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DÉCIMA DISPUTA. Segunda Parte SOBRE A VERACIDADE DA SATISFAÇÃO DE CRISTO.

Respondente: PAULO COULEZ, de Metz.

I. Na disputa anterior, vimos e examinamos as razões pelas quais os Adversários tentam provar que a Satisfação teria sido impossível da parte de Deus e de Cristo; resta agora submeter ao exame aquelas com as quais se esforçam para demonstrar que, da parte da própria pena e dos homens culpados, ela não poderia ter ocorrido verdadeiramente, o que expediremos brevemente nesta Disputa, com o auxílio do bom Deus.

II. Sustentam, portanto, em razão da Pena, que a Satisfação foi impossível, movidos principalmente por esta razão: Aquele que não pagou o que nos era devido, não satisfez verdadeiramente por nós. Mas Cristo não pagou o que nos era devido: pois, pela justiça de Deus, era devida a morte eterna; Cristo, porém, não a submeteu, mas apenas uma temporal: Primeiro, porque a morte eterna não se ultrapassa; mas Cristo ressuscitou. Segundo, não há proporção entre o finito e o infinito; as penas de Cristo foram finitas no tempo, como a morte de três dias, e as nossas seriam intermináveis em qualquer tempo. III. Se ele tivesse sustentado a morte eterna, teria desesperado: pois o desespero e o remorso da consciência são a pena própria dos condenados, ou inseparavelmente ligada a ela, Is. LXVI. 24. e Marc. IX. 44., os quais sempre estiveram mui distantes de Cristo. Assim, nem quanto à quantidade, nem quanto à qualidade, as nossas penas e as de Cristo correspondem entre si. Este é o argumento palmar de que Socino e seus associados perpetuamente se utilizam. Socino o persegue extensamente na p. 3. c. 3. Ostorod. p. 2. c. 14. Catech. Racovi. de morte Christi, c. 8.

III. Resp. No entanto, há muitas coisas que podem ser replicadas a este argumento. 1. à Maior, por meio de uma limitação: Aquele que não paga o que outro deve, nem quanto à duração, nem quanto ao peso e valor de modo equipolente, esse de fato não satisfaz por ele, eu concedo, porque a satisfação pressupõe o sofrimento da pena devida; mas aquele que não paga o que outro deve quanto à duração, mas satisfaz quanto ao valor e ἰσοδυναμίαν [equivalência de poder], Nego, porque embora não seja a mesma coisa, contanto que se tenha o mesmo valor, é suficiente. Agora, quanto à menor: Cristo, embora não tenha sofrido a morte eterna quanto à duração, porque não podia, visto que necessariamente haveria de ressurgir; todavia, suportou a mesma equipolentemente, porque suportou dores sumas e intensíssimas que, embora tenham sido temporais e finitas em razão de si mesmas, possuíam, contudo, valor e peso infinito em razão da pessoa que sofria; pois não foi a paixão de um ψιλῆϛ ἀνθρώπου [mero homem], mas do θεανθρώπου [Homem-Deus], não de um simples homem, mas do verdadeiro Deus, que adquiriu para si a Igreja com o seu próprio sangue, Atos xx. 28., e assim, o que falta ao tempo finito é suprido pela condição da pessoa infinita, que acrescenta peso infinito à paixão temporal. Pois, assim como o pecado de Adão não foi em si eterno e infinito, mas, entretanto, teve forças de uma culpa infinita, sujeitando todo o gênero humano à condenação, porque ofendeu ao Deus eterno e infinito; assim também a morte de Cristo, finita quanto ao tempo, é infinita quanto ao valor, porque é a morte do Deus infinito; assim, ao mérito infinito do pecado e às penas infinitas devidas opõe-se o mérito infinito e a satisfação de Cristo; a razão da infinidade em ambos os casos é tomada de Deus, ou ofendido pelo pecado, ou satisfazendo pelo pecado. Assim, se essa morte não pode ser chamada propriamente eterna, uma vez que a eternidade em si denota uma duração indeterminada, que falta na morte de três dias, será retamente considerada, contudo, como equivalente à eterna, 1. pela dignidade da pessoa, que não foi apenas um homem santo e justo, mas também verdadeiro Deus. 2. pela gravidade da pena, que, embora tenha sido temporal, pela imensidão e crueza das angústias e tormentos, não foi de modo algum menor ou mais leve que a pena eterna. 3. pelo efeito, porque Cristo, por sua morte, livrou-nos da pena eterna devida a nós segundo a justiça e a verdade de Deus, e por isso sua morte deve ser equivalente à eterna.

IV. II. A menor pode ser simplesmente negada, a saber, que Cristo não teria pago o que nos era devido; pois os pecadores haviam merecido uma pena infinita, e Cristo a suportou; mas, dirás: a duração devida era infinita, ou seja, eterna, a qual Cristo nem suportou, nem pôde suportar. Resp. a infinidade da pena quanto à duração não era devida primariamente pela Criatura, mas apenas secundariamente e por um acidente da enfermidade do sujeito: pois se a criatura pecadora pudesse suportar penas infinitas quanto à atrocidade, não haveria necessidade de suportar a pena eterna; mas porque a Criatura finita não era capaz de penas atualmente infinitas, deveu haver nesta parte uma comutação de penas, para que aquelas que a severidade da justiça exigia como infinitas em atrocidade e intensidade, fossem infinitas apenas na duração. Agora, porém, em Cristo, a questão retornou à ordem natural da justiça; pois foi feita uma comutação das penas que deveriam ser suportadas por nós como infinitas quanto à duração, em penas infinitas em magnitude e intensidade; não que essa infinidade deva ser estimada simplesmente pela atrocidade e gravidade da coisa, o que nada de infinito pode recair sobre uma criatura humana, mas pela dignidade da pessoa divina que sofreu. A morte, portanto, será infinita não no tempo, mas no peso, não extensivamente, mas intensivamente, não em razão de si mesma, mas em razão do sujeito.

V. III. A pena de morte devida ao pecado pode ser considerada de dois modos: ou quanto à essência, ou quanto ao seu acidente e adjunto. No primeiro sentido, refere-se às penas infinitas, tantas quantas podem ser suportadas pela Criatura, tanto de dano quanto de sentido, as quais a justiça de Deus denuncia aos pecadores, tanto na privação do bem infinito, a saber, o desamparo de Deus e a separação de sua graça e glória, quanto na inflição do maior de todos os males, a saber, a sua maldição e ira, com gravíssimos tormentos do corpo e da alma; no segundo sentido, porém, possui a duração da pena eterna; pois acrescenta-se à pena ser eterna devido à condição do sujeito. Ora, Cristo sentiu a pena infinita quanto à própria substância da pena, porque a justiça de Deus nada pôde exigir, quer quanto à pena de dano, quer quanto à pena de sentido, que Cristo não tenha suportado plenamente: o dano, decerto, no desamparo de Deus, Salm. XXII. 2.; o sentido, por sua vez, no sofrimento da maldição e da ira, Gálatas III. 13., que é denotado pelo cálice amaríssimo que foi oferecido a Cristo para beber, Mat. XXVI.; mas não a suportou quanto ao acidente da duração eterna, porque não foi necessário, nem possível; não necessário, porque já havia satisfeito plenamente de outro modo; não possível, porque assim nem sequer teria satisfeito, pois quem está sempre pagando, nunca se pode dizer que terminou de pagar. Teve, portanto, a pena de Cristo o que foi essencial à pena, não o que foi acidental: pois isto ele nem deveu, nem pôde ter: Não deveu, porque a morte, pela pessoa infinita, já era de valor infinito; nem pôde também, primeiro pela indissolubilidade da união hipostática, porque foi impossível que o Filho de Deus fosse retido pela morte; pôde ser cercado pela morte, mas não pôde ser vencido e superado por ela; pôde ser pressionado, mas não oprimido; pôde ser abalado, mas não totalmente derrubado, porque o que o λόγος, Príncipe da vida, uma vez assumiu, nunca abandonou; 2. pela necessidade do cumprimento do ofício: pois quem pelo mérito da morte fora o Salvador, devia ser igualmente pela eficácia da vida; quem pelo sangue adquirira a salvação, devia aplicá-la e conferi-la pelo espírito através da ressurreição. 3. pela perfeita santidade da humanidade. Pois não podia acontecer que o Santo do Senhor visse a corrupção, Salm. XVI., nem era possível que o justo fosse detido pela morte, Atos II. 24. Portanto, embora não tenha suportado esta morte em razão da duração eterna, suportou-a, contudo, como infinita em razão da essência e do valor, de modo que nada se perdeu do preço por este caminho. Imensamente, pelo contrário, em vez de perder-se, a morte infinita de Cristo parece superar em algo a morte eterna devida a nós: pois as penas do inferno não são chamadas infinitas senão impropriamente, porque são compostas de vários momentos sucedendo-se uns aos outros, e o finito somado ao finito não faz o infinito, mas seriam melhor chamadas indefinidas: Mas a pessoa e a dignidade de Cristo é atualmente infinita. Visto, pois, que a estimativa da pena dependa da dignidade da pessoa que a sofria, sua morte deveu ser estimada como se fosse atualmente infinita; e uma morte atualmente infinita não apenas iguala, mas supera em proporção uma morte finita, por mais que esta seja multiplicada ou prolongada eternamente.

VI. Daí se pode responder facilmente às razões apresentadas. À primeira, que a morte eterna não se ultrapassa. Resp. se entendes por eterna aquela que é tal absolutamente e quanto à duração, confesso; se entendes por infinita aquela que é tal pelo valor e intensidade, nego. Certamente a morte é inexpugnável se considerada enquanto é infinita extensivamente e pela duração do tempo; mas se puder existir tal sujeito sobre o qual possa recair tamanho incremento de pena sem a sua destruição, a coisa não é impossível; e tal sujeito foi Cristo θεάνθρωπος [Homem-Deus], que não apenas suportou, mas também atravessou e superou todas as penas devidas a nós sem qualquer detrimento: pois pôde libertar tanto a si quanto a nós, como se nós mesmos tivéssemos suportado as mesmas.

VII. À segunda Resp. não há proporção entre o finito e o infinito se o finito e o infinito forem entendidos absoluta e totalmente; é falso se ambos forem entendidos apenas em certo sentido e comparativamente: Pois o que é finito em si pode ser dito infinito objetivamente, como o pecado é finito em razão do sujeito, a saber, o homem que peca, mas é chamado infinito em razão do objeto, a saber, Deus ofendido; assim, inversamente, dá-se algo finito em si que é infinito em respeito ao sujeito, como as paixões de Cristo são finitas em si, mas em razão de Cristo sofredor, que é pessoa divina e infinita, são infinitas. Assim, pode haver uma justa proporção entre as penas de Cristo e as nossas. Pois assim como a culpa, finita no tempo, mereceu pena infinita em razão do objeto infinito, a saber, Deus, contra quem foi cometida; assim a pena, finita no tempo, equivale à eterna por causa do sujeito infinito por quem foi tolerada. Assim, as penas devem ser vistas de dois modos: ou Fisicamente ou Metafisicamente, em razão da entidade que possuíram, e assim foram finitas, nem puderam ou deveram ser infinitas; ou Eticamente ou judicialmente, modo pelo qual deveram ser infinitas e de fato o foram: Mas aqui, como se trata de satisfação forense, a finitude, se assim se pode dizer, ou a infinitude das penas deve ser entendida segundo a estimativa forense, que não tem consideração pela entidade, como se vê no pecado, que às vezes não possui entidade alguma, nem formal nem materialmente, por exemplo, a omissão de um dever, e no entanto é grandemente estimada no foro; imão, quando se trata de um dever para com o Deus infinito, é estimada de certo modo infinitamente: pois quanto maior é a dignidade daquele que é ofendido, tanto mais se estima a ofensa, pois tanto menos ele deveria ter sido ofendido, e tanto mais há de indignidade na ofensa.

VIII. À terceira, sobre o desespero. Resp. Distingue novamente entre a essência da própria pena e o seu adjunto e consequente, o qual, conforme a razão do sujeito, é separável; seja conforme é infligida pelo Juiz, seja conforme é recebida pela Criatura, seja conforme é suportada na pessoa alheia do fiador, ou na própria pessoa do pecador. No primeiro sentido, o desespero e o remorso da consciência não pertencem às penas dos condenados: não são, de fato, da essência da pena considerada em si, mas apenas por modo de adjunto e consequentemente em razão do sujeito corrupto. Não se incluem na pena enquanto infligida pelo juiz, ou suportada pelo fiador, mas enquanto recebida pela criatura viciosa e culpada; assim, o desespero é um adjunto da pena que, conforme a razão do sujeito, é separável: pois se o condenado pudesse ultrapassar as penas, não desesperaria, mas porque sabe que durarão eternamente e que não brilha nenhuma fresta de esperança e liberdade, por isso desespera: Mas em Cristo foi muito diferente; não pôde recair sobre ele o Desespero, tanto porque sofria não os seus próprios pecados, mas os alheios, quanto porque sofria sem pecado algum, e finalmente porque estava seguro de sua preservação e libertação; por isso, em meio aos seus cruciamentos e angústias, sempre coloca sua confiança em Deus, Sl. XXII. 2. 3.

IX. E aqui, de passagem, antes de passarmos a outro ponto, deve-se repelir a atroz e terrível calúnia que os Pontifícios intentam contra nossos Doutores, como se atribuíssem desespero a Cristo, principalmente ao nosso Calvino em Harmon. Evang. ad Matt. cap. XXVII. 46. e Institut. lib. 2. c. 16. s. 10. e 11. e a Beza ad Matth. c. XXIV. 45. 46. Daí Estius em Matth. XXVII. diz que não faltaram neste tempo aqueles que ousassem vomitar uma blasfêmia inaudita contra Cristo, dizendo que ele desesperou na cruz e que por essa causa ele próprio foi condenado, blasfêmia que os ouvidos piedosos estremecem ao ouvir. E Genebrardo em Psl. XXII. pretende que, da voz emitida por Cristo, os Calvinistas colijam que Cristo desesperou na cruz, ou emitiu voz de quem desesperava, e que suportou até o desespero os terrores da morte e as dores do inferno, e as chamas e o suplício infernal após a morte. Assim Maldonat. in Matt. XXVII. Bellar. l. 4. de Christo, c. 8. e outros por toda parte, e não há hoje nenhum dos Monges que não jacte semelhantes calúnias contra os nossos, e sicofanticamente não lhes atribua a sentença sobre o desespero de Cristo.

X. Na verdade, se suas mentes não estivessem cegadas por um ódio insano, poderiam facilmente dissipar a treva de tão nefandas criminações; pois nada de mais falso poderia ser dito, nada mais alheio à mente dos nossos, e mesmo às suas próprias palavras: inspecionem-se apenas os lugares, e a coisa poderá ser patente a qualquer um. Primeiro, o que Calvino objeta a si mesmo na pessoa do Adversário por μίμησιν [imitação/mimetismo], eles o atribuem a ele como sua afirmação; as palavras são claras: é absurdo que tenha escapado de Cristo uma voz de desespero, como quem diz: sei que haverá quem afirme que aqui estabeleço um absurdo e que atribuo desespero a Cristo; e submete: a solução é fácil, embora o sentido da carne apreendesse o extermínio, contudo a FÉ permaneceu fixa em seu coração, pela qual contemplou a Deus presente, de cuja ausência se queixa; assim ensina que Cristo concebeu o desamparo de Deus de tal modo que, ao mesmo tempo, reteve firmemente que Deus lhe era propício, o que prova pelos dois membros da queixa, na qual, antes de expressar a tentação, prefacia que se refugia em Deus como seu Deus; e assim, com o escudo da fé, repele fortemente aquela aparência de desamparo que se lhe apresentava em oposição: finalmente, neste duro cruciamento, sua fé foi ilesa, de modo que, deplorando o estar desamparado, todavia confiava no auxílio próximo de Deus. Mas abre sua mente ainda muito mais claramente nas Instit. lib. 2. c. 16. s. 12. enquanto, entre outras várias coisas que para aqui contribuem, nota principalmente isto: Ainda que por um momento a força do Espírito se tenha ocultado para dar lugar à enfermidade da carne, deve-se saber, contudo, que tal foi a tentação pelo sentido do medo da dor que não lutava contra a fé. E deste modo cumpriu-se o que se encontra no sermão de Pedro: não ser possível que ele fosse retido pelas dores da morte, porque sentindo-se como que desamparado por Deus, nem por um pouquinho desviou-se da confiança nesta bondade; o que ensina aquela célebre invocação na qual, pela veemência da dor, clamou: Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? Pois embora se angustie acima da medida, não deixa, contudo, de chamar de seu Deus àquele por quem exclama ter sido desamparado. Assim no Catech. Sect. 10. Embora se angustiasse de medo, e quase desfalecesse de ânimo, todavia não abandona a esperança diante daquela grave mágoa: por isso, aquela mágoa difere em muitos modos daquela ansiedade que os pecadores têm na consciência, de quem Deus irado exige as penas, porque o que nele foi temporário, neles é perpétuo, e o que o picou à semelhança de um aguilhão, neles é espada mortífera. Mas o que é principal: Cristo não deixou de ter ESPERANÇA em Deus, embora grandemente pavoroso e reduzido ao sumo angústia; os pecadores, porém, a quem Deus condena, desesperando da benevolência dele, apenas bramam manifestamente contra ele e lançam blasfêmias. Se quem assim fala deve ser dito ter atribuído desespero a Cristo, julguem todos.

XI. A mente de Beza não é outra; pois em Matt. XXVII. 46. nada tem sobre desespero, nem explica o lugar mais extensamente, mas remete ao lugar de Heb. v. 7., onde executou toda a questão solidissimamente; mas quão distante esteve da opinião que se lhe atribui, ensinam as palavras que acrescenta ao final da dissertação. "Na verdade, em todas estas coisas, mantenhamos duas: a saber, que estas coisas não procedem de qualquer desconfiança, mas do veementíssimo sentido da dor; depois, que as partes singulares desta ação devem ser de tal modo consideradas que julguemos pelo fim e pela coisa toda; pois nem naquela cogitação (que, todavia, ela mesma, como disse, foi isenta de todo pecado e vício) deteve-se de tal modo que logo uma ESPERANÇA invicta não o erguesse; pois o mesmo que, percutido, diz: 'que direi? livra-me desta hora', no mesmo teor submete: 'mas por isso vim para esta hora'; o que pede três vezes: 'Pai, passa de mim este cálice', acrescenta: 'seja feito o que tu queres'; o que vocifera estar desamparado, contudo interpela a Deus como seu Deus'. Se quiséssemos voltar os olhos aos próprios Adversários, quão mais justa seria a ocasião de censurá-los, que falaram nesta parte muito mais duramente que Calvino e Beza. Veja-se Maldonat. em Matt. XXVII. Ferus no mesmo lugar, Cusano sobre os cruciamentos de Cristo, Arias Montan. sobre a paixão de Cristo no horto lib. 5. de regenera. Ada. c. 23. e não poucos outros.

XII. Mas do desvio de volta ao caminho. Contra a nossa resposta, os Adversários replicam muitas coisas. 1. Se fosse verdade que a infinitude da Pessoa contribuiu para a infinitude da pena, seguir-se-ia, portanto, que por qualquer pena levíssima tomada de Cristo a Justiça de Deus poderia ter sido satisfeita, de modo que não teria sido necessário que ele fosse afligido por tão cruéis tormentos: pois este peso poderia ser acrescentado pela Deidade eterna mesmo a uma pena levíssima. Assim diz Socino; acrescenta Gittichius contra Lucium que, se uma gota de sangue foi suficiente, as demais foram derramadas em vão, e que Deus foi cruelíssimo por ter exigido mais do que era devido. Resp. Negamos a consequência. Pois embora qualquer paixão de Cristo tenha tido valor infinito subjetivamente, apenas a morte denunciada pela Lei teve valor infinito objetivamente em respeito ao juiz que a infligia; por isso, o mínimo cruciamento de Cristo ou uma gotícula de sangue não pôde bastar para a plena satisfação, porque não teve a razão de maldição e de pena correspondente ao pecado. Nem todo sofrimento é satisfação, ainda que uma pessoa infinita sofra, mas apenas aquele que é conveniente e que concorda com a Justiça de Deus, a sentença da lei, a feda e gravidade do pecado e as figuras precedentes. A dignidade da pessoa que sofre pode, decerto, aumentar a dignidade da pena que ela sofre, para que seja considerada tanto mais grave quanto mais digna e ilustre é a pessoa que sofre, mas não pode compensar a essência ou a própria espécie da pena: pois a quantidade de uma espécie aumentada imensamente não lhe confere a natureza de outra espécie; aumenta a natureza de um bruto infinitamente, nem por isso terás a perfeição de um homem. Não, portanto, por qualquer pena, mas apenas por aquela que havíamos merecido e que a Lei denunciava, a saber, a morte, pôde-se satisfazer por nós. Longe esteja, pois, que Deus seja por isso acusado de crueldade por ter exigido a morte; pelo contrário, no exercício da justiça, há o que admiremos: o salutar temperamento da bondade e misericórdia de Deus, que, embora pudesse exigir de nós a própria pena de morte, contentou-se com uma vicária. 2. Nesta causa não se deve dar lugar aos nossos pensamentos, nem tanto buscar o que poderia ter sido feito, mas o que Deus quis que fosse feito, e o que de fato foi feito; por isso, aqui se deve compor o decreto de Deus com a consideração da qualidade da pessoa de Cristo, e não separar um do outro: pois é certo que aqui Deus quis que se satisfizesse a sua justiça, não por uma ou outra obra de Cristo, mas por muitas conjuntamente, e nomeadamente pelas paixões e morte dele, de sorte que todas juntas constituam um só δικαίωμα [preceito de justiça] e a mais absoluta razão da satisfação infinita.

XIII. E daqui patet quão vão e falso é aquele dito dos Escolásticos, pelo qual pretendem que uma única gota do sangue de Cristo poderia ter bastado para redimir os homens, para daí, evidentemente, construírem o tesouro de suas Indulgências, no qual sustentam que o restante da abundância do sangue foi depositado e é dispensado por Pedro e seus Sucessores para a remissão parcial ou total dos pecados. Pois, visto que a Escritura tantas vezes testifica que a morte de Cristo foi necessária, tanto por causa da justiça imutável de Deus, Rom. I. 32. e VI. 23., quanto por causa de sua infalível verdade, Gen. II. 17. Ezeq. XVIII., quem acreditaria que um suplício menor poderia ter bastado? A menos que queiramos acusar Deus de ter exigido demais de seu filho, o que é ímpio até de pensar; aquela αἱματεκχυσία [derramamento de sangue], por sua vez, de que fala o Apóstolo, Hebr. IX. 22., não denota simplesmente qualquer derramamento de sangue, mas aquele que traz consigo a morte, qual era o derramamento de sangue dos animais sob o Antigo Testamento, ao qual o Apóstolo alude ali mesmo.

XIV. II. Exceção. A dignidade da pessoa nada confere para a infinidade da pena porque não haveria acepção de pessoas junto a Deus, Rom. II. 11.; ora, se isto se mantém quando se deixa lugar à sua misericórdia, o que será, afinal, quando se trata de irrogar a pena segundo a justiça, ou antes, segundo o prescrito da severidade mais absoluta? Acrescenta Socino que é muito suspeito o que se toma como concedido, que a leve pena de um Príncipe seja do mesmo valor que a gravíssima de um homem plebeu; imão, ele crê que é injusta aquela Lei que pune levemente o mesmo delito num príncipe, mas gravissimamente num plebeu. Resp. 1. Negamos a consequência. Embora não se dê acepção de pessoas junto a Deus, não se segue que as paixões de Cristo não tenham valor infinito pela dignidade da pessoa, porque uma coisa é a προσωποληψία [acepção de pessoas] que Deus afasta de si, e outra a consideração da pessoa do λόγος na estimativa jurídica da satisfação: pois, em respeito à primeira, πρόσωπον [pessoa/rosto] não significa o objeto em si amado ou rejeitado, ou o próprio homem, a quem chamamos pessoa; mas denota o motivo ou alguma qualidade externa pela qual somos induzidos a escolher ou rejeitar aquilo; mas porque o rosto do homem é nele o que há de mais ilustre e conspícuo, que primeiro de tudo ocorre aos olhos de quem olha, por isso é chamado πρόσωπον, como se pode ver naquela elegante alusão de Nazianzeno no poema ἐϛ γυναικῶν καλλοπιζομένων [sobre as mulheres que se enfeitam], onde as exorta a deixarem o insano estudo de pintar a face, distinguindo a face nativa da máscara adotiva e sobreposta:

μηδὲ θεῦ μορφὰϛ ἐπαλείφετε χρώμασιν αἰσχροῖϛ ὥστε προσωπεῖα καὶ χὐ πρόσωπα φέρειν. [Nem pinteis com cores feias as formas de Deus, de modo a carregar máscaras e não rostos.]

Daí, πρόσωπον é usado pelo estado externo do homem, ou por alguma qualidade da pessoa ou da coisa que está fora da causa de que se trata e que de modo algum pertence ao seu peso; por exemplo, quando por causa da nobreza e do poder um é absolvido embora culpado, e outro, porém, por causa da penúria e miséria é condenado, embora de resto sua causa fosse melhor e mais justa; esta é a verdadeira prosopolepsia, que é sempre posta como vício e é severamente proibida por Deus por toda parte, Lev. XIX. 15. não aceitarás a face do pobre, nem honrarás a face do grande no juízo; com justiça julgarás o teu próximo. Assim Deut. XIX. 15. e em outros lugares frequentes. Mas, na verdade, a dignidade da pessoa de que falamos não é πρόσωπον ou alguma qualidade externa que não faça ao caso; imão, aqui a pessoa do λόγος dá um peso muito maior às suas próprias paixões, uma vez que acrescenta peso e valor de λύτρον [resgate]: pois, visto que as ações e paixões pertencem aos supostos [pessoas], delas também retiram sua estimativa. Uma coisa é, portanto, não aceitar o πρόσωπον, isto é, o rosto, o que é vicioso e corretamente se nega de Deus; outra é respeitar a ὑπόστασιν [hipóstase] ou a pessoa, o que é justo e retamente se atribui a Deus.

XV. II. R. supõe-se aqui uma falsa hipótese pelo Adversário, como se a dignidade da pessoa nada fizesse quer para diminuir o pecado, quer para aumentar a pena; pois quem pode ignorar que o réu do pecado cresce conforme a pequenez do que ofende e a majestade do ofendido, ou daquele contra quem se peca; e, inversamente, o valor da pena cresce pela dignidade de quem sofre? por exemplo, se algum plebeu ou um vil homúnculo lesa o Rei, o pecado é considerado muito mais grave do que se o Rei ou um Príncipe fizesse injúria a um súdito; assim, se algum Rei sofre, seu sofrimento é estimado em muito mais do que se fosse o menor dentre a plebe. Quanto maior é a dignidade daquele que é punido, tanto mais se estima a pena que ele sofre, pois tanto menos ele devia ser punido, e tanto mais há na pena de indignidade; ora, a dignidade da pessoa divina dotada de essência é infinita; pois que forma pode ser mais digna que a forma de Deus? Mas Cristo estava na forma de Deus Phil. II. ἴσα τῷ θεῷ igualdades, isto é, prorsus igual a Deus; Ele, porém, esvaziou-se a tal ponto que assumiu a forma oposta, a saber, de servo, e não contente com esse grau de esvaziamento, baixou-se àquela obediência que ninguém exige de um servo; e sofreu voluntariamente o suplício da cruz, atrociíssimo e maldito pela Lei de Deus, para obedecer ao Pai e nos livrar da maldição da Lei; assim, nada se pôde exigir por direito que faltasse para a estimativa infinita da pena. 3. A pena ou é infligida ao próprio pecador na própria pessoa, ou ao fiador na pessoa alheia; a dignidade da pessoa não vale, decerto, no réu sofredor, porque a mesma que está no pagador estava no pecador, e o que pode ser considerado na pena para sua diminuição é olhado no pecado para sua intensificação; mas no fiador vale, porque ele satisfaz não pelos seus próprios, mas pelos delitos alheios. Portanto, se um Rei é punido pelos súditos, a pena que nos súditos deveria ser de morte, no Rei, pela dignidade da pessoa, será comutada em exílio ou cárcere. Por que não, então, aqui a dignidade não finita, mas infinita da pessoa de Cristo não poderia ter acrescentado peso às suas paixões, de sorte que o que pela duração deveria ser eterno, fosse absolvido num breve espaço de tempo? Certamente a Escritura, não sem razão, tantas vezes nos remete a esta consideração da pessoa, para que reconheçamos o peso infinito do mérito e da satisfação de Cristo, como quando diz que Deus adquiriu a Igreja com o seu sangue, Atos XX. 28. que o Senhor da glória foi crucificado, I. Cor. II. 8. que Cristo se ofereceu pelo espírito eterno, Heb. IX. 14. e que pela força de uma vida indissolúvel foi feito sacerdote não segundo o mandamento carnal, Heb. VII. 17. que o sangue de Jesus Cristo, o filho de Deus, nos purifica de todo pecado, I. João I. 7. 4. Supõe-se também falsamente aqui que Cristo tenha suportado penas mais leves do que as que nos eram devidas: pois não dizemos que, por causa da dignidade da pessoa, os nossos pecados foram vingados em Cristo mais levemente ou abaixo do condigno, mas que, tendo ele suportado todas as penas devidas a eles, dizemos meritoriamente que da dignidade da pessoa flui que elas sejam tidas por tamanho preço para nos redimir. Portanto, pensamos que aqui duas coisas devem ser unidas: o justo pagamento de todos os pecados e o valor infinito daquela satisfação; pois Isaías exclama, c. LIII., e Paulo, Gál. III., que todas as penas foram impostas, enquanto diz que ele se tornou κατάραν [maldição]; pois a maldição inclui todas as penas; que o valor dessas penas deve ser buscado na própria pessoa é patente pelo fato de que se diz que Deus adquiriu a Igreja com o seu sangue, e que Cristo se ofereceu pelo Espírito eterno, etc.

XVI. III. Exceção. A força divina de Cristo não poderia conferir infinitude às paixões, porque de outro modo seguir-se-ia que Cristo, enquanto foi Deus eterno, teria sofrido, quando não bastava que Cristo, que sofreu, fosse o Deus eterno, a menos que também enquanto é Deus eterno tivesse sofrido; mas como isso de modo algum pode ser dito, tampouco se pode igualmente buscar essa infinitude na dignidade da pessoa. R. para que as penas sejam infinitas, não é necessário que a própria Divindade tenha sofrido, a qual é impassível, mas basta que a pessoa que sofre seja divina; embora Cristo nada tenha sofrido enquanto é Deus, todavia aquela pessoa que é Deus suportou estas penas: não vale, portanto, a Consequência: Cristo, enquanto é Deus eterno, ou a própria Deidade eterna nele não pode sofrer, logo nem pode atribuir força ou preço aos sofrimentos que a natureza humana a ele pessoalmente unida sustentou, porque todas as ações e paixões pertencem à pessoa, e da dignidade da pessoa são estimadas e recebem denominação, como do princípio que [quod], embora pela condição destas devam ser atribuídas à natureza de onde têm origem, como princípio pelo qual [quo].

XVII. IV. Exceção. Mesmo que se supusesse que a natureza divina sofreu, não se seguiria que, por ser de virtude infinita, por isso tudo o que nela está fosse de virtude infinita, como as operações de Deus, por maiores que sejam, não são, contudo, de preço infinito, embora procedam daquele que é infinito: assim deve-se julgar das paixões, que não podem ser ditas imediatamente de preço infinito, embora estejam no infinito. Resp. Mas aqui os Adversários enganam e são enganados. 1. nunca dissemos que a própria Divindade sofreu ou pôde sofrer, mas apenas que a pessoa que sofreu foi Deus; Sofreu, portanto, aquele que é Deus, mas não enquanto Deus. 2. se Deus sofreu, segue-se bem que as paixões são infinitas em respeito à pessoa, embora sejam finitas em si mesmas; Deve-se distinguir, portanto, aqui a infinitude física, da qual o sujeito finito não é capaz, da infinitude moral, tal como costuma ser atendida no preço; as paixões são infinitas não no primeiro, mas no segundo sentido. 3. Do fato de Deus ser infinito, segue-se decerto que tudo o que está em Deus seja igualmente infinito, mas nem tudo o que procede de Deus é imediatamente infinito pela mesma razão: ora, as obras transeuntes de Deus procedem de Deus e não estão em Deus, de onde não é de admirar se não participam da mesma infinitude absoluta e simplesmente; entretanto, embora não sejam infinitas absoluta e simplesmente, participam contudo de alguma infinitude, se não na substância da obra, ao menos no modo da operação: assim, a criatura não é infinita, mas o at de criar é de virtude infinita; assim, embora as paixões de Cristo não tenham infinitude física, que não pode recair sobre nenhuma coisa criada, têm contudo a moral no preço e na estimativa, o que aqui basta.

XVIII. Assim foi a primeira objeção da parte da pena. Socino acrescenta uma segunda, buscada no fato de que a pena corporal não pode ser transferida para outro, ou paga por ele, porque a natureza não permite que a pena corporal de um, não diferentemente do ato de outro, se torne de outrem; ora, o que por sua própria natureza não pode ser feito, não se deve dizer que possa ser feito nem mesmo por Deus: assim diz ele na part. 3. cap. 4. Resp. Algo pode ser dito impossível pela natureza ou porque repugna de tal modo à natureza das coisas que envolve contradição, e assim é verdade que as coisas que pela natureza não podem ser feitas, tampouco por Deus podem ser feitas: Ou aquele impossível é dito em certo sentido, o que segundo o curso da natureza e os meios ordinários não pode ser feito, e assim se nega, porque Deus frequentemente opera acima da natureza, e o que parece absurdo e impossível ao homem animal não deixa de poder ser feito por Deus. 2. o que é de um pode tornar-se de outro ou por transfusão atual, ou por imputação judicial. A pena de um, não menos que o pecado de um, não pode tornar-se de outro por transfusão atual, porque é ação e paixão pessoal que não pode migrar de sujeito para sujeito; mas nada obsta a que se torne de outro por imputação forense e judicial; como um fiador pode assumir em si o débito do devedor e satisfazer por ele, sobrevindo a ratificação do Juiz ou do Credor, que imputa ao devedor o que o fiador pagou. Tal translação de penas ocorria outrora nos sacrifícios e vítimas, enquanto estas, sub-rogadas no lugar dos pecadores, sustentavam a pena de morte devida a eles. Assim Cristo transferiu para si tanto os pecados quanto as nossas penas; os pecados, decerto, imputativamente, porque foi tido no mesmo lugar como se fosse pecador; as penas, porém, realmente e inerentemente, porque quis sofrê-las todas em seu corpo. 3. a pena de um não pode tornar-se de outro, a saber, aquela que seja a mesma em número, eu concedo, mas a mesma em espécie e semelhança, nego. Ora, Cristo não suportou a mesma pena em número devida a nós, mas apenas uma semelhante. De resto, quanto ao que o Adversário argumenta aqui contra a possibilidade dessa translação e a justiça da substituição, visto que já foram discutidos na Disp. 11. sobre a Necess. da Satisf., abstemo-nos de dizer mais agora.

XIX. Passamos agora ao quarto Capítulo, no qual pretendem que, da parte dos homens, essa satisfação foi impossível; pois isso também os Adversários urgem principalmente com este argumento: Visto que a cada um dos pecadores era devida uma morte infinita, e até por um único pecado; logo, ou se exigiriam muitas mortes, imão inumeráveis infinitas, ou Cristo não satisfez verdadeira e plenamente por todos. Imagina, diz Socino p. 3. c. 4., que Cristo submeteu aquelas penas que qualquer um dos homens era obrigado a submeter por seus pecados, o que será isso para uma verdadeira e plena satisfação pelos pecados de todos? Quem jamais ouviu que, pagando o que um deve, se satisfaça por cada um, devendo cada um o mesmo? Assim em outro lugar: não é verdade que também aquilo que cada um de nós era obrigado a sofrer por seus delitos era algo infinito? etc. A infinitude, portanto, do preço que pudesse ser encontrada nos sofrimentos de Cristo, porque a natureza divina teria sofrido, poderia ter sido paga por um qualquer, e apenas um de nós ser livrado pelo seu poder do réu da morte eterna, visto que, como dito, qualquer um de nós devia por si aquela infinitude de preço, pelo que teria sido necessário que existissem tantas infinitudes de preço de penas quantos somos todos nós, e não apenas uma única, se todos houvéssemos de ser libertados pagando por outro aquilo que nós devíamos.

XX. Resp. A objeção parece arguta, mas não sólida. 1. Aqui se ataca abertamente a própria Escritura, que não uma vez, mas por toda parte ensina que um só Cristo morreu e sofreu por todos, Isa. LIII. 4. 5. 6. Deus lançou sobre ele as iniquidades de todos nós, e nossos pecados e dores carregou, 2. Cor. V. 14. se um morreu por todos, logo todos morreram, I. Ped. III. 18. O justo sofreu pelos injustos, mas peculiarmente Rom. V. 18., onde a única desobediência de Adão, que perdeu a todos os pósteros, é oposta ou dita responder à única obediência de Cristo, que salva a todos os fiéis, assim como pela desobediência daquele único homem muitos foram constituídos pecadores, assim pela obediência deste único justo muitos serão constituídos justos. Se, portanto, um único pecado de Adão pôde perder inúmeros, por que não também uma única justiça de Cristo poderá salvar inúmeros? assim, por uma única oblação diz-se serem consagrados os que são santificados, Heb. x. 14., e que Cristo deu a si mesmo como preço de redenção por todos, I. Tim. II. 6.; neste sentido é chamado ἱλασμὸς [propiciação] não apenas pelos nossos pecados, isto é, dos Judeus, mas também de todo o mundo, I. Joa. II. 2., o Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo, I. Joa. I. 29., que uma só vez foi oferecido para tirar os pecados de muitos, Heb. IX. 25. Logo, ou se dirá ser falsa a Escritura, que por toda parte propõe a justiça e morte de um único Cristo como ἀντίλυτρον [resgate correspondente] suficiente para a redenção de todos os Eleitos, ou será falsa a sentença de Socino.

XXI. Segundo, distinguimos o débito pecuniário do pagamento penal: naquele, porque o dinheiro é estimado absolutamente pela sua matéria e forma, por quem quer que seja possuído ou pago, é do mesmo valor; assim, se muitos devem cem numos cada um por si, por cada um deverão ser pagos outros tantos cem numos, e não cem serão suficientes por todos; mas nisto, porque há substituição de pessoa, e decerto de um inocente pelo culpado, ali a estimativa não é apenas da pena, mas também da pessoa; portanto, pela dignidade da pessoa cresce também a dignidade do preço. Embora um numo de ouro não valha mais na mão do Rei do que na do cativo, todavia a cabeça e a vida do Rei possuem mais preço que as de um vil escravo. Assim, muitas vezes a pena de um basta pelos delitos de muitos: um só Rei é permutado por inúmeros cativos, porque a dignidade da pessoa em muito prepondera sobre o número dos demais. Assim, a vida de Davi é estimada em mais que metade do exército, 2. Sam. XVIII. 3. Mas aqui não se trata do pagamento de dinheiro, no qual se atende simplesmente ao seu valor, mas da pena, na qual se estima a condição da pessoa; nem deve parecer admirável se um pôde bastar por muitos; como uma única serpente de bronze bastou para salvar todos os israelitas enfermos; um único bode emissário [ἀποπομπαῖος] bastou para levar ao deserto os pecados de todos os israelitas; uma única vítima bastava tanto pelo Sacerdote quanto pelo povo; pelo único sacrifício propiciatório anual podiam ser expiados os delitos de todo o povo, embora fossem requeridas tantas expiações quantos eram os israelitas, porque aquela única expiação era de tal modo de todos que, pela destinação e instituto de Deus, tornava-se também de cada um; por que não, então, uma única satisfação de um único Cristo, filho de Deus, bastaria pelos pecados do mundo? Assim, o que presta o procurador de alguma Cidade ou o Comissário em nome de toda a República, assim é considerado feito por ele, de sorte que todos e cada um nele se diz terem prestado aquilo mesmo. Assim, embora qualquer um necessite de todo o sol para sua iluminação, a luz de um só Sol basta para iluminar a todos.

XXII. III. Todo o raciocínio do Adversário peca pela falsa hipótese de que Cristo não é Deus: pois, posto que ele é Deus, a infinitude da pessoa exaure todas aquelas infinitudes que nos eram devidas; pois um só deve ser estimado em mais do que todos juntos, imão infinitamente mais, pois se multiplicares um, terás finalmente o número de todos os homens, mas a coleção de todos os homens, por mais que se multiplique, nunca igualará o poder e a dignidade de Cristo; assim, embora Cristo seja um só, e nós, por quem sofreu, quase inumeráveis, todavia poderá um satisfazer por todos, e sua única morte ser dada como ἀντίλυτρον por todas as mortes; pois a dignidade e infinitude da pessoa absorve todas as nossas infinitudes, porque estas não são absolutas, mas apenas comparadas e em certo sentido. IV. A isto também se acrescenta a consideração da aliança iniciada com Cristo, Is. XLIX. 6. 8. Mat. XX. 28., pela qual foi assim constituído pelo Pai que Cristo, por sua paixão, satisfizesse não por um ou outro, mas por todos os eleitos, e lhes merecesse a vida: pois assim foi feito pecado, para que fôssemos Justiça de Deus nele, 2. Cor. V. 21., assim foi feito κατάρα [maldição], para que alcançássemos a bênção, Gál. III. 13., assim o Pai lançou sobre ele as iniquidades de todos nós para que fôssemos curados por suas feridas, Isa. LIII. 6. Assim provou a morte por todos, para que pela morte destruísse aquele que tinha o império da morte, e libertasse a todos quantos, pelo medo da morte, estavam por toda a vida sujeitos à servidão; Hebr. II. 14. 15. Para que, portanto, do pecado de Adão, Deus assim o ordenando, todos e cada um dos homens fossem feitos réus da condenação eterna, condenados antes de nascidos, como diz agudamente Bernardo, sem que se devessem constituir tantas infinitudes distintas na transgressão do primeiro homem quantas as que derivam para nós; assim, na obediência de Cristo, temerariamente separarias as infinitudes dos nossos débitos, quando, por sua única paixão e morte, satisfez abundantemente às infinitudes, se assim se pode dizer, das nossas penas: de onde não se deve inquirir escrupulosamente sobre a proporção dessas penas; basta que mantenhamos isto: que Deus o constituiu Fiador por todos nós, para que, feita a paz pelo seu sangue, reconciliasse todas as coisas consigo, Col. I. 19.

XXIII. E assim foram resolvidas brevemente as coisas que os Adversários costumam trazer contra a veracidade da Satisfação e para demonstrar a sua impossibilidade: Resta que examinemos alguns Absurdos aos quais pretendem que nossa sentença esteja sujeita. 1. Absurdo. Se Cristo satisfez por nós, deveríamos mais a ele do que ao Pai celestial, que nada de tal prestou por nós; maior seria o amor e a misericórdia de Cristo para conosco do que os do Pai, porque aquele de ninguém nada exigiu, mas além disso moveu o Pai para que tivesse misericórdia de nós e se nos reconciliasse. Assim no Catech. Racov. c. 8. de morte Christi q. 16. Resp. erroneamente se opõem aqui coisas que devem ser unidas; pois embora a obra da Redenção seja terminativa e subjetivamente apenas do Filho, que assumiu nossa carne e nela sofreu, todavia não deixa de ser de toda a Trindade inchoativa e eficientemente, porque para essa obra concorreram as singulares pessoas da S. Trindade com a mesma justiça, sabedoria, poder e misericórdia; de onde, como nada Cristo fez senão pelo conselho comum de todos, Joa. XIV. 31., assim faço como me foi mandado pelo Pai, assim a mesma virtude se exerceu em sua execução. Portanto, o amor e a caridade são sumos em ambos os casos: do Pai, na missão e doação do filho; do Filho, na pronta e espontânea recepção desse encargo; se grande é a misericórdia do Filho para com o gênero humano, certamente o é também a do Pai; se se satisfez à justiça do Pai, certamente também à do Filho, porque essa satisfação não respeita simplesmente à pessoa do Pai, mas à divina Justiça, que é comum ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo.

XXIV. Instância. Mas não parece maior o amor daquele que pagou por nós do que o amor daquele que recebe o pagamento e que foi movido pela satisfação a ter misericórdia? Resp. Não se pode dizer que seja maior a caridade do Filho, que se deu a si mesmo, do que a caridade do Pai, que não poupou o filho, porque em ambos é suma e máxima. Pois como o Pai nada tenha de mais caro que o seu unigênito, no qual se compraz, Matth. III. 17., e a quem a Escritura chama filho do amor paterno, Col. I. 13., isto é, supremamente amado; certamente não pode deixar de ser máxima aquela caridade do Pai para conosco, que o moveu a entregar o filho por nós; de onde a Escritura celebra por toda parte esta caridade de Deus como suma e inenarrável, João III. 16. Rom. V. 8. I. Joa. IV. 9. Assim ele mesmo atesta ser imenso o amor do filho para conosco, quando diz ser este o ápice do amor: que alguém exponha a vida pelos amigos, João XV. 13. Mas Cristo quis morrer não pelos amigos, mas pelos inimigos; assim, se estas duas coisas forem comparadas — o Pai expondo à morte o filho diletíssimo e suas delícias, e o Filho submetendo-se à morte com suma alacridade — o que mais se pode dizer senão que o amor de ambos é sumo? nem se pode facilmente expor a quem devemos mais, porque a ambos devemos o infinito. Além disso, quanto ao que acrescentam, que o Pai foi movido à misericórdia pela satisfação do filho, nisso não falam com precisão suficiente, pois a satisfação está tão longe de ter movido a misericórdia que, antes, a misericórdia destinou a satisfação como o meio mais apropriado para alcançar o seu fim, a saber, a salvação dos Eleitos; pois assim diz João III. 16. que a missão é efeito do amor de Deus: amou Deus o mundo de tal maneira que deu o seu filho, etc. Nem certamente a destinação e missão do Redentor poderia proceder de outro lugar que não do sumo e intensíssimo amor de Deus para conosco; É verdade que a misericórdia e o amor de Deus, considerados efetivamente, pressupõem a satisfação, porque não poderia exercer-se gradualmente para conosco pelos efeitos da beneficência sem que antes se tivesse satisfeito à justiça; mas a misericórdia, considerada afetivamente, ou o amor de benevolência em Deus, deveu preceder a tudo isso, porque sem ele a satisfação não poderia ser destinada. Em vão, na verdade, o Adversário aqui retruca que o Filho ou teria estado irado, e assim teria necessitado de satisfação, ou não estaria irado, e assim teria dissentido do Pai; pois como a justiça do Pai e do Filho seja uma só, à qual se devia satisfazer, aqui tanto este quanto aquele deve ser dito irado, e que por isso necessitou de satisfação para aplacá-la; entretanto, porque aquela ira foi temperada pela benignidade, e Deus tinha misericórdia do gênero humano perdido e pensava em remi-lo, o Filho obedeceu voluntariamente ao Pai, e assim satisfeu à sua própria justiça lesada: o que, embora a razão humana e cega não capte, o Verbo expressamente ensina; e isto é indício não de discórdia hostil, mas antes de consenso e obediência; pois o Filho assumiu a morte não porque discordasse do Pai e favorecesse os homens mais do que o justo, mas para satisfazer à justiça de Deus e testificar uma perfeita ὁμόνοιαν [concórdia] com o Pai; para onde olha aquele dito do Salmista, Salm. XL. 9. Eis que venho, no rolo do livro está escrito de mim para que faça a tua vontade.

XXV. II. Absurdo. Se Cristo satisfeu por nós à Lei divina, logo não estamos mais obrigados a observar a Lei, pois aquele por quem o preço já foi pago uma vez não é obrigado a pagar de novo; mas o consequente é um absurdo, logo o antecedente também. Daqui concluem que a doutrina sobre a satisfação é perniciosa, abrindo aos homens uma janela para pecar, ou convidando-os à indolência no cultivo da piedade e tornando-os ociosos. Catech. Racov. c. 8. q. 17. Assim Volkelius li. v, c. 20. 21. inculca com frequência: Esta doutrina tem em si grande força para tornar os homens não apenas seguros e lentos no dever; mas também para impeli-los a todos os tipos de crimes. Pois se a justiça de Cristo nos é imputada como é de fato necessário, se foi prestada em nosso lugar, de modo algum haverá necessidade de nossa própria santidade, nem nada impedirá que, embora perseveremos nos pecados, todavia alcancemos a herança do reino celestial. etc. 22. Que causa há para que aquele que, convencido dessa satisfação e crendo que Cristo prestou a Deus o pagamento mais pleno por todos os pecados tanto já cometidos quanto por cometer futuramente, estime que deve pôr algum trabalho para repelir de si a impiedade e cultivar a justiça? Resp. Mas primeiro há o que nos congratulemos, que o Adversário lute com as mesmas armas com as quais outrora os inimigos da graça divina tentavam subverter a doutrina da Justificação gratuita que Paulo pregava, a saber, que se costurem almofadas para as consciências e se ensine aos homens a permanecerem no pecado para que a graça abunde, Rom. VI. 1. 2. Embora homens ímpios e perversos abusem desta doutrina salutar e a arrastem para um sentido pior, como se sabe que frequentemente distorcem as próprias Escrituras para a sua própria perdição, conforme o testemunho de Pedro, 2. Ped. III. 16., não se seguiria daí que isso de fato se siga de tal doutrina; imão, é o mais certo dos certos que nada menos do que isso se pode daí eliciar, uma vez que, pelo contrário, ela é o acúleo mais poderoso para a santidade, como logo se verá.

XXVI. III. A diversidade de Fins concilia otimamente a obediência de Cristo e a nossa; pois o que Cristo prestou por nós, certamente não somos obrigados a prestar pelo mesmo fim e pela mesma causa, a saber, para satisfazer e para adquirir a vida pelo direito da Lei observada, pois tendo Cristo feito isso uma vez por nós, nenhuma causa se pode dizer por que sejamos obrigados a fazer isso mesmo novamente; mas não se segue que por isso a obediência à Lei seja deixada livre e não necessária, porque embora por ela não devamos mais satisfazer, nem sequer possamos, todavia podem ser dadas várias outras causas que exigem de nós este empenho, não para que vivamos, mas porque vivemos, não para que adquiramos o direito, mas para que entremos na posse adquirida, não como causa de reinar, mas como caminho do reino: Assim Cristo suportou por nós a morte corpórea, e no entanto todos ainda estamos sujeitos à mesma morte, mas por um fim claramente diferente; pois essa morte não deve mais ser sofrida como pena do pecado, nem é infligida a nós por Deus do modo como Cristo a suportou, mas por outros vários fins que visam à glória de Deus e à nossa salvação, a saber, para que seja a total extinção dos restos do pecado e da corrupção nativa, nossa conformação ao exemplo de Cristo, que pelo mesmo caminho entrou em seu Reino, caminho e transição para a glória celestial prescritos pela sábia ordenação de Deus, etc. Assim, deve-se incumbir-se da nova obediência por toda a vida ainda, não para que por ela sejamos justificados perante o tribunal de Deus, ou mereçamos a vida eterna para nós ou para outros, mas para que testifiquemos nossa gratidão a Deus pelo benefício da salvação recebida, para que nos provemos como filhos verdadeiros e genuínos do Pai celestial renovados à sua imagem, para que nos conformemos a Cristo nossa cabeça tanto na vida quanto na morte, tanto agindo quanto sofrendo, para que glorifiquemos a Deus de todo o coração e com todas as forças, para que pelas boas obras firmemos cada dia mais nossa vocação e eleição e as tornemos mais testemunhadas às consciências, e se há outros fins desse gênero para a piedade e a justiça.

XXVII. Instância. Mas um débito pago uma vez pelo Fiador, de modo algum e sob pretexto de fim nenhum pode ser repetido por aquele em nome de quem foi pago uma vez; se, portanto, Cristo pagou uma vez, como pode isso mesmo ser repetido por nós? Resp. Embora se trate de obediência à Lei em ambos os casos, todavia não se pode dizer que seja o mesmo débito absolutamente: Pois a obediência outrora prescrita pela Lei difere diversamente da mesma conforme agora é prescrita no Evangelho. 1. na causa próxima, porque a Lei exige obediência perfeita a ser prestada pelas forças da natureza; o Evangelho, porém, requer de nós frutos do espírito procedentes da fé em Cristo Mediador e da nossa vida espiritual que temos nele e por ele. Logo, embora convenham na norma e forma externa, diferem tanto na causa próxima quanto a natureza e a graça, a justiça original inerente a Adão pela criação e a justiça de Cristo mediador imputada a nós pela fé. 2. no modo, porque pela lei Deus, como juiz justo, ou expõe a perfeição ou demanda o delinquente para a pena; mas pelo Evangelho, como Pai benigno e propício para conosco em Cristo, aceita clementemente os inícios que se apresentam como primícias da vida nova e perdoa graciosamente o que falta para a perfeição; 3. na forma, a Lei sozinha propriamente apenas exige o débito, porque não supre as forças para obedecer; o Evangelho, porém, não tanto exige quanto ergue para obedecer, infunde vida e torna pronto e idôneo para abraçar os mandamentos de Deus. 4. no fim, a obediência sob a lei é buscada para o mérito da vida, sob o Evangelho, porém, apenas para entrar na sua posse e contestar a gratidão: posto, porém, este quádruplo discrime, negamos que de modo algum seja absurdo ou incongruente que a obediência à Lei que Cristo prestou por nós para nos redimir, nós mesmos a prestemos a Deus e a Cristo Salvador não pelo teor da Lei, mas pela sentença do Evangelho.

XXVIII. Imão, dizemos que isto é tão consentâneo à razão e à vocação, e assim também à nossa condição, que de outro modo não poderíamos alcançar o fruto e o fim dos benefícios da nossa Redenção; pois para que nos redimiu senão para que, libertados do poder dos inimigos espirituais, sirvamos ao nosso Deus em santidade e justiça todos os dias da nossa vida, Luc. I. 74.? Por que Cristo carregou todos os nossos pecados em seu corpo sobre o madeiro, senão para que, mortos para o pecado, vivamos para a justiça, 1. Ped. II. 24? Por que nos lavou com o seu sangue senão para que, lavados por aquele precioso lavacro, conservemos nossas vestes, isto é, corações e consciências, imão também membros, imaculados das fotes do pecado e sirvamos ao Deus verdadeiro e vivo, Heb. IX. 14, 1. Tes. IV. 4? Por que nos salvou e fez a sua obra, senão para que, reformados para as boas obras, caminhemos nelas continuamente? Efés. II. 10. Por que nos redimiu da iniquidade e purificou para si um povo peculiar, senão para que, purificados das fotes, sejamos acesos pelo zelo de boas obras? Tit. II. 14. e preguemos as virtudes daquele que das trevas nos chamou para a sua luz admirável, 1. Ped. II. 9.? Fins estes que, entre outros, foram propostos a Cristo Salvador na nossa redenção.

XXIX. De onde patet quão falsamente pretendem os Adversários que, pela doutrina da satisfação, se abre uma janela para pecar e se fomenta a indolência e a ociosidade, quando a Escritura nunca propõe nenhum incentivo mais poderoso, nenhum ἀλεξιτήριον [antídoto] mais eficaz para a piedade e a santidade, e de fato não há nenhum maior do que esta preciosa satisfação de Cristo, e isto de diversos modos. Primeiro, pelo fim da morte de Cristo, pois como aqui este fim foi proposto a Cristo, não apenas para que satisfizesse por nós, mas também para que nos santificasse e nos tornasse seguidores de boas obras, oferecendo-nos um exemplo para seguirmos, 1. Ped. II. 18. Tit. II. 14., a menos que queiramos que Cristo tenha falhado em seu propósito e morrido em vão, é necessário que nos empenhemos na santidade; Acaso teria morrido pelos pecados para que permaneçamos nos pecados, ou não antes para que lhes enviemos uma despedida e não lhes sirvamos mais eternamente? Rom. VI. 18. E aqui retorcemos o símile de Socino contra ele mesmo; pois aquele que paga os débitos de outrem, quer seriamente, se de resto é amigo sincero, que este não contraia doravante nenhum débito alheio; assim é a vontade de Cristo nosso libertador: que, uma vez que satisfez por nós, não contraiamos novo débito e sejamos novamente sujeitos à ira divina; diz a todos o que outrora ao paralítico, João V. 14. Eis que estás curado e liberto, vai, não peques mais, para que não te aconteça algo pior. 2. pelo direito da redenção, pois de quem quer que sejamos redimidos, pelo direito da redenção estamos obrigados a servir e obedecer; esta razão é tocada por Zacarias, Luc. I. 74. e pelo Apóstolo, 1. Cor. VI. 19. 20. Fostes comprados por preço; glorificai, pois, a Deus no vosso corpo e no vosso espírito, os quais pertencem a Deus. 3. pelo benefício da remissão gratuita, pois quanto mais e maiores benefícios se recebem, tanto maior gratidão se deve; de onde Cristo diz, Luc. VII. 41. Perdoam-se-lhe muitos pecados, por isso amou muito; pois aquele a quem menos se perdoa, menos ama, e Sl. CXXX. 4. contigo está o perdão, para que sejas temido, e Sal. LXXXV. 8. fala paz ao seu povo, mas para que não volte mais à estultícia; pois nem se se dá a remissão do pecado passado, dá-se logo a permissão do futuro; o perdão dos atos cometidos não é impunidade para os por cometer, mas antes freio e obstáculo. 4. pela gravidade das penas e fealdade do pecado, se a Cristo custou tão caro o pagamento de nossos débitos, acaso os acumularemos doravante? Ou quereríamos ainda fover no seio os pecados que entregaram o melhor Redentor a tantos tormentos e contumélias? se tão feia é a mancha do pecado que não pôde ser lavada por nada senão pelo sangue do próprio Filho de Deus, acaso nós nos poluiremos voluntariamente com ela no futuro? Longe disso; pois isso seria crucificar o filho novamente e considerar profano o sangue do Testamento, o que o Apóstolo pronuncia como horrendo e alheio a toda remissão, Hebr. X. 29. 5. pela imensidão da ira divina, pois se tamanha foi a sua indignação que por nenhuma outra coisa senão pela morte do Unigênito pôde ser aplacada, acaso não reverenciaremos esta ira, ousaremos acendê-la novamente com os nossos pecados? não se nos apresentará continuamente quão tremendo é cair nas mãos do Deus vivo, Heb. x. 31.? 6. pela magnitude do amor divino: pois se ele nos perseguiu com tanto amor que nem o Pai poupou o filho por nós, nem o filho recusou submeter-se à morte, e decerto a mais cruel, acaso não é justo que amemos de volta, segundo as nossas forças, tão benigno Redentor, e se em outra coisa não podemos, ao menos nesta exibamos nossa gratidão? isto urge Paulo, 2. Cor. V. 14. O amor de Cristo nos constrange, para que, tendo concluído isto: se um morreu por todos, todos morreram, e ele morreu por todos para que os que vivem doravante não vivam para si, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou; Daqui se colige que a satisfação de Cristo não é almofada para a impiedade e negligência, mas o motivo mais eficaz para a santidade e a salutar medicina para nossas doenças espirituais, tanto ἀλεξίκακον [afastador de males] pela qual nossos pecados são curados e retirados, quanto προφυλακτικὸν [profilático] pela qual os futuros são precavidos e impedidos.

XXX. Tão longe está, portanto, que da posição do mérito e da Satisfação de Cristo devamos argumentar para a negação da obediência e da santidade própria, que, pelo contrário, estas duas conspiram amigabilissimamente e se copulam entre si por um nexo indissolúvel; posta decerto a Satisfação de Cristo por nós, não há necessidade de nossa santidade pessoal ou de boas obras para merecer a vida eterna, e nesse sentido são removidas por toda parte do negócio da salvação como opostas à graça e ao mérito de Cristo, Rom. XI. 6. Ef. II. 7. 8.; mas, contudo, elas são sempre necessárias para entrarmos na posse da salvação adquirida, e sob este respeito afirma-se repetidamente a necessidade da santidade e das boas obras, Ef. II. 10. Heb. XII. 14. De onde a Escritura, por toda parte, retira da Redenção que há em Cristo e da nossa Justificação gratuita por ele as exortações mais eficazes ao exercício da santidade e das boas obras, Tit. II. 12. 13. 14. I. Cor. VI. 20. 2. Cor. V. 14. etc. Como, então, poderá perseverar nos pecados e negligenciar o estudo da piedade aquele que estiver convencido desta satisfação prestada por Cristo por si e em seu lugar, visto que nenhuma parte lhes compete na Satisfação de Cristo aos que não enviam uma despedida ao pecado; e ninguém pode ser dela partícipe senão pela aplicação da verdadeira e viva fé, cuja companheira inseparável é o sério arrependimento, e o fruto certo a Caridade e o zelo da piedade, Gál. v. 6.

XXXI. Em vão aqui cavila Volkelius para destruir a aplicação da fé, l. 5. c. 21. Posta a Satisfação de Cristo, nenhuma outra aplicação seria necessária além daquela que a própria coisa traz consigo. Da mesma forma que, diz ele, quando por alguém foi pago de fato o débito, não é necessário que o devedor aplique a si aquele pagamento se quiser ser livre do débito, porque aquele a quem se pagou, tendo recebido de outrem o pagamento, já não pode por direito exigir aquele débito dele: assim, tendo sido prestados e pagos em nosso lugar a Deus os ofícios da piedade, não pode ele exigir os mesmos de nós mesmos, mas pela força de sua própria justiça e equidade é impelido, é impelido a aplicar a nós a justiça de Cristo e a nos pronunciar livres de prestar a mesma obediência. Resp. Pois, 1. não somos tanto nós aqui chamados à contenda, quanto a própria Escritura, que por toda parte propõe a fé como o instrumento aplicativo dos benefícios de Cristo, e sem o qual Cristo em nada aproveita; assim Ro. III. 24. 25. Cristo é ordenado por Deus como sacrifício de expiação, mas pela fé no seu sangue, para que ele seja justo e justificador daquele que tem fé em Jesus e c. IV. 16. é pela fé para que seja pela graça, etc. e vers. 24. o que lhe foi imputado para justiça não foi escrito apenas por causa dele, mas também por nossa causa, a quem será imputado, a saber, a nós que cremos naquele que ressuscitou dos mortos a Jesus N. S. assim João III. 16. 36. e por toda parte em outros lugares a fé é mencionada como órgão receptivo da justiça de Cristo e condição sem a qual Cristo teria morrido em vão; e certamente, como Cristo nos é alheio por natureza e está fora de nós, como poderia tornar-se nosso e ser por nós recebido, senão posta a condição sob a qual nos é prometido e oferecido? Acrescente-se que não se pode imputar a alguém como pago aquilo que outro prestou por ele, a menos que ele mesmo o queira, admita e aceite, pois a um conviva não se dá o benefício contra a vontade; máxime se a satisfação prestada por ele não for apenas exsolutiva [liberadora], mas também reconciliativa, como é omnino aquela que Cristo prestou por nós; Assim, deve-se distinguir uma dupla aceitação daquela satisfação: uma da parte de Deus, outra da parte de nós; aquela se faz pela graça, esta pela fé; a primeira é o fundamento da reconciliação, a segunda é o sentido e o argumento da mesma; ambas são necessárias e se conjungem por um nexo indissolúvel, pois assim como a fé não pode receber a justiça de Cristo senão quando sabe com certeza que foi admitida por Deus como λύτρον [resgate] por nós, assim Deus não admite a justiça de Cristo como preço de Redenção senão para os crentes e para aqueles que quiserem aplicá-la a si mesmos.

XXXII. III. Absurdo. Se Cristo satisfeu por todos, logo todos, mesmo os manifestamente ímpios, serão salvos; pois aqueles por quem o λύτρον foi pago uma vez, seriam injustamente entregues ao cárcere da condenação eterna. Assim Ostorod. Resp. 1. por concessão: damos que, se Cristo satisfez verdadeiramente por todos, todos também hão de ser salvos: nem podemos admitir a distinção daqueles que aqui distinguem entre a aquisição e impetração da salvação e a sua aplicação, como se aquela fosse mais ampla e esta mais estreita, aquela pertencesse a todos e cada um dos homens, e esta apenas aos fiéis; visto que na Escritura são de igual latitude e periferia, e por ninguém foi impetrada por Cristo a salvação que não lhe seja conferida de fato: Não negaria decerto que a Satisfação de Cristo seja suficientíssima para a redenção de todo o mundo, imão de muitos mundos, se existissem; mas uma coisa é falar da suficiência da Satisfação, outra do conselho e vontade de Quem Satisfaz. O primeiro pode ser concebido universalmente; o segundo, porém, não; porque não pôde querer satisfazer por todos sem que, por esse mesmo fato, se substituísse no lugar de todos e pagasse o λύτρον de morte devido. Ora, se sub-rogado de fato no lugar deles, suportou verdadeiramente a pena devida a eles, como pode a mesma pena ser exigida deles por direito, a qual, contudo, é exigida de todos os réprobos? Nem vale o que se diz: que quis satisfazer por eles apenas condicionalmente, não absolutamente: Pois ou prescreveu aquela condição como duvidosa e incerta dependendo do arbítrio humano, ou como certamente futura e por ele decretada, ou como certamente não futura e impossível, como não decretada por ele de quem somente pode ser efetuada; Se o primeiro, deverão ser admitidos com os socinianos os decretos de Deus condicionados e de evento duvidoso, o que prudentemente se sancionou pelos Sínodos da França como nefando; Se o segundo, todos e cada um serão certamente salvos, o que ninguém diria. Se o último, fingir-se-á que Deus quer e tenciona veementemente aquilo que, no entanto, sabe com certeza que nunca ocorrerá, visto que depende de uma condição que nunca existirá e, sob esse aspecto, impossível, o que, se convém suficientemente à suma sabedoria de Deus, deve ser julgado por todos; imão, assim nem sequer se diz retamente ter querido; Como, de fato, se pode dizer que Cristo quis o que tinha anexa uma condição impossível, e a qual ele mesmo conhecia como tal, imão, a qual ele decretou expressamente não dar, sendo ele o único que a poderia dar? Logo, deve-se chegar a dizer que Cristo de modo algum satisfeu verdadeiramente por todos; pois satisfez apenas por aqueles de quem foi feito Vaso e Cabeça; mas Cabeça e Vaso na aliança da graça foi constituído apenas para os Eleitos, que lhe foram dados pelo Pai e que dele mesmo são dados, João XVII. 6. De onde esta redenção e satisfação, embora às vezes se diga pertencer aos gêneros de indivíduos para distinguir a economia do V. e N. T., nunca, contudo, se estende aos indivíduos de cada gênero; imão, é restringida por toda parte ao povo de Cristo, Mat. I. 21., às ovelhas, João X. 11. 15. e XI. 51. 52., ao seu corpo, Ef. V. 25., a muitos, Matth. XX. 28. Rom. V. 18. 19.

XXXIII. IV. Absurdo. Posta a Satisfação de Cristo, a Glória e Onipotência de Deus são obscurecidas, pois Deus ou não quis perdoar nossos pecados sem satisfação, o que é contra a glória da Misericórdia, ou não pôde, o que é contra a glória da Onipotência, Ostorod. cap. 36. Acrescenta Gittichius que nossos pecados nada mais são do que ofensas à Majestade divina, e que qualquer homem, mesmo o mais vil, pode perdoar suas ofensas a outro não apenas sem violação da justiça, mas também com o máximo louvor de paciência e misericórdia. Resp. 1. Ambas as coisas são ditas verdadeiramente: tanto que não quis quanto que não pôde. Não pôde, primeiro, em respeito à Natureza, que, sendo santíssima, não pode tolerar o pecado, ou deixá-lo ir impune, sem que se negue a si mesma, Hab. I. 13. 2. em respeito à Justiça, que quer que se dê a cada um o que é seu, Rom. I. 32. 1. Tes. I. 6. 3. em respeito à Verdade, que denunciava esta pena ao pecado, Gênes. II. 17. Logo, não pôde por esta causa perdoar os pecados sem satisfação: e deste modo sua Onipotência de modo algum é obscurecida ou diminuída, pois Deus não pode isto por defeito de poder, mas por perfeição da natureza; caso contrário, negaria a si mesmo. Que não quis também é patente pela declaração da vontade feita no Verbo, onde consta que Deus protestou abertamente querer que o pecado seja punido com a morte: Nem por este modo se faz qualquer fraude à sua misericórdia, porque ele é de tal modo misericordioso que também é justo, e a justiça que exerce contra o pecado não obsta a que demonstre sua misericórdia para com o pecador. 2. O mesmo absurdo pode ser impingido à sentença dos Adversários; pois por igual razão inferirei que Deus ou é imisericordioso ou impotente se não salva eternamente quaisquer homens pecadores; pergunto, de fato, por que Deus não salva os homens impenitentes? Ou porque não pode, e assim é mais impotente que qualquer homúnculo, pois qualquer um que foi ofendido, por mais que não queira reconciliar-se aqui, pode contudo perdoar a culpa, imão também deve pelo prescrito de Cristo, Matth. V. 44. e XVIII. 21. 22. Ou porque não quer, e assim não será sumamente misericordioso. Se retrucarem que Deus não pode isto porque repugna à sua justiça, que não pode admitir pecadores impenitentes em sua comunhão; e porque repugna à vontade que sancionou o contrário; considerem o mesmo dito por nós a eles.

XXXIV. 3. Tão longe está de que pela satisfação a glória de Deus seja de algum modo obscurecida, que, pelo contrário, é sumamente ilustrada pela sua posição e atenuada pela sua negação: Pois na Satisfação vês 1. a glória da Justiça, que preferiu, antes que ceder do seu direito e permitir que o pecado passasse impune, nem sequer poupar o próprio Filho; assim é vingada das calúnias dos homens ímpios e dos demônios, assim afasta do pecado os homens pelos quais é reconhecida neste espelho, injetando-lhes um horrível pavor, e acautela para que não abusem da misericórdia de Deus. 2. a glória da Misericórdia, que foi tal e tamanha que, não havendo nenhuma outra razão mais cômoda para salvar os homens, nem hesitou em sujeitar o próprio filho à morte mais cruel para deles isentar os homens. 3. a glória da Sabedoria, que excogitou este admirável temperamento entre a Justiça e a Misericórdia, e o modo de resolver o nó de outro modo insolúvel para que uma, sem detrimento da outra, pudesse exercer-se comodamente para com os homens. 4. a glória do Poder, que venceu o Diabo e o pecado com aquelas mesmas armas com que estes haviam vencido os homens, e das coisas contrárias extraiu as contrárias, a saber, a vida da morte, a bênção da maldição, a felicidade da miséria, a glória da ignomínia, a salvação da perdição, de um modo admirável e prorsus inaudito: Pelo contrário, se tiras a Satisfação, a glória de Deus é muito mais obscurecida; pois suportar as transgressões e conivir com elas é indício de um Juiz ou negligente, se as permitir por incúria, ou iníquo, se conivir voluntariamente. Mas Deus não é alguém que queira a iniquidade, Sl. v. 4., que odeia os que operam a iniquidade e perde os que falam a mentira, vers. 6., cujos olhos são mais puros que para ver o mal, Haba. I. Assim, obscurece-se a Justiça de Deus, que por natureza é juiz do mundo, como se ele não apenas justificasse o réu convicto de pecado impune, mas também o dotasse com os mais amplos prêmios: Obscurece-se a Verdade, que tantas vezes intentou estas cominações aos pecadores: Everte-se toda paz e consolo da consciência pecadora; pois não se pode ver como, posta de lado a satisfação, se possa sedar o fervor da consciência, quando sempre se apresenta ao ânimo e recorre a cogitação da Justiça de Deus, que sendo o juiz mais justo do Mundo, o exemplar mais perfeito de todo juiz justo, não se pode entender como ele faça aquilo que tanto luta com o ofício de juiz justo quanto o Espírito Santo testifica ser abominação para Deus: absolver os ímpios e injustos sem qualquer satisfação à Lei e à justiça, não decerto por si mesmos, mas prestada por algum fiador por eles; acrescenta-se também a outra consideração da verdade divina: quantas vezes, de fato, o pecador pensa nas cominações divinas da Lei, universais, absolutas e veracíssimas, não pode deixar de tremer, a menos que socorra outra cogitação: que por elas foi plenissimamente satisfeito por nosso Fiador em nosso favor.

XXXV. Quanto ao que, por último, traz Gittichius sobre o homem vilíssimo que pode e deve perdoar grátis quaisquer ofensas; não pertence a este caso; Porque Deus aqui não deve ser considerado como parte ofendida simplesmente, ou como um credor privado, a quem seja lícito ceder absolutamente do seu direito de domínio ou de crédito, mas como pessoa pública, e como juiz e Legislador sumo que deve manter inviolada a autoridade das Leis; Confesso que o homem privado pode e deve perdoar as ofensas, porque a vingança não lhe pertence, mas a Deus: mas sobre a pessoa pública, sobre o Magistrado e o Príncipe, é falso, porque ele é juiz ordenado no lugar de Deus para administrar a justiça e executar as sanções da Lei; o que, se a Lei é violada quando aquele a quem cabe executar o mandado da Lei não o executa e faz o oposto; não menos é violada quando aquele a quem cabe mandar à execução as cominações e promessas da Lei não o faz, mas antes o contrário. Ora, como Deus neste negócio sustenta as vezes de Juiz e Príncipe sumo, não é de admirar se não pode perdoar os pecados aquém da satisfação, nem nesta parte deve ser julgado mais impotente que os homens, porque isto é efeito não da impotência, mas da virtude, segundo a qual nem pode negar a si mesmo, nem pode enviar uma despedida à sua justiça, como foi demonstrado mais extensamente na Disp. II. sobre a Necess. da Satisf.

XXXVI. Mas nem aqui para Gittichius; ele insta mais adiante na p. 91. e sustenta que a Glória da munificência de Deus e do seu sumo e gratuito amor para conosco é subvertida por esta nossa doutrina, porque assim, não tanto por nossa causa quanto pela sua própria causa, Deus teria entregue Cristo à morte, para que, evidentemente, recebesse o débito de sua justiça; e como não há munificência do credor em relação ao que está obrigado por dívida alheia, a menos que ceda de seu direito e abandone a exigência de satisfação, de quem quer que ela proceda: assim nenhuma haveria em Deus, posta a satisfação de Cristo; imão, pareceria estultícia e sordidez, e não munificência, doar a outrem qualquer coisa que imediatamente recebas dele; Pois quem, diz ele, não o chamaria de delirante e alheio a toda razão se, aberta a minha bolsa, eu ordenasse ao devedor que me pagasse com o meu próprio dinheiro? Não seria melhor, simplesmente, sem o crime de estultícia, perdoar-lhe logo o débito? Resp. Na verdade, estas ficções da razão humana e cega de nada servem contra o santíssimo conselho de Deus revelado no Verbo, 1. pecca. ignora. Elen. Como se a Glória de Deus, pela qual Deus age principalmente em todas as coisas, Prov. XVI. 4., e a nossa salvação, por cuja causa Deus secundariamente deu o seu Filho por nós, fossem reciprocamente repugnantes, de modo que da posição de um se seguisse a negação do outro; quando antes são subordinados e se põem mutuamente: Assim, não proveu menos à sua justiça do que à nossa salvação; mas para com o Filho foi justíssimo, e para conosco foi munificentíssimo por causa da satisfação do Filho; Paulo claramente insinua isto em Ro. III. 24. 25. quando diz que Deus ordenou a Cristo como sacrifício de expiação pela fé no seu sangue para demonstração de sua justiça pelo passar por cima dos pecados que antes ocorreram naquela tolerância de Deus, Para demonstração de sua justiça no tempo presente, para que ele seja Justo e Justificador daquele que tem fé em Jesus, onde a Justiça de Deus se conjuga com a nossa salvação, porque de ambas quis ter conta na obra da Redenção, e assim satisfazer-se a si mesmo, para que daí se aplainasse o caminho para a nossa salvação, que de outro modo nos era inacessível e inviável. Tão longe está, portanto, que a manifestação de uma propriedade divina deva obstar à manifestação de outra, e a razão da Justiça lutar com o exercício da misericórdia; que, pelo contrário, por um admirável temperamento, prestam-se mútua ajuda e se beijam mutuamente segundo o oráculo do Sl. LXXXV. 10., porque não pode haver lugar para a Misericórdia senão posta a satisfação da Justiça, e a satisfação da Justiça não é pedida para outro fim senão para que se abra o caminho para a Misericórdia. 2. O que se acrescenta sobre o Credor seria decerto verdadeiro em um privado e pecuniário, que a seu bel-prazer pode ceder de seu direito sem injúria de ninguém, mas em um público e judicial, isto é, no vingador da Lei e Exator da justiça, não tem lugar; aqui, de fato, se ele não se indigna contra os pecadores nem impõe a pena, por isso mesmo é iníquo, não munífico, porque deserta do ofício e permite que a autoridade das Leis, que devia conservar íntegra e protegida, seja violada impunemente; entretanto, se por causa do bem público, tanto mostra a razão pela qual se satisfaça às leis e se possa prover à salvação do devedor, quanto subministra do seu um Fiador e Patrono, tão longe está de que por isso seja ouvido como menos munífico, que antes, como sapientíssimo e munificentíssimo, é merecidamente celebrado por todos. Por que, então, Deus não pôde prestar isso mesmo neste negócio e de modo muito mais excelente, sem qualquer mancha de injustiça? imão, com a glória da suma sabedoria e clemência?

XXXVII. 3. Quanto ao que supõe que não haverá munificência no Credor a menos que ceda de seu Direito e abandone a exigência da satisfação, venha ela de quem vier, nisso o Adversário engana e é enganado: Pois além de que sempre passa do Credor ao Juiz e do débito pecuniário ao criminal, sendo contudo diversa a razão de ambos, como mostrado frequentemente; Quem negaria que a Clemência do Juiz e a munificência manifestam-se muito maiores nele quando cede de tal modo de seu Direito em relação ao devedor principal ou ao réu que nada exige dele, mas perdoa-lhe liberalmente todos os crimes cuja pena o fiador sustentou por ele? Assim aqui a misericórdia de Deus se nos exibe multifariamente. 1. porque excogitou e encontrou para os homens a razão da salvação, não os homens para si mesmos. 2. porque abriu o caminho da salvação pela missão e entrega do próprio filho. 3. porque o Filho aceitou voluntariamente essa condição, movido apenas pela φιλανθρωπίᾳ [amor aos homens]. 4. E decerto por homens indignos da salvação e que a desprezavam, inimigos seus e de Deus. 5. porque nada exigiu daqueles por quem se humilhava. 6. porque Deus aceitou e ratificou aquela satisfação de um em lugar de outro por nós, e porque pela mera graça e misericórdia a aplica a nós; nem se deve dizer aqui que a Remissão exige necessariamente não apenas que aquele que deve seja solto dessa obrigação, mas também que aquele a quem se deve não tenha querido que se lhe satisfizesse; pois como admitimos a primeira condição, assim negamos a segunda, pois nem menos se diz perdoado o crime ao Réu de quem nada se exige, embora o Juiz peça de outro lugar que se lhe satisfaça, como provado antes: E o próprio Socino não nega que Deus exige algo daqueles a quem perdoa os pecados, o que pode ser tido no lugar de satisfação, a saber, a pureza de vida, que é uma certa causa para que Deus lhes perdoe clemente e benignamente os pecados. Ora, se não luta com a natureza e verdade da remissão que Deus requeira algumas coisas que sejam à semelhança de causa por que perdoa os pecados aos homens, imão e talvez, como ele fala, possam ser tidas no lugar de satisfação; Como não consistirá com aquela o fato de Deus exigir algo no lugar de satisfação não deles, mas de outro, a saber, do Fiador? Para que daqui transpareça que nem toda satisfação luta com a remissão, nem para esta se requer sempre que o Credor não queira que se lhe satisfaça.

XXXVIII. 4. Não é admirável se a Palavra da Cruz pareça estultícia a esses homens, quando o próprio Cristo crucificado é dito ser escândalo para uns e estultícia para outros, 1. Cor. I. 23., mas não deixa, contudo, de ser para os Chamados Sabedoria e poder de Deus; Assim, este conselho que estes homens impuros chamam de delírio com boca blasfema e execrável, é, no entanto, o sumo e inefável milagre da sabedoria e misericórdia divina, ao qual ninguém pode objetar sem que, por isso mesmo, seja flagrado em θεομαχεῖν [lutar contra Deus]; O quê? Acaso seria estulto ou sórdido se um Príncipe, impelido pela clemência, desse do seu erário dinheiro ao réu para que pagasse a multa ao bem público, para conservar a autoridade das Leis? doaria certamente algo do seu, não para imediatamente receber e aplicar ao seu proveito privado, mas para procurar a pública satisfação da justiça e da Lei. Por que, então, diz-se ser estulto quando se estabelece que Deus fez o mesmo? Certamente porque a sabedoria de Deus parece estultícia ao homem carnal. Mas por mais que nada semelhante entre os homens ocorresse a esta dispensação divina, por isso deveria ser negada e fustigada? como se os caminhos de Deus fossem como os nossos caminhos, e o supremo Árbitro das coisas devesse ser medido pelo pé de nós, que somos apenas homúnculos e vermezinhos da terra: Longe esteja de que jamais pensemos ou admitamos tamanha maldade; mas antes, para concluirmos finalmente este argumento, atribuindo louvor àquela Sabedoria, Poder, Justiça e Misericórdia sumas, e dando graças indefinidamente por tão grande benefício recebido, entoemos com João, agora e sempre, este cântico Eucarístico: Àquele que nos amou, e nos lavou de nossos pecados em seu sangue, e nos fez Reis e Sacerdotes para Deus e seu Pai, seja a força e a glória pelos séculos dos séculos. AMÉM.

COROLÁRIOS DO RESPONDENTE.

  1. Reconhecemos não apenas a Verdade, mas também a Perfeição e a Necessidade da Satisfação de Cristo por nós.
  2. Rejeitamos a distinção da fé em explícita e implícita no sentido Pontifício, bem como em formada e informe, que pretendem existir sem a caridade.
  3. Somente a fé justifica, todavia não justifica sem as obras.
  4. A fé é imortal, tanto em relação aos Viajantes, embora Israel tenha caído e Pedro, negando a Cristo tanto com a boca quanto com o coração, tenha pecado, e Salomão tenha caído gravemente por ψυχομαχίαν [luta da alma]; quanto em relação aos Compreensores, nos quais sempre obterá lugar, embora em seu sentido também venha a cessar nos céus.
  5. A graça eficaz não age por modo de auxílio ou causa apenas parcial, mas por modo de princípio e causa total; nem por modo de causa contingente e persuasão moral, mas por modo de causa necessária e influxo hiperfísico. Embora o efeito siga sua eficácia infalível e necessariamente, ocorre, contudo, livremente.
  6. No negócio da conversão, o voto humano que assim se expressa: "Converte-nos a ti, Senhor, e seremos convertidos", não luta com este preceito divino: "Convertei-vos a mim, e eu me converterei a vós".
  7. Não somos filhos de Deus apenas pela Adoção, mas a Regeneração nos faz seus filhos também pela natureza.
  8. Embora preguemos que todos os Santos são verdadeiramente beatos nos céus, todavia estabelecemos merecidamente que nem devem ser invocados, nem Canonizados; devem ser honrados pela imitação, mas não adorados pela religião. Agostinho.