DISPUTA TEOLÓGICA¶
SOBRE O CÍRCULO PONTIFÍCIO.¶
Respondente: ELIA SAURINO de Pratalgide.
PRIMEIRA TESE.
I. Entre os diversos argumentos que os Ortodoxos costumam usar contra os Pontifícios na desgastante questão sobre a Autoridade da Escritura, destaca-se a acusação do Círculo. Os adversários caem nesse erro perpetuamente ao tentarem demonstrar essa autoridade, pois se esforçam para provar a Escritura pela Igreja e, inversamente, a Igreja pela Escritura. Para escaparem desse absurdo, eles costumam buscar diversos refúgios. Além disso, não se envergonham de nos atribuir o mesmo Círculo que lhes objetamos, alegando que demonstramos a Escritura pelo Espírito e o Espírito pela Escritura. Por isso, julgamos útil dedicar algum esforço para esclarecer brevemente este argumento. Queremos defender a justiça da nossa acusação contra as objeções dos adversários e, ao mesmo tempo, provar a injustiça da acusação deles, confirmando a verdade da nossa posição.
II. Devemos demonstrar aqui duas coisas. Primeiro, que os nossos autores agem com total justiça ao objetarem que os Pontifícios usam um progresso circular para estabelecer a fé na Autoridade da Escritura. Nenhum artifício deles pode eliminar esse problema. Segundo, que eles agem com extrema injustiça ao atribuírem tal círculo à nossa doutrina. Antes, porém, faremos algumas observações gerais sobre o Círculo, para que fique claro o que ele é e por que essa forma de argumentar é viciosa.
III. O Círculo (em grego κύκλος) define-se como uma prova recíproca na qual se conclui e demonstra uma coisa pela outra sucessivamente. Usa-se o termo metaforicamente porque a prova parece retornar sobre si mesma, como um círculo. Isso ocorre quando, após demonstrar uma conclusão a partir de proposições, as mesmas proposições são provadas por aquela conclusão. Assim, a conclusão vira proposição e a proposição vira conclusão. Aristóteles tratou disso várias vezes, especialmente nos livros 1 e 2 dos Analíticos Anteriores, caps. 5, 6 e 7. Ali, ele mostra eficazmente que a demonstração circular — pela qual alguns filósofos antigos afirmavam que tudo poderia ser conhecido — é absurda e inútil. Alguns distinguem entre o Círculo lógico e o ἄλογον ou sofístico. O Círculo lógico consistiria em dois silogismos, onde um deduz o outro: a conclusão do primeiro torna-se uma das premissas do segundo, unindo-se à outra premissa invertida. Disso resulta a conclusão que fora a premissa maior do primeiro silogismo. Por exemplo: Todos os que Cristo justifica têm paz com Deus; Ora, todos os que creem são justificados; Logo, todos os que creem têm paz com Deus. Daí deduz-se o segundo silogismo: Todos os que creem têm paz com Deus; Ora, todos os justificados creem; Logo, todos os justificados têm paz com Deus. Ou simplesmente ocorre quando o termo médio do primeiro silogismo vira a conclusão do segundo, e a conclusão do primeiro vira o termo médio do segundo. Assim: Quem tem paz é justificado; os fiéis têm paz; logo, os fiéis são justificados. Retomando a conclusão como meio: Quem é justificado tem paz; os fiéis são justificados; logo, os fiéis têm paz. Assim, pela paz (efeito), provo a justificação; e pela justificação (causa), provo a paz. Embora alguns chamem isso de Círculo, outros preferem o termo Regresso. O Regresso ocorre na conversão da demonstração do quê (ὅτι) para a demonstração do porquê (διότι) e vice-versa, quando avançamos do efeito para a causa e retornamos da causa para o efeito. Quando a causa é desconhecida, nós a inferimos pelo efeito mais conhecido; depois, regressando da causa agora conhecida distintamente, demonstramos o mesmo efeito.
IV. Propriamente falando, não existe Círculo que não seja vicioso. Ele ocorre quando há um progresso infinito de provas, onde se demonstra a mesma coisa por si mesma, ou o duvidoso pelo duvidoso, num giro sem fim. Dois elementos são essenciais para um Círculo formal e perfeito: primeiro, que ele parta da mesma coisa para a mesma coisa; segundo, que siga pelo mesmo caminho e pelo mesmo gênero de causa, mantendo o mesmo tipo de conhecimento. Ou, como dizem outros, sem adquirir nenhum novo conhecimento dos termos. Por isso, Tannerus e Gretserus afirmam que o Círculo é um progresso da mesma coisa para exatamente a mesma coisa, sem qualquer variação na razão do conhecimento. Isso acontece quando o consequente, inferido do antecedente, baseia-se apenas no conhecimento desse antecedente e logo é usado para provar esse mesmo antecedente. Por exemplo, usando o modelo de Aristóteles: haverá Círculo se demonstrarmos B por A, e depois demonstrarmos A por B, sendo ambas demonstrações principais que declaram o porquê do efeito através da causa próxima. Já o Regresso ocorre entre causa e efeito quando eles se alternam e o efeito nos é mais conhecido que a causa. Como devemos sempre partir do que nos é mais conhecido, primeiro demonstramos a causa ignorada pelo efeito conhecido; depois de conhecer a causa, regressamos dela para demonstrar o efeito, para sabermos o porquê de ele existir. Portanto, a diferença entre o círculo e o regresso é esta: no regresso, o primeiro processo é uma demonstração de fato, enquanto o segundo é uma demonstração do porquê. No Círculo, ambos os processos pretendem ser demonstrações do porquê.
V. Os filósofos concordam que não se pode admitir tal Círculo. Se o aceitássemos, a mesma coisa seria anterior e posterior a si mesma, mais conhecida e menos conhecida, causa e efeito — o que é impossível até de imaginar. Pois, para provar algo, o argumento deve ser anterior e mais conhecido; mas se ele mesmo é provado pelo outro, torna-se necessariamente posterior e menos conhecido. Alguém dirá que o mesmo se aplica ao regresso, tornando a mesma coisa mais conhecida e menos conhecida. E dirá que não se resolve isso afirmando que a causa é mais conhecida que o efeito segundo a natureza, mas o efeito é mais conhecido segundo nós. Afinal, ambas as demonstrações são feitas para nós, não para a natureza, e devem partir do que nos é mais conhecido. Respondemos que a razão é diferente em cada caso. No regresso, não há o mesmo caminho nem o mesmo conhecimento. No primeiro passo, ao inferir a causa pelo efeito, o efeito nos é mais conhecido que a causa por um conhecimento confuso. No segundo passo, ao provar o efeito pela causa, a causa nos é mais conhecida que o efeito por um conhecimento distinto. O primeiro processo é a posteriori (ὅτι); o segundo é a priori (διότι). Não é, portanto, um progresso da mesma coisa para a mesma coisa. Embora parta do efeito para o mesmo efeito, o fim da demonstração não é o efeito em si, mas a ciência dele. Esta ciência não é a mesma no fim e no início do regresso: começa-se com um conhecimento confuso e termina-se com um conhecimento distinto e perfeito. Avançamos do conhecimento de que algo existe para o conhecimento do porquê de existir. No Círculo, porém, caminha-se da mesma coisa para a mesma coisa, pois em ambos os passos o termo médio é a causa próxima da extremidade maior. Trata-se de um progresso de um conhecimento distinto para o mesmo conhecimento como distinto, pelo mesmíssimo caminho. Nada pode ser mais absurdo que isso.
VI. Estabelecido isso, demonstra-se facilmente que os Pontifícios se prendem em um Círculo inexplicável ao provarem a autoridade da Escritura. Sempre que há um progresso da mesma coisa para a mesma coisa, conhecida do mesmo modo e pelo mesmo caminho, temos um Círculo formal. A prática e a doutrina dos Pontifícios mostram que eles procedem assim. Pela infalibilidade da Igreja ao testemunhar (na qual creem por fé divina), eles creem na autoridade da Palavra por fé divina; e, por sua vez, pela autoridade da Palavra de Deus (na qual creem por fé divina), creem na infalibilidade da Igreja ao testemunhar. Este é um processo que vai da infalibilidade da Igreja crida por fé divina para a mesma infalibilidade crida do mesmo modo; logo, da mesma coisa para a mesma coisa pelo mesmo caminho. Falemos mais claramente: se perguntamos aos Pontifícios como sabemos que a Escritura é Canônica e divina, eles respondem imediatamente que é pelo testemunho da Igreja. Mas se perguntamos por que creem na Igreja, dizem que é porque ela é guiada pelo Espírito infalível. E por que creem nisso? Respondem que é porque a Escritura atesta que ela é coluna e firmeza da verdade (1 Tm 3:15) e possui a promessa do Espírito Santo (Jo 16:13). Se perguntamos novamente como podemos ter certeza da verdade deste testemunho na Escritura, dizem que é porque a Escritura é a palavra de Deus. E por que creem que é a Palavra de Deus? Porque a Igreja, guiada pelo Espírito infalível, assim o diz. Assim, retornam ao ponto de partida. Não há aqui nem uma questão diferente, nem um caminho diferente. Em ambos os casos, discute-se a razão e o argumento pelo qual cremos, e não a faculdade ou o instrumento. Pois, quando provam a Escritura pela Igreja, entendem que a fé na Escritura se baseia no testemunho da Igreja como um argumento; ou seja, esse testemunho é a causa pela qual cremos. Por outro lado, quando demonstram a infalibilidade da Igreja pela Escritura, querem que o testemunho da Escritura seja a causa e o argumento pelo qual cremos na Igreja. Trata-se, portanto, de um progresso da mesma coisa para a mesma coisa, de um conhecimento distinto para o mesmo conhecimento, o que constitui a razão formal do Círculo.
VII. Daqui se vê que os Pontifícios procedem ao infinito em suas provas. Eles não possuem um primeiro credível sobre o qual a fé se apoie inicialmente e no qual se resolva por último. Isso é o maior dos absurdos. Se existisse um primeiro credível, ou seria a Escritura ou a Igreja. Mas nenhum dos dois pode sê-lo na hipótese deles. Não a Escritura, pois crê-se nela por causa da Igreja; nem a Igreja, pois crê-se nela por causa da Escritura. Sem que a Escritura ensinasse sua verdade e autoridade infalível, nossa fé nunca descansaria no testemunho da Igreja. Assim, o processo é infinito: da Escritura para a Igreja e da Igreja para a Escritura. Por mais que tentem, jamais conseguirão se livrar deste labirinto inexplicável e do laço no qual estão presos.
VIII. Eles tentam escapar de vários modos, buscando refúgio em diversas distinções. Mas, ao aproximarmos a tocha da verdade, a falsidade e a fraqueza delas tornam-se evidentes. Analisaremos apenas as respostas principais que têm aparência de verdade. Primeiro, Gregório de Valença distingue entre a causa principal pela qual cremos e a condição necessária para crer. Ele afirma que cremos na infalibilidade da Igreja por causa da autoridade da Palavra (causa principal), mas cremos na autoridade da Palavra devido ao testemunho da Igreja não como causa principal, mas como condição necessária. Logo, haveria caminhos diferentes. Segundo, ele distingue a causa da fé em si (onde a fé descansa como razão principal) da causa da aceitação da fé (que nos impele a começar a crer). Se perguntarmos pela causa da fé em si, devemos parar na revelação divina como último ponto, pois ela seria a única razão da nossa fé. Mas o testemunho da Igreja seria a causa da aceitação da fé, a "primeira porta" para crer nos livros canônicos. Becano usa a mesma resposta em seu opúsculo sobre o Círculo Calvinista.
IX. Mas ambos ou enganam com termos técnicos ou abandonam a própria causa. 1. Se o testemunho da Igreja não é a causa principal da fé, então não se crê na autoridade da Palavra por causa dele; logo, a fé não pode se resolver nesse testemunho. Contudo, a própria doutrina pontifícia diz o contrário. Belarmino afirma: "não sabemos com certeza o que Deus revelou, exceto pelo testemunho da Igreja". Segue-se que a revelação divina não é crida por si mesma, mas pelo testemunho da Igreja. Ele diz também: "os católicos creem no que creem porque Deus revelou; mas creem que Deus revelou porque ouvem a Igreja declarando-o". Se isso é verdade, a Igreja é propriamente a causa da fé, não apenas uma condição. 2. A condição necessária para crer pode significar duas coisas: ou apenas o instrumento e ministério pelo qual as Escrituras nos são entregues (o que aceitamos, mas rompe o consenso com os Pontifícios, que exigem que a Igreja seja o fundamento), ou um fundamento que fornece argumentos. Se Valença quer dizer fundamento, então não se crê na Escritura por si mesma, mas pela Igreja, e o círculo permanece. 3. A distinção entre causa da fé em si e causa da aceitação da fé é inútil. O que fundamenta a fé em si também deve fundamentar sua aceitação, pois não existe fé que não seja aceita pelo sujeito. 4. Se dizem que a autoridade da Escritura deve ser crida pela revelação divina, mas não podem mostrar onde está essa revelação, caem em contradição. Se a revelação é a própria Escritura, ela se manifesta por si mesma (o que nós defendemos). Se é uma tradição não escrita, a mesma pergunta volta: como sabemos que ela é divina? E assim ao infinito. Valença foi tão pressionado por isso que admitiu que a revelação divina revela a si mesma sem outra revelação. 5. Se paramos na revelação divina, não precisamos ir ao testemunho da Igreja; mas isso destrói o fundamento dos adversários, que dizem ser impossível saber o que Deus revelou sem a Igreja.
X. II. Outros respondem que o caminho não é o mesmo: a autoridade da Palavra é crida pelo testemunho infalível da Igreja (mais conhecido para nós), e a infalibilidade da Igreja é crida pela autoridade da Palavra (mais conhecida por natureza). Malderus e outros usam a distinção entre autoridade em si e autoridade para nós: a Escritura teria autoridade para nós através da Igreja. Respondemos que essa distinção é vã e inadequada. Como a autoridade é um termo relativo, o que dá autoridade a algo em si também a dá para nós. Se a Palavra tem autoridade em si sem a Igreja, deve tê-la para nós também. O motivo pelo qual sou levado a crer na Palavra é o mesmo que lhe confere autoridade. 2. Esse refúgio não desata o nó. No Círculo Pontifício, não há variação de conhecimento. Eles conhecem a autoridade da Palavra pelo testemunho da Igreja com fé divina; e conhecem a infalibilidade da Igreja pela Palavra com fé divina. É a mesma fé e o mesmo conhecimento. 3. É falso supor que se crê na Escritura por causa da Igreja; ela é apenas o instrumento. Se ela servisse de motivo, seria secundário e não fundamentaria a fé. 4. Se a infalibilidade da Igreja nos fosse mais conhecida que a autoridade da Palavra, teríamos de crer nela antes da Palavra, seja por fé divina ou humana. Não por fé divina, pois esta deve se apoiar na Palavra. Se for fé humana, ela não pode fundamentar o ato de fé divina na autoridade da Palavra.
XI. 5. Existem dois tipos de conhecimento: confuso e distinto. A Igreja pode ser mais conhecida que a Palavra por um conhecimento confuso, como um arauto que nos apresenta a Palavra ainda desconhecida. Assim, o testemunho da Igreja pode ser um meio introdutório e ministerial. Mas isso apenas prepara para a fé; não pode gerá-la. Essa fé seria meramente humana e falível, baseada em seu fundamento humano, como a mulher samaritana que levou seus concidadãos a Cristo — eles depois declararam que criam não pela palavra dela, mas porque ouviram o próprio Cristo (João 4:42). Mas se falamos de conhecimento certo e distinto para fundamentar a fé divina, negamos que a Igreja seja mais conhecida que a Palavra, pois só a Palavra fornece esse conhecimento distinto da Igreja.
XII. III. Alguns tentam se defender alegando que só há Círculo quando o consequente provado pelo antecedente não tem outra base de conhecimento. Mas aqui, dizem, a infalibilidade da Igreja não é crida apenas pela Escritura, mas por motivos comuns da fé. E a autoridade da Escritura seria persuadida por esses mesmos motivos comuns. Assim argumentam Gretserus, Tannerus e o Cardeal Richelieu. Richelieu afirma que o conhecimento da Igreja não depende necessariamente da Escritura, pois a Igreja existiu antes de Moisés e antes do Novo Testamento ser escrito. Ele alega que podemos conhecer a Igreja Romana como verdadeira porque: 1. nunca foi legitimamente convencida de falsidade; 2. possui todas as marcas da verdadeira Igreja (Antiguidade, perpetuidade, visibilidade, etc.) reconhecíveis pela luz natural.
XIII. Embora se orgulhem desse argumento, sua aplicação é absurda. 1. Supor que a autoridade da Palavra pode ser conhecida fora do testemunho da Igreja contradiz a própria tese deles de que nada se conhece com certeza sem a Igreja. Se admitem que a Palavra se prova por marcas próprias e internas (motivos comuns), a necessidade do testemunho da Igreja cai. 2. Esses "motivos comuns" ou são certos, ou não. Se são certos, destrói-se o princípio papista de que só a Igreja basta para a fé. Se não são certos (como eles admitem ao chamarem essa fé de "conjectural"), não podem fundamentar a fé divina, que exige certeza absoluta.
XIV. 3. Afirmo que é totalmente falso que se possa conhecer a verdade ou infalibilidade da Igreja com certeza fora da Palavra. Razões: 1. A Igreja fundamenta-se na Palavra; não há Igreja sem vocação, e não há vocação sem a Palavra (Ef 2:20). 2. A fé vem pelo ouvir e o ouvir pela Palavra (Rm 10:14); logo, a verdade da Igreja deve ser mantida pela Palavra. 3. O modo mais seguro de investigar a Igreja é por suas marcas. Estas marcas nos são manifestadas pela Escritura. Não pela Igreja (pois ela é o que se questiona) e nem por motivos comuns da razão natural. Se a razão natural bastasse para dar certeza sobre a Igreja, por que não bastaria para a Escritura? Se a razão não basta para a Escritura sem a Igreja, também não basta para a Igreja. Motivos puramente naturais não fundam fé divina. 4. Os Pais da Igreja concordam: Agostinho diz que aprendemos a Igreja nas Escrituras e que ela deve ser demonstrada pelos oráculos divinos, não por documentos humanos. 5. Os próprios adversários confessam isso em outros momentos. Stapleton diz que a Igreja deve ser buscada nas Escrituras. Becano admite que a Escritura define a questão da Igreja como norma infalível. Na prática, quando pressionados, os Pontifícios sempre recorrem à Escritura para provar sua Igreja, o que mostra que reconhecem que a certeza só vem da Palavra.
XV. As razões do Cardeal Richelieu não ajudam em nada. A primeira confunde a Escritura materialmente (a substância da doutrina) com a Escritura formalmente (o ato de escrever). Não negamos que a Igreja existiu sem o código escrito no início, mas negamos que existiu sem a Palavra de Deus (revelação oral aos Patriarcas). A segunda razão assume o que deveria provar: que a luz natural pode identificar a verdadeira Igreja. Já mostramos que isso é falso. Além disso, as marcas que ele propõe (visibilidade, etc.) são falsas e não pertencem exclusivamente à Igreja. E quando ele gaba que a Igreja Romana nunca foi convencida de erro, demonstra ignorância ou impudência, pois inúmeras obras ortodoxas demonstraram claramente os erros de Roma.
XVI. IV. Outros distinguem entre o objeto formal da fé e a regra da fé. Dizem que creem na Igreja pela autoridade da Palavra (objeto formal), mas creem na Palavra pelo testemunho da Igreja (regra da fé). Respondemos que isso não resolve nada. O objeto material é o que cremos (Criação, Redenção). O objeto formal é o porquê cremos (autoridade de Deus). A Regra da fé é o sistema ou coleção de tudo o que deve ser crido. Ela difere do objeto formal: a regra é como uma causa exemplar que devemos seguir; o objeto formal é o fundamento. A regra limita o que deve ser crido; o objeto formal especifica e fundamenta o assentimento. A fé não se resolve na regra por último, mas no objeto formal.
XVII. A vaidade dessa distinção é clara: 1. Se admitem que a fé se apoia na autoridade da Palavra como objeto formal, então a análise final da fé termina na Palavra, não na Igreja. Isso destrói a posição deles. Stapleton afirma explicitamente que a razão formal da fé é "Deus revelando através da Igreja". Se a razão formal é Deus falando pela Igreja, então eles mentem ao dizer que não usam a Igreja como objeto formal. 2. É falso que a Igreja seja a regra da fé. Somente a Palavra é a norma perfeita, à qual nada deve ser acrescentado. Se a Igreja não é a regra, a Palavra não pode ser crida por causa da Igreja como regra.
XVIII. V. Alguns recorrem a diferentes perspectivas de pessoas ou regras. Dizem que o Círculo não ocorre quando se lida com pessoas diferentes (um que nega a Igreja, outro que nega a Escritura). Respondemos que nossa acusação não é apenas sobre como eles convencem os outros, mas sobre como fundamentam a sua própria fé. 2. Essa resposta supõe que quem duvida da Igreja pode ser convencido pela Escritura, mas isso contradiz a tese deles de que nenhuma controvérsia se decide pela Escritura sem a interpretação infalível da Igreja. Sem crer primeiro na Igreja, eles não permitem que ninguém creia firmemente em nada da Escritura.
XIX. O argumento das "causas mútuas" também não funciona. 1. É falso que existam várias regras de fé; só pode haver uma regra total e perfeita. 2. Demonstrações recíprocas servem para ilustrar o consenso, não para provar a autoridade fundamental de uma pela outra. Os Pontifícios fazem a autoridade da Escritura depender necessariamente da Igreja e vice-versa. Isso é impossível: não se poderia crer em uma sem crer na outra primeiro. 3. O Regresso Aristotélico é diferente: nele, adquire-se novo conhecimento (do confuso ao distinto). No Círculo Pontifício, não há nada novo: vai-se da autoridade crida por fé divina para a mesma autoridade crida pelo mesmo modo. No regresso, os gêneros de causa mudam; no Círculo deles, pergunta-se sempre o mesmo "porquê" (causa objetiva).
XX. VI. Finalmente, Stapleton afirma que não há absurdo em a Igreja depender da Escritura para nós, e a Escritura depender da Igreja para nós. Compara isso a João Batista testemunhando de Cristo e Cristo de João. Respondemos: 1. Dar testemunho é diferente de conferir autoridade. Cristo disse: "Eu não recebo testemunho de homem; tenho um testemunho maior que o de João". João era apenas um ministro que levava a Cristo, não o fundamento da fé n’Ele. 2. Confundem testemunho necessário e não necessário. O testemunho necessário é aquele sem o qual não há certeza sobre o fato. É absurdo dizer que dois testemunhos dependem necessariamente um do outro, pois isso faria a mesma coisa ser mais e menos conhecida que si mesma simultaneamente. Se não posso crer na Escritura sem a Igreja, e não posso crer na Igreja sem a Escritura, nunca poderei começar a crer em nada.
XXI. Mas talvez sejamos culpados do que objetamos aos outros. Os adversários inventaram o "Círculo Calvinista", dizendo que provamos a Escritura pelo Espírito e o Espírito pela Escritura. Responderemos mostrando a nossa doutrina. Os Ortodoxos distinguem entre a Causa eficiente (pela qual cremos) e a objetiva (por que cremos). A causa eficiente é o Espírito Santo, que gera a fé em nós. A causa objetiva (o motivo) é a própria Palavra com suas marcas divinas e o brilho da divindade que nela resplandece, como o sol se prova pela sua própria luz. Se perguntam pela causa objetiva, respondemos: a Palavra de Deus. Se perguntam pela causa eficiente, respondemos: o Espírito Santo. Dizemos que a Escritura é demonstrada pelo Espírito no sentido de que a sua força e eficácia geram fé em nós. Mas para que ninguém se engane com um falso espírito, esse espírito deve ser provado pela própria Escritura, através das marcas que ela nos dá para distinguir o Espírito de Deus do espírito do mundo. A Escritura prova o espírito objetivamente (por razões), não efetivamente.
XXII. Assim, não procedemos ao infinito e nem em círculo. Paramos num último credível: a própria Sagrada Escritura, que é crida por si mesma. Não há Círculo porque as perguntas são diferentes. Quando provamos a Escritura pelo Espírito, falamos da causa eficiente (quem nos dá a capacidade de crer). Quando provamos o Espírito pela Escritura, falamos da causa objetiva (qual o argumento para crer). Resolvemos a fé na Escritura como nosso objeto formal e primeiro credível, e no Espírito como causa eficiente principal. Se perguntas como sei que a Escritura é divina, respondo: pelo Espírito Santo que atesta em meu coração. Se perguntas como sei que tenho o Espírito, respondo: pelos frutos e caracteres descritos na Escritura. Se perguntas como sei que a Escritura é autêntica em si mesma, respondo: porque ela é a Palavra de Deus, e isso se prova pelas marcas celestiais nela impressas. Não vamos além disso. Perguntar "por que a luz ilumina" é tolice. Cremos na Palavra imediatamente no gênero de causa objetiva, embora a operação interna do Espírito seja necessária no gênero de causa eficiente. Isso prova que não há Círculo.
XXIII. Dirão que alguns Ortodoxos parecem colocar o Testemunho do Espírito no mesmo nível que o Testemunho da Igreja (causa objetiva). Respondemos: 1. Se alguns falaram assim, foram menos precisos. A questão central não é se o Espírito é necessário para crer (isso os Pontifícios admitem), mas se o motivo principal da fé é o testemunho da Igreja ou as razões extraídas da própria Palavra. 2. O Testemunho do Espírito pode ser entendido em sentido estrito (a força divina que produz fé — causa eficiente) ou em sentido amplo (unindo essa força ao motivo que o Espírito usa para nos persuadir — a própria doutrina celestial aplicada ao coração). A Confissão Galicana usa o sentido amplo. Ela não exclui a Escritura, mas destaca que o Espírito aplica a verdade da Palavra aos nossos corações, em oposição ao juízo humano que é cego para as coisas de Deus.
XXIV. Antes de concluir, devemos refutar duas acusações: que nossa doutrina é fanática (anabatista) e que o Espírito é "privado". A primeira é caluniosa. Os fanáticos separam o Espírito da Escritura e seguem revelações extraordinárias. Nós defendemos que o Espírito nunca age sem a Palavra (Is 59:21). A Palavra propõe externamente; o Espírito opera internamente. O Espírito não traz novas revelações, mas sela a doutrina já entregue no Evangelho. Ele nos guia para a Escritura.
XXV. Também é injusto chamar esse Espírito de "privado" no sentido de "arbitrário". O Espírito pode ser chamado de privado apenas por ser dado a cada fiel individualmente (subjetivamente). Mas ele não é privado quanto à sua origem (originalmente), pois vem de Cristo para toda a Igreja. Assim como não dizemos que o sol é "privado" só porque cada um o recebe individualmente, não dizemos que o Espírito é privado. A fé é própria de cada um, mas o objeto da fé é comum a todos. O texto de Pedro (2 Pe 1:20) sobre a "interpretação privada" (ἰδίας ἐπιλύσεως) significa que a profecia não vem do arbítrio humano, mas do Espírito Santo. O intérprete legítimo da Escritura é o próprio Espírito que a inspirou. Pedro não nega que o Espírito ateste a verdade no coração do fiel; ele apenas diz que a origem da verdade não é o homem. Esse testemunho interno serve para a persuasão pessoal, não para a convicção pública de outros (que exige os argumentos da própria Palavra). Concluímos, portanto, que unimos corretamente o Espírito e a Palavra, provando um pelo outro sem cair em Círculo.
COROLÁRIOS DO RESPONDENTE.¶
I. Existe algum Juiz supremo e infalível das controvérsias além do Espírito Santo falando na Escritura? Negativo, contra os Pontifícios.
II. Existe em Deus uma "Ciência Média" ou um decreto condicionado? Negativo, contra os Socinianos e Remonstrantes.
III. A vontade de Deus chamada de "preceito" (do signo) e a de "beneplácito" conflitam entre si? Negativo; na verdade, toda vontade do signo é também, em sentido sadio, de beneplácito.
IV. O Direito de Deus se distingue corretamente em Natural e Positivo, de modo que algumas coisas são boas porque Deus quer, e outras Deus quer porque são boas? Afirmativo.
V. Pelo fato de Deus concorrer para as ações más dos homens com uma permissão e direção eficaz, pode-se dizer que Ele concorre efetivamente e é o autor e causa do pecado? Negativo; contra os Pontifícios e outros que, por calúnia, tentam sobrecarregar nossa posição com essa blasfêmia que detestamos de todo o coração.
VI. A fé é imputada para justiça? Distinguimos.
VII. A fé justificadora e a fé temporária distinguem-se apenas em grau e duração, ou também específica e essencialmente? Negamos o primeiro; afirmamos o segundo.