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Sessão 1: DA TEOLOGIA.


PRIMEIRA QUESTÃO.

Se o Termo Teologia deve ser empregado nas Escolas Cristãs; E de quantos modos é tomado?

O termo TEOLOGIA é bem empregado. I. Sendo necessário, segundo as leis de um método rigoroso, primeiramente examinar os nomes [πρῶτον ἐξετάζειν τὰ ὀνόματα], isto é, ponderar antes o uso e a força dos nomes, como quer o Filósofo, porque as palavras são os moldes [τύποι] das coisas: certas coisas devem ser ditas previamente sobre o termo Teologia, antes de chegarmos à coisa em si. Embora a questão proposta pareça pouco necessária, dado o uso comum e aceito por quase todos deste termo, os quais julgam que ele deve ser retido como um vocábulo técnico [τεχνικὸν], que declara seu objeto de modo próprio e enfático; deve-se, contudo, responder à opinião de alguns que se desagradam deste nome, pelo fato de não constar na Escritura, e costumar ser empregado para significar a vã tagarelice [ματαιολογίαν] dos pagãos, e que julgam mais conveniente usar outros termos extraídos da Escritura.

II. Embora o termo Teologia não esteja escrito literalmente [ἔγγραφος αὐτολεξεὶ], não é, contudo, plenamente não-escrito [ἄγραφος]; visto que as palavras simples das quais se compõe ocorrem frequentemente ali, como palavra de Deus [λόγος τοῦ θεοῦ], e oráculos de Deus [λόγια τοῦ θεοῦ], Roman. iii. 2, 1 Ped. iv. 10, Heb. v. 12. Uma coisa, portanto, é estar na Escritura quanto ao som e às sílabas, ou formalmente e em abstrato; outra coisa é estar quanto ao sentido, e à coisa significada, ou materialmente e em concreto; a Teologia não consta na Escritura do primeiro modo, mas do segundo.

III. Embora não seja lícito forjar nenhum dogma fora da Escritura; é lícito, contudo, usar às vezes palavras que não se encontram na Escritura, se forem convenientes, seja para explicar as coisas divinas, seja para precaver erros; para cujo fim os termos Tríade, consubstancial [ὁμοούσιον], Pecado original, e semelhantes foram empregados pelos Teólogos.

IV. Embora os pagãos tenham abusado frequentemente deste termo para designar sua vã tagarelice [ματαιολογίαν]; isso não impede, contudo, que aquilo que eles erroneamente atribuíam ao nome de sua falsa e falsamente chamada [ψευδωνύμῳ] Teologia seja reivindicado para nossa verdadeira e salutar doutrina. Assim como o nome de Deus, que entre os pagãos significava um deus falso e fictício; e o nome de Igreja [Ecclesiæ], que designava uma assembleia profana; são aceitos na Escritura em um sentido mais sadio acerca do verdadeiro Deus e da Assembleia dos Santos. Assim, o termo Teologia, que é de origem grega, foi transferido das escolas dos gentios para usos sagrados, como outrora os vasos dos egípcios foram destinados pelos israelitas a usos sagrados.

V. Não negamos que existam vários sinônimos na Escritura, pelos quais a doutrina celestial é designada, como quando se diz sabedoria em mistério, 1 Cor. ii. 7, padrão das sãs palavras, 2 Tim. i. 13, conhecimento da verdade segundo a piedade, Tit. i. 1, doutrina, Tit. i. 9, e é expressa por outros termos do gênero. Mas nem por isso este nome pode e deve ser menos retido, porque tanto foi recebido por longo uso, quanto é o mais conveniente para exprimir essa doutrina salutar.

VI. Consta que o termo Teologia esteve em uso entre os gentios. Pois aqueles que diziam coisas sublimes sobre Deus, ou explicavam o culto dos Deuses, ou explicavam seus nascimentos, casamentos, descendência, impérios e feitos, foram chamados de Teólogos, e sua ciência de Teologia, como notam Lactan. de Ira Dei c. ii. Clem. Alex. strom. 3. Isido. lib. 5. Aristo. metaph. 3.

O Uso do Nome. VII. O nome Teologia entre os cristãos ou é tomado inadequadamente, da parte do eficiente como soa Palavra de Deus [Θεοῦ Λόγον], e da parte do objeto discurso sobre Deus [λόγον περὶ τοῦ Θεοῦ]; ou adequadamente conforme denota ambos, tanto o discurso de Deus quanto o discurso sobre Deus, os quais dois devem ser unidos, porque não podemos falar de Deus sem Deus. Para que se note a doutrina que originalmente é de Deus, objetivamente trata de Deus, e terminativamente se dirige a Deus e leva a Deus, o que Tomás não expressa mal na 1ª 1æ q. 7: A Teologia é ensinada por Deus, ensina sobre Deus, e leva a Deus. Assim, essa nomenclatura abrange o duplo princípio da Teologia, um de ser, que é Deus, o outro de conhecer, que é o Verbo d'Ele.

VIII. Novamente, é tomado de três modos entre os Autores. 1. Latamente. 2. Estritamente. 3. Segundo a justa amplitude de sua significação. No primeiro modo, acomoda-se à Metafísica, sentido no qual Aristót. chama a primeira Filosofia de Teologia, lib. 6. Met. cap. 1. e no lib. 10 divide a Filosofia Teórica em três partes, física, matemática e teológica [φυσικὴν, μαθηματικὴν, et θεολογικὴν]. No segundo, os Pais designam peculiarmente pelo nome de Teologia aquela parte da doutrina cristã que trata da Divindade de Cristo, sentido no qual João foi singularmente chamado o Teólogo, porque afirmou com força acima dos outros a divindade do Verbo [τὴν τοῦ λόγου θεότητα], como parece expor Apoc. i. 2, e Gregório Nazianzeno obteve entre os demais Pais o nome de Teólogo, porque demonstrou a Divindade de Cristo em várias Orações; de onde nasceu entre eles a distinção de teologia e economia [θεολογίας et οἰκονομίας]; por aquela entendem a doutrina sobre a Divindade de Cristo, por esta a doutrina sobre a sua Encarnação, e teologizar Jesus [θεολογεῖν Ἰησοῦν] é para eles discorrer sobre a Divindade de Cristo. Euseb. hist. Eccl. lib. v. cap. 28. Basilii. lib. ii. c. Eunomi. e Nazian. Ora. 42 e 49. No terceiro, mais propriamente, denota o Syntagma ou Corpo da doutrina sobre Deus e as coisas divinas, revelada por Deus para sua glória e para a salvação dos homens, sentido no qual é aqui tomada por nós.

IX. O uso do nome Teologia ou é equívoco e abusivo, quando é atribuído à falsa Teologia dos Gentios e Hereges; ou menos próprio, quando é dito da Sabedoria original e infinita, que por nós é concebida em Deus conhecendo a si mesmo de modo inefável e perfeitíssimo; pois este nome não pode alcançar a dignidade da própria coisa; ou sobre a Teologia de Cristo; e sobre a Teologia Angélica; ou próprio, quando é atribuído à Teologia dos homens Viadores, que se distingue em natural e sobrenatural, como se dirá abaixo.