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DISPUTAÇÃO DÉCIMA SEGUNDA

Que é a Segunda sobre

A PERFEIÇÃO DA SATISFAÇÃO DE CRISTO.

TESE PRIMEIRA.

Na disputa anterior, estabelecemos de modo positivo a Perfeição da Satisfação de Cristo. Agora, devemos examinar os argumentos dos adversários. Eles tentam destruir ou enfraquecer essa doutrina, se não de forma direta e aberta, ao menos de modo indireto. Como eles costumam lutar de diversas maneiras, usando tanto as Escrituras quanto a Razão para sustentar suas invenções e servir às suas hipóteses, devemos responder a cada ponto separadamente. Não pretendemos perseguir detalhadamente tudo o que eles trazem para confirmar seus erros, mas analisaremos apenas os argumentos que parecem mais verossímeis e que eles objetam com mais frequência.

II. Começando pela Escritura, o texto principal que costumam usar é Colossenses 1:24 [^1]. Ali, Paulo parece afirmar abertamente a imperfeição da Satisfação de Cristo e a necessidade de satisfações humanas. Ele diz: “Regozijo-me agora no que padeço por vós, e preencho na minha carne as relíquias das aflições de Cristo, pelo seu corpo, que é a Igreja”. Nessas palavras, segundo eles, escondem-se vários argumentos para sua opinião. 1. Como Paulo chama seus sofrimentos de ὑστερήματα τῶν θλίψεων τοῦ Χριστοῦ (remanescentes ou relíquias das paixões de Cristo), isso sugeriria que falta algo que os sofrimentos de Cristo precisam suprir. Se os sofrimentos de Cristo fossem plenos e absolutamente perfeitos, seria inútil e errado atribuir-lhes "relíquias". 2. Paulo não diz apenas que existem relíquias das paixões de Cristo, mas afirma que ele as preenche por sua parte (ἀνταναπληρῶ). Ora, se fossem plenas, por que seria necessário preenchê-las novamente? 3. Ele diz que sofre por eles e pelo corpo de Cristo, que é a Igreja. Isso não poderia ser dito a menos que seus sofrimentos ocupassem o lugar de Satisfação. Por isso, Cajetano (Tracta. de Indulg. q. 3) [^2] afirma: “O Apóstolo testemunha que a intenção dos santos era sofrer por nós ao dizer: 'Preencho o que resta das paixões de Cristo pelo seu corpo, que é a Igreja'. Fica evidente que a providência divina dispôs que alguns sofrimentos dos santos servissem para completar as paixões de Cristo pelo corpo da Igreja, e que os santos cumprem essa ordenação com seus sofrimentos superabundantes”. Bellarmino (lib. i. de Indulg. cap. 3) [^3] pensa de modo semelhante: “O Apóstolo desejou ajudar os fiéis de todas as formas possíveis, pois nada excetua quem diz 'com muito gosto me gastarei pelas vossas almas' (2 Cor. xii) [^4]. Ele pôde ajudar comunicando suas paixões para expiar a pena temporal, já que tais satisfações lhe sobravam. Portanto, ao sofrer, ele preenchia o que faltava às paixões de Cristo, isto é, o que Cristo ainda haveria de sofrer em seus santos pelo próprio corpo da Igreja, seja instruindo por pregações, confirmando por exemplos, ou expiando por satisfações”.

III. No entanto, é fácil mostrar como esse texto pouco favorece o erro deles, se prestarmos atenção aos pontos seguintes. Primeiro, devemos saber o que se entende pelo nome de Cristo. Segundo, o que se sugere por relíquias das paixões. Terceiro, em que sentido Paulo diz que sofre pela Igreja. Quanto ao primeiro ponto, é certo que o nome de Cristo nem sempre designa sua pessoa física ou o Cristo natural, mas frequentemente designa sua Igreja ou o Cristo místico, ou seja, o Corpo com seus membros (1 Cor. xii. 12) [^5]: “Assim como o corpo é um e tem muitos membros, assim também é Cristo”. Aqui fica claro que Cristo não indica apenas a Cabeça, mas também o Corpo ou a Igreja unida a essa Cabeça. Da mesma forma, quando Cristo clama do céu em Atos ix. 4 [^6]: “Saulo, Saulo, por que me persegues?”, Ele não se referia propriamente à sua pessoa, que já estava no céu fora do alcance de qualquer ataque e não estava mais sujeita a aflições ou perseguições. Ele se referia à própria Igreja que, por constituir um só corpo com Ele, recebe corretamente o nome do próprio Cristo. Assim, as paixões de Cristo ou significam as paixões do Cristo natural, que Ele suportou em seu próprio corpo uma vez na cruz, ou significam as paixões do Cristo místico ou da Igreja, que Deus impõe aos fiéis para que as suportem. O que o Apóstolo aqui chama de θλίψεις (aflições), em outro lugar chama de παθήματα (paixões) (2 Cor. i. 7) [^7]: “Como as paixões de Cristo abundam em nós, assim também a nossa consolação abunda por meio de Cristo”. Nesse sentido, o Apóstolo chama a calamidade dos israelitas no Egito de ὀνειδισμὸν (opróbrio) (Heb. xi. 26) [^8]: “estimando como maiores riquezas o opróbrio de Cristo do que os tesouros do Egito”.

IV. Se perguntarem por que chamamos essas aflições de "paixões de Cristo", podemos dar quatro razões: 1. Pela causa, pois Cristo, como o supremo Juiz da competição, as impõe a nós, como as palavras de Cristo a Ananias (At. ix. 16) [^9]: “Eu lhe mostrarei quanto ele deve sofrer pelo meu nome”. Por isso, Pedro diz que os fiéis foram chamados para isso (1 Pe. ii. 21) [^10] e Paulo afirma (Fil. i. 29) [^11]: “A vós vos foi concedido não apenas crer nele, mas também sofrer por ele”. 2. Pela ocasião, pois os fiéis as suportam por causa do seu nome e do seu Evangelho. Se não fossem discípulos de Cristo, jamais seriam expostos a essas calamidades. Por isso, Paulo chama suas aflições de "aflições do Evangelho" (2 Tm. i. 8) [^12], isto é, impostas por causa do Evangelho, como ele diz no versículo 12 [^13] que sofre tudo isso por causa do seu apostolado. 3. Pela união, pois os fiéis que as sofrem são considerados membros de Cristo. Assim, o que os piedosos sofrem nesta causa, diz-se que Ele também sofre e suporta, devido à comunhão mística entre a cabeça e os membros. É comum atribuirmos a nós as dores causadas em qualquer parte do corpo; feridas na mão ou no pé são chamadas de feridas do próprio homem. Assim, como os que sofrem são membros de Cristo, diz-se corretamente que o próprio Cristo sofre em seus membros. 4. Pela compaixão, devido à máxima συμπάθεια (simpatia) que Ele tem pelas aflições dos seus, decorrente da união mencionada. Como chamamos de nossas as perdas e feridas daqueles que nos são íntimos, porque suas misérias nos afetam como se fossem nossas, assim Cristo reputa como suas as paixões de seus irmãos que são uma só carne com Ele. Ele se toca por elas tanto quanto pelas suas próprias. Agostinho observou há muito tempo (no Salmo 61) [^14] que as paixões de Cristo podem ser entendidas assim: “As paixões de Cristo não estão apenas em Cristo; aliás, as paixões de Cristo só estão em Cristo se você entender Cristo como Cabeça e Corpo. Se você entender Cristo apenas como cabeça, as paixões de Cristo não estão apenas em Cristo”. Anselmo [^15] seguiu essa linha: “Cristo ainda sofre paixões, não em sua carne na qual subiu ao céu, mas na minha que ainda trabalha na terra”. Lirano [^16] também comenta: “As paixões de Cristo são aceitas de duas formas: uma, pelas que Ele sustentou em seu próprio corpo, e assim nada resta para preencher; outra, pelas que Ele sofrerá em seu corpo místico até o fim do século, e assim restam muitas relíquias de paixões a preencher”. Aqui se aplica a dupla posição de Cristo: como Fiador e Patrono que satisfaz por nós, ou como Cabeça que deve operar em nós para nos tornar semelhantes a Ele. No primeiro sentido, as paixões de Cristo são satisfatórias e competem apenas a Ele, excluindo outros. No segundo, são exemplares e propostas para imitação.

V. Devemos observar que deve haver harmonia e conformidade entre o Corpo natural de Cristo e o místico, entre a Cabeça e os membros. O que se cumpriu n’Ele deve, guardada a devida proporção, cumprir-se nestes. Por isso, Paulo diz que fomos predestinados para sermos conformes à imagem d'Ele (Rm. viii. 29) [^17]. Em 2 Coríntios iii. 18 [^18], ele testemunha que, contemplando a glória do Senhor com o rosto descoberto, somos transformados na mesma imagem, de glória em glória. Frequentemente somos estimulados a imitar Cristo (Ef. v. 2 [^19]; Fil. ii. 5-6 [^20]; 1 Pe. ii. 22-23 [^21]). Como essa conformidade será plena no céu, em glória e felicidade (1 Jo. iii. 2 [^22]; Fil. iii. 21 [^23]; Col. iii. 4 [^24]), assim ela deve começar na terra pela graça, parte em santidade, parte na cruz (Rm. viii. 18) [^25]. Enquanto esteve na terra, Cristo destacou-se pela santidade, sendo puro e livre de toda mancha de pecado, e pela calamidade, como homem de dores (Is. liii. 4) [^26], sujeitando-se a todo tipo de aflições até o esvaziamento (Fil. ii. 6-7) [^27]. Ele quis que sua Igreja fosse assimilada e tornada conforme a Ele nestas duas coisas: primeiro, na santidade, por isso recebemos a ordem de ser santos como Ele é santo (1 Pe. i. 15) [^28] e de nos purificarmos como Ele é puro (1 Jo. iii. 3) [^29]; segundo, nas paixões e na cruz, sentido no qual se diz que Ele nos deixou o exemplo para seguirmos seus passos (1 Pe. ii. 21) [^30]. Diz-se que os fiéis comunicam as paixões de Cristo quando sofrem conforme o modelo e exemplo d’Ele (cap. iv. 13) [^31]. Assim como Cristo teve várias paixões a suportar para aperfeiçoar a obra da Redenção, o Cristo místico (a Igreja e cada fiel) tem sua cota medida de sofrimentos atribuída por Deus segundo o exemplo da cabeça. Cada um deve beber deste cálice e carregar sua cruz após Cristo. Enquanto os fiéis não passarem pelos combates e aflições que Deus lhes impôs, sempre restará algo a preencher nas paixões de Cristo. Não no Cristo natural, pois sua satisfação foi perfeita e absoluta na cruz, como Ele mesmo testemunhou ao clamar "está consumado"; mas no Cristo místico, seu Corpo. Como é certo que as paixões deste corpo não se consumarão antes do fim do século, elas devem ser preenchidas diariamente nas calamidades de cada fiel.

VI. Aqui se aplicam as palavras de Pedro (1 Pe. v. 9) [^32], que se ajustam perfeitamente ao nosso tema. Ele diz que as mesmas paixões impostas aos fiéis dispersos para quem escrevia estavam sendo cumpridas na fraternidade espalhada por todo o mundo. Isso prova claramente que Deus, em seu conselho eterno, decretou não apenas quais paixões o próprio Cristo sofreria em sua carne para a Redenção da Igreja, mas também quais paixões cada membro da Igreja sofreria pelo nome de Cristo. Quando essas coisas são executadas no tempo e grau devidos, diz-se corretamente que essas paixões estão sendo cumpridas no corpo de Cristo. Paulo não quer dizer outra coisa neste lugar senão que ele carrega com alegria a parte da cruz de Cristo que lhe foi imposta. Embora tanto Cristo quanto nós devamos sofrer, há uma diferença memorável entre ambos: as paixões de Cristo foram gravíssimas e sem doçura, pois Ele teve de carregar toda a maldição de Deus devida a nós e beber o cálice até as fezes. Mas as nossas paixões, removida a maldição divina por Cristo, tornam-se temperadas e leves pela graça de Cristo. Devemos provar o cálice, mas não esgotá-lo; suportar os males, mas abençoados com Cristo. Cristo sofreu as primeiras para nossa redenção, por isso Paulo não as chama erradamente de ὑστερήματα (o que resta); mas nós sofremos as segundas após Ele para nossa santificação. Devemos notar a força da frase apostólica: ele não diz apenas que preenche, mas que faz um ἀνταναπληροῦν, ou seja, preenche em retribuição, o que indica uma relação e correspondência. Não apenas com os outros fiéis, mas com o próprio Cristo, para que a paixão do membro responda à paixão da Cabeça. Assim como Cristo sofreu as dores supremas na cruz e a própria maldição da lei pela salvação de Paulo, Paulo, em troca, devia sustentar um combate grave pela glória de Cristo e pelo Evangelho. Em ambos houve turnos de sofrimento, embora com fins diferentes, como diremos a seguir.

VII. Terceiro, devemos notar que as aflições que Cristo impõe aos fiéis, embora não tenham fim de Redenção nem de Satisfação, possuem muitos outros propósitos. Elas não beneficiam apenas os que sofrem, mas toda a Igreja, seja para confirmar a fé, dar exemplo de paciência ou promover o Evangelho. Paulo testemunha várias vezes que desses sofrimentos nascem frutos (Fil. i. 12-13) [^33]. Ele afirma que suas prisões serviram para a propagação do Evangelho e confirmação dos irmãos: “Quero que saibais, irmãos, que as coisas que me aconteceram contribuíram para o progresso do Evangelho, de modo que as minhas cadeias em Cristo se tornaram conhecidas em todo o pretório e em todos os outros lugares. E a maioria dos irmãos, encorajados no Senhor pelas minhas prisões, ousaram falar a palavra de Deus com mais abundância e sem temor”. Suas paixões foram muito úteis, não para satisfação, mas para confirmação e exemplo de constância. Ele diz o mesmo em 2 Coríntios i. 6-7 [^34]: “Se somos atribulados, é para vossa consolação e salvação, que se opera na paciência das mesmas aflições que nós também padecemos; se somos consolados, é para vossa consolação e salvação”. Isso prova que, na mente de Paulo, seus sofrimentos ajudam os fiéis não para isentá-los de penas semelhantes (que é o fim da satisfação), mas justamente o contrário: para que se animem a sustentar combates similares seguindo seu exemplo de paciência. Ele diz que sofre por eles e pelo corpo de Cristo, não para remi-lo, mas para edificá-lo; não para livrá-lo de penas, mas para confirmá-lo na fé; não para satisfação, mas para imitação. Não negamos que suas paixões tenham sido de grande uso e proveito para a Igreja. Negamos apenas o que os adversários pretendem: que elas foram um ἱλαστήριον (propiciação) e satisfação pelas penas que os pecados deles mereciam. Não ajuda Bellarmino dizer que Paulo desejava ser útil aos fiéis de todos os modos, inclusive expiando pecados. Ele pressupõe o que está em questão e comete petição de princípio, assumindo que as paixões do Apóstolo poderiam ser expiatórias ou satisfatórias, o que deveria provar em vez de supor.

VIII. Você dirá: Paulo afirma que sofre ὑπὲρ τοῦ σώματος (pelo corpo) d’Ele. Se essa preposição, em relação a Cristo, indica Satisfação e substituição quando se diz que sofreu por nós, por que não teria o mesmo sentido aqui, já que os santos sofrem seguindo o exemplo de Cristo? Respondemos: não negamos que essa preposição ὑπὲρ frequentemente signifique substituição de pessoa e satisfação de dívida. É certo que ela se aplica a Cristo quando se diz que Ele morreu pelos ímpios (Rm. v. 6) [^35] e pelas ovelhas (Jo. x) [^36]. Mas defendemos que essa não é a única significação do termo. Além disso, cremos que aplicar esse sentido aqui seria um absurdo grave, pois ninguém pode satisfazer por si mesmo, muito menos pelos outros. O que significa então? Como em outros lugares, essa preposição tem duplo sentido: ou de ocasião, como quando os fiéis sofrem ὑπὲρ Χριστοῦ (por Cristo) ou ὑπὲρ τοῦ ὀνόματος αὐτοῦ (por causa do nome d'Ele) (Fil. i. 29 [^37]; 2 Cor. xii. 10 [^38]), não para satisfazer por Ele, mas por ocasião d’Ele; ou de Causa final e impulsiva, como quando Paulo diz que é atribulado para a consolação dos fiéis (2 Cor. i. 6) [^39]. Assim, diz-se corretamente que ele sofre pela Igreja nestes dois sentidos: porque a Igreja foi a ocasião dessas paixões (foi preso ao tentar servi-la) e porque a edificação e confirmação da Igreja foram o fim que ele buscava. As palavras seguintes do Apóstolo mostram sua mente com clareza: ele diz que se tornou ministro da Igreja, não para redenção, mas segundo a dispensação que lhe foi confiada para pregar o Evangelho de Cristo. Ele devia ser ministro da Igreja, não Mediador ou Redentor, indicando que não falava de paixões satisfatórias, mas edificantes.

IX. Agostinho entendeu assim (Tratado 47 em João) [^40]: “Porque sois ovelhas de Cristo, fostes comprados com sangue. Reconhecei o vosso preço, que não é dado por mim, mas pregado por mim. Depois, ele explica como Ele deu sua vida por nós, e assim nós devemos dar a vida pelos irmãos para edificar o povo e afirmar a fé”. Muitos adversários nobres reconheceram isso. Tomás de Aquino comenta sobre este texto [^41]: “Estas palavras, superficialmente, podem ter uma interpretação errada, como se a paixão de Cristo não fosse suficiente para a redenção, mas as paixões dos santos fossem adicionadas para completá-la; mas isso é herético”. E logo depois: “Assim também todos os santos sofrem pela Igreja, para que ela seja fortalecida pelo exemplo deles”. O Cardeal Contarini diz sobre este texto [^42]: “Paulo não diz isso como se as paixões de Cristo não bastassem para apagar os pecados e como se lhes faltasse algo que devêssemos preencher em nós. Longe disso. Ele diz isso porque devemos imitar Cristo e sofrer pela edificação da Igreja, como Cristo sofreu”. O Jesuíta Justiniano [^43] afirma: “Ele diz preencher o que falta às paixões de Cristo não quanto ao mérito ou força de satisfação (pois o que faltaria ao infinito?), mas quanto à força e eficácia de levar os mortais à fé, para que seu corpo místico, que é a Igreja, se aperfeiçoe. Ao ensinar, advertir e promulgar o Evangelho, grandes trabalhos e perigos devem ser tolerados”. Depois, ele explica que sofre pela ampliação e propagação da Igreja, para confirmar e estabelecer sua fé. Omito muitos outros que concordam conosco aqui, pois estes já provam mais que o suficiente que as paixões de Paulo foram exemplares e confirmatórias, mas não satisfatórias. Portanto, os adversários erram ao usar esse argumento para sustentar sua invenção.

X. Eles também não confirmam solidamente sua tese usando textos que parecem mencionar uma Redenção feita por homens através de boas obras. Costumam citar Provérbios xvi. 6 [^44], onde o Sábio diz: “Pela misericórdia e verdade a iniquidade é redimida, e no temor do Senhor o homem se desvia do mal”. Sobre isso, Bellarmino (lib. 4. de Pœnit. cap. 3) [^45] afirma: “Aqui temos a palavra Redenção, que equivale à palavra satisfação; certamente a Redenção pertence à justiça tanto quanto a satisfação. Se fosse absurdo dizer que satisfazemos pelos pecados com nossas obras, seria muito mais absurdo dizer que os pecados são redimidos por nossas obras... como a Escritura ensina expressamente que os pecados são redimidos pelas nossas obras, não destoa do uso bíblico dizermos que satisfazemos pelos pecados”. Eles acrescentam outro texto semelhante de Daniel iv. 27 [^46]. Quando Daniel explicou a Nabucodonosor a visão da pena que ele merecia por seus crimes, acrescentou imediatamente: “Portanto, ó rei, aceita o meu conselho: redime os teus pecados com esmolas e as tuas iniquidades com misericórdia para com os pobres”. Sobre isso, Salmeron [^47] diz: “É claro que a culpa não pode ser redimida por obras que precedem a graça; portanto, resta que se entenda sobre as penas que restam mesmo após o delito ser perdoado”. Eles também citam vários textos dos Profetas onde Deus promete perdoar penas temporais ao seu povo se ele se converter de coração e realizar obras satisfatórias pelos pecados (como em Is. i [^48], Jr. xviii [^49], Ez. xviii [^50]), o que não faria sentido se não houvesse lugar para nossas satisfações.

XI. Respondemos: é fácil provar que tudo isso é impreciso. Quanto ao texto de Provérbios, ele nada tem a ver com o assunto por várias razões. 1. Menciona-se pecado ou iniquidade, mas não a pena, que é a única coisa que eles dizem expiar por satisfações humanas. 2. A misericórdia e verdade tratadas aqui não podem referir-se a obras penais e incômodas (nas quais baseiam suas satisfações); a Escritura nunca fala delas como penas, mas como virtudes cujo exercício traz grande consolo e alegria aos fiéis. Jansênio [^51] acredita que estas duas virtudes incluem a observância dos mandamentos divinos. Quem já ouviu dizer que observar os mandamentos de Deus é uma pena? 3. Misericórdia e verdade podem ser entendidas em relação a Deus ou ao homem. Se for em relação a Deus, indicando que a misericórdia de Deus e sua fidelidade perdoam a iniquidade, o argumento do adversário cai por terra. Se for em relação ao homem, não será mais forte, pois indicará a condição sob a qual se dá a remissão do pecado, não a causa. Como o juízo sem misericórdia deve ser exercido sobre os que não usaram de misericórdia, os misericordiosos alcançam misericórdia (Mt. v. 7) [^52]. Quem perdoa os pecados dos outros de coração certamente receberá perdão do Pai celestial. Não que a misericórdia para com os outros seja a causa da misericórdia de Deus, mas é apenas uma condição necessária. Assim, o sábio quer refutar a vã opinião dos hipócritas que, contentes com sacrifícios externos, buscavam apenas neles a expiação do pecado, sem se preocuparem com o culto interno. O homem de Deus ensina que o perdão não deve ser buscado tanto em sacrifícios quanto em obras de piedade e caridade. Essas obras não são a causa do perdão, mas a disposição necessária do sujeito que as recebe. É como se dissesse que a ira do Senhor cessa quando descansamos de nossos crimes. Assim, não se exclui o λύτρον (resgate) dado pelo Mediador, mas indica-se o dever do homem, sem o qual ele não pode esperar tal benefício.

XII. 4. Devemos notar que a força do verbo כפר [^53] (kaphar) usado pelo Sábio nem sempre se refere à Redenção propriamente dita, mas frequentemente à Remissão e perdão que Deus concede ao pecador arrependido. Assim os gregos e latinos frequentemente traduzem, como em Is. xxii. 14 [^54], onde o hebraico diz "se esta iniquidade vos for perdoada" e os gregos vertem "que este pecado não vos será perdoado". Assim também em Is. xxvii. 9 [^55]. O sentido claro é: pela misericórdia e verdade a iniquidade é perdoada e apagada, pois quem se dedica à misericórdia agrada tanto a Deus que não pode deixar de obter o perdão. 5. O verbo כפר pode referir-se não só ao perdão, mas também à remoção moral da coisa, como em Is. xxviii. 18 [^56]: “A vossa aliança com a morte será anulada” (Hb. kaphar). O sentido aqui pode ser aplicado perfeitamente: pelo estudo dessas virtudes, a iniquidade é removida e limpa da alma e da vida do homem. Isso responde muito bem às palavras seguintes: “Pelo temor de Deus o homem se desvia do mal”, pois o temor de Deus é o freio mais poderoso contra o pecado. Assim, essas duas sentenças contêm uma mesma verdade que recomenda o estudo e o fruto do temor divino e da caridade, sem nada provar em favor das satisfações humanas.

XIII. O outro texto de Daniel tem ainda menos força. Eles nem sequer conseguem explicá-lo adequadamente segundo sua própria hipótese. 1. É certo, segundo a opinião deles, que as satisfações são feitas apenas pelos piedosos e membros da Igreja, a quem a culpa e a pena eterna já foram perdoadas. Mas o Rei aqui era um pagão, idólatra e alheio à Igreja de Deus. Como Daniel poderia aconselhá-lo a satisfazer penas temporais se ele ainda estava sujeito à pena eterna? 2. Eles dizem que a satisfação consiste em certas obras penais e laboriosas. Mas aqui se trata de Justiça; o que os gregos traduzem como Esmola, no hebraico é צדקה (Justiça). Quem diria que a justiça está entre as penas do pecado? 3. Eles afirmam que as satisfações redimem penas temporais, não a culpa ou a pena eterna. Mas nada disso se pode concluir deste texto, que menciona apenas iniquidades e pecados. Se o Profeta quisesse dizer que os pecados são redimidos pelas esmolas como uma satisfação verdadeira, seguiria que não apenas a pena temporal, mas também a eterna, e não apenas a pena, mas a própria culpa seria expiada. Nenhuma distinção pode ser feita pelas palavras do Profeta, pois ele mencionou apenas pecados. Mas os adversários não diriam isso. Vasquez [^57] não pôde negar isso e rejeita o uso deste texto para esse fim. Bellarmino tenta escapar dizendo que "pecado" muitas vezes significa "pena do pecado", mas embora o pecado às vezes conote a pena, isso nunca acontece sem respeito à culpa. Redimir o pecado não pode significar apenas a pena sem a culpa.

XIV. 4. Toda a força do argumento reside na palavra "Redimir", que não existe no texto original. O verbo usado é פרק [^59] (peraq), que significa primordialmente romper, afastar, arrancar. É usado nesse sentido em Êxodo xxxii. 3 [^60] (“tirai os brincos de ouro”). Daí deriva o tropo libertar, pois quem é liberto do que o prendia é, de certo modo, arrancado. Mas de qualquer forma que se use, não implicará satisfação. Se se referir à libertação, indicará o fato, mas não o modo (por satisfação ou resgate). Além disso, a palavra indica libertação pelo poder, não pela justiça. E nem se pode dizer isso dos pecados, pois não são os pecados, mas os pecadores que são redimidos nesse sentido. Mas se entendermos no primeiro sentido, que consideramos muito mais adequado (romper com o pecado e mudar de vida), tudo fica fácil. Daniel aconselhava o rei ímpio e orgulhoso, que dominara com avareza e crueldade, a romper o curso de sua vida anterior e seguir o caminho contrário, limpando as manchas da tirania anterior com justiça e benignidade. Assim, talvez o extermínio iminente seria evitado e Deus, movido por essa conversão, mudaria as coisas para melhor. É a isso que as palavras seguintes se referem: “se talvez houver um prolongamento da tua tranquilidade”. É como se dissesse: "Ó Rei, exerceste um domínio violento e injusto, oprimiste os humildes, espoliaste os pobres e pecaste impunemente. Mas agora, se queres escapar da ira iminente de Deus, deves mudar de vida completamente; em vez de exações injustas e opressão, deves praticar misericórdia e justiça, reparando as injúrias com beneficência e rompendo o curso dos teus pecados para que te vá melhor". Daniel indicava que a conversão e o arrependimento eram o único caminho para evitar o julgamento de Deus, mas nem pensou em fazer satisfação à justiça de Deus, muito menos a recomendou.

XV. Os textos dos Profetas que falam sobre o arrependimento visam o mesmo objetivo: são necessários para obter a remissão dos pecados ou o abrandamento das penas. Não negamos que o arrependimento seja uma condição absolutamente necessária para obter o perdão. Também não negamos que, por meio dele, calamidades iminentes e juízos de Deus sejam frequentemente evitados ou mitigados. Negamos apenas que o arrependimento seja uma pena satisfatória ou uma compensação feita à Justiça divina. É muito diferente evitar penas do que satisfazê-las; obter algo por misericórdia é diferente de consegui-lo por via de preço e pagamento. Tais penas, segundo os adversários, não são apenas graves para quem as sofre, mas também são consideradas indevidas. Mas os exercícios de arrependimento prescritos pelos Profetas não são pesados, mas suaves e agradáveis aos fiéis. Além disso, os fiéis estão no trono da misericórdia, onde não há lugar para satisfação por nossas obras ou paixões, mas apenas pela graça e mérito de Cristo. Não estamos no foro da Lei, onde a pessoa é julgada pela obra. Se às vezes obras laboriosas parecem ser exigidas com o arrependimento, como Jejuns e Cilícios, isso não ocorre para que haja uma compensação diante de Deus, mas apenas para que a sinceridade do arrependimento seja melhor testificada.

XVI. Os adversários objetam citando vários textos onde Deus, após perdoar a culpa, impõe várias penas aos fiéis. 1. Em 2 Samuel xii. 14 [^63], o pecado de Davi é perdoado por Natã, mas a morte do filho é decretada como pena: “Porque deste ocasião aos inimigos do Senhor para blasfemarem, o filho que te nasceu morrerá”. 2. Em Números xiv. 20 [^64], Deus perdoa os israelitas que murmuraram, mas depois os proíbe de entrar na terra de Canaã e lhes impõe a morte no deserto, o que é chamado de vingança do Senhor (v. 34) [^65]. 3. Em Êxodo xxxii. 10, 14 [^66], Deus testemunha ter perdoado o pecado da idolatria pelas preces de Moisés, mas muitos milhares de israelitas são mortos por causa desse pecado. 4. O pecado de incredulidade de Moisés e Arão foi sem dúvida perdoado, mas a pena permanece após o perdão da culpa, pois morrem no deserto (Nm. xx. 24 [^67]; Dt. xxxii. 50-51 [^68]). Deles e de outros textos, concluem que, mesmo perdoada a culpa pela Satisfação de Cristo, resta-nos cumprir uma pena temporal.

XVII. Mas não é difícil repelir esse ataque dos adversários, desde que distingamos as Penas propriamente ditas das penas analógicas ou impróprias, ou seja, misérias e calamidades. Não negamos que existam vários tipos de penas com as quais Deus castiga os pecadores. Mas devemos estabelecer uma grande diferença entre elas. Embora todas pareçam vir da mesma fonte (o pecado), e a face externa pareça a mesma, o fim e o modo são muito diferentes. Deus pode ser visto de duas formas: como Juiz ou como Pai. Como Juiz, Ele age por justiça para vingança; como Pai, age por amor para correção. Os homens também se dividem em dois grupos: os ímpios, sujeitos à maldição da lei, e os fiéis, recebidos no pacto da graça. Assim, há dois tipos de juízo de Deus: um legal de vingança, outro evangélico e paterno de castigo. As aflições enviadas aos homens são de dois gêneros: umas são penas propriamente ditas, infligidas ao pecador pela justiça divina para vingança e Satisfação do Deus ofendido (como todas as que sofrem os ímpios neste mundo ou no outro). Outras são chamadas assim apenas por analogia, pois não são penas judiciais, mas paternas; não para vingança, mas para remédio; não pela ira do Juiz, mas pelo amor do Pai; não para destruição, mas para correção; não suplícios, mas remédios; não satisfação do passado, mas precaução para o futuro. Essas são todas as penas enviadas aos fiéis, distribuídas em três espécies: 1. παιδείαν (disciplina) e advertência, que é o castigo paterno para a emenda do pecador (Hb. xii. 6-7 [^69]; Ap. iii. 19 [^70]). 2. δοκιμασίαν (provação), que é a exploração da piedade para exemplo (Tg. i. 2-3 [^71]), como vimos em Abraão e Jó. 3. μαρτύριον (testemunho), que visa selar a doutrina celestial pelo próprio sangue (2 Tm. i. 4 [^72]; Ap. vi. 9 [^73]).

XVIII. Não negamos que essas calamidades possam ser chamadas de penas de forma imprópria e figurada na Escritura por várias razões: 1. Porque esses males e aflições são, por sua natureza, penas e salário do pecado. Embora não sejam infligidas aos fiéis como pena (pois nada penal resta a eles por causa de Cristo), elas mantêm o nome antigo por sua natureza original. São as mesmas calamidades que os ímpios sofrem materialmente, mas com um fim diferente. 2. Porque, assim como nas penas proprias o pecado é a ocasião e causa impulsiva, essas calamidades são enviadas por ocasião do pecado. Se não houvesse pecado, não haveria calamidade no mundo. 3. Porque a carne deve sofrer, o velho homem deve ser abolido e o pecado na carne deve ser condenado e punido. Não basta que Cristo o tenha condenado em sua própria carne (Rm. viii. 3-4 [^74]) para deletar a culpa; Ele deve crucificá-lo e condená-lo em nossa carne para a purgação da mancha (Rm. vi. 7-8 [^75]). 4. Porque, como as penas são infligidas aos culpados pelo arbítrio do Juiz e são pesadas à carne, essas aflições nos são enviadas pela dispensação de Deus e são amargas para a nossa carne. 5. Por fim, podem ser chamadas de penas pelo sentimento dos fiéis, que no auge da tentação muitas vezes se queixam de que Deus está irado com eles. Como ainda são crianças, o Senhor às vezes os trata com mais dureza, como se tratasse escravos, escondendo o rosto de pai para mostrar a face severa de juiz. Enquanto a fé e o sentido da justificação estão ocultos, o aguilhão da lei desperta (Rm. vii. 24-25 [^76]). Eles gemem e pensam estar sendo oprimidos pelas ondas da ira divina, queixando-se de que a mão direita do Altíssimo mudou (Sl. lxxvii. 11) [^77]. Mas essa dispensação legal serve apenas para conter o velho homem. Assim que a Lei Evangélica dissipa essas trevas e o homem vence a tentação, ele reconhece que essa economia de Deus foi sapientíssima, vinda não do ódio, mas do amor, visando a salvação e não a destruição.

XIX. Embora o nome de pena possa ser atribuído às aflições dos piedosos de forma imprópria e analógica, é certo que elas diferem muito das penas dos ímpios, seja no princípio, no modo ou no fim. Quanto ao princípio, as penas dos ímpios vêm da ira do Juiz; Davi ora: “Senhor, não me repreendas no teu furor, nem me castigues na tua ira” (Sl. vi. 1 e xxxviii. 1) [^78]. Mas as penas dos fiéis vêm do amor do Pai, pois “Deus castiga a quem ama” (Hb. xii. 6 [^79]; Ap. iii. 19 [^80]). Quanto ao modo, aquelas são unidas à ira e maldição de Deus e derramam todo o furor sobre os ímpios; estas, vindo do afeto paterno, são leves e moderadas, nunca carecendo do tempero da misericórdia. São comparadas a “varas de homens” (2 Sm. vii. 14) [^81], atemperadas à nossa fraqueza para que Deus não retire sua benignidade. Por isso, os homens de Deus que pedem para não sofrer as primeiras penas submetem-se de bom grado a estas: “Castiga-me, Senhor, mas com juízo, não na tua ira” (Jr. x. 24) [^82]. “Na tua ira, lembra-te da misericórdia” (Hb. iii. 2) [^83]. “A vara da impiedade não repousará para sempre sobre a sorte dos justos” (Sl. cxxv. 3) [^84]. “Por um momento escondi a minha face, mas com misericórdia eterna te recolherei” (Is. liv. 8) [^85]. Deus sempre impõe um limite aos seus castigos para que o piedoso não seja afligido além de suas forças (1 Cor. x. 13) [^86]. Quanto ao fim, as penas dos ímpios tendem à vingança da justiça e ao extermínio do pecador. Tudo o que sofrem nesta vida é como um átrio do inferno. Eles não se emendam, mas são preparados para a geena eterna; por isso rangem os dentes e se lançam no desespero. Mas com os fiéis é diferente: suas aflições tendem ao remédio e não à pena, à morte do pecado e não do pecador. O objetivo não é satisfazer a justiça vingativa, mas emendar ou provar o pecador, crucificar a carne e enfraquecer o corpo do pecado, para que o fiel participe da santidade divina (Hb. xii. 10) [^88]. Os fiéis, castigados pela vara divina, submetem-se placidamente à sua mão, reconhecendo que isso foi bom para eles (Sl. cxix. 71) [^89].

XX. Que esta era a opinião dos Antigos sobre as aflições dos fiéis poderia ser provado com inúmeros testemunhos. Minúcio Félix diz: “O fato de sentirmos vícios corporais não é pena, é milícia; a força é fortalecida pelas enfermidades, e a calamidade é frequentemente a disciplina da virtude” [^90]. Crisóstomo (Hom. 41 em Mateus) [^91], sobre as palavras de Paulo "quando somos julgados, somos castigados pelo Senhor", diz: “o que acontece é mais advertência do que condenação, cura do que punição, correção do que vingança”. Falando das paixões de Jó e dos Apóstolos (hom. 28 em 1 Cor. ii) [^92]: “não eram punições o que sofriam, mas combates e disciplinas”. Em outro lugar: “o filho é açoitado, o escravo também; mas este é punido como servo porque pecou, aquele é castigado como livre e filho que precisa de disciplina”. Mas Agostinho ensinou isso com mais clareza [^93]: “Aquele supremo agricultor da vinha prepara a foice de modo diferente para os ramos frutíferos e para os infrutíferos; não poupa nem os bons nem os maus; a uns para purgar, a outros para amputar” (contra Fausto Manich. l. 22. c. 20) [^94]. Na Cidade de Deus (l. 1. c. 8) [^95]: “bons e maus são afligidos igualmente, mas não são a mesma coisa; a dessemelhança dos que sofrem permanece na semelhança dos sofrimentos. Sob o mesmo fogo o ouro brilha e a palha fumega; sob a mesma trilha a palha é moída e o trigo é purgado. Assim, uma mesma força prova, purifica e refina os bons, mas devasta e extermina os maus”. No Salmo 102 [^96]: “O que sofres é remédio, não pena; castigo, não condenação; não rejeites a vara se não queres ser rejeitado da herança”. Gregório (em Ez. hom. 1) [^97]: “A misericórdia divina faz com que uma mesma coisa seja flagelo para os carnais e incremento de virtude para os espirituais”.

XXI. Estabelecido isso, a objeção proposta é facilmente resolvida. A questão entre nós não é se Deus pode e quer exercitar os fiéis com várias calamidades e penas (impropriamente chamadas) após perdoar a culpa. Reconhecemos que isso ocorre frequentemente na dispensação de Deus para com seus filhos, para que sejam castigados, provados ou tornados mais cautelosos. Confessamos que esta é a ordem da sabedoria divina no pacto da graça: que entremos no reino dos céus através de várias aflições e que ninguém obtenha a coroa da glória sem sangue. Mas a pergunta é: eles ainda estão sujeitos a penas propriamente ditas pelas quais se satisfaz a justiça divina, uma vez que já receberam o perdão dos pecados? Negamos isso categoricamente. Os adversários nunca poderão provar isso pelos textos citados, que trazem exemplos de castigos paternos, mas não de penas judiciais.

XXII. Começando pelo exemplo de Davi, que Bellarmino propõe primeiro [^98]: confessamos que a morte do filho predita por Natã foi infligida por ocasião do pecado e por causa dele, para que Davi sentisse mais profundamente o golpe. Não negamos que foi uma pena paterna, castigatória e medicinal, pela qual ele devia ser ensinado sobre o pecado passado para não ousar tal crime no futuro. Mas negamos que tenha sido uma pena propriamente dita infligida por um Juiz irado para vingança e satisfação da justiça. Isso não pode ser provado pelas duas razões de Bellarmino. Não pela primeira, baseada nas palavras do Profeta: “Porque fizeste os inimigos blasfemarem, o filho morrerá”. Você pode concluir que o pecado foi a ocasião da calamidade, mas não que foi uma pena dele. O homem de Deus sugere que isso foi infligido para exemplo: como o pecado dera escândalo aos profanos, sugerindo que Deus favorecia adúlteros, o escândalo devia ser reparado mostrando que tais pecados desagradam profundamente a Deus. Foi uma sanção para a disciplina da casa divina, para que nem Davi nem outros se entregassem a paixões ou mortes no futuro. Portanto, não é infligido como pena, mas como remédio. Também não se prova o contrário pelo fato de Davi ter pedido para evitar essa morte com lágrimas e jejuns. Não é novidade que os santos peçam para evitar calamidades que sabem que Deus converterá em bem, pois nossa natureza foge do que é duro. Paulo, sabendo que sua cruz não era pena do passado, mas remédio para o futuro (para não se exaltar), também pediu para ser livre dela (2 Cor. xii. 7-8) [^99]. Como um doente foge do ferro quente e do remédio amargo, embora saiba que são curas, Davi sentiu a amargura da morte do filho, mas isso não prova que foi uma pena jurídica.

XXIII. O mesmo ocorre com o castigo enviado a Davi e a Israel pelo censo do povo (2 Sm. xxiv. 10-12) [^100]. Deus testificou quanto aquele pecado lhe desagradara, servindo de exemplo público e humilhação privada para Davi. Essa calamidade atingiu também o povo, que a merecera por outros pecados. No entanto, não se segue que tenha sido uma pena para Davi visando vingança. O contrário se conclui pelo fato de ele ter escolhido cair nas mãos de Deus e não nas dos homens, porque “muitas são as suas misericórdias” (v. 14). Como é horrível cair nas mãos do Deus irado (Hb. x. 31) [^101], Davi devia entender que estava nas mãos de um Deus aplacado e misericordioso. Ele interpretou esse flagelo gravíssimo como uma severa correção de Pai, que não pode ignorar os erros dos filhos, e não como uma pena satisfatória e judicial.

XXIV. Bellarmino afirma (ibid. c. 2) [^102] que Deus frequentemente pune seus filhos com a morte por causa dos pecados, e que isso não seria para emenda (pois seria ridículo dizer que se pune com a morte para que vivam mais cautelosamente), mas para satisfação. Isso não tem peso. Mesmo que a morte não fosse para emenda, não se segue que seja para satisfação. Além desses dois fins, a sabedoria de Deus tem outros ao permitir a morte dos seus. Por que não dizer que morrem para que as relíquias do pecado sejam totalmente abolidas e o fiel seja levado do estado animal (carne e sangue, 1 Cor. xv. 50 [^103]) para o estado espiritual e celestial? Assim, o que era átrio do inferno torna-se porta do céu. Por que a morte não pode ser um Exercício de piedade, como na morte dos mártires e dos fiéis que morrem por doenças ou velhice? Para muitos, a morte é um benefício: Deus os liberta do jugo do pecado para aproximá-los de Si, ou os leva cedo (como as crianças) para que a malícia não mude seu entendimento (Sabedoria iv. 10) [^104]. Assim, a morte é enviada não como castigo do passado, mas como cautela para o futuro, para evitar pecados que cometeriam se vivessem mais. Além disso, embora a morte em si não permita emenda posterior, a denúncia ou o pensamento da morte iminente é um incentivo poderosíssimo para mudar de vida e se reconciliar com Deus.

XXV. O segundo exemplo de Bellarmino vem de Êxodo xxxii. 10, 14 [^105], onde três mil israelitas foram mortos pelo pecado do bezerro de ouro. Ele diz que não é crível que todos tenham morrido em pecado, já que Deus disse ter perdoado o pecado pelas preces de Moisés. Mas esse exemplo não ajuda. Embora se diga que Deus conteve o ímpeto da ira para não destruir todo o povo (v. 4) [^106], não se diz que perdoou o pecado (o que o adversário supõe gratuitamente), pois Moisés ainda ora pelo perdão no versículo 31 [^107]. Nem se diz que eles satisfizeram a Deus por essa pena. A vingança tomada pelos levitas foi uma pena real para os ímpios entre eles. Se alguns fiéis morreram com eles, não foram considerados como pagando as penas da justiça vingativa, mas sofrendo um castigo paterno para sua salvação e exemplo dos outros. Ou, se quiser chamar de pena, foi uma pena política infligida por Moisés como governante, para estabelecer um exemplo diante de um crime imenso. Quando Deus diz (v. 34) [^108] que "visitará o pecado deles no dia da vingança", Ele indica que os castigaria no futuro quando o irritassem com outros pecados, mas não diz que tomaria satisfação deles. O contrário se deduz: Deus ordena que Moisés guie o povo e promete seu Anjo como guia, o que são argumentos de um Pai benigno e não de um Juiz irado. Portanto, essa "visitação" é de amor, não de vingança propriamente dita (2 Sm. vii. 17) [^109].

XXVI. O terceiro exemplo (Nm. xiv. 20) [^110] diz que Deus perdoou os israelitas, mas os proibiu de entrar em Canaã e os fez morrer no deserto. Bellarmino diz que isso foi uma pena, pois Deus diz: “Sereis sabedores da minha vingança” (v. 34) [^111]. Mas ele raciocina em vão. Primeiro, é errado usar o exemplo de uma nação inteira quando tratamos da Satisfação devida por indivíduos. Se o pecado foi perdoado, isso se refere apenas aos que creram e se converteram. Para os incrédulos, a morte foi vingança; para os piedosos, disciplina. O termo "vingança" não prova o contrário; para os piedosos, pode ser chamado assim impropriamente porque é infligido por causa do pecado e para exemplo. Além disso, a palavra hebraica תנואה (tenuah) significa ruptura ou frustração (da raiz nu); refere-se à revogação das promessas por uma concessão irônica contra a soberba deles. É como se Deus dissesse: "Vereis se sou mentiroso e se minha palavra é vã; percebereis que minhas promessas não pertencem a rebeldes". Isso repreendia a incredulidade, mas não servia como satisfação judicial.

XXVII. O quarto exemplo é Moisés e Arão, que morreram no deserto por não terem santificado a Deus na rocha (Nm. xx. 24 [^112]; Dt. xxxii. 50-51 [^113]). Bellarmino diz que ninguém nega que eles voltaram à graça de Deus, mas a pena permaneceu. Já explicamos isso: a calamidade permaneceu como castigo paterno após o perdão da culpa, para que reconhecessem a gravidade do pecado e servissem de exemplo aos outros. A severidade de Deus com o Sumo Sacerdote e o Líder servia para que os sobreviventes aprendessem a viver para Deus. Além disso, havia um mistério na morte de Moisés: indicar que pela força da Lei (da qual Moisés era ministro) não se entra na Canaã celestial, mas apenas pela graça do Evangelho, sob a guia de Jesus (Josué), como o Apóstolo sugere (Hb. vii. 23) [^114].

XXVIII. Os adversários objetam que o Juízo de Deus também se exerce sobre os Fiéis e começa pela Casa de Deus (1 Pe. iv. 17). O juízo, dizem, traz necessariamente uma pena. Respondemos: o juízo é duplo. Um é de vingança, do Juiz irado para destruir os inimigos; outro é de castigo, do Pai benevolente para salvar os filhos. Aquele é sinal de maldição; este, de amor. O Juiz pune o crime por vingança; o Pai corrige o filho para ensinar e tornar cauteloso. Pedro fala do segundo tipo. Os comentários gregos notam que κρῖμα (juízo) aqui é usado como exame e não condenação. É o mesmo sentido de 1 Coríntios xi. 31-32 [^115]: “Se nós nos julgássemos a nós mesmos, não seríamos julgados; mas, quando somos julgados, somos castigados pelo Senhor, para não sermos condenados com o mundo”. Crisóstomo comenta: “não disse 'se nos puníssemos', mas 'se quiséssemos reconhecer os pecados e nos condenar, seríamos livres do suplício'”. Assim, quando se diz que o Juízo começa pela Casa de Deus, é porque Deus exerce sua providência especial na Igreja. Ele parece poupar os réprobos (escravos do Diabo) deixando-os sem disciplina, mas corrige prontamente os filhos que ama, para que se tornem participantes de sua santidade (Hb. xii. 10-11) [^116] e para que nada na casa de Deus fira a pureza de Sua glória.

XXIX. A vingança mencionada em 2 Coríntios vii. 11 [^117] como fruto do arrependimento não confirma a tese de Bellarmino. Quer entendamos como a sentença de excomunhão lançada contra o incestuoso, quer como o exercício do arrependimento em que o pecador se ira contra si mesmo pelo crime, não há lugar para Satisfação. Quanto ao primeiro, a excomunhão é uma pena canônica para reparar o escândalo, não uma satisfação diante de Deus (pois a culpa não é perdoada até que a excomunhão seja retirada). Quanto ao segundo, a vingança que o pecador toma de si mesmo visa instigá-lo à emenda e ao pedido de misericórdia, mas não satisfazer a justiça de Deus por meio de pena. Isso seria impossível ao homem e desnecessário após a satisfação de Cristo. Pode ser uma pena de contrição para mortificar o pecado, mas não uma pena de Satisfação imposta por Deus como Juiz.

XXX. A objeção baseada em 1 Coríntios ix. 27 [^118], onde Paulo diz que esmurra o seu corpo e o reduz à servidão para não ser reprovado, também falha. As palavras de Paulo sugerem que esse exercício visava o futuro e não o passado (satisfação de penas anteriores). Paulo usa uma metáfora atlética. Assim como os atletas eram contidos em tudo para ganhar uma coroa corruptível, Paulo corre e luta não ao acaso, mas disciplinando o corpo. ὑπωπιάζειν (esmurrar) refere-se ao pugilista que fere a face do adversário; δουλαγωγεῖν (reduzir à escravidão) é tratar o corpo com dureza e abstinência para prepará-lo para o combate. Por "Corpo", ele não entende a carne física para ser lacerada com chicotes (como os adversários ridiculamente afirmam), mas o que resta do velho homem e do "corpo do pecado" (Rm. vi. 6) [^121]. Ele designava a contenção dos afetos carnais, a mortificação e a tolerância às aflições.

XXXI. Paulo não estava satisfazendo a Deus, mas contendo a carne para não ser reprovado após pregar aos outros. Ele alude novamente aos jogos atléticos: antes da competição, os atletas eram examinados e, se culpados de algum vício, eram rejeitados publicamente pelo pregoeiro. Paulo diz que vive com zelo e santidade para que sua vida responda à sua doutrina. Nada é mais vergonhoso para um doutor do que ser redarguido por sua própria culpa; nada é mais ignominioso do que o pregoeiro que chama outros ao combate ser ele mesmo rejeitado por sua má conduta. Como diz o provérbio antigo: "Médico de outros, ele mesmo cheio de feridas".

XXXII. Os adversários também usam razões lógicas, mas sem sucesso. Primeiro, o nexo entre misericórdia e justiça. Dizem que em todas as ações de Deus a misericórdia está unida à justiça. Portanto, Deus perdoa por misericórdia, mas quer que a justiça seja satisfeita o máximo possível. Respondemos: 1. Eles supõem o que devem provar. Tiago ii. 13 [^122] diz que haverá juízo sem misericórdia para quem não usou de misericórdia. Misericórdia não se exerce sobre demônios, nem justiça vingativa sobre anjos no céu. No inferno há justiça sem misericórdia; no céu, misericórdia sem justiça vingativa. As virtudes não se separam em Deus, mas Ele pode exercer o ato de uma sem a outra em determinados casos. Além disso, em relação à mesma pessoa, elas se excluem: a misericórdia perdoa a pena e a justiça a impõe. 2. No plano da salvação, o equilíbrio admirável dessas virtudes não consiste em exigir satisfação de quem já foi perdoado (o que seria absurdo). Consiste no fato de que a Justiça se exerceu sobre Cristo, o Fiador, para satisfazer por nós, e a Misericórdia se exerceu sobre nós, a quem é imputada a obediência de Cristo. Ele puniu o Filho para nos poupar; exigiu d’Ele as penas devidas a nós para nos dar o perdão. Assim, Deus é sumamente Justo na morte do Filho e sumamente Misericordioso na salvação dos fiéis.

XXXIII. Segundo, argumentam pela relação entre Cabeça e membros. Se os membros devem ser conformes à Cabeça, e Cristo satisfez, nós também devemos satisfazer após Ele e sofrer com Ele para reinarmos com Ele (Rm. viii. 17) [^123]. Respondemos: a conformidade com Cristo exige que soframos seguindo seus passos, mas não com o mesmo fim ou modo, muito menos para satisfazer como Ele satisfez. Cristo na Redenção pode ser visto como Fiador (que paga e adquire a salvação) ou como Cabeça (que aplica a salvação aos unidos a Ele). Os fiéis são vistos como Réus (a serem remidos) ou como Membros (a serem santificados). As paixões de Cristo têm dupla posição: como λύτρον (resgate) pago por nós (Mt. xx. 28 [^124]; 1 Pe. i. 18-19 [^125]) ou como modelo para ser imitado (1 Pe. ii. 21 [^126]; Jo. xiii. 15 [^127]). No primeiro sentido, elas não nos são comunicadas de forma inerente, mas apenas imputativa. No segundo sentido, elas nos são comunicadas pela Imitação, pois dependem de Cristo como Santificador, que preenche nos membros o que aperfeiçoou na cabeça. Devemos sofrer com Cristo para sermos glorificados, carregando a coroa de espinhos na terra para ter a coroa de glória no céu. Mas não para satisfazer como Ele satisfez; a satisfação d'Ele é o fundamento da imputação, não o objeto de imitação. Aliás, Cristo satisfeu justamente para nos livrar da necessidade de satisfazer.

XXXIV. Terceiro, argumentam pelas Relíquias do pecado que permanecem em nós. Se o pecado deixa vestígios na alma após ser perdoado, é necessário aboli-los por satisfações e atos contrários. Respondemos: 1. Admitimos que relíquias do pecado permanecem e causam gemidos no fiel (Rm. vii. 22-23) [^128]. Mas essas relíquias devem ser removidas pela santificação e arrependimento contínuo, não por satisfação. Elas não pertencem à culpa que já foi perdoada perante Deus, mas à mancha que deve ser limpa pelo estudo diário da piedade. Isso prova a necessidade da santificação, mas nada diz sobre satisfações que visam remover o reato de pena temporal.

XXXV. Quarto, disputam pela diferença entre pecados cometidos antes e depois do batismo. Como os pecados pós-batismo são mais graves e inescusáveis (pois feitos sob a luz da verdade), mereceriam penas mais graves. Bellarmino (lib. 4. de Pœn. c. 5) [^129] diz que era justo Deus mandar seus ministros imporem multas a esses pecadores. Respondemos: embora pecados pós-batismo sejam mais graves e merecessem penas maiores se fôssemos satisfazer por eles, negamos que se possa impor penas satisfatórias. Como são fiéis, todos os seus pecados (antes ou depois do batismo) são considerados expiados pelo sangue de Cristo (1 Jo. i. 7) [^130]. Não há condenação para os que estão em Cristo. Admitimos que esses pecados exigem um arrependimento mais amargo para sentir o perdão, mas isso é uma condição para a participação no benefício, não uma pena satisfatória.

XXXVI. Quinto, mencionam as utilidades da satisfação: 1. É útil para o pecador não ficar impune, para não pecar novamente pela facilidade do perdão. 2. Adverte sobre a gravidade do pecado e gera ódio a ele. 3. Serve para erradicar hábitos de pecado e inserir virtudes. 4. Serve de exemplo para outros. Respondemos: 1. Eles medem a verdade de algo pela sua suposta utilidade, mas só se deve falar de utilidade após provar que algo foi instituído por Deus. 2. A satisfação humana não é útil, mas prejudicial: retira a glória de Cristo e tira a paz das consciências, que nunca saberão se satisfizeram o suficiente. As utilidades que eles fingem já são alcançadas pela morte de Cristo e pelo arrependimento verdadeiro. A cruz de Cristo mostra a gravidade do pecado e o arrependimento gera ódio a ele e erradica vícios, sem necessidade de inventar penas satisfatórias.

XXXVII. Por fim, esperam auxílio dos escritos dos Antigos, pois neles se menciona frequentemente a Satisfação. Respondemos: embora não dependamos dos Pais da Igreja (pois nossa fé não cai ou permanece por eles), poderíamos demonstrar que eles usavam a palavra "Satisfação" num sentido totalmente diferente dos adversários. Os Antigos usavam "Satisfação" para designar a Exomologese pública (disciplina eclesiástica e penas canônicas). Como essa satisfação pública à Igreja foi instituída por Deus, diziam que quem satisfazia à Igreja, satisfazia a Deus (obedecendo ao que Ele instituiu). Além disso, usavam a palavra de modo amplo para indicar o arrependimento e a contrição sincera, pois, em latim, "satisfazer" significa fazer o que agrada ao ofendido. Como o arrependimento agrada a Deus, diziam que os homens satisfaziam a Ele, não cumprindo a exigência total da lei, mas o que basta para a misericórdia de Deus. As satisfações dos Antigos diferem das papistas: aquelas eram pelo próprio pecado (culpa), estas apenas pela pena; aquelas precediam o perdão, estas o seguem; aquelas visavam reparar o escândalo na Igreja, estas visam a vingança do pecado perante a justiça divina. Já basta de discutir isso. Resta-nos, reconhecida a perfeitíssima Satisfação de Cristo, descansar apenas nela, desprezando as vãs satisfações humanas. Contentos com Cristo, esperemos d’Ele toda a nossa justiça e salvação; que Ele seja tudo em todos para nós na terra pela fé, até que seja finalmente tudo em todos no céu pela visão. Amém.