DISPUTAÇÃO TEOLÓGICA SOBRE A NECESSIDADE DAS BOAS OBRAS.¶
Respondente: DANIEL BARBALDUS, de Rethel.
I. 1 Embora a questão sobre a Necessidade das Boas Obras pareça pouco necessária — especialmente diante da grande luz do Evangelho, que costuma recomendar o zelo pela Santificação e pelas boas obras com máxima solicitude —, alguns fatores a tornam indispensável. Primeiro, a libertinagem dos epicureus e libertinos, que abundam em nosso século; eles convertem a graça de Deus em libertinagem e pensam que podem pecar impunemente para que a graça abunde. Segundo, a loucura dos antinomistas, que negam qualquer autoridade da Lei sobre os fiéis após a sua revogação. Por fim, o excesso dos católicos romanos, que estendem a necessidade das obras além do devido, relacionando-as erroneamente ao mérito da Justificação e da salvação. Por causa disso, eles nos acusam grave, mas falsa e injustamente, como se negássemos a necessidade das obras de forma absoluta, ou como se nossa doutrina extinguisse a piedade sob o pretexto da graça e desse rédeas soltas a qualquer pecado.
II. 2 Para sabermos o que devemos sustentar nesta questão, devemos observar, antes de tudo, que o erro neste ponto ocorreu no passado e continua ocorrendo hoje de duas formas: pelo excesso e pela falta. Encontramos aqui dois perigos igualmente arriscados, o Epicurismo e o Farisaísmo. O primeiro erro pertence aos que não reconhecem nenhuma necessidade das obras; o segundo, aos que as exigem excessivamente. Antigamente, os epicureus e os simonianos (seguidores de Simão Mago) caíram no primeiro erro. Eles negavam totalmente a necessidade das boas obras e ensinavam que os fiéis não precisavam observar a Lei Divina, nem se importar com o que ela ordenava ou proibia. Eles pregavam que o homem poderia agir livremente como quisesse, introduzindo assim a torpeza moral e a licença desenfreada, como observam Agostinho (em De Haeresibus, heresia 1) e Teodoreto (livro 1, sobre Simão). Em tempos mais recentes, os Libertinos e Antinomistas resgataram esse erro do inferno, embora com outro propósito. Eles estabeleceram que as boas obras não eram necessárias, mas indiferentes (adiaphora), e atacavam com desprezo a tese da necessidade das boas obras, conforme relata Sleidan (História, livro 9). Por outro lado, após os fariseus, os pseudoapóstolos já no tempo dos apóstolos caíram no erro oposto. Eles tentavam fazer uma mistura mortal de Moisés com Cristo, da Lei com o Evangelho e das obras com a fé no processo da Justificação. Eles exigiam especialmente a observância da Lei e da circuncisão, e afirmavam que as boas obras eram necessárias para merecer a salvação, como relata Lucas em Atos 15:1. Hoje, os católicos romanos seguem esses passos. Eles tratam as obras como meritórias e exigem sua necessidade para alguém alcançar e conservar a salvação por mérito. Assim, o Diabo, como costuma fazer em outros pontos da doutrina, tentou corromper este artigo principal da Salvação de duas formas: unindo o que deve ser separado e separando o que deve ser unido. Pois, na Justificação, ele tenta unir a fé e as obras, que Deus separou; e, na Santificação, ele tenta separar as obras da fé, que Deus uniu.
III. 3 Os ortodoxos mantêm o caminho médio entre esses dois extremos. Nós enfatizamos a necessidade das boas obras contra os antinomistas e libertinos, mas negamos constantemente o mérito contra os católicos romanos. Defendemos que as obras são necessárias para se obter a salvação, pois sem santidade ninguém verá a Deus (Hb 12:14). No entanto, não admitimos que elas sejam necessárias para adquirir a salvação, pois somos salvos pela graça e não pelas obras (Ef 2:8). Confessamos que as obras possuem uma relação múltipla com a vida eterna: como o meio para o fim, o caminho para a meta, a luta para a vitória, a vitória para a coroa e o trabalho devido para a recompensa gratuita. Mas não podemos aceitar, como os nossos adversários, que elas tenham uma relação de mérito e causalidade. Com Bernardo de Claraval, afirmamos que elas são o caminho para o reino, não a causa de reinar. Devemos admitir, contudo, que mesmo entre os evangélicos houve certa divergência de opiniões sobre se as boas obras podem ser chamadas de necessárias para a salvação. No século passado, quando os católicos na Alemanha perceberam que não poderiam destruir de uma vez a doutrina da Justificação pela fé somente, começaram a insistir insidiosamente nesta proposição: as boas obras são necessárias para a salvação. Eles faziam isso na "Fórmula do Interim" (que tentavam impor aos protestantes sob pretexto de conciliação e paz eclesiástica, mas que na verdade visava corromper a religião pura, como fazem os sincretistas atuais). O pretexto era nobre: evitar que o epicurismo entrasse na Igreja; mas o objetivo real era derrubar aos poucos a doutrina da Justificação. Como muitos não perceberam a fraude de imediato, aceitaram a proposição. Entre eles estava Melanchthon, que depois rejeitou essa frase por considerá-la inadequada e perigosa, como mostram as Atas do Colóquio de Worms de 1557. Mais tarde, surgiu a mesma disputa entre os teólogos de Wittenberg e Jena. Eles discutiram o assunto por muito tempo e de várias formas, até que finalmente chegaram a um acordo no Livro de Concórdia. Ali decidiram que: a nova obediência, ou as boas obras internas e externas, são necessárias aos crentes e convertidos a Deus. Entre os Reformados, alguns preferem não dizer de forma simples e sem cautela que as boas obras são necessárias para a salvação, para que ninguém interprete a frase no sentido católico — ou seja, como se as obras produzissem ou garantissem a salvação. Entre estes estão Pareus (contra Belarmino) e John Davenant. Outros acreditam que podemos manter a proposição de forma simples, desde que a expliquemos corretamente, e que há mais perigo e escândalo em negá-la ou ter medo de dizê-la; nós nos inclinamos para este segundo grupo. Seja como for, essa divergência reside mais nas palavras e na expressão do que na realidade. Ambos os lados confessam que as obras nos são necessárias de tal modo que ninguém pode ser salvo sem elas, embora elas nada contribuam para produzir ou adquirir a salvação, como demonstraremos agora.
IV. 4 Para compreendermos claramente a verdade da visão ortodoxa, devemos primeiro distinguir os vários tipos de Necessidade. Primeiro, existe a Necessidade de presença: por ela, dizemos que as boas obras são necessárias porque a salvação não pode ser obtida sem que elas estejam presentes. Segundo, a Necessidade de eficiência: por ela, as obras não apenas deveriam estar no fiel, mas também deveriam operar e produzir a salvação. Terceiro, a Necessidade de meio: as obras seriam meios indispensáveis para possuir a salvação. Quarto, a Necessidade de mérito: por ela, atribuímos às obras um poder meritório para adquirir a salvação. Quinto, a Necessidade de conexão e dependência: as obras necessariamente antecedem e se conectam à vida e à salvação, puxando-as após si. Por fim, a Necessidade de causalidade: as obras atuariam como causa da salvação, seja merecendo-a ou produzindo-a. Contra os libertinos, afirmamos que as boas obras são necessárias no primeiro sentido (presença, meio e conexão), mas as negamos no segundo sentido (eficiência, mérito e causalidade) contra os católicos. Agora trataremos especificamente do primeiro sentido.
V. 5 A Necessidade costuma ser dividida em duas, conforme a natureza do que se deve realizar. A primeira chama-se necessidade de preceito: ela se baseia na vontade de quem ordena. Um exemplo era a observância das cerimônias no Antigo Testamento e o uso do Batismo no Novo Testamento. A segunda é a necessidade de meio: ela não depende apenas da vontade do legislador, mas fundamenta-se na própria natureza das coisas e na sua conexão mútua. Dizemos que a fé é necessária para a salvação não apenas porque Deus ordenou, mas porque a conexão entre fé e salvação é tão estreita que é impossível obter a salvação sem a fé. Defendemos que as boas obras são necessárias para todos os fiéis de ambos os modos. São necessárias por preceito, porque Deus as ordenou e o homem as deve a Ele. São também necessárias como meio, porque possuem um vínculo inseparável com a salvação. Quanto à necessidade de preceito, a Escritura a confirma em muitos lugares ao ordenar a prática de boas obras e o zelo pela Santificação. Paulo diz: esta é a vontade de Deus: a vossa santificação, que cada um possua o seu vaso em santidade e honra (1Ts 4:3). Cristo diz: assim brilhe a vossa luz diante dos homens (Mt 5:16); e ainda: dou-vos um novo mandamento: que vos ameis uns aos outros (Jo 15:12). João escreve: este é o seu mandamento: que creiamos no nome de seu Filho e nos amemos uns aos outros (1Jo 3:23). As poderosas exortações dos profetas e apóstolos à piedade e santidade servem para ensinar que Deus não concede a ninguém a licença de viver como quer, mas prescreve o exercício das boas obras como algo justíssimo e extremamente saudável. A palavra Dívida, aplicada aos fiéis quando são chamados de devedores (Rm 8:12; 13:7; Lc 17:10), reforça isso. Ninguém seria chamado de devedor se a necessidade de obedecer não lhe fosse imposta pelo preceito de Deus.
VI. 6 Além disso, devemos distinguir aqui dois tipos de Dívida: a Legal e a Evangélica. A dívida legal divide-se em duas. Primeiro, a obediência perfeita exigida pela Lei para adquirir a vida; neste sentido, Paulo chama a Lei de escritura de dívida (Cl 2:14), pois ela sanciona a obediência devida a Deus. Assim, Adão era devedor, e todos os que permanecem sob o Pacto das Obras também o são (Gl 5:3). Segundo, a dívida da Pena: a maldição que os transgressores da Lei devem suportar. Por isso, os pecadores culpados diante de Deus são chamados de devedores (Mt 18:34) e os pecados são chamados de dívidas na Oração Dominical (Mt 6). Isso não significa que devamos pecados a Deus (não Lhe devemos nada além de obediência), mas sim que o pecador deve a pena à justiça divina por causa do pecado cometido. Cristo libertou os fiéis de ambas as dívidas legais. Ao cumprir a Lei por eles — tanto na obediência quanto na pena —, Ele os livrou da condenação da morte e lhes adquiriu o direito à vida (Rm 8:1-3; Gl 4:13). No entanto, além dessa dívida legal, existe a Dívida Evangélica, da qual os fiéis nunca podem ser libertos: a dívida da nova obediência, à qual todos os regenerados pela Lei de Cristo estão obrigados (Rm 8:12).
VII. 7 Mas não devemos insistir nas boas obras apenas pela necessidade de preceito. Elas possuem também uma múltipla Necessidade de Meio. O vínculo que obriga o homem às obras é tão estreito que ele está ligado a elas em todo lugar e tempo. Nenhum estado — seja de natureza, de pecado ou de graça — pode livrá-lo disso. Certamente, se Deus tivesse apenas o direito de Criador e Conservador sobre o homem, todos reconheceriam que o culto e a obediência ao Senhor são justíssimos e necessários. Como o homem recebe tudo de Deus, deve dedicar tudo a Ele. Se ele depende de Deus necessariamente quanto à sua existência e preservação, deve também depender d'Ele quanto à sua conduta e santidade de vida. Contudo, esse vínculo torna-se muito mais forte quando olhamos para a Redenção. Como o fiel recebeu benefícios muito maiores e mais numerosos por meio dela, ele deve muito mais ao seu Libertador, a menos que queira cair no vício terrível da ingratidão.
VIII. 8 Assim, surge uma necessidade múltipla das obras. Primeiro, em relação a Deus, para ilustrar a Sua glória (Mt 5:16). Segundo, em relação ao Próximo, para promover a sua edificação (1Pe 3:1; Fp 2:15; Tt 2:7). Terceiro, em relação ao próprio Fiel, para conduzir sua salvação (Fp 2:12) e confirmar sua vocação e eleição (2Pe 1:10). Paulo resume toda a vida cristã nestes três deveres: que vivamos de forma sóbria e temperante (conosco), justa (com o próximo) e piedosa (com Deus) (Tt 2:12). Para percebermos melhor essa necessidade, devemos analisar as várias relações do fiel. Para onde quer que ele olhe, encontrará inúmeros incentivos para a santidade. Seja pelo Pacto da Graça no qual foi recebido; seja por Deus, a quem se dedicou no Batismo; seja pelo Evangelho, que lhe foi proposto para crer; seja pela Fé, que ele professa; seja pela Graça, da qual já desfruta; seja pela Glória, que ainda espera — tudo o induz de muitas maneiras à necessidade das boas obras.
IX. 9 Primeiro, o Pacto da Graça prova isso com clareza. Sabemos que esse pacto contém necessariamente duas partes: a Promessa da parte de Deus e a estipulação de um dever da parte do homem. Pois, se Deus promete ser o nosso Deus, Ele quer que sejamos o Seu povo. Se Ele promete favor e proteção total, exige culto e obediência totais. Ele declara solenemente, até por juramento, que não nos negará nada que sirva para a nossa salvação; por isso, exige também que não Lhe recusemos nada, mas que nos dediquemos inteiramente à Sua glória, andando nos Seus preceitos. Serei o seu Deus, e eles serão o meu povo (Lv 26:12; Jr 31:33). Confesso que a bondade de Deus é tão grande que Ele não apenas exige esses deveres como dívidas, mas também os promete como benefícios. Este é o privilégio do Novo Pacto: Deus realiza tanto a Sua parte quanto a nossa. Ele exige a fé, mas também a infunde em nós (Fp 1:29). Exige o temor e a reverência, mas também os gera em nossos corações para que nunca nos afastemos d'Ele (Jr 32:40). Isso, porém, não impede que o fiel seja obrigado a cumprir o seu dever. Na verdade, a promessa divina e a condição humana estão tão ligadas que ninguém pode esperar falsamente a graça de Deus se não encontrar em si a fé e o arrependimento que Deus exige. Embora Deus ofereça a promessa do Pacto na Palavra e nos Sacramentos, e demonstre sinceramente o que Lhe agrada, essa promessa é sempre condicionada. Ela se aplica apenas àqueles que possuem a condição proposta (eleitos e fiéis), a quem o próprio Deus decidiu conceder essa graça. Portanto, o Pacto da Graça não tem lugar se o homem não obedecer ao chamado de Deus e não se esforçar para cumprir o dever exigido na prática das boas obras e do arrependimento.
X. 10 Além disso, a obediência exigida no Pacto da Graça refere-se ao Deus Triúno: Pai, Filho e Espírito Santo. O fiel é obrigado a dedicar-se às boas obras por causa disso. Na economia da salvação, cada Pessoa da Trindade assume uma relação especial. O Pai nos elege desde a eternidade e nos adota em Sua família. O Filho nos redime no tempo e nos torna um povo especial e membros do Seu corpo místico. O Espírito Santo nos santifica e nos consagra como templos, aplicando a graça destinada pelo Pai e adquirida pelo Filho. Assim, nosso culto deve se dirigir às três Pessoas. Devemos venerar o Pai como filhos (1Pe 1:15-16; Ef 5:1; Ml 1:4). Devemos seguir os passos do Redentor (1Pe 2:24) e nos mostrar um povo zeloso de boas obras (Tt 2:14). Devemos honrar o Consolador que habita em nós, não O entristecendo (Ef 4:30) nem permitindo que Seu templo se suje com impurezas (1Co 6:16). Em resumo: devemos viver de modo digno de filhos de Deus, irmãos e membros de Cristo, e templos do Espírito Santo. Do contrário, como chamaremos Deus de Pai se não Lhe oferecermos obediência filial (Ml 1:4)? Ou como professaremos ser discípulos de Cristo se não guardarmos Seus mandamentos (Jo 14:15; 1Jo 2:3; Rm 8:9)? Ou como seremos santuários do Espírito Santo se não andarmos segundo o Espírito (Gl 5:24)? Isso é exigido especialmente pela Comunhão que temos com Cristo, nossa Cabeça. Essa comunhão só é real se houver conformidade com Ele, para a qual fomos predestinados (Rm 8:30). Devemos ser cristãos não apenas no nome, mas na vida, andando como Ele andou (1Jo 2:6), para que Cristo viva em nós (Gl 2:20). Ele deve produzir em nós os efeitos do Seu tríplice ofício: como Profetas, pregamos Suas virtudes (1Pe 2:9); como Sacerdotes, oferecemos nossos corpos em sacrifício vivo (Rm 12:1); e como Reis, dominamos o mundo e nossos desejos (Ap 1:6; 5:10).
XI. 11 Terceiro, a própria natureza do Evangelho confirma essa necessidade. O Evangelho não é apenas uma doutrina teórica para alimentar a mente com especulações vazias, mas uma doutrina prática que corrige a vontade e impulsiona para o bem. Por isso, é chamado de verdade segundo a piedade e mistério da piedade (1Tm 3:16). É evidente que ninguém pode abraçar o Evangelho seriamente sem se sentir obrigado a andar dignamente. Devemos unir inseparavelmente a Fé com a Caridade, o Conhecimento com o Culto, e a Sabedoria com a Religião. Devemos ser poderosos em palavras e obras, conhecendo o que crer e cumprindo o que fazer. Se sabeis estas coisas, bem-aventurados sois se as fizerdes (Jo 13:17). Lactâncio descreve bem isso: nem se deve aceitar religião sem sabedoria, nem aprovar sabedoria sem religião... porque o mesmo Deus deve ser entendido pela sabedoria e honrado pela religião. Como Deus em Cristo é a Verdade primeira e o Bem supremo, Ele deve ser conhecido pela fé e amado pela caridade. Por isso, o Evangelho é tantas vezes chamado de Lei: Lei da fé (Rm 3:24), Lei do Espírito e da vida (Rm 8:2), Lei real da liberdade (Tg 1:25) e Lei de Cristo (1Co 9:21). O Espírito Santo usa o termo "Lei" porque o Evangelho realiza verdadeiramente o que os judeus buscavam falsamente na Lei de Moisés (Justificação e Salvação). O Evangelho tem sua própria lei; ela é mais suave que a lei rígida de Moisés, mas ainda obriga o homem à obediência. O jugo de Cristo é leve, mas ainda é um jugo que devemos carregar (Mt 11:29). Por isso Paulo diz: pela lei morri para a lei (Gl 2:19) — pela Lei de Cristo morri para a Lei de Moisés. Embora Cristo nos tenha libertado da Lei e não estejamos mais sob ela, mas sob a graça, não devemos viver sem lei, mas sob a Lei de Cristo. Somos livres, mas como servos de Deus (1Pe 2:16), pois, libertos do pecado, tornamo-nos escravos da justiça (Rm 6:18). A servidão não foi eliminada, mas mudada: da escravidão do pecado para a servidão da graça.
XII. 12 Quarto, a natureza da Fé traz consigo a necessidade das obras. O Espírito Santo testifica que a fé está inseparavelmente ligada à caridade; ela só é verdadeira se atua pela caridade (Gl 5:6). Tiago afirma expressamente que a fé sem obras é morta. Como alguém pode gloriar-se de ter fé se ela não vier acompanhada de boas obras? A fé é uma árvore que deve dar frutos e uma fonte que deve jorrar rios. Confesso que fé e obras se opõem no processo da Justificação, por isso o Apóstolo as coloca em antítese. Mas isso não impede que elas se unam na pessoa justificada para promover a santificação. Quem se diz fiel apenas por palavras, sem se preocupar com as obras, é um mentiroso. Os libertinos no tempo de Tiago faziam isso ao entenderem mal as palavras de Paulo sobre a Justificação. Eles esqueceram que a mesma fé que justifica também purifica o coração e é a raiz da santificação (At 15:9).
XIII. 13 Finalmente, todos os benefícios de Deus apontam para isso — tanto os passados (já concedidos) quanto os futuros (prometidos). Eles nos são dados para promover a santificação e servir como motivos para obedecermos a Deus. Nossas obras podem ser vistas de duas formas: em relação ao passado, são selos e penhores da graça anterior (Ef 4:30; 2Tm 2:19); em relação ao futuro, são as primícias da glória que virá (Ef 1:14; Rm 8:23). São frutos da Eleição eterna (Ef 1:4) e sementes da glorificação (Gl 6:7-8). Como diz Bernardo: elas são o seminário da esperança, incentivos da caridade, indícios da predestinação oculta e o caminho para o reino, mas não a causa de reinar. Isso fica claro ao analisarmos cada benefício: a Eleição eterna visa a nossa santificação (Ef 1:4; 2Ts 2:14). A Redenção serve para que, libertos dos inimigos, sirvamos a Deus em santidade e justiça (Lc 1:74) e O glorifiquemos no corpo e no espírito (1Co 6:20). A Vocação chama para a santidade, como Aquele que nos chamou é santo (1Pe 1:15). A Justificação nos livra da culpa para que não voltemos à estultícia (Sl 130:4; Sl 85:8). Ninguém é justificado sem ser também santificado. Cristo é tanto nossa justiça quanto nossa santificação (1Co 1:30). Ele veio com sangue e água (1Jo 5:6) — sangue para expiar, água para purificar. Por fim, a Regeneração nos torna novas criaturas para andarmos em novidade de espírito (Rm 7:6). Em suma, a Graça não nos é dada para pecarmos mais, mas para que vivamos de forma sóbria, justa e piedosa neste mundo (Tt 2:12).
XIV. O mesmo se diz sobre a Glória e a Salvação guardadas no céu. As boas obras funcionam como Meios para o Fim (Jo 3:3; Lc 13:3), Caminho para a Meta (Ef 2:10; Fp 3:14), Luta para a Vitória (1Tm 6:12), Trabalho para a Recompensa (Mt 20:1-2), Semeadura para a Colheita (Gl 6:7-8) e Primícias para a Massa (Rm 8:23). Como obter o fim sem os meios? Como atingir a meta sem o caminho? Como receber a coroa sem lutar o bom combate? A Escritura exige a santidade para alguém entrar na cidade santa (Hb 12:14; Ap 21:27). Como a santidade é a parte principal da felicidade e a graça é a glória iniciada, ninguém pode receber a coroa no céu se não lançar o fundamento da santificação na terra.
XV. Os antinomistas tentam enfraquecer a necessidade das boas obras citando versículos que dizem que não estamos sob a Lei, mas sob a graça (Rm 6:14; 7:4). Mas há uma diferença entre não estar sob a Lei como um Pacto para adquirir a vida (como Adão estava) e estar sob a Lei como uma regra de vida para governar a conduta. Não estamos sob a Lei no sentido de exigência de perfeição absoluta para a justificação, nem sob sua maldição terrível. Porém, ainda estamos sob a Lei como orientação suave. Cristo nos livrou do império e do jugo da Lei, mas ainda estamos obrigados à sua direção. A mesma lei que prescrevia o dever a Adão permanece no Novo Pacto, embora com outro fim: no antigo, o homem fazia para viver; no novo, o homem faz porque vive e para demonstrar gratidão.
XVI. As palavras de Paulo em 1 Timóteo 1:9, que a lei não foi feita para o justo, devem ser entendidas no contexto do rigor e da maldição. O fiel não está sem lei (anomia), pois Paulo prescreve a lei da fé e da caridade. A Lei é para os rebeldes que só são contidos pelo medo da punição. Mas os fiéis, que têm o Espírito de adoção e liberdade, agem por amor à virtude e não por medo. Eles não estão sob uma senhora impiedosa, mas seguem a lei real da liberdade.
XVII. É um erro usar a Liberdade Cristã para excluir as boas obras. Existe a Liberdade do Espírito e a Licença da Carne. A liberdade verdadeira consiste na prática da piedade; pois servir a Deus é reinar. A liberdade de Cristo nos solta do jugo da maldição, mas nos une mais fortemente à obediência a Deus. Ser liberto do pecado implica tornar-se servo da graça (Rm 6:18). Paulo e Pedro distinguem cuidadosamente a liberdade cristã da libertinagem carnal (Gl 5:13; 1Pe 2:16).
XVIII. De tudo o que foi discutido, conclui-se que as boas obras são necessárias para a salvação de todos os fiéis. No entanto, como os adversários nos acusam de dar com uma mão e tirar com a outra, precisamos desfazer essa calúnia. Belarmino tenta fundamentar essa mentira em vários pontos. O primeiro é o dogma de que as obras dos justos são pecados mortais por sua natureza. Ele argumenta: se as obras são pecados, não são necessárias, mas devem ser evitadas. Respondemos que isso é um sofisma. Há uma diferença entre pecado por si e pecado por acidente. Se as obras fossem pecados por natureza, deveriam ser evitadas. Mas dizemos que elas são "pecados" apenas por acidente, devido à imperfeição e aos restos de carne que permanecem em nós. Devemos corrigir a imperfeição, mas não abandonar a obra, pois a sua necessidade depende do mandamento de Deus e não da nossa perfeição. Seguimos o que o Espírito Santo diz em Is 64:6 e 1Jo 1:8. As obras não merecem a salvação, mas isso não significa que não sejam exigidas.
XIX. O segundo fundamento da calúnia é a Justificação pela fé somente. Belarmino diz: se a fé basta, as obras são supérfluas. Ele confunde Justificação com a Salvação completa. Muitas coisas são necessárias para a salvação que não o são para o ato da Justificação. Uma coisa é ter o Direito à vida, outra é possuí-la de fato. As obras são efeitos que seguem a justificação, mas meios que precedem a posse final da salvação. Além disso, quando dizemos que a fé "sozinha" justifica, queremos dizer que apenas ela tem a capacidade de receber a justiça de Cristo. Ela não é "solitária", ou seja, nunca está separada das outras virtudes. O olho vê sozinho, mas não está fora do corpo. A fé que justifica nunca está sem as obras, embora as obras não participem do ato de justificar.
XX. Terceiro, eles alegam que a doutrina da Graça dá rédeas ao pecado. Paulo já enfrentou essa calúnia (Rm 6:1). Embora a Graça faça tudo na regeneração, isso não nos torna preguiçosos. Aquele que te criou sem ti, não te salvará sem ti, diz Agostinho. No momento da conversão, o pecador é passivo; mas depois, ele deve agir como cooperador de Deus (2Co 6:1). A Graça e o dever humano agem de forma subordinada, não contrária. Paulo diz: desenvolvei a vossa salvação com temor e tremor, pois Deus é quem opera em vós o querer e o realizar (Fp 2:13). Ele une o esforço humano com a eficácia da Graça.
XXI. Quarto, eles atacam a Imutabilidade da Eleição e a Certeza da Salvação, dizendo que isso leva ao Epicurismo. Dizem que, se a salvação é certa, o homem pode viver como quiser. Nós respondemos que a certeza da salvação não destrói os meios, mas os estabelece. Deus elegeu para o fim (salvação) e para os meios (fé e santidade). Quem despreza os meios não alcançará o fim. Paulo tinha certeza da salvação, mas nem por isso deixou de lutar e disciplinar seu corpo (1Co 9:27). O Espírito gera uma confiança que não é preguiçosa, mas eficaz. Devemos ter temor (cautela), mas não desespero.
XXII. Poderíamos encerrar aqui, mas um autor francês publicou recentemente um tratado intitulado A Subversão da Doutrina Moral de Cristo pelos Erros dos Calvinistas sobre a Justificação. Ele renova a mesma calúnia com grande esforço. Ele ataca nossa doutrina da Perseverança alegando que ela abre caminho para crimes terríveis, pois dizemos que pecados graves não impedem que alguém continue sendo filho de Deus.
XXIII. Para provar isso, ele usa dois dogmas nossos: 1. A união inseparável da Fé e das Obras. 2. A Perseverança da Fé mesmo em crimes graves. Ele tenta mostrar que isso confunde virtude com vício. Ele diz na página 187: se a fé é inseparável das virtudes (castidade, paciência), e se o fiel não perde a fé ao cometer adultério, então ele continua casto enquanto comete adultério. Isso parece horrível para ele, mas a solução é simples quando se entende a visão ortodoxa sem calúnias.
XXIV. O autor age de forma injusta. Mesmo que suas conclusões parecessem lógicas para ele, ele sabe que nós as rejeitamos e as chamamos de ímpias. Nossas igrejas dão grande importância à santidade e, na prática, o zelo pela vida inculpável é igual ou maior entre nós do que entre aqueles que baseiam a perseverança no livre-arbítrio. Se quiséssemos retrucar, poderíamos falar da Teologia Moral de certos casuístas católicos (como os jesuítas) que aprovam pecados gravíssimos e os tornam lícitos em seus escritos.
XXV. A calúnia é evidente porque as consequências que ele tira não seguem a nossa doutrina. Cremos que um fiel justificado e adotado nunca cairá da graça total ou finalmente, tornando-se escravo do Diabo de novo. Cremos nisso porque a Escritura ensina a imutabilidade da eleição (2Tm 2:19), o mérito da intercessão de Cristo (Jo 17:20), a eficácia do selo do Espírito (Ef 1:13), a eternidade do Pacto da Graça (Jr 32:40) e a fidelidade das promessas divinas (Jo 10:28). Os dons de Deus são irrevogáveis (Rm 11:29).
XXVI. Embora a Fé e a Graça sejam inalienáveis, isso não significa que o fiel seja impecável. Como a regeneração é imperfeita nesta vida, o fiel pode cair em pecados graves. Nessas quedas, ele incorre na indignação paterna de Deus (Sl 89:31) e contrai culpa, perdendo a aptidão presente para o reino dos céus. Contudo, o direito à vida eterna e a adoção não são anulados. Se considerarmos o fiel apenas como pecador, ele merece a condenação; mas se o considerarmos como eleito em Cristo, ele será absolvido. Deus garante que nenhum eleito morra em estado de impenitência; Ele os renova pelo arrependimento antes do fim.
XXVII. Se perguntarem como alguém pode ser justo diante de Deus e ao mesmo tempo culpado de morte, respondemos que isso se diz sob aspectos diferentes. Sob o aspecto de seu próprio demérito, o pecador merece a morte. Mas sob o aspecto de Cristo e do Seu mérito imputado, ele é reputado justo. O pecado pode interromper a paz e o sentimento da justificação, mas não dissolve o estado de justificado nem o beneplácito eterno de Deus. Um pai pode ficar irado com um filho pródigo, mas não o risca do número de filhos. Cristo não permite que o vínculo do matrimônio espiritual seja quebrado pelo pecado do fiel.
XXVIII. O mesmo vale para a Regeneração. O Espírito que infundiu a semente da vida a protege para que não desapareça. A semente de Deus permanece no fiel (1Jo 3:9). No "inverno da tentação", a vida pode se esconder na raiz; o ato da fé pode ser interrompido, mas o hábito da fé permanece como fogo sob as cinzas. A vida espiritual pode ter seus desfalques, mas não é extinta. Devemos distinguir entre "viver na carne" e "andar segundo a carne"; entre "pecar" e "praticar o pecado". O fiel pode cair no lodo por fragilidade, mas não se joga nele com prazer deliberado. No fiel, há sempre uma resistência ou dor antes ou depois do pecado.
XXIX. Assim, a Fé pode coexistir com pecados graves como contrários em um mesmo sujeito, mas em graus diferentes. Os atos pecaminosos enfraquecem a fé, mas não a destroem totalmente. Na luta entre Carne e Espírito, a vitória temporária da Carne não extingue os dons do Espírito. Portanto, a fé e a caridade podem permanecer quanto ao hábito e à raiz, mesmo que não quanto ao exercício no momento do pecado. Isso não faz do fiel um "adúltero casto", mas mostra que o dom da castidade ainda não é perfeito e luta contra a carne. No final, o fiel obtém a vitória plena sobre todos esses pecados pelo Espírito. Nada em nossa doutrina retira a necessidade das obras; pelo contrário, ela a recomenda com máxima eficácia.
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Necessidade da Questão. ↩
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O erro ocorre por Excesso e por Falta. ↩
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A visão Ortodoxa. ↩
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Estado da Questão. ↩
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Boas Obras são necessárias por Necessidade de preceito. ↩
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Dívida dupla: Legal e Evangélica. ↩
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Necessidade de Meio. ↩
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Em relação a Deus, ao próximo e a nós mesmos. ↩
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O Pacto da Graça exige boas obras. ↩
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As Três Pessoas da Trindade. ↩
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O Evangelho. ↩
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A natureza da Fé. ↩
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Os benefícios de Deus. ↩