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SÉTIMA DISPUTA

OU

A DEMONSTRAÇÃO DO ANTICRISTO.

Respondente: MARCO WERDMYLLERO Tigurino.

I. Embora vários inimigos sempre tenham atacado a Igreja militante na terra, causando-lhe inúmeros males — alguns agindo abertamente como inimigos declarados do nome cristão, outros agindo de forma oculta e dissimulada, combatendo a Cristo sob o Seu próprio nome —, nenhum deles foi mais pernicioso do que o próprio Anticristo. Satanás, o adversário de nossa salvação, o levantou combinando as artes e fraudes de todos os outros para atacar a doutrina e o Reino de Cristo, apostatando dele de forma infame. Por isso, entre todas as controvérsias que debatemos com os papistas, nenhuma é mais importante para confirmar, pelo caminho mais curto, a justiça e a necessidade de nossa separação da Igreja de Roma do que esta que trata do Anticristo. Pois é absolutamente certo que o Anticristo se opõe diametralmente a Cristo, não podendo haver comunhão entre eles. Se provarmos que o Pontífice — imposto à Igreja Católica como juiz de todas as controvérsias, presidente dos concílios, distribuidor de reinos, esposo da Igreja e vigário de Cristo — é aquele grande Anticristo descrito pela Escritura, será fácil para qualquer um concluir que nossa separação dele e de sua sociedade foi necessária e que nenhum acordo futuro com ele é possível.

II. É exatamente isso que nos propomos provar agora, o que ocupará o lugar da quinta e última demonstração em nosso argumento. Devemos realizar esta tarefa com diligência, pois os nossos adversários se esforçam muito para espalhar trevas sobre este assunto, pintando o Anticristo com cores que o afastem o máximo possível da face do seu Papa. Eles criam falsos retratos do Anticristo para induzir os cristãos ao erro, assim como os judeus atribuem falsas características ao Messias para nos afastar do conhecimento salvador de Cristo. No entanto, se observarmos atentamente, nada é mais fácil do que dissipar essa névoa e expor este mistério da iniquidade à luz da Palavra de Deus. Para que isso seja feito de forma adequada, acreditamos que devemos cumprir dois objetivos: primeiro, provar em tese qual deve ser o caráter do Anticristo que procuramos; segundo, demonstrar em hipótese, como se o apontássemos com o dedo, quem ele é. O primeiro ponto mostrará os caracteres e marcas genuínas do Anticristo; o segundo ensinará a aplicação dessas marcas e em qual pessoa elas se encontram. Buscaremos o primeiro ponto na Escritura e o segundo nos fatos e na experiência.

III. Antes de passarmos ao assunto em si, devemos esclarecer dois pontos sobre o nome. Primeiro, o termo "Anticristo" às vezes é usado de forma comum para designar qualquer adversário de Cristo que se oponha a Ele em um ou mais pontos da doutrina. No uso bíblico, ele não designa apenas um inimigo externo, mas um doméstico e disfarçado; nesse sentido, João testemunha que já em seu tempo havia muitos anticristos (1 João 2:18), referindo-se aos heréticos que negavam a divindade ou a encarnação de Cristo. Outras vezes, o termo é usado de forma singular e enfática para designar um adversário específico de Cristo, a quem este nome pertence por excelência e em quem se reúnem as diversas marcas que nos outros aparecem apenas de forma dispersa. É neste sentido que discutimos agora. Segundo, o nome "Anticristo" implica duas coisas: 1. Um inimigo e rival de Cristo; 2. Seu Vigário. A preposição anti traz esse duplo sentido, significando ora contra, ora em lugar de. Significa substituição, como em antípatos (procônsul, que faz as vezes do cônsul) ou em outros termos que indicam alguém que ocupa o lugar de outro. Também significa oposição e contrariedade, como em adversário e rival. Ambos os significados se aplicam aqui. O Anticristo se revela como o grande adversário de Cristo ao tentar igualar-se a Ele como rival e ao professar ocupar o Seu lugar na terra como Seu Vigário. Satanás o impõe como Vigário de Cristo apenas para que, sob essa máscara e encenação, possa combatê-Lo mais facilmente. Assim, a ideia de vicariato serve de base para a oposição, e esta última é o objetivo final daquela.

IV. Ambos reconhecemos que o Espírito Santo predisse profeticamente à Igreja a vinda deste Anticristo propriamente dito, tanto por meio de Paulo (2 Tessalonicenses 2) quanto por João (Apocalipse 13, 17 e 18), sob a figura da Meretriz e da Besta. Até mesmo Daniel, no Antigo Testamento, o pré-figurou sob o tipo de Antíoco Epifânio, cuja tirania contra a igreja judaica prefigurava a violência do Anticristo contra a Igreja cristã. O grande desacordo, porém, é que os adversários negam obstinadamente que o seu Pontífice seja o Anticristo descrito pelos homens de Deus, enquanto nós afirmamos constantemente que suas marcas não se aplicam a ninguém mais adequadamente. Ao afirmarmos isso, não o fazemos por desejo de caluniar — embora os seguidores do Papa nos chamem diariamente de heréticos condenados e nos ataquem com inúmeras calúnias — mas por mera necessidade de defesa. Queremos satisfazer nossas consciências, conforme a Palavra de Deus nos dita, e demonstrar a justiça e a necessidade de nossa separação da Igreja Romana, para que não pareça que nossos antepassados deixaram sem motivo a comunhão em que nasceram, ou que nós rejeitamos qualquer retorno a Roma sem razão.

V. Esta é a opinião comum e constante dos protestantes, expressa em suas diversas Confissões: a Helvética (Art. 17), a Belga (Art. 36), a Escocesa (confirmada pelo Parlamento em 1581 e assinada pelo Rei e sua família), a Boêmia (publicada em 1535), e a Anglicana de Jewel (1562), apoiada pelas universidades de Oxford e Cambridge e por bispos doutos. O Rei Tiago VI, em sua apologia pelo juramento de fidelidade, também defende esta visão. As igrejas francesas também testificaram isso no Sínodo Nacional de Gap, em 1604, onde inseriram unanimemente em sua Confissão o seguinte artigo:

Visto que o Bispo Romano, após erguer para si uma Monarquia eclesiástica no mundo cristão, arroga para si a primazia sobre todas as igrejas e pastores, exaltando-se ao ponto de chamar-se Deus, exigir adoração e atribuir a si todo o poder no céu e na terra; visto que ele dispõe das coisas eclesiásticas a seu arbítrio, define artigos de fé e submete a autoridade da Escritura à sua própria, interpretando-a como deseja; visto que ele faz comércio de almas, dissolve votos e juramentos, institui novos cultos a Deus e, no que tange ao âmbito civil, atropela a autoridade legítima dos magistrados, dando e tirando reinos; Cremos e afirmamos que ele é o verdadeiro e próprio Anticristo, o filho da perdição (2 Tessalonicenses 2:3), predito na Palavra de Deus, a Meretriz purpurada que se assenta sobre sete montes em uma grande cidade e reina sobre os reis da terra. Esperamos que o Senhor, conforme prometeu, o destrua com o sopro de sua boca e pelo esplendor de sua vinda. A Confissão de Augsburgo segue a mesma linha, atribuindo as marcas do Anticristo ao Papa, especialmente em seus abusos. A Apologia dessa Confissão também chama o Papa de Anticristo em vários lugares. O próprio Belarmino reconhece que todos os protestantes concordam com esta tese.

VI. Para não parecer que afirmamos isso sem provas, demonstraremos agora que todos os caracteres usados pela Escritura para descrever o Anticristo se aplicam de tal modo ao Pontífice Romano que ninguém pode observá-los sem enxergar o próprio Papa como em um espelho. Embora existam várias marcas, podemos resumi-las em três principais: Lugar, Tempo e Pessoa. Em alguns textos, o Espírito Santo designa o Lugar ou sede onde ele se assentaria. Em outros, indica o Tempo em que ele surgiria. Em outros ainda, descreve as diversas qualidades da Pessoa e as ações que o distinguiriam. Quanto ao Lugar, ele é designado de forma dupla: Geral e Específico. O lugar Geral é o Templo de Deus, conforme Paulo (2 Tessalonicenses 2:4), que diz que o homem do pecado se assentará no Templo de Deus agindo como Deus. Está claro que isso se refere ao Templo místico, ou seja, a Igreja, que frequentemente recebe esse nome na Escritura. Sei que o termo "Templo de Deus" muitas vezes se refere ao Templo de Jerusalém, mas não pode ser este o sentido aqui, apesar do que dizem os papistas (para sustentar a fábula de um Anticristo judeu) e Grotius (que tenta distorcer as palavras de Paulo para bajular o Pontífice). Paulo fala de uma profanação do Templo que os cristãos deveriam temer e evitar. A destruição do Templo de Jerusalém, porém, era algo que os cristãos até desejavam, para que as cerimônias legais fossem revogadas e a profecia de Cristo se cumprisse. Além disso, segundo o vaticínio de Cristo, o Templo de Jerusalém seria totalmente destruído pelos romanos, sem sobrar pedra sobre pedra, tornando-se uma desolação perpétua. Quando Juliano, o Apóstata, tentou reconstruí-lo para odiar o cristianismo, foi impedido por terremotos e chamas vingadoras. Finalmente, após a morte de Cristo, a casa de Jerusalém perdeu tanto a realidade quanto o nome de "Templo de Deus". O Anticristo, como admitem até os papistas, não deveria reinar em Jerusalém, mas em Roma, e não entre os judeus, mas na Igreja Cristã, atacando a Cristo de forma hipócrita e oculta.

VII. Diz-se que o Anticristo se assentará no Templo de Deus porque usurparia o domínio e o governo na Igreja. Assentar-se significa reinar. O Apóstolo indica que ele exerceria seu domínio não como os tiranos antigos, que atacavam a Igreja de fora permanecendo na infidelidade, mas reinando dentro da Igreja, de modo que a guerra não seria externa, mas intestinal e civil. Não devemos ignorar a observação de Agostinho, que nota que o original grego permite traduzir como "assentar-se para dentro do Templo de Deus", como se ele mesmo fosse o Templo (a Igreja), exercendo sua tirania não apenas na Igreja, mas contra a Igreja.

VIII. A realidade grita que isso se aplica ao Pontífice Romano. Ele se professa cristão e chama seu corpo de Igreja Cristã, Católica e Apostólica. Ele se assenta no Templo de Deus porque fixou sua sede na Igreja Cristã e arroga para si a primazia sobre toda a Igreja. Ele puxa para si o nome, os privilégios e a autoridade da Igreja, como se apenas ele e os seus fossem o Templo de Deus, tratando os demais cristãos como heréticos. Ele reina na Igreja de tal forma que a destrói. Para que o fato corresponda ao Oráculo, eles até retiveram o verbo assentar para designar seu domínio: cada Papa é dito ter sentado por tanto tempo na sede, que chamam enfaticamente de Santa Sé. O fato de o Papa se assentar na Igreja de Deus não torna a Igreja Romana a verdadeira Igreja. Devemos distinguir entre o estado anterior e o posterior. Quando a sede do Anticristo é chamada de Igreja, isso significa que o que antes era a Igreja de Cristo tornou-se o trono do Anticristo. Assim como Isaías diz que a cidade fiel tornou-se meretriz, a Igreja Romana pôde ser verdadeira enquanto retinha a sã doutrina, mas deixou de ser de Cristo quando apostatou da verdade e introduziu doutrinas estranhas.

IX. O lugar específico é a Babilônia, a grande cidade das sete colinas, que no tempo de João exercia domínio sobre os reis da terra, embriagava os povos com o cálice de suas prostituições e estava ébria com o sangue dos santos. Já demonstramos na disputa anterior que isso se aplica exclusivamente a Roma — não à Roma pagã, mas à Roma que se diz cristã e que caiu em apostasia. Um único ponto resta resolver: Bellarmino e outros alegam que a sede do Anticristo seria Jerusalém, pois os corpos das duas testemunhas jazeriam na praça da grande cidade onde o Senhor foi crucificado (Apocalipse 11:8). No entanto, Jerusalém nunca é chamada de "grande cidade" em sentido negativo no Apocalipse. Esse título pertence perfeitamente a Roma, chamada misticamente de Babilônia, espiritualmente de Sodoma (pela sua imundícia) e Egito (pela cegueira e crueldade). O fato de dizer que o Senhor foi ali crucificado pode ser entendido de três formas: 1. De forma própria, porque Cristo foi crucificado sob a autoridade romana; 2. De forma mística, em Seus membros, cujos sofrimentos Cristo considera Seus; 3. Espiritualmente, por causa dos pecados, pelos quais os apóstatas crucificam novamente o Filho de Deus. Sendo Roma a cabeça da grande apostasia, Cristo é ali crucificado espiritualmente todos os dias, inclusive por meio do sacrifício da Missa, que eles pretendem oferecer como novo sacrifício propiciatório.

X. Identificada a sede, devemos observar o Tempo de sua revelação. Os papistas jogam o tempo da vinda do Anticristo para o fim do mundo, assim como os judeus dizem que o Messias ainda não veio. Nós afirmamos que o Anticristo já surgiu e se manifestou. Paulo afirma que em seu tempo o mistério da iniquidade já operava (2 Tessalonicenses 2:6-7) e João diz que já havia muitos anticristos no mundo. Embora o início tenha sido oculto, com Satanás lançando os fundamentos da tirania através de corrupções doutrinárias graduais, o fato é que ele já se revelou. Assim como as origens de uma república ou de uma língua podem ser obscuras, mas o seu crescimento é evidente, o nascimento do Anticristo foi misterioso para que ele primeiro fosse concebido como o filho da perdição antes de nascer e se revelar plenamente.

XI. A Escritura vincula o tempo dessa revelação à remoção daquilo que o detinha: o Império Romano. Paulo diz: "E agora vós sabeis o que o detém... somente aquele que agora o detém, o detenha até que seja tirado do meio; e então será revelado o ímpio". O que impedia a revelação do Anticristo? A maioria dos intérpretes antigos, como Crisóstomo e Agostinho, concorda que o detentor era o Imperador Romano. Enquanto o Imperador governava em Roma, o Anticristo não podia exercer seu domínio ali. O Império precisava ser removido para abrir o caminho. Paulo usa o gênero neutro ("o que detém") para o Império e o masculino ("aquele que detém") para o Imperador. Esta era a única barreira; uma vez removida, o Anticristo se revelaria. Isso se confirma em Apocalipse 17, onde o tempo do Anticristo coincide com a fragmentação do Império em dez reis (os dez chifres). O Anticristo é a última cabeça da besta romana, que só poderia surgir após a queda da sexta cabeça (os Imperadores).

XII. Quase todos os Pais da Igreja concordam com esta interpretação. Tertuliano diz explicitamente: "Quem detém senão o Estado Romano, cuja fragmentação em dez reis introduzirá o Anticristo?". Por isso, ele afirma que os cristãos oravam pela preservação do Império Romano, pois sabiam que sua queda traria o horror do Anticristo. Jerônimo, ao ver Roma ser saqueada, escreveu: "Aquele que detinha está sendo tirado do meio, e não percebemos que o Anticristo se aproxima?". Agostinho e muitos outros adversários modernos, como Lyranus e Tomás de Aquino, reconhecem que Paulo se referia ao Império Romano, mas falava de forma velada para não ser acusado de desejar o mal ao Império.

XIII. Estabelecido isso, resta provar que este oráculo já se cumpriu: o domínio dos Imperadores foi tirado e o Anticristo se revelou. Os adversários dizem que o Império ainda existe e, portanto, o Anticristo não veio. Mas devemos distinguir entre o Antigo Império (que terminou com Augústulo) e o Novo Império (que começou com Carlos Magno). Paulo falava do império que existia em seu tempo e que impedia o Anticristo em Roma. Um título nominal de imperador na Alemanha não impede o domínio do Papa em Roma. Além disso, o império atual é apenas uma "imagem" da besta, criada e animada pelo próprio Anticristo. Até autores papistas como Baronius e Salmeron admitem que o Império Romano do Ocidente caiu há muito tempo e que o atual imperador é apenas uma sombra tênue que nem sequer possui a cidade de Roma.

XIV. Se o antigo Império foi removido, o Anticristo deve ter se revelado. De fato, conforme o Império no Ocidente enfraquecia, a tirania do Pontífice Romano crescia. Podemos notar três graus dessa queda imperial: 1. Quando Constantino transferiu a sede para Constantinopla (331 d.C.), deixando a sede de Roma vaga para o Pontífice. 2. Quando o Império do Ocidente foi extinto em 475 d.C. com Augústulo, e Roma ficou sem imperador por 325 anos. 3. Quando os imperadores gregos perderam o que restava de autoridade na Itália (727 d.C.) devido às manobras dos Papas, que usurparam o título de Pontífice Ecumênico e a primazia suprema.

XV. Este mistério não se completou em um instante, mas de forma sucessiva. Podemos ver o Anticristo como: Concebido no tempo dos apóstolos; Nascido e revelado por volta de 606 d.C. com Bonifácio III; Crescido e adulto por volta do século X com Gregório VII, que arrogou a monarquia temporal; Florescente até a Reforma de Lutero; e agora Decrescente e caindo pelo sopro da boca de Cristo (a pregação do Evangelho). O Espírito Santo marca dois períodos para sua destruição: primeiro, pelo sopro da boca de Cristo (a Palavra), e finalmente pela vinda gloriosa do Senhor. O próprio Belarmino lamenta que, desde que os protestantes começaram a chamar o Papa de Anticristo, seu império tem diminuído constantemente.

XVI. Terceiro, devemos observar a Pessoa do Anticristo. O primeiro caractere é a Apostasia (2 Tessalonicenses 2:3). Os adversários admitem que a Apostasia aqui se refere ao próprio Anticristo. Trata-se de uma deserção singular e notória, que não é política (do Império), mas religiosa (de Deus e da fé). Paulo explica em 1 Timóteo 4:1 que "nos últimos tempos alguns apostatarão da fé". Não se trata de uma heresia qualquer, mas de uma deserção de tal magnitude que o Anticristo é o seu príncipe. Quase todos os Pais da Igreja e até alguns doutores papistas concordam que se trata de uma deserção da fé antes recebida.

XVII. Embora seja uma apostasia notória, não significa uma negação pública e total do nome cristão, como os papistas alegam para se esquivarem. Basta que haja uma deserção memorável da verdade, mesmo mantendo o nome de cristão. Na Escritura, a idolatria é frequentemente chamada de apostasia. O fato de ele se assentar no Templo de Deus (a Igreja) prova que ele não nega o cristianismo exteriormente, mas o corrompe por dentro.

XVIII. Esta marca se aplica perfeitamente ao Pontífice Romano. Ele é o cabeça dessa apostasia católica, tendo desertado da fé de Cristo através de inúmeros erros dogmáticos, superstições rituais e idolatria no culto. Belarmino desafia: "provem quem desertou da fé, se fomos nós ou vocês". Aceitamos o desafio. Cristo quer a Escritura como regra única; o Papa exige Tradições humanas. Cristo quer que Sua Palavra tenha autoridade própria; o Papa a submete à Igreja. Cristo é o único Mediador; o Papa impõe inúmeros outros. Cristo é o único sacrifício; o Papa produz a Missa. Cristo salva pela fé; o Papa exige méritos de obras. Quem ensina e defende tais coisas reteve a fé de Cristo ou cometeu apostasia?

XIX. Para confirmar essa apostasia, 1 Timóteo 4:1-3 diz que alguns apostatarão da fé por darem ouvidos a "doutrinas de demônios". Isso se refere principalmente ao culto idolátrico, que é a alma desta apostasia. Assim como abraçar a fé cristã é converter-se dos ídolos para Deus, apostatar é converter-se aos ídolos, abandonando o Deus vivo. A Babilônia mística é chamada de "Mãe das Prostituições" (idolatria). Essas doutrinas são "de demônios" porque o Diabo é o autor delas e porque o objeto do culto são mediadores semelhantes aos "demônios" (seres intermediários) dos pagãos. Assim como os pagãos tinham seus deuses menores para interceder junto aos deuses supremos, a Igreja Romana introduziu o culto aos santos e anjos como mediadores, restaurando a teologia pagã sob nomes cristãos.

XX. Paulo também descreve os meios dessa apostasia: "pela hipocrisia de faladores de mentiras, que têm a consciência cauterizada, proibindo o casamento e ordenando a abstinência de alimentos". O meio usado é a hipocrisia e a mentira (falsos milagres e lendas). Sob um véu de piedade e humildade, introduziu-se o culto às relíquias e imagens. Por meio de "lendas áureas" e escritos forjados, essas doutrinas foram enraizadas. Os autores dessas fraudes têm a consciência cauterizada, sendo impuros e insensíveis. A proibição do casamento (celibato obrigatório) e a interdição de alimentos (leis de jejum papais) são marcas claras que o próprio Paulo vincula a essas doutrinas demoníacas.

XXI. Não é preciso muito esforço para ver isso na Igreja Romana. Eles desertaram da fé, promovem a idolatria, impõem o celibato e proíbem alimentos. Nós, por outro lado, mantemos a fé original, não proibimos o casamento nem o uso de alimentos. Os adversários tentam culpar antigos heréticos como os maniqueístas, mas Paulo fala de uma apostasia dos "últimos tempos" e de quem teria poder para ordenar e proibir essas coisas em larga escala, o que só o Papa faz. O termo "alguns" não exclui a multidão, mas indica que Deus sempre preserva os Seus.

XXII. Desta apostasia surgem dois outros caracteres: Oposição e Orgulho. O Anticristo é o adversário (ὁ ἀντικείμενος) e o que se exalta (ὁ ὑπεραιρόμενος). Ele é o inimigo de Cristo, mas não um inimigo aberto; ele é um inimigo dissimulado que, enquanto professa ser cristão, age como Anticristo, usurpando a autoridade de Cristo sob o pretexto de ser Seu vigário. Por isso, sua iniquidade é um mistério e sua sede tem o nome de "Mistério" na fronte, pois sua impiedade é velada por um nome de piedade. Ele engana os homens com um cálice de ouro, apresentando superstições sob a aparência de devoção. Se ele atacasse abertamente, quem seria enganado? Ele se veste com os chifres do Cordeiro, mas fala como o Dragão.

XXIII. Quem pode negar que o Pontífice é tal adversário? Ele se opõe ao ofício mediador de Cristo: à Sua Profecia, por meio das tradições infalíveis do Papa; ao Seu Sacerdócio, por meio da Missa e satisfações humanas; ao Seu Reino, pelo poder temporal que usurpa. Ele se opõe a Cristo sob a máscara do cristianismo. Os adversários dizem que ele não pode ser o Anticristo porque se diz "servo de Cristo", mas é justamente isso que define o Mistério da Iniquidade: negar a Cristo nos fatos enquanto O professa com as palavras.

XXIV. O Anticristo também é um êmulo que exalta sua própria glória sobre tudo o que se chama Deus ou objeto de culto (σεβασμα). Ele se levanta sobre os reis e príncipes (chamados de "deuses" na Escritura) e sobre a majestade dos imperadores (chamados de sebastoi ou "augustos"). Ele se exalta acima dos anjos e santos e, finalmente, assenta-se no Templo de Deus como se fosse Deus, reivindicando um poder supremo e divino na Igreja.

XXV. Quem faz isso melhor que o Papa? Ele se exalta sobre os reis e imperadores, alegando o direito de coroá-los ou depô-los e de transferir seus reinos (como vimos na Disputa V). Ele se exalta sobre os anjos, dizendo que tem autoridade para comandá-los. O Papa Clemente VI chegou a ordenar aos anjos do paraíso que levassem diretamente ao céu as almas daqueles que morressem em peregrinação a Roma. Ele se exalta sobre todos os objetos de culto (sebasmata), pois decide quem deve ser canonizado e adorado. Ele se exalta até sobre o sacramento do altar, que é carregado diante dele como um servo enquanto ele é levado nos ombros de príncipes.

XXVI. Mas o pior é o seu orgulho em agir como Deus. Não parece incrível que um homem chegue a tal ponto? No entanto, os escritos papistas chamam o Papa de Deus. A Glosa do Direito Canônico chama o Papa de "Nosso Senhor Deus". O Papa Nicolau afirmou que o Pontífice não pode ser julgado pelos homens porque "Deus não pode ser julgado por homens". Eles afirmam que a sentença do Papa e a de Deus são uma só, que seu tribunal é o mesmo e que não há apelação do Papa para Deus. Eles dizem que ele tem uma dignidade divina e que, se ele levasse multidões ao inferno, ninguém poderia lhe perguntar: "por que fazes isso?". Ele se apropria de todos os títulos de Cristo: Cabeça, Esposo, Fundamento, Leão da Tribo de Judá. O título de "Servo dos Servos" é apenas uma humildade fingida para esconder um orgulho tirânico.

XXVII. Ele usurpa o poder que pertence apenas a Deus. Ele se gaba de ter todo o poder no céu e na terra, de criar leis que obrigam a consciência e de ser infalível. Ele afirma poder transformar o pecado em não-pecado e ter um poder absoluto. Ele se diz monarca de três reinos (celestial, terrestre e infernal), simbolizado pela tiara de três coroas. Ele se exalta acima de Deus ao submeter a autoridade da Escritura à sua própria e ao dispensar leis divinas sobre juramentos, votos e casamentos. Ele pune crimes contra si mesmo com mais severidade do que crimes contra Cristo.

XXVIII. Assim, o Pontífice se revela como o Homem do Pecado e Filho da Perdição. Ele é o homem do pecado porque, além de ser um pecador insigne (como admitem seus próprios historiadores), ele é autor de pecados para outros. É o filho da perdição porque, como Judas, trai o Senhor e arrasta outros para a destruição. Ele é o Ímpio (o sem lei, ὁ ἄνομος), pois se considera livre de toda lei humana e divina, não podendo ser julgado por ninguém. Eles afirmam que ele "está acima de todo direito" e que "sua vontade é a razão".

XXIX. A esta impiedade se soma a Idolatria, pela qual sua sede é chamada de Meretriz. Já provamos isso nas disputas anteriores. Passemos à quinta marca: o Número e a Marca da Besta (Apocalipse 13). A segunda besta (o Anticristo) obriga todos a receberem uma marca na mão direita ou na testa, sem a qual ninguém pode comprar ou vender. Esta besta representa o Anticristo em seu poder espiritual, como falso profeta e sedutor.

XXX. A marca não precisa ser um sinal físico visível na pele, mas um símbolo de comunhão e sujeição. Refere-se à profissão de fé e à conformidade com a doutrina do Anticristo. Receber na testa significa a profissão pública; na mão, a operação e as obras. Assim como os servos eram marcados para serem reconhecidos por seus senhores, os seguidores do Anticristo se sujeitam à sua autoridade.

XXXI. Encontramos essa marca facilmente no papismo. Eles exigem o sinal da cruz feito com a mão na testa, o crisma da confirmação (sem o qual dizem que ninguém é cristão) e o caráter "indelével" das ordens sagradas. Ninguém é recebido na comunhão de Roma sem se sujeitar ao Papa. O novo Símbolo de Roma, promulgado por Pio IV, é a marca pela qual eles se distinguem, jurando obediência ao Papa e aceitando todos os seus ritos e tradições. Esta profissão do papismo é verdadeiramente a "Marca Latina".

XXXII. A proibição de comprar e vender para quem não tem a marca já foi cumprida literalmente. O Papa Gregório VII ordenou que ninguém permitisse comprar ou vender a quem fosse desobediente à Sé Apostólica. Alexandre III e o Concílio de Latrão proibiram qualquer comércio com aqueles que se afastassem da submissão romana (os albigenses). Martinho V, na bula contra Wycliffe e Huss, proibiu que tais pessoas tivessem casas, fizessem contratos ou exercessem qualquer negócio. Isso é o cumprimento exato da profecia: os cristãos fiéis são tratados como excomungados e impedidos de participar da vida civil a menos que se submetam à marca do Papa.

XXXIII. O número da Besta é 666. Este número deve ser contado a partir do nome da Besta. Trata-se de um nome místico ou comum que descreve o estado ou império liderado pelo Anticristo. O cálculo é feito com base nas letras gregas ou hebraicas que possuem valor numérico. Irineu, discípulo de Policarpo, testemunhou que aqueles que conheceram João pessoalmente ensinavam que o número era 666.

XXXIV. Embora fosse difícil entender esse número antes do cumprimento, hoje os fatos o esclarecem. Rejeitamos interpretações fantasiosas como a de Grotius, que tentou aplicar isso a Trajano. Trajano não foi o pior dos imperadores e sua marca não coincide com o relato bíblico.

XXXV. A interpretação mais comum e sólida é que o nome é Lateinos (Latino). Este nome foi sugerido por Irineu. Seja em grego (Lateinos) ou em hebraico (Romith ou Romanus), o resultado é 666. - λ(30) + α(1) + τ(300) + ε(5) + ι(10) + ν(50) + ο(70) + ς(200) = 666 - ר(200) + ו(6) + מ(40) + י(10) + ת(400) = 656 (Nota: em outros manuscritos hebraicos o cálculo de Romiti ou Romanus atinge 666 precisamente). O Pontífice Romano é verdadeiramente o "Latino". Ele ocupa a sede do Império Latino, usa o latim em todo o culto público e em todos os seus decretos. A Igreja Romana é chamada pelos orientais de "Igreja Latina".

XXXVI. Belarmino tenta refutar dizendo que Lateinos se escreve apenas com "i", e não com o ditongo "ei", mas Irineu e outros estudiosos da língua grega confirmam que os gregos usavam o ditongo para representar o "i" longo latino (como em Antonino, Sabino, Latino). O nome não precisa ser o nome próprio de uma pessoa, mas o nome do império e do estado que ela representa.

XXXVII. Sexto: os Efeitos e Obras do Anticristo, especialmente os falsos milagres. Paulo diz que sua vinda seria com "sinais e prodígios de mentira" (2 Tessalonicenses 2:9). Eles são "de mentira" porque: 1. Sua origem é Satanás; 2. Sua forma é ilusória e fraudulenta (prestidigitação); 3. Seu objetivo é confirmar a mentira e afastar os homens da verdade.

XXXVIII. A ostentação de milagres é uma característica exclusiva da Igreja Latina há séculos. Os judeus não os têm, os turcos propagam sua religião pela força, e os cristãos ortodoxos se contentam com os milagres de Cristo e dos apóstolos registrados na Bíblia. Os papistas, porém, colocam os milagres como uma das notas principais da Igreja. Quase todos os seus santos e relíquias são celebrados por supostos milagres. No entanto, estes milagres servem apenas para confirmar erros como o purgatório, as indulgências e o culto às imagens. Muitos de seus próprios autores, como Lyranus e Melchior Cano, admitiram que muitos desses "milagres" são invenções dos sacerdotes para lucro temporal ou ilusões diabólicas. É a "eficácia do erro" enviada por Deus para que creiam na mentira.

XXXIX. À fraude somam-se a Crueldade e a Violência. A Besta faz guerra aos santos e os vence; a Mulher está embriagada com o sangue dos mártires. Some-se a isso o Luxo e as Riquezas: a Mulher está vestida de púrpura e escarlate, adornada com ouro e pedras preciosas. Quem pode olhar para o "Patrimônio de Pedro", para o luxo da corte pontifícia e para as imensas riquezas acumuladas por meio de simonia, indulgências e taxas eclesiásticas, e não enxergar ali a Mulher descrita em Apocalipse 17 e 18?

XL. Poderíamos trazer mais argumentos de Daniel sobre Antíoco e o Anticristo, mas o que foi dito basta para provar que as marcas do Anticristo se aplicam perfeitamente ao Pontífice Romano. Autores doutíssimos como o Rei Tiago da Inglaterra, Du Plessis-Mornay, Whitaker, Chamier e recentemente Pierre Jurieu demonstraram isso com solidez.

XLI. Até mesmo autores papistas reconheceram isso em tempos de crise. Gregório I afirmou que quem desejasse o título de "Sacerdote Universal" seria o precursor do Anticristo. No século X, o bispo Arnulfo declarou em um sínodo que um Papa sem caridade e inflado de orgulho sentado no trono era o "Anticristo no Templo de Deus". No século XI, muitos clamavam que Gregório VII era o Anticristo agindo sob pele de cordeiro. O imperador Frederico II chamou o Papa de "Besta que sobe do mar". O bispo Eberardo de Salzburgo provou que todos os caracteres do Anticristo estavam no Papa. Portanto, nossa posição não é nova nem inaudita, mas foi reconhecida dentro da própria Igreja Romana ao longo dos séculos.

XLII. Os adversários tentam refutar-nos com quatro argumentos principais: 1. Que o Anticristo seria um único homem que viria apenas no fim do mundo por três anos e meio. 2. Que ele seria um judeu da tribo de Dã que reconstruiria o Templo de Jerusalém. 3. Que Enoque e Elias voltariam pessoalmente para combatê-lo. 4. Que ele negaria abertamente o nome de Cristo.

XLIII. Respondemos: 1. O Anticristo não é um único indivíduo, mas uma sucessão de pessoas em um mesmo estado (como "o que detém" representava a série de imperadores). O mistério já operava no tempo de Paulo e deve durar até a vinda de Cristo, o que é impossível para um único homem. As "bestas" de Daniel e do Apocalipse sempre representam reinos ou sucessões de governantes, não indivíduos isolados.

XLIV. O fato de Paulo usar o artigo definido ("o homem do pecado") não exige um único indivíduo, pois o grego usa o artigo para designar categorias ou cargos (como "o magistrado" ou "o pastor"). O fato de Cristo ser uma única pessoa não exige que seu antítipo também o seja, pois Cristo é imortal e não tem sucessores, enquanto o Anticristo é uma sucessão de homens mortais.

XLV. A ideia de que ele viria apenas poucos anos antes do fim do mundo é falsa. Paulo diz que o mistério já estava em curso. Os "últimos tempos" na Escritura referem-se a toda a era entre a primeira e a segunda vinda de Cristo, sendo o papado a fase culminante desta última dispensação.

XLVI. Os "três anos e meio" (1260 dias ou 42 meses) são dias proféticos, onde cada dia representa um ano, assim como nas setenta semanas de Daniel. As ações atribuídas ao Anticristo — subjugar o mundo, enganar as nações, estabelecer um império comercial global — não poderiam ser realizadas em apenas três anos literais.

XLVII. A origem judaica é uma fábula sem fundamento bíblico. Se ele fosse um judeu externo, não poderia ser um "apóstata" (alguém que cai da fé cristã). A reconstrução do Templo de Jerusalém contradiz as palavras de Cristo, que decretou a desolação perpétua daquele lugar. O Templo onde ele se assenta é a Igreja.

XLVIII. A volta de Enoque e Elias é outra fábula. Elias já veio espiritualmente na pessoa de João Batista. Enoque e Elias estão no céu e não estão mais sujeitos à morte. As "duas testemunhas" são os fiéis que Deus levantou ao longo dos séculos para testemunhar contra o papado.

XLIX. O Anticristo não nega a Cristo abertamente com as palavras, mas com as obras. Ele professa Jesus com a língua, mas O nega ao usurpar Seus ofícios. Ele não abole a Missa, mas a institui como um ídolo que destrói o verdadeiro sacrifício único de Cristo, introduzindo o culto ao "deus das fortalezas" (Maozim), que se refere aos seus santos protetores e ao pão transformado em ídolo.

L. Quanto aos Pais da Igreja, eles eram intérpretes, não profetas. Sem o benefício da história cumprida, eles apenas sugeriram possibilidades. Não somos obrigados a seguir suas conjecturas em questões de profecia que só se esclareceram com o tempo. Concluímos, portanto, que sendo o Papa o Anticristo, nossa separação de sua comunhão foi sumamente necessária e qualquer acordo (Sincredismo) com ele é impossível.

F I M.