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DISPUTA TEOLÓGICA SOBRE A ESCRITURA SAGRADA

Sobre a sua Autoridade contra os Pontifícios.

PRIMEIRA PARTE.

Respondente: M I C H A E L E T U R R E T T I N O de Genebra.

I. Certamente é de admirar e de se lamentar que, se antes os homens debatiam a partir das Escrituras, hoje eles debatem sobre a própria Escritura. A majestade dela deveria ser sagrada e inviolável entre os cristãos. Esta foi a astúcia dos pontifícios: como não encontraram proteção suficiente na Escritura, recorreram a objeções contra ela. Eles queriam evitar o tribunal da Escritura com um pretexto plausível e apelar para a Igreja — isto é, para seus próprios doutores e para o Papa. Assim, eles mesmos sentariam como testemunhas e juízes em sua própria causa. Por isso, tentaram abalar e enfraquecer a autoridade e a dignidade da Escritura, se não as destruir completamente. Embora as controvérsias sobre a Escritura não costumem figurar entre as primárias, mas entre as secundárias que temos com os pontifícios 1 (pois o debate não começou originalmente por ela), elas devem parecer graves e importantes. Na verdade, elas se tornaram necessárias agora, pois servem como base e fundamento para todas as outras questões. Visto que a Escritura é o Princípio e a Regra da nossa fé, nossa fé sempre vacilará e permanecerá incerta se não afirmarmos e demonstrarmos primeiro a sua Autoridade.

II. Podemos organizar a questão sobre a Autoridade da Escritura em dois tipos, contra dois grupos de pessoas 2. Primeiro, contra os ateus e epicuristas 3, que são totalmente alheios à religião e não reconhecem nenhuma Autoridade ou Divindade nesta Palavra. Segundo, contra os pontifícios 4, que, embora professem crer nela e aceitá-la, fazem sua autoridade depender tanto da Igreja e do testemunho dela que, sem isso, a Escritura não poderia ser conhecida por nós (ou, ao menos, não teria força para nós). Deixamos de lado agora a primeira questão, que trataremos em momento mais oportuno, e abordamos a segunda. Propomo-nos a provar, com a ajuda do bom Deus, que a Escritura Sagrada é divina e possui crédito por si mesma (autopiston). Portanto, ela não recebe sua autoridade da Igreja, nem em si mesma, nem em relação a nós.

III. Para não tropeçarmos logo na entrada, devemos primeiro expor a opinião de ambos os lados. Assim, perceberemos com mais facilidade onde reside o ponto central desta controvérsia tão debatida. Quanto aos Ortodoxos, eles estabelecem o seguinte: a Escritura Sagrada recebe toda a sua autoridade de Deus, de quem ela procedeu. Ela é autêntica por si mesma. Portanto, sua autoridade não pode nem deve depender do testemunho de qualquer Igreja, muito menos da Sé Romana. Não negamos que o testemunho de uma Igreja verdadeira e pura tenha seu peso; no entanto, esse testemunho não é o único nem o principal. Ele é apenas secundário e ministerial. Sem ele, a Palavra Divina mantém sua própria credibilidade (autopistia), a menos que queiramos contradizer o Deus que fala e colocar em dúvida um Testemunho firmado pela autoridade divina.

IV. Para declarar essa opinião de forma mais completa, devemos observar que três elementos podem concorrer para nos convencer da Divindade da Escritura 5: a própria Escritura (ou Deus falando na Escritura); o Espírito soprando no coração; e a Igreja nos entregando a Escritura. Podemos identificar três causas que contribuem para a persuasão de qualquer coisa: a objetiva, que abrange o argumento ou motivo pelo qual creio; a eficiente principal, que indica o princípio por cuja virtude creio; e a instrumental, que designa o meio e o órgão pelo qual creio. Da mesma forma, para a visão física, requeremos três coisas: o objeto visível, a faculdade visual e o meio transparente que transmite os raios. Assim, a Escritura funciona como o fundamento e o argumento pelo qual creio 6; o Espírito Santo age como o princípio e a causa eficiente por cuja força creio; e a Igreja atua como o instrumento pelo qual creio. Portanto, se alguém perguntar como provamos ou conhecemos a Autoridade da Escritura, devemos responder de três formas, conforme o sentido da pergunta. Se a pergunta for pelo argumento — ou seja, por que ou por qual motivo se crê —, respondemos que é apenas por causa da própria Escritura e dos testemunhos nela contidos; não conhecemos nem cremos que a Escritura é divina por causa de algo fora dela. Se a pergunta for pelo instrumento e meio — ou seja, por meio de quê a reconhecemos como tal —, respondemos que alcançamos esse conhecimento ordinariamente pelo ministério da Igreja, a quem Deus quis confiar Seus oráculos. Se, finalmente, a pergunta for de qual princípio ou causa eficiente nasce essa fé que reconhece a divindade da Escritura, respondemos que isso ocorre perfeitamente pelo Espírito Santo operando internamente, pois Ele é o único autor da fé salvífica.

V. Quando falamos do Testemunho da própria Escritura 7, não nos referimos apenas a um argumento artificial, como se a Escritura simplesmente exigisse fé porque se diz divina. Referimo-nos a um argumento racional, pois Deus imprimiu nela marcas e critérios que não podem existir em escritos humanos. Tais critérios são: a Verdade divina da palavra, a admirável sublimidade dos Mistérios, a franqueza e a clareza dos Escritores, a harmonia entre as partes, a santidade e eficácia da Doutrina, entre outros. Neles, percebemos caracteres inimitáveis de majestade e sabedoria singulares. Há uma combinação de gravidade e simplicidade que penetra a alma do leitor piedoso por uma virtude oculta, subjugando-o. Ao observar essas marcas, concluímos facilmente que a Escritura Sagrada não é um livro elaborado pela indústria humana, mas composto sob a guia especial do Espírito Santo; por isso, ela é verdadeiramente divina e digna de crédito por si mesma (autopiston). Aqui, devemos distinguir entre o Objeto ou Fundamento da fé e o seu Argumento ou Motivo. O fundamento só pode ser a Revelação divina, ou a Palavra revelada por Deus. Mas as Notas que percebemos nesta revelação divina fornecem o argumento da nossa fé, pois elas mostram o esplendor da sua divindade como se fossem raios de luz. Assim, a Palavra ou Revelação divina é o elemento material que a fé abraça, respondendo à pergunta: "O que você crê?". Já as Notas são o elemento formal ou motivo em que nossa fé se apoia, respondendo à pergunta: "Por que você crê?". Disso nasce uma certeza, não meramente provável ou moral (caso contrário, nossa fé não seria mais certa que qualquer assentimento histórico dado a escritos humanos), mas uma certeza Teológica e infalível. Esta certeza não pode enganar o homem fiel e iluminado pelo Espírito Santo, pois não se baseia na palavra de homens — que podem se enganar e enganar outros —, mas na Palavra de Deus, que não pode se enganar nem enganar ninguém 8.

VI. Ao Testemunho da Escritura, que é o principal e primário, une-se o testemunho ministerial da Igreja 9, ao qual reconhecemos algum peso aqui. Embora o trabalho de nenhum homem seja absolutamente necessário para conhecer a Divindade da Escritura — visto que Deus pode revelar Sua Palavra imediatamente a quem Ele quiser, como o Apóstolo testemunha em Gálatas 1:12 ao dizer que não recebeu o Evangelho de homem algum, nem foi ensinado por homens, mas pela revelação de Jesus Cristo —, contudo, na ordem comum da providência, Deus quis usar o trabalho humano para levar os homens à fé. Por isso, Ele confiou Seus Oráculos à Sua Igreja para que fossem entregues aos fiéis. Isso frequentemente tem muito peso para comover as almas e despertar reverência pela Escritura. Daí surge o múltiplo ofício da Igreja em relação à Escritura. Primeiro, o de Guardiã, que deve conservar este testamento divino com suma fidelidade, como um tabelião; neste sentido, Paulo exorta Timóteo repetidamente a guardar o depósito (1 Tm 6:20 e 2 Tm 1:14) 10. Segundo, o de Guia, que deve nos indicar os livros sagrados e nos conduzir a eles, como João indicava Cristo aos judeus (Jo 1:29: "Eis o Cordeiro de Deus") e a Samaritana indicou o Messias aos seus concidadãos (Jo 4) 11. Terceiro, o de Defensora, que protege e reivindica os livros genuínos, separando-os dos adulterados e supostos, para que a palavra humana não seja imposta como divina, nem o bronze pelo ouro; a isso se refere o elogio de Paulo ao chamá-la de coluna e fundamento da verdade (1 Tm 3:15). Quarto, o de Intérprete, que deve abrir o sentido verdadeiro e genuíno, explicando a Palavra conforme a analogia da fé e a própria Escritura (Rm 12:6 e Ef 4:2). Quinto, o de Arauto e Mensageira, que propõe e promulga essa Palavra como um Edito e Lei em nome do Sumo Príncipe, para levar os homens à obediência da fé; neste sentido, chamamos os Ministros de Legados, Arautos e Mensageiros (Rm 10:15; 2 Co 5:19-20; Is 40:5), e chamamos seu ministério de Pregação.

VII. Embora a Igreja exerça esse múltiplo ofício em relação à Escritura, tudo isso implica ministério, não magistério. Assim como um Guardião, um Defensor, um Arauto ou um Intérprete não conferem autoridade às coisas que lhes foram confiadas, mas apenas lidam com elas de forma orgânica e ministerial, o que quer que a Igreja faça em relação à Palavra não passa de ministério. Dizemos que cremos por meio dela, mas não por causa dela, da mesma forma que os judeus deviam crer por meio de João (Jo 1:7) 12 e os samaritanos por meio da mulher. Ela prestou aos seus concidadãos o mesmo serviço que a Igreja nos presta: ela os conduziu a Cristo e abriu o caminho para que os samaritanos O conhecessem. Uma vez que O conheceram, aceitaram-No com muito mais certeza por causa d’Ele mesmo: "Já não cremos por causa do teu sermão", disseram eles, "pois nós mesmos ouvimos e sabemos que este é verdadeiramente o Salvador do mundo" (Jo 4:42) 13 14. Assim, a Igreja é um meio introdutório, pois nos leva à Escritura e a entrega em nossas mãos. Mas, enquanto paramos aqui, a fé é apenas humana, não divina; é mais um degrau para a fé do que a própria fé, até chegarmos à Escritura e a aceitarmos por causa dela mesma. Portanto, não rejeitamos o Testemunho da Igreja, mas o colocamos em sua devida ordem; não desprezamos o ministério, mas recusamos o magistério. Olhamos para ela como o instrumento pelo qual cremos, não como o argumento por causa do qual cremos; como um guia para a fé, não como o motivo primário que a convence; como um Testemunho maior que qualquer outro testemunho humano, mas inferior a Deus falando na Escritura, de quem ela recebe toda a autoridade que possui.

VIII. Podemos considerar a Igreja como coletiva (em relação aos fiéis) ou como representativa (em relação aos Pastores). A questão aqui trata principalmente desta última. Novamente, conforme as circunstâncias do tempo, um testemunho pode ser mais certo que outro. Se falamos da Igreja antiga e Apostólica, seu testemunho equivale ao Testemunho Divino, pois os apóstolos inspirados (theopneustoi) ainda viviam nela. O testemunho da Igreja que seguiu o tempo dos apóstolos foi inferior ao testemunho apostólico, pois não era infalível; mas ainda era mais certo que o testemunho de hoje, pois estava próximo da era apostólica e era notável por vários milagres e sinais. Mas o testemunho da igreja atual é inferior aos outros e, portanto, de muito menor peso; e é sobre ele que discutimos principalmente aqui. Além disso, os pontifícios não querem que ouçamos o testemunho de qualquer Igreja, mas apenas da deles, que eles pressupõem ser a verdadeira, sem provar — o que deveria ser provado primeiro. De nada adianta afirmar a autoridade da verdadeira Igreja em tese, se não demonstrarem na hipótese que a Igreja Romana é essa Igreja.

IX. Mesmo que a Escritura e a Igreja falassem aqui 15, a voz de ambas seria inútil se não houvesse, em terceiro lugar, a operação do Espírito Santo agindo internamente. Por isso, dissemos que este terceiro Testemunho é absolutamente necessário para obtermos a plena convicção da Divindade da Escritura. Quando dizemos "Testemunho", não devemos imaginar uma voz do Espírito falando internamente e nos convencendo de algo separado da Palavra (como querem os Entusiastas e Fanáticos, de quem divergimos totalmente). Entendemos apenas a força e a eficácia do Espírito agindo internamente, abrindo os olhos da mente para discernir os raios da verdade divina brilhando na Palavra e, assim, gerando a fé em nossas almas. Portanto, devemos distinguir duas operações do Espírito: uma na Palavra, chamada de Testemunho externo, e outra no Coração, que é o Testemunho interno 16. Aquele que fala na Palavra para explicar a doutrina celestial fala também no coração para aplicá-la. Como Ele testemunha na Palavra objetivamente como um argumento, também testemunha no Coração como um princípio. Nesse sentido, João 5:6 17 coloca o Espírito entre as testemunhas da Verdade, do Evangelho e da Divindade de Cristo, e o v. 6 diz: o Espírito testifica que o Espírito é a verdade. O Espírito no coração testifica que o Espírito na Palavra (ou na doutrina entregue pelo Espírito) é a Verdade. A necessidade do Espírito prova-se não apenas pela cegueira de nossas mentes, que não compreendem as coisas de Deus, mas também pela sublimidade dos Mistérios celestiais, que o raciocínio humano, por mais correto que seja, jamais poderia imaginar ou apreender. Assim como na visão não se exige apenas luz no objeto, mas também no sujeito que vê (pois o Sol brilharia em vão para um cego), o Espírito, que brilhou na Palavra para a revelação da verdade, deve brilhar no coração para a iluminação dos olhos da mente. Daí nasce o assentimento da fé e aquela firme convicção (plerophoria) do coração pela qual se reconhece e abraça a Divindade da Escritura.

X. Para não errarmos ao discernir esta operação do Espírito Santo, devemos observar: I. Que este Espírito que testifica internamente nunca se separa da Palavra contida na Escritura; Sua operação não visa outra coisa senão selar em nossas almas a verdade divina dessa Palavra. A Palavra é como a semente lançada na terra; o Espírito é como a força vivificante pela qual ela cria raízes e germina em nós. A Palavra é o objeto proposto à nossa faculdade; o Espírito é a força que dispõe a faculdade para abraçá-la. A isto se referem Is 59:21: "A Palavra que pus na tua boca e o Espírito que está em ti não se retirarão..." 18, e o que Cristo diz em Jo 16:14: "Ele receberá do que é meu e vo-lo anunciará" 19. Disso fica claro que estamos longe do Espírito Anabatista, que despreza a Escritura e se entrega a revelações privadas e extraordinárias. II. Este Testemunho serve para a confirmação individual de cada fiel, em quem o Espírito habita e opera, mas não pode ser usado para a convicção ou conversão de outros. Como ele é conhecido apenas pelo próprio fiel (Ap 2:17) 20, seu Testemunho só pode convencer o fiel a quem é dado; ele não beneficia outros, exceto pela observação externa de seus efeitos (2 Co 4:13) 21. Portanto, eu mereceria zombaria se quisesse convencer outra pessoa de que a Escritura é divina apenas porque o Espírito Santo testifica isso em mim. III. Podemos chamar o Espírito de privado em relação ao sujeito, pois Ele está em cada fiel, mas não em relação ao princípio e à origem, pois Ele é comum a toda a Igreja (2 Co 4:13). Assim como o Sol ilumina o mundo inteiro e a cada pessoa individualmente, ele não é uma tocha privada acesa para cada um. Assim, o Espírito que permeia o coração fiel com Sua luz não pode ser chamado de privado, pois o mesmo Espírito que sempre soprou na Igreja e inspirou a Palavra aos Profetas e Apóstolos comove e desperta a mente do verdadeiro fiel. Ele leva para o santuário do coração a mesma luz doutrinária que acendeu no santuário da Palavra 22. Fica claro, então, quão injustamente os pontifícios nos acusam de seguir um Espírito privado, quando afirmamos que Ele é comum a todos os fiéis. IV. O Espírito não testifica em todos os ouvintes da Palavra, mas apenas nos Eleitos, e não com o mesmo grau de clareza ou certeza. É evidente que Ele não testifica em todos, não apenas pela parábola da semente (Mt 13), mas porque o Espírito não pertence a todos (Jo 14:16), assim como a fé não é de todos (2 Ts 3:2), mas apenas dos Eleitos, a quem Deus, por graça peculiar, resolve revelar Seus mistérios (Mt 11:25-26). Por isso, não é de admirar que muitos duvidem da verdade das Escrituras e até abandonem a fé nelas (Jo 6:64-66). É certo que Ele testifica em todos os fiéis, pois Ele lhes é dado com o fim de testificar sobre as coisas que nos foram dadas (1 Co 2:12) 23; se alguém não tem o Espírito de Cristo, não pertence a Ele (Rm 8:9). Mas, como Ele se comunica aos fiéis em diferentes medidas, conforme os graus de santificação, alguns são mais avançados que outros na fé e na caridade (1 Co 2:6; Hb 5:13-14) 24. Da mesma forma, a certeza e a clareza do testemunho que Ele exibe neles são maiores ou menores. Por isso, nem todos os livros Sagrados foram sempre aceitos por todos como Canônicos com a mesma igualdade; alguns foram rejeitados por aqueles que outros aceitaram. V. Para discernir o testemunho divino do Espírito do testemunho contrário de um espírito fanático, nenhum outro critério (kriterion) mais certo pode ser usado do que a Escritura Sagrada. Devemos examinar tudo conforme a norma da Sagrada Escritura, tanto porque essa regra nos é dada (Dt 13:1-2; Is 8:20; 1 Jo 4:1-3, 8-9) 25, quanto porque o Espírito é da verdade, sendo sempre constante e conforme a Si mesmo; Ele não testifica no coração de forma diferente do que testificou na Palavra. Os pontifícios nos acusam erradamente de cair em um Círculo Vicioso (do qual eles mesmos são manifestamente culpados), pois dizem que a Escritura prova o Espírito objetivamente, enquanto o Espírito prova a Escritura eficientemente. Já demonstramos em outro lugar, em uma disputa específica sobre o Círculo Vicioso, que isso não ocorre.

XI. Diante do que expusemos, é fácil concluir qual é a opinião dos Ortodoxos nesta gravíssima questão: para a convicção interna da Divindade da Escritura, a operação do Espírito Santo em nossos corações é absolutamente necessária. Contudo, o argumento ou motivo que Ele usa para gerar essa fé não é o Testemunho da Igreja (embora este possa ter algum peso), mas sim as marcas que brilham na própria Palavra. Essas marcas radiam com tanto esplendor que cremos na Escritura por causa dela mesma, e não por causa de outra coisa. Assim, se buscamos a fundamentação da fé, eles estabelecem que podemos encará-la de duas formas: pela razão do fundamento ou objeto externo, e então a fé se resolve ultimamente apenas na Revelação divina expressa na Escritura; ou pela razão do sujeito ou princípio interno, e então ela se resolve no Espírito que testifica no coração.

XII. 26 Mas os pontifícios seguem caminhos totalmente diferentes 27, embora falem de forma muito confusa e nem sempre sejam consistentes consigo mesmos. Primeiro, é certo que alguns falaram de modo mais duro e outros de modo mais brando. Aqueles que primeiro defenderam o papado com mais vigor na época de nossos pais não hesitaram em afirmar, sem rodeios, que toda a autoridade da Escritura depende da Igreja. Diziam que, sem o Testemunho da Igreja, a Escritura não mereceria mais fé do que o Alcorão, Tito Lívio ou as fábulas de Esopo. Daí surgiram aquelas frases blasfemas que nenhum piedoso pode ler sem horror: "Pode-se dizer com sentido piedoso que as Escrituras valem tanto quanto as fábulas de Esopo se estiverem destituídas da Autoridade da Igreja", como escreveu o Cardeal Hosius no livro 3 contra Brentius. E o jesuíta Baylius (Tract. 1. Catech. q. 12) professa abertamente que, sem a autoridade da Igreja, não daria mais fé a Mateus do que a Tito Lívio. Andradius (l. 2. defens. Concil. Trid.) afirma que "nada de Divindade existe nesses livros em que os sagrados Mistérios foram escritos, nem se encontra neles algo que nos obrigue pela religião a crer no que eles contêm; mas a Igreja possui tal força e amplitude que ninguém pode se opor a ela sem a marca da maior impiedade". Muitas outras declarações semelhantes lemos em Eck (Enchir. cap. 1), Pighius (lib. 1. de Hierarchia Ecclesiae cap. 2), Belarmino (lib. 4. de Verbo Dei c. 4) e outros.

XIII. Como os autores mais recentes perceberam que essas declarações eram cruas e grosseiras demais, passaram a falar com mais cautela. Eles explicam que a Escritura é divina absolutamente e em si mesma, mesmo sem o Testemunho da Igreja. No entanto, em relação a nós (quoad nos), eles afirmam que essa Autoridade não tem efeito, a menos que o Testemunho da Igreja nos faça conhecê-la e aceitá-la como Divina. Assim, a Igreja não torna a Escritura verdadeira (pois ela recebe isso de Deus, seu Autor), mas apenas faz com que ela seja reconhecida e acreditada como verdadeira por nós. Daí nasceu a distinção comum entre Autoridade em si mesma e em relação a nós, usada neste argumento. Eles se queixam de que somos injustos e que distorcemos o estado da Questão quando perguntamos se a Autoridade da Escritura depende da Igreja. Eles alegam que não estão dizendo que a Igreja torna a Escritura Autêntica ou lhe dá uma autoridade que ela não teria, mas que isso deve ser entendido apenas em relação a nós, pois ela não nos seria conhecida senão pelo Testemunho da Igreja. Portanto, a questão para eles não é se a Escritura Sagrada é verdadeira ou de onde ela recebe sua verdade (pois ela a recebe de Deus), mas por qual razão e de onde nos consta que ela é verdadeira e Divina — o que eles acreditam depender da Igreja. É como o célebre julgamento de Salomão: ele não fez com que o bebê fosse filho da verdadeira mãe, mas apenas revelou de quem ele era filho.

XIV. Mas, não importa como tentem disfarçar esse dogma 28, se examinarmos o assunto profundamente, veremos que essa distinção foi inventada mais para enganar e evitar o ódio do que para explicar a verdade. Mudaram as palavras, mas a intenção continua a mesma. Primeiro, porque não pode existir autoridade em si mesma que não seja também em relação a nós. A autoridade é algo relacional por natureza. Além disso, o que faz a Escritura ser Divina e autêntica em si mesma também deve fazê-la ser tal em relação a nós. Os argumentos e critérios que fundamentam sua autoridade em si mesma devem fundamentá-la também a nosso respeito; nada pode ser chamado de fundamento simplesmente sem ser também fundamento em relação a nós. Pois, se algo nos move ou pode nos mover principalmente a assentir, isso é o fundamento da fé simplesmente, e não apenas em relação a nós. E, se algo não nos move nem pode nos mover ao assentimento, não é fundamento nem simplesmente, nem em relação a nós. Portanto, mesmo que a Igreja dissesse cem vezes que a Escritura deve ser tida como Divina, eu não poderia nem deveria assentir se ela não fosse divina em si mesma. E, mesmo que a Igreja negasse que ela deve ser recebida como Divina, ela deveria ser recebida assim que se estabelecesse que ela é verdadeira e Divina em si mesma. Além disso, quando os Adversários dizem que a questão entre nós não é "De onde vem a Autoridade da Escritura", mas "Como ela se torna conhecida por nós", eles podem estar se referindo a duas coisas: ou à razão e ao motivo pelo qual a conhecemos e cremos nela como tal, ou simplesmente ao meio e instrumento pelo qual somos levados a conhecê-la. Se eles querem dizer o segundo, estão mudando o estado da questão e nós não discordamos deles, pois não negamos que a Igreja contribua para nos indicar a Escritura. Mas, se eles querem dizer o primeiro — como devem, se querem manter sua hipótese e ser coerentes —, essa distinção é inútil. Pois, se o Testemunho da Igreja é a razão principal pela qual creio que a Escritura é Divina, a Igreja também terá de lhe conferir a autoridade em si mesma, e assim a Escritura sempre dependerá da Igreja. Era isso que os primeiros autores, que falavam mais abertamente, queriam dizer. O julgamento de Salomão não os ajuda; pelo contrário, favorece a nossa posição. O julgamento não foi o fundamento ou a razão pela qual a mulher era a mãe verdadeira, mas apenas o meio pelo qual isso se tornou conhecido, pois através daquele ato manifestou-se a comoção das entranhas maternas, que foi a causa própria daquele conhecimento. Da mesma forma, quando a Igreja nos leva à Escritura e mostra os raios da Divindade brilhando nela, ela é o meio pelo qual cremos que a Escritura é Divina, mas não o fundamento ou a razão formal pela qual cremos.

XV. Não podemos esconder que alguns pontifícios parecem pensar e falar de modo mais equilibrado quando negam que a Igreja seja o fundamento principal ou a razão formal pela qual cremos, por fé divina, que a Escritura é verdadeiramente a Palavra de Deus. Eles a chamam apenas de condição necessária para realizar esse ato de fé, como dizem Valentia (Tom. 3. disp. 1. quaest. 1.) e Gretser no tratado sobre o reconhecimento das Escrituras Canônicas (cap. 7) 29, ou de causa da aceitação da fé, como Becanus. Mas, se perguntarmos em qual fundamento se apoia a fé Divina pela qual cremos na autoridade divina da Escritura, ou qual é a razão formal pela qual cremos por fé divina nesta Palavra de Deus, eles respondem que é a Revelação Divina. Ou seja, eles dizem crer nisso por causa da Autoridade de Deus que revela, como Gretser e Becanus tentam provar longamente. No entanto, não é difícil remover essa máscara com que tentam enganar os mais simples e mostrar que eles falam coisas contraditórias ou que, com prevaricação, dão com uma mão o que tiram com a outra. Pois eles afirmam corretamente que a Revelação divina é o fundamento ou a razão formal da fé. Mas, se perguntarmos onde está essa revelação pela qual cremos que a Escritura é a Palavra de Deus — aquela que é a primeira e a mais conhecida de todas, que deve ser recebida por si mesma e não por causa de outra —, eles ficam sem saída. Ou dirão que é a própria Escritura (e assim concordarão conosco, que queremos que a Escritura seja acreditada por causa da própria Escritura), ou dirão que é alguma tradição não escrita (mas a mesma pergunta será feita sobre essa Tradição: "De onde consta que ela é Divina?"), ou dirão que é a voz da própria Igreja, na qual e pela qual Deus fala — o que eles antes pareciam negar.

XVI. Que esta é a verdadeira intenção deles, colhemos de suas próprias palavras. Pois, para a pergunta "Por que você crê que esta Palavra é a Palavra de Deus?", eles respondem ordinariamente através do testemunho da Igreja. Na verdade, acreditam que nenhuma outra resposta pode ser dada adequadamente. Belarmino (lib. 3. de Verbo Dei cap. 10. resp. ad argum. 13) diz: "É certo que não sabemos com certeza o que Deus revelou, exceto pelo Testemunho da Igreja". E no lib. 6. de Lib. Arbitr. cap. 3: "Os católicos creem no que creem porque Deus revelou; mas creem que Deus revelou porque ouvem a Igreja dizendo e declarando isso". Stapleton (lib. 1. de Authoritate Ecclesiae contra Whitak. cap. 8): "Agora, portanto, o supremo testemunho externo na terra é a voz da Igreja"; e no cap. 9: "Deus falando através da Igreja não fala de modo diferente do que se falasse imediatamente através de visões e sonhos, ou por qualquer outro modo sobrenatural de revelar"; e no cap. 14. § 12: "Toda a razão formal da nossa fé é Deus revelando através da Igreja". Gretser (de agnos. Scrip. Canon. c. 7): "Somente o Testemunho da Igreja é a resposta adequada à pergunta: 'Como você sabe que a Escritura foi divinamente revelada?'". Assim, eles não negam que a Escritura seja a Palavra de Deus, mas insistem que ela não pode ser conhecida como tal por nós, a não ser por causa de outra revelação que deve ser buscada na Igreja, pois por meio dela Deus falaria hoje, como por um órgão infalível, assim como falou antigamente pelos Profetas e Apóstolos.

XVII. 30 Com isso, já podemos colher facilmente o estado da Controvérsia 31 e ver onde há consenso ou dissensão entre nós e os Adversários. Primeiro, está claro que aqui não se pergunta sobre o Princípio ou a Causa eficiente da fé pela qual cremos na divindade da Escritura — se o Espírito Santo é necessário para gerar essa fé. Os Adversários não podem negar isso e muitas vezes professaram reconhecer a necessidade desse princípio. Stapleton, contra Whitaker, queixa-se mais de uma vez de que lhe fazem uma grave injustiça ao atribuir-lhe o contrário: "O testemunho secreto do Espírito Divino", diz ele, "é totalmente necessário para que alguém creia no Testemunho e Julgamento da Igreja sobre a aprovação da Escritura; sem esse testemunho interno do Espírito Divino, ainda que a Igreja ateste, recomende, promulgue e aprove as Escrituras mil vezes, a fé não surgirá, nem o povo que ouve será convencido" (Triplicat. ad Whitak. cap. 9). Assim também Canus (loco. Theol. lib. 12. cap. 8. Respond. ad 4. argumen.) e outros. A questão, porém, é sobre o argumento ou motivo principal que o Espírito Santo usa para nos convencer dessa verdade. Seria o argumento não-técnico do Testemunho da Igreja, como querem os pontifícios? Ou seria o argumento técnico tirado das marcas da própria Escritura, como nós defendemos? Estes dois pontos devem ser distinguidos com precisão, pois, do contrário, grandes sombras podem obscurecer esta disputa. Por isso, vários autores não foram felizes ao tratar esta controvérsia, agindo como se a pergunta fosse apenas se a Autoridade da Escritura depende da persuasão interna do Espírito ou do Testemunho da Igreja. Pois, como dissemos agora, os pontifícios não negam a necessidade do Espírito para nos convencer desta Autoridade. E se houvesse alguma dificuldade aqui, ela pertenceria à questão do Livre Arbítrio, não da Escritura. Uma coisa é perguntar de onde ou por meio de quê e com qual instrumento a Escritura divina é conhecida. Outra coisa é perguntar por que, por causa de quê e com qual argumento ela é acreditada como tal. Quanto ao primeiro ponto, há consenso entre as partes: isso ocorre pela fé, mediante a virtude do Espírito. Mas no segundo ponto há uma grave disputa. Eles dizem que cremos na Escritura por causa da Igreja; nós dizem que a Igreja deve ser ouvida por causa da Escritura. Eles dizem que se deve crer na Escritura à medida que ela recebe o testemunho da Igreja; nós, ao contrário, dizemos que se deve crer na Igreja à medida que ela fala coisas que concordam com a Escritura.

XVIII. II. Também está claro que não se discute simplesmente o Testemunho da Igreja, se ele deve ser levado em conta, mas sim o seu peso e sua Autoridade — se ele é o motivo primário e principal que o Espírito Santo utiliza. Não negamos que a Igreja tenha seu papel aqui, como observamos antes, ao exercer os ofícios de Guardiã, Arauto, Defensora e Intérprete. Mas dizemos que, em tudo o que ela faz, concorre apenas ministerial e organicamente 32, servindo como um meio introdutório que o Espírito Santo usa. Ela conserva a verdade, mas não a fundamenta; ela a propõe, mas não a constitui; ela a indica e a defende, mas não a julga com autoridade absoluta. Assim como os Editos de Príncipes e Magistrados não recebem sua autoridade dos Arautos e Ministros Reais, embora se tornem conhecidos ao povo por meio deles; e assim como o ourives que usa a balança ou a pedra de toque para separar o ouro do cobre ou de outros metais não cria o ouro, mas apenas indica que ele é verdadeiro; e assim como um Intérprete fiel não deve inventar ou introduzir nada seu, mas apenas extrair o sentido latente com exame cuidadoso. No entanto, aqueles com quem lidamos não querem apenas ministério, mas magistério. Eles não querem apenas que cremos através da Igreja, mas também por causa dela. Chegam a arrogar para si o direito de censura sobre o próprio Deus. Não apenas fazem nossa fé depender de seu arbítrio, mas também a própria voz de Deus. Imitam o antigo orgulho do Senado Romano, que decidia a divindade conforme o arbítrio humano, como diz Tertuliano (Apol. cap. 5). Eles arrogam para si o mesmo direito sobre a Escritura Sagrada. Daí vem a audácia blasfema do Papa Nicolau, que no distinct. 19. Can. Si Rom. Pontif. não se envergonhou de estabelecer: "Deve ser aprovado apenas o que foi aprovado ou reprovado pelo cálculo dos Pontífices Romanos; e o Antigo e Novo Testamento devem ser recebidos apenas porque o Pontífice Inocêncio sancionou, por sua autoridade e sentença, que fossem recebidos". III. A questão não é se o testemunho público da Igreja deve ser preferido ao testemunho privado de qualquer fiel, como alguns erroneamente formulam. Pois, além de suporem falsamente que o Espírito que testifica em nós é algo "próprio" (sendo que Ele é comum à Igreja, como vimos), o Espírito que testifica no fiel não age como objeto ou argumento, mas como princípio. Assim, não se pode estabelecer uma oposição legítima entre o Testemunho da Igreja e o do Espírito. A pergunta correta é: deve-se preferir o Testemunho da Igreja ao Testemunho ou às Marcas da própria Escritura, de modo que creiamos na Escritura por causa daquele e não por causa destas? Os pontifícios querem o primeiro; nós, o segundo.

XIX. IV. Também não se pergunta se existem certas Marcas e critérios na Escritura pelos quais sua Divindade possa ser mostrada e persuadida, pois os pontifícios não negam isso e, conosco, provam a Divindade da Escritura por meio delas. Na verdade, eles reconhecem com frequência (tanta é a força da Escritura que às vezes arranca testemunho verdadeiro até de seus inimigos) que "nada é mais notório, nada mais certo, de modo que é necessário ser estulto para negar que se deve ter fé nela", como diz Belarmino (lib. 1. de Verbo Dei cap. 2); e também Valentia (lib. 1. de Analysi fidei). Mas a pergunta é: essas marcas são suficientes por si mesmas para fundamentar em nossas almas a fé na sua Divindade? Ou melhor: seriam elas o motivo principal pelo qual somos levados a crer e no qual a fé se apoia? Nós afirmamos que sim; eles negam, tirando com uma mão o que deram com a outra.

XX. V. 33 Não se pergunta se a Revelação divina é a razão formal da nossa fé, simples e absolutamente, ou aquilo pelo qual cremos algo por fé divina. Os Adversários reconhecem isso conosco, ou pelo menos professam reconhecer. Mas qual é essa Revelação em relação a nós, a primeira e mais conhecida, que deve ser acreditada por nós por si mesma e por causa de si mesma, e não por causa de outra? Devemos buscá-la na Escritura ou na Igreja? Nós pensamos que ela está contida na Escritura Sagrada, que é a primeira e mais perfeita Regra, e que não podemos nem devemos buscá-la fora dela. Os pontifícios, por sua vez, dizem que ela deve ser buscada na voz e no testemunho da Igreja, ou no cérebro do Papa, no qual tudo finalmente se resolve. Portanto, a Questão se reduz a estes termos: De onde, ou por causa de quê, e por qual argumento principal o Espírito Santo se utiliza para nos provar a Autoridade da Escritura? Seria pelo Testemunho da Igreja ou pela própria Escritura (isto é, pelos argumentos e critérios nela inseridos)? Os pontifícios afirmam o primeiro; nós defendemos o segundo e nos propomos a demonstrá-lo.

XXI. Podemos organizar a prova da nossa Sentença de duas formas 34: 1. pela negação (kat' arsin), mostrando que a Autoridade da Escritura não depende da Igreja 35; 2. pela afirmação (kata thesin), provando que ela se fundamenta totalmente na própria Escritura. Quanto à primeira parte, ela se conclui suficientemente por este único argumento: toda a autoridade da Igreja depende da Escritura. Logo, ela não pode conferir nenhuma autoridade à Escritura, nem em si mesma, nem em relação a nós. A lógica da consequência é clara por si mesma: é impossível que a mesma coisa seja, ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto, causa e efeito, princípio e derivado; se fosse assim, ela seria anterior e posterior a si mesma, mais conhecida e menos conhecida que si mesma. O antecedente confirma-se por múltiplas razões. 1. Porque a Igreja se fundamenta na Escritura e dela recebe seu ser específico; não há Igreja sem vocação, nem vocação sem a Palavra; por isso, diz-se que ela é edificada sobre o fundamento dos Profetas e dos Apóstolos (Ef 2:20) 36. Assim como não pode existir casa sem que o fundamento seja posto primeiro, não pode haver Igreja sem que a Escritura esteja estabelecida. 2. Porque não se pode ter nenhum conhecimento certo da Igreja a não ser pela Palavra. Antes de ouvirmos a voz da Igreja, é necessário que saibamos primeiro: ela existe? O que ela é? Onde ela está? Como essas coisas não podem ser percebidas nem pelos sentidos nem pela razão pura, segue-se que todo esse conhecimento vem da Escritura. Ela não apenas ensina que existe uma Igreja, mas a descreve com marcas e caracteres que não nos deixam ignorá-la. Se a Igreja é conhecida pela Escritura, a Escritura já será mais conhecida que a Igreja, e a autoridade daquela não dependerá desta em relação a nós. 3. Porque o fundamento da Autoridade da Igreja não pode ser buscado em outro lugar senão na Escritura. De onde poderíamos saber que ela possui tal Autoridade? Por acaso acreditaremos que isso ocorre pela própria Autoridade da Igreja? Mas é justamente sobre isso que se pergunta. Também não pode ser uma noção comum a todos (koine ennoia), visto que se discute tão acirradamente sobre ela 37. Logo, segue-se que temos esse conhecimento a partir da Palavra; portanto, a Palavra obteve autoridade entre nós primeiro. Os Adversários não podem negar isso; pois, quando são pressionados por nós sobre como sabem que a Igreja tem autoridade para consignar o Cânon da Escritura, respondem imediatamente que isso ocorre porque ela é dirigida pelo Espírito Santo. Se você insistir mais e perguntar como consta que ela é assim dirigida, eles trazem logo vários Testemunhos da Escritura para provar que Cristo prometeu isso a ela (Mt 18:20; 28:20; Jo 15:26; 16:13 etc.). Assim, eles extraem todas as suas provas da Escritura. Mas como isso seria feito corretamente se a Escritura não fosse primeiro conhecida e acreditada como divina? Assim, eles se degolam com a própria espada: ao tentarem firmar a dignidade da Igreja com a autoridade da Escritura, abandonam sua própria posição e confirmam a nossa, seja por imprudência ou contra a vontade.

XXII. Contra este argumento, eles objetam negando a consequência. Dizem que, se a Autoridade da Igreja em relação a nós depende da Autoridade da Escritura, isso não impede que a Autoridade da Escritura dependa da Igreja. Alegam que ambas as coisas podem ser verdadeiras ao mesmo tempo: a Igreja recebe sua autoridade da Escritura e a Escritura também recebe a sua da Igreja. Para provar isso, usam exemplos: João Batista deu testemunho de Cristo, e Cristo de João; as Epístolas de Paulo recomendam magnificamente a autoridade dele, e elas recebem autoridade de seu Autor. Dizem que não recebemos o Símbolo da fé de nenhuma autoridade externa, exceto da Igreja, embora no próprio Símbolo a Igreja seja proposta como objeto de crença. Assim, não haveria absurdo se a Igreja dependesse da Escritura e a Escritura, por sua vez, dependesse da Igreja. Dizem que isso pode ser afirmado com mais certeza porque a mesma Escritura que estabelece a autoridade da Igreja afirma expressamente que ela é coluna e fundamento da verdade (1 Tm 3:15). Isso não poderia ser dito verdadeiramente se a Igreja não conferisse, por seu testemunho, autoridade à Verdade contida na Escritura. Daí Belarmino (lib. 6. de Eccl. c. 14) conclui: "Se a Igreja é coluna e firmamento da verdade, logo a verdade da fé em relação a nós se apoia na Autoridade da Igreja; e é verdadeiro o que a Igreja aprova, e falso o que ela reprova".

XXIII. Mas é em vão que tentam escapar da força do Argumento. Primeiro, eles supõem sem provas que ambas as coisas são verdadeiras: que a Igreja dá autoridade à Escritura e a recebe de volta. Embora isso pudesse ocorrer em diferentes gêneros de causas (como quando uma causa é provada pelo efeito a posteriori, e ela prova o efeito a priori), no mesmo gênero isso é contraditório (asystaton). Do contrário, a mesma coisa seria mais conhecida e menos conhecida que si mesma: mais conhecida porque é usada para provar outra, e menos conhecida porque é provada por essa outra. Não negamos que o Testemunho da Igreja possa provar a Escritura a posteriori, como um instrumento ou meio, mas negamos totalmente que ele tenha a força de um argumento e motivo principal 38. Segundo, nos exemplos citados, cometem o erro da falsa analogia. Uma coisa é dar testemunho de Cristo, outra é conferir autoridade a Ele. O primeiro diz-se corretamente de João Batista, mas o segundo não 39. Por isso, o próprio Cristo (Jo 5:34) nega que receba testemunho de homens como se dependesse dele; Ele diz ter um testemunho maior que o de João, a saber, Suas obras, a voz do Pai e as próprias Escrituras. Portanto, nada impede que João tenha dado testemunho de Cristo e Cristo, por sua vez, tenha testemunhado sobre João, pois o modo de testemunhar foi diferente. João testemunhou do Senhor como um ministro; Cristo testemunhou do servo como o Senhor. João testemunhou como um guia para levar a Cristo, apontando-O com o dedo; mas Cristo testemunhou para confirmar a pregação de Seu servo com Sua própria autoridade real. Assim como eles criam em Cristo através de João, mas não por causa de João ("veio para dar testemunho da luz, para que todos cressem di' autou, por meio dele, não di' auton, por causa dele"), assim cremos na Palavra através da Igreja, não por causa dela. Ela testemunha da Palavra quando a indica e propõe. Mas a Palavra testemunha da Igreja quando a funda e institui. As Epístolas de Paulo recomendam a majestade do Autor a posteriori, como a obra louva o artífice; mas Paulo, como homem de Deus inspirado (theopneustos), confere a elas toda a autoridade que possuem a priori. Terceiro, é errado afirmar que o Símbolo não tem autoridade senão da Igreja, pois ele recebe toda a sua autoridade da Escritura. Se não foi tirado dela palavra por palavra quanto aos termos, foi tirado quanto às próprias verdades. Assim, se o Símbolo prova a Igreja, toda a força do argumento depende da própria Escritura na qual ele se funda. A Igreja não pôde dar nenhuma autoridade ao Símbolo, mas o entregou aos fiéis como um resumo das verdades extraídas da Escritura.

XXIV. Quanto ao texto de 1 Tm 3:15 40, sendo tão debatido e usado como um argumento "Aquiles" (invencível) contra nós, devemos falar dele com mais detalhes. Sei que alguns homens doutos pensaram em mudar a pontuação deste lugar, para que "Igreja do Deus vivo" encerre o período, e "Coluna e fundamento da verdade" se refira não à Igreja, mas ao Mistério da piedade mencionado no verso seguinte. Argumentam que Paulo não costuma começar uma frase com a partícula kai (e); e que é um modo de falar muito comum entre os judeus chamar os principais artigos de sua fé de fundamentos e raízes, bem como cabeças da fé. Sempre que começam a discutir suas doutrinas, escrevem no início: "Fundamento dos fundamentos" ou "Fundamento da Sabedoria", como se vê em Maimônides: "Fundamento dos fundamentos e Coluna da Sabedoria é saber que existe um primeiro Ser". Contudo, embora seja uma interpretação engenhosa que eliminaria toda a dificuldade, não sei se é sólida 41. Ao ler as próprias palavras, percebe-se um certo esforço nessa interpretação, que separa o que está unido e une o que está separado. Por isso, todas as Versões (Siriaca, Arábica, Latina) seguem a leitura recebida e referem o termo à Igreja; os Pais da Igreja também fazem o mesmo. E, na verdade, mesmo que o texto não seja alterado, o sentido será adequado e o raciocínio de Paulo terá excelente coesão. O Apóstolo propõe dois argumentos para despertar em Timóteo maior reverência e estudo da santidade. O primeiro é tirado da dignidade da Igreja à qual ele servia; esta dignidade é tal que deve infundir um horror sagrado em todos os que se preparam para este sagrado ministério (leitourgia): "Para que saibas como deves portar-te na Casa de Deus, que é a Igreja do Deus vivo, coluna e fundamento da verdade". O segundo argumento vem da sublimidade e excelência do Mistério cuja pregação lhe fora confiada; este é o grande mistério da piedade; por isso acrescenta: "E, sem dúvida, grande é o mistério da piedade...". Além disso, o "fundamento da sabedoria" para os Rabinos é muito diferente do "fundamento da verdade" para o Apóstolo. Para Maimônides, o fundamento da sabedoria são os inícios da fé e os capítulos primários da Religião que todos devem manter, servindo de base para o restante da doutrina, como a existência de Deus. Nesse sentido, o Apóstolo em Hb 6:1 chama de fundamento os princípios e rudimentos da Religião Cristã. Mas neste lugar, Paulo não trata dos Elementos do Cristianismo, mas do Grande Mistério, que abrange os capítulos mais difíceis e sublimes, que ele chama em outro lugar de Sabedoria entre os perfeitos (1 Co 2:6).

XXV. Mesmo que mantenhamos a leitura comum, como acreditamos que deva ser mantida, nada disso favorece a opinião dos pontifícios nem prejudica a nossa. 1. Porque, se a Igreja é chamada de coluna e fundamento da verdade, isso não pode ser entendido de forma absoluta e simples, mas apenas em certo sentido. Absolutamente, a Verdade é a coluna e o fundamento da Igreja; ela é firmada e sustentada pela verdade de tal modo que permanece de pé se a verdade permanecer, e cai ou perece se a verdade for removida. Não haveria Igreja se a verdade fosse dela banida. Mas a situação é muito diferente em relação à Igreja: mesmo que não houvesse Igreja na terra, a Verdade não morreria; ela permaneceria sempre em Deus, nos Anjos, nos Bem-aventurados e na própria Escritura. Logo, a Igreja é chamada coluna da Verdade em um sentido muito diferente do que a Verdade é chamada coluna da Igreja. Ambas prestam auxílio mútuo, mas de formas diversas. A Verdade é coluna da Igreja propriamente e principalmente; a Igreja é coluna da Verdade ministerialmente e impropriamente. A Verdade é a coluna que fundamenta a Igreja realmente e a sustenta com eficácia. A Igreja é a coluna da Verdade ao pregá-la e exibi-la ao mundo. A Verdade dá o ser à Igreja 42, mas a Igreja guarda a verdade e a defende contra as calúnias de Satanás e do mundo. A Verdade é a coluna da Igreja no sentido arquitetônico, mas a Igreja é a coluna da Verdade no sentido político. Por isso, Crisóstomo, invertendo a frase, diz que a Verdade é a coluna da Igreja. Ireneu (lib. 3. cap. 11): "A Coluna e o fundamento da Igreja é o Evangelho e o Espírito da vida". Pode-se também citar Teodoreto, que diz que a coluna da Verdade deve ser entendida não de forma ativa (porque sustenta a verdade), mas passiva (porque é sustentada pela verdade), onde a Verdade indica a causa e a Coluna indica o efeito. Nesse sentido, Dionísio, Bispo de Alexandria, chama os mártires de "firmas e bem-aventuradas colunas do Senhor", não porque eles confirmassem o Senhor (longe disso!), mas porque foram tão firmados por Cristo que resistiram com constância até o sangue. Da mesma forma, fala-se do fundamento de Deus (2 Tm 2:19) 43 não como aquilo que fundamenta Deus, mas como o que Deus fundamentou e pôs. E a plenitude de Deus (Ef 3:19) 44 não é o que completa Deus, mas o que é completado por Deus. Assim, Contarenus diz: "Não se chama Coluna porque a Igreja firme e sustente a verdade, mas porque ela é firmada pela verdade".

XXVI. Segundo, ser coluna e apoio da verdade é diferente de ser o fundamento 45. A Igreja é chamada do primeiro modo, mas não do segundo, pois ela não sustenta a verdade, mas é sustentada pela Verdade como seu fundamento. Por isso Paulo diz em 1 Co 3:11: "Ninguém pode pôr outro fundamento além do que já está posto, que é Jesus Cristo". Em outros lugares, Cristo é chamado de pedra viva e angular, sobre a qual os membros da Igreja, como pedras vivas, devem ser edificados (1 Pe 2:7; Ef 2:20). Ireneu (lib. 3. c. 1) chama os escritos dos Apóstolos de "fundamento e coluna da fé". E Beda diz: "O fundamento da Igreja está na solidez da fé dos Apóstolos e Profetas". Terceiro, o elogio de coluna e fundamento da verdade nem sempre implica infalibilidade ou autoridade absoluta daquele a quem se atribui. Por exemplo, os fiéis de Lyon dizem sobre o mártir Átalo que ele foi "coluna e fundamento das Igrejas" (Eusébio, hist. lib. 5. c. 1). Basílio, na epístola 70, chama os principais bispos ortodoxos que combatiam a heresia ariana de "colunas e estabilidade da verdade". Gregório Nazianzeno atribui o mesmo nome a Atanásio, Basílio e Eusébio. Ninguém diria que eles conferiram tal autoridade à verdade evangélica que ela dependesse do testemunho deles. Os escritores antigos queriam apenas dizer que eles foram servos ilustres de Deus que pregaram a doutrina do Evangelho com constância, não apenas com a boca, mas com o próprio sangue. No mesmo sentido, Cristo promete ao Vencedor (Ap 3:12) 46 que ele será uma coluna na Casa de Deus, onde se escreverá o nome de Deus, de Cristo e da Cidade de Deus, para designar a imutabilidade e constância da felicidade, correspondendo à fidelidade deles 47. Assim como eles foram colunas firmes na terra para defender a verdade, serão colunas estáveis nos céus para fruir a felicidade. Em Gálatas 2:9 48, Pedro e Tiago são chamados de colunas porque pareciam ser os suportes principais da Igreja. Até entre autores seculares a mesma metáfora ocorre: na República, juízes íntegros são chamados de colunas da justiça; homens de insigne piedade são chamados de "coluna e luz do mundo"; e em Eurípides, os filhos homens são chamados de "colunas das casas". Portanto, ser chamada de coluna e fundamento da Verdade não significa que a autoridade da Verdade dependa da Igreja.

XXVII. Quarto. Isso prova-se claramente pelo fato de que o Apóstolo usa essas palavras sobre uma Igreja específica, a de Éfeso, onde Timóteo estava. Ele fala da Casa de Deus onde Timóteo vivia. Ora, os próprios pontifícios reconhecem que o privilégio da infalibilidade não se atribui a nenhuma Igreja particular. E esta mesma Igreja de Éfeso já errou há muito tempo e até desapareceu, conforme a ameaça do próprio Cristo em Apocalipse 2:4. Quinto, mesmo que isso se referisse à Igreja Católica, não ajudaria os Adversários. Primeiro, porque está claro que isso deve ser entendido sobre a Igreja coletiva (a congregação dos fiéis) que Timóteo devia liderar, e não sobre a Igreja representativa dos Prelados, a quem eles querem atribuir este privilégio. Segundo, porque este elogio é atribuído à Igreja não por causa de fiéis e hipócritas misturados em sua comunhão externa (que é como os pontifícios entendem a Igreja), mas apenas por causa dos piedosos, que constituem a Igreja propriamente dita. Jerônimo diz em Jó, cap. 26: "A Igreja, que é a congregação de todos os Santos, é chamada coluna e fundamento da verdade por sua eterna estabilidade no Senhor". Mas os ímpios não pertencem a esta Coluna nem à Casa de Deus, pois Deus não habita neles nem a verdade neles tem sede fixa.

XXVIII. Sexto. Tudo o que se atribui aqui à Igreja refere-se ao dever que lhe foi confiado. Não se observa tanto o que a Igreja sempre faz, mas o que ela está obrigada a fazer para conservar e defender a verdade. Em Malaquias 2:7, diz-se que os lábios do Sacerdote guardam o conhecimento 49, porque ele é obrigado a fazer isso por ofício, embora nem sempre o faça de fato, como mostra o v. 8. A Igreja de Éfeso, de quem o Apóstolo trata especificamente, desviou-se, como já dissemos. Portanto, o sujeito da proposição deve ser aceito com uma limitação: aquela Igreja é chamada coluna e fundamento da verdade apenas enquanto é a Casa do Deus vivo 50, enquanto Ele habita nela pela Palavra e pelo Espírito, enquanto ela cultiva a verdade e a eleva acima de si, e enquanto mantém o fundamento dos Profetas e Apóstolos sobre o qual deve ser edificada (Ef 2:20). Se ela se afasta disso — como sabemos que a assembleia externa às vezes se afasta —, ela deixa de ser coluna da verdade e torna-se coluna da mentira e sede do erro. Ela perde o seu ofício e o seu nome. Já não é Igreja propriamente, mas apenas no nome; e se, em vez do Mistério da piedade, ela exibe o mistério da iniquidade, ela abandona a verdade. Demonstramos solidamente que a Igreja Romana é a que menos pode reivindicar este elogio para si, pois já não pode ser considerada a Casa do Deus vivo, mas a capela do Anticristo. Nela não se ouve mais a verdade pura, mas a mentira mais fétida e inúmeros erros perigosos. Por isso, há muito tempo ela foi chamada de "mãe das heresias e escola do erro" por seus próprios ex-alunos, como Petrarca, Mantuano e outros. Na verdade, os pontifícios não encontram proteção neste texto; pelo contrário, argumentamos de forma invencível contra eles a partir de sua própria hipótese. Pois, ao usarem estas palavras para provar a autoridade da Igreja, admitem que a Escritura deve ser autêntica para nós antes de qualquer testemunho da Igreja; caso contrário, a argumentação deles seria inútil e cairia num círculo vicioso do qual nunca escapariam.

XXIX. Diante disso, já está claro que os Adversários buscam erroneamente proteção para sua causa neste Oráculo do Apóstolo. Mas, como ainda precisamos esclarecer o seu sentido genuíno, vejamos brevemente o que Paulo quis dizer. Ele usa uma linguagem figurada e metafórica, referindo-se a algum uso das colunas. Como o uso pode ser arquitetônico (para sustentar o edifício) ou político (para a promulgação e guarda de Leis e Editos ali afixados), Paulo não pôde referir-se ao primeiro. Primeiro, porque nesse sentido a Verdade sustenta a Igreja, e não o contrário. Segundo, porque ele já havia chamado a Igreja de Casa de Deus, a qual necessita da Verdade como fundamento e coluna para se apoiar. Portanto, ele deve ter aludido necessariamente ao segundo uso: as colunas serviam frequentemente para que, diante dos Tribunais, as Leis e Decretos dos Magistrados fossem afixados por autoridade pública para que todos os conhecessem. Assim, a Igreja é chamada de coluna e fundamento da verdade por dois motivos: pela Promulgação e Pregação, pois ela deve promulgar os Decretos de Deus e as Leis sancionadas no conselho interior; por isso lhe foram confiados os oráculos de Deus e a Verdade celestial afixada nela torna-se conhecida aos homens 51; e pela tutela e guarda, pois ela não deve apenas propor a verdade, mas defendê-la de toda corrupção. Por isso, chama-se não apenas coluna, mas apoio da verdade, sendo o lugar onde a verdade reside como em um trono ou sede fixa. O termo hedraio-ma indica algo firme e estável sobre o qual outra coisa se apoia. Etimologicamente, vem de hedra, que significa assento, cadeira ou trono onde se colocavam as imagens dos Deuses. Como as imagens eram colocadas sobre colunas, Paulo associa coluna e apoio. Assim como nem as imagens nem as leis recebiam autoridade das colunas onde eram afixadas, mas sim de seus Autores, a Verdade não recebe autoridade da Igreja, embora esta seja chamada de sua coluna e fundamento. Jerônimo diz: "A Igreja é coluna e fundamento da verdade porque somente nela a verdade permanece firmada, e somente ela sustenta o edifício da Igreja". Caetano escreve: "A Verdade dos mistérios divinos é sustentada no alto pela Igreja, enquanto é afirmada e cultivada acima de todas as coisas; nela a verdade está tão fundamentada que fora dela não se encontra".

XXX. Embora acreditemos que o Apóstolo tenha aludido a esse uso, não é incomum que os Escritores Sagrados aludam a várias coisas na mesma expressão para ilustrar seu argumento. Por isso, não rejeitamos a hipótese de homens doutos que dizem que Paulo aludiu aqui também aos templos dos Gentios. Sabemos pelos monumentos antigos que esses templos eram adornados com colunas para sustentação, majestade e esplendor. Frequentemente, no topo delas, colocavam-se Imagens dos Deuses ou efígies de Príncipes. Em outras, penduravam-se armas, escudos e troféus de vitória. Em algumas, inscreviam-se elogios, tratados, narrações históricas, leis, preceitos morais e até Oráculos. A partir disso, a mente do Apóstolo pode ser colhida 58: ele já havia oposto a Casa de Deus não apenas ao Templo de Jerusalém, mas também aos Delubros profanos dos Étnicos. Agora, ele estabelece outra antítese entre o culto e o ornamento de ambos. Se naqueles templos viam-se colunas de arte maravilhosa, elas não passavam de colunas de mentira e erro, onde se exibiam fábulas e imagens de deuses falsos. Mas neste Templo místico, ele diz que a coluna é muito diferente: é a coluna da verdade. Nela não se exibem imagens de deuses falsos, mas a imagem viva do verdadeiro Deus manifestado na Carne (que é a imagem do Deus invisível, Cl 1:15). Nela não se propõem fábulas astuciosas, mas a sabedoria em mistério, o grande mistério da piedade (1 Tm 3:16; 1 Co 2:7). Finalmente, nela não se leem os oráculos ambíguos de um Apolo, mas os oráculos certíssimos do verdadeiro e eterno Deus. A Igreja, por sua pregação, nada mais faz do que apresentar aos olhos de todos a verdade sacrossanta de Deus, Suas leis e Seus pactos, transmitindo-os à posteridade.

XXXII. Com isto, encerramos a explicação deste texto. Fica claro que o Apóstolo quis recomendar a dignidade e o ofício da Igreja em propor e defender a verdade. No entanto, os Adversários não conseguirão provar que a autoridade e a infalibilidade dela são confirmadas aqui. Tampouco devemos ouvir Belarmino, que alega que, se atribuímos à Igreja apenas a guarda da verdade, o mesmo poderia ser dito de livrarias ou caixas que guardam as Escrituras. Quem não vê a enorme diferença entre a preservação material e local da Escritura (que ocorre em caixas e bibliotecas de ímpios) e a guarda, pregação e defesa moral e formal da verdade, que compete a qualquer Igreja enquanto ela cumpre seu ofício? Se a Igreja é chamada de Guardiã, ela não é uma guardiã muda, mas racional, que guarda pregando e recomendando o que lhe foi confiado. Ninguém diria o mesmo de uma biblioteca.

XXXIII. Belarmino também acrescenta em vão que o Apóstolo não mencionou as Escrituras, mas apenas a Verdade. Ora, se ele não se refere à Escritura, por que diz no v. anterior que escreve estas coisas para que Timóteo saiba como portar-se na Casa de Deus? Por que em outro lugar afirma que as Escrituras podem torná-lo sábio para a salvação? Ao mencionar a Verdade, ele menciona as Escrituras, pois em nenhum outro lugar se pode encontrar essa verdade salutar e evangélica (chamada Verdade por excelência 59, por ser a mais perfeita de todas) senão nas Escrituras. Quando se nos recomenda o estudo da Palavra de Deus, somos enviados apenas para a Escritura (Is 8:20; Jo 5:39; 17:17; 1 Jo 2:20; 2 Pe 1:19), pois ela é a norma perfeitíssima da Verdade celestial, que a Igreja, como uma coluna, conserva por seu ministério. Tudo o que os Apóstolos pregaram verbalmente foi depois redigido em Escrituras, como observa Ireneu (l. 3. c. 1). Com isso, resolvemos a objeção de Stapleton sobre Ef 2:20: ele diz que o fundamento dos Profetas e Apóstolos é a Doutrina pregada. Mas como a Palavra, seja escrita ou pregada, é a mesma em sua essência (diferindo apenas no modo de revelação), se a Palavra pregada é o fundamento da Igreja, o mesmo deve ser concedido à Escritura. Paulo, que testemunha ter proposto todo o conselho de Deus aos seus discípulos, afirma que nada ensinou fora de Moisés e dos Profetas (At 20:27 e 26:22). Sobre estes assuntos, basta por agora. O restante será tratado na próxima Disputa, com a ajuda de Deus.


  1. DISPUTA II. 

  2. A questão da Autoridade da Escritura é dupla. 

    1. contra os Ateus.

    1. contra os Pontifícios, que é tratada aqui.

  3. Considera-se de três formas: em relação à Escritura, ao Espírito ou à Igreja. 

  4. DISPUTA II. 

  5. Qual é o testemunho da Escritura. 

  6. DISPUTA II. 

  7. Qual é o Testemunho da Igreja. 

  8. 2 Tm 6:20. 2:1, 14. 

  9. Jo 1:29. Jo 4. 

  10. Jo 1:7. 

  11. DISPUTA II. 

  12. Jo 4:42. 

  13. Qual é o Testemunho do Espírito. 

  14. DISPUTA II. 

  15. 1 Jo 5:6. 

  16. Is 59:21. 

  17. Jo 16:14. 

  18. Ap 2:17. 

  19. 2 Co 4:13. 

  20. DISPUTA II. 

  21. 1 Co 2:12. 

  22. 1 Co 2:6. Hb 5:13-14. 

  23. Dt 13:1-2. Is 8:20. Jo 4:1-2. 

  24. DISPUTA II. 

  25. Sentença dos Pontifícios. 

  26. DISPUTA II. 

  27. DISPUTA II. 

  28. DISPUTA II. 

  29. Estado da Questão. 

  30. DISPUTA II. 

  31. DISPUTA II. 

  32. Prova-se que a autoridade da Escritura não depende da Igreja. 

    1. Pela negação (kat' arsin).

  33. Ef 2:20. 

  34. DISPUTA II. 

  35. DISPUTA II. 

  36. Jo 5:34. 

  37. 1 Tm 3:15. 

  38. DISPUTA II. 

  39. DISPUTA II. 

  40. 2 Tm 2:19. 

  41. Ef 3:19. 

  42. 1 Co 3:11. 

  43. Ap 3:12. 

  44. DISPUTA II. 

  45. Gl 2:9. 

  46. Ml 2:7. 

  47. DISPUTA II. 

  48. DISPUTA II. 

  49. 1 Re 7:21. 

  50. DISPUTA II. 

  51. 2 Re 11:14. 

  52. 2 Re 23:3. 

  53. 2 Cr 6:12. 

  54. Jo 1:17. 

  55. DISPUTA II. 

  56. DISPUTA II.