PREFÁCIO.¶
ENTRE todas as controvérsias que intercedem entre nós e os Pontifícios, deve ser reconhecido por todos que nenhuma é mais importante, nenhuma foi e ainda é agitada com maior contenção de ânimos, do que aquela que diz respeito à nossa Secessão da Igreja Romana. Pois, enquanto outras versam sobre certos pontos particulares da doutrina nos quais divergimos uns dos outros, esta, todavia, compreende universalmente tudo o que pôde dar causa a esta nossa Secessão. Ninguém deixa de ver o quanto interessa que ela seja examinada com precisão, como questão primária e capital, da qual todas as outras dependem. Consta, certamente, que nada há que os homens daquela parte objetem com mais frequência ou exagerem com mais ódio, como se ela tivesse sido não apenas temerária, mas também injusta e Cismática, rompendo impiamente o sacratíssimo vínculo da paz que Cristo tanto nos recomendou, e dilacerando nefariamente a comunhão do Corpo místico de Cristo. Bradam que não se pode aplicar outro remédio a este mal perigosíssimo senão voltarmos para onde saímos e retornarmos à graça de sua Igreja, da qual fizemos um divórcio voluntário pelo Cisma. Os nossos, por sua vez, para não faltarem à Verdade nem a si mesmos, trabalharam zelosamente para demonstrar a falsidade e a injustiça dessas incriminações, e para revelar as artes enganosas daqueles que, sob o pretexto de uma paz insidiosa, visavam apenas reconduzir as consciências, uma vez libertas por Cristo, ao jugo de uma escravidão duríssima ἀζύγαστον (insuportável). O que foi realizado pelos exímios Servos de Deus com tal destreza e solidez que a superstição nada tem que possa opor com razão. Pois demonstrou-se, por mais de uma razão, que nossos piedosos Maiores, não sem gravíssimas causas, após terem tentado e buscado frequentemente em vão a Reforma na Cabeça e nos Membros, fizeram finalmente a Secessão, ou antes, foram compelidos a fazê-la pelo furor dos Adversários: nem o amor à paz, ao qual Cristo tantas vezes nos exorta, pôde ou deveu desviá-los deste piedoso propósito; lembrados de que, por preceito de Deus, a paz deve estar unida à Verdade por um vínculo indissolúvel, e que nenhuma unidade pode ser aprovada que não se apoie na verdade; que qualquer outra associação não merece o nome de paz, mas é uma conspiração perniciosa no erro e na mentira, que nos separa de Deus, Autor da verdade e da paz, em vez de nos conduzir à sua comunhão.
Mas, embora este argumento tenha sido abordado mais de uma vez por grandes Homens de Deus e tratado com solidez, os Adversários não cessam, contudo, de repô-lo repetidamente e de urgi-lo até à exaustão, especialmente nestes tempos mais recentes, em que o Clero Romano nada deixa de intentar para promover e, se puder, consumar a sua obra de extermínio da Religião mais pura, a qual, com o nome infame de heresia, nota injustissimamente. Daí que, se outrora grassava com a crueldade imensa de perseguições inauditas para derrubar totalmente a fé dos piedosos, agora tenta também, com palavras brandas e compostas para enganar, engodar os incautos e atraí-los para as suas redes. O que se viu recentemente na Advertência Pastoral, dada pelo Clero Galicano aos Reformados em toda a França, onde, enquanto desejam aos Irmãos da Secessão Calviniana, como dizem, a correção, o retorno e a concórdia, venenos ímpios jazem ocultos sob o mel doce, usando palavras que respiram mera caridade e que ostentam a piedosa solicitude de Pastores que buscam ovelhas perdidas, mas que, na realidade, traem suficientemente a má intenção e o terrível veneno, pois não se envergonham de difamar com títulos odiosíssimos aqueles que professam querer revogar amigavelmente a si, como se fossem trânsfugas da Religião, desertores da antiga milícia, Cismáticos, ímpios, que não podem dar razão alguma da sua fuga flagrante e secessão. O que, por isso, atacam e exprobram amargamente:
Nós, portanto, dizem eles, todo o Clero Galicano etc. Vos convocamos e, na embaixada que desempenhamos por Cristo, como se Deus por nós exortasse: Perguntamos-vos, por que fizestes o Cisma? Explicai, se puderdes, perante o Pai, perante a Mãe, perante os Irmãos, a infâmia de uma fuga tão flagrante, tão abrupta e precipitada, a divisão de Cristo, a rescisão dos Sacramentos de Cristo, as incriminações contra a Esposa de Cristo, a negação das promessas de Cristo etc. Isto nominalmente expostulamos contra vós, isto de vós perguntamos incessantemente: Por que fizestes o Cisma? Se a isto não responderdes, por mais que noutras coisas vos esforceis falando ou escrevendo, falais coisas supérfluas.
Se estas coisas fossem ditas com tanta verdade quanto são jactadas com confiança, não nos oporíamos a que, com justiça, fosse lançada sobre nós toda aquela inveja com que agora somos oprimidos sem merecer; mas se atendermos mais profundamente à coisa em si, retirada a pompa das palavras inúteis, aparecerá claramente que nada mais iníquo, nada mais falso pôde ser concebido ou dito contra nós. De onde se pode concluir quão necessário é, para a justa defesa da boa causa e da nossa inocência, colocar à luz aberta a vaidade de tais calúnias, para que não se imponham aos mais simples. O que ninguém negará ser requerido principalmente daqueles que, chamados a lutar as guerras do Senhor e postos sobre outros, devem prever para que a Religião não sofra qualquer detrimento, precedendo os demais fiéis, e especialmente a juventude sagrada a eles confiada, λόγῳ & ἔργῳ (em palavra e em obra). Razão pela qual, em conformidade com o múnus que me foi confiado e conforme o costume recebido nas Academias, publiquei há alguns anos algumas Disputas sobre este argumento, nas quais me propus provar a necessidade da nossa Secessão da Igreja Romana e a impossibilidade de Sincretismo com ela. As quais, tendo sido recebidas com algum aplauso acima da minha esperança, e tendo-se esgotado em breve todos os exemplares que restavam, começou-se a pensar em enviá-las novamente ao prelo para satisfazer o desejo daqueles que as buscavam avidamente, persuadido de que este Opúsculo não careceria de fruto, especialmente neste tempo em que esta Questão começou a ser renovada com não menos fervor do que antes, nada deixando os Pontifícios de intentar para que, seja pela força, seja pelo dolo, seja pela doçura das promessas ou pela amargura das calúnias e a dureza de perseguições de todo tipo, e principalmente por este odioso preconceito do cisma, desviem os fiéis da verdadeira fé e os atraiam para o seu lado. Ao desejo destes, permiti facilmente que estas Investigações Acadêmicas, que já não eram da minha exclusiva propriedade, fossem novamente divulgadas, embora não ignore que muitas coisas nelas, como em obra feita às pressas, deixam a desejar, as quais poderiam ter sido observadas num tratado pleno e mais apurado. Entretanto, para que saíssem um pouco mais elaboradas, foram não pouco aumentadas em segunda mão e enriquecidas com aqueles aditamentos que podem discutir as novas exceções e objeções dos Adversários, e asserir com mais força a verdade da nossa Sentença contra as cavilações dos Sofistas. Se o alcancei, será o juízo dos Leitores. Daí, ao menos, como espero, ficará patente a vaidade dos Postulados que com tanto aparato de palavras μετὰ πολλῆς φαντασίας (com muita ostentação) foram propostos pelo Clero. Ficará patente que não foi sem gravíssimas e urgentíssimas causas que nossos Pais se retiraram da Igreja Romana, e que nós, com ela, enquanto se jacta infalível e permanece irreformável, rejeitamos todo Sincretismo. Que essas causas não foram, como eles fingem erradamente e contra a própria consciência, ou o estado depravado da Igreja, ou os costumes corruptíssimos do Clero, dos quais os próprios escritores Pontifícios se queixam gravemente, embora disso nasça contra ela um não leve preconceito: Mas erros capitais e fundamentais múltiplos, tanto na Doutrina quanto no Culto e no Governo, os quais julgamos ser nefasto ou errar ou professar, e não pudemos fazê-lo sem o perigo mais presente da nossa salvação. Ficará patente que iniquissimamente se pergunta: Por que nos retiramos deles? Quando consta que não tanto fugimos quanto fomos afugentados pelas suas terríveis perseguições e anátemas, que nos impuseram a necessidade de retirar-nos. Mas que nós, com toda a justiça, podemos perguntar-lhes por nossa vez: Por que nos separaram de si mesmos com tantas Excomunhões e proscrições duríssimas? Por que razão, afinal, se inflamaram com tanto furor contra nós, que acenderam as terríveis tochas da guerra sagrada contra nós em quase todo o mundo? Incitaram Imperadores, Reis, Príncipes, Povos contra nós, os quais grassaram com chacinas, Torturas, ferro, fogo, e todo gênero de suplício e tormento para nos destruir por extermínio, como se fôssemos os mais celerados dos mortais, ateus, ímpios, réus de heresias detestáveis, indignos de desfrutar da luz? Embora devessem estar convencidos de que nada cremos que não tenha sido transmitido por Cristo e pelos Apóstolos, e que eles próprios professam crer conosco quanto aos Artigos afirmativos; e que o nosso único crime é não querermos nos escravizar ao jugo Papal, que consideramos anticristão, e admitir heresias e cultos supersticiosos e idolátricos por eles introduzidos além e contra a Palavra de Deus. Ficará patente que o crime odioso de Cisma, que falsissimamente nos é imputado — a nós que nunca nos retiramos da fé uma vez entregue e da verdadeira Igreja de Cristo, que ouve a sua voz e guarda as suas palavras — recai verdadeiramente sobre eles, que se retiraram da fé de Cristo de mais de um modo: de sorte que, com muito melhor direito do que eles a nós, podemos perguntar-lhes: Por que desertaram da Verdade que lhes foi entregue? Por que quebraram a fé dada a Cristo para passarem para o campo do Anticristo? Por que corromperam os Sacramentos de Cristo? Por que deixaram a Igreja verdadeira, pura e Católica para se juntarem a uma falsa e idolátrica? Por que, não contentes com a Escritura, que nos foi entregue como única regra de fé e costumes, quiseram saber παρ’ ὁ γéγραπται (além do que está escrito), e obstar-nos a crer em Tradições ἀγράφους (não escritas), contra o expresso mandamento de Deus? A menos que respondam a isto, tudo o que disserem sobre a sua Infalibilidade e Antiguidade, sobre a Sucessão não interrompida, sobre a União dos Membros sob uma só Cabeça, e sobre outros fundamentos da sua Autoridade e critérios da sua Igreja que costumam alegar, será supérfluo e inútil. Pois, se é certo que eles desertaram da fé de Cristo, e que nós, ao contrário, nela sempre permanecemos, como sustentamos e estamos prontos a provar pelo exame da própria Doutrina para a qual apelamos, com que direito podem arrogar-se o nome de Esposa de Cristo e declarar-nos réus de cisma, do qual eles próprios são manifestamente culpados? Ficará patente, ademais, que a nossa Secessão está tão longe de dever ser difamada com o nome de fuga infame flagrante e precipitada, que teria induzido a divisão de Cristo, a rescisão dos Sacramentos de Cristo, a guerra ímpia contra os seus Membros e a negação das Suas Promessas; que, pelo contrário, não por outra causa nos retiramos deles senão para aderirmos a Cristo sem separação; para permanecermos na comunhão da verdadeira Igreja, para retermos os Sacramentos puros e incorruptos, para nos unirmos aos Seus genuínos Membros e para não permitirmos que as Promessas feitas apenas à verdadeira Igreja fossem atribuídas à falsa e adúltera. Ficará patente, finalmente, que toda conciliação e sincretismo, aos quais parecem querer convidar-nos tão brandamente sob a esperança de alguma Reforma, são meras palavras e fingimento, e nada mais do que, sob o pretexto de uma paz fraudulenta, não a correção, mas o encobrimento dos erros uma vez recebidos, e a redução das consciências ao jugo da Igreja Papal, que fora felizmente sacudido; esperar qualquer reforma de quem se jacta infalível não é outra coisa senão delirar suavemente e enganar-se a si mesmo espontaneamente. Longe de nós, porém, que tal coisa jamais pensemos ou façamos; longe de nós que queiramos redimir a paz com o mundo ao custo da paz com Cristo e da Sua Verdade celestial.
Mas estas coisas serão expostas mais extensamente nas Disputas, de modo que não é necessário deter-me nelas por mais tempo. Devo apenas advertir o Leitor que foi aqui adicionada uma Década de Disputas miscelâneas, as quais, pela multiplicidade e variedade de Argumentos nelas tratados, e pela gravidade das Questões que ali são agitadas, recomendam-se por si mesmas aos Ministros dos Sagrados Mistérios: assim esperamos que não lhes sejam nem ingratas nem inúteis; se isso acontecer, terei alcançado o meu voto.
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