Skip to content

QUESTÃO V.

DO OBJETO DA TEOLOGIA.

Se Deus e as Coisas Divinas são o Objeto da Teologia? Afirmativo.

O Objeto da Teologia. I. O objeto de qualquer ciência é tudo aquilo que nela é tratado principalmente, e ao qual se referem todas as suas conclusões; ele pode ser considerado, contudo, ou materialmente, quanto à coisa considerada, ou formalmente, quanto ao modo de considerar.

Deus e as Coisas Divinas. II. Embora os teólogos falem de diversos modos sobre o Objeto da Teologia, a sentença mais comum e verdadeira é a daqueles que o referem a Deus e às Coisas Divinas; de modo que Deus seja o primário, e as coisas divinas o secundário; sejam elas as que foram feitas por Deus, ou as que devem ser cridas ou feitas pelos homens, isto é, Deus em sentido direto (in recto) e em sentido oblíquo (in obliquo); a saber, Deus, e as coisas que são de Deus, como as suas Obras, e as que estão submetidas a Deus, como as criaturas, e as que tendem a Deus, como os deveres do homem. Assim, tudo na Teologia é tratado ou porque é o próprio Deus, ou porque tem uma σχέσιν [relação] com Deus como primeiro princípio e fim último.

III. É evidente que Deus é o Objeto da Teologia; tanto pelo próprio nome theologia e theosebeia [piedade]; quanto pela Escritura, que não reconhece outro objeto principal; quanto pelas condições do objeto, que nele se encontram: 1. que seja algo incomplexo; 2. que certas coisas sejam dele predicadas denominativamente, como afeições ou propriedades; 3. que a ele se refira tudo o que é tratado na disciplina. Pois Deus é um Ente incomplexo e maximamente simples; certas coisas são dele predicadas denominativamente, como os seus atributos; a Ele todas as coisas se referem e têm uma relação de origem, conservação e dependência.

Deus como revelado e aliançado. IV. Mas quando Deus é proposto como Objeto da Teologia, não deve ser visto simplesmente como Deus em si mesmo, pois assim Ele nos é ἀκατάληπτος [incompreensível]; mas enquanto revelado, e conforme Se dignou manifestar-se a nós em sua Palavra, de modo que a revelação divina seja a razão formal que deve ser considerada neste objeto. Nem deve ser considerado precisamente sob a razão da Deidade, como quer Tomás e, depois dele, a maioria dos Escolásticos; pois, deste modo, o seu conhecimento não pode ser salvífico, mas pernicioso para os pecadores. Antes, deve ser considerado como é o nosso Deus, isto é, aliançado em Cristo, como Se manifestou a nós na Palavra, não apenas para ser conhecido, mas também para ser cultuado, nestas duas coisas consistindo a verdadeira Religião que a Teologia ensina.

Fontes das Soluções. V. A unidade de uma ciência e a sua distinção de outra não se toma sempre da unidade do Objeto material, ou da coisa considerada; mas da unidade do Objeto formal, ou do modo de considerar. Embora a Física, a Ética e a Medicina tratem do mesmo sujeito, não deixam de ser ciências diversas, porque consideram o homem sob razões diversas: a Física, enquanto é uma espécie de corpo natural; a Ética, enquanto capaz de virtude e felicidade; a Medicina, enquanto deve ser curado de doenças e restituído à saúde. Assim, embora a Teologia trate das mesmas coisas de que tratam a Metafísica, a Física e a Ética, o modo de considerar é, contudo, muito diverso. Trata de Deus, não como a Metafísica enquanto é Ente, ou como pode ser conhecido pela luz natural, mas enquanto se torna conhecido pela revelação como Criador e Redentor. Trata das Criaturas, não enquanto são coisas da natureza, mas enquanto são coisas de Deus, isto é, enquanto possuem habitude e ordem para com Deus, como seu Criador, Provedor e Redentor, e isso segundo a revelação por Ele feita; modo de considerar este que as demais ciências ou não conhecem, ou não assumem.

VI. Se a Teologia se ocupa em provar que Deus existe, não o faz por sua intenção primeira e própria, mas como que por acidente, por uma necessidade adventícia, a saber, para confutar os profanos e ateus que, sacudindo todo o pudor e senso de consciência, sustentam essa negação. 2. Aquele axioma, que a Ciência não prova o seu sujeito, mas o pressupõe, é verdadeiro nas ciências humanas e de ordem inferior; mas para a Teologia, que é de ordem superior, a razão é outra; pois ela se estende a provar tudo o que pode ser provado pelo meio que lhe é próprio, a saber, a revelação divina; e faz isso não instrumentalmente, mas arquitetonicamente.

VII. Não é necessário, para o hábito da Ciência, que ela apreenda o seu Objeto de tal modo que conheça perfeitamente tudo o que lhe pode competir; basta que conheça muito sobre ele e possa deduzi-lo de seus princípios. Não é oportuno, portanto, que a ciência se iguale ao sujeito segundo uma igualdade exata e aritmética; mas basta que se iguale segundo alguma proporção de igualdade, igualdade esta que se encontra na Teologia; pois ela versa sobre Deus e suas perfeições infinitas, não para que as conheça infinitamente, mas de modo finito; nem absolutamente quanto podem ser conhecidas em si mesmas, mas quanto Ele Se dignou revelá-las de Si mesmo. Assim, pode-se dizer que a Teologia se iguala ao seu Objeto segundo a razão formal da revelação, não igualando o próprio Deus, mas apenas a Revelação dada sobre Deus.

VIII. O que se diz comumente, que a Ciência não é sobre os singulares, mas sobre os universais, não deve ser admitido sem limitação. Pois a Metafísica, a Física, etc., são ciências e, no entanto, nem por isso deixam de tratar de singulares, de Deus e do Mundo. O axioma deve ser entendido sobre singulares compostos de matéria e constituídos sob uma espécie ínfima. Mas se na Teologia se trata de tais singulares, como de Adão, Noé e outros, isto não se faz principalmente, mas apenas para que se abram as origens das coisas, ou para exemplo de vida e testemunho da divina providência, e, portanto, por causas gerais. Mas se se trata de algum singular imaterial e em ato puro, não há dúvida de que pode haver ciência sobre ele; porque o objeto do intelecto é o Ente; logo, quanto mais perfeito é o Ente, tanto mais pode ser sabido e conhecido; e é mais perfeito quanto mais está em ato e menos em potência. Deus pode ser meritoriamente contado entre os universais: pois é universal no causar, visto que é a causa universal de todas as coisas; igualmente no predicar, não decerto em sentido direto, mas em sentido oblíquo, pois nem todas as coisas são Deus, mas todas as coisas são de Deus, ou procedem de Deus, ou tendem a Deus. Assim, não falta também nesta parte, no sujeito da Teologia, toda a razão de universalidade.

IX. É certo que, nas ciências inferiores, os princípios da ciência são diversos do sujeito, como aqueles que demonstram as paixões e propriedades sobre o sujeito por princípios próprios; porque, como o sujeito de qualquer ciência humana é de essência e virtude finitas, é necessário que haja alguns princípios dos quais flua ou seja composto. Mas na Teologia, que é de ordem superior, dá-se um sujeito plenamente divino, que é infinito tanto em natureza quanto em potência, e, portanto, anterior a toda coisa, de modo que não pode ter nenhuma razão de principiado; de onde decorre, por essa infinitude, que contenha simultaneamente estas duas razões, e seja o sujeito de que trata a Teologia e, ao mesmo tempo, também o seu princípio.

X. A Teologia trata do pecado não enquanto é de Deus, mas enquanto tem uma certa σχέσιν [relação] com Deus; seja sob a razão de oposto e contrário, seja enquanto está sujeito à sua Providência e Justiça; assim como a Medicina trata das doenças e venenos, embora o seu sujeito principal seja o homem a ser curado.