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DISPUTAÇÃO TEOLÓGICA SOBRE O MANÁ.

De 1 COR. X. 3.

Respondente: PEDRO FRANCISCO OLIVÉRIO Helvécio-Sarratense.

I.1 VISTO QUE tudo o que outrora foi escrito, para o nosso ensino foi escrito, para que, pela paciência e consolação das Escrituras, tenhamos esperança, como o Divino Doutor das Nações santamente adverte2 em Rom. 15:4, os escritores θεόπνευστοι (inspirados por Deus) do Novo Testamento consideraram que nada seria mais digno de estudo ou mais proveitoso para a salvação dos fiéis do que, à semelhança de escribas instruídos no reino dos Céus, tirarem do seu tesouro coisas novas e velhas3 (Mat. 13:52). Assim, eles compararam constantemente o Antigo Testamento com o Novo, os Tipos com a Verdade e os Oráculos com o Cumprimento, para afirmarem com mais força a Divindade de ambos. Ao voltarem frequentemente os olhos para a Igreja Israelita e recordarem os exemplos passados — tanto as promessas4 quanto as ameaças feitas aos Pais — eles nos apresentaram naquela Igreja, como num espelho, a imagem da vida cristã, seja quanto aos benefícios de Deus e aos nossos deveres, seja quanto aos prêmios e castigos guardados para os bons e para os maus.

II. Lemos que o próprio Paulo, mais do que os outros, realizou isso diversas vezes em suas Epístolas para a instrução dos fiéis. Ele o fez principalmente no início do capítulo dez da primeira carta aos Coríntios. Ali, para afastá-los de vários pecados graves em que se envolviam — especialmente o comer carne sacrificada a ídolos — ele os chama de volta à consideração do povo israelita que peregrinava no deserto. Ao listar os diversos bens que Deus lhes concedeu (semelhantes às graças de que os cristãos se gloriavam), bem como os pecados que cometeram e os castigos que Deus lhes infligiu por causa disso, ele os desaconselha seriamente a não cometerem pecados parecidos, para que não caiam em punições semelhantes. Ele menciona, acima de tudo, três benefícios insignes de Deus, que serviram como Sacramentos extraordinários para eles: o Batismo da nuvem e do mar, o Alimento espiritual ou Maná, e a Água da Rocha. O primeiro corresponde perfeitamente ao nosso Batismo, e os dois últimos à Eucaristia dos cristãos. Já tratamos do primeiro na Disputação anterior; agora, σὺν Θεῷ (com Deus), trataremos dos outros dois, começando pelo Maná, que o Apóstolo menciona em primeiro lugar.

III. Suas palavras estão no v. 3 do cap. 10: Καὶ πάνtes αὐτὸ τὸ βρῶμα πνευματικὸν ἔφαγον, e todos comeram o mesmo alimento espiritual.5 O objetivo do Apóstolo, como já insinuamos, é desviar os coríntios das seduções profanas do ventre e dos banquetes dos ídolos, para os quais os gentios os atraíam. Ele usa o argumento do exemplo dos antigos israelitas que, sendo culpados desses mesmos pecados, não puderam escapar do Juízo Divino. Contudo, se houvesse uma diferença nos exemplos, a força da comparação se perderia. Os coríntios poderiam alegar que a condição deles era muito superior à dos israelitas: que foram batizados, que participaram da Sagrada Ceia e que obtiveram no Novo Testamento muitas outras prerrogativas que não foram concedidas aos antigos. Assim, um argumento baseado neles não se aplicaria legitimamente aos cristãos. Para tirar essa vanglória vã — pela qual pensavam estar em melhor posição diante de Deus do que os antigos — Paulo demonstra a igualdade do estado dos israelitas com o dos cristãos. Deus estabeleceu Seu pacto e Sua Igreja entre eles tanto quanto entre nós; eles receberam os mesmos benefícios e tiveram os mesmos Sacramentos como testemunhos da graça de Deus. Portanto, se eles não puderam escapar das punições ao abusarem de seus bens, os cristãos também não as evitarão se forem culpados dos mesmos pecados. Ele prova essa igualdade principalmente pela identidade dos Sacramentos que existiam em ambos os casos, se não quanto aos sinais, ao menos quanto ao significado. Ele demonstra isso em relação à Ceia, tanto quanto ao alimento quanto à bebida.6

IV. Sobre o Alimento, que é o tema desta Disputação, ele diz que Todos, ou seja, os israelitas, comeram o mesmo alimento espiritual, referindo-se ao Maná com que Deus quis alimentá-los outrora no deserto. Devemos analisar duas coisas: 1. A História e 2. O Mistério. Pois o Maná deve ser visto sob essa dupla relação (σχέσει): quanto ao seu uso comum, como alimento material e corpóreo que nutria o povo; e quanto ao seu uso sagrado, como alimento espiritual e místico que significava e selava Cristo.

V. Moisés relata a história no capítulo 16 de Êxodo7. Quando a farinha amassada que trouxeram do Egito acabou e o povo murmurou contra Moisés por falta de provisões — chegando a desejar a morte pelas mãos de Jeová, dizendo: Quem dera tivéssemos morrido pela mão de Jeová na terra do Egito! — Deus, embora pudesse castigar o povo ingrato, proveu a sua necessidade com bondade admirável. Ele agiu de modo totalmente extraordinário, enviando diariamente do céu o Maná, que bastava para alimentar aquela multidão. Assim, Deus os sustentou por todos os quarenta anos em que o povo esteve no deserto, até chegarem a Canaã, tempo em que o Maná cessou (v. 35). Quanto a este alimento: 1. Os israelitas deviam colhê-lo pela manhã, antes do nascer do sol (Êx. 16:21), na medida de seu consumo (v. 16, 18), apenas para cada dia (v. 4), pois nada devia sobrar para o dia seguinte (v. 19, 20); exceto no sexto dia, quando colhiam para dois dias, pois no sétimo dia, o Sábado, ele não caía (v. 23, 26). 2. Deviam distribuir o que colheram, para que cada um tivesse um Gômer (que era a décima parte de um Efa e, segundo Waser, equivalia a nove libras romanas), sem que ninguém tivesse mais ou menos (v. 16, 17, 18). 3. Deviam prepará-lo para comer, o que faziam moendo, cozendo ou fervendo; eles o moíam ou trituravam e depois faziam bolos cozidos ou assados (v. 23; Núm. 11:8).8 O Maná é descrito quanto à substância como algo miúdo e muito fino, como a geada sobre a terra (v. 21); quanto à figura, redondo como semente de coentro (v. 31); quanto à cor, branco (v. 3), como a cor do bdélio arábico, que é translúcido (Núm. 11:7); quanto ao sabor, muito doce e suave, como o sabor de flor de farinha com mel, ou como o sabor de azeite finíssimo (Núm. 11:8), sendo um alimento excelente e muito saudável. No entanto, não aceitamos facilmente o que o autor do livro da Sabedoria (cap. 16:20)9 diz sobre o Maná: que era um alimento πᾶσαν ἡδονὴν ἰσχύοντα, καὶ πρὸς πᾶσαν ἁρμονίαν γεῦσιν, que possuía todo o prazer e se adaptava a todo gosto. Embora alguns Pais que gostam de alegorias tenham aceitado isso avidamente, Moisés menciona expressamente o seu sabor específico. Além disso, se ele se adaptasse ao gosto de qualquer um, por que o teriam rejeitado no deserto, dizendo: nossos olhos não veem nada além de maná? E por que teriam desejado as carnes e alimentos egípcios?

VI. A história desse milagre levanta várias questões que tocaremos brevemente. 1. Por que Deus quis prover a necessidade do povo desta maneira? ℞. Embora a vontade de Deus deva ser para nós a razão suprema, não há dúvida de que Ele quis dar um testemunho singular de Sua Providência paterna. Ele ensinou que nunca falta aos piedosos que sofrem, mas sempre provê a tempo, usando até meios extraordinários quando os ordinários falham. Assim, o homem não vive só de pão, mas de tudo o que sai da boca de Deus, como Moisés insinua em Deut. 8:3:10 Deus te afligiu e te fez ter fome, mas também te alimentou com o Maná, que nem tu nem teus pais conheciam, para te fazer saber que o homem não vive só de pão, mas de tudo o que procede da boca de Deus. E para mostrar que o favor de Deus não é parcial ou imperfeito, Ele os alimentou com este pão durante todos os quarenta anos no deserto, suprindo pelo favor do céu o que a esterilidade da terra negava, até que chegaram a Canaã e começaram a comer dos frutos da terra (Êx. 16:35; Jos. 5:12).11 Pois, quando os meios comuns estão disponíveis, não se deve pedir ou esperar milagres extraordinários. Cessam os meios extraordinários, dizem os juristas, onde há lugar para os ordinários. Além disso, Deus agiu assim para que o dom celestial não fosse desprezado por homens ingratos, que nem mesmo na necessidade o recebiam com gratidão suficiente. Com esse fim, Ele ordenou que guardassem uma porção de Maná num vaso de ouro ao lado da Arca para todas as gerações (Êx. 16:32, 33),12 para que fosse um testemunho ilustre tanto de Sua onipotência quanto de Sua bondade para com os israelitas, celebrado por seus descendentes.

VII. Segundo, quanto ao nome, pergunta-se: por que esse alimento foi chamado de Maná? Moisés testemunha que os israelitas o chamaram assim assim que ele caiu do céu e eles o viram (Êx. 16:15):13 E vendo-o os filhos de Israel, disseram uns aos outros: מן הוא man hu (o que é isto?), porque não sabiam o que era, e no v. 31: E a casa de Israel chamou o seu nome maná. Há duas opiniões entre os doutores sobre a razão desse nome. A primeira é daqueles que interpretam as palavras do v. 15 de forma interrogativa. Eles defendem que מן (man) é o mesmo que o hebraico מה (mah), quê, como se os israelitas, ao verem aquele pão divino e chocados com a novidade da coisa, tivessem exclamado em admiração: "O que é isto?". Depois, esse nome permaneceu e tornou-se um substantivo. Assim traduzem a Septuaginta (τί ἐστι τοῦτο), o Parafrasta Caldeu, a Vulgata e Josefo (Antiguidades, liv. 3, cap. 1): καλεῖται δὲ Ἑβραῖοι τὸ βρῶμα τοῦτο μάννα, τὸ γὰρ μᾶν ἐπερώτησις κατὰ τὴν ἡμετέραν διάλεκτον, os hebreus chamam esse alimento de manna, pois "man" é um interrogativo em nosso dialeto, significando "o que é isto?". Assim também pensam Jerônimo e muitos dos antigos. Essa opinião parece confirmada pela resposta de Moisés, que disse ao povo: Este é o pão que Jeová vos dá para comer. Além disso, na língua egípcia, man14 significa o mesmo que mah no hebraico, como observa Drusius citando Rabi Hiskuni. Não seria estranho se os israelitas, que passaram tantos anos no Egito, usassem uma partícula daquela língua.

VIII. A segunda opinião é daqueles que tomam essas palavras de forma indicativa, como um nome próprio derivado da raiz מנה (manah), que significa ordenar, constituir, preparar. Assim, מן (man), retirando a última radical, seria o mesmo que מנה, ou seja, uma parte, porção ou dom dado por Deus; um alimento ordenado, disposto e preparado por Deus sem o trabalho deles, para o qual os israelitas não precisariam semear nem colher. Assim pensam os hebreus modernos como o Rabi Salomão: isto é a preparação de um alimento do verbo מנה, porque não sabiam o que era, ou seja, não sabiam nomeá-lo pelo seu nome próprio. Assim também Aben Ezra diz que man deriva do verbo מנה, de onde vem Daniel 1:5: וימן (vayeman), designou ou ordenou a vossa comida. O mesmo pensam R. D. K., R. Bechai e outros. Embora não importe muito qual opinião sigamos, a segunda parece aproximar-se mais da verdade da questão.

IX. Terceiro. Pode-se perguntar: esse Maná era natural ou miraculoso? É certo que existe um maná natural, que os filósofos classificam entre os meteoros aquosos. Ele se origina do orvalho em lugares de clima muito temperado, caindo nas folhas de árvores e arbustos e ali aderindo até ser colhido. Isso ocorre principalmente em três regiões: Síria, Alemanha e Itália. Por isso, conforme a região, é chamado de maná siríaco, germânico ou calábrico. O último é o mais recomendado na medicina para purgar suavemente a bílis e a pituíta, sobre o qual se deve consultar os médicos. Sobre o maná calábrico, Jonston relata em Thaumatogr. cap. 10 um fato curioso: quando os reis de Nápoles fecharam um local na Enótria onde o maná caía todos os verões para cobrar impostos, o maná parou de cair. Quando abriram o local e removeram o imposto, ele voltou a cair. Como isso aconteceu repetidas vezes, os reis deixaram o local livre para todos. Célio Rodigino escreve algo semelhante sobre o sal tragasiano no Épiro. Existe também o Maná polonês, descoberto há pouco tempo, sobre o qual Keckermann e Cornélio a Lapide escrevem, dizendo que cai à noite em junho e julho como orvalho e, cozido com manteiga e açúcar, compete com as iguarias mais delicadas da Itália. Discute-se se o maná israelita tinha a mesma natureza do natural. Alguns, como os conimbricenses e Francisco Vallés, afirmam que sim, tentando provar pela cor, sabor e outras circunstâncias. Outros negam e sustentam que foi algo totalmente novo, criado por Deus para um tempo certo e depois retirado. A maioria dos hebreus segue essa visão, como Aben Ezra e Abarbanel.

X. Embora não queiramos tornar essa disputa nossa — pois pertence mais aos físicos e seguidores de Hipócrates — observamos brevemente que a opinião mais correta nos parece ser a daqueles que, embora vejam grande afinidade entre ambos quanto à forma, cor e sabor, não creem que sejam do mesmo gênero. O Maná israelita foi miraculoso e extraordinário. Primeiro, porque se fosse natural, não seria desconhecido para os israelitas, mas Moisés testifica: nem tu, nem teus pais o conhecestes (Deut. 8:3). Segundo, não haveria necessidade de guardá-lo num vaso de ouro como monumento de um milagre se fosse algo natural. Terceiro, o maná medicinal não cai o ano todo, mas apenas em climas temperados, na primavera. O Maná bíblico caía igualmente em todos os meses do ano, e nenhuma mudança climática impediu que caísse por quarenta anos. Quarto, o natural cai sempre do mesmo modo; o divino não caía no sétimo dia e caía em dobro no sexto dia. Quinto, o maná medicinal não é alimento nutritivo, mas um remédio purgante. O Maná Divino era um alimento suavíssimo, fácil de digerir e não pesava no corpo; não era remédio, senão eles teriam definhado ao comê-lo diariamente. Sexto, o maná natural não apodrece à noite nem gera vermes, não derrete ao sol, nem é duro o suficiente para ser moído e transformado em bolos como o Divino. Sétimo, o Maná Divino caía onde quer que eles acampassem e cessou assim que entraram na terra de Canaã. Portanto, seja pelas propriedades, pelo lugar, pelo tempo, pela quantidade ou pela duração, fica claro que foi um benefício extraordinário de Deus concedido por milagre.

XI. Poderíamos discutir mais sobre a quantidade, forma, cor e sabor do Maná, bem como sua coleta e distribuição. Mas, como isso se afasta de nosso propósito, é melhor passarmos ao seu uso sagrado e investigar o mistério oculto sob essa casca. Paulo nos guia a isso quando o chama de βρῶμα πνευματικόν, alimento espiritual. Ele é chamado assim não pela sua natureza material, mas pela sua origem e seu significado. Primeiro, pela Origem, pois foi fornecido por Deus — que é o Espírito por excelência — milagrosamente e além das leis da natureza. Ou porque é espiritual por ter sido preparado pelo ministério dos Anjos; por isso é chamado de pão dos Anjos ou dos fortes15 (Salmo 78:24). Não que os Anjos o comessem, pois seres incorpóreos não precisam de comida física, mas porque foi administrado ao povo pelos Anjos sob o comando de Deus. Sendo algo extraordinário, Deus usou os Anjos para reunir a matéria e expô-la ao Sol para que caísse pronta para o uso.

XII. Segundo, chama-se espiritual pelo Significado, porque teve um sentido místico para prefigurar Cristo, o verdadeiro pão da vida. Embora Deus tenha dado o Maná primeiro como alimento físico para saciar a fome, Ele pretendia um mistério mais profundo. Os fiéis, atentos às obras de Deus, viam com os olhos da fé o alimento da alma tipificado no Maná. Da mesma forma, o pão e o vinho, que por natureza nutrem o corpo, são destinados pela graça de Deus a um uso espiritual e sagrado como símbolos do Corpo e Sangue de Cristo, que sustentam a alma. Não há uma mudança física neles, mas moral e sacramental. O próprio Cristo não nos deixa duvidar disso em João 616, onde abre a chave desse mistério ao comparar-se com o maná, ensinando que Ele é a realidade daquela figura. Apocalipse 2:1717 também aponta para isso quando promete ao vencedor o maná escondido, designando a comunhão salvadora com Cristo tanto na graça quanto na glória.

XIII. O fato de Cristo falar em João 6:4918 sobre o Maná como um alimento perecível que não impediu a morte dos pais (vossos pais comeram o maná no deserto e morreram) não invalida essa explicação. Os Sacramentos podem ser vistos quanto à sua parte material (natureza) ou formal (significado). No primeiro sentido, o maná era alimento físico; no segundo, é espiritual porque significava algo espiritual. Além disso, uma coisa é falar de algo segundo a percepção humana dos ouvintes, e outra é falar segundo a verdade da coisa. Paulo não fala da Circuncisão sempre do mesmo modo: quando considera a instituição de Deus, diz que ela tem grande utilidade (Rom. 3:1)19 por ser o selo da justiça da fé (Rom. 4:11)20; mas quando disputa contra os que se gloriavam apenas no sinal externo, diz que ela nada é (Gál. 6:15)21. O mesmo ocorre com Cristo ao falar com os judeus: como aquela multidão carnal preferia Moisés a Cristo porque Moisés os alimentara por 40 anos, Cristo adapta Seu discurso ao entendimento deles. É como se dissesse: "Vós valorizais Moisés porque ele saciou vossos ventres; Eu não vos dou comida física, por isso Me desprezais. Mas se dais tanto valor ao pão perecível, quanto mais ao pão vivo que alimenta a alma para a eternidade?". Assim, Cristo responde à hipótese dos ouvintes. Já Paulo, ao chamar o maná de alimento espiritual, foca na ordem de Deus e na verdadeira instituição do Sacramento, e não no abuso dos ímpios.

XIV. Os Antigos observaram essa razão várias vezes. Agostinho no Salmo 77: todos comeram o mesmo alimento espiritual e beberam a mesma bebida espiritual, isto é, que significava algo espiritual. E no Tratado 26 sobre João: o Maná e o altar foram sacramentos diferentes nos sinais, mas iguais na coisa significada; diferentes na espécie visível, mas iguais na virtude espiritual, pois os Pais comeram a mesma comida espiritual que nós. Assim também Anselmo: Nossos pais comeram no Maná a mesma comida do corpo de Cristo que nós agora comemos no pão, e beberam da Rocha a mesma bebida do sangue de Cristo que bebemos do cálice. Portanto, comeram o mesmo que nós espiritualmente, embora o elemento corporal fosse outro; pois entenderam espiritualmente o alimento visível e o provaram espiritualmente para serem saciados espiritualmente. Em Apocalipse 11:823, a grande cidade é chamada espiritualmente de Sodoma e Egito.

XV. Isso resolve a dúvida de como todos os israelitas puderam comer esse alimento espiritual, sendo que muitos eram ímpios e foram punidos por Deus (v. 5). Embora eles não tenham comido o maná enquanto espiritual (recebendo-o pela fé como sinal de Cristo), eles comeram o alimento que, pela instituição de Deus, é espiritual e sacramental, mesmo que eles não o tenham percebido como tal.

XVI. Para entendermos melhor por que esse alimento é chamado de espiritual devido ao mistério do significado, devemos examinar as razões. De modo geral, o Maná pode ser comparado à Palavra de Deus, que é o alimento celestial, doce e saudável para nossas almas enquanto peregrinamos no deserto do mundo. O Espírito Santo frequentemente nos apresenta a Palavra sob esse símbolo (Salmo 19:11; João 4:32, 34; Heb. 5:13, 14). Nunca devemos preferir a ela os alhos e cebolas da sabedoria egípcia ou as alfarrobas das tradições humanas. Nela se cumpre mais verdadeiramente o que se diz do Maná: que se adapta a todo gosto. Pois cada um, conforme sua necessidade, encontra nela sustento. Orígenes explica bem: Se recebes a Palavra de Deus com toda a fé e devoção, ela se torna para ti o que desejas: se estás triste, ela te consola; se estás alegre, aumenta tua alegria; se estás irado, te acalma. Assim, o Maná da Palavra tem o sabor que desejares; mas se alguém o recebe com infidelidade e não o come, brotarão vermes, e o Senhor, que é doçura de mel para os fiéis, torna-se verme para os infiéis.

XVII. Mas é certo que o Maná apontava especificamente para Cristo, sendo Seu símbolo excelente em três pontos principais: 1. na origem e causa; 2. na natureza e propriedades; 3. nos usos e efeitos. 1. Quanto à origem. O Maná descia do céu e era dado por Deus por pura graça e liberalidade, sem trabalho24, indústria humana ou mérito. Por isso Moisés diz aos israelitas25: este é o pão que Jeová vos dá para comer (Êx. 16:15). Assim, diz-se que Cristo desceu do céu como o dom de Deus Pai26 (João 3:16 e 6:33), um dom totalmente gratuito, adquirido sem nosso esforço ou mérito — para que não imaginemos nada de farisaico ou papista aqui — mas concedido apenas pela misericórdia de Deus. O Maná caía de modo sobrenatural, não natural. Assim, Cristo nos é dado por Deus pelo milagre da graça, sendo este o grande Mistério da piedade. O Maná era dado com o orvalho do céu (Êx. 16:14), e Cristo é comparado ao orvalho27 em Oseias 14:5: Serei como o orvalho para Israel. Ele umedece nossos corações áridos e restaura os que estão queimados pelo sentido da ira de Deus. Por isso28, em Cantares 5:1, Ele diz à Esposa: Abre-me, minha irmã, minha amiga, minha pomba, pois a minha cabeça está cheia de orvalho, e os meus cabelos, das gotas da noite. Enfim, o Maná não foi dado no Egito, mas no deserto, depois que o povo foi libertado da escravidão pela mão poderosa de Deus. Assim, Cristo alimenta e dá de beber àqueles que Ele libertou do Egito deste mundo e remiu com Seu sangue.

XVIII. Segundo, Quanto à natureza e qualidades, o Maná era de cor esbranquiçada e de gosto docíssimo. Cristo é chamado de alvo pela Esposa29 em Cantares 5:10, por causa da inocência de Sua vida, pois Ele é santo, inocente, separado dos pecadores (Heb. 7:26), que não conheceu pecado (2 Cor. 5:21) e em cuja boca não se achou engano (1 Ped. 2:22). Sua bondade e graça têm um sabor suavíssimo para os pecadores: provai e vede que Jeová é bom30 (Salmo 34:9). A Esposa O compara a uma macieira, cujos frutos são doces ao seu paladar31 (Cant. 2:3). E como o Maná foi o alimento físico mais excelente para sustentar o povo no deserto, Cristo é o alimento divino da alma, o verdadeiro pão de Deus, o pão vivificante que dá vida ao Mundo. Ele é tudo para nós: luz, alimento, vestimenta, remédio — tudo em todos32 (Col. 3:11).

XIX. Terceiro, Quanto ao uso e efeitos, o povo devia colher o Maná para se alimentar. Cristo deve ser recebido pelos fiéis através da fé para nos nutrir. O Maná colhido era distribuído igualmente a cada um; Cristo, o alimento da vida, é distribuído conforme a medida da fé (Ef. 4:7), de modo que pertence igualmente a todos: pobres, ricos, grandes, pequenos, homens, mulheres, escravos e livres. Pois em Cristo não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher, mas Cristo é tudo em todos (Col. 3:11). O Maná era preparado sendo moído e cozido ao fogo; Cristo foi consagrado por sofrimentos (Heb. 2:10), moído pela cruz e tribulação por causa de nossas iniquidades (Isaías 53:5). Os israelitas desprezaram o Maná, embora fosse doce; assim, homens carnais e profanos desprezam Cristo, achando-O escândalo e loucura33 (1 Cor. 1:23). O Maná devia ser guardado num vaso de ouro diante da Arca; assim, Cristo deve ser guardado no "vaso de ouro" do coração fiel, que é o Santuário de Deus, para lembrarmos de tão grande benefício com gratidão eterna.

XX. Isso se aplica ao que diz Apocalipse 2:1734 sobre o Maná escondido, que Cristo promete dar ao Vencedor. Ele opõe isso aos banquetes dos balamitas e nicolaítas, que atraíam os cristãos para comerem carnes sacrificadas a ídolos. Cristo ensina que eles não devem se entristecer por Ele proibir tais banquetes idólatras, pois Ele dará aos vencedores algo muito mais refinado e saudável: o banquete espiritual da graça e da glória, e as delícias imortais do Paraíso em comunhão com Ele. Ele alude aos prêmios dados aos vencedores nos jogos gregos. Os vencedores recebiam assentos de honra, isenção de impostos e sustento público, como em Atenas no Pritaneu, onde se guardavam as provisões públicas (o chamado "depósito escondido"). O Juiz celestial promete aos que vencerem as tentações dos nicolaítas não o pão do Pritaneu, mas o maná celestial, não guardado na Arca da aliança, mas escondido junto a Deus, onde não estraga. Ele chama a Si mesmo e Seus benefícios de maná escondido, referindo-se ao maná guardado no vaso de ouro no Santuário, por quatro razões: 1. Na Palavra, pois Cristo é naturalmente escondido dos homens, que não podem conhecê-Lo sem revelação, pois o homem natural não compreende as coisas de Deus35 (1 Cor. 2:14) e a carne e o sangue não nos revelam o mistério de Cristo, mas apenas o Pai celestial36 (Mat. 16:17). Por isso é chamado de mistério oculto às nações37 (Rom. 16:25), contendo coisas que o olho não viu, nem o ouvido ouviu38 (1 Cor. 2:9). Também é escondido quanto aos réprobos, aos quais não foi dado conhecer os mistérios do reino dos Céus39 (Mat. 13:11), e para quem o Evangelho está encoberto40 (2 Cor. 4:3). Finalmente, é escondido aos próprios fiéis, que nunca O conhecem perfeitamente nesta vida, mas O veem como por um espelho e em enigma (1 Cor. 13:12), pois andam por fé, e não por vista (2 Cor. 5:7). 2. Nos Sacramentos, porque ali Cristo Se oculta sob símbolos externos, não fisicamente, mas moralmente, oferecendo-Se não aos sentidos, mas à mente, para ser apreendido pela fé. 3. No coração, pois Cristo habita em nossos corações pela fé41 (Ef. 3:17), onde não é visto pelos outros, mas sentido pela alma fiel através de um consolo incrível. 4. No céu, porque Cristo foi recebido no céu42 e retirado de nossa vista, permanecendo como que escondido no Santuário de Deus até ser revelado no último dia; por isso nossa vida está escondida com Cristo em Deus43 (Col. 3:3).

XXI. Embora exista semelhança entre o Maná e Cristo, é certo que, como a verdade é superior à figura, há grandes diferenças entre ambos. Quanto à Origem, o Maná descia do céu visível e atmosférico; mas Cristo veio do Céu Empíreo e supremo, não por mudança de lugar, mas de modo econômico e moral, ao assumir nossa carne. Por isso Cristo diz em João 6:3244: Moisés não vos deu o pão do céu, mas meu Pai vos dá o verdadeiro pão do céu, não das nuvens, mas do seio do Pai. Os israelitas receberam o Maná pelo ministério de Anjos e orações de Moisés; mas Cristo nos é dado imediata e unicamente por Deus (João 6:32). 2. Quanto à natureza, o Maná era alimento material e corpóreo na substância, embora espiritual no significado, destinado a sustentar a vida terrena. Cristo é alimento não do corpo, mas da alma, pelo qual somos nutridos para a vida eterna — não pressionando com a boca, mas crendo com o coração. Ele é o pão não apenas vivo, mas vivificante, que dá vida aos mortos e cura os enfermos para sempre. Ele não se converte em nossa substância, mas nos converte e muda na Sua. 3. Quanto ao efeito, o Maná sustentava a vida física por um tempo, mas não livrava da morte. Este Alimento não apenas sustenta a vida, mas restaura a vida perdida e a conserva eternamente — uma vida divina e imortal, como Cristo nota em João 6:49-5145: Vossos pais comeram o maná no deserto e morreram; este é o pão que desce do céu, para que quem dele comer não morra.

XXII. Disso concluímos que o Apóstolo chamou o Maná de alimento espiritual com razão, devido ao mistério do significado. Discute-se entre nós e os católicos se o Maná, além de ser símbolo de Cristo, foi também uma figura da Eucaristia. Eles defendem que sim, estabelecendo uma diferença: o Maná apenas significava e representava o Corpo de Cristo; a Eucaristia, porém, seria o próprio Corpo de Cristo, no qual a substância do pão foi convertida (como nota Belarmino). Nós não negamos que sejam figuras semelhantes que representam a mesma realidade, e por isso o Apóstolo as compara — não como figura e realidade, mas como um sacramento análogo a outro. Mas negamos que o Maná seja uma figura da Eucaristia, instituída para significá-la. É absurdo haver uma figura de outra figura, pois a figura deve carregar a imagem de uma realidade interna e espiritual, não de outra coisa externa e material. A afirmação dos adversários de que a Eucaristia é o próprio Corpo de Cristo é um erro fundamental que eles nunca provaram nem provarão.

XXIII. Belarmino objeta em vão que, se não houver essa diferença (Maná como figura e Eucaristia como a própria coisa), não teríamos mais verdade significada que os judeus. Ele diz que o Maná representava Cristo muito mais claramente que o pão seco, pois vinha do céu pelas mãos dos Anjos, enquanto nosso pão vem do forno pelas mãos de homens. ℞. Mas ele diz isso sem base. Os Sacramentos não devem ser vistos materialmente pela sua substância, mas formalmente pela sua instituição, da qual depende sua excelência. Como a palavra da instituição na Eucaristia é muito mais clara que a do Maná, a Eucaristia é superior quanto ao modo de receber, embora a realidade significada seja a mesma em ambos: Cristo e Seus benefícios. A excelência dos Sacramentos do Novo Testamento sobre os do Antigo não se deve à coisa significada (como se um contivesse a realidade e o outro apenas o sinal, pois ambos são sinais que significam e selam a graça de Cristo), mas ao modo de significação: eles representam a realidade de forma mais eficaz, não apenas como futura, mas como realizada; duram até o fim do mundo e alcançam todos os povos sem distinção.

XXIV. Resta ver em que sentido o Apóstolo diz que todos os israelitas comeram o mesmo alimento espiritual. Ele fala dos israelitas entre si ou deles conosco? Os católicos (para defenderem a Transubstanciação) e Socino dizem que comeram o mesmo alimento entre si, porque todos, bons e maus, o usaram. Os luteranos também seguem isso para confirmar a Consubstanciação. Mas ambos erram o alvo do Apóstolo. O objetivo dele não é apenas afirmar a identidade dos sacramentos entre os israelitas, mas principalmente conosco, cristãos. Ele quer mostrar que o uso de nossos Sacramentos não nos aproveitará sem fé e santidade, pois os israelitas tiveram sacramentos semelhantes no deserto e, mesmo assim, foram punidos por sua rebelião e idolatria. Se aqueles que receberam benefícios iguais de Deus pecarem da mesma forma, serão punidos igualmente. Se os Pais receberam conosco os mesmos sinais da graça de Deus, então, se pecarmos como eles, seremos punidos como eles. Essa força do argumento de Paulo se perderia se o alimento não fosse o mesmo que o nosso, mas apenas o mesmo entre eles. Além disso, por que o Apóstolo mencionaria o batismo concedido aos Pais se não quisesse igualá-los a nós quanto aos Sacramentos? O final do versículo remove qualquer dificuldade ao dizer: os Pais beberam da Rocha espiritual que os seguia, e a Rocha era Cristo. Como aquela Rocha pode ser chamada de Cristo se eles não tivessem a mesma bebida que nós, que participamos de Cristo? Santo Agostinho viu isso, e Bertrando o seguiu: Paulo afirma que os Pais beberam a mesma bebida espiritual; perguntas qual? Certamente a mesmíssima que hoje o povo dos crentes come e bebe, pois não se pode entender de outra forma, visto que é um só e o mesmo Cristo que alimentou com Sua Carne o povo batizado na nuvem e no mar, e que agora alimenta a Igreja com o pão de Seu Corpo.

XXV. Não adianta objetar que Paulo deveria ter acrescentado a palavra conosco, pois isso já se deduz claramente da conexão (ἀλληλοχίᾳ) do texto. Nem adianta dizer que não podemos ter comido o maná; pois, embora não o tenhamos comido fisicamente, comemos moral e sacramentalmente sempre que participamos da Santa Ceia, pois a Eucaristia e o Maná concordam em ser sacramentalmente Cristo. Nem adianta dizer que os incrédulos não comeram a comida espiritual conosco porque não participaram de Cristo; pois, como já dito, ao comerem o maná — que era espiritual pela ordem de Deus e prefigurava Cristo — dizia-se corretamente que comiam comida espiritual. Por fim, o fato de serem chamados de nossos tipos prova que devem ser comparados a nós, pois tipo e antítipo são termos relativos.

XXVI. Disso decorrem espontaneamente três Corolários de grande importância. Primeiro, em favor da Manducação espiritual de Cristo, contra a invenção da manducação oral e carnal. Visto que o mesmo Cristo é proposto como alimento a todos os fiéis, tanto do Antigo quanto do Novo Testamento, a natureza da comunhão (κοινωνίας) e da manducação deve ser a mesma para ambos. Ora, é evidente que a manducação oral não poderia existir no Antigo Testamento, pois Cristo ainda não tinha encarnado; havia apenas a espiritual pela fé. Nesse sentido, diz-se que comeram comida espiritual e beberam da Rocha espiritual. Portanto, não devemos exigir outra agora, pois apenas a espiritual é salvífica e necessária. Se os Pais obtiveram a salvação comendo Cristo espiritualmente pela fé, por que não nos contentaríamos com isso, rejeitando a outra ideia que repugna à Escritura, à razão, à analogia da fé, à dignidade de Cristo e que gera inúmeros absurdos?

XXVII. Segundo, sobre a Identidade do Pacto da graça, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. Sendo os Sacramentos selos do pacto, a identidade deles prova a identidade do pacto. Paulo testifica claramente que os Pais tiveram os mesmos Sacramentos que nós, se não nos sinais, ao menos no mistério do significado. Nos sinais diferentes, a fé é a mesma, diz Agostinho. A diferença estava nos sinais e no modo de significar: aqueles significavam o Cristo que viria, os nossos significam o Cristo já manifestado. Aqueles confirmavam a fé de modo mais obscuro, os nossos de modo mais claro e eficaz. No entanto, ambos olhavam para a mesma realidade: Cristo, que é o mesmo ontem, hoje e eternamente (Heb. 13:8). Como hoje recebemos Cristo na Ceia sob os símbolos do pão e vinho e participamos de Seu Corpo e Sangue46 (1 Cor. 10:16), os fiéis de outrora se alimentavam de Cristo no Maná para a salvação, percebendo a realidade e virtude do Sacramento através do sinal visível.

XXVIII. Terceiro, sobre o Conhecimento de Cristo no Antigo Testamento. Se os Pais foram chamados para a comunhão de Cristo, é necessário que antes tenham sido instruídos no conhecimento e na fé nEle, pois não se deseja o que é desconhecido nem se desfruta de quem não se conhece. Isso é ainda mais certo porque a própria manducação de Cristo aqui proposta deve ser feita inteiramente pela fé, o que exige necessariamente um conhecimento prático de Cristo e uma apreensão íntima dEle. Daí percebemos o quanto se afastam da verdade e erram perigosamente aqueles que afirmam que, no Antigo Testamento, não existia o conhecimento da Pessoa divina de Cristo, nem marcas que gerassem o conhecimento de Cristo morrendo pelos pecados. Eles dizem que, embora os antigos tenham sido salvos por Cristo, puderam alcançar a salvação sem conhecê-Lo. Não seria difícil confundir esse erro ímpio. Se Cristo era desconhecido para os Pais, como se diz que Abraão desejou ver o Seu dia, viu-o e alegrou-se47 (Jo. 8:56)? Ou como se narra que Moisés preferiu o vitupério de Cristo aos tesouros egípcios48 (Heb. 11:26)? Ou como o Apóstolo menciona em Hebreus 11 que os Pais morreram na fé — fé que não pode ter outro fundamento senão Cristo?

XXIX. Além disso, se Cristo era desconhecido no Antigo Testamento, seria ou porque nada lhes foi revelado, ou porque não entenderam a revelação. A primeira opção é falsa, pois o Antigo Testamento está repleto de testemunhos sobre a Pessoa Θεανθρώπῳ (Deus-Homem) de Cristo, Sua Natureza, Ofícios, Benefícios e Seu duplo estado de humilhação e exaltação. Caso contrário, nem Cristo nem os Apóstolos poderiam provar os mistérios evangélicos a partir de Moisés e dos Profetas, como vemos em muitos lugares (Luc. 24:27, 44; João 5:39; Atos 26:22; 1 Ped. 1:11; Heb. 10:7). Toda a autoridade do Novo Testamento pereceria49 se as citações do Antigo Testamento para provar a Divindade e a Satisfação do Messias fossem falsas ou inúteis. A segunda opção também é falsa, pois a revelação teria sido inútil para eles. Por que revelar tais mistérios se não lhes diziam respeito? Por que os santos homens de Deus investigariam diligentemente o tempo das coisas futuras se isso em nada os afetasse? Não era dever de cada fiel do Antigo Testamento buscar o modo de obter a salvação e evitar a punição eterna? Não se deve dizer, baseando-se em 1 Pedro 1:11, que eles serviam não a si mesmos, mas a nós. Pedro não fala do conhecimento das coisas reveladas (como se eles não as conhecessem), mas do seu cumprimento e execução. Eles não investigaram a realidade da salvação por meio dos sofrimentos de Cristo como algo duvidoso, mas apenas o tempo em que isso ocorreria. Isso não nega o conhecimento deles, apenas mostra que a manifestação plena estava reservada para o futuro; no entanto, os frutos pertenciam tanto a eles quanto a nós.

XXX. Isso se conclui invencivelmente pelo seguinte: se Cristo não fosse conhecido pelos Pais, nem a Justificação nem a salvação poderiam tê-los alcançado. Ambas exigem o conhecimento de Cristo. Pelo seu conhecimento, o meu servo justificará a muitos, diz Isaías 53:1151. Cristo afirma em João 17:352 que a vida eterna consiste em conhecer ao Pai e a Jesus Cristo. Ninguém de mente sã aceitaria a afirmação absurda de que os fiéis poderiam ser salvos por Cristo sem conhecê-Lo, como se a salvação pudesse existir sem fé, ou a fé sem o conhecimento do objeto. Isso definiria a fé pela ignorância em vez do conhecimento, que é uma invenção católica. Não se deve usar o exemplo dos bebês (aos quais o mérito de Cristo é aplicado sem um ato pessoal de conhecimento), pois há uma diferença enorme entre bebês e adultos, de quem se exige fé atual para a salvação. Como Cristo é o mesmo ontem, hoje e eternamente, Ele não salva de modo diferente hoje do que salvava ontem. Assim como hoje nenhum adulto é salvo sem conhecimento e fé em Cristo, no Antigo Testamento algum conhecimento e fé em Cristo foram sempre necessários para a salvação — embora mais obscuros e tênues conforme a medida da revelação daquela época, mas idênticos aos nossos na substância e suficientes para a justificação dos Pais.

XXXI. É errado objetar que a economia antiga estava coberta por mil tipos e véus, e que por isso os Pais não poderiam penetrar nos mistérios do Novo Testamento. Apesar da obscuridade daquela dispensação, os raios das verdades evangélicas brilhavam sob aqueles véus e tipos, apresentando-se ao olho da fé dos piedosos para o seu consolo. Caso contrário, Deus teria enganado Seu povo com sombras vazias que não teriam Cristo como corpo, e nunca teria ensinado que naqueles tipos havia um significado místico de coisas espirituais. Pelo contrário, Deus testifica que a circuncisão do coração era significada pela circuncisão da carne, e que esta sem aquela seria inútil. Nos Sacrifícios, não se devia olhar para o que eram em si, mas para o que significavam. Sendo os tipos e sinais termos relativos que envolvem a coisa significada, eles serviam para revelar a realidade ao seu modo. As coisas propostas não eram tão carnais que os piedosos não pudessem subir das coisas sensíveis para as inteligíveis e espirituais. Eles não poderiam crer que a justiça de Deus fosse aplacada pelo sangue de animais; por isso, deviam olhar para um sacrifício muito superior que expiaria todos os pecados: Cristo, que ofereceria Sua alma como sacrifício pela culpa (Is. 53:10; Sal. 40:6) e por cuja morte a visão e a profecia seriam seladas (Dan. 9:24). Assim, os piedosos que usavam aquele alimento e bebida espiritual fornecidos por Deus no deserto não poderiam alimentar-se espiritualmente de Cristo (como o Apóstolo testifica) se não olhassem para o mistério prefigurado por aquele símbolo. Portanto, conclui-se invencivelmente que Cristo, já prefigurado e prometido nos Oráculos e tipos, era conhecido pelos fiéis e recebido pela fé.


  1. Disput. VIII. 

  2. Rom. 15:4. 

  3. Mat. 13:52. 

  4. Disput VIII. 

  5. 1 Cor. 10:3, 4. 

  6. Disput. VIII. 

  7. Êxodo 16. 

  8. Núm. 11:8. 

  9. Sab. 16:20. 

  10. Deut. 8:3. 

  11. Êxo. 16:35; Josu. 5:12. 

  12. Êxod. 16:32, 33. 

  13. Êx. 16:15. 

  14. Disput. VIII. 

  15. Sl. 78:24. 

  16. João 6. 

  17. Apoc. 2:17. 

  18. João 6:49. 

  19. Rom. 3:1. 

  20. Rom. 4:11. 

  21. Gál. 6:15. 

  22. Gál. 5:3. 

  23. Apoc. 11:8. 

  24. Disput. VIII. 

  25. Êx. 16:15. 

  26. Jo. 3:16 e 6:33. 

  27. Ose. 14:5. 

  28. Cant. 5:1. 

  29. Cant. 5:9. 

  30. Sl. 34:8. 

  31. Cant. 2:3. 

  32. Col. 3:11. 

  33. 1 Cor. 1:23. 

  34. Apoc. 2:17. 

  35. 1 Cor. 2:14. 

  36. Mat. 16:17 e 11:25. 

  37. Rom. 16:26. 

  38. 1 Cor. 2:9. 

  39. Mat. 11:26 e 13:11. 

  40. 2 Cor. 4:3. 

  41. Efés. 3:17. 

  42. Apoc. 2:17. 

  43. Col. 3:3. 

  44. João 6:32. 

  45. João 6:49, 50, 51. 

  46. 1 Cor. 10:16. 

  47. João 8:56. 

  48. Heb. 11:26. 

  49. 1 Ped. 1:11. 

  50. 1 Ped. 1:11. 

  51. Is. 53:11. 

  52. João 17:3.