AO LEITOR.¶
AMIGO LEITOR, se eu tivesse escrito originalmente estas Disputas para reuni-las em um volume público e transformá-las em um tratado formal, certamente teria buscado maior precisão (ἀκρίβεια). Eu teria dedicado um estudo mais cuidadoso para que a obra fosse mais exata e refinada. No entanto, quando comecei a prepará-las, não pretendia publicá-las. Meu único objetivo era instruir e treinar a juventude estudantil sob meus cuidados, seguindo o costume comum das Academias. Por isso, você não deve se surpreender se encontrar falhas nestes textos. Eu mesmo percebo muitas carências e, se uma força maior não me impedisse, eu teria evitado esta edição. Hoje, o mundo literário sofre com uma quantidade imensa de escritores. São raros os livros que agradam a todos os leitores, enquanto muitos enfrentam um destino triste. Alguns falham por não terem a novidade que atrai a maioria; outros, por causa do vício
PREFÁCIO.¶
de escrever que domina quase todos os lugares. Muitos autores lançam ao público estudos crus e mal digeridos, publicando o que deveriam suprimir ou guardar por muitos anos. Quem tem consciência de suas limitações prefere permanecer oculto. É melhor avaliar seriamente o que os ombros podem ou não carregar do que se aventurar de forma temerária e incomodar o leitor. Confesso que, por essa razão, sempre evitei escrever, como sabem aqueles que me conhecem. Além disso, muitos homens célebres e teólogos veteranos já trataram este assunto com tanta solidez que quase não sobrou nada para colher depois deles. Eu não sou tão tolo a ponto de pensar que este trabalho apressado e estes exercícios acadêmicos — que não possuem brilho nem esforço exaustivo — trariam grande utilidade para a Igreja. Entretanto, percebi que várias pessoas não reprovaram meus esforços. Como o que já foi divulgado não pertence mais apenas a mim, cedi aos pedidos de amigos e pessoas influentes. Assim, permiti, ainda que com relutância, que o impressor publicasse este primeiro fruto do meu intelecto.
Não há razão para perguntar por que escolhi este tema em vez de outro. Além de não o ter escolhido por vontade própria — pois os estudantes piedosos o propuseram para debate (συζήτησιν) —, se você avaliar o assunto, admitirá que nenhum outro tema na Teologia é mais importante. O conhecimento desta matéria é absolutamente necessário aos fiéis. Certamente, Satanás, esse inimigo implacável da nossa salvação, sempre tentou destruir essa doutrina com extrema violência. Especialmente nestes últimos tempos, heréticos pestilentos tentaram arruinar a Religião Cristã. Eles se esforçaram para derrubar seus dois fundamentos principais: a Divindade de nosso Senhor Jesus Cristo e a sua Satisfação. Seria desejável que tais monstros tivessem morrido ao nascer, e que esses frutos infelizes não encontrassem mãos que os ajudassem. Mas, como esse veneno já se espalhou amplamente e muitos leem esses escritos fatais, é justo prepararmos antídotos. Precisamos proteger os mais jovens contra essa peste e confirmar os piedosos na verdade. Com este propósito, homens doutos que Deus levantou como fortes defensores (πρόμαχοι) da Verdade Ortodoxa na Igreja dedicaram seu trabalho com grande utilidade. Seguindo os passos deles, ainda que não com a mesma grandeza, julguei que faria bem em aplicar meu esforço para defender esta Verdade contra os dardos inflamados de Satanás.
Geralmente, podemos fazer três perguntas sobre a SATISFAÇÃO DE CRISTO: i. Ela foi necessária? ii. Ela é real? iii. Ela é perfeita? Decidimos tratar estas três questões separadamente. Nas duas primeiras, lutamos contra os Socinianos; na última, contra os Pontifícios. No entanto, tratamos a primeira e a terceira questão (sobre a Necessidade e a Perfeição) de forma mais breve. Dedicamos mais espaço à segunda questão, sobre a Realidade da Satisfação, pois ela exige uma explicação mais ampla e é o ponto que os adversários atacam com maior força. Não omiti nada que estivesse ao meu alcance para confirmar a verdade e refutar o erro. Além de resolver as objeções contrárias, defendi os argumentos ortodoxos contra as distorções e cavilações dos oponentes. Também adicionei vários pontos durante a impressão para ilustrar melhor o argumento. Se realizei algo de valor, deixo o julgamento a você, leitor sincero. Para mim, basta ter provado meu empenho em defender este mistério gravíssimo da nossa Religião. Receba isto com bons olhos e apoie nossos esforços futuros. Paz.