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DISPUTATIO QUARTA. Que é a Segunda sobre A VERDADE DA SATISFAÇÃO DE CRISTO.

Respondendo JOHANNE DE TOURNES, de Genebra.

I. Até agora produzimos e defendemos três classes principais de argumentos pelas quais a verdade da Satisfação pode ser demonstrada: a saber, pelo Ofício Mediador e pelo seu duplo efeito, a Redenção e a Reconciliação; segue-se agora a Quarta, que compreende aquelas passagens que enumeram as causas das paixões e da morte de tal modo que, ou expressamente ou por consequência necessária, trazem consigo a mesma doutrina; como, porém, são muitíssimas em número e gravíssimas em peso e importância, para que a força e o vigor de cada uma possam ser examinados mais facilmente, as distribuiremos em três ordens. Na primeira, examinaremos as passagens que inferem a substituição da pessoa; na segunda, as que denotam a comutação do débito; na terceira, finalmente, as que provam clarissimamente a sub-rogação da pessoa e a compensação do débito.

II. E quanto àquela primeira, colhe-se de modo não obscuro da constante sentença da Escritura que afirma mais de uma vez que Cristo morreu ὑπὲρ ἡμῶν [por nós], como em Rom. viii. 32. Deus não poupou seu próprio filho, mas o entregou por todos nós; Rom. v. 6. 8. morreu por nós, ímpios e pecadores; e 1. Ped. iii. 18. Cristo padeceu uma vez pelos pecados, o Justo pelos injustos; Heb. ii. 9. por todos provou a morte; Mt. xx. 28. o Filho do homem veio para servir e para dar a sua alma em preço de redenção por muitos. Pois estas e outras inúmeras passagens semelhantes, ou vertem um sentido frio e incômodo, ou devem necessariamente importar sub-rogação, de modo que Cristo sofreu aquela morte crudelíssima não apenas para o nosso bem e proveito, mas também em nosso lugar e em nossa vez.

III. Pois, embora não neguemos que o uso da preposição ὑπὲρ entre os gregos e pro entre os latinos seja vário e múltiplo, e que não raro designe apenas o fruto e a utilidade da coisa ou pessoa que é conotada, como Paulo diz em Col. i. 24. que ele cumpre o que resta das aflições de Cristo pelo [pro] Corpo, isto é, para a utilidade e o bem da Igreja, ou para confirmar e edificar a Igreja pelo seu exemplo de constância e paciência; todavia, onde se trata da morte e das paixões de Cristo, deve-se avançar mais além e mais alto, e atentar para algo mais sublime: a saber, reconhecermos que Cristo padeceu não apenas para nos erguer e confirmar, ou por causa de nossa utilidade e proveito, enquanto pela sua morte confirmou a verdade da doutrina que entregara, mas também em nosso lugar, isto é, para que, sofrendo como nosso Fiador aquelas coisas que nós havíamos merecido, nos libertasse da morte eterna e, uma vez libertos, nos conduzisse à posse da vida eterna, e assim satisfizesse cumuladissimamente à Justiça Divina.

IV. Que este é o sentido dessa frase, muitos argumentos demonstram. 1. A significação ordinária e frequentíssima destas palavras: pois é aceito em todas as línguas que, quando alguém fez ou sofreu algo na vez ou no lugar de outro, diz-se que padeceu ou fez aquilo por [pro] ele; os escritores profanos gregos e latinos falam assim a cada passo; assim Eurípides em Alceste diz frequentemente θνήσκω ὑπὲρ σέθεν morro por ti, μή θνήχ’ ὑπὲρ δ’ ἀνδρὸς ὅδ’ ἐγὼ πρὸ σέ não morras por este homem, isto é, por mim δεικτικῶς [demonstrativamente], nem eu por ti, o que não deve ser entendido senão substitutivamente, como ensina o argumento da tragédia, da esposa que morre no lugar do marido que estava para morrer; assim Demóstenes na Coroa: ἐρώτησον τούτους μᾶλλον οἷ’ ἐγὼ τοῦθ’ ὑπὲρ σοῦ ποιήσω pergunta antes a estes, ou antes eu farei isso em teu lugar: assim em Terêncio pro illo te ducam [tomar-te-ei por ele], Ego pro te molam [eu moerei por ti]; em Virgílio unum pro multis dabitur caput [uma só cabeça será dada por muitas]; em Cícero unus Cato est mihi pro centum millibus [um só Catão vale para mim por cem mil]. Entre os autores sagrados nada é mais frequente; Davi chorando a morte de seu filho Absalão, 2. Samuel xviii. 23 [33]: Absalão, meu filho, quem me dera morrer por ti: isto é, oxalá eu tivesse morrido por ti e em teu lugar; Gên. xlvii. 16. 17. José disse: dai o vosso gado e eu vos darei mantimento pelo [pro] vosso gado. Êxod. iv. 16. Ele mesmo falará por ti ao povo, para que ele te seja em vez de boca, e tu lhe sejas em vez de Deus. Num. viii. 16. Diz-se que Deus tomou para si os levitas em lugar [pro] de todo aquele que abre a madre, etc. Assim no N.T., Rom. ix. 3. Paulo deseja tornar-se ἀνάθεμα ὑπὲρ τῶν ἀδελφῶν [anátema pelos irmãos], não apenas em favor deles, mas em sua vez e lugar, como quem quisesse redimir com sua própria perdição a salvação de seus irmãos judeus, se de fato isso pudesse ser feito e assim aprouvesse a Deus; pois estes votos são condicionados, não absolutos, ainda que a condição nem sempre seja expressa, e não inferem imediatamente a possibilidade do fato, mas apenas expressam o zelo e o ardor dos que pedem; assim em 2. Cor. v. 20. diz-se que os Apóstolos exercem a embaixada ὑπὲρ χριστῶ [por Cristo], isto é, não apenas em nome e autoridade de Cristo, mas em sua vez e lugar, como se Deus exortasse por meio de nós, diz ele. Finalmente, para não amontoar mais exemplos, Rom. v. 7. dificilmente alguém morreria por um justo, etc., não meramente em favor do justo, mas em seu lugar, como bem traduz o Sírio pela palavra חלף, que denota comutação. Destas e de não poucas outras passagens deste tipo, colhemos que é solene e trivial em todas as línguas este uso destas preposições, do qual devemos ter escrúpulo em nos afastar quando nada nos obriga, imenso antes, muitas coisas nos conduzem a ele evidentissimamente.

V. Pois também isto 2. prova-se certissimamente pela preposição ἀντὶ, que também é empregada neste argumento em Mt. xx. 28., onde se diz que Cristo veio para dar a sua alma como λύτρον ἀντὶ πολλῶν [resgate por muitos], e em Mc. ix. 25 [x. 45].; pois esta, comunissimamente e com a máxima propriedade, designa substituição e comutação, como já provamos na Disp. preced. Th. xxvi., e pode ser demonstrado mais lucidamente pelas passagens seguintes: assim em 1. Cor. xi. 15. diz-se que o cabelo foi dado à mulher ἀντὶ περιβολαίω [em lugar de véu], isto é, em lugar de cobertura; Lc. xi. 11. μὴ ἀντὶ ἰχθύος ὄφιν ἐπιδώσει αὐτῷ [porventura em lugar de peixe lhe dará uma serpente?]. Assim em Rom. xii. 17., Mt. v. 38., etc., e principalmente quando se trata de pessoas, aquela partícula significa que uma sucedeu no lugar de outra, como em Mt. ii. 22. diz-se que Arquelau reinou ἀντὶ Ἡρώδου τοῦ πατρὸς αὐτοῦ em lugar de Herodes, seu pai; e em Mt. xvi. 27 [xvii. 27]. ordena-se a Pedro que dê o estáter por si e por Cristo, ἀντὶ ἐμοῦ καὶ σοῦ; nem de outro modo entre os escritores profanos se diz εἷς ἀντὶ πολλῶν [um por muitos], significando um em lugar de muitos, o que é tão claro que não pode ser eludido por nenhum sofisma. Pois os subterfúgios que os Adversários aqui buscam para diminuir o peso desta palavra são sumamente leves e frágeis; Crellius contra Grotius sustenta que as partículas ἀντὶ por ὑπὲρ e ἕνεκα são postas frequentemente de modo simples, segundo a opinião dos mais doutos, como em Lc. i. 20. e xix. 44., Mt. xix. 5. e Efés. v. 31. Mas, embora concedêssemos que às vezes ocorre nesse sentido quando aplicada a coisas, afirmamos por direito que, quando se refere a pessoas, não pode ser entendida senão substitutivamente. Ele acrescenta 2. que nos enganamos ao pensar que se trata de uma comutação entre Cristo e Nós nas passagens controversas, como se o sentido fosse que, quando nós íamos dar as nossas almas, Cristo deu a sua alma em nosso lugar; pois a comutação seria notada, sim, mas entre a coisa e as pessoas, entre o λύτρον [resgate], que é a alma ou vida de Cristo, e nós como cativos; pois quem diria que o sangue de Cristo foi sub-rogado por nós ou sucedeu em nosso lugar? Mas ele mesmo se engana torpemente enquanto pretende que outros se enganem, pois essas não são nossas palavras, mas da própria Escritura, que estabelece aquela comutação entre Cristo e nós quando diz expressamente que Cristo deu a si mesmo por muitos, Mt. xix. 28 [xx. 28] ou por nós, Tito ii. 14., e que o justo padeceu pelos injustos, 1. Ped. iii. 18. Portanto, deve-se atentar aqui para uma dupla comutação, uma de coisa e outra de pessoa: naquela, Cristo assumiu o nosso lugar; nesta, a morte a nós devida é compensada pela morte imposta a Cristo, nosso fiador; e esta última será demonstrada no que segue, mas a primeira é claramente mostrada por aquela frase em que se diz que Cristo morreu ou ἀντὶ ou ὑπὲρ ἡμῶν [por nós]. Além disso, como o próprio λύτρον [resgate] que o Adversário confessa ter sido comutado entre nós não foi outra coisa senão a própria pessoa de nosso Fiador — pois diz-se que ele se entregou a si mesmo —, em vão se distingue a comutação entre a coisa e as pessoas. 3. Se é notada aquela comutação que existe entre o preço e a pessoa remida pelo preço, infere-se a verdadeira satisfação; pois nada mais é satisfazer por nós do que pagar o preço devido por outro, de modo que o devedor seja por isso libertado; e isto as palavras de Paulo insinuam claramente em 2. Cor. v. 14. se um morreu por todos, logo todos morreram, designando não obscuramente que Cristo foi de tal modo substituído no lugar de todos os eleitos que a morte que por eles sustentou lhes é de tal modo imputada que são tidos na mesma conta como se eles mesmos tivessem morrido e, morrendo, tivessem satisfeito pelos seus pecados. Uma vez posto isto — a saber, que Cristo sucedeu em nosso lugar e levou as penas a nós devidas —, colhe-se facilmente a verdade da satisfação; pois, se constituído em nosso lugar, ele padeceu isso mesmo que devíamos, a saber, a morte, para nos libertar dela, certamente é necessário que ele tenha satisfeito verdadeiramente; pois dar aquilo mesmo que outro devia, para que por isso mesmo ele seja liberto do débito e, dado aquilo, libertá-lo pelo próprio fato, é pagar ou satisfazer.

VI. 3. Que esta frase na matéria sujeita não deve ser entendida de outro modo prova-se também clarissimamente pelo fato de ser proposta como própria e peculiar a Cristo, a qual de tal modo lhe compete que de modo algum poderia ser atribuída a outro sem a máxima injúria a Cristo; pois diz-se que aquele único morreu por todos, 2. Cor. v. 14., e isto é posto como o testemunho certíssimo do sumo amor, ao qual nenhum outro pode ser equiparado, quanto menos preferido, Jo. xv. 13.; por isso Paulo em 1. Cor. i. 13. afasta isto para longe de si como próprio apenas de Cristo e incomunicável a todos os outros: Acaso Paulo foi crucificado por vós? Ora, se esta frase apenas designasse proveito, e a morte de Cristo diferisse apenas em grau de utilidade da morte dos Apóstolos, e não fosse segregada por um fim próprio, seriam falsos estes ditos da Escritura, visto que é certo que tanto Paulo como muitos mártires morreram até certo ponto pelos fiéis, isto é, para sua utilidade e favor. Pois as distinções que o Adversário aqui esquadrinha (lib. de Serv. li. 2. c. 8.) para retirar essa atribuição dos fiéis e transferi-la apenas a Cristo, ou não têm valor algum, ou apertam o argumento com mais força: ele sustenta, de fato, que esta frase é retamente atribuída a Cristo e não aos outros porque Cristo morreu por todos primeiro que todos, de modo que qualquer benefício que redunde para nós da morte ou das aflições dos outros deve ser atribuído inteiramente a Cristo. Mas, digo eu, se a diferença é apenas de ordem ou de grau, não se negaria imediatamente a coisa em si; certamente não poderiam os fiéis ou os Apóstolos ser chamados os primeiros a serem crucificados e mortos por nós; mas poderiam, todavia, ser chamados crucificados por nós, se o fim da morte de Cristo não diferisse quanto à espécie, mas apenas quanto ao grau; mas Paulo não nega apenas a prioridade de ordem ou grau, mas remove a coisa em si como alheia, e própria apenas do Redentor e Senhor em cujo nome somos batizados. Acaso Paulo foi crucificado por vós? ou fostes batizados em nome de Paulo? concluindo, a saber, que não se pode dizer que outro foi crucificado por nós senão o Senhor Jesus, em cujo nome, por causa do direito que adquiriu sobre nós, dizemos retamente que somos batizados. Quanto ao que ele acrescenta em segundo lugar — que isso se predica propriamente de Cristo porque propriamente e verdadeiramente parece morrer por alguém aquele que por sua morte o conserva na vida e o arrebata da morte, o que Cristo fez por sua morte, e ninguém além dele fez ou pode fazer — ou não faz nada ao caso ou confirma lucidamente a nossa sentença: pois como Cristo não poderia nos arrebatar da morte ou nos conduzir à vida eterna senão sofrendo as penas a nós devidas e dando o λύτρον [resgate] por nós, certamente, se pela morte nos arrebatou da morte e nos conduziu à vida, deve-se dizer que satisfez por nós; e nenhuma utilidade, qualquer que ela seja, sem sub-rogação, poderá tornar esta frase peculiar a Cristo.

VII. Finalmente, as próprias circunstâncias das passagens aduzem evidentissimamente esta força satisfatória da morte de Cristo por nós. Pois não se diz apenas que Cristo morreu por nós, mas que foi dado para nos remir, Tito ii. 14., para nos justificar e reconciliar com Deus, Rom. v. 10., para nos purificar de todos os pecados e nos consagrar a Deus para sempre, Heb. ix. 14. e x. 10. 14., como vítima que assume o lugar do próprio pecador e sustenta a morte a ele devida, Efés. v. 2., etc.; as quais coisas certamente seriam ditas erroneamente se não se inferisse a substituição e, da substituição, a compensação da pena; donde já podemos colher o argumento: Aquele que padeceu a morte da cruz não apenas para o nosso bem e proveito, mas também em nossa vez e lugar, é Salvador não apenas pelo exemplo, mas também pelo mérito; pois assumir a vez dos pecadores para que eles mesmos sejam salvos não é apenas dar o exemplo, mas também exibir o mérito. Mas Cristo prestou isso mesmo por nós. Logo.

VIII. Objeta-se aqui 1. que a Satisfação não pode ser inferida de tais passagens porque também os fiéis são ordenados a dar a vida pelos irmãos, 1. Jo. iii. 16., e Paulo escreve sobre si mesmo em Col. i. 24. que ele cumpre o que resta das paixões de Cristo ὑπὲρ τῶ σώματος [pelo corpo] dele, que é a Igreja. Mas é certo, porém, que nem os fiéis pelos irmãos, nem Paulo pela Igreja, satisfizeram ou podem satisfazer a alguém. 2. Se Cristo tivesse morrido e padecido em nosso lugar, não poderíamos ser sujeitos ao mesmo gênero de morte e paixões, nem ser incitados a derramar nossa alma não menos que ele, visto que, padecendo em nosso lugar, supõe-se que nos isentou dessa necessidade; mas Cristo mesmo nos exorta a isso mais de uma vez em Mt. x. e Lc. ix. 23. se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo e tome a sua cruz, etc.; e os Apóstolos propõem frequentemente este exemplo para imitação, Heb. ii. 9. 10. e 1. Ped. ii. 20 [21]. Nisto padeceu Cristo, deixando-nos o exemplo para que sigamos os seus passos. 3. A força dessa locução deve ser colhida de outra semelhante quando se diz que Cristo morreu e foi entregue pelos nossos pecados; assim como aquela frase não infere que Cristo morreu em lugar de nossos pecados, mas apenas por causa de nossos pecados ou por causa de nossos pecados, como se diz em outro lugar, assim também não se deverá dizer que ele foi substituído em nosso lugar, embora tenha morrido por nós, mas apenas em nossa graça e por causa de nós, como diz o Apóstolo em 1. Cor. viii. 11.

IX. Mas os heréticos pecam aqui, segundo seu costume, pela falácia ἀπὸ τὸ ἑπόμενον [do consequente], como se a mesma frase devesse ser sempre usada com o mesmo sentido, quando no entanto nada é mais frequente do que a mesma palavra obter significações diversíssimas segundo a matéria sujeita e as circunstâncias das passagens; embora provassem, portanto, que esta preposição de que tratamos ocorre em outro sentido em outro lugar e nem sempre nota substituição, mas ou apenas a ocasião ou o proveito — o que lhes concedemos facilmente —, todavia estarão em vão, a menos que provem que nas passagens citadas e neste argumento ela deve ser usada assim, o que nunca conseguirão nem pelas razões nem pelos exemplos alegados. Pois, para respondermos ao primeiro, como a Escritura diz com sentido muito díspar que nós devemos morrer pelos irmãos e que Cristo morreu por nós, eles argumentam erroneamente de um para o outro, como se Cristo não tivesse morto por nós com outro fim senão aquele pelo qual somos obrigados a sofrer o perigo da morte pelos outros, se necessário for, isto é, se a glória de Deus e a salvação do próximo o exigirem; pois devemos morrer pelos outros na medida em que podemos ser úteis à sua salvação; mas não podemos ser úteis a ponto de pagarmos um ἀντίλυτρον [preço de resgate] por eles ou de os libertarmos da morte eterna, Salm. xlix. 8 [7]., coisas que Cristo pôde prestar e de fato prestou, 1. Tim. ii. 6., Heb. ii. 14.; nossos irmãos não podem ser reconciliados com Deus pelo nosso sangue, mas pelo sangue de Cristo somos reconciliados com Deus, Rom. v. 10.; finalmente, ninguém pode por sua morte consagrar o próximo a Deus e purificá-lo dos pecados, o que, no entanto, Cristo cumpriu por nós ao morrer, Heb. ix. 14., 1. Jo. i. 7. Portanto, João compara a morte de Cristo por nós e a nossa morte pelos irmãos κατὰ τὶ [em certo aspecto], não ἁπλῶς [absolutamente]; segundo um certo fim, não segundo todos; segundo o exemplo da caridade, mas não segundo o mérito da satisfação. Certamente, o que deve ser retido corretamente é que Cristo, pelos vários ofícios que sustenta por nós, assume também várias σχέσεις [relações], e para essas várias relações, vários podem ser os fins de sua morte, os quais, embora diversos, não são contrários entre si, mas subordinados; assim, ele devia executar três coisas para o complemento de nossa salvação. 1. A justificação diante de Deus, tirando a culpa dos pecados. 2. A santificação em nós, limpando a mancha e a mácula dos mesmos. 3. A glorificação total, conduzindo-nos, justificados e santificados, pelo caminho das boas obras, à vida e à felicidade. Assim, ele assumiu uma tripla σχέσιν [relação]: a Primeira, de Fiador e Garante que satisfaria, Heb. vii. 22.; a Segunda, de Guia e Cabeça que influiria, Efés. i. 22. 23.; a Terceira, de Mestre e irmão primogênito que dirigiria e precederia, Jo. xv. 12. e Rom. viii. 29. Aquela como Sacerdote devia cumprir pelo mérito; esta como Rei, pela eficácia; esta última, finalmente, como Profeta, pela doutrina e pelo exemplo. Conforme essas três razões, também a morte de Cristo pôde obter um triplo fim. 1. A satisfação da Justiça divina para a expiação dos pecados já admitidos, sobre o que há as passagens Heb. ix. 15., Mt. xx. 28., xxvi. 28., Efés. i. 7. 2. A impetração do Espírito Santo para a purificação da mancha inerente e o afastamento dos pecados futuros, sobre o que se faz menção em Heb. ix. 14., 1. Ped. ii. 24. 3. A demonstração perfeitíssima da caridade, paciência, humildade, obediência e das demais virtudes para promover a santificação, para a qual olham as passagens Filip. ii. 5. 6. 7., 1. Ped. ii. 21., Jo. xv. 12., Efés. v. 2., 1. Jo. iii. 16. De onde a morte de Cristo, conforme esses vários fins, pode ser vista de diversos modos: ou como satisfatória e objeto da fé, ou como eficaz e sustentáculo da esperança, ou como ideal e exemplo de imitação; em razão daquela Justificação, ela é causa e fundamento, 2. Cor. v. 14., Gál. iii. 13. 14.; em razão desta Santificação, é raiz e princípio, Rom. vi. 4. 5., 1. Ped. iv. 12 [1].; em razão desta Vida Cristã, é norma e incentivo, 2. Cor. iv. 10., Filip. ii. 5. Quanto ao primeiro e ao segundo, ela é de tal modo própria apenas de Cristo que é meritoriamente dita incomunicável a todos os outros, 1. Cor. i. 13.; deve ser adorada, não imitada; pois qual dos mortais, à semelhança de Cristo, poderia ou tirar a culpa do pecado, ou merecer e conferir o Espírito? Mas quanto ao 3º, nos é proposta como exemplar, visto que fomos predestinados para sermos conformes à sua imagem, Rom. viii. 29., primeiro na cruz do que na glória, na santidade do que na felicidade, na morte do que na vida. Por isso, pelas várias virtudes que brilharam na morte de Cristo, somos incitados ora a esta, ora àquela, ora universalmente a todas. 1. Ped. ii. 21. é proposta como exemplo de paciência e tolerância, porque ali, como se vê pela série, tratava-se das paixões dos fiéis. Paulo em Rom. vi. toma dela o argumento para recomendar o estudo de toda a santificação, porque estava prestes a descrever este outro benefício fluindo da Justificação; mas porque João, o discípulo amado de Cristo, ocupa-se inteiramente em promover a caridade, não pôde tomar de outra parte um exemplo mais forte e eficaz do que da sua morte por nós. Nisto, diz ele, conhecemos a caridade de Deus, em que ele deu a sua alma por nós; nós, portanto, devemos dar as almas pelos irmãos, para significar, decerto, que a caridade cristã deve ser estendida até esse ponto pelo exemplo de Cristo, não apenas para que consista em palavras ou profissão de amizade, mas para que cada um se esqueça também de si para consultar os irmãos.

X. De resto, o fato de os Apóstolos tomarem daqui o argumento de suas exortações — que Cristo morreu por nós — não o fazem para mostrar que devemos padecer pelos irmãos do mesmo modo e fim exatos pelos quais Cristo padeceu por nós, pois argumentam por semelhança ou exemplo: ora, para um exemplo basta que haja uma certa semelhança geral, embora interceda uma diferença larga e vasta no modo especial; assim, a perfeição de Deus nos é proposta como exemplo em Mt. v. 46 [48]: Sede perfeitos como o vosso Pai que está nos céus é perfeito; embora seja certíssimo que a perfeição divina discrepa longuissimamente da humana na razão especial; assim João, querendo exortar à caridade, porque não pôde dar exemplo mais forte e ilustre, deu o exemplo de Cristo, mas não para ser imitado imediatamente em todas as coisas, mesmo naquelas que são ἀκοινώνητα [incomunicáveis] e próprias dele, a saber, a expiação dos pecados e a satisfação da Justiça divina (pois isto o Apóstolo não olha agora), mas em outras comuns, a saber, a demonstração de caridade e benevolência, que foi o escopo próprio e genuíno de João: confessemos, portanto, que a morte e as paixões de Cristo podem convir com as nossas no geral, para que as enfrentemos não de outro modo senão como Cristo, por caridade e afeto benévolo para com os irmãos, para que as suportemos igualmente com paciência e sem murmuração; mas a diferença sempre longamente máxima ocorre no especial, quer consideres a causa eficiente, pois ele foi ferido por Deus como Juiz, nós somos castigados por Deus como Pai; quer a natureza e o grau das paixões, pois ele bebeu o cálice da indignação divina até às fezes, nós apenas provamos com os lábios e, de fato, já retirada a amargura da maldição; quer o fim, ele para a satisfação, nós para o remédio, ele para a redenção dos servos, nós para a edificação dos irmãos; de onde patetia que nenhuma destas passagens de Pedro ou de João enfraquece a força daquela frase da qual extraímos a satisfação.

XI. Mas nem a infringe melhor a outra passagem de Paulo em Coloss. i. 24., onde professa que ele supre o que resta das paixões de Cristo pelo seu corpo. 1. Supomos com os Adversários contra os Pontifícios que nenhuma satisfação foi prestada por Paulo, o que demonstraremos em seu devido lugar, e que as paixões de Cristo não devem ser entendidas propriamente como aquelas que ele teve de suportar em seu corpo natural, mas como aquelas que ele padece em seu corpo místico, a saber, a Igreja; como Paulo em 2. Cor. i. 7 [5] chama χριστῷ παθήματα [sofrimentos de Cristo] as aflições com que exercita os seus fiéis à sua semelhança, e em Hebr. xi. 26. não duvidou em chamar a sorte abjeta do povo israelita, que Moisés preferiu ao esplendor e opulência da corte egípcia, de χριστοῦ ὀνειδισμόν [vitupério de Cristo]. 2. Confessamos que se diz que Paulo padeceu pela Igreja, não para a remir, mas para a edificar e confirmar; não satisfazendo diante de Deus, mas selando a verdade diante dos homens; não se substituindo no lugar e vez da Igreja (pois assim se diz que um morreu por todos, 2. Cor. v. 14.), mas atendendo ao seu proveito e bem, o que o próprio Paulo explica em 2. Cor. i. 6. se somos atribulados, isso é ὑπὲρ τῆς ὑμῶν παρακλήσεως, para vossa consolação: pois como a Igreja foi a ocasião de suas prisões, porque, enquanto se esforçava para lhe ministrar pelo ofício imposto por Cristo, fora lançado no cárcere e levado a Roma não sem grandes e horrendos perigos, assim também grande utilidade daí redundava para ela; pois não se deve duvidar que aquelas prisões e paixões que ele sustentava tão constantemente confirmaram maravilhosamente os piedosos, como ele mesmo professa em Filip. i. 12. 13. Mas de Paulo para Cristo não vale a consequência, pois Paulo padece pela Igreja de modo muito diferente do que Cristo padece por nós; diz-se que Cristo morreu por nós não apenas para nos edificar ou confirmar, mas para nos remir e reconciliar, o que Paulo remove para longe de si; Cristo morreu por nós para que, vencidos Satanás e a morte, nos libertasse do império da morte, mas Paulo nada disso jamais pensou ou realizou.

XII. Quanto ao segundo, deve-se distinguir os vários fins e razões formais pelos quais os fiéis ainda padecem e morrem: Certamente, se Cristo suportou aqueles males por nós, não devemos ser agravados pelos mesmos por Justiça, a saber, do mesmo modo e fim sob a razão de pena e λύτρον [resgate] para satisfazer à Justiça divina, pois isto Cristo prestou tão plenissimamente que quem lhe juntasse outro sócio ou vigário seria réu de horrível blasfêmia; mas nada obsta que os fiéis sejam exercitados pelos mesmos males, mas para outros fins: não para a pena, mas para o remédio; não para o suplício, mas para o experimento da piedade; não para a perdição e ruína, mas para o instrumento da imortalidade; assim, as causas, fins, usos e circunstâncias variam uma coisa materialmente única: a Cruz para o facínora é suplício do crime; para o Mártir a mesma não é pena, mas combate; não é suplício, mas matéria de vitória; a morte para os ímpios é pena do pecado, para os piedosos a quem os pecados foram perdoados não é pena — Cristo tirou dela este aguilhão —, mas transição para a vida; assim, porque Cristo cumpriu a lei por nós e, cumprindo-a, adquiriu o direito da vida, somos desobrigados da necessidade de cumprir a lei quanto ao mérito, pois não somos mais obrigados a operar bem para conseguir a justificação; mas somos sempre obrigados à obediência da Lei para promover a santificação e testemunhar nossa gratidão: não de outro modo se deve filosofar sobre a morte e as paixões de Cristo; porque Cristo morreu e padeceu por nós, não somos mais sujeitos à morte maldita como ele a levou, pois não há mais nenhuma condenação para os que estão em Cristo, Rom. viii. 1., nem a Justiça nos impõe quaisquer paixões penais; mas a Sabedoria infunde muitas castigatórias ou probatórias, para que assim os membros sejam conformados à Cabeça, na cruz antes que na glória; como aquele Príncipe da salvação, consagrado por várias aflições, chegou ao sumo fastígio da glória e entrou na vida pela morte, assim esta é a ordem admirável da Sabedoria divina, que entremos no reino dos céus por muitas tribulações, nem ninguém possa reportar ἀμίαντον [imaculada] a coroa da felicidade ἀναιμακτί [sem sangue], sem suor e sangue; por este caminho Cristo precedeu como primeiro, por este convém que todos o sigamos, a menos que queiramos ser tidos como filhos degenerados de tão grande pai; por isso tantas vezes o Espírito Santo exorta os fiéis a levarem a cruz corajosamente após Cristo e conforme o seu exemplo.

XIII. Quanto ao que se objeta em terceiro lugar de uma frase semelhante, quando se diz que Cristo morreu pelos nossos pecados [pro peccatis nostris], ou por causa de nossos pecados como em Rom. iv. 25., Gál. i. 4., o que, no entanto, não pode ser arrastado para a substituição em lugar dos pecados, isso não pertence a este assunto; pois como tais predicados são tais quais lhes é permitido ser pelos seus sujeitos, assim como seria ridículo dizer que alguém morreu no lugar dos pecados; a própria coisa ou o sujeito de modo algum permite que Cristo seja dito morto na vez dos pecados ou para os libertar, mas morreu por eles, a saber, para os expiar e tirar: pois ele é o Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo, Jo. i. 29., e apareceu primeiro para tirar os nossos pecados, Heb. ix. 28., isto é, para os levar e retirar; mas morreu para nos remir e salvar. Portanto, peca-se pela falácia da figura de dicção, como se a mesma partícula obtivesse em toda parte a mesma força, quando a diversidade do sujeito exige um sentido diverso, e é patente por si mesmo que se diz de um modo que alguém morre por uma coisa [pro re], e de outro modo por uma pessoa [pro persona], o que ficará ainda mais claro pelo que segue.

XIV. Pois, embora esta preposição junta a pecados não infira substituição, todavia, adicionada a outras coisas, tem um peso não pequeno para comprovar a verdade da satisfação: Visto que ela é usada vulgarmente de dois modos, ou para a causa eficiente impulsiva, Rom. xv. 9., para que os Gentios glorifiquem a Deus ὑπὲρ ἐλέους pela sua misericórdia, e Filip. ii. 13. Deus opera o querer e o realizar ὑπὲρ τῆς εὐδοκίας pelo seu beneplácito; ou para a final, como em Jo. vi. 51. Minha carne é a que darei ὑπὲρ τῆς τοῦ κόσμου ζωῆς pela vida do mundo, pois aqui este é o fim desta doação, sem controvérsia; uma ou outra significação deve ter lugar aqui necessariamente; alguns seguem a posterior, de modo que "pelos pecados" seja o mesmo que "para a expiação dos pecados", mas porque não parece convir suficientemente com a frase da Escritura; pois nem os nossos pecados e a expiação deles são a mesma coisa, mas inteiramente diversos, como o sujeito e o seu acidente, nem esta significação tomada separadamente poderá ser demonstrada por qualquer uso da Escritura; por isso é mais cômodo o outro sentido, para que seja significada a Causa eficiente impulsiva e meritória da morte de Cristo; pois quando se trata de pena, os pecados não são causa da pena senão pelo modo do mérito; assim entre os latinos Cícero disse "vingar-se pelos [pro] agravos", "temer suplícios pelos [pro] crimes". Plauto, "castigar pela [pro] culpa cometida". Terêncio, "vingar-se pelas [pro] palavras e fatos". Também é trivial a frase da Escritura para que o sacrifício seja dito "pelo pecado", isto é, por causa do pecado perpetrado, como isso ocorre saepissimamente em Moisés e especialmente em Levít. vi.; assim, morrer e padecer pelo pecado ou por causa dos pecados, segundo o estilo do Espírito Santo, é sofrer e pagar a pena e τιμωρίαν [castigo] do pecado, Levít. xxvi. 18. 28., Deut. xxiv. 16., 2. Reis xxiii. 26 [xiv. 6]. E a própria coisa o prova; pois nossos pecados, enquanto mereciam a morte pelo rigor da Justiça divina, moveram Cristo a oferecer-se por nós e a receber em si a pena devida aos nossos pecados; nem poderá ser mostrado em lugar algum que estas palavras ob peccata [por causa dos pecados], ou propter peccata [por causa dos pecados], pro peccatis [pelos pecados], especialmente onde são juntas à morte e às paixões, sejam tomadas na Escritura de outro modo senão neste significado de mérito. Pois, ainda que déssemos que o primeiro significado é olhado, não poderia ser entendido, todavia, separadamente sem esta posterior σχέσει [relação], visto que ele nunca teria morrido finalmente para a expiação e abolição dos pecados se os pecados não tivessem sido a causa impulsiva e meritória de tais paixões. De resto, embora os nossos pecados, mediando a culpa, mereçam a morte, a causa impulsiva da morte de Cristo é estabelecida não absoluta e por si mesma ou por sua força em relação a Cristo — pois nada o pecado pôde contra ele, que foi santíssimo —, mas por acidente da graça de Deus concorrente, e da misericórdia de Cristo para conosco, pela qual ele se exibiu como Fiador pela pena devida ao pecado como Garante e Mediador do N.T., Heb. vii. 22. e ix. 15. E daqui colhe-se não obscuramente o que pretendemos. Pois se se diz que padeceu por causa dos pecados, isto é, pelo demérito e culpa deles, e essa culpa ou demérito não o pôde obrigar à morte senão na medida em que lhe foi imputada como Fiador pela ordem de Deus, certamente Cristo não pôde ter padecido neste sentido pelos nossos pecados sem que, morrendo por nós, tenha sustentado as nossas vezes e tenha enfrentado esta sua paixão, que foi a pena a nós devida, em nosso lugar.

XV. Todavia, os Adversários não querem reconhecê-la aqui, e voltam-se para todas as formas para que, por qualquer razão que seja, diminuam o peso deste argumento: Por isso 1. instam aqui a causa final, como se não se dissesse que Cristo padeceu e foi entregue pelos pecados em outro sentido senão para nos abstrair deles, incitando-nos por este fato ao ódio do crime e ao ardentíssimo estudo da virtude, o que parece ser provado por aquelas passagens em que o estudo da piedade e da nova vida é proposto como o fim e fruto principal da morte de Cristo, como quando se diz que foi entregue pelos pecados para nos arrebatar do presente século mau, Gál. i. 4.; que nos remiu de toda iniquidade e purificou para sermos povo de sua propriedade, Tito ii. 14.; morto por nós para que não vivamos mais para nós mesmos, etc., 2. Cor. v. 14 [15]; padeceu pelos pecados, o justo pelos injustos, para nos levar a Deus, 1. Ped. iii. 18. e ii. 24.; levou os pecados em seu corpo sobre o madeiro para que, mortos para o pecado, vivamos para a Justiça; assim Heb. ix. 15., etc. 2. Finalmente, pode-se dizer que morreu por eles porque morre para nos dar certeza da sua condenação e para conseguir para si o mais amplo poder de nos conceder o mesmo. 3. Embora a causa antecedente devesse ser aqui entendida, a ocasião apenas seria conotada, mas a qual não importa satisfação nem pena propriamente dita; não satisfação, como se vê até por esta passagem de 1. Reis xiv. 16., onde se diz que Jeová entregaria Jeroboão, que pecou e fez Israel pecar. Pois Israel não é castigado para satisfazer pelos pecados de Jeroboão, mas apenas por ocasião e causa de seus pecados. Se alguém replicar que, pelo menos, Israel pode ser dito punido por causa dos pecados de Jeroboão, responde-se imediatamente que isto não pode ser extraído pela força da frase, mas pela matéria sujeita; pois frequentemente tais castigos são infligidos por causa dos pecados, os quais não envolvem satisfação nem pena, como Davi foi punido por Deus não levemente por causa do adultério e homicídio, e todavia não satisfez por eles; assim no Salm. xxxix. 11 [12]. Com repreensões castigas o homem por causa da iniquidade, ele não quer dizer com isto que o homem é punido por Deus para satisfazer à Justiça Divina pela sua iniquidade, mas apenas que ele é afligido por Deus pela causa e ocasião da iniquidade para que aprenda a afastar-se da iniquidade; assim Socino, lib. 2. c. 7. Volkelius, lib. 3. cap. 28.

XVI. Mas quem não veria que são meros subterfúgios com os quais erram sempre na mesma corda, como se fosse necessário que alguma frase fosse usada em toda parte no mesmo sentido, o que poderia ser refutado por inúmeros exemplos; nem de fato a causa final no sentido que pretendem pode ser instada sem gravíssimo absurdo: 1. porque não deveria ser dito que padeceu pelos pecados, mas por aquilo que maximamente se opõe ao pecado, a saber, a sua destruição ou remissão; pois quem diria jamais que um fármaco é tomado por causa da doença, isto é, que a doença é o fim ou do medicamento ou do médico, embora aquele seja misturado em graça de restituir a saúde e expelir a doença? O médico não se diz agir por causa da doença na ordem da causa final, mas, ao contrário, por causa da expulsão da doença e da saúde, se for olhado o fim οὗ [da qual], e por causa do doente, se for atendido o fim [para o qual]. 2. Todo fim tem a razão de bem, e sob essa razão é desejável; mas os pecados não podem assumir tal σχέσιν [relação] quando se diz que Cristo morreu por eles. 3. O fim ainda não existe em ato quando o eficiente opera por causa dele, mas os pecados já existiam ou eram considerados como existentes na razão de causa, pois ele não morreu para que os pecados existissem ou ocorressem, mas porque existiam, para que sejam destruídos. 4. Não negamos que o estudo da nova vida e da Santificação seja o fruto consequente da morte de Cristo, pois, tendo vindo para destruir as obras do diabo, não as poderia tirar plenamente se não tirasse também, com a culpa, a mancha e a mácula; por isso não se diz que veio apenas com sangue, mas também com água, 1. Jo. v. 6., com o sangue da expiação e com a água da ablução, de modo que em sua morte tenhamos tanto λύτρον [preço de resgate] quanto λουτρόν [lavagem]; ele se tornou Justiça e Santificação, e para isso olham todas aquelas passagens que deduzem o estudo da piedade da morte de Cristo: mas não se segue que, embora a morte de Cristo se estenda também para precaver os pecados que poderiam ser cometidos, logo, ela não foi a Satisfação e expiação propriamente dita dos pecados cometidos. Pois de um modo ela olha para os pecados cometidos, para nos impetrar a remissão deles, e de outro modo para aqueles que são futuros e podem ser cometidos, para nos abstrair deles: a remissão daqueles é devida à morte de Cristo como Sacrifício propiciatório no qual pagou as penas a eles devidas; a precaução e remoção destes é devida à mesma morte como sacrifício meritório pelo qual nos obteve a graça da santificação e o dom do Espírito; para os primeiros a morte de Cristo é remédio terapêutico, para os segundos apenas profilático, os quais dois usos são notados em Tito ii. 14. remiu da iniquidade admitida e purifica para que futuramente sejamos povo de sua propriedade; Rom. v. 10. reconcilia pelo sangue e salva pela vida, de modo que, onde quer que se note o fim secundário conforme as circunstâncias da passagem, não se exclui, mas supõe-se o primário, do qual o outro necessariamente depende, visto que nenhum dom pôde obter de Deus a menos que posta primeiro a satisfação.

XVII. Se não se pode dizer que morreu pelos pecados para nos abstrair deles, muito menos para nos tornar certos da remissão deles; porque uma coisa é morrer pelos pecados, outra é para demonstrar a certeza da remissão dos pecados; nem nunca foi dito que algo se faz finalmente por causa de algum mal que seja para gerar certeza em nossas mentes sobre a cessação e abolição daquele mal: a confiança nisso obtém-se, sim, da morte de Cristo, mas apenas na medida em que obteve de fato na cruz a remissão deles ao levar as penas a nós devidas, de modo que agora estejamos persuadidos de que temos a redenção no seu sangue, isto é, a remissão dos pecados, como diz o Apóstolo em Efés. i. 7. Quanto ao que acrescentam além disso — que morreu pelos pecados para conseguir o mais amplo poder de nos conceder a remissão dos pecados —, é muito mais absurdo: pois, se Cristo morreu para dar fé à remissão dos pecados, como acabavam de dizer, certamente aquela remissão deve ser anterior, pelo menos na razão da morte de Cristo; pois aquilo do qual somos tornados mais certos por meio de outra coisa é, na ordem da natureza, anterior à certificação de si mesmo; mas se ele morreu apenas para conseguir o poder de conceder a remissão, certamente esta remissão deve ser posterior à morte, porque todo efeito é posterior à sua causa. Que dizer do fato de que, se Cristo tivesse morrido para obter aquele poder, ele não o teria tido antes? Mas é certo que Cristo, agindo na terra, não apenas reivindicou para si este poder, mas também o comprovou por um milagre presentíssimo e potentíssimo, Mt. ix. 5. 6., o que não teria sido feito por ele se não tivesse obtido aquele Direito e autoridade: confesso que o exercício da remissão depende da eficácia da morte de Cristo, ou já passada ou ainda futura, pois a ninguém podem ser remitidos os pecados em ato a menos que Cristo o tenha merecido pela sua morte; mas o Direito e o poder de modo algum são fruto da morte, mas propriedade da divindade; ele não pode remitir porque morre, mas porque é o filho de Deus, imenso antes, o próprio Deus, a quem somente compete perdoar pecados, Mc. ii. 17 [7].

XVIII. Ao terceiro, responde-se 1. por retorsão: Se Cristo morreu por ocasião dos pecados, logo não apenas finalmente pelos pecados, pois a ocasião antecede e o fim segue a execução da coisa. 2. Cristo morreu pelos pecados como o sacrifício era feito pelo pecado; ora, o pecado não foi apenas ocasião, mas causa verdadeira impelindo o homem à oblação do sacrifício, pois a ocasião não se conecta senão por acidente com o efeito; mas este efeito segue-se por si e o sentido do pecado impeliu o homem a isso necessariamente; logo, também Cristo deve ser dito morto por causa dos pecados não apenas ocasionalmente, mas também demeritoriamente. 3. Apoia-se em falsa hipótese, como se extraíssemos precisamente desta frase a satisfação de Cristo, quando aqui apenas instamos a causa impulsiva meritória, da qual deduzimos posteriormente, por legítima consequência, a confirmação de nossa sentença, como foi dito antes e será dito ainda mais plenamente no que segue; nem se pode provar o contrário pelas passagens aduzidas, pois quanto à primeira, 1. Reis xiv. 16., quer entendamos por aqueles pecados de Jeroboão pelos quais Deus entregaria Israel os pecados do próprio Jeroboão, que desertara torpemente de Deus, quer o próprio gênero de pecado, a saber, a Idolatria da qual Jeroboão fora o autor para o povo, o que as palavras seguintes notam, pelos quais pecou e fez Israel pecar — pois esta é exposição mais verdadeira e cômoda do que a outra de Socino, enquanto traduz "que pecou e fez pecar" [quem pecou e fez pecar] —, quer compreendamos ambos, o que é inteiramente mais verdadeiro, nem por isso a causa impulsiva deixa de ter lugar aqui, pois aquele pecado do qual Jeroboão era autor e o povo imitador merecia inteiramente essa pena da entrega, de onde Deus pôde castigar este povo por direito tanto pelos seus pecados como pelos alheios dos quais era imitador, e isto não deve parecer admirável ou insólito aos Adversários, visto que eles mesmos confessam que alguém pode ser punido também pelos pecados alheios contanto que a culpa seja afim, Socino lib. 2. cap. 7.

XIX. A outra passagem que eles instam está tão longe de favorecer a causa deles que antes ajuda não pouco a nossa, pois quando diz o Salmista no Salm. xxxix. 11 [12]: Com repreensões castigas o homem por causa da iniquidade, isto é, se tu o castigas, fazes com que o seu desejo se desfaça como a traça, ele não quer dizer outra coisa senão que, se Deus, pelo rigor da justiça, quiser punir alguém tanto quanto o pecado merece, o pecador será imediatamente retirado do meio, nem a própria vida será vital para aquele homem; por cuja razão Davi, como em outros lugares não raro, quer mover Deus à misericórdia para que, se quiser castigar, castigue paternalmente e moderadamente com varas humanas por misericórdia, tendo em conta a nossa enfermidade, não rigidamente e severamente por justiça segundo o próprio demérito do pecado, como no Salm. cxxx. Senhor, se observares as iniquidades, quem subsistirá? mas contigo está o perdão, para que sejas temido. De resto, quanto ao que acrescentam, que nem toda pena é satisfação, nem toda punição é pena, concedemos de bom grado em homens meros, pois também os ímpios são punidos e todavia não satisfazem, e os piedosos são castigados e nem por isso são punidos; visto que, perdoados os seus pecados uma vez, não resta mais para eles nenhuma condenação ou pena a ser levada, e se forem exercitados por males futuramente, aquelas aflições não são dirigidas para a pena por Deus Misericordioso, mas para o μαρτύριον [testemunho] ou δοκιμασίαν [provação] ou παιδείαν [disciplina]: Mas em relação a Cristo a coisa é plenamente outra, pois aqui nem o castigo pode ser separado da pena, visto que nem se lê que qualquer perdão tenha sido concedido a Cristo, como aos fiéis, nem ele foi castigado pelo pai por amor e misericórdia, Heb. xii. 6., mas por ele como Juiz por justiça, por causa da qual se diz que ele se tornou maldição e pecado: nem de fato a pena pode ser arrancada da satisfação, visto que Cristo a levou tão plenissimamente que a suportou inteiramente e a esgotou penitus, o que não pode ser dito dos outros; Seja como for, é certo que em lugar algum se diz que alguém padeceu pelos pecados ou por causa dos pecados sem que os pecados sejam estabelecidos por esse mesmo fato como causa impulsiva e meritória de tais calamidades: o que agora nos pode bastar para sabermos que a comutação do débito foi feita entre nós e Cristo; pois como antes, pela outra frase, quando se diz que ele morreu por nós, já provamos a substituição da pessoa, daqui segue-se necessariamente que Cristo morreu em nosso lugar de tal modo que recebeu em si as penas a nós devidas.

XX. Mas isto também brilhará mais lucidamente 3. por aquelas passagens que compreendem ambas as coisas ao mesmo tempo: tanto a sub-rogação da pessoa quanto a compensação do próprio débito, como quando se diz que Cristo se tornou por nós execração e pecado, Gál. iii. 13., 2. Cor. v. 21., cujas duas passagens, por serem de máximo momento nesta controvérsia para a confirmação da verdade, não devem ser tocadas por nós com braço leve e apenas de passagem, mas examinadas um pouco mais plenamente: E para falarmos da primeira, ela está em Paulo aos Gálatas iii. 13: Cristo, diz ele, nos remiu da execração da lei, tornando-se por nós execração, pois está escrito: maldito é todo aquele que pende no madeiro: as quais palavras, como primariamente eram apropriadas para demonstrar a justificação da fé, que era o escopo do Apóstolo, assim têm a máxima ênfase para explicar o mistério da redenção, o qual ele descreve aqui, se é que em algum outro lugar, brevemente mas com nervo e precisão; conotando 1. o que Cristo fez em nossa graça: nos remiu. 2. de onde: da execração da lei. 3. como: tornando-se por nós execração; Primeiro, o fato de se dizer que nos remiu já indica não obscuramente a satisfação, como foi demonstrado antes, visto que a compra ou redenção, na acepção própria e primária, tem relação com o preço, e onde quer que se proponha uma certa compra a ser feita pelos fiéis gratuitamente, como em Is. lv. 1., Apoc. iii. 18., a própria coisa ensina que deve ser entendida não propriamente mas metaforicamente, por causa de uma certa conveniência que intercede entre a aquisição dos dons celestiais e a compra dos bens terrenos; pois como o comprador deve permutar a coisa que busca pelo preço, e para a comparar para si deve dar ou perder algo de suas faculdades: assim nesta compra espiritual deve haver uma certa feliz e salutar comutação, para que enviemos um adeus ao pecado, ao mundo, aos nossos apetites, que são coisas caríssimas para nós (o que em outro lugar Cristo chama vender tudo o que temos, Mt. xiii. 44.), para que possuamos este tesouro; acautela-te todavia aqui em imaginar ou fingir qualquer razão de mérito com os Pontifícios, pois se pela partícula gratuitamente ela já não fosse removida para longitíssimo, seria suficientemente profligada pela própria consideração do homem; pois o que poderia dar para comparar esta graça aquele que tem todos os bens de Deus, e de si nada senão o pecado? Mas aqui é insinuada outra redenção feita por Cristo, muito diferente, não figurada e metafórica, mas verdadeira e própria; pois não se diz apenas que somos comprados, mas comprados por preço, 1. Cor. vi. 20., remidos pelo sangue, 1. Ped. i. 18., enquanto o próprio Cristo foi dado como ἀντίλυτρον [preço de resgate] por nós, ele que apagou o Quirógrafo que nos era adverso, Col. ii. 14., e o que não roubou, pagou, Salm. lxix. 5 [4].

XXI. Aquilo porém colhe-se ainda mais claramente 2. pela notação do mal do qual dizemos ser remidos; pois diz-se que Cristo nos remiu ἐκ τῆς κατάρας τοῦ νόμου da execração da Lei, a qual ensinara antes no vers. 10 incumbir a todos os homens universalmente, pelo fato de não se encontrar nenhum dos mortais que permaneça em todas as coisas que estão escritas no livro da Lei. Esta execração da Lei, porém, pode ser entendida tanto ativa quanto passivamente; do primeiro modo, nada mais é do que a própria sentença da Lei, ou antes de Deus como Juiz, execrando e condenando os pecadores e transgressores da lei, como se insinua no vers. 10; do modo posterior, nota todas as penas estabelecidas pela Lei contra os transgressores, quer sejam corpóreas quer espirituais, quer quanto ao dano pela privação do bem, quer quanto ao sentido pela inflicção do mal, pois a criatura por sua rebelião mereceu todas estas; mas porque de todas as penas a maior é sem dúvida e a mais dura a maldição e a ira do próprio Deus, que arrasta todas as outras atrás de si, por isso ele compreendeu sob a execração todas as penas, quaisquer que elas sejam, como sob a bênção oposta conotou todos os benefícios que são necessários para a felicidade e a consecução da vida eterna, e em primeiro lugar a Justificação; como porém esta sentença da Lei fosse imutável e nem um ápice ou iota pudesse passar até que tudo se cumprisse, nem Cristo tenha vindo para a dissolver mas para a cumprir, Mt. v. 18., ele não podia nos remir da execração da Lei e das penas a nós devidas senão recebendo-as em si, não por poder, mas por Justiça, como ensina Paulo em Rom. viii. 3. 4.

XXII. E isto 3. demonstra Paulo evidentissimamente notando o modo daquela redenção, pois ele nos remiu da execração da Lei tornando-se por nós execração, onde quantas são as palavras, tantos são os pesos das razões: 1. diz-se execração por metalepse do abstrato pelo concreto, o que tem a máxima σχέσιν [relação] e ênfase, como quando chamamos de crime ao homem criminosíssimo que jaz inteiramente em crimes; assim a própria execração é dita execrável, como adverte Aquino; tornou-se a própria maldição porque, a saber, assumiu e suportou toda a maldição e calamidade que a Lei ameaçava aos transgressores. Mas como, perguntarás, o filho amado de Deus e autor de toda bênção pôde tornar-se execração? Esta locução pareceu tão horrível e dura a Jerônimo e outros que a julgaram tropical e que deveria ser suavizada por alguma interpretação; por isso querem que se subentenda a partícula ὡς [como], para que signifique que ele foi tratado de tal modo como se fosse para Deus ἐπικατάρατος [maldito]; mas se a alguém isto parecer duro, envergonhe-se da Cruz de Cristo, de cuja confissão nos gloriamos: Imó, nisto está posta toda a nossa esperança, dela pende o nosso consolo e salvação, o fato de Deus ter derramado toda a ira no filho para nos receber em graça; de ter amaldiçoado para abençoar; de ter desamparado para nos receber em patrocínio e tutela; de ter condenado para nos absolver; de outro modo, se esta exinanicão de Cristo e a execração do Pai tivessem sido fictícias, fictícia também seria e vã a esperança da glória e da bênção que dele esperamos. Mas para não tropeçarmos aqui, deve-se distinguir em primeiro lugar aquela dupla σχέσις [relação] sob a qual Cristo pode ser considerado: a primária e natural, pela qual é filho de Deus; a secundária e forense, pela qual é Mediador e Fiador que respondeu por nós; quanto à primeira, foi sempre caríssimo a Deus e sumamente amado, no qual a vontade e o amor do Pai plenamente se aquietou, Is. xlii. 1., Mt. iii. 17.; quanto à segunda, foi numerado entre os pecadores e os réus de maldição, não em si mas em nós, cuja pessoa sustentava; Portanto, ele não pôde estar fora da graça de Deus e, todavia, sustentou a sua ira; pois, se tivesse estado fora da graça, como teria podido reconciliar conosco o pai que teria tido infesto e para quem teria sido odioso? Por outro lado, como nos teria libertado da ira de Deus se não a tivesse transferido de nós para si mesmo? por isso foi ferido por causa dos nossos pecados e experimentou Deus como juiz irado, o que Agostinho expressou retamente no lib. 14. cont. Faust. c. 96 [c. 6]: sempre bendito em sua justiça, maldito por causa dos nossos pecados na morte assumida de nossa pena. Portanto, nada derroga à majestade de Cristo o fato de, sem culpa, ter assumido em si a culpa e a pena para nos libertar da pena e da culpa ao mesmo tempo. Finalmente, assim Cristo transferiu para si a maldição a nós devida que por ela não foi obruído, mas a venceu, superou, aboliu, para que fosse fonte perene e inesgotável de bênção para os que crerem nele.

XXIII. E daqui patetia liquidamente com que direito ou antes com quanta injúria os Pontifícios agitem com tanta dureza de estilo o que foi dito pelo íntegro Teólogo Calvino, em nosso Catecismo, seção x, sobre as dores e penas satisfatórias de Cristo: a saber, que ele foi constituído em tal condenação que se queixou de ser desamparado por Deus; como se daí se seguisse — o que, como lhes parece, não pode ser dito senão com a suma impiedade — que Cristo foi condenado. Pois, para não dizermos que não há por que se inflamarem e se enfurecerem tanto contra nós por causa daquela palavra, quando a própria Escritura não abomina a palavra condenação, pois o ladrão convertido assim reprimia o outro que vomitava blasfêmias: Nem sequer temes a Deus, estando na mesma condenação; quando também os Padres são lidos usando-a não poucas vezes: Tertuliano li. 3. contra Marc. c. 11. não será a natividade mais indigna que a morte, e a infâmia que a cruz, e a condenação que a carne?; Cipriano sobre a paixão de Cristo: Foi condenado para libertar os condenados; Gregório o Grande, morais li. 3. c. 11. Aquele que é igual ao Pai pela Divindade, veio por nossa causa aos açoites pela carne, açoites esses que certamente não receberia se não tivesse assumido a forma de homem condenado para o remir. E depois: A ele que está sem pecado, condena pelos pecadores: Imó, vários dos próprios Adversários, testemunhando Suárez em 3. q. 53. Art. 8. disp. 43. sect. i: Refere Medina, diz ele, terem sentido alguns Católicos que Cristo padeceu algumas penas dos condenados, todavia não do mesmo modo que os condenados. Cardeal Cusano li. 10. Exercit: A paixão de Cristo, da qual não se pode dar maior, foi à semelhança da pena dos condenados que não podem ser mais condenados, a saber, até a pena infernal; em seu nome diz o Profeta: As dores do inferno me cercaram, todavia tiraste do inferno a minha alma. Ferus em Mt. 27. tratando daquelas palavras Meu Deus, etc.: Cristo despiu, diz ele, nesta hora a Deus, não o rejeitando mas deixando o Pai de lado por não o sentir, para agir como homem; assim também Deus Pai agora não age como Pai, mas como Tirano, embora entrementes esteja com o ânimo amiguíssimo para com Cristo; Item: Cristo, para libertar os pecadores, constituiu-se a si mesmo no lugar de todos os pecadores, não de fato furtando, adulterando, matando, mas transferindo para si o estipêndio, a pena e o mérito dos pecados (que são o frio, o calor, a fome, a sede, o tremor, o horror da morte, o horror do inferno, o desespero, a morte, o próprio inferno) para que vencesse a fome com a fome, o horror com o horror, o desespero com o desespero, a morte com a morte, o inferno com o inferno, Satanás com Satanás. Quem toleraria isto em Calvino? Para que, digo eu, não sejam agora proferidas estas e outras muitíssimas do mesmo gênero, que todavia podem fechar inteiramente a boca da calúnia, esta única passagem de Paulo que temos em mãos basta para demonstrar a vaidade da acusação: Pois se ele é dito tornado maldição, por que não poderia igualmente, sob esse aspecto, ser dito ou condenado ou sentenciado, visto que a palavra maldição parece importar algo mais grave, contanto que esta locução seja entendida em sentido são; Pois condenado diz-se de dois modos: 1. absolutamente, aquele que é destinado às penas pelos seus pecados, as quais todavia nunca superou e das quais nunca pôde emergir; deste modo os réprobos e os diabos são ditos condenados nos infernos: Mas deste modo o Cristo, nosso Senhor, nem foi condenado jamais, nem de fato pôde ser condenado; 2. condenado diz-se também aquele, mas hipoteticamente apenas, que sustenta as penas devidas aos pecados alheios e isso pela ordem da justiça divina, as quais todavia vence e supera; deste modo nada proíbe que Cristo seja dito condenado, visto que carregou as penas devidas aos nossos pecados e isso pela ordem da justiça divina — pois Deus entregou seu próprio filho à morte, Rom. viii. 32. —, as quais todavia, pela virtude e eficácia infinitas do seu mérito e por sua paciência admirável, ele as sustentou e assim as superou com invicta fortaleza. Assim, ele é retamente dito obnoxio à condenação ou maldição antecedentemente, não consequentemente; quanto à causa, não quanto ao termo. Em nós, cujos pecados levou, não em si, que sempre foi santíssimo. De onde se pode colher facilmente o que Calvino quis naquele citado lugar; não que Cristo tenha sustentado as penas dos condenados absolutamente, ou tenha caído no desespero — o que ambas as coisas são removidas expressamente ali de Cristo —, mas apenas que foi constituído naquele estado para que sentisse a ira e a maldição do Pai que nos era devida, o que Paulo expressamente ensina nesta nossa passagem.

XXIV. De resto, como se tornou execração, o Apóstolo ensina no que segue, em que prova ter sido o suplício maldito e execrável pelo Deut. xxi. 23., onde a suspensão do madeiro é pronunciada maldita: ἐπικατάρατος πᾶς ὁ κρεμάμενος ἐπὶ ξύλου maldito é todo aquele que pende no madeiro; no Hebraico porém diz-se um pouco diferente כי קλלת אלהים תלוי que Áquila e Teodotião vertem retamente porque a maldição de Deus é o suspenso; mas Paulo, por aquela παῤῥησίᾳ [liberdade] de que gozava — o que também fez não raro em outros lugares —, verte o sentido, não precisamente as palavras, e ilustrou o que parecia mais obscuro; Pois pela maldição que fora posta metonimicamente, repôs propriamente maldito; omitiu a palavra Deus, a qual se colhia suficientemente da circunstância do lugar e da bênção oposta; acrescentou de fato no madeiro, expressa a elipse ἀπὸ κοινοῦ [em comum] das coisas precedentes; e definiu a mesma razão pela partícula universal indefinida todo. Pode-se perguntar aqui 1. quão bem Paulo acomoda esta sentença da Lei divina, que trata da simples suspensão no madeiro, ao suplício da cruz, o qual não esteve em uso entre os antigos Hebreus, mas foi tomado dos Romanos; o que quer que Barônio e Lísio sustentem, pode ser demonstrado por várias razões, o que fez o Doutíssimo Casaubon contra Barônio em Exerc. xvi.; Onde observa dos próprios Judeus que apenas quatro gêneros de penas e morte foram entregues pelo antigo Conselho do Sinédrio: סקילה apedrejamento, que é λίθωσιμον μόρον para os Trágicos dos Gregos; שרפה καῦσιν queima viva, como chama Tertuliano; הרג ou קטל matança pela espada ou decapitação; e חנק estrangulamento θάνατον δι’ ἀγχόνης; nenhuma menção de fato se faz da cruz entre eles, imenso antes, eles a rejeitam expressamente: דבר זה לא היה בישראל לתחוב המסמרות ברגלי וידי אדם הנסקלים ותלוין não foi este o costume em Israel de fixar pregos nos pés ou nas mãos dos homens que tinham sido apedrejados ou suspensos; e um pouco depois: não se encontra que o homem deva ser fixado com pregos à cruz, mas deve ser suspenso o blasfemo e o Idólatra segundo aquilo que se diz: o maldito de Deus é o suspenso. E eles de fato usam este argumento para retirar a fé da história Evangélica sobre a paixão de Cristo; mas em vão, visto que consta que esta forma de suplício não foi irrogada pelos próprios Judeus, mas pelo Romano Pilatos, segundo o vaticínio do próprio Cristo, que predissera que o julgamento contra si seria dado pelos Gentios, Mt. xx. 19. Nem os próprios Judeus podem negar, visto que reconhecem que quarenta anos antes da destruição do segundo Templo o poder Judiciário lhes fora retirado, pelo fato de que os homicidas prevaleceram e dissiparam os Juízos das almas de Israel, como dizem eles mesmos, o que testemunharam diante de Pilatos dizendo não lhes ser lícito matar a ninguém: Das quais coisas colhe-se que a crucificação foi suplício Romano, não Hebreu, como Sozomeno na Hist. Ecles. li. 1. c. 8. chama de νενομισμένην Ρωμαίοις τιμωρίαν [castigo estabelecido pelos romanos]. E certamente não há nenhuma palavra da antiga língua dos Hebreus que signifique propriamente a Cruz ou o ato de crucificar; pois תלה e רק e יקר são gerais, que podem ser acomodados a vários suplícios nos quais os réus eram levados ao alto e se tornavam μετέωροι [suspensos no ar] para maior ignomínia. Como, portanto, essa Cruz Romana foi desconhecida para os Judeus, pergunta-se meritoriamente por que o Apóstolo transfere para a Cruz o que desta não pôde ser dito? De fato responde-se facilmente que Paulo pôde otimamente aplicar o que foi dito da suspensão em gênero à crucificação particularmente, visto que o gênero compreende sob si todas as espécies, e nada se diga daquele que não possa ser aplicado a estas, donde se a suspensão do madeiro é maldita, inteiramente o é também a própria crucificação, que é espécie de suspensão: Portanto, embora os Judeus não costumassem crucificar os condenados, mas ou os suspendessem de um madeiro, ou afixassem os apedrejados a um pau, ou levantassem os corpos dos extintos ao patíbulo para maior infâmia — o que para Fílon l. b. de Legib. é ἀνασκολοπίζεσθαι [empalar/crucificar], e por muitos é erroneamente referido à crucificação de vivos —, todavia, porque quanto à coisa mesma é sempre o mesmo gênero de ignomínia ser suspenso de um madeiro de qualquer modo que isso se faça, certamente não sem propósito o Apóstolo transfere para o seu intento o que por Deus fora dito outrora, e tanto mais porque dificilmente se pode duvidar que o Espírito Santo já respeitasse tacitamente o gênero da morte da cruz quando enunciou isto.

XXV. Em segundo lugar pergunta-se: Por que os suspensos são ditos malditos e por que este gênero de suplício foi notado com uma certa infâmia especial pela Lei divina acima dos demais? Os Judeus de fato não podem elevar-se mais alto do que dizer que é espetáculo triste e fétido o homem feito para andar na terra estar pendente de um madeiro sendo agitado pelos ventos no ar, por isso pronunciado execrável por Deus; para que, tanto pela fealdade do suplício quanto pelo medo da execração, os homens aterrorizados se abstivessem de crimes dignos de tal suplício: E para aqui pertence o seu dito: a suspensão do homem no madeiro é uma vilipendiação de Deus; donde todos quantos eram punidos com este infame suplício eram tidos como meritoriamente execráveis e, levantados ao alto e expostos ao Sol e aos olhos de todos, eram estabelecidos como horrendas expiações e exemplos, pelos quais, para que nem a terra nem o próprio ar fossem poluídos, os seus cadáveres deviam ser retirados do meio e sepultados naquele mesmo dia, Deut. xxi. 23.; e se ainda não tivessem morrido, a morte deveria ser acelerada por σκελοκοπία quebrantamento das pernas ou por outra via, o que se diz ter sido feito nos ladrões crucificados junto com Cristo em Jo. c. xix. 31. Nem apenas entre os Judeus, mas também entre os Étnicos este suplício foi tido por infame, pelo qual os mais celerados entre os Romanos e os réus de grandes e atrozes crimes, os escravos em primeiro lugar, eram afetados; donde ser afetado com suplício servil é ser levado à cruz, porque dos escravos era plerumque [na maioria das vezes] este suplício: Juvenal Sáty. vi: Põe a cruz para o escravo: e o Escravo fala assim em Plauto no soldado glorioso: sei que a cruz me será por sepulcro, ali meus maiores foram postos: pai, avô, bisavô: E se alguns homens livres foram levados à cruz, foram cabeças vilíssimas e por graves crimes como latrocínio, crime de sedição e ambição pelo reino; o Jurisconsulto Paulo em li. 1. sentent. ti. xxii: Os autores de sedição ou tumulto, conforme a qualidade da dignidade, ou são levantados à Cruz ou são lançados às feras; assim Pilatos mandou que Cristo fosse punido com este suplício como se estivesse movendo coisas novas, provocasse turbas e ambicionasse o reino, como patetia pela acusação feita perante ele em Lc. xxiii. 2. e pelo próprio título da Cruz: De resto, homens livres ou cidadãos Romanos não podiam ser afetados por este suplício a menos que primeiro se tornassem escravos da pena, isto é, a menos que a liberdade lhes fosse tirada por açoites servis, a saber, flagelos, o que também foi prestado para com Cristo; a fealdade do suplício, porém, as palavras de Cícero contra Verres a indicam: é facínora prender um cidadão Romano, crime açoitá-lo, quase parricídio matá-lo; que direi de levantá-lo à cruz? por nenhuma palavra suficientemente digna uma coisa tão nefanda pode ser chamada; donde a cruz é chamada de árvore infeliz em Lívio, em um Canto horrendo: Lictor, cobre a cabeça, suspende na árvore infeliz. e entre os latinos ir à má cruz são mandados aqueles a quem impreca-se a perdição conjuntada com a suma desonra.

XXVI. Portanto, este gênero de suplício foi meritoriamente execrável tanto pela natureza quanto pela Lei; Pela natureza, porque foi tido como saevíssimo e fétidíssimo, nem temerariamente Cícero disse ser o mais cruel e o mais tétrico, e os Jurisconsultos designam-no pelo nome de sumo suplício como que por eminência: Paulo lib. v. sent. ti. xxii. são afetados pelo sumo suplício, isto é, pela Cruz: por isso Apuleio li. 1. de Asi. chamou-a de cruz condenada: Condenada, diz ele, já candidata à cruz. Assim, a cada passo, este suplício esteve no horror e na vileza; pois três coisas se conjugavam nele: tormento, infâmia, diuturnidade da pena: pela Lei de fato porque foi amaldiçoado por Deus, não de fato absolutamente em relação aos próprios réus perante Deus, como se desesperada fosse a salvação daqueles que são suspensos, pois o contrário patetia no Ladrão convertido; nem também deste suplício em espécie, pois a suspensão perante Deus não é por si mais maldita do que outra morte; mas em relação ao crime que por esta razão deve ser punido segundo o mandato de Deus: a saber, como não a pena mas a causa faz o mártir, assim não o suplício mas o crime torna maldito; a transgressão do pendente contrai a maldição; pois nem a qualquer crime esta pena era imediatamente imposta, mas ao atroz e público que concitasse a ira de Deus contra todo o povo, e que por isso devesse ser expiado para a aplacar ou pela morte dos próprios réus, ou daqueles que eram peculiarmente notados por Deus, como em Num. xxv. 4., onde, por causa do gravíssimo pecado que os Israelitas admitiram acasalando-se com Baal-Peor, Moisés é ordenado a tomar os Príncipes do povo e os suspender perante Jeová diante do Sol para que assim se desviasse a ira do furor de Jeová de Israel: assim em 2. Sam. xxi. 6., levados à cruz pelos Gibeonitas sete filhos de Saul por causa da fé pública violada por ele: e aquele crime foi expiado, e Deus foi tão aplacado que cessou a fome que por isso havia enviado aos Israelitas: Assim este gênero de morte, assim como foi obnoxio à maldição, foi também no seu sentido expiatório do pecado e propitiatório da ira divina. Todavia, além destas razões pelas quais consta que este dito do Senhor em Deut. xxi. obteve a sua verdade na letra e no tipo, ulteriùs proculdubio [além disso, sem dúvida] o Espírito Santo respeitou e subjazia outra razão mística e sobrenatural, enquanto outrora, por este símbolo, quis adombrar de algum modo o gênero da morte de Cristo que devia se conjugar com a divina execração para a nossa redenção; e Cristo selecionou esta espécie de morte no tempo, não apenas porque foi ignominiosíssima em si e acerbíssima, para que assim, existindo na forma de servo, sendo afetado com suplício servil, sofresse a infâmia e todos os tormentos a nós devidos; mas também para que, cumprindo o que fora predito sobre ela, assumindo a maldição que nos era iminente por causa do pecado, nos libertasse dela, e assim expiasse aqueles gravíssimos crimes que nos prendiam a todos pelo seu reatu; Assim o argumento de Paulo é a posteriori, não a priori; pois a Cruz não foi a causa de que primeiro Cristo fosse maldito, mas a Cruz demonstra, visto ser símbolo da maldição, que ele já antes fora amaldiçoado pelo Pai: Mas por que maldito o santíssimo e amadíssimo filho de Deus? senão porque recebera em si o nosso reatu, o qual sem o penitiíssimo sentido da ira e da maldição divina não pôde ser expiado; donde não se diz apenas que se tornou execração, mas por nós, para nos isentar dela, a saber, no nosso lugar e vez, porque o inocente ele mesmo levou a mesma maldição que nós havíamos merecido: assumiu a maldição, diz Crisóstomo em Gal. 3., e assim a retirou, fazendo exatamente como se alguém justo, querendo morrer espontaneamente em vez daquele condenado adjudicado à morte, o arrebate dela; hinc [daqui] Oecumênio: Assumiu aquela execração à qual não era obnoxio quando foi suspenso no madeiro, para soltar a execração que era contra nós. Do que assim disputado, deduz-se um argumento certíssimo para a verdade Ortodoxa; Pois aquele que de tal modo morreu por nós que recebeu em si a execração a nós devida e nos libertou dela derivando a sua bênção para nós, certamente ele morreu não apenas para o nosso bem, mas também em nossa vez, nem deve ser dito Salvador apenas pelo exemplo, mas pelo mérito e satisfação; pois o que a execração pôde fazer para o exemplo, o que para a confirmação da doutrina? fez todavia o máximo para a satisfação da Justiça e para retirar o reatu dos pecados. Logo.

XXVII. Repõem aqui três coisas os Adversários: 1. que Cristo não pode ser dito tornado por nós execração sofrendo a execração a nós devida, porque aquela Execração não foi outra senão a morte eterna, a qual todavia Cristo minimamente pôde levar, visto que ressuscitou. 2. que Paulo não quis significar outra coisa senão que Cristo, enquanto ele mesmo por causa de nós incidiu em uma certa execração judicial da Lei, a saber, enquanto sofreu a morte da cruz que fora maldita por Deus, entrementes nos libertou da verdadeira execração da lei; pois assim o Apóstolo, como costuma fazer frequentemente em outras coisas, quis ser agudo na palavra execração, para que a colação entre aquilo de que Cristo remiu os fiéis e aquilo que ele mesmo por eles sustentou para este fim fosse mais elegante e a oração se tornasse mais concisa, embora em Cristo este gênero de suplício não tivesse a razão da execração divina verdadeiramente e propriamente, como nem nos Apóstolos e outros mártires que foram suspensos do madeiro e afetados com suplício capital. 3. que quaisquer coisas que, ou nesta epístola ou em outra parte, são disputadas por Paulo sobre a Lei e a libertação dela ou de sua execração, pertencem apenas aos Judeus que estavam sob ela, mas não aos demais. Assim Socino li. 2. c. 1. Crellius adv. Grotius.

XXVIII. Nada aqui todavia existe que possa infringir a força do argumento: Pois quanto ao primeiro, supõe-se falsamente e não se prova que Cristo não pôde sofrer a execração a nós devida; Imò por retorsão: se ele devia nos libertar da execração a nós devida, como Paulo testemunha, certamente também era obrigado a assumi-la em si, de outro modo, não sendo paga a maldição a nós devida, a libertação de todos nós não pôde ser nenhuma; nem obsta que esta Execração importe a morte eterna, visto que Cristo é dito retamente ter levado esta em sentido são; a saber: a morte eterna ou aquela maldição que a Lei intentava aos transgressores pode ser vista ou intensivè [intensivamente] quanto à extremidade das dores e cruciatos com o desamparo e o sentido penitiíssimo da ira de Deus; ou extensivè [extensivamente] quanto à duração eterna e nunca findável da pena e dos cruciatos, e aquela primeira σχέσις [relação] certamente parece ser a primária na pena que a justiça de Deus exigia, de tal modo que quem sofresse aqueles cruciatos por um tempo exíguo fosse considerado como tendo cumprido retamente a morte eterna; mas a posterior é secundária, nascida da enfermidade da Criatura, porque como ela mesma não podia levar as penas imensas quanto à atrocidade que a Justiça impunha ao réu sem que desfalecesse, por isso, pela ordem da Sabedoria, foi feita a comutação das penas nesta parte, para que quanto à duração fossem infinitas; mas se ocorresse algum sujeito que pudesse levar e esgotar de uma vez aquelas gravíssimas penas, certamente não haveria necessidade de que esse fosse afligido e punido por toda a eternidade. Isto porém depreende-se em Cristo; pois como foi pessoa divina, pôde levar penas infinitas constantemente; não de fato infinitas em si, pois nada em ato infinito pôde cair na natureza humana que foi finita, mas em relação ao sujeito por causa da dignidade infinita da pessoa que padece; como o pecado, por sua natureza finito, tornou-se todavia infinito em relação ao objeto por causa da majestade infinita de Deus a quem ofende. Portanto, embora não tenha levado a morte eterna quanto à duração e extensão, visto que não pôde ser detido pela morte, Atos ii. 24., como de fato nem devia pois convinha que fôssemos libertos dela por ele, todavia diz-se retamente que a levou quanto à acerbidade e intensão das penas levadas por esta pessoa divina, de tal modo que a sua morte, embora apenas triduana em tempo, foi verdadeiramente niilominus [todavia] equivalente à eterna em valor e peso; E assim recebeu em si aquela mesma maldição a nós devida, se não em número, ao menos em espécie. Pois o que importava aquela terrível execração senão o acérrimo sentido da ira de Deus e todas as penas, tanto da alma quanto as que deviam ser infligidas ao pecador pelo juízo de Deus, na medida em que se satisfizesse à sua justiça? ora, Cristo levou-as todas de tal modo que nada pôde ser desejado nesta parte; pois quanto às corpóreas certamente, além de toda sorte de misérias e aerumnas [aflições] com as quais foi conflitado, foi enfim levado à cruz, suplício ignominiosíssimo e atrocíssimo; na alma porém quais dores, quais cruciatos não sentiu por causa do imenso peso da ira de Deus que sobre ele incumbiu? aquela ἐκθάμβησις & ἀδημονία [pavor e angústia] que lhe exprimiu suor sanguíneo, que afligiu a alma até à morte e tão profundamente o ocupou que se queixou com voz lamentável de ser desamparado por Deus, demonstra plenamente, se nada mais ocorresse, ter sido satisfeito à Lei por ele nesta parte.

XXIX. E daqui também patetia o que deve ser respondido ao segundo, a saber, pela falsa hipótese do pecado, como se Cristo não tivesse sustentado a mesma execração da Lei moral que nos era devida, mas outra certa judicial, pelo fato de ter levado a morte da cruz que fora maldita por Deus, embora em relação a Cristo esta não tivesse tido a razão de execração: Pois como já insinuamos antes, tratando-se aqui da execração da Lei moral, ela não pôde ser tirada de nós a menos que tivesse sido transferida para Cristo, nem pôde ser satisfeito à Lei Moral por uma judicial; que dizer do fato de Paulo não ter podido dizer que Cristo nos libertou da execração da Lei, tornando-se por nós execração, a menos que tivesse assumido em si aquela própria execração que nos iminência, e assim nos desse firme argumento de confiança e consolo, o qual não seria nenhum se tivesse sustentado outra qualquer execração e não a nossa; isto os Padres viram, por isso ensinam a cada passo que ele foi tornado verdadeiramente maldito para abolir o maldito a nós devido: Atanásio de pass. & Cru: Assumiu em si a nossa pena a ser paga porque se tornou por nós maldição. Agostinho contra Felici: como assumindo a morte matou a morte, assim assumindo a maldição soltou a maldição. Eusébio de Cesareia: Tornado execração por nós, atraiu para si mesmo a execração que nos era devida. Mas segundo os Adversários, ele é dito tornado execração apenas na medida em que levou o suplício da cruz que sob a Lei foi maldito por Deus, embora em relação a Cristo não tivesse tido a razão de maldição; o que é violar as palavras do Apóstolo se isto não o é? pois o que sustentam, que o Apóstolo quis ser agudo na palavra execração, longe esteja de nós dizê-lo; seria indigno de tão grande Apóstolo brincar em coisa tão séria, e captar vãos sons de palavras onde são tratados gravíssimos momentos de coisas; imò falou pela verdade da coisa e diz que ele foi tornado maldição porque sentiu tudo o que Deus de maldição ameaçara aos pecadores: não foi portanto a causa mas o símbolo desta maldição a Cruz, nem por isso Cristo foi maldito porque pendeu na cruz, mas por isso pendeu porque foi maldito e sentiu efundida em si, Fiador e Garante nosso, toda a ira de Deus, como Jerônimo em c. 3. ad Gal. bem observa.

XXX. 2. Falsíssimo que a morte da cruz infligida a Cristo não tenha tido a razão de execração; Pois embora em relação aos fiéis seja verdadeiramente bendita e preciosa, porque da funestíssima árvore da morte colhemos os dulcíssimos frutos da vida, todavia em relação a Cristo quem se sustentaria negar que foi maldita, testificando-o disertamente [claramente] o Espírito Santo, se não quanto ao termo e saída, ao menos quanto à causa e argumento? E certamente por que o filho de Deus teria sido percutido com tanto horror à cogitação da Cruz, de tal modo que precisou até de consolação Angélica, por que teria deprecado com tanta ansiedade a remoção deste cálice amaríssimo até com lágrimas e clamores, se nada tivesse visto senão a morte corpórea que outros homens comuns inúmeros enfrentaram não apenas constantemente, mas com gozo e exultação? Outra coisa portanto proculdubio [sem dúvida] viu e levou Cristo nela, pela qual foi prostrado por tanto medo e tristeza, a saber, a própria ira de Deus e a maldição com a qual teve de lutar. 3. frustra [em vão] aqui o exemplo dos Mártires é aduzido como se fosse a mesma ratiomortis [razão da morte] deles e a de Cristo; ora, intercede uma diferença larga e vasta entre ambas, como pode patetear pelo que já foi dito, e no que segue pateteará ainda mais claramente, pois os suplícios daqueles, embora gravíssimos, paravam todavia no corpo, mas as dores e cruciatos de Cristo transfixaram o seu coração e a alma; aqueles, padecendo exteriormente, eram recreados interiormente pelo orvalho e doçura da graça divina, mas Cristo queixa-se de ser desamparado pelo Pai porque por alguns momentos lhe subtraiu o influxo do consolo e do gozo para que pudesse levar todas as penas a nós devidas; finalmente, a morte de Cristo foi jurídica e penal para a aplacação do Numén e expiação do pecado infligida, mas a daqueles de modo algum, mas para o testemunho da verdade e exploração da fé; donde, embora fossem cruelmente esquartejados e fossem aplicados para os atormentar espadas, acúleos, chamas, grelhas, θηριομαχία [luta com feras] e outros instrumentos da antiga crueldade, a morte de nenhum Mártir foi dita jamais ser com maldito porque não foi conjunta com o sentido da ira divina, como a morte de Cristo; sobre eles nunca se lê terem sido tornados por nós maldição ou terem levado os nossos pecados, como se diz quão saepissimamente [frequentissimamente] de Cristo.

XXXI. Ao 3. Resp. ser falsíssimo o que supõem: que toda vez que Paulo nesta Epístola ou em outras trata da Lei e da libertação de sua execração, estas respeitam apenas os Judeus, pois o contrário poderia ser provado por inúmeros argumentos, e pateteia lucidamente até pelo fato de o Apóstolo não falar apenas da Lei Cerimonial que foi própria dos Judeus — o que defendemos constantemente contra os Pontifícios —, mas da Moral principalmente, à qual os gentios também se sujeitam: pois da Lei moral esta é a voz própria: quem fizer estas coisas viverá nelas. Item: maldito todo aquele, etc. Assim, respeitou igualmente não apenas os Judeus mas também os gentios obnoxios à maldição divina porque ambos estão em reatu, ambos a serem salvos por nenhum outro meio senão a fé, o que o Apóstolo persegue fusamente [extensamente] aos Rom. mas que necessidade de prova quando Paulo se interpreta a si mesmo clarissimamente em vers. 8. 14. enquanto diz que Cristo se tornou maldição por isso, para que a bênção de Abraão atingisse os gentios em Cristo; a saber, remiu da maldição da Lei a todos aqueles a quem doa a bênção Abraâmica, isto é, celeste e espiritual; ora, dota com este benefício não apenas os Judeus mas também os gentios, como mostra em muitas coisas seguintes. Logo, o que disse pertence não apenas aos Judeus mas paritariamente [igualmente] aos gentios.

XXXII. A este primeiro lugar não é dissemelhante o outro do mesmo Paulo em 2. ad Cor. v. 21: Àquele que não conheceu pecado o fez pecado para que sejamos Justiça de Deus nele, onde não menos perspicuamente abre o mesmo mistério, como pode ser demonstrado facilmente pelo exame mais acurado de cada palavra; Pois aqui não ocorre palavra alguma que não tenha o seu peso: 1. o fato de ser dito feito pecado é de mira [maravilhosa] ênfase para notar esta sub-rogação tanto da pessoa quanto da pena; pois que o pecado venha com essa noção saepissimamente [muito frequentemente] no V.T., para conotar tanto a própria pena do pecado quanto a vítima à qual é imposta para a levar, é mais notório do que o que precisa de prova: pois da significação primária e própria nasce a imprópria e figurada dupla: metonímia do eficiente pelo efeito, para que não designe o próprio pecado mas a pena devida ao pecado, Gên. iv. 13. o meu pecado é maior, isto é, a pena do pecado; e vers. 7. o pecado jaz à porta, isto é, a pena é iminente e certamente virá; assim Zac. xiv. 19. este será o pecado do Egito e de todas as nações que não subirem à festa dos Tabernáculos, isto é, o suplício e a pena; assim em Heb. ix. 28. diz-se que Cristo aparecerá sem pecado, não apenas imune de toda a sua mancha — visto que também isto teve sempre desde o início, como santo e segregado dos pecadores —, mas livre de todo o seu reatu e pena, a qual no primeiro advento recebera em si para a levar e a retirar. 2. metonímia do adjunto pelo sujeito, para que não apenas designe a pena do pecado, mas conote a própria vítima piacular e a hóstia pelo pecado; assim saepissimamente [muito frequentemente] em Levít. חטאת e אשם são usados pelo Sacrifício pelo pecado, Levít. v. 9. asperge do sangue daquele pecado, isto é, da vítima; e imediatamente acrescenta-se חטאת הוא este é o pecado, a saber, a hóstia pelo pecado; assim em Oseias os Sacerdotes são ditos comer os pecados do povo, isto é, os sacrifícios; Paulo portanto, respeitando este modo de falar costumeiro e recebido, diz aqui que Cristo foi tornado pecado não apenas porque foi tido como pecador pelos homens — o que parece a alguns mas erroneamente, pois aqui se trata do juízo de Deus e não dos homens —, nem também porque se tornou na espécie da carne do pecado, como Paulo fala em outro lugar em Rom. viii. 3. — o que pareceu a outros, pois isto é mais diluído do que o que pode dar a força da frase Paulina; pois uma coisa é portar a semelhança da carne do pecado, outra coisa de fato tornar-se pecado —, mas porque ele mesmo levou todas as penas do pecado como vítima piacular imposta a si, para que pelo sacrifício da cruz εὐωδεστάτῳ [fragrantíssimo] aplacasse o sumo Numén e purgasse os nossos pecados.

XXXIII. 2. E isto mesmo prova-se mais claramente pelo fato de não se dizer apenas feito, mas feito por Deus; pois que ele seja designado pelas coisas precedentes patetia, onde, depois de dizer que os Apóstolos exercem a embaixada em nome de Cristo e como que Deus rogando por meio deles que se reconciliem com Deus, agora mostra o fundamento daquela exortação na Redenção por Cristo de nossa parte da ordem de Deus, como se dissesse não haver por que duvidarmos de nos achegarmos a Deus e sermos reconciliados quando ele mesmo quis reconciliar-se conosco pela morte de Cristo; àquele de fato que não conhecera pecado, o pecado por nós: Aqui portanto nota-se aquela ordenação de Deus segundo a qual Cristo foi constituído Fiador e Garante nosso, e para ele por isso foram lançados todos os nossos pecados, plenamente como em Is. liii. 6. diz-se que Deus lançou nele as iniquidades de todos nós, e que o percutiu vers. 10; que não o poupou, Rom. viii. 32. τὸ ποιεῖν [o fazer] portanto aqui não é propriamente fazer ou produzir, mas ordenar, constituir τιθέναι, καθιστάναι, como saepissimamente [muito frequentemente] é usado neste sentido em Mc. iii. 14. καὶ ἐποίησε δώδεκα Cristo fez doze, isto é, ordenou e constituiu; assim em Jo. vi. 15. fazer Rei; Atos ii. 36. fazer Cristo, o que se refere não à natureza e substância mas ao estado e condição: como portanto, absoluto o trabalho da Redenção na terra, Deus, em testemunho de aceitação, diz-se ter feito ao nosso Salvador levado aos céus Cristo, isto é, ter-lhe doado a suma glória e constituído Rei e Senhor do mundo e da Igreja; assim o mesmo Deus e Pai celeste, que economicamente refere a suma majestade do Numén lesada, diz-se ter feito a seu Filho pecado, isto é, tê-lo ordenado como vítima piacular para executar a obra da Redenção. 3. para que ninguém de fato estimasse que Cristo se tornou obnoxio a estas penas por causa de si, recomenda perifrasticamente a sua inocência e santidade apropriadamente enquanto diz: àquele que não conhecera pecado, usando uma elegante antanacláse; pois de um modo não conheceu o pecado, de outro modo foi tornado pecado; não conheceu o pecado praticamente, por notícia experimental e aprovativa, como conhecer em Heb. muitas vezes é amar, ter, usar, porque foi prorsus [totalmente] imune de toda mancha de vício, e nenhum comércio jamais houve entre ele e o pecado, quer para o admitir quer para o aprovar; mas todavia é dito retamente tornado pecado por constituição jurídica e forense porque as penas do pecado lhe são impostas como a um Fiador; não conheceu o pecado inerentemente, mas tornou-se imputativamente; a saber, como o pecado pode ser visto de dois modos: ou quanto à mancha e viciosidade inerente, ou quanto à culpa e reato consequente do juízo de Deus; o primeiro como está no predicado da qualidade porque infecta o próprio sujeito, o posterior como está no predicamento da Relação porque tem σχέσιν [relação] com o juízo de Deus que vinga as maldades; no sentido anterior Cristo não conheceu o pecado porque foi ἄκακος [inocente] e ἀμίαντος [imaculado] Santo, imò a própria santidade, em cuja boca fraude nenhuma houve, e no qual pecado nenhum foi encontrado; mas no sentido posterior tornou-se pecado, porque embora não tenha feito isto e não tenha tido a mancha, todavia levou o reato e as penas dele. De onde se colhe não obscuramente a verdade que buscamos; Pois se plenamente inocente e nada de tal tendo merecido por si, todavia sustentou penas gravíssimas à semelhança de uma vítima piacular por nós, certamente não apenas para o exemplo, pois nada haveria necessidade de se tornar pecado por isso, mas deve ser dito morto para a Satisfação.

XXXIV. 4. Finalmente, isto mesmo comprova o fim pelo qual se diz ter sido tornado pecado: para que fôssemos Justiça de Deus nele, a saber, para que compareçamos justos diante de Deus, e certamente por uma justiça não inerente a nós, mas que, estando em Cristo, nos é todavia imputada por Deus por meio da fé; pois nem temerariamente o Apóstolo acrescenta ἐν αὐτῷ [nele], mas para significar que somos justificados não por uma justiça própria ou inerente, mas apenas alheia e imputada, o que o Apóstolo prova fusamente [extensamente] aos Rom. c. iii. & iv. e na Epíst. aos Gal. ii. & iii.: como portanto somos ditos tornar-nos Justiça em Cristo por imputação, porque por causa da justiça de Cristo apreendida por nós pela fé e imputada por Deus somos pronunciados justos perante ele; assim vicitfim [por sua vez], para que a razão da antítese conste, ele se tornou pecado por nós por imputação, porque o nosso reato, pelo qual no juízo de Deus estávamos presos, foi lançado sobre ele como nosso garantidor para que levasse as penas a ele devidas: eximiamente Agostinho em Ench. ad Laur. cap. 41. expõe esta passagem: Ele mesmo pecado e nós Justiça, nem nossa mas de Deus, nem em nós mas nele, assim como ele mesmo pecado, não seu mas nosso, nem em si mas em nós foi tornado. Assim, a saber, por admirável permuta, recebe em si os nossos males para nos doar os seus bens; recebeu a miséria para doar a misericórdia; recebeu a maldição para nos fazer compotes [participantes] de sua bênção; recebeu a morte para conferir a vida; recebeu o pecado para repartir a justiça. Embora de fato esta dupla comutação entre si convenha nisto: primeiro, que em ambas algo alheio, pela estimação do juízo divino, é transferido para a pessoa, cuja transferência não é aberração do juízo, mas aquela disposição pela qual, por causa de algo prestado por outro, se te atribui um pouco como se tu mesmo fosses aquela pessoa da qual surgiu aquele fato: por causa do nosso pecado a morte foi imposta a Cristo como se tivesse pecado, e por causa da Justiça de Cristo a vida e a herança nos são conferidas como se fôssemos justos e tivéssemos cumprido a lei. Depois, que em ambas deve ter havido nexo entre estas pessoas; pois nem a Cristo puderam ser imputados os nossos pecados a menos que ele estivesse unido conosco tanto pelo vínculo da mesma natureza quanto pela esponsal [garantia] voluntária; nem a Justiça de Cristo nos seria imputada a menos que tivéssemos coalescido em um só corpo com ele. Todavia, diferem longamente nisto: que a imputação feita a Cristo foi por Justiça, e a nós por misericórdia; nele o pecado é transferido mas para ser abolido, em nós a Justiça mas para ser conservada; nele a maldição mas para ser absorvida, em nós a bênção mas para ser continuada; nele as sordes [sujeiras] mas para serem lançadas no profundo, em nós a veste nova do primogênito mas para ser vestida; hinc [daqui] é que nós podemos ser ditos verdadeiramente justos e filhos de Deus, mas nem por isso Cristo ou pecador ou filho da ira, porque nem teve pecado de si nem a ira de Deus permaneceu, mas apenas passou sobre ele.

XXXV. Embora todavia a verdade celeste fulgure aqui mais clara que a luz meridiana, não faltam todavia os seus cavilos aos Adversários, com os quais tentam obscurecê-la e, se puder ser, extingui-la: Dizem portanto 1. que não se pode, pelo fato de Cristo ser dito pecado, inferir a sub-rogação ou da pena ou da pessoa, porque como pecado, quando denota aflição, às vezes nota apenas uma aflição de tal modo que lhe seja infligida por ocasião de algum delito de fato, todavia entrementes não tenha a razão de pena propriamente dita; assim também quando é usada para a voz concreta de pecador, pode também significar aquele que é afligido apenas por ocasião de algum pecado. Imò, para que alguém possa ser dito pecado ou pecador, nem sequer se requer inteiramente que a aflição que sofre por ocasião de algum delito lhe seja infligida; basta que ele seja tratado de tal modo como os pecadores costumam ser tratados e merecem, e adeo [por conseguinte] sofra aquilo que outrora costuma ser matéria de pena; assim a voz de pecador é usada em 1. Reis i. 21., onde Bate-Seba diz a Davi: E será que, quando o meu Senhor Rei dormir com seus pais, eu e o meu filho Salomão seremos pecadores: isto é, seremos tratados como pecadores e seremos perdidos; o mesmo também ocorre na voz Justiça oposta ao pecado, a qual, como em outros casos é usada pelo efeito ou prêmio da Justiça, é atribuída também àqueles que recebem aquilo que outrora costuma ser o efeito e prêmio da justiça ou que são tratados semelhantemente como justos, nenhuma razão havendo daquilo que se faz por ocasião da justiça prestada por alguém ou em graça de compensar alguma piedade; e que esta significação tem lugar em toda parte onde se trata de nossa justificação pela fé. 2. Defendem portanto que Cristo é dito tornado pecado por isso, porque foi tido como pecador, Deus assim permitindo para que fosse morto pelos homens com morte atroz e infame como o pior dos homens. Assim Socino l. 1. c. 8. & Crellius con. Grotius.

XXXVI. Mas não é difícil afugentar estas névoas que os lucífugos se esforçam por obduzir para obscurecer a verdade: pois 1. supõe-se gratuitamente e não se prova que pecado não note aflição que seja infligida por ocasião de delito de fato, mas que todavia não tenha a razão de pena; pois em lugar algum tal significação ocorrerá entre os Escritores Sagrados; imò, é tomada constantemente pela calamidade que é imposta em pena do pecado; consultem-se as passagens Gên. iv. 7., Num. xii. 11. & xxxii. 23., Lam. iii. 39. & iv. 6. & v. 7., Zac. xiv. 19.; nem se pode provar o contrário de 1. Reis i. 21., pois patetia pela série de todo o capítulo que Bate-Seba quer isto: não apenas que ela com seu filho seria maltratada como pecadora, mas envolveria também a consideração de algum crime, embora fictício e falso, como causa meritória das penas a serem levadas por eles, a saber, de ocupar o reino e adeo [consequentemente] de lesa-majestade do rei Adonias, como patetia pelo vers. 10. 12. 13. Igualmente falso é que a voz Justiça seja tomada pelo benefício que outrora costuma ser efeito ou prêmio da justiça, embora seja conferido sem qualquer respeito à justiça prestada por alguém, pois como o juízo de Deus é segundo a verdade, Rom. ii. 2., não pode pronunciar Justos ou ter por justos aqueles que são destituídos de toda Justiça tanto sua quanto alheia; nem jamais poderão provar que isto se obtém no negócio de nossa justificação, imò, quaisquer passagens que falam dela, todas elas ou exprimem abertamente ou supõem a Justiça imputada de Cristo e o mérito; como pode patetear pela colação das passagens.

XXXVII. Erroneamente portanto acrescentam 2. que estas palavras não conotam outra coisa senão que Cristo foi tido e tratado como pecador; pois esta gélida exposição por isso 1. é suficientemente retundida [rebatida]: porque não se diz apenas que foi tido como pecado, mas feito, isto é, constituído; nem feito pelos homens mas pelo próprio Deus; acaso Deus o fez ser tido como pecado e ímpio pelos homens? imò, pela voz celeste e pelos milagres editos agiu de tal modo que fizesse a inocência de Cristo testemunhada a todos: outra coisa portanto é falar do Juízo e estimação dos homens, outra coisa do juízo e ordenação de Deus; aquela glosa do Adversário pretende apenas isto, mas a frase Paulina conota disertamente [claramente] aquilo: acrescenta também que em Is. liii. 10. se atribui ao próprio Cristo o fato de ter posto a sua alma como אשם ou que se fez pecado; acaso agiu para isso para ser tido como execrável e celerado? Longe esteja. 2. refuta-se também isto mesmo pela antítese de Paulo: opõe a saber pecado e justiça de tal modo que diga que somos tornados justiça em Cristo do mesmo modo que ele se tornou pecado por nós: ora, somos Justiça não apenas pela falsa estimação dos homens porque somos tidos por justos — imò somos considerados como escória do mundo e cabeças sagradas e devotas —, mas pela verdadeira e certa declaração de Deus enquanto ele nos justifica reipasa [na realidade] por causa da Justiça de Cristo a nós imputada, e nos liberta das penas iminentes: assim, de modo plenamente paritário [igual], Cristo se tornou pecado não porque foi tido à semelhança de pecador, mas porque verdadeiramente, pelo juízo de Deus, o nosso reato foi lançado sobre ele para que, levando-o, nos libertasse dele. E estas coisas sejam ditas até aqui.

Bernardo Epíst. cxc. ad Inocêncio.

O homem que deveu, o Homem que pagou: Pois se um, diz ele, morreu por todos, logo todos morreram, para que videlicet [evidentemente] a satisfação de um seja imputada a todos, assim como aquele único levou os pecados de todos; nem se encontre já um que pecou, e outro que satisfez; porque a cabeça e o corpo são um só Cristo, etc.

COROLÁRIOS DO RESPONDENTE

I. Acaso Cristo, para satisfazer por nós, devia ser verdadeiro Deus? Afirmativo. II. Acaso o fundamento de nossa Justificação perante Deus é apenas a Justiça de Cristo a nós imputada, sem qualquer justiça habitual e inerente por parte da infusão de Deus ou prestação de nossa parte? Afirmativo. III. Acaso somos ditos ser justificados retamente apenas pela fé, embora ela mesma nunca esteja sozinha nem possa estar? Afirmativo. IV. Acaso a fé que apreende a Satisfação de Cristo é causa impulsiva da Eleição? Negativo. V. Acaso a justificação dos fiéis é imutável? Afirmativo. VI. Acaso o fiel pode estar certo de sua justificação e salvação? Afirmativo.