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JÓ 1:9-10

Então Satanás respondeu ao Senhor: “Será que Jó teme a Deus por nada? Não puseste uma cerca ao redor dele, da sua casa e de tudo o que ele tem? Abençoaste o trabalho de suas mãos, e os seus bens se multiplicaram na terra. Mas estende a tua mão e toca em tudo o que ele tem, e ele te amaldiçoará na tua face”.

No versículo anterior, o próprio Deus dá testemunho de Jó. Neste versículo, embora Satanás não possa negar esse testemunho, ele calunia e interpreta mal aquilo que não pode contradizer. Satanás admite que Jó teme a Deus, mas suas palavras seguintes desvalorizam esse temor e acusam Jó de insinceridade em todo o seu serviço. Será que Jó teme a Deus por nada? O temor não teria valor se, nesse sentido, fosse "por nada". Eu já expliquei o que significa temer a Deus. Agora, esclarecerei o outro termo e mostrarei o tamanho do mal que Satanás atribui a Jó ao perguntar: Será que Jó teme a Deus por nada?

Satanás acusa Jó por meio de uma pergunta: Será que Jó teme a Deus por nada? Podemos transformar essa pergunta na seguinte acusação: Jó não teme a Deus sem interesse. A palavra que traduzimos como por nada possui três sentidos no hebraico.1

Primeiro, alguns a traduzem como em vão. Será que Jó teme a Deus em vão? Dizemos que fazemos algo em vão quando não alcançamos o objetivo proposto. "Os egípcios ajudam em vão"; ou seja, eles não conseguem realizar a salvação e o livramento pretendidos. Assim, o sentido aqui seria: Será que Jó teme a Deus em vão? Não, ele não teme em vão; ele alcança seu objetivo. Ele buscava riquezas ao servir a Deus e as obteve.

Segundo, o termo significa sem causa. Será que Jó teme a Deus sem causa? A palavra é traduzida assim no Salmo 35:7, onde Davi se queixa de seus inimigos: Sem causa esconderam de mim a rede num fosso, que sem causa cavaram para a minha alma. É como se ele dissesse: "Eu nunca lhes dei motivo para me armarem ciladas; nunca os prejudiquei". Seguindo esse sentido, quando Satanás diz Será que Jó teme a Deus por nada? (isto é, sem causa), é como se dissesse: "O Senhor deu a Jó motivos suficientes para fazer o que faz". Jó vê motivos em seus rebanhos, em seus muitos filhos, em sua grande casa, em seus bens e em sua honra. Ele vê em tudo isso razões para temer a Deus e ser um servo obediente, já que possui um Mestre tão generoso. Será que Jó teme a Deus sem motivo?

Terceiro, traduzimos a palavra como grátis (como costumamos dizer), fazer algo de graça, ou seja, sem recompensa, sem preço ou sem pagamento. Vejam exemplos nas Escrituras onde a palavra tem esse sentido: Gênesis 29:15, onde Labão diz a Jacó: Porque tu és meu irmão, servir-me-ás de graça? Ou seja, trabalharia sem salário? Ele explica o sentido logo após: Diz-me, qual será o teu salário? Portanto, fazer algo por nada significa fazê-lo sem salário ou preço. Êxodo 21:11 traz a mesma interpretação quando Moisés fala da serva que não se casou: ela sairá de graça, sem dar dinheiro. Ela não pagará nada; sairá gratis, ou por nada. Podemos usar este sentido para completar o anterior: será que Jó serve a Deus gratis? Será que ele serve sem preço ou pagamento? Certamente não. Tu lhe deste um pagamento suficiente por todo o seu serviço. Jó não te serve gratuitamente, por amor e afeto, mas por salário, porque tu o pagas com abundância.

Assim, o sentido geral das palavras Será que Jó teme a Deus por nada? é como se Satanás dissesse ao Senhor: “Senhor, tu me perguntas se considerei o teu servo Jó? Confesso que sim. Devo admitir que ele é muito diligente e zeloso em teu culto e serviço. Não me surpreendo com isso, pois tu superaste todos os seus esforços com montanhas de benefícios. Certamente terias servos de sobra nestas condições e com este pagamento. Não é de espantar que Jó queira fazer tudo o que ordenas, enquanto tu dás a Jó tudo o que ele deseja. Parece que tu ignoras todos os outros homens e cuidas apenas da segurança e prosperidade do teu favorito. Que importância tem que ele, tendo recebido de ti sete mil ovelhas, te ofereça algumas poucas em sacrifício? Que mérito há em dar um pouco de lã para vestir o pobre, se ele recebeu de ti milhares para se vestir e enriquecer? É estranho que ele alimente alguns poucos, tendo quinhentas juntas de bois? Jó não está sendo bem pago para trabalhar para ti? Será que teme a Deus por nada aquele que recebeu tudo isso?”

Para abrir essa expressão de forma mais distinta, mostrarei o pensamento de Satanás em três falsidades notáveis, ou mentiras, que ele entrelaça neste único discurso: Será que Jó teme a Deus por nada?

Primeiro, ele sugere que as riquezas fazem qualquer homem servir a Deus e que não é grande coisa ser santo quando se tem abundância. Ele implica que um homem que prospera no mundo não tem outra escolha senão ser bom. Isso é uma mentira extrema. Nenhuma aflição e nenhuma bênção externa podem, por si só, mudar o coração ou convertê-lo a Deus. O Deuteronômio 28:47 diz que eles não serviram ao Senhor na abundância de todas as coisas. A abundância não atrai o coração para Deus, mas Satanás quer insinuar que sim. Poderíamos retrucar isso ao próprio Satanás: "Satanás, por que você não serviu a Deus, então? Você recebeu de Deus mais bênçãos externas do que Jó jamais recebeu — a felicidade de um anjo. No entanto, aquele estado angélico glorioso em que você foi criado não o manteve no caminho da obediência. Você se rebelou em meio à abundância de bênçãos e abandonou sua habitação. Satanás, você não deveria ter servido a Deus por nada. Por que, então, não o serviu?". Sua própria apostasia refuta seu erro ao desprezar a obediência de Jó só porque ele recebeu muito.

Segundo, Satanás insinua que Deus não teria servos por amor, mas apenas se os pagasse extremamente. Ele sugere que Deus é um mestre tal, e seu trabalho tão ruim, que ninguém se envolveria com ele se não fosse seduzido por benefícios. É como se Satanás dissesse: "Tu tens um servo eminente, mas não o terias se não tivesses gasto o dobro com ele". Aqui está outra mentira escondida. A verdade é que os servos de Deus o seguem por quem Ele é. As excelências de Deus e a doçura de seus caminhos são os argumentos e o salário que movem e atraem seu povo ao seu serviço. Deus faz muitas promessas aos que o servem, mas nunca faz negócios com eles. Os seus o obedecem livremente. Satanás, sim, faz negócios para contratar homens, como tentou fazer com Cristo em Mateus 4:9: Tudo isto te darei, se, prostrado, me adorares. Deus faz promessas grandes e graciosas, mas nunca faz tais acordos de troca pela obediência humana.

Terceiro, há um sentido cheio de falsidade que Satanás lança sobre Jó: Será que Jó teme a Deus por nada? Ou seja, Jó tem um interesse oculto em tudo o que faz. Ele se move pelo lucro da piedade, e não pelo prazer na piedade. Jó é mercenário e serve a Deus por salário. Ele não deseja agradar a Deus, mas beneficiar a si mesmo. Ele não busca a glória de Deus, mas sua própria vantagem. Este é o sentido das palavras em relação à pessoa de Jó. Assim como Satanás uma vez acusou Deus perante o homem, agora ele acusa o homem perante Deus. Em Gênesis 3, ele acusou Deus ao homem quando Deus proibiu comer da Árvore do Conhecimento. Deus disse que morreriam, mas Satanás afirmou: Certamente não morrereis; porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes se abrirão os vossos olhos, e sereis como deuses, sabendo o bem e o mal. É como se ele dissesse: "Deus não proibiu esta árvore por causa de algum mal, mas porque quer ser Deus sozinho e manter todo o conhecimento para si. Ele tem uma má intenção". Aqui, ele faz o oposto: acusa o homem a Deus. Jó te serve e te obedece, mas faz isso para ganhar algo de ti. Ele gosta do pagamento, não do trabalho. Ele não se importa com Deus, mas com os bens que vêm de Deus. Esta é a calúnia que o difamador lança sobre todos os serviços e deveres sagrados de Jó.

Vimos brevemente o sentido do texto. Agora, apresentarei algumas observações.

A primeira é esta: Acusar as intenções de alguém quando suas ações são boas revela um espírito maligno. O Diabo não tem nada a dizer contra as ações de Jó, então ele mergulha no coração dele e acusa suas intenções. A malícia interpreta mal as ações mais nobres, mas o amor dá a interpretação mais generosa possível às ações falhas. A malícia dirá, quando alguém faz o bem: "É verdade, ele fez isso, mas foi por vaidade, para ser visto, por interesses próprios ou por lucro". O amor, porém, dirá quando alguém falha: "Ele fez isso por ignorância, descuido ou por uma tentação violenta". O amor cobre uma multidão de pecados da forma mais justa possível. Vejam que cobertura nobre o próprio Cristo colocou sobre o ato mais cruel do mundo, sua própria crucificação: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem2. Eles fizeram, mas por ignorância. Pedro disse o mesmo depois: Eu sei que o fizestes por ignorância, como também os vossos príncipes. O amor desculpa o erro alheio, e a malícia acusa o acerto alheio. Que tais homens aprendam que, ao agir assim, tornam-se a boca e a língua de Satanás.

Segundo, observamos que servir a Deus apenas por interesses revela um espírito baixo e indigno. Se o que Satanás disse fosse verdade, isso teria arruinado e manchado tudo o que Jó fez. Aqueles que buscam a Deus nestes termos não são santos, mas astutos. Eles negociam com Deus, não o servem. Não é Obedientia (obediência), mas Mercatura (mercadoria), como diz um autor. É comercializar com Deus. O próprio Deus é recompensa suficiente; há recompensa nos próprios deveres — trabalho e salário caminham juntos. Portanto, mover-se ao serviço de Deus apenas por coisas externas mostra um espírito terreno. Assim como o pecado é o seu próprio castigo, fazer o bem é a sua própria recompensa. Um poeta pagão3 notou como uma marca de infâmia em sua época que muitos se arrependiam de ter praticado o bem gratis, ou por nada. O valor das boas ações caía na estima deles se não trouxessem lucro próprio. Se um pagão condenou isso, quão condenável é entre os cristãos?

Surge aqui uma pergunta que discutirei para esclarecer o ponto principal: Não podemos ter respeito ao nosso próprio bem ou ao benefício que receberemos de Deus? É ilícito visar nossa própria vantagem enquanto cumprimos nosso dever? Devemos servir a Deus por nada no sentido estrito, ou Deus desconsiderará nossos serviços?

Esclarecerei isso em cinco conclusões breves que definem o sentido deste texto.

Primeira: ninguém serve ou pode servir a Deus por nada. Deus já superou todos os esforços da criatura por meio dos benefícios que concedeu e prometeu. Se um homem tivesse mil pares de mãos, mil línguas e mil cabeças, e usasse tudo para Deus, nunca conseguiria retribuir as obrigações que Deus já colocou sobre ele. Portanto, em sentido estrito, ninguém serve a Deus por nada. Deus não deve nada a nenhuma criatura por qualquer trabalho ou serviço realizado.

Segunda: quanto mais bênçãos externas alguém recebe, mais deve servir a Deus, e mais serviço Deus espera dele. Encontramos sempre na Bíblia que, quando Deus concede muitas bênçãos a pessoas ou nações, Ele exige reconhecimento. Oséias 2:8 diz: Ela não reconheceu que eu lhe dei o grão, e o mosto, e o azeite, e lhe multipliquei a prata e o ouro, que eles usaram para Baal; por isso, tornarei a tirar o meu grão, diz Deus. "Já que você recebeu isso, deveria ter me servido com isso". Vejam como Deus repreende Davi em 2 Samuel 12:7-8: Eu te ungi rei sobre Israel, e eu te livrei das mãos de Saul; e te dei a casa de teu senhor... e se isto fora pouco, eu te acrescentaria tais e tais coisas. Por que, pois, desprezaste a palavra do Senhor, fazendo o mal diante de seus olhos? É como se Ele dissesse: "Quanto mais eu te dei, mais obrigado você deveria se sentir a me obedecer fielmente".

Terceira: é lícito respeitar os benefícios recebidos e prometidos como motivação e encorajamento para nos estimular a agir ou sofrer por Deus. Moisés, em Hebreus 11:26, tinha em vista a recompensa; portanto, não é ilícito. O próprio Cristo, em Hebreus 12:2, suportou a cruz pela alegria que lhe estava proposta. Estes exemplos são inquestionáveis e mostram que podemos considerar os benefícios e as bênçãos.

Quarta: a referência aos benefícios torna-se pecaminosa quando a transformamos na única causa ou na causa principal de nossa obediência. Isso faz com que tudo o que fazemos cheire tanto a nós mesmos que Deus não o suporta. Quando buscamos a nós mesmos, seja exclusivamente ou acima de Deus, Deus não nos aceita. Cristo repreendeu alguns em João 6: Vós me buscais, não pelos sinais, mas porque comestes do pão. Buscar o pão mais do que a Cristo, ou tanto quanto a Cristo, é não buscar a Cristo de forma alguma.

Assim, quando os siquemitas (Gênesis 34:23) aceitaram a circuncisão para se tornarem o povo da aliança de Deus, o único argumento que usaram foi: O seu gado, e as suas possessões, e todos os seus animais, não serão nossos? Que homens animalescos eram esses siquemitas! Que sombras de religião, aceitando esse selo sagrado apenas para ganhar animais e bens mundanos! Tais interesses egoístas contaminam nossos serviços e nos tornam odiosos diante de Deus.

Portanto, em todos os nossos deveres, devemos colocar a glória de Deus no trono. Ela deve estar acima de tudo. Depois, podemos colocar o desejo pelo céu e pela glória à mão direita; o medo do inferno e o desejo de evitar a miséria à mão esquerda; e os nossos desejos por confortos externos aqui no mundo aos nossos pés. É assim que devemos ordenar o respeito a Deus e a nós mesmos. Podemos olhar para as coisas externas como motivos e incentivos, mas não como fins e causas. Elas podem ser ocasiões, mas não os fundamentos da nossa obediência.

Por fim: podemos vê-las como frutos e consequências da santidade, e até como encorajamentos, mas não como causas da nossa santidade. Ou podemos vê-las como meios através dos quais enxergamos a generosidade de Deus, e não como o objeto onde fixamos nossos desejos. Isso esclarece a primeira parte da resposta de Satanás: Será que Jó teme a Deus por nada?. Vimos como ele calunia os deveres sinceros de Jó e como devemos lidar com as bênçãos externas no serviço a Deus.

Verf. 10. Não puseste uma cerca ao redor dele, da sua casa e de tudo o que ele tem por todos os lados? Abençoaste o trabalho de suas mãos, e os seus bens se multiplicaram na terra.

Aqui Satanás se explica melhor sobre o que quer dizer com Jó não servir a Deus por nada. Ele lista os benefícios que Deus deu a Jó, e a soma é alta. 1. Ele tem uma cerca ao redor dele. 2. Deus o abençoou. 3. Ele aumenta e se multiplica — o grau mais alto de felicidade externa. Satanás enumera esses três níveis da ação de Deus para desvalorizar a bondade de Jó e torná-lo inaceitável para Deus.

Primeiro, temos a Proteção na cerca: Não puseste uma cerca ao redor dele?

Segundo, temos a Benção sobre o que estava protegido. Não foi apenas preservado do dano, mas foi abençoado.

Terceiro, há também um aumento ou multiplicação. Ele não foi apenas abençoado para manter o que tinha, mas houve um crescimento diário. Tu o proteges, tu o abençoas e tu aumentas tudo o que ele tem. Ele cresceu na terra. Este é o resumo das palavras. Agora as explicarei melhor.4

Primeiro, ele fala da proteção: Não puseste uma cerca ao redor dele? Alguns traduzem como: Não puseste um muro ao redor dele? ou uma trincheira? É uma metáfora elegante, comum nas Escrituras. Assim como um campo bem cercado ou uma cidade bem murada está protegida, quando Deus faz uma cerca ou muro ao redor de um homem ou de uma nação, sua segurança está garantida. Isaías 5:2 usa esta palavra ao falar da vinha de Deus: Ele a cercou e a limpou das pedras. No versículo 5, quando Deus está irado e decide destruir a vinha, Ele diz: Tirarei a sua cerca, ou seja, retirarei minha proteção. Zacarias 2:5 usa o mesmo sentido: Eu serei para ela um muro de fogo em redor. Portanto, dizer que Deus fez uma cerca ao redor de Jó significa proteção divina; ele estava sob as asas e a salvaguarda do Todo-Poderoso.

Esta cerca de proteção é dupla. Diz-se que Deus a fez. Primeiro, há uma cerca feita diretamente pela mão de Deus. Às vezes, o próprio Deus se declara como a cerca ou o muro, como em Zacarias 2:5 e no Salmo 18:2: O Senhor é a minha rocha, a minha fortaleza, o meu libertador... o meu escudo e a torre da minha salvação. Lá Deus era a cerca; aqui, Deus faz a cerca. Ele não delegou essa construção a outros; Ele mesmo a fez. Satanás percebe isso: Não puseste tu uma cerca ao redor dele?5

Segundo, às vezes a cerca de proteção é feita pelas mãos de outros. Deus envia seus anjos para guardar seu povo (Salmo 34:7): O anjo do Senhor acampa-se ao redor dos que o temem. Acampar e cercar têm o mesmo propósito. A cerca de Deus é tão forte quanto qualquer muro ou trincheira. Às vezes, Deus faz de um homem uma cerca para outro. Os servos de Nabal disseram de Davi (1 Samuel 25:16): Eles nos serviram de muro, tanto de dia como de noite; ou seja, ele foi uma proteção e guarda para eles. Deus faz de um homem bom um muro para um homem ímpio. Quanto mais Ele fará de homens e anjos muros e cercas para a segurança de seu próprio povo?

O texto segue mostrando o alcance dessa cerca. Veremos que era uma cerca muito grande, de enorme extensão. Sabemos que algumas cidades têm muro simples, outras duplo, e algumas lugares fortes têm muros triplos. Encontramos uma cerca tríplice ao redor de Jó, todas expressas aqui.

Primeiro, havia uma cerca ao redor de sua Pessoa. Esta era a cerca mais interna, o muro central: Não puseste uma cerca ao redor dele? Isto é, uma cerca sobre o corpo de Jó, para que doenças ou perigos não o invadissem, e sobre sua alma, para que ciladas e tentações não o dominassem. Satanás diz: "Não consigo tocar na pessoa de Jó para feri-lo".

Além desse muro interno, há um segundo muro ou cerca ao redor de sua Família. Não puseste uma cerca ao redor dele e da sua casa? Por "casa" não devemos entender a construção de pedra ou madeira, mas a casa familiar, os moradores. Cristo disse a Zaqueu: Hoje veio a salvação a esta casa. Diz-se do carcereiro que creu ele com toda a sua casa, ou seja, sua família. Aqui, Deus fez uma cerca ao redor de Jó e de sua casa — seus filhos especialmente. No hebraico, a palavra para "filho" se relaciona com "casa", pois os filhos edificam a casa ou mantêm o nome do pai. Satanás diz: "Tu cercaste não só a ele, mas a todos os que lhe pertencem; não posso tocar neles também". Esta é a segunda cerca.

Por fim, há uma terceira cerca ou muro: Não puseste uma cerca ao redor dele, da sua casa e de tudo o que ele tem? Isto se refere aos seus bens, seu gado e suas terras. Até onde as posses de Jó se estendiam, a cerca chegava. Se Jó tinha a menor coisa em campo aberto, Deus a cercava. Mesmo o item mais insignificante estava sob guarda. Este é o significado.6

Há outro detalhe para completar o sentido: Não puseste uma cerca ao redor dele... por todos os lados? Não diz apenas que Deus fez uma cerca, mas que a fez por todos os lados. Isso indica um cuidado extraordinário de Deus por Jó, não deixando nenhuma brecha para Satanás ou qualquer dano entrar. Não há um buraco sequer; tu o cercaste completamente. Isso demonstra a segurança maravilhosa de Jó, de sua família e de seus bens sob a proteção de Deus.8

Primeiro, observamos pela forma desse discurso: Não puseste uma cerca ao redor dele? Satanás fala com irritação. Perguntas assim expressam agitação e perturbação de espírito. Satanás pergunta como se estivesse furioso. Note que:

A proteção que Deus dá ao Seu povo e servos é o tormento de Satanás e de todos os seus instrumentos. Incomoda-os profundamente que Deus cuide e cerque Seu povo de tal forma que eles não consigam atingi-los. Ninguém suporta ver defendido aquilo que deseja destruir.

Considerando o conteúdo da fala de Satanás, ela é uma verdade muito consoladora para o povo de Deus. Não puseste uma cerca ao redor dele... por todos os lados? Note aqui:

Satanás, o pai da mentira, às vezes fala a verdade para sua própria vantagem. Como se diz sobre Judas em relação aos pobres, quando ele queria vender o unguento: Disse isto, não porque tivesse cuidado dos pobres, mas porque era ladrão e tinha a bolsa. Da mesma forma, Satanás descreve o cuidado de Deus com Seu povo em termos exatos. Por que ele faz isso? Não porque queira falar bem de Deus ou exaltá-Lo, mas apenas para benefício próprio, para diminuir o serviço de Jó e manchar sua obediência, alegando que Jó só obedece porque recebe muito amor e cuidado. Homens ímpios muitas vezes fazem o bem por interesses ocultos. Satanás fala a verdade sem amá-la; ele nunca fala a verdade exceto para enganar ou ferir com ela.

Terceiro, observamos algo claro nas palavras:

O povo e os servos de Deus vivem cercados de inimigos e perigos. Por que mais haveria necessidade de uma cerca ou muro? Por que haveria uma guarda se não houvesse perigo? Ninguém no mundo é tão invejado, odiado e perseguido quanto o povo de Deus. Vemos isso pelo muro construído ao redor deles. Deus não gastaria cuidado em guardar o que não corre risco de invasão. Se você vê uma cidade fortificada, com muros e baluartes, conclui que ela corre perigo e está cercada de inimigos. Quando lemos que Deus teve que fazer muro após muro ao redor da pessoa, família e bens de Jó, isso mostra que o Diabo olhava com malícia para tudo o que era de Jó. Sem essa cerca, Satanás o teria atacado rapidamente. Nenhum homem piedoso viveria um momento de paz se o Senhor não estendesse Sua mão para protegê-lo.

Quarto, observamos:

O próprio Deus assume a guarda e proteção de Seu povo. Tu puseste uma cerca ao redor dele e de tudo o que ele tem. Deus faz isso diretamente ou capacita outros com Sua força e sabedoria. Nenhuma criatura sozinha seria forte o suficiente para nos proteger contra nossos inimigos malignos e poderosos; por isso, o próprio Deus é, ou faz, a cerca. Satanás pode superar qualquer força humana ou astúcia criada. Carne e sangue não são páreos para um espírito. Nossa luta não é contra carne e sangue, mas contra principados e potestades... nas regiões celestiais (Efésios 6:12). Mas, se Deus faz a cerca, nenhum inimigo no mundo pode abrir uma brecha. Estão seguros os que estão sob a proteção de Deus. Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo, à sombra do Onipotente descansará (Salmo 91:1).

Quinto, vejam até onde a cerca chega: não só à pessoa e casa, mas a tudo o que ele tem. Deus protege até a menor posse de Jó. Note que: Deus tem um cuidado especial e valoriza imensamente até a menor coisa que pertence a um de Seus servos. Deus não daria uma cerca se não valorizasse o objeto. Ninguém cerca o que não tem valor. Deus valoriza muito o que pertence aos Seus. O Salmista diz: Preciosa é à vista do Senhor a morte dos seus santos9. Não só o sangue e a vida, mas cada membro e cada fio de cabelo são preciosos; Deus os conta. Não só os filhos, mas tudo o que é deles — servos, gado, bois, jumentos — tudo é precioso para Deus.

Por fim, observe:

Satanás tem um ódio mortal não só contra os justos, mas contra tudo o que lhes pertence. Ele quer feri-los em tudo. Se Deus deixasse desprotegido até um cão de um de Seus servos, Satanás o atacaria. Ele faria qualquer maldade, por menor que fosse, antes de não fazer nada. Se não pode destruir nossas almas, ele atacaria nossos cabelos. Por isso, Cristo, para confortar os discípulos, garantiu que até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados10. Deus pedirá conta de cada fio. Os inimigos não podem arrancar um cabelo sem que Deus os chame a prestar contas.

Isso mostra também que os inimigos tentarão pegar qualquer coisa do povo de Deus. Se não puderem levar tudo, levarão um fio de cabelo se puderem. As palavras de Cristo mostram, ao mesmo tempo, o cuidado de Deus com tudo e a malícia de Satanás contra tudo.

O texto continua: Abençoaste o trabalho de suas mãos, e os seus bens se multiplicaram na terra.

Abençoaste.] A raiz hebraica Barac significa tanto "dobrar o joelho" quanto "abençoar", pois os homens dobravam o joelho ao abençoar a Deus ou aos homens. As bênçãos ocorrem de três formas.

Primeiro, de homem para homem. Havia bênçãos proféticas, como quando Isaque abençoou Jacó, ou bênçãos comuns, como desejar o bem a alguém. Sempre que oramos por nossos amigos, nós os abençoamos.

Segundo, o homem abençoa a Deus. Fazemos isso quando O louvamos e agradecemos pelas bênçãos recebidas. Bendize, ó minha alma, ao Senhor... e não te esqueças de nenhum de seus benefícios (Salmo 103:2). Lembrar dos benefícios com gratidão é abençoar ao Senhor. O cálice na Ceia é chamado de Cálice da Benção (1 Coríntios 10:16), pois nele celebramos a morte de Cristo e agradecemos por Seus benefícios indescritíveis.

Terceiro, como no texto, Deus abençoa o homem. Deus abençoa o homem quando faz prosperar aquilo que o homem realiza. A bênção do homem para o homem é um desejo; a bênção de Deus para o homem é uma ação. Como diz Tomás de Aquino: Dei benedicere est benefacere (O abençoar de Deus é fazer o bem).

Assim, o sentido é: Abençoaste, ou seja, fizeste com que Jó prosperasse em tudo o que ele iniciou, como vemos no objeto da bênção: Abençoaste o trabalho de suas mãos.

O trabalho de suas mãos.] Não devemos entender isso apenas como trabalho manual, como se Jó fosse apenas um trabalhador braçal. No uso hebraico e em outras nações, trabalho das mãos significa qualquer tipo de esforço ou negócio. Diz-se de Cristo em Isaías 53:10: O prazer do Senhor prosperará na sua mão. O trabalho de Cristo não era manual, mas prosperou em Suas mãos, isto é, Sua gestão foi bem-sucedida para a redenção do Seu povo. Nesse sentido, o trabalho da mente ou da língua também pode ser chamado de "trabalho das mãos". Significa que Deus abençoou tudo o que Jó fez como magistrado, como pai ou como mestre. No Deuteronômio 28:6, uma bênção universal é prometida: Bendito serás ao entrares e bendito serás ao saíres. Isso cobre todos os trabalhos: "sair" é o início do esforço, e "entrar" é o fim. Em tudo Deus os abençoaria.

E os seus bens se multiplicaram na terra. Esta é a terceira coisa que Satanás observa: Jó não só era abençoado no que já tinha, mas Deus multiplicava seus bens. A palavra para multiplicaram não indica um aumento comum, mas um crescimento que rompe limites. Significa crescer tanto que o lugar original não comporta mais os bens, exigindo mais espaço.11 A palavra aparece em Êxodo 1:12 sobre Israel no Egito: Quanto mais os afligiam, tanto mais se multiplicavam e cresciam. Como um rio que, ao ser represado, transborda e rompe as margens, os bens de Jó cresceram tanto que ele precisou de novos currais e celeiros maiores. Ele "rompeu" na terra (Gênesis 38:29). Quando Tamar deu à luz gêmeos, um deles saiu primeiro e chamaram-no Perez (a mesma raiz), por causa da ruptura que ele fez.12 Jó cresceu maravilhosa e excessivamente. Satanás usa as palavras mais fortes para destacar a ação de Deus e, assim, desprezar o serviço de Jó.

Abençoaste o trabalho de suas mãos, e os seus bens se multiplicaram na terra. Primeiro, observamos que todo o sucesso nos negócios vem da bênção do Senhor. Satanás fala uma boa teologia aqui: vem do Senhor. Diz-se de José (Gênesis 39:23) que o Senhor fazia prosperar tudo o que ele fazia. Nós podemos fazer muito, mas não podemos fazer nada prosperar sozinhos. Trabalhar é nossa parte; prosperar é parte do Senhor. Os discípulos pescaram a noite toda, mas não pegaram nada até Cristo chegar. Quando Ele chegou, a bênção veio, e houve pesca em abundância.13 Nos trabalhos de qualquer profissão, os homens podem suar e se esforçar, mas não há sucesso até que Deus abençoe. Alguns atribuem o sucesso a si mesmos, à sua sabedoria ou à "boa sorte". Satanás prega uma verdade que confessa: Tu abençoaste.

Segundo, observamos: Abençoaste o trabalho de suas mãos. Todos devem ter uma ocupação. Vimos antes a piedade de Jó e seu zelo no culto; aqui vemos sua diligência em sua vocação terrena. Todos devem ter duas vocações que se ajudam: Jó temia a Deus e Jó trabalhava nos negócios que Deus lhe deu. Jó servia a Deus continuamente e trabalhava continuamente. Esses dois "continuamente" andam juntos, cada um em sua estação e oportunidade. Isso repreende os que não trabalham e não têm "obra em suas mãos".14 Para Adão, e para a humanidade, foi dito: No suor do teu rosto comerás o teu pão. Isso não exige que todos façam trabalho braçal que cause suor físico, mas exige trabalho sério e honesto em alguma vocação.

Juntando Abençoaste com o trabalho de suas mãos, observamos que o Senhor Se agrada em abençoar os industriosos. Raramente uma mão diligente fica sem a bênção de Deus.15 Provérbios diz que a mão dos diligentes enriquece e também que a bênção do Senhor enriquece. Nenhuma das duas age sozinha; a bênção de Deus sobre a mão diligente produz riqueza. Uma mão diligente não enriquece sem Deus, e Deus geralmente não enriquece sem uma mão diligente. Levante-se e faça, e o Senhor será com você. Deus não ama abençoar a ociosidade. Ele não trabalha para que fiquemos parados. Em Juízes 7, proclamaram: A espada do Senhor e de Gideão. As duas devem andar juntas. Você quer proteção? Trabalhe para se proteger. Não pense que Deus o protegerá se você estiver com as mãos no bolso e a espada enferrujando. Enquanto você trabalha para se defender em tempos de perigo, pode esperar a defesa do Senhor. É inadequado ficar parado apenas dizendo "Senhor, ajuda-nos". Devemos "aquietar-nos" (como disse Moisés em Êxodo 14:13) quanto ao medo, mas nunca quanto ao cuidado e à diligência.

Há um quarto ponto na conexão das frases: Abençoaste o trabalho de suas mãos, e os seus bens se multiplicaram na terra. A bênção de Deus, onde cai, é eficaz. Se Deus abençoa, nós cresceremos. É a palavra que seguiu a primeira bênção da Criação: Deus os abençoou e disse: Frutificai e multiplicai-vos. Abençoar e multiplicar caminham juntos. A bênção de Deus é poderosa em operação. Vejam a opinião que Balaque tinha da bênção de Balaão (Números 22:6): Eu sei que aquele a quem tu abençoares será abençoado. Era uma ideia forte, mas apenas uma ideia humana. Muitos hoje acreditam na bênção do "Balaão das sete colinas" (o Papa), aquele profeta que abençoa, mas é amaldiçoado. Se conseguem uma bênção do Papa ou uma "espada abençoada" para um ato cruel, acham que será eficaz. Em 1588, deram um estandarte abençoado16 aos que vinham contra nós, e eles se chamavam de "invencíveis" por causa daquela bênção. Era ignorância invencível, até que foram ensinados por tempestades e ventos que lutaram contra eles. Embora enganados, muitos ainda correm atrás dessa bênção humana. Digo a eles o que um cardeal disse: "Já que este povo quer ser enganado, que seja enganado". Mas desejo elevar sua estima pela bênção de Deus. Quem Deus abençoa, abençoado está. As bênçãos de Deus são fixas e eficazes. Se Ele abençoa, nada pode reverter, como Balaão foi forçado a admitir: Eis que recebi ordem de abençoar; pois ele abençoou, e eu não o posso revogar. Nem Satanás, nem falsos profetas, nem o poder das criaturas podem alterar ou atrasar a bênção de Deus por um momento.

Se Deus nos der proteção e nos abençoar nestes tempos, seremos estabelecidos e cresceremos na terra, para o espanto de todos. Embora Roma amaldiçoe e o Inferno planeje, se Deus abençoar, estamos seguros.

Devemos, portanto, buscar estar sob a influência da bênção de Deus. Se tivermos isso, teremos tudo. Sejam os meios grandes, pequenos ou nenhuns, se Deus abençoar, qualquer coisa serve. Com a bênção, seremos um povo forte e invencível. Satanás e seus instrumentos, por pura inveja, serão forçados a admitir que há uma cerca ao redor de nós que eles não podem romper e um muro que eles não podem derrubar com toda a sua artilharia.

Nesses dois versículos, temos a resposta de Satanás à pergunta do Senhor: Consideraste o meu servo Jó? Vemos a calúnia envolvida e como ele exalta as bênçãos de Deus para diminuir o serviço de Jó. Agora, temendo que Deus o desmentisse imediatamente e dissesse que Jó é sincero e que Satanás invadiu presunçosamente o segredo do coração (pois não havia nada visível para acusar), Satanás faz uma proposta no próximo versículo: Estende a tua mão agora e toca em tudo o que ele tem, e ele te amaldiçoará na tua face. É como se dissesse: "Senhor, se não acreditas em mim e achas que Jó não é um hipócrita que te serve por interesse, tira o que deste a ele, e verás que ele tirará o que te deu. Se retirares as riquezas, ele retirará o serviço".



  1. חנם 

  2. Lucas 23:24. 

  3. "Não encontrarás facilmente um entre muitos milhares que considere a virtude como seu próprio prêmio... E arrepende-se de ser honesto de graça". Ovídio. 

  4. משוכה 

  5. "O próprio Deus é a ave que rodeia o homem inocente. O pronome 'Tu' tem um peso imenso... O próprio Deus é a sebe, etc. Não delegaste esse cuidado aos anjos". 

  6. "Jó não tem nada tão vil ou pequeno que Deus não tenha tomado sob Sua proteção". Lavater. 

  7. "Aquilo que é cercado em volta não pode sofrer ataque por lado nenhum". 

  8. "Em circuito, ao redor". 

  9. Salmo 116:15. 

  10. Mateus 10:30. 

  11. פרץ (Paratz) - Crescer imensamente. 

  12. A palavra hebraica paraz significa não apenas crescer, mas romper por causa da abundância. "Os celeiros romperam com as colheitas". Virgílio. 

  13. Lucas 5. 

  14. Gênesis 3:19. 

  15. Provérbios 10:4; Provérbios 10:22. 

  16. Referência à Armada Espanhola de 1588.