QUÆSTIO XII.¶
DO USO DAS CONSEQUÊNCIAS.
Se os Dogmas de fé e de costumes devem ser demonstrados apenas pela Palavra expressa de Deus; ou se também podem ser legitimamente provados por Consequências extraídas da Escritura? — Afirma-se a segunda parte.
Estado da Questão. I. A questão nasceu de um novo método de disputa entre os charlatães e propagadores católico-romanos, os quais, para mais facilmente se livrarem de nossos argumentos (pelos quais, invencivelmente, a partir da Escritura, estabelecemos nossa sentença e refutamos seus erros), julgaram não possuir outro meio mais cômodo de escape do que nos compelir a demonstrar que todos os nossos dogmas estão contidos com as mesmas palavras na Escritura, rejeitando todo uso de consequências. O Cardeal Perronius parece ter sido o primeiro entre os católicos a excogitar esta arte em sua Réplica contra o Rei da Grande Bretanha, sendo seguido por muitos outros da mesma estirpe, como Gunterius, Cottonus, Arnoldus e, principalmente, Veronus, que a partir disso elaborou um método peculiar de disputa chamado Veroniano; a estes se juntaram os Irmãos Wallemburg na Alemanha e outros missionários que fogem da luz. Mas os antigos heréticos já os precederam nisso, pois os arianos usaram este argumento mais de uma vez para combater o τὸ ὁμοούσιον [consubstancial]; assim, os macedonianos negavam a Divindade do Espírito, porque em lugar nenhum da Escritura se diz expressamente que o Espírito Santo é Deus (veja Greg. Nazianz. Orat. 5, de Theol.). Máximo, o Monge, testemunha em suas vinte orações (vulgarmente, mas erradamente, atribuídas a Atanásio) que os apolinarianos e monofisitas usaram as mesmas armas.
II. O quinto artigo da Confissão Galicana, de onde querem fazer parecer que hauriram a sentença que nos atribuem falsamente, afirma de fato a perfeição da Escritura ao dizer que ela é a regra de toda verdade e que compreende tudo o que é necessário para a glória de Deus e nossa salvação, de modo que não é lícito aos homens, nem mesmo aos próprios Anjos, acrescentar ou retirar qualquer coisa dela; mas não estabelece que nada deve ser admitido a menos que seja lido com as mesmas palavras na Escritura; antes, ao final, quando se acrescenta que os três Símbolos são admitidos por nós (o Apostólico, o Niceno e o Atanasiano), indica-se suficientemente que não buscamos a letra das palavras, mas a verdade da doutrina e do culto. Portanto, ela quer que apenas a Palavra de Deus seja retida com exclusão de quaisquer tradições, mas não nos restringe imediatamente à Palavra expressa com exclusão das consequências.
III. Para a compreensão da questão, deve-se observar que algo pode ser dito na Escritura de duas maneiras: ou κατὰ διάνοιαν [segundo o sentido] ou κατὰ λέξιν [segundo a letra], ou expressamente e com as mesmas palavras, ou implicitamente e quanto ao sentido. Dizemos que todas as coisas estão contidas na Escritura não pelo primeiro modo, mas pelo segundo.
IV. As consequências podem ser consideradas ou materialmente, conforme denotam os próprios dogmas extraídos por consequências, ou formalmente pela própria conexão dos termos; modo pelo qual Agostinho (lib. 2, de Doctrina Christi, c. 31) distingue entre a verdade das sentenças e a verdade das conexões. Além disso, algumas são inatas e extraídas da Escritura, as quais nela se contêm virtualmente; outras são inferidas na Escritura e introduzidas nela. Algumas são próximas, necessárias e evidentes; outras remotas, prováveis e obscuras: trata-se aqui das primeiras, não das últimas.
V. A prova sólida de uma coisa ou é tal em si mesma, ou em ordem a este ou aquele homem: aquela reside na demonstração da coisa, esta na convicção do homem; aquela sempre se obtém na argumentação reta por consequências, esta nem sempre.
VI. Os artigos de fé que devem ser provados pela Escritura ou são positivos e afirmativos, que contêm algum dogma a ser crido, ou negativos e exclusivos, que rejeitam erros introduzidos pelos heréticos. Aqueles devem ser provados clara e certamente pelas Escrituras, porque são o objeto próprio da fé; mas quanto a estes, basta que nenhuma menção seja feita a eles nas Escrituras e que sejam entregues aquelas coisas pelas quais facilmente se convencem de falsidade. Daí os Adversários serem dignos de riso quando pedem que provemos com as mesmas palavras na Escritura que não existe Purgatório, que o Papa não é o Cabeça da Igreja, que a Missa não é um Sacrifício, etc. 1. Porque cabe a quem afirma provar, não a quem nega. 2. Esses dogmas não são positivos para nós, mas negativos: basta, portanto, que ensinemos que eles não estão contidos em lugar nenhum nas Escrituras e que existem outras coisas pelas quais são facilmente refutados.
VII. A suficiência e a perfeição da Escritura não residem em que todos os erros e heresias sejam nela condenados nominalmente, mas apenas em que todos os dogmas positivos sejam claramente entregues; pois, como o que é reto é índice de si mesmo e do oblíquo, uma vez estabelecida toda a verdade necessária, os erros opostos a ela são facilmente rejeitados.
VIII. A questão, portanto, reduz-se a estes termos: Se, além da Palavra expressa de Deus, as Consequências evidentes e necessárias devem ser admitidas na Teologia; ou se os dogmas de fé e costumes podem ser legitimamente provados por elas? Nós afirmamos; os Adversários negam, mas não todos. Pois Belarmino concorda conosco aqui (lib. 4, de Verbo Dei, c. 9, e lib. 3, de Justificatione, c. 8). Nada é de fé, diz ele, senão o que Deus revelou pelos Apóstolos e Profetas, ou o que disso se deduz evidentemente; com o que concordam Canus (l. 12, loc. com. c. 6), Salmero (tom. i. prol. 9, c. 7), Turrecremata (li. 4, sum. Eccl. p. 2, c. 8) e muitos outros, estabelecendo que é de fé aquilo que se deduz das Escrituras por consequência necessária e legítima.
O uso das consequências é provado pelo fim da Escritura. IX. Muitas coisas provam o uso de consequências em assuntos de fé: 1. O fim da Escritura, que é διδασκαλία [ensino], ἔλεγχος [repreensão], ἐπανόρθωσις [correção], παιδεία [instrução], παράκλησις [consolação] (2 Tim. iii. 16; Rom. xv. 4), o qual não pode ser obtido sem elas, pois nem a tese poderia ser transferida para a hipótese, nem qualquer aplicação da Escritura para usos teóricos ou práticos jamais poderia ser feita.
Natureza do homem. 2. A natureza do homem a quem os mistérios da Religião são confiados, o qual não é um tronco ou um bruto, mas uma criatura racional que, portanto, sendo capaz de raciocínio, deve esquadrinhar as Escrituras (Jo. v. 39) e não se deter na casca das palavras, mas penetrar na própria medula e sentido, para que, a partir do que lê, entenda também algumas coisas que não lê, como bem observa Agostinho (lib. 3, contr. Maxi. c. 3).
Sabedoria de Deus. 3. A sabedoria de Deus; pois, assim como quem é sábio, quando fala, quer que seja entendido por si tudo aquilo que pode ser legitimamente extraído de suas palavras; assim, sendo Deus sapientíssimo, que previu tudo o que poderia ser deduzido de sua Palavra, falou de tal modo que quis que fosse tido por sua Palavra o que legitimamente se colhe do que foi dito.
Prática dos Heréticos. 4. A prática dos heréticos, que para melhor defenderem seus erros contra os Ortodoxos, repudiavam inteiramente o uso de consequências, como os arianos negavam o τὸ ὁμοούσιον porque não estava contido αὐτολεξεί [com as mesmas palavras] nas Escrituras; pelo que foram chamados de "caçadores de sílabas" por Basílio; e Nazianzeno (orat. 37) chama o Pneumatômaco que usa de fraude semelhante de "sofista do alfabeto" e "caluniador de nomes".
Uso dos Católicos. 5. O uso dos próprios católicos, que costumam provar a maioria de seus dogmas sobre o primado e a infalibilidade do Papa, sobre a Transubstanciação, sobre o Purgatório e outros semelhantes, por consequências.
Exemplo de Cristo e dos Apóstolos. 6. O exemplo de Cristo e dos Apóstolos, que lemos terem usado consequências em toda parte; como quando Cristo, a partir da fórmula da aliança, prova contra os saduceus a ressurreição dos mortos (Mt. 22), embora nada se tenha aqui expressamente sobre a ressurreição; e quando os Apóstolos provam que Jesus Nazareno é o verdadeiro Messias prometido no V. T., embora nada se leia sobre ele αὐτολεξεί. E não adianta objetar que a autoridade de Cristo e dos Apóstolos era infalível, e por isso suas consequências eram de verdade indubitável, mas as nossas não o seriam: pois, embora as consequências de Cristo sejam infalíveis em si pela autoridade de quem fala, todavia elas não tinham sua força perante os saduceus pela autoridade de quem as dizia (a qual não reconheciam), mas pela natureza do que foi dito; de outro modo, como Cristo teria fechado a boca de seus inimigos com aquela prova, se eles não reconheciam sua autoridade?
X. Embora as ilações de Cristo passem, quanto a nós, a ser Palavra de Deus pelo fato de procederem de Cristo e tornarem-se objeto de fé por direito, todavia é falso que tenham sido tidas por tais pelos saduceus, inimigos de Cristo, de fato enquanto tais; antes, só foram admitidas porque tinham fundamento no dito de Moisés alegado por Cristo. Assim, eram reconhecidas por eles de modo que se considerava a razão dos ditos, não de quem os dizia.
Fontes das Soluções. XI. Os λογισμοὶ [raciocínios] contra os quais as armas de nossa milícia são dirigidas, dos quais se fala em 2 Cor. x. 4, não são quaisquer raciocínios, mas, como se diz ali, λογισμοὶ ἐπαιρόμενοι κατὰ τῆς γνώσεως τοῦ Θεοῦ [raciocínios que se levantam contra o conhecimento de Deus], ou seja, que combatem e não que servem, que se opõem ao Evangelho e não que o auxiliam. Aqueles devem ser meritoriamente destruídos, porque são inconsistentes com a fé; mas não igualmente os raciocínios legítimos, que se sujeitam à revelação e são corretamente usados para explicá-la e aplicá-la.
XII. Uma coisa é o fundamento em que algo se apoia; outra é o instrumento que usamos para o conhecimento dessa coisa. O que tem fundamento falível não pode ser infalível, porque o efeito não pode ser mais nobre que sua causa em todo o seu gênero: mas aqui a razão não é o fundamento, mas o instrumento.
XIII. Embora o intelecto que extrai as consequências seja falível, não se segue que as consequências sejam falsas e incertas. 1. Porque uma coisa é poder falhar, outra é falhar de fato; uma coisa é falhar às vezes, outra é falhar sempre. Uma potência que é por si e sempre falível em todas as operações não pode fundamentar uma certeza infalível: mas o intelecto não é tal, porque é falível não por si, mas por acidente, e não em todas as coisas, mas apenas em algumas; de outro modo, se o argumento procedesse universalmente, e se porque a razão às vezes se engana nenhuma fé devesse ser nela depositada, seguir-se-ia que toda notícia e certeza seriam removidas do mundo, introduzindo-se o Pirronismo e a ἀκαταληψία [incompreensibilidade]; assim se removeria toda a certeza dos sentidos, porque às vezes falham, o que qualquer um percebe ser absurdíssimo; pois a potência da falibilidade não está necessariamente ligada ao ato; antes, pode-se evitar que se torne ato mediante o uso de meios legítimos. Assim como os sentidos devem ser libertos dos impedimentos pelos quais sua certeza é inibida (seja no objeto, no meio ou no órgão), assim o intelecto deve ser liberto dos preconceitos que impedem a razão reta, e então não errará: aqui, porém, falamos do intelecto são e bem constituído.
XIV. Uma coisa é perceber a razão da Consequência, outra é o próprio Consequente. A fé percebe o Consequente, a Razão a Consequência; nem por isso se segue que a fé pela qual o consequente é crido se apoie na razão, porque aqui a razão não é o argumento pelo qual creio, mas o instrumento pelo qual creio; o instrumento, porém, não introduz no Texto o que lá não estava, mas extrai por consequência legítima o que antes lá estava latente. Daí emerge a conclusão Teológica a partir do meio inferente, mas Lógica a partir da razão ou instrumento que extrai as consequências; e a Consequência, quanto ao material, funda-se na Palavra; quanto ao formal, na Razão.
XV. Embora a Razão concorra para extrair as consequências, não se segue que a fé seja estabelecida pela razão; assim como, embora a fé venha pelo ouvir, não se segue que o sentido seja o fundamento da fé; a fé usa a razão, não se apoia nela; usa-a como instrumento de aplicação e modo de conhecer, não se apoia nela como fundamento e regra do que se deve crer.
XVI. Os silogismos mistos, nos quais uma das premissas é da luz natural e a outra da luz revelada, não deixam de ser de fé: 1. porque qualquer proposição recebe sua denominação do sujeito, não do predicado. 2. a proposição que é da luz revelada contém virtualmente aquilo que se pede da luz natural para sua prova, e assim comunica-lhe sua força. 3. para provar a conclusão da fé, o termo médio é assumido não da natureza, mas da Escritura; mas onde o nexo do médio com o extremo maior é negado pelo Adversário, recorre-se aos princípios da razão, não para provar a verdade do médio, mas do nexo: v. g. nego que o pão se torne o Corpo de Cristo na Ceia, assumindo este médio: porque tem os acidentes do pão; se for negada a conexão do médio com o extremo maior (a saber, que aquilo que tem acidentes de pão é pão verdadeiro), ela deve ser provada pela razão, porque formalmente não consta na Escritura, mas apenas virtualmente.
XVII. Longe de o ministério da razão tornar a fé duvidosa, ele antes ajuda e estabelece muitíssimo o seu conhecimento e certeza: distingue apenas a razão em abstrato e em concreto, a razão iluminada no homem fiel ou a cega no não regenerado. É verdade que a razão cega e falsa produz uma fé duvidosa; mas nega-se isso quanto à razão sã e ilustrada.
XVIII. Embora o Teólogo tenha um conhecimento mais perfeito das consequências, nada impede que o homem comum o possa fazer conforme sua medida, embora ignore a Lógica e a Metafísica, porque lhe basta a luz da razão e a Lógica natural para discernir as consequências naturais.
XIX. Neste gênero de argumentação, onde algo é extraído por consequência, requer-se: 1. Que uma das premissas, ou ambas, imediata ou mediatamente, em palavras próprias ou figuradas, esteja contida na Escritura. 2. Que a consequência ou ilação seja necessária e evidente; necessária não só pela necessidade da forma, mas também da matéria ou do consequente, como quando do antecedente se deduz o consequente, do gênero a espécie, da causa o efeito. 3. Que seja evidente para o assentimento, de modo que, pela evidência da ilação, assintamos não menos às conclusões do que às premissas.
XX. Uma coisa é falar de raciocínios extraídos da Escritura e segundo ela, os quais se subordinam à revelação e nela se resolvem; outra coisa é falar daqueles que a ela se opõem. Não se segue que, embora os heréticos usem daqueles para confirmar seus erros, eles não devam ser admitidos; pois, por causa do abuso de uma coisa, seu uso legítimo não deve ser removido.
XXI. O uso das consequências não é alheio à simplicidade dos discípulos de Cristo; pois as ovelhas de Cristo, embora devam ser simples, não devem ser brutas, mas racionais; nem se devemos ouvir a única voz de Cristo, impede-se continuamente o uso de raciocínios, desde que aplicado com o temperamento legítimo; antes, porque a voz de Cristo deve ser ouvida, as Escrituras devem ser esquadrinhadas, e a voz estranha deve ser discernida da voz de Cristo, o que não pode ser feito sem o uso da razão. Assim, longe de se afastar da Escritura ou de acrescentar-lhe algo por raciocínios deduzidos dela por consequências, apenas se extraem as coisas que estão na Escritura e se reduzem ao uso.
XXII. Embora a Escritura seja dita perfeita no gênero de fundamento das coisas a serem cridas e feitas, enquanto contém todos os dogmas e preceitos morais necessários para a salvação; isso não impede que ela necessite de explicação e aplicação; assim como a regra é perfeita, e todavia necessita de aplicação; e essa aplicação não prejudica a perfeição da regra, mas antes a prova e declara.
XXIII. A Ματαιολογία ou vã conversação, que o Apóstolo proscreve em 1 Tim. i. 6, não é o raciocínio são por consequências a partir da Escritura; mas é a dissertação curiosa e ansiosa sobre coisas vãs, as quais chama no v. 4 de μύθους καὶ γενεαλογίας ἀπεράντους [mitos e genealogias intermináveis], quais eram não apenas as fábulas dos Gentios sobre seus Deuses e θεογονίαι [teogonias], mas também os delírios dos Judeus sobre Lilith, Behemoth, Leviatã e outras bagatelas talmúdicas febris desse tipo.
XXIV. O abuso dos raciocínios não deve ser confundido com o seu uso, nem a coisa considerada em abstrato deve ser condenada em si mesma por causa de sua aplicação perversa em concreto: assim muitos se enganam ao distinguir vários objetos pelo ouvido ou pela vista, mas nem por isso se deve dizer que é incerto tudo o que se apreende por esses sentidos. Assim, se pecam aqueles que usam consequências para firmar os falsos dogmas da Transubstanciação ou Consubstanciação, porque são violentas e ilegítimas, não devem ser condenados imediatamente aqueles que as usam legitimamente; de outro modo, seguir-se-ia que o próprio uso da Escritura deveria ser condenado, porque muitos heréticos abusam dela.
XXV. Uma coisa é ouvir alguém como o artífice dos dogmas, e assim somente Moisés, os Profetas e Cristo devem ser ouvidos, tanto quanto às coisas entregues como quanto ao modo de entregar; outra coisa é ouvir como o artífice dos instrumentos idôneos para explicar e aplicar os dogmas, e assim os homens que usam consequências podem ser ouvidos.
XXVI. Uns são os princípios dos dogmas e da Verdade das sentenças, outros são os princípios da verdade das deduções. Aqueles derivam da Escritura, estes da razão; e porque a Verdade das sentenças é a principal, ela é considerada primordialmente nos argumentos, e por ela deve ser feito o julgamento sobre a conclusão. Daí a conclusão do argumento será Teológica, porque o princípio dos dogmas é tal; mas a Razão não é o princípio da coisa, mas do conhecimento da coisa, nem tanto o princípio quanto o instrumento pelo qual se conhece aquilo que se prova.
XXVII. A consequência é obra da razão enquanto considerada formal e organicamente, porque pela razão é extraída, mas não enquanto considerada original e materialmente, pela doutrina extraída por consequência. Assim, as consequências não são de fé da parte do órgão pelo qual são extraídas (pois não creio porque assim raciocino, mas porque a Palavra de Deus o diz); são, porém, de fé da parte do princípio do qual são extraídas; pois tais como são as premissas, tais são as conclusões delas deduzidas.
XXVIII. Algo é considerado procedente do Espírito Santo ou mediatamente e nos ramos, o que de fato se extrai da Escritura pelo ministério do raciocínio, ou imediatamente e na raiz, o que nela se contém com as mesmas palavras: pelo primeiro modo as consequências são do Espírito Santo, não pelo posterior.
XXIX. Embora não se deva ter como doutrina dos Reformadores o que se extrai de qualquer modo de suas Confissões e lhes é imputado, nem se deva ter como sentença dos luteranos imediatamente o que se colhe de seu dogma; não se segue que não se possa ter como Palavra de Deus o que dela legítima e evidentemente se extrai, porque não é razão igual: pois o Espírito Santo, que esquadrinha τὰ βάθη τοῦ Θεοῦ [as profundezas de Deus] (1 Cor. ii. 10), como onisciente pôde prever e pretender tudo o que de seus ditos pudesse ser retamente extraído; mas os homens, que não são oniscientes nem infalíveis, não puderam saber o que de seus ditos poderia ser extraído futuramente.
2 Ped. i. 20. XXX. Quando Pedro nega que a Escritura seja de interpretação particular no cap. 1 da 2ª [epístola], não entende particular subjetivamente, que pode ser legitimamente extraída por qualquer pessoa privada a partir da colação da Escritura; de outro modo, o Espírito Santo não ordenaria ler e esquadrinhar as Escrituras, e comparar coisas espirituais com espirituais (1 Cor. ii. 13), profetizar segundo a analogia da fé (Rom. xii. 6) e aplicá-las para convicção e correção, etc. (2 Tim. iii. 15). Mas entende-se a interpretação particular originalmente, e como o texto diz, ἰδία ἐπίλυσις, isto é, própria e singular, que nasce do cérebro e arbítrio de cada um, e que as palavras das Escrituras e sua colação não fornecem, tal como é o direito que o Papa atribui a si mesmo de interpretar a Escritura ao seu bel-prazer segundo aquele espírito infalível que torna próprio e particular a si.
XXXI. Para que a Escritura seja exposta pela Escritura, basta que a Escritura forneça ao Intérprete fundamentos e razões nas circunstâncias antecedentes, consequentes, paralelas, no escopo, etc., pelos quais ele extraia o sentido genuíno da Escritura e o demonstre a outros para sua consciência. Mas não é necessário que as Escrituras digam em algum lugar que este passo deve ser explicado por outro, e que se leia expressamente na Escritura a consequência e interpretação que proponho; assim como quando o Jurisconsulto, comparando lei com lei e explicando uma pela outra, diz que o Imperador e Legislador se interpreta a si mesmo, não é necessário que o Imperador diga expressamente em algum lugar que esta Lei deve ser exposta por aquela, e estas palavras por aquelas.
XXXII. Embora a Escritura não julgue sobre a bondade da consequência quanto à verdade da conexão, porque isso depende do ministério da razão, ela não deixa de ser a única Juíza das controvérsias de fé quanto à verdade das sentenças; assim como a Lei não deixa de ser Juíza dos litígios que surgem na República, embora não diga que as consequências que dela se deduzem para absolver este e condenar aquele são boas e bem formadas: nem jamais se ouviu dizer que os princípios das disciplinas reais julgam sobre a bondade das consequências que a partir deles se formam, embora as controvérsias sejam decididas a partir deles: as Físicas pelas Físicas, as Éticas pelas Éticas.
XXXIII. Assim como o ouvido não produz o som, e a vista não produz a luz que percebe ao ver; assim também o intelecto não produz seu objeto ou a verdade e Palavra de Deus que entende ao raciocinar, mas igualmente o supõe. Mas assim como o intelecto, ao raciocinar, faz com que a verdade ou Palavra de Deus seja concluída; assim a vista e o ouvido, ao ver e ouvir, fazem com que a luz seja vista e o som seja ouvido.
XXXIV. Embora aquilo seja perspicuo e evidente que não é negado por ninguém e que é imediatamente compreendido por todos, não se segue que não seja perspicuo o que não é captado imediatamente por todos; pois muitas coisas são frequentemente obscuras para muitos, as quais poderiam e deveriam ser para os mesmos maximamente perspicuas, ou porque não aplicam a devida atenção, ou porque estão cegos por preconceitos. Quando dizemos que nossas consequências são evidentes, não entendemos nesse sentido, como se não fossem negadas por ninguém e fossem facilmente captadas por qualquer um sem qualquer atenção e exame; mas entendemos que são evidentes para os que atentam diligentemente e consideram do modo devido, ou tais que, se alguém não as vir, não pode ter boa consciência.
XXXV. Se por τὸ formalmente revelado se entende o que se lê expressamente na Palavra de Deus, é certo que as consequências não podem ser ditas formalmente reveladas: Mas se se entende aquilo que se extrai ou com as mesmas palavras, ou equivalentes, ou por consequência evidente e necessária, não se pode negar que sejam formalmente reveladas, e por isso ser bem dito objeto formal da fé.