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EXERCÍCIO TEOLÓGICO TEXTUAL SOBRE

A CONCÓRDIA DE PAULO E TIAGO NO ARTIGO DA JUSTIFICAÇÃO.

Respondente: ABRAHAMO PELEO, de Vevey.

TESE PRIMEIRA.

I. Visto que não existe argumento mais plausível para a Justificação pelas obras do que a célebre passagem de Tiago, no capítulo 2, os adversários costumam usá-la com muita frequência e rigor contra nós. Esta é a questão mais importante na controvérsia sobre a Justificação que mantemos com os Pontifícios. Por isso, acreditamos que faremos um trabalho valioso se investigarmos esse texto com mais precisão neste debate acadêmico. Com a ajuda de Deus, demonstraremos que Tiago não favorece os sofistas e não ensina nada que seja contrário à verdadeira e genuína doutrina da Justificação gratuita pregada por Paulo.

II. Para conduzir bem esta investigação, primeiro propomos a Dificuldade em si. Depois, avaliaremos os diversos modos de solução ou conciliação. A dificuldade é evidente. Paulo, em suas Epístolas, costuma atribuir a Justificação à fé sem as obras, como em Rom. 3:28, 1 Gal. 2:16, 2 e Efés. 2:8-9. 3 No entanto, Tiago a atribui expressamente às obras no capítulo 2:14: 4 Vedes que o homem é justificado pelas obras e não somente pela fé. Essa contradição aparente ocorre tanto na teoria quanto na prática, especialmente no caso de Abraão, o pai dos crentes. Paulo afirma constantemente que Deus justificou Abraão apenas pela fé e não pelas obras (Rom. 4:2-3), 5 conforme a antiga Escritura: Abraão creu em Deus e isso lhe foi imputado como justiça. Contudo, Tiago parece negar isso abertamente no capítulo 2:21: 6 Abraão, nosso pai, não foi justificado pelas obras quando ofereceu seu filho Isaque sobre o altar? Assim, parece que Tiago contradiz Paulo, ou que Paulo não atribui a justificação apenas à fé de forma tão absoluta, devendo-se incluí-la também às obras, como pretendem os Pontifícios.

III. À primeira vista, essas afirmações parecem totalmente incompatíveis, a menos que aceitemos a opinião dos adversários. No entanto, mostraremos claramente agora que a realidade não é essa. Sabemos que alguns, por causa deste único trecho, quiseram excluir toda a Epístola de Tiago do Cânon e classificá-la como um livro apócrifo. Eles acreditavam que Tiago não poderia, de modo algum, conciliar-se com Paulo e com o restante da Escritura no assunto da Justificação. Os Centuriadores de Magdeburgo (Cent. 1, lib. 2, c. 4) 7 seguiram essa opinião, influenciados por seu mestre Lutero. Consta que Lutero, no fervor inicial da disputa com os Pontifícios, foi injusto com este escrito, negando que fosse uma Epístola verdadeiramente apostólica. Ele chegou ao ponto de chamá-la de Epístola de Palha, não em sentido absoluto, mas em comparação com as epístolas paulinas. Os Pontifícios criticaram muito essa expressão, embora Eusébio já tivesse falado de modo semelhante muito antes 8. Mais tarde, após refletir melhor, Lutero apagou essas palavras duras e corrigiu seu julgamento sobre a Epístola, como provam as edições posteriores da Bíblia alemã. Não foram apenas os evangélicos que duvidaram da autoridade desta Epístola; entre os Pontifícios, Cajetano também parece ter tropeçado nesse ponto, como mostra o índice de erros coletado por Catarino. Eusébio e Jerônimo 9 precederam a ambos, relatando que alguns, antigamente, consideravam esta Epístola como adulterada ou duvidosa (Euséb. Hist. Eccl. lib. 2, c. 23; Jerôn. em Catal. Script. Eccles.).

IV. Mas agir assim é cortar o nó em vez de desatá-lo. A dificuldade deste trecho não é tão grande a ponto de nos obrigar a rejeitar a Epístola. Ela se declara verdadeiramente divina por meio de tantos critérios, tanto no estilo quanto na doutrina. Não devemos considerá-la um escrito falso ou apócrifo por causa de escrúpulos leves. Podemos estabelecer a conciliação facilmente se pesarmos com precisão o objetivo e as palavras de ambos os apóstolos. Para que isso fique claro, primeiro refutaremos as interpretações dos Pontifícios, que tentaram essa conciliação sem sucesso. Depois, apresentaremos o motivo verdadeiro e genuíno da conciliação, defendendo-o contra as objeções dos adversários.

V. Os Pontifícios não concordam entre si sobre como resolver essa contradição. A maioria acredita que pode desatar o nó com a distinção entre Primeira e Segunda Justificação. Eles estabelecem uma dupla justificação: a primeira, pela qual o homem passa de injusto a justo; a segunda, pela qual o homem justo se torna mais justo pelo aumento da justiça. Eles dizem que a primeira ocorre pela infusão do hábito da fé e da caridade, enquanto a segunda é promovida pelo exercício dessas virtudes e pelas boas obras. Para a primeira, eles propõem preparações e méritos de côngruo; para a segunda, fundamentam os méritos de condigno. Assim, querem que Paulo fale da primeira justificação formal (pelo hábito da caridade), negando-a às obras, e que Tiago fale da justificação atual (pelas boas obras), atribuindo-a às obras. Foi o que determinou o Concílio de Trento (Ses. 6, c. 10) e Bellarmino (de Justif. lib. 2, c. 16 e l. 4, c. 18). 10 Eles dizem que Paulo trata da primeira justificação, pela qual o ímpio se torna justo, e Tiago trata da segunda, pela qual o justo se torna mais justo. Muitos outros dessa comunhão pensam assim.

VI. No entanto, esse remédio "sofisticado" não cura a dificuldade nem concilia as opiniões divergentes. Essa distinção de justificação é uma ficção vazia da imaginação deles, que não se sustenta diante da Escritura nem da razão. Primeiro, eles supõem uma hipótese falsa — o erro fundamental dos adversários — de que a Justificação seria um ato físico que consiste na infusão de hábitos. Contudo, a Escritura deixa claro que ela é um ato meramente forense e judicial. Ela não ocorre inerentemente em nós, mas é realizada por nós e a nosso respeito diante de Deus de forma relativa. Ela consiste na remissão dos pecados e na imputação da Justiça (Rom. 4:5-7). 11 Por isso, a Escritura a opõe à condenação e à acusação (Rom. 8:34) 12 e a descreve como um processo judicial (Rom. 3:22, Rom. 4, etc.). 13 Segundo, eles confundem Justificação com Santificação. O que eles dizem sobre a infusão da caridade ou seu aumento por boas obras pertence, na verdade, ao outro benefício de Cristo: a regeneração. Como a regeneração ocorre de forma gradual e sucessiva, ela deve aumentar e crescer. Assim, os fiéis progridem de luz em luz, de força em força, de glória em glória, crescendo naquele que é a Cabeça (2 Pe. 1 14 e Efés. 4:15). 15 Mas isso não tem nada em comum com a Justificação forense, que Deus realiza de uma só vez em um único ato. Embora o nosso sentimento dessa justificação possa aumentar ou diminuir conforme nosso estado — como parece indicar Apoc. 22:11 16 (quem é justo, justifique-se ainda) — o Direito em si, uma vez concedido, permanece sempre o mesmo e não pode ser aumentado ou diminuído. Terceiro, eles atribuem erroneamente a caridade à primeira Justificação (da qual dizem que Paulo falou), embora Paulo sempre a atribua à fé e nunca à caridade. Quarto, essas duas justificações se anulam mutuamente: a primeira destrói a segunda, e a segunda enfraquece a primeira. Se a primeira nos reconcilia perfeitamente com Deus e nos coloca em estado de felicidade, para que serve a segunda? Se a segunda é necessária, então a primeira não nos justificou de verdade e nem mereceria o nome de Justificação. Que a primeira é absoluta e perfeita em todos os aspectos, vemos por seus efeitos: ela traz paz à consciência (Rom. 5:1), 17 glória diante de Deus (v. 2, 12) e felicidade e salvação total (Rom. 4:6-7). 18 Quinto, se fosse assim, não haveria apenas duas justificações, mas muitas outras. Como existem graus infinitos de aumento da justiça, por que não admitir uma terceira, quarta e quinta justificação? Sexto, é um insulto ao santíssimo mérito de Cristo afirmar que a segunda justificação (baseada em nossas obras) é maior, mais nobre e digna diante de Deus do que a primeira (que se apoia apenas no mérito de Cristo). Eles dizem que não é a primeira, mas a segunda justificação que merece a vida eterna. Assim, rebaixam o mérito de Cristo e sopram o veneno do orgulho nos corações humanos, fingindo que o livre-arbítrio coopera com a graça. Desse modo, nossas obras superariam o mérito de Cristo (o que é blasfêmia) ou o aperfeiçoariam (o que é ridículo).

VII. Mesmo que aceitássemos essa distinção (que é falsíssima), ela não se aplica ao texto de Tiago. Primeiro, porque Tiago fala de Justificação, mas não diz uma palavra sequer sobre o aumento da justificação. Segundo, o contexto mostra que ele fala do homem que se jacta de ter fé, mas não tem obras, e pensa que apenas por essa fé está justificado. Tiago mostra que essa jactância é vã, pois a fé que carece de obras é morta. Ora, se a fé sem obras é considerada morta, quem a possui deve ser considerado espiritualmente morto. Portanto, essa pessoa não pode se tornar "mais justa" pelas obras, pois isso suporia que ela já possui alguma justiça, o que não é o caso. Terceiro, se essa conciliação fosse verdadeira, Abraão teria sido justificado das duas formas ao mesmo tempo. Mas isso seria um absurdo, pois as obras da fé precederiam ambas as justificações, o que os próprios adversários negam. Isso fica claro em Tiago 2:23, 19 onde ele diz que cumpriu-se a Escritura que afirma que Abraão creu em Deus e isso lhe foi imputado como justiça quando ele ofereceu Isaque. Ou seja, quando ele demonstrou sua fé pelas obras. Comparando Paulo e Tiago, a lógica seria: Abraão foi justificado sem obras (segundo Paulo em Romanos), portanto, pela "primeira" justificação de Bellarmino. Mas quando ele demonstrou sua fé pelas boas obras, sua fé lhe foi imputada como justiça (segundo Tiago). Logo, ele teria sido justificado sem obras e pelas obras simultaneamente na segunda justificação. Quarto, toda obra justa e meritória da vida eterna provém da fé, segundo o próprio Adversário (lib. 4, c. 18). 20 Ele afirma que ninguém pode realizar obras pelas quais seja justificado diante de Deus sem antes ter se tornado justo pela primeira justificação (que é pela fé, sem as obras). No entanto, Bellarmino diz que a fé de Abraão foi uma obra justa e meritória, aceita por Deus como tal. Assim, aquela fé deveria vir de outra fé, e assim por diante ao infinito. Portanto, se ele foi justificado pela fé sem obras (como quer Paulo) e justificado pelas obras (segundo Bellarmino), as duas justificações coincidem. Os próprios jesuítas viram isso. Justiniano (em ep. ad Rom. c. 4) 21 rejeita essa conciliação por dois motivos: 1. Se Gênesis 15 22 trata da primeira justificação do ímpio (como Paulo ensina), Tiago teria que estar usando mal esse testemunho para explicar a segunda justificação. 2. Não se pode atribuir à segunda justificação o que Tiago diz: que Abraão foi chamado amigo de Deus, pois ele já era amigo e justo há muito tempo. Estius, outro escritor jesuíta famoso, pensa o mesmo sobre Tiago 2.

VIII. Outros Pontifícios, insatisfeitos com essa invenção, buscaram outro caminho. Eles não distinguem a Justificação, mas as obras que ocorrem antes e depois da fé. Dizem que Paulo nega a justificação pelas obras que precedem a fé (feitas apenas pelas forças da natureza, sem a graça), como faziam os gentios e judeus. Já Tiago atribuiria a justificação às obras que seguem a fé e são feitas pela graça. Assim, não haveria contradição entre eles. Essa é a distinção mais comum que usam para tentar anular os textos de Paulo contra a justiça inerente. Quase todos os modernos — Bellarmino, Becano, Afonso de Castro, Salmerón, Justiniano, Estius e Tirinus 23 — usam esse argumento.

IX. Mas esta solução não é melhor que a anterior. Primeiro, ela se baseia na hipótese falsa de que Paulo exclui apenas as obras dos não regenerados. Na verdade, Paulo exclui todas as obras, e provamos isso com vários argumentos: 1. Como disse Salmerón ao rejeitar a distinção entre obras cerimoniais e morais, não devemos limitar o que o Apóstolo não limitou. Paulo exclui as obras em geral, sem restrição. 2. Não era necessário tanto esforço para negar a justificação às obras más, pois todos já concordavam com isso. Mas todas as obras feitas sem fé são más, pois tudo o que não provém da fé é pecado (Rom. 14:25). 24 3. Paulo exclui as obras para que toda jactância seja excluída (Rom. 3:27). 25 Se as obras feitas após a fé não fossem excluídas, haveria jactância, pois eles dizem que essas obras procedem do livre-arbítrio e são méritos de condigno. Onde há mérito, há jactância. 4. Os exemplos de Abraão e Davi em Romanos 4 26 referem-se a eles após a conversão, não antes. Paulo fala de Abraão já convertido, no meio de sua caminhada de piedade, e afirma que a fé lhe foi imputada como justiça ao que não trabalha, mas crê. Davi também não fala como um incrédulo, mas como um fiel que busca o perdão dos pecados (Salmo 32 e 143). 28 Paulo também disse que considerava como perda não apenas as obras de quando era fariseu, mas todas as coisas que pudesse realizar como cristão (Fil. 3:8). 29 5. O objetivo da Epístola aos Gálatas confirma isso. A questão não era se alguém poderia ser justificado apenas por obras antes da fé, mas se as obras deveriam ser unidas à fé na justificação. Os falsos apóstolos queriam misturar a Lei com o Evangelho, a força humana com a graça. Se Paulo estivesse discutindo apenas com judeus puros, seus argumentos seriam fracos, pois os judeus aceitariam que "se a justiça vem pela Lei, Cristo morreu em vão". Mas o argumento de Paulo é fortíssimo contra os semi-judeus, pois nenhuma parte da obra de Cristo pode ser atribuída às nossas obras sem que a graça deixe de ser graça.

X. Sexto, se não excluirmos todas as obras, a antítese que Paulo faz entre o Pacto da Lei e o Pacto do Evangelho desaparece. No primeiro, somos justificados por nossa própria obediência; no segundo, pela obediência de outrem imputada a nós (Rom. 4:5; 32 Gal. 3:12; Fil. 3). 33 Se as obras justificam no pacto da graça, Paulo errou ao dizer que a justificação pelas obras é própria do Pacto da Lei. Sétimo, se Paulo quisesse excluir apenas as obras da natureza, seria estranho que ele sempre opusesse a fé às obras em geral, e nunca às "obras da natureza" em contraste com as "obras da graça". Isso teria evitado as acusações de que sua doutrina incentivava o pecado. Como ele nunca fez essa distinção, fica claro que ele excluiu todas as obras. Além disso, essa interpretação faria Tiago contradizer a si mesmo. Ele diz que a Escritura se cumpriu quando Abraão ofereceu seu filho. Se a fé de Abraão foi imputada como justiça total, as obras seriam desnecessárias. Se foi justiça parcial, o raciocínio não faz sentido. Não se pode dividir a justiça do homem em partes.

XI. Deixemos de lado os Pontifícios, que, cegos por seus preconceitos, não querem ver a verdade. Vejamos o que dizem os Ortodoxos. Eles também tentaram resolver esse escrúpulo de formas diferentes. Alguns distinguem entre Justificação diante de Deus e diante dos homens (Paulo trataria da primeira; Tiago, da segunda). Outros distinguem o sentido de obras: Paulo as tomaria em sentido próprio, e Tiago em sentido metonímico (as obras representando a fé viva). Como nenhuma dessas explicações parece satisfatória por si só, busquemos uma forma mais fácil de interpretar o texto e resolver a dificuldade.

XII. Estabelecemos aqui dois fundamentos: Primeiro, a contradição não é real, mas apenas aparente. Os apóstolos, que deram as mãos em cooperação (Gal. 2:9), 35 não poderiam pregar doutrinas opostas. O mesmo Espírito falou por ambos, e n'Ele não há "Sim e Não" (2 Cor. 1:19). 36 Se Paulo atribui a justificação apenas à fé e Tiago também às obras, eles devem estar falando de aspectos diferentes. Segundo, seguimos a regra teológica de que todo dogma da fé está proposto de forma clara em algum lugar da Escritura. Como disse Agostinho (de doctr. Christi. l. 2. c. 6), 37 o Espírito Santo proveu lugares claros para saciar nossa fome e lugares obscuros para evitar o tédio. Devemos buscar a clareza onde o assunto é tratado diretamente. Paulo trata da Justificação de forma exaustiva em Romanos, Gálatas e Efésios. Portanto, devemos interpretar Tiago por Paulo, e não o contrário. Para conciliar os dois, pesaremos quatro pontos: 1. O Objetivo (Escopo) de cada apóstolo; 2. O sentido da palavra ; 3. O sentido da palavra Justificação; 4. O Estado do homem que é justificado.

XIII. Como disse Hilário, devemos entender as palavras pelas causas que as motivaram. Paulo lutava contra fariseus e falsos apóstolos que substituíam a graça pelo mérito. Seu objetivo era declarar que a causa da justificação é a graça recebida pela fé, sem nenhuma obra nossa. Tiago, por outro lado, ataca outro tipo de pessoas: Epicureus e Libertinos. Eles professavam a fé cristã apenas da boca para fora, mas viviam de forma profana, transformando a graça em libertinagem. Eles se orgulhavam de uma sombra de fé. Tiago quer repreender esse desprezo pelas obras e o delírio daqueles que achavam que a simples profissão externa era fé verdadeira. Como eles usavam mal o exemplo de Abraão para dizer que as obras eram inúteis, Tiago usa o mesmo exemplo para mostrar que a jactância deles era vazia. Agostinho viu isso: Tiago quer corrigir aqueles que, entendendo mal Paulo, não queriam praticar o bem, presumindo apenas na fé. Como as controvérsias eram opostas, os argumentos também foram opostos. Paulo defende a causa da Justificação; Tiago, os seus efeitos. Paulo exclui as obras como causa; Tiago as admite como frutos. Paulo discute como somos justificados; Tiago, como reconhecemos que fomos justificados. Paulo lida com fariseus; Tiago, com profanos.

XIV. Abraão é o exemplo perfeito para ambos. Paulo o usa para mostrar que, se nem Abraão foi justificado pelas suas obras santas diante de Deus, ninguém mais pode esperar ser. Tiago usa o exemplo de Raabe. Ela havia se convertido recentemente, mas provou a verdade de sua fé pelo ato de misericórdia para com os servos de Deus. Se ela agiu assim, quanto mais os cristãos, nutridos pela luz do Evangelho, devem agir?

XV. Bellarmino tenta contestar isso, afirmando que o objetivo de Tiago não era mostrar o que é a fé verdadeira, mas provar que a fé católica sem obras não basta para a salvação. Ele cita Agostinho e Tiago 1:23 43 e 2:1. 44 No entanto, o argumento dele não tem peso. Primeiro, ele confunde o objetivo geral da Epístola com o objetivo específico deste capítulo. O objetivo específico de Tiago aqui é a demonstração da fé. Tiago não trata da justificação do pecador, mas da manifestação do fiel. Ele começa perguntando (v. 14): Que proveito tem se alguém DISSER que tem fé, mas não tiver obras? Ele mostra que a fé sem obras é nula e morta. Conclui no v. 26 dizendo que a fé sem obras é como um corpo sem espírito. Segundo, Bellarmino erra ao supor que a fé sem obras é "fé verdadeira e católica", quando Tiago a chama de morta e diabólica. Terceiro, há diferença entre "não bastar para a salvação" (no sentido de posse final da vida eterna) e "não bastar para a Justificação" (no sentido de adquirir o estado de justo). Nós reconhecemos que as obras são o caminho que Deus preparou para andarmos (Efés. 2:10), 45 mas negamos que elas se juntem à fé na causa da justificação.

XVI. Agostinho não ajuda Bellarmino. Ele diz que, no tempo dos apóstolos, alguns entendiam mal Paulo e achavam que a simples profissão de fé bastava. Agostinho afirma que as obras seguem o justificado e não precedem o que será justificado. Ele nunca chama essa fé sem obras de "verdadeira", mas de morta e falsa. Agostinho não defende as obras como causas da Justificação, mas como frutos da fé.

XVII. Segundo, devemos distinguir o sentido da palavra . Para Paulo, fé significa a fé verdadeira e viva. Para Tiago, neste contexto, fé significa a fé morta — apenas uma aparência de fé que ele aceita chamar assim por concessão, para não brigar por palavras. Paulo trata da fé eficaz pela caridade. Tiago combate a jactância vazia. Provas de que Tiago fala de uma fé fingida: 1. Ele fala da fé que alguém diz ter (v. 14). 2. Compara-a a palavras vazias ditas a um pobre sem lhe dar auxílio real (v. 15). 3. Chama-a de morta (v. 17). 4. Diz que é comum aos demônios, consistindo apenas em saber que Deus existe, sem confiança na Sua graça (v. 19). 5. Chama-a de vã (v. 20). Tiago fala de um nome vazio, como uma moeda falsa que tem a efígie do rei, mas é de cobre e não de ouro. Por isso, não há contradição: Paulo atribui a justificação à fé viva; Tiago a nega à fé hipócrita. Justiniano, Salmerón e Tirinus reconhecem que a fé descrita por Tiago é inútil e sem vida.

XVIII. Bellarmino tenta provar que Tiago fala da fé verdadeira: 1. Porque Tiago usa a palavra "fé" de forma absoluta. 2. Porque a fé de Abraão (v. 22) era verdadeira. 3. Porque Tiago diz "não apenas pela fé" (v. 24), o que suporia que a fé justifica em parte. 4. Pelas comparações com o rico e com o corpo (v. 15, 26).

XIX. Essas objeções falham. Primeiro, a Escritura nem sempre usa a palavra "fé" para a fé salvífica. Simão Mago "creu" (Atos 8:13), 52 mas não de verdade. Os demônios creem (Tiago 2:19). Muitos "creram" em Cristo apenas por milagres, mas Cristo não confiava neles (João 2:23-25). 53 Às vezes, "fé" significa apenas o corpo da doutrina ou a profissão externa. Tiago usa a palavra por concessão, pois os hipócritas se gloriavam desse nome. Além disso, o uso do artigo grego (ἡ πίστις) indica "essa fé" específica da qual ele fala: a fé morta.

XX. Segundo, Bellarmino supõe erroneamente que a fé que Tiago combate é a mesma fé de Abraão. Na verdade, Tiago as opõe. Para mostrar que a fé dos hipócritas é falsa, ele apresenta a fé de Abraão como modelo de fé viva e eficaz. Ele pergunta: Queres saber que a fé sem obras é morta? Veja Abraão. Ele prova que Abraão não tinha uma fé sem obras, mas uma fé que se manifestou na oblação de Isaque. Quando Tiago diz que a fé "cooperou" com as obras, ele se refere à conexão inseparável entre elas, e não que as obras ajudam a causar a justificação diante de Deus.

XXI. Terceiro, quando Tiago diz "não somente pela fé", ele não está dividindo a causa da justificação entre fé e obras. Ele está dizendo que o homem não é justificado por aquela fé solitária e vazia que os hipócritas alegavam ter. Ele conclui que ninguém pode ser justificado por uma fé que não passa de profissão externa, pois a verdadeira fé salvífica deve mostrar sua eficácia por meio das obras, como ocorreu com Abraão.

XXII. Quarto, a comparação com a caridade vazia do rico prova o nosso ponto: assim como palavras sem auxílio real não são caridade de verdade, a fé sem obras não é fé de verdade. A comparação com o corpo e o espírito (v. 26) também: assim como reconhecemos que um corpo está morto se ele não respira, reconhecemos que a fé está morta se não produz obras. Cajetano reconheceu isso: as obras são como o fôlego que acompanha a vida do corpo. Elas não são a "forma" da fé (o que a torna fé), mas são sinais inseparáveis da sua vida.

XXIII. Além de distinguir a , devemos distinguir o termo Justificação. Na Escritura, "justificar" pode significar a absolvição forense (pela imputação da justiça de Cristo) ou a declaração e demonstração dessa justiça diante de Deus e dos homens. A primeira é a justificação da causa; a segunda é a justificação do sinal ou efeito. É uma regra teológica: verbos de ação muitas vezes denotam a notificação ou declaração de algo. Exemplo: o sacerdote "contaminava" ou "purificava" o leproso (Lev. 13), significando que o declarava impuro ou puro. Cristo diz que somos "filhos do Pai" se amamos os inimigos (Mt. 5:45), 73 significando que demonstramos ser filhos. O próprio termo "justificar" é usado assim: o povo "justificou a Deus" (Lc. 7:29) 75 e a sabedoria é "justificada por seus filhos" (Lc. 7:35). 76 Cristo foi "justificado no espírito" (1 Tm. 3:16), 78 isto é, declarado Filho de Deus (Rom. 1:4). 79 Tiago usa o termo neste sentido declarativo.

XXIV. Provas de que Tiago fala de declaração: 1. O objetivo dele é provar a qualidade da fé. Ele diz: Mostra-me a tua fé pelas obras (v. 18). 2. A cronologia da história de Abraão: ele foi justificado pela fé 30 anos antes de oferecer Isaque (Gên. 15). 80 Portanto, o ato de oferecer Isaque não o tornou justo, mas provou que ele já era justo. 3. As palavras do Anjo: Agora sei que temes a Deus (Gên. 22:12). 82 O ato serviu para provar a todos a seriedade da sua fé. 4. Tiago diz que a Escritura "se cumpriu" (v. 23). Isso só faz sentido se a obra demonstrou que a imputação da justiça ocorrida anos antes era verdadeira e não hipócrita.

XXV. A frase "Agora sei" dita por Deus é uma expressão antropopática. Deus sabe tudo desde a eternidade, mas Ele usa o experimento humano para provar e aprovar a fé no tempo. Deus se agrada ao ver os traços de Sua imagem brilharem nas obras dos fiéis.

XXVI. Assim, a contradição desaparece. Paulo fala da Justificação pela sua causa própria (fé). Tiago fala da Justificação pelo seu efeito e sinal (obras). As obras declaram que somos fiéis. Tomás de Aquino, Hugo Cardinal e Dionísio o Cartusiano reconheceram que as obras são manifestações da justiça, não sua causa diante de Deus.

XXVII. Bellarmino tenta contestar, dizendo que a fé "foi aperfeiçoada pelas obras", o que indicaria aumento da justiça.

XXVIII. No entanto, isso é falso. Tiago diz que a foi aperfeiçoada, não a justiça. Ele fala de uma perfeição declarativa. Se a fé de Abraão só fosse perfeita no sacrifício de Isaque, então ele teria uma fé "imperfeita" durante 30 anos, o que os próprios adversários não aceitariam.

XXIX. Quando a Escritura diz que a virtude de Deus se "aperfeiçoa" na fraqueza (2 Cor. 12:9), 95 significa que ela se manifesta perfeitamente. As obras manifestam a força da fé. Elas são como o ato segundo que aperfeiçoa o ato primeiro na filosofia.

XXX. Sobre Raabe: ela não foi feita justa pelas obras, mas declarada justa. Ela já tinha fé pelos relatos que ouvira sobre as maravilhas de Deus (Josué 2). 98 Ela demonstrou essa fé ao acolher os espiões. Ela é chamada de "meretriz" pelo seu estado anterior, para mostrar que a graça de Deus alcança a todos e que mesmo a fé de uma pessoa humilde deve produzir frutos.

XXXI. Concluímos a conciliação distinguindo a Pessoa que é justificada. O homem pode ser visto como um pecador no estado da natureza ou como um chamado no estado da graça. Há dois juízos de Deus: um rígido, como Juiz (pela Lei); outro benigno, como Pai (pelo Evangelho). No primeiro, somos justificados apenas pela justiça de Cristo recebida pela fé, pois só ela satisfaz a justiça divina. No segundo juízo, Deus pergunta se fomos fiéis ao Pacto da Graça, que exige fé e obras. As duas partes do pacto são inseparáveis, assim como a justiça e a santificação o são em Cristo. Quem não tem obras, demonstra que não tem fé verdadeira. Assim, as obras são necessárias como evidências no juízo paterno de Deus. A fé justifica o homem; as obras justificam a fé.

XXXII. Cristo descreve esse segundo juízo em Mateus 25. Ele julga os que estão na Igreja (ovelhas e bodes). Ele cita as obras não como fundamento do direito ao Reino (que já estava preparado desde a eternidade como herança), mas como provas e testemunhos claros da verdade da fé deles. As obras são, como disse Bernardo, o caminho para o Reino, não a causa de reinar.

XXXIII. A Justificação se opõe à acusação (Rom. 8:32). 113 Somos acusados de duas formas: de pecado (pela Lei) e de hipocrisia (pelo Evangelho). Contra a primeira, apresentamos a fé no mérito de Cristo. Contra a segunda (quando o Diabo diz que nossa fé é falsa), apresentamos as obras como prova de que nossa fé é sincera. Paulo olha para a primeira acusação; Tiago, para a segunda.

XXXIV. Finalmente, concluímos que Paulo e Tiago estão em perfeita harmonia. Paulo trata do pecador; Tiago, do fiel. Paulo trata da causa da justificação; Tiago, da sua demonstração. Paulo afirma que somos aceitos por Deus apenas pelo mérito de Cristo; Tiago afirma que o verdadeiro cristão é reconhecido pelas suas obras. Em Paulo, temos humildade contra o orgulho farisaico; em Tiago, temos incentivo à santidade contra a libertinagem profana. Devemos buscar nossa justiça apenas em Cristo, mas nunca sermos preguiçosos nas boas obras. Elas não adquirem a salvação, mas são necessárias para possuí-la. Sigamos este caminho para chegarmos à Pátria celestial, pela graça de Deus Pai, Filho e Espírito Santo. Amém.


C O R O L Á R I O S.

I. A fé deve ser definida pela ignorância ou pelo conhecimento, como quer Bellarmino? Não. II. Existem méritos de côngruo ou de condigno? Não. III. Os sacramentos conferem graça pelo simples ato realizado (ex opere operato)? Não. IV. O batismo de crianças deve ser admitido e pode ser provado pela Escritura? Sim. V. Se Adão não tivesse pecado, ele nunca morreria? Sim. VI. Os primeiros Reformadores tiveram uma vocação legítima? Sim.

F I M.


  1. Rom. 3:28. 

  2. Gal. 2:16. 

  3. Efés. 2:8-9. 

  4. Tiago 2:14. 

  5. Rom. 4:2-3. 

  6. Tiago 2:21. 

  7. Cent. 1, lib. 2, c. 4. 

  8. Seguindo Lutero, seu mestre. 

  9. Eusébio e Jerônimo. Euséb. Hist. Eccl. lib. 2, c. 23; Jerôn. em Catal. Script. Eccles. 

  10. Concílio de Trento, Ses. 6, c. 10; Bellarmino de Justif. lib. 2, c. 16 e l. 4, c. 18. 

  11. Rom. 4:5-7. 

  12. Rom. 8:34. 

  13. Rom. 3:22, Rom. 4, etc. 

  14. 2 Pe. 1. 

  15. Efés. 4:15. 

  16. Apoc. 22:11. 

  17. Rom. 5:1, v. 2, 12. 

  18. Rom. 4:6-7. 

  19. Tiago 2:23. 

  20. Segundo o Adversário em lib. 4, c. 18. 

  21. Justiniano em ep. ad Rom. c. 4. 

  22. Texto de Gên. 15. 

  23. Bellarmino, Becano, Afonso de Castro, Salmerón, Justiniano, Estius, Tirinus. 

  24. Rom. 14:25. 

  25. Rom. 3:27. 

  26. Rom. 4:2. 

  27. Rom. 4. 

  28. Salmo 32:1 e 143:2. 

  29. Fil. 3:8. 

  30. Gal. 2:21. 

  31. Gal. 3:18. 

  32. Rom. 4:5. 

  33. Gal. 3:12; Fil. 3. 

  34. 2 Cor. 5:21. 

  35. Gal. 2:9. 

  36. 2 Cor. 1:19. 

  37. Agostinho, de doctr. Christi. l. 2. c. 6. 

  38. Atos 16:3. 

  39. Gal. 2:3. 

  40. Agostinho no Salmo 31. 

  41. Bellarmino, lib. 4, de Justific. c. 18. 

  42. Agostinho, lib. de fid. & oper. c. 14. 

  43. Tiago 1:23. 

  44. Tiago 2:1. 

  45. Efés. 2:10. 

  46. Tiago 1:23. 

  47. Tiago 2:1. 

  48. Como dizia Agostinho. 

  49. Justiniano em Rom. 4. 

  50. Agostinho, lib. de fide & operibus c. 14; Quaest. ad Dulcitium, q. 1. 

  51. Lib. 1, de Justif. c. 15. 

  52. Atos 8:13. 

  53. João 2:23. 

  54. 1 Cor. 13:2. 

  55. Mt. 21:21-22. 

  56. Atos 6:3. 

  57. Rom. 1:8. 

  58. Atos 16:5. 

  59. 1 Cor. 1:21. 

  60. 1 Cor. 4:8. 

  61. 1 João 2:4. 

  62. Verso 9. 

  63. O Adversário supõe novamente de forma falsa. 

  64. Heb. 11:17. 

  65. Rom. 4:12. 

  66. 1 João 3:17-18. 

  67. Isa. 2:22. 

  68. Salmo 104:29. 

  69. LXX, Salmo 119:132. 

  70. Tertuliano, Apol. c. 6. 

  71. Cajetano. 

  72. Lev. 13:3, 31. 

  73. Mt. 5:45. 

  74. Atos 10:15. 

  75. Lc. 7:29. 

  76. Verso 35. 

  77. Rom. 3:4. 

  78. 1 Tm. 3:16. (Original latino diz v. 18, erro de citação comum). 

  79. Rom. 1:4. 

  80. Gên. 15. 

  81. Rom. 4:11. 

  82. Gên. 22:12. 

  83. Atos 15:18. 

  84. Socino. 

  85. Praelect. c. 11. 

  86. Agostinho, q. 58, em Gênesis. 

  87. Crisóstomo. 

  88. 2 Cor. 5:9. 

  89. Tomás em Gal. 3, Lect. 4; Hugo Cardinal e Dionísio o Cartusiano. 

  90. Bellarmino, lib. 4, de Justificatione c. 18. 

  91. Gal. 5:6. 

  92. Rom. 3 e 4; Efés. 2. 

  93. Mt. 5:48. 

  94. Col. 4:12. 

  95. 2 Cor. 12:9. 

  96. Tiago 3:1. (Original diz v. 1, mas refere-se ao tema da perfeição). 

  97. Aristóteles, Ética X, 4. 

  98. Josué 2:8-10. 

  99. Isa. 1:21. (Referência à cidade fiel que se tornou meretriz). 

  100. Mt. 27:53. 

  101. 2 Tes. 2:4. 

  102. Joel 1:8. 

  103. Heb. 10:16-17. 

  104. Rom. 8:9. 

  105. Mt. 25:31-32. 

  106. Agostinho, Sermão 38, sobre os Santos. 

  107. Ezeq. 34. 

  108. Verso 17. 

  109. Cap. 20:37. 

  110. Mt. 16:2-3. 

  111. 1 Cor. 10:5. 

  112. Bernardo, Tratado sobre a Graça e o Livre-arbítrio. 

  113. Rom. 8:32. (Refere-se a Rom 8:33-34).