação por outro promeritada; Deus é dito reconciliar-nos do primeiro modo na medida em que desde a eternidade decretou restituir à graça os seus eleitos caídos no pecado, e preparou aquilo a partir da ordem de sua graça que era necessário para compor a discórdia entre si e os pecadores. Assim (2. Cor. v. 19.), Deus é dito ter reconciliado o mundo consigo, Deus, diz, estava em Cristo reconciliando o mundo consigo: Os Fiéis dizem-se reconciliar-se com Deus no terceiro sentido na medida em que são mandados abraçar o benefício oferecido, depor todas as inimizades e amar de volta o Deus que os ama diligentemente; assim (2. Cor. v. 20.), os Apóstolos exortam em nome de Cristo cada um dos fiéis para que se reconciliem com Deus, isto é, se convertam a Deus e abracem a reconciliação oferecida da parte de Deus; 3. Mas além destas duas razões de falar, Cristo também é dito reconciliar-nos (Ro. v. 11. Ef. ii. 16.) não como causa primária da reconciliação, o que Deus faz; não como aplicando a reconciliação, o que fazem os fiéis pela obra do Espírito Santo; mas como Mediador que a procurou por seu mérito, não apenas chamando-nos à comunhão de sua graça, mas também exibindo a Deus aquilo por causa do qual e em vista do qual ele mesmo depõe toda a ira e se aplaca conosco; visto que o dissídio originado entre nós e Deus era fomentado por duas causas: daqui a Justiça de Deus que o tornava irado e infenso a nós, dali nossos pecados que nos impeliam continuamente à rebelião; para que a reconciliação sólida e firme fosse instituída, ambos os obstáculos deveriam ser removidos: o primeiro certamente em relação a Deus pela satisfação, o posterior em relação aos homens pela justificação e santificação; mas Cristo realizou ambos pelo seu sangue, pois por ele tanto satisfez plenissimamente à Justiça de Deus quanto destruiu nossos pecados, e por isso limpa nossas consciências das obras mortas para que não mais incidamos naqueles pecados que provocam a indignação de Deus e rompem o vínculo da reconciliação, mas sirvamos ao Deus verdadeiro e vivo (Heb. ix. 14, 15.). Assim, retamente esta reconciliação é atribuída tanto ao Pai quanto ao Filho: ao Pai como causa primeira, ao Filho como causa próxima; ao Pai quanto ao conselho, ao Filho quanto à execução; ao Pai incoativamente e originalmente, ao Filho formalmente e terminativamente; ao Pai procuratoriamente, ao Filho meritoriamente.
XLVI. Para que porém não duvidemos que a morte de Cristo aqui interveio como causa meritória da reconciliação, de outra frase usa o Espírito Santo que prova isso mesmo mais claramente, quando chama Cristo de ἱλαστήριον [propiciação/propiciatório] e ἱλασμὸν [propiciação] (Rom. iii. 24. 1. Jo. ii. 2.); pois que estes vocábulos não respeitam primariamente à conversão dos homens pecadores, mas à aversão da ira divina procurada por algum placame [meio de aplacar], é mais notório do que necessite de prova; Daqui ἵλεων Θεὸν ἱλάσκεσθαι [aplacar o Deus propício] é aplacar a Deus: em Homero: o que costumava ser feito por sacrifícios. Ilia. β. ἐσθάδε μὶν ταύροισι, καὶ ἀρνείοις ἱλάονται, Κῶροι Ἀθηναίων [Ali os jovens dos Atenienses aplacam aquela deusa com touros e cordeiros]. Daqui ἱλάσκεσθαι, segundo Hesych., o mesmo que ἐξιλεῶσθαι [aplacar plenamente], assim ἱλασμὸν é eu faço propício, para o qual é mais usual ἱλάσκομαι, aplaco, propicio, o qual também é usado passivamente nos LXX: Sl. lxiv. 3. & lxviii. 9. Exod. xxxii. 13. ἱλάσθη Κύριε περὶ τῆς ἁμαρτίας; [sê propício, Senhor, sobre o pecado;] e ἐξιλάσκεσθαι, aplacar, expiar, fazer propiciação: responde ao Hebraico כפר [Kapar], que em Kal é cobrir, ocultar; em Piel é aplacar, tornar propício, expiar; E porque a ele se junta a preposição על, Levit. iv. 10. וכפר עליהם e ἐξιλάσεται περὶ αὐτῶν expiará por eles, assim se junta geralmente entre os Gregos com a preposição περὶ como passim em Levítico; às vezes Deus é dito ἱλάσκεσθαι a saber passivamente ταῖς ἁμαρτίαις ou ταῖς ἀσεβειαίς ἡμῶν [pelas nossas iniquidades Sl. lxiv. 3. lxviii. 42.]; às vezes os pecados são ditos ἱλάσκεσθαι (Heb. ii. 17.), isto é, serem expiados, porque pela expiação feita por Cristo Deus se aplaca sobre eles. Daqui ἐξίλασμα que é o placame ou dom placatório e redentor pelo qual alguém aplaca o juiz, ou resgata sua vida (Reg. xii. 3. Sl. xlvii. 7.), o que responde ao כפר [Koper] que significa preço de redenção. Daqui ἱλασμὸς propriamente é o ato daquele que torna o outro propício e aplacado, desviando sua ira e conciliando a graça. De onde o carneiro pelo qual se fazia o sacrifício pelo pecado chama-se (Numer. v. 8.) κριὸς ἱλασμοῦ carneiro das expiações, e o dia em que a propiciação pelos pecados do povo costumava ser feita (Levi. xvi.) diz-se ἡμέra ἱλασμοῦ dia das propiciações (Levi. xxiii. 27.). Quando portanto Cristo é dito ἱλασμὸς pelos nossos pecados, por isso mesmo insinua-se que Ele por sua morte fez tudo o que era necessário para expiar nossos pecados e aplacar a ira da Divindade, o que não é outra coisa senão a mesmíssima Satisfação que buscamos. Ao mesmo pertence o que Paulo diz: (Ro. iii. 25.) Deus propôs Cristo como ἱλαστήριον pela fé no seu sangue; o que pode ser entendido quer masculinamente para notar o propiciador e reconciliador, como Erasmo interpreta, id. aquele que tem o dom e o poder de aplacar Deus para os pecadores por seu sangue, quer neutralmente, sentido no qual em outro lugar ἱλασμὸς e λύτρον é dito aquilo em que há virtude e eficácia para aplacar Deus e expiar os pecados. Assim terá o Apóstolo respeitado tanto aos sacrifícios ἱλαστικά [propiciatórios] do V. T., sentido no qual foi verdadeiramente κριὸς ὁ ἱλασμὸς o carneiro expiatório, a saber, o Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo (Jo. i. 29.); quanto à própria tampa da Arca, que em Hebr. כפרת [Kapporet], os LXX por ἱλαστήριον ἐπίθεμα, Paulo simplesmente por ἱλαστήριον traduz (Heb. ix. 5.). Ora, como por várias causas aquela Tampa da Arca vinha com este nome, não apenas porque cobria a Arca da aliança e as Tábuas da Lei nela escondidas para significar a remissão e a propiciação dos pecados admitidos contra a Lei de Deus, mas também porque Deus ali se deixaria aplacar e propiciar ao seu povo e aos pecados dele pela aspersão do sangue das vítimas que ali costumava ser feita naquela tampa (Lev. xvi. 14.) e que consequentemente se exibiria propício e aplacado e como que sentado no trono da graça ao seu povo; não admira que o Apóstolo, devolvendo o nome da figura e da sombra ao corpo, tenha dito que Cristo é o ἱλαστήριον: Pois Ele é propriè aquele que, cobrindo a acusação da Lei e o reato de nossos pecados com sua justiça perfeitíssima, e colocando-se a si mesmo como meio entre os raios da Lei e a majestade de Deus Juiz, nos tornou a Divindade propícia e favorável, e assim elevou a misericórdia acima do juízo, o Evangelho acima da Lei; do mesmo modo que aquela tampa cobria as tábuas da Lei e era o meio entre a Lei que estava reposta na Arca e a Majestade de Deus que se patenteava no meio dos Querubins. De novo, Ele é aquele que, pela aspersão de seu sangue, que por isso é dito sangue ῥαντισμοῦ [da aspersão] (Heb. xii.), feita obteve para nós plena expiação perante Deus; Ele enfim em quem Deus ergue o trono da graça ao qual somos mandados aproximar-nos (Heb. iv. 16.) e no qual se nos exibe aplacado e propício (2. Cor. v. 19.). Porque, porém, tudo aquilo não pôde ser feito de outro modo senão pela plenária impleição da Lei e pela perpeção das penas por ela denunciadas, por isso diz-se ἱλαστήριον: no sangue; E daqui se colhe um argumento validíssimo para a Verdade da Satisfação: Pois aquele que por nós opera isso perante Deus de modo que aquele que antes estava irado deponha a ira e se aplaque conosco e se reconcilie, é Salvador pelo mérito e não apenas pelo exemplo; pois aquele que nos salva apenas pelo exemplo não tem necessidade de realizar algo perante Deus, mas apenas de despender e ocupar sua operosidade cerca dos homens, pois o Exemplo pertence aos homens, não a Deus; Ora, Cristo realiza isso perante o Pai por sua morte para que, deposta a ira, nos reconcilie, e não mais nos reja como filhos da ira como éramos por natureza, mas nos respeite e abrace como filhos diletos. Logo, é Salvador não apenas pelo exemplo; mas também pelo mérito e eficácia.
XLVII. Aqui, porém, respondem os Adversários: 1. Que esta Reconciliação não se faz pela aversão da ira divina de nós, mas pela nossa conversão a Deus, porque nunca se lê na Escritura que Deus se reconcilie conosco ou que Cristo tenha reconciliado Deus conosco, mas apenas que nós fomos reconciliados com Deus por Cristo, para insinuar que a saber não Deus, mas nós éramos de ânimo inimigo, não que ele devesse ser aplacado, mas que nós deveríamos depor nossas inimizades. 2. O que pretendem provar ainda mais fortemente pelo fato de que não apenas se diz que Cristo nos reconciliou com Deus, mas que o próprio Deus nos reconciliou consigo por Cristo (2. Cor. v. 19.); Ora, se Deus nos reconciliou, decerto não estava irado, mas já estava aplacado e propício, nem se pode duvidar dele visto que se diz ter-nos amado quando éramos inimigos (Rom. v. 8.) e por aquela dileção ter enviado Cristo (1. Jo. iv. 10.); quem porém poderá ser dito infenso e irado sendo de um afeto tão benevolente e propenso para conosco? 3. Deus é dito ter-nos reconciliado não imputando os pecados. Logo, não pela satisfação mas pela gratuita e libérrima condonação. 4. Que a reconciliação deve ser entendida do modo como os Apóstolos foram seus arautos, mas eram ministros da nossa reconciliação com Deus, não de Deus conosco, pois não postulam outra coisa senão que nos reconciliemos com Deus (ibid. 2. Cor. v. 20.). 5. Pretendem que Paulo (Ef. ii. 16. & Col. i. 20.) trata da reconciliação não de Deus com os homens, mas ou dos homens entre si, a saber, Judeus e gentios, ou com os Anjos que nos eram infensos por causa do pecado; pois que estes devem ser entendidos pelas coisas que estão nos céus, muitos dos nossos não o negariam. 6. quanto à voz ἱλασμὸς [propiciação], acrescentam que Cristo é dito ἱλασμὸν não na medida em que morre por nós; pois da morte João não faz nenhuma menção, mas na medida em que agora vivendo junto ao Pai é nosso Advogado e assume nossa causa, favorecendo-nos com seu patrocínio e cuidando singularmente para que não experimentemos a ira divina ou soframos as penas que merecemos, ao que pertence aquele lugar em Heb. ii. 17. & vii. 24, 25. onde é dito pontífice fiel para expiar os pecados do povo por este mesmo motivo. 7. Que ἱλάσκεσθαι [ser propício/aplacar] não é outra coisa senão tornar-se propício a alguém e perdoar-lhe, e assim responder ao verbo Heb. סלח [Salach], como סליחה [Selichah - perdão] é traduzido por ἱλασμὸν Sl. cxxx. 4.; mas que não importa por isso satisfação, o que se colhe facilmente do fato de que a tampa da Arca se chama propiciatório, no qual todavia não se depreende vestígio de satisfação; visto que se chama assim não porque aplacasse o Deus irado com o povo, mas porque naquele lugar Deus dava respostas ao povo e declarava sua benevolência para com ele (Exo. xxv. 22. & Num. vii. 9.). Finalmente, embora se dissesse que Cristo aplacara Deus para conosco, não se eliciaria bem daí a satisfação, visto que para aplacar alguém a satisfação nem sempre é necessária, pois pode acontecer que alguém seja tão amaciado ou por preces ou por persuasões que ceda inteiramente de seu direito, e doravante não necessite de nenhuma satisfação. Assim Volquélio raciocina li. v. c. 22. Schiltíngio contra Meisner sobre a justificação, Socino sobre o salvador p. 25. & outros.
XLVIII. Certamente estes são inanes inventos de homens que abusam do seu ócio e do seu engenho para evacuar a cruz de Cristo e elevar a suma caridade de Deus para conosco. O seu πρῶτον ψεῦδος [primeiro erro/mentira] é que Deus não pode ser dito inimigo e infenso a nós por causa dos pecados e por isso de modo algum teria necessidade de satisfação pela qual ele próprio fosse reconciliado. Ora, nos parágrafos anteriores, por vários argumentos, já provamos a justiça essencial de Deus, a qual, uma vez posta, segue-se necessariamente que a pena é devida ao pecado por ela, nem se pode contrair qualquer amizade de Deus com os homens a menos que a ela se tenha satisfeito uma vez; logo é falsíssimo o que pretendem, que esta Reconciliação nota apenas nossa conversão a Deus e a deposição das inimizades da nossa parte, não porém a própria aversão e mitigação da ira de Deus: Pois como a alienação tenha sido mútua e a Escritura estabeleça esta inimizade e ódio não apenas da parte dos homens (Rom. v. 10. Col. i. 21.) mas também da parte de Deus, visto que a sua ira se revela do céu contra toda impiedade &c. Rom. i. 18. e somos por natureza filhos da ira e sujeitos à maldição. Ef. ii. 3. Gál. iii. 10.; certamente a reconciliação devia ser prestada de ambos os lados, tanto da nossa parte pela conversão quanto da parte de Deus pela aversão da ira, pois a natureza dos correlatos o exige, de outro modo dever-se-ia estabelecer que Deus não detesta nem tem ódio aos pecados, o que é ímpio até de pensar. 2. se aquela reconciliação notasse apenas a conversão dos homens, não a aversão da própria ira, muito mais retamente seria aceita como devida à vida gloriosa de Cristo do que à morte, mas é constantemente atribuída à morte. 3. A Escritura recomenda na nossa reconciliação o sumo amor de Deus (Rom. v.); ora, quem acreditaria que disso se colhe a intensíssima caridade de Deus, por termos nós nos afastado do ódio de Deus? 4. Para o Apóstolo em Rom. v., a reconciliação não é outra coisa senão a Justificação como consta da coll. v. 9. & 10. onde põe como equipolentes Justificar-se no sangue, e reconciliar-se pela morte, nem qualquer razão pode ser dada por que aqui Paulo falaria da Santificação, sobre a qual até agora não fez nenhuma palavra expressa, mas há de falar apenas no cap. vi. onde explicará o segundo benefício que flui de Cristo. 5. Em 2. Cor. v. distingue-se abertamente uma dupla reconciliação: uma que Deus fez por Cristo (vers. 18, 19.), outra para a qual os Apóstolos nos exortam (v. 20.). Aquela realmente infere a conversão que se faz pela fé e penitência; mas esta descreve-se pela não imputação dos pecados, as quais, quão distantes estão entre si, ninguém deixa de ver. 6. se a reconciliação não é outra coisa senão a conversão, nenhuma razão idônea pode ser dada por que a santificação seja constituída pelo Ap. como fim desta reconciliação, pois nada pode ser ao mesmo tempo meio e fim de si mesmo, o que acontece todavia por ele em Coloss. i. 22.
XLIX. Nem obsta que a Escritura diga antes que nós somos reconciliados com Deus do que Deus conosco, pois isso se faz pelo modo usual de falar pelo qual aquele que ofende é por isso dito ser reconciliado porque, assim como deu causa ao ódio, assim ele tem necessidade da reconciliação e da aplacação daquele a quem ofendeu; tendo rompido a aliança por sua culpa e sido o primeiro a afastar-se, é necessário que volte e reconheça a culpa, o outro porém não tem necessidade de outra reconciliação senão que perdoe e deponha a justa ira e ódio; visto que, logo, nós ofendemos a Deus e não ele a nós, não sem causa a Escritura diz que nós devemos ser reconciliados com Deus antes que Deus conosco, assim quem se recorda que o irmão tem algo contra si deve, por prescrição do Senhor, reconciliar-se com ele Mat. v. 24. porque ofendeu o irmão, assim a mulher que abandonou o marido é mandada reconciliar-se com o marido 1. Cor. vii. 11. Ora, embora a reconciliação como que na maior parte seja atribuída ao ofensor, não se exclui porém, antes se inclui o ofendido, de onde em Sófocl. em Ájax καταλλάσσεσθαι Θεοῖς [ser reconciliado com os Deuses] é o mesmo que fugir da ira dos Deuses e torná-los propícios; Tecmessa é induzida narrando que Ájax partira ὡς καταλλαχθῇ θεοῖς χολῆς [para ser reconciliado com os deuses da ira]: Portanto, se nós devíamos ser reconciliados com Deus e ele também conosco, Nós pela satisfação ou própria ou vicária, Ele porém pela restituição e conglutinação da benevolência e da graça; de onde o intérprete Siro em Ro. v. 10. interpreta aquilo passivamente sobre Deus: אִתְרְעִי עִמָּן אֱלָהָא בְּמוֹתָא דִבְרֵהּ Deus foi reconciliado conosco ou tornou-se benevolo pela morte de seu Filho.
L. Instam todavia em segundo lugar e pretendem que a Reconciliação não pode notar a aversão da ira divina, pelo fato de que o próprio Deus é dito ter procurado aquela reconciliação por Cristo e decerto por suma dileção; mas nem assim poderão nunca obter que Deus já estivesse aplacado ou reconciliado antes da morte de Cristo, mas apenas misericordioso e a ser aplacado; foi necessário decerto que Deus tivesse sido movido pela misericórdia para conosco, e afetado por um ânimo benevolente para querer conferir a salvação, mas aplacado não pode ser dito senão tirada a causa da inimizade e alienação, e por isso se quis depor a ira e não punir, isto não foi senão sob a condição do placame futuro por Cristo que a Justiça exigia. Perguntam: mas de que modo será dito ter amado se estava irado e teve necessidade de reconciliação? Resp.: nada obsta que a Ira e a Dileção se ocupem cerca do mesmo objeto mas κατ’ ἄλλο καὶ ἄλλο [conforme uma coisa e outra]: pôde irar-se como Justo juiz, e ao mesmo tempo amar como Misericordioso Pai; irar-se conosco como pecadores e amar como Criaturas; assim Beda em 5. ad Ro.: Deus de modo admirável amava quando nos odiava, odiava em cada um de nós o que tínhamos feito, amava o que ele fizera; e como falam os Escolásticos: amou o gênero humano quanto à natureza que ele próprio fez, odiou quanto à culpa que os homens contraíram: O Amor de Deus, portanto, para com a natureza por si criada o movia a procurar esta reconciliação, o ódio de Deus para com o pecado por si proibido por nós cometido nos constituía indignos da reconciliação, de onde retamente Tomás 3. q. 49. Arti. 4.: Não somos ditos reconciliados como se Deus começasse a amar de novo; pois com amor eterno nos amou, mas porque por esta reconciliação foi tirada toda causa de ódio tanto pela ablução do pecado quanto pela recompensação de um bem mais aceitável. Para nós, decerto, isso parece duro e difícil que aquele que odeia também ame ao mesmo tempo, porque quando um afeto nos possui ele nos ocupa todos, se a ira está acesa contra alguém, nenhum lugar há então em nós para a graça, se a graça, há também mui frequentemente uma indulgentíssima inclusive injustíssima indulgência; mas se eliminarmos as perturbações e nos revestirmos do hábito da justiça, facilmente comporemos estas coisas entre si: O Pai ofendido pela petulância do filho, ama-o como filho, ira-se todavia com ele como petulante, assim ao Juiz será lícito irar-se e excitar-se para a pena e nada obstante ser afetado pela caridade para perdoar se apenas houver quem afiance, por que não, logo, Deus que é justíssimo e ótimo pôde tanto postular a pena por Justiça, quanto por misericórdia procurar-nos a satisfação?
LI. 2. Deve ser distinguido o Amor de Deus, pois um é de benevolência e antecedente que se dirige ao objeto a ser constituído, outro de complacência e consequente que se dirige ao objeto já constituído; o primeiro é aquele pelo qual Deus nos quer bem e constitui e ordena os meios para que nos possa realmente beneficiar, o posterior pelo qual nos prossegue como filhos já feitos, e se deleita intensamente em nós renovados à sua imagem; Este certamente não pode subsistir com a ira do Juiz e com um ânimo plenamente infenso, pois aquele a quem ama de tal modo que nele se compraza não lhe pode estar irado, mas supõe-se estar aplacado; mas sobre aquele outro se passa de modo diferente, pois nada obsta que o ofendido ame o ofensor na medida em que lhe queira bem e se digne fornecer os meios para a reconciliação, o qual todavia por isso mesmo não pode ser dito reconciliado; Um exemplo luculento desta coisa existe em Jó cap. xlii. 7. 8.: Disse o Senhor a Elifaz o Temanita: Acendeu-se a minha ira contra ti e contra os teus dois amigos porque não falastes retamente como o meu servo Jó; vês Deus irado, e todavia não inteiramente sem alguma dileção, pois eis imediatamente o argumento de benevolência: Tomai agora para vós sete novilhos e sete carneiros e ide ao meu servo Jó para que cuideis de oferecer um holocausto por vós pois certamente aceitarei a sua pessoa: ama logo, quando fornece os meios de retornar em graça com ele, e todavia ainda não está aplacado, de outro modo que necessidade houve de sacrifícios para obter a reconciliação? Assim, se Deus fosse dito ter-nos amado com amor de complacência antes de Cristo, certamente não teria havido necessidade ou de reconciliação ou de satisfação, mas quando aquela dileção foi apenas de benevolência pela qual ele próprio procurou os meios da reconciliação, erradamente por isso se inverte a verdade da satisfação, pela qual ela própria se estabelece mui solidamente.
LII. E daqui se resolve facilmente também o que se aduzia em 3º lugar, a saber, que a reconciliação exclui a satisfação quando se descreve pela não imputação dos pecados, pois tanto dista de que por isso se inverta a satisfação que antes se supõe expressamente; Certamente nunca nos poderiam ter sido remetidos ou não imputados os pecados a menos que tivessem sido imputados a Cristo, por isso Paulo imediatamente no vers. 21. explicando o modo daquela reconciliação feita por Cristo acrescenta uma elegantíssima descrição da satisfação de Cristo: pois fez aquele que não conheceu pecado, pecado por nós para que fôssemos Justiça de Deus nele. Nem se deve dizer que a remissão do pecado não pode subsistir com a satisfação; pois já evincemos antes que estas não são ἀσύστατα [incompatíveis], mas subordinadas, visto que a remissão se faz por nós e a satisfação se exige de Cristo, e por isso a satisfação é exigida de Cristo para que a remissão nos possa ser indultada, de onde Paulo conecta estas duas coisas em Rom. iii. 25.: a Redenção por Cristo no seu sangue, e a Justificação gratuita: A remissão exclui o pagamento daquele a quem se faz a remissão, mas não toda a remissão simplesmente; exclui a própria não a alheia, a dos homens não a de Cristo.
LIII. Para a 4ª peca-se por falsa hipótese, como se uma só e simples reconciliação ocorresse naquele lugar, quando acabamos de dizer que se notam distintamente duas partes dela: uma da parte de Deus, outra da parte dos homens, pois tanto Ele devia ser aplacado e de infenso tornar-se amigo, quanto nós abraçar o benefício oferecido, e de novo retornar àquele de quem fôramos alienados; a primeira Deus opera por Cristo: a outra instituiu pelo ministério dos Apóstolos que nos exortam em nome de Cristo para que nos reconciliemos com Deus: Aquela decretada desde a eternidade e feita uma vez em Cristo é anunciada pela palavra, esta porém é procurada pela própria palavra. 2. Deve-se distinguir a aquisição da reconciliação de sua aplicação: aquela é realizada pelo sangue de Cristo, esta pela sua palavra e espírito; aquela somente por Cristo, esta é promovida pelos Apóstolos e outros Ministros, de onde se diz que o ministério da reconciliação lhes foi entregue, nem se pode dizer sem blasfêmia que Cristo não se ocupou de outro modo cerca desta reconciliação do que os Apóstolos, o que seria todavia se, como querem os heréticos, ele não fizesse outra coisa senão mostrar o caminho de como nos convém converter a Deus e desse modo reconciliar-nos com ele; Ora, isso mesmo fizeram e fazem os Apóstolos e os ministros do Evangelho. Portanto, digam-se decerto os Apóstolos e Ministros reconciliar οὺative, applicative, & ministerially [organizativamente, aplicativamente e ministerialmente]: mas somente Cristo reconcilia meritoriamente, principalmente e satisfatoriamente.
LIV. Para a 5ª, confessamos que o Ap. em Ef. ii. 15, 16. trata da reconciliação dos Judeus e Gentios entre si, mas negamos que trate dela exclusivamente à reconciliação dos homens com Deus: antes sustentamos que a inclui necessariamente: tanto pela própria natureza da coisa, pois não puderam ser amigos entre si os Judeus e os Gentios senão pela amizade com Deus, visto que dois diversos que se unem assim se unem entre si para que antes e potius se unam ao próprio vínculo, pois nem se unem entre si senão por e por causa do vínculo: quanto porque expressamente menciona aquela no vers. 16: ἵνα ἀποκαταλλάξῃ τοὺς ἀμφοτέρους ἐν ἑνὶ σώματι τῷ Θεῷ [para que reconciliasse a ambos em um só corpo com Deus]; se portanto devem ser reconciliados com Deus, decerto não apenas entre si: Pois o que o herético quer, que aquele último vocábulo seja entendido finalmente, id. para que os reconciliasse entre si para que sirvam a Deus, não apenas é duro e coacto, mas também repugna manifestamente à ἀλληλουχίᾳ [conexão/sequência] das palavras, visto que já havia posto aquilo mesmo nos vers. 14, 15. quando disse que fez de ambos um para que de dois deles criasse em si mesmo um novo homem fazendo a paz. que necessidade houve, logo, de repetir o mesmo aqui sem necessidade? Portanto, deve-se estabelecer omnimodamente que Paulo, depois que no vers. 15. fez palavras sobre a reconciliação dos Judeus e Gentios entre si, agora no vers. 16. trata da reconciliação de ambos com Deus, que é tanto o fundamento quanto o fim daquela primeira, pois como nenhuma amizade é sólida senão fundada em Deus, assim debalde teria sido toda aquela conciliação dos homens entre si a menos que trouxesse consigo a reconciliação com Deus: Por isso diz que Cristo dissolveu a cerca da parede intermédia e aboliu as inimizades para que criasse de dois um novo homem &c. e reconciliasse a ambos em um só corpo com Deus pela cruz; Naquele fim certamente ambos deviam unir-se mutuamente em um só corpo místico para que pudessem ambos, como que compactados em um só corpo, ser reconciliados com Deus pela cruz de Cristo; Assim eximiamente Paulo, segundo o seu costume, nota a ordem e o modo daquela reconciliação de ambos. Primeiro, com efeito, ensina de que modo Cristo, oferecendo-se a si mesmo a Deus como hóstia viva e santa, pôs fim a todos os sacrifícios Mosaicos, e terminou as sombras precedentes no corpo e os tipos na verdade, o que ele próprio testemunhou no próprio artigo da morte tanto por voz quanto por fato, quando disse Está consumado e por sua força divina rasgou o véu do Templo de alto a baixo; Depois, tirada aquela parede mediana que discriminava os Judeus dos Gentios, conjungiu e compactou a ambos em si mesmo como que em um só rebanho e em um só corpo; Enfim, assim conjuntos em si mesmo, os reconciliou com Deus Pai; E isso, como acrescenta logo em seguida, pela sua cruz id. por aquele sacrifício ἱλαστικὸν [propiciatório] oferecido na cruz, a saber, oferecendo uma única vítima por todos, resgatando a todos pelo mérito de um só preço, a saber, de sua morte; Ora, embora esta Redenção e Reconciliação não tenha sido comunicada e conferida simultaneamente a todos no mesmo momento, do mesmo modo que nem todos os eleitos viviam simultaneamente no mundo, todas estas coisas todavia foram prestadas e peractas por Cristo em favor deles simultaneamente por um único e mesmo ato e momento de tempo. Nem deve ser omitido o que acrescenta para maior declaração desse modo, que isso foi feito matando nelas a saber, na cruz as inimizades id. os nossos pecados expiados pelo seu sangue, os quais tinham gerado aquelas inimizades entre Deus e os homens; pois que o Ap. fala deles, a própria coisa e a série das palavras ensina, do mesmo modo que no vers. 15. mostrara o modo pelo qual a paz fora conciliada entre Judeus e gentios, removido a saber o impedimento e a cerca dos ritos legais que separavam estes daqueles, o que o Ap. chama de ἔχθραν [inimizade], assim aqui se declara o modo pelo qual por aquele único sacrifício de Cristo a paz foi conciliada entre Deus e os homens, a saber, expiados por aquele sacrifício e abolidos inteiramente os pecados de todos os Eleitos que existiram como causa daquele flebil divórcio e das inimizades. Pelas quais coisas patet que o Adversário erradamente argumenta da posição de uma reconciliação para a negação da outra, quando são inseparáveis e são conectadas aqui pelo Apóstolo.
LV. Mas não executa a coisa com mais felicidade a partir da consideração do outro lugar paralelo em Col. i. 20., o qual pretende tratar da reconciliação dos homens com os Anjos e outras Criaturas, não porém com Deus, mesmo a partir da sentença dos nossos. É certo que aqui os Intérpretes se afastam em várias direções: Alguns referem estas palavras à reconciliação com os Anjos, outros compreendem também a divina. Mas para nada dizermos daqueles que a interpretam sobre a reconciliação de todas as criaturas, tanto racionais quanto desprovidas de razão, com Deus, de sorte que aqui se diga que Cristo reconciliou com Deus não apenas os homens mas também os Anjos, imò e todo o mundo; os homens decerto propriamente tirando os pecados deles e a ira de Deus originada do pecado; os Anjos analogicamente tirando a possibilidade de cair e de incorrer na ira divina; a máquina deste Universo metaforicamente libertando-a da servidão da corrupção e restituindo-a à sua nativa integridade e beleza (Ro. viii. 20, 21.) (a qual sentença todavia, para dizermos isso de passagem, parece não se acomodar suficientemente nem à frase da Escritura nem a este lugar, pois como a reconciliação e a pacificação conotem necessariamente a ofensa e a inimizade antecedente, e os Anjos beatos nunca tenham admitido nada de tal, e as outras Criaturas inânimes e brutas não sejam sujeito δεκτικὸν [receptivo] disso, mal se dá senão mui καταχρηστικῶς [abusivamente] que sejam ditos ser reconciliados: além de que a Escritura sempre estabelece Cristo como Mediador decerto dos homens, nunca porém dos Anjos, 1. Tim. ii. 5. Heb. ii. 16.); para nada, digo, dizermos agora mais sobre esta sentença de Homens Doutos: Quem não sabe que não poucos e não ignóbeis Intérpretes referem estas palavras à reconciliação dos homens com Deus? De sorte que pelas coisas que estão nos céus se entendam os fiéis já mortos e recolhidos nos céus (Heb. xii. 23.); pelas coisas que estão na terra os outros fiéis que ou já criam e estavam entre os vivos ou haveriam de crer no futuro? visto que ambos foram reconciliados com Deus por Cristo (Jo. xiv. 6.). Nem esta sentença carece de suas razões gravíssimas, não apenas porque muitíssimas vezes na Escritura estes sincategoremas τὰ πάντα [todas as coisas] ou πάντες [todos] são restringidos a toda a Igreja resgatada por Cristo que compreende todos e cada um dos fiéis tanto do V. quanto do N. T., tanto Judeus quanto Gentios, como em 2. Cor. v. 18. Gál. iii. 22. Ro. xi. 32. &c., opostamente a saber à economia do V. T. na qual a salvação era apenas dos Judeus (Jo. iv. 22.). Mas também a partir do fato de que acrescenta imediatamente para que reconciliasse todas as coisas εἰς αὐτὸν id. ἑαυτῷ [consigo] como o Siro tem לֵהּ, nem é novo que a preposição In com o acusativo seja posta em vez do dativo, visto que entre os Hebreus é frequentíssima a permutação de ל [Lamed] e ב [Bet]: Pois se esta frase quisesse o que quer o herético, deveria ter sido escrito Em um só [εἰς τὸ αὐτὸ] ou em si mesmo [εἰς αὐτὸ] não porém εἰς αὐτὸν ou εἰς αὑτὸν que se refere necessariamente a certa pessoa. Ora, obtenha decerto esta própria sentença que o herético urge sobre a Reconciliação dos homens com os Anjos, a qual não ignoramos ter agradado a Homens Doutíssimos depois de Crisóst., Teodoreto e Fócio, e a qual não negamos apoiar-se em suas razões, visto que não parecem dever ser entendidas outras coisas celestes senão aquelas que comemorara no vers. 16. e que descreve separadamente por Tronos, Principados &c. pelos quais, como é de confissão, insinua os Anjos; Acaso terá algum auxílio para defender sua causa? De modo algum; pois a Reconciliação dos homens com os Anjos supõe e infere necessariamente a reconciliação com Deus, do mesmo modo que os súditos rebeldes que pelo crime de rebeldia tinham atraído sobre si o ódio dos bons cidadãos não podem ser reconciliados com eles a menos que primeiro tenham retornado em graça com o Príncipe: Assim, nunca os homens teriam sido reconciliados com os Anjos, a menos que fosse posta a reconciliação dos homens com Deus por Cristo; Portanto, esta primeira como base e causa da posterior deve ser sempre posta por baixo e conjungida, de sorte que decerto o Ap. não apenas no vers. 22. fala peculiarmente dela aplicando especialmente aos Colossenses o que dissera universalmente no vers. 20., mas também neste próprio versículo não obscuramente a insinua por estas palavras: εἰρηνοποιήσας διὰ τοῦ αἵματος τοῦ σταυροῦ αὐτοῦ [fazendo a paz pelo sangue de sua cruz], para significar decerto que Cristo não por outra razão tirou aquele infeliz dissídio entre nós e os Anjos senão composto aquele que entre nós e Deus intercedia funeestíssima guerra e paz alcançada pelo sangue, pois desde que uma vez Deus deixou de ser infenso e se tornou nosso, disso também segue necessariamente que nada contra nós pode, imò que todas as coisas são nossas (1. Cor. iii. 22.) e os Anjos peculiarmente que já são πνεύματα λειτουργικὰ [espíritos ministradores] para a nossa salvação (Heb. i. 14.) nos amam e servem aos nossos proveitos (Luc. ii. 9, 10. & xv. 10.).
LVI. Para a 6ª Resp.: que é impudente a corrupção deste lugar como se o ἱλασμὸς [propiciação] de Cristo não fosse outra coisa senão a sua Advocação ou Intercessão da qual dissera no vers. 1., quando todavia manifestamente se distingue dela. E decerto distam longa e largamente: o ἱλασμὸς foi feito na terra, o ἐμφανισμὸς [apresentação/intercessão] nos céus; o ἱλασμὸν ele absolveu morrendo (Rom. iii. 24.), mas o ἐμφανισμὸν ele executa continuamente vivendo (Heb. vii. 25.); por aquele mereceu uma vez o benefício da salvação, por este todavia conserva sempre e aplica o mesmo; E decerto por nenhuma outra causa o Apóstolo acrescenta à intercessão a aplacação senão porque aquela se apoia nesta como em seu fundamento, pois nem poderia interceder senão pela virtude do sangue uma vez derramado na cruz, como o Pontífice sob o V. T. devia levar consigo o sangue da vítima para o Santuário ao ir interceder pelo povo; nem se prova o contrário quer a partir de Heb. vii. 24., pois trata-se ali decerto da interpelação de Cristo perante Deus cujo efeito é dito ser a perfeita salvação dos que por ele se aproximam de Deus, mas não excluída a satisfação ou a oblação do sacrifício, antes ela é suposta manifestamente no vers. 27. para que assim atribua a Cristo estes dois atos sacerdotais minimamente a serem divindidos um do outro, o que também fez em outro lugar (Heb. ix. 12, 14.); Quer a partir de Heb. ii. 17., pois é dito Pontífice fiel não apenas porque guarde a promessa inviolada, mas potissimamente porque execute seu múnus mediador fielmente pela misericórdia pela qual foi movido para conosco.
LVII. Finalmente, para a 7ª dizemos que o Adversário supõe gratuitamente o que está em questão: que o Verbo ἱλάσκεσθαι [aplacar/ser propício] não importa outra coisa senão a mera indulgência de perdão e graça da parte do ofendido como סלח [Salach] entre os Heb. é perdoar; Pois já tanto pela força da voz quanto pela natureza da coisa ensinamos que ambos devem ser conectados, quando Deus não pode ser propício de sorte que condone a menos que primeiro se tenha satisfeito à Justiça. Em segundo lugar, visto que não apenas Deus é dito ἐξιλάσκεσθαι [aplacar plenamente] mas Cristo mesmo é nosso ἱλασμὸς [propiciação] e decerto no sangue, certamente aquele ἱλασμὸς não pode ser tomado pelo ato mesmo de remitir que é de Deus, mas pela causa meritória pela qual aquela remissão é obtida da Divindade aplacada; não tanto ativamente e eficientemente porque tire e remeta os pecados, mas objetivamente e meritoriamente porque procura pelo mérito do sangue que sejam remetidos. Acresce que Cristo é dito realizar estas coisas como Pontífice perante Deus: πιστὸς ἀρχιερεὺς τὰ πρὸς τὸν Θεὸν εἰς τὸ ἱλάσκεσθαι τὰς ἁμαρτίας τοῦ λαοῦ. Heb. ii. 17. [fiel sumo sacerdote nas coisas de Deus para expiar/aplacar os pecados do povo], o que é diferente daquilo que disso segue entre os homens e o povo, remeter-lhes os pecados. Debalde porém aqui nos repõe o tipo do Propiciatório antigo como se Cristo não por outra causa fosse assinalado com este título senão porque Deus nele se nos mostra aplacado, e patenteou por ele tudo o que nos quis fazer saber. Pois além de que nem todos consentem que Paulo em Ro. iii. 25. tenha respeitado à Tampa da Arca, mas querem antes ter referido aos sacrifícios ἱλαστικὰ [propiciatórios] do V. T., ou que tenha dito que Cristo é o Propiciador no gênero masculino não Propiciatório no neutro; Acresce que nem assim podem obter nada; Certamente entre o Tipo e o Antítipo deve ocorrer ὁμοιότης [semelhança] mas não imediatamente ταυτότης [identidade] ou ἰσότης [paridade], semelhança, mas não igualdade. Portanto, embora a tampa da Arca tivesse sido dita Propiciatório apenas declarativamente; não segue que Cristo não possa ser dito assim eficazmente e meritoriamente, porque aquela foi apenas tipicamente e simbolicamente: Mas Cristo verdadeiramente e realmente, por isso não se diz apenas ἱλαστήριον, mas ἐν αὐτοῦ αἵματι no seu sangue, a saber sob a razão de vítima que é oferecida para procurar a propiciação; E decerto como todos os Tipos do V. T. foram inadequados, não deve parecer admirável se cada um separadamente não pôde exibir plena e integralmente algum mistério, o que enfim é representado em todos simultaneamente tomados; A tampa, portanto, tenha sido decerto algum tipo de Propiciação, mas o mesmo foi também o sangue da vítima que era levado pelo sumo Pontífice para o Santuário, e aspergido sobre a tampa, por cuja força e eficácia se obtinha aquela bênção de Deus e a testificação da εὐδοκίας [beneplácito] que era dada ao povo do meio dos Querubins: Assim como em seu sentido o ἱλαστήριον do V. T. aplacava o Deus irado com os Israelitas, a saber tipicamente por aquela aspersão de sangue, Cristo prestou isso verdadeiramente e realmente por seu sangue no qual e pelo qual e nosso ἱλαστήριον, e nosso ἱλαστήριος e nosso ἱλασμὸς é pleníssimo perante Deus; Assim não apenas declarativamente como Profeta em quem e por quem Deus fala boas palavras, mas também meritoriamente como sacerdote e vítima que aplaca a ira da divindade, obteve este nome; O que também se confirma evidentemente pelo fato de que não apenas é dito ἱλαστήριον no sangue, o que já observamos, mas também πρὸς ἔνδειξιν τῆς δικαιοσύνης αὐτοῦ vers. 26. [para demonstração de sua justiça]; pois isto seria tanto falso quanto dito debalde a menos que se tivesse satisfeito à justiça divina pelos nossos pecados com o sangue de Cristo; Pois o que Volquélio pretende que isso é afirmado pelo Apóstolo porque então Deus se nos mostrou mui verdadeiramente aplacado quando entregou seu filho unigênito à morte mais truculenta por causa de constituir a nossa salvação, está tanto alheio a toda razão quanto repugna à força da voz. Pois se antecedentemente à morte de Cristo Deus estivesse aplacado conosco, que necessidade teria o Pai de não poupar o próprio filho (Rom. viii. 32.) e sujeitá-lo à maldição da Lei (Gál. iii. 13.) e o filho de pôr sua alma em sacrifício pelo pecado (Is. liii. 10.) e derramar o sangue em remissão dos pecados (Mat. xxvi. 28.), as quais coisas manifestamente ensinam que o sangue de Cristo é proposto não como efeito ou sinal da divindade aplacada, mas como causa? o que também a própria voz ἱλαστήριος confirma, pois como σωτήριον é dito não o que indica a salvação dada, mas o que realiza e procura a própria salvação, καθαρτήριον, não o que declara a purificação, mas o que a opera: Assim ἱλαστήριον absolutamente nota aquilo cuja eficácia não se indica apenas, mas se perfaz a própria propiciação.
LVIII. Finalmente, para a 8ª Resp.: Uma é a aplacação dos homens, Outra a de Deus; Aquela pode às vezes ser feita por preces quando por elas os homens se deixam amansar, mas esta de modo algum, porque repugna à própria justiça natural de Deus deixar o pecado plenamente impune (Ro. i. 32.), nem pode remitir deste seu direito eterno e imutável mais do que negar-se a si mesmo, ou deixar de exercer seu domínio sobre as Criaturas; Assim esta aplacação não foi meramente deprecatória, mas também satisfatória, como a que não foi feita por preces e persuasões, mas mediante o preço real do sangue interveniente (1. Ped. i. 18, 19. 1. Cor. vi. 20.), nem Cristo seria dito feito por nós ἱλασμὸς senão na medida em que se deu por nós como ἀντίλυτρον, e por si mesmo fez a purificação dos pecados (Heb. i. 3.).
LIX. De todas estas coisas, porém, assim disputadas já se torna claro o que buscávamos, a saber, que Cristo verdadeiramente satisfez por nós; Pois tendo ele desempenhado o múnus de Mediação entre Deus e nós, e por esta sua mediação nos tenha resgatado, dando-se a si mesmo por nós em ἀντίλυτρον, e dando este preço de redenção, nos tenha reconciliado com Deus removendo de ambos os lados as causas de ódio e alienação, certamente é necessário que Ele tenha exibido a Deus uma verdadeira e pleníssima satisfação por nós, o que devia ser demonstrado: De resto, a Escritura não nos fornece apenas estes argumentos para comprovar este salubérrimo mistério, há muitos outros que, para não sermos prolixos, noutra ocasião, ἐὰν ὁ Κύριος θελήσῃ καὶ ζήσωμεν [se o Senhor quiser e vivermos], havemos de examinar. Já é tempo decerto de tirar a mão da obra. A Ti, porém, Senhor Jesus, Potentíssimo Redentor e Salvador nosso, que nos amaste e de todos os nossos pecados nos lavaste com o teu precioso sangue, assim como ao Pai e ao Espírito Santo, santíssima e gloriosíssima Trindade, seja a honra, o louvor e a glória pelos séculos dos séculos. Amém.
EPÍMETROS MISCELÂNEOS.¶
I. A Sagrada Escritura é por si mesma tão αὐτόπιστος [digna de crédito por si própria] que de modo algum, quer quanto a si, quer quanto a nós, toma emprestada sua Autoridade da Igreja.
II. O Livre-Arbítrio nunca falta ao homem em qualquer estado que enfim se encontre, todavia retamente se afirma que não há livre-arbítrio no estado de pecado.
III. Embora os pecados das Criaturas estejam sujeitos à Providência divina, todavia, sem blasfêmia, Deus não pode ser dito autor ou causa do pecado.
IV. Não existe morte natural.
V. No negócio da Justificação, retamente se distingue a Imputação da Justiça da remissão dos pecados, como a causa do efeito.
VI. A nossa secessão da Igreja Romana foi mui justa e sumamente necessária.