DISPUTA DÉCIMA SEGUNDA¶
Que é a Segunda SOBRE A PERFEIÇÃO DA SATISFAÇÃO DE CRISTO.
I. A S S E R T A na disputa precedente, κατασκευαστικῶς [construtivamente], a Perfeição da Satisfação de Cristo: devem agora ser examinados os argumentos dos Adversários, pelos quais eles tentam, se não diretamente e γυμνῇ κεφαλῇ [de cabeça descoberta], ao menos de viés e indiretamente, ou destruí-la ou enfraquecê-la. Ora, porque costumam lutar de diversas maneiras, tanto a partir das Escrituras quanto da Razão, para estabelecer sua invenção e servir à sua hipótese, deve-se responder distintamente; não certamente para perseguirmos individualmente tudo o que costuma ser alegado por eles para a confirmação de seu erro: mas para que examinemos apenas aquelas coisas que parecem ter maior aparência de verdade e que costumam ser objetadas por eles com mais frequência.
II. E para começarmos primeiramente pela Escritura; existe o lugar principal de que subitamente costumam usar, em Col. 1:24, onde Paulo parece afirmar abertamente a imperfeição da Satisfação de Cristo e a necessidade das satisfações humanas; Regozijo-me, diz ele, nos meus sofrimentos por vós, e preencho o que resta das aflições de Cristo na minha carne, pelo seu corpo, que é a Igreja, em cujas palavras, como lhes parece, latem vários argumentos a favor de sua sentença. 1. O fato de Paulo chamar suas paixões de ὑστερήματα τῶν θλίψεων τοῦ Χριστοῦ, as relíquias [ou o que falta] das paixões de Cristo, indica suficientemente que há algo que deve ser suprido pelas paixões de Cristo: pois, se fossem plenas e absolutas em todos os números, frustrada e erroneamente se lhes atribuiriam relíquias. 2. Porque não diz apenas que são relíquias das paixões de Cristo; mas que ele, por sua vez, as preenche por sua parte, ἀνταναπληρῶ, diz ele: mas se foram plenas, que necessidade haveria de preenchê-las novamente? 3. Porque diz que sofre por eles e pelo corpo de Cristo, que é a Igreja, o que não poderia ser dito a menos que suas paixões devessem ter o lugar de Satisfação: Daí Cajetano, Trat. sobre as Indulg. q. 3. Que tenha sido intenção dos santos sofrer por nós, o Apóstolo o testemunha dizendo: Preencho o que falta das paixões de Cristo pelo seu corpo, que é a Igreja, onde manifestamente patenteia que a divina providência dispôs que algumas paixões dos santos concorressem para o complemento das paixões de Cristo por seu corpo, e que os santos cumprem esta ordenação com suas paixões superabundantes. Nem de outro modo Bellarmino, lib. i. sobre as Indulg. cap. 3. o Apóstolo desejou ser útil aos fiéis de todos os modos pelos quais isso pudesse ser feito, pois nada excetua aquele que diz: De mui boa vontade me gastarei pelas vossas almas 2 Cor. xii. podia, porém, ser útil comunicando suas paixões para expiar o reato temporal, visto que tais satisfações lhe abundavam. Pelo que, sofrendo, preenchia o que faltava das paixões de Cristo, isto é, o que Cristo ainda haveria de sofrer em seus santos pelo próprio corpo da Igreja, fosse instruindo por pregações, confirmando por exemplos, ou expiando por satisfações.
III. Mas quão pouco este lugar favorece o erro, é fácil de mostrar se atendermos ao que se segue. Primeiro, para que saibamos o que deve ser entendido pelo nome de Cristo: Segundo, o que se insinua por relíquias das paixões dele. Terceiro, em que sentido Paulo diz que sofre pela Igreja: E quanto ao primeiro; é certo que pelo nome de Cristo nem sempre se designa a própria pessoa ou o Cristo natural; mas frequentemente também a sua Igreja ou o Cristo místico, a saber, o Corpo com os membros, 1 Cor. xii. 12. assim como o corpo é um e tem muitos membros, assim também é Cristo. Onde está claro que Cristo aqui não insinua apenas a Cabeça, mas também o Corpo ou a Igreja unida a esta Cabeça. Assim, quando Cristo clama do céu, Atos ix. 4. Saulo, Saulo, por que me persegues? propriamente não se referia à sua pessoa, que, recebida no céu, estava constituída fora do alcance de todos os dardos, nem estava mais sujeita a quaisquer misérias ou perseguições; mas à própria Igreja, a qual, porque constitui um só corpo com ele, por isso retamente é assinalada com o nome do próprio Cristo, feita a denominação pela parte principal. Daí que as paixões de Cristo ou notam as paixões do Cristo natural, que ele mesmo sofreu uma vez na cruz em seu corpo; ou as paixões do Cristo místico ou da Igreja, que por Deus lhe são impostas subsequentemente para serem suportadas. Assim, o que aqui o Apóstolo chama τὰς θλίψεις [as aflições], em outro lugar chama τὰ παθήματα [as paixões], 2 Cor. i. 7. assim como as paixões de Cristo abundam em nós, assim também por Cristo abunda a nossa consolação: Neste sentido, a calamidade dos israelitas no Egito, e sua sorte abjetíssima, que Moisés preferiu ao esplendor e opulência da corte egípcia, o Apóstolo chama de Χριστοῦ ὀνειδισμὸν, Heb. xi. 26. estimando como maiores riquezas, diz ele, o vitupério de Cristo do que os tesouros dos egípcios.
IV. Se, ademais, se perguntar por que essas paixões são chamadas paixões de Cristo, uma quádrupla razão pode ser alegada: 1. em razão da causa, porque Cristo, como supremo Agonotheta [Juiz da disputa], as impõe a nós, ao que pertencem aquelas palavras de Cristo a Ananias, Atos ix. 16. Eu lhe mostrarei quanto lhe cumpre padecer pelo meu nome. De onde Pedro diz que os fiéis para isso foram chamados 1. cap. ii. 21. e Paulo, Fil. i. 29. A vós vos foi dado não apenas crer nele, mas também sofrer por ele. 2. Em razão da ocasião, porque são suportadas pelos fiéis em seu nome e por causa de seu Evangelho; pois, se não fossem discípulos de Cristo, de modo nenhum estariam expostos a estas calamidades: daí Paulo chamar suas aflições, 2 Tim. i. 8, de aflições do Evangelho, isto é, que são impostas por causa do Evangelho e por amor ao Evangelho, como no v. 12 diz que sofre todas estas coisas por causa do Apostolado. 3. Em razão da união, porque os fiéis que as sofrem são considerados membros de Cristo, a quem pertencem; de modo que o que os piedosos sofrem nesta causa, diz-se que ele também sofre e suporta por causa da mística comunhão da cabeça e dos membros; como é usual que cada um atribua a si as paixões que são infligidas a qualquer parte de seu corpo; assim como as feridas da mão ou do pé são retamente chamadas feridas do próprio homem: Assim, porque os que sofrem são membros de Cristo, retamente diz-se que o próprio Cristo sofre nos membros. 4. Em razão da compaixão, por causa da máxima συμπαθεία [simpatia/compaixão] que ele tem nas aflições dos seus, a qual nasce da predita união; pois, assim como chamamos de nossos os danos e feridas daqueles que nos são mui unidos, porque somos igualmente afetados pelas misérias deles como pelas nossas: assim Cristo reputa como suas as paixões de seus irmãos, que são uma só carne com ele; porque não é menos tocado por elas do que pelas próprias: Que estas paixões de Cristo possam ser assim entendidas, há muito observou Agostinho no Sl. 61. As paixões de Cristo não estão apenas em Cristo, antes, as paixões de Cristo não estão senão em Cristo; pois se entenderes Cristo como Cabeça e Corpo, as paixões de Cristo não estão senão em Cristo. Se, porém, entenderes Cristo apenas como cabeça, as paixões de Cristo não estão apenas em Cristo. E, seguindo-o, Anselmo: Cristo ainda sofre paixões, não em sua carne na qual subiu ao céu, mas na minha que ainda trabalha na terra. Assim Lirano neste lugar: As paixões de Cristo sejam tomadas de dois modos: de um modo, por aquelas que sustentou em seu próprio corpo, e assim nada resta ali para preencher; de outro modo, por aquelas que até o fim do século sofrerá em seu corpo místico; e assim restam relíquias de muitas paixões a serem preenchidas. E a isto pertence a dupla θέσις [posição/função] de Cristo: ou como Fiador e Patrono que satisfaz por nós, ou como Cabeça que deve operar em nós, para nos tornar semelhantes a si: No primeiro sentido, as paixões de Cristo são satisfatórias, e competem a ele só, excluídos os outros. Mas no posterior são exemplares e são propostas para imitação.
V. II. Deve-se observar que deve haver tal harmonia e conformidade entre o Corpo de Cristo natural e o místico, a Cabeça e os membros, que o que foi preenchido naquela deve ser preenchido nestes, guardada todavia a proporção; por isso mesmo diz Paulo que somos predestinados para sermos conformes à imagem dele, Rom. viii. 20. e o mesmo 2 Cor. iii. 18 testemunha que nós, contemplando com o rosto descoberto, como em um espelho, a glória do Senhor, somos transformados na mesma imagem, de glória em glória, como pelo Espírito do Senhor. Daí sermos tantas vezes excitados à imitação de Cristo, Ef. v. 2, Fil. ii. 5, 6, 1 Ped. ii. 22, 23. Ademais, assim como essa conformidade será no futuro nos céus em glória e felicidade, 1 Jo. iii. 2, Fil. iii. 21, Col. iii. 4, assim deve ser iniciada na terra pela graça, em parte na santidade, em parte na cruz. Rom. viii. 18. Pois, assim como Cristo, enquanto viveu na terra, foi insigne principalmente tanto pela santidade, pela qual foi puro e imune de toda mancha de pecado, verdadeiramente o santo do Senhor, quanto pela calamidade, como homem de dores, Is. liii. 4, que se sujeitou a todo tipo de misérias e paixões até o esvaziamento, Fil. ii. 6, 7: assim ele quis que sua Igreja se assemelhasse e se tornasse conforme nestas duas coisas; Primeiro, na santidade, de onde somos ordenados a ser santos como ele é santo, 1 Ped. i. 15, e a purificar-nos como ele é puro, 1 Jo. iii. 3. Segundo, nas paixões e na cruz, sentido em que se diz que ele nos deixou o exemplo para que sigamos os seus passos, 1 Ped. ii. 22. E diz-se que os fiéis comunicam das paixões de Cristo, quando sofrem à semelhança e exemplo dele, cap. iv. 13. Portanto, assim como Cristo, por sua parte, teve várias paixões a suportar para aperfeiçoar a obra da Redenção: assim o Cristo místico ou a Igreja e cada um dos fiéis têm, cada um por sua parte, uma certa medida de paixões que lhes é designada por Deus segundo o exemplo da cabeça; cada um deve beber deste cálice, cada um deve levar sua própria cruz após Cristo; até que, portanto, os fiéis tenham sofrido esses combates e suportado as misérias que lhes foram impostas por Deus, resta sempre algo a ser preenchido nas paixões de Cristo; não certamente do Cristo natural, porque sua satisfação foi perfeita e absoluta em todos os números na cruz, o que ele mesmo testemunhou quando clamou que estava consumado; mas do Cristo místico, isto é, de seu próprio Corpo, cujas paixões, sendo certo que não se consumarão antes do fim do século, devem ser preenchidas diariamente nas calamidades de cada um dos fiéis.
VI. E a isto pertencem as palavras de Pedro, 1. cap. v. 9, que servem perfeitamente ao nosso propósito; quando diz que as mesmas paixões que eram impostas aos fiéis dispersos a quem escreve, se cumprem na sociedade dos irmãos que estavam por todo o mundo, as quais manifestamente provam que Deus, em seu eterno conselho, decretou não apenas quais paixões o próprio Cristo sofreria em sua carne para a Redenção da Igreja; mas também quais paixões cada um dos membros de sua Igreja sofreria pelo nome de Cristo; enquanto, portanto, no seu tempo e grau, essas coisas são postas em execução, retamente se diz que se preenchem na sociedade dos irmãos, isto é, no corpo de Cristo, essas paixões. Nem outra coisa quer dizer Paulo neste lugar, quando diz que preenche as relíquias das paixões de Cristo, senão que ele também leva alacremente a parte da cruz de Cristo que lhe fora imposta para carregar. Entretanto, embora em ambos os casos, tanto por Cristo quanto por nós, paixões devam ser suportadas, deve-se reconhecer todavia uma memorável diferença entre ambas; pois as paixões de Cristo foram gravíssimas e temperadas por nenhuma suavidade, porque ele deveu levar toda a maldição de Deus devida a nós, e beber esse cálice até as fezes; mas as nossas, já retirada a maldição de Deus por Cristo, tornam-se temperadas e leves pela graça de Cristo, de modo que o cálice deve ser provado, mas não esgotado; e os males devem ser suportados, mas benditos com Cristo: aquelas primeiras Cristo deveu suportar para nossa redenção, de onde não mal as chamarias de προτερήματα [precedentes]; mas estas devemos sofrer após ele para a santificação, por isso bem as chama Paulo de ὑστερήματα [posteriores/faltantes]. Nem deve ser omitida a força da frase Apostólica quando diz não apenas que preenche, mas ἀνταναπληροῦν, isto é, preencher por sua vez, o que nota uma certa relação e correspondência; não apenas com os demais fiéis, que também por sua parte deviam sujeitar-se à mesma cruz; mas também com o próprio Cristo, para que a paixão do membro responda à paixão da Cabeça; a saber, para que, assim como Cristo, pela salvação de Paulo, suportara os maiores dores na cruz, e a própria maldição da lei; assim Paulo, por sua vez, pela glória de Cristo e pelo Evangelho, devesse sustentar um grave combate; no qual houve para ambos certas vezes, por assim dizer, embora para um e outro fim, como já diremos.
VII. Terceiro, também deve ser notado: as aflições que por Cristo são impostas aos fiéis, embora não possam ter nenhum fim de Redenção nem de Satisfação, têm todavia muitos outros que não apenas aproveitam aos próprios fiéis que sofrem; mas também a outros, imon a toda a Igreja, seja para a confirmação da fé, seja para exemplo de paciência, seja para o maior progresso do Evangelho. Pois que esses frutos nascem delas, Paulo testemunha mais de uma vez, como em Fil. i. 12, 13, significa que suas prisões redundaram na propagação do Evangelho e na confirmação dos irmãos; quero que saibais, irmãos, que as coisas que me aconteceram contribuíram mais para o progresso do Evangelho. De sorte que as minhas prisões se tornaram manifestas em Cristo em todo o pretório, e em todos os outros lugares; e muitos dos irmãos, confiando em minhas prisões, ousavam falar a palavra de Deus com mais abundância e sem temor. Foram, portanto, suas paixões utilíssimas, não certamente para a satisfação, mas para a confirmação e exemplo de constância; o mesmo diz em outro lugar, 2 Cor. i. 6, 7. se somos atribulados, diz ele, é para vossa consolação e salvação, que se opera na tolerância das mesmas aflições que nós também sofremos; se somos consolados, é para vossa consolação e salvação, etc. Pelas quais coisas consta, segundo a mente de Paulo, que seus sofrimentos aproveitam aos fiéis, não para que eles mesmos sejam isentos de penas semelhantes (o que é o fim da satisfação), mas plenamente ao contrário, para que sejam animados mais fortemente a sustentar combate semelhante pelo exemplo de sua paciência. De modo inteiramente igual diz aqui que sofre por eles e pelo corpo de Cristo, que é a Igreja, não para ser redimida, mas para ser edificada; não para ser libertada das penas, mas para ser confirmada na fé; não para satisfação, mas para imitação. Que as paixões dele tenham sido de grande uso para os fiéis, e que delas tenha redundado um imenso fruto para a Igreja, não negamos. Negamos apenas o que os Adversários pretendem: que foram um ἱλαστήριον [propiciação] de nossos pecados e satisfação pelas penas que os pecados deles mereciam; nem ajuda a Bellarmino o fato de dizer que Paulo optou por ser útil aos fiéis com estas aflições de todos os modos que podia, isto é, não apenas instruindo e confirmando, mas também expiando: pois supõe o que está em questão, e comete petição de princípio, a saber, que as paixões do Apóstolo puderam ser expiatórias ou satisfatórias, o que devia ser provado e não suposto.
VIII. Dirás: Paulo, contudo, diz que sofre ὑπὲρ τοῦ αὐτοῦ σώματος, pelo corpo dele. Como, porém, essa voz, em relação a Cristo, nota tanto Satisfação quanto substituição quando se diz que sofreu por nós, como em outro lugar por nós foi mostrado; por que não obteria também aqui o mesmo sentido, visto que os santos nesta parte sofrem seguindo o exemplo de Cristo? Resp. não negamos que frequentemente esta seja a força e o sentido da preposição ὑπὲρ, de modo a inferir tanto a substituição da pessoa quanto a satisfação da dívida, como se diz que algo é feito ὑπὲρ ἡμῶν quando é no lugar e em vez de nós, sentido em que é certo ser atribuído a Cristo quando se diz morto pelos ímpios, Rom. v. 6, e pelas ovelhas, Jo. x., etc. Mas pretendemos que esta não é a única significação desta palavrinha; antes, julgamos que nem mesmo sem grave absurdo pode ter lugar aqui, porque, como ninguém pode satisfazer por si mesmo, assim também não pode pelos outros: Que dizer então? Como em outro lugar, esta preposição obtém um duplo sentido; ou de ocasião pela qual algo é feito, como quando os fiéis dizem sofrer ὑπὲρ χριστοῦ ou ὑπὲρ τοῦ ὀνόματος αὐτοῦ, pelo nome dele, Fil. i. 29, 2 Cor. xii. 10, isto é, não para satisfazer por ele, longe disso, mas por ocasião dele; Ou de Causa final e impulsiva pela qual a coisa se faz, como quando Paulo diz que é atribulado pela consolação dos fiéis, 2 Cor. i. 6. Assim, aqui se diz retamente que sofre pela Igreja neste duplo significado: Tanto porque a Igreja foi a ocasião dessas paixões, pois enquanto se esforça para lhe ministrar é lançado na prisão; Quanto porque a edificação e confirmação da Igreja foi o fim para o qual olhavam; Ora, que esta seja a mente do Apóstolo, as palavras seguintes ensinam claramente, quando diz que foi feito ministro da Igreja, não para a redenção, mas segundo a dispensação que lhe fora confiada para pregar o Evangelho de Cristo. Devia ser, portanto, ministro da Igreja, não Mediador ou Redentor, para insinuar que não fala de paixões satisfatórias, mas edificatórias.
IX. Assim Agostinho entendeu no Tratado 47 sobre João. Porque, diz ele, sois ovelhas de Cristo, fostes compradas com sangue: Reconhecei o vosso preço, que por mim não é dado, mas por mim é pregado: Depois acrescenta: como ele deu a sua vida, assim também nós devemos dar a vida pelos irmãos para edificar o povo, para afirmar a fé. Isso mesmo não poucos nem ignóbeis dentre os Adversários reconheceram. Tomás neste lugar: Estas palavras, segundo a superfície, podem ter um mau entendimento, a saber, que a paixão de Cristo não seja suficiente para a redenção, mas que as paixões dos santos tenham sido adicionadas para completá-la, mas isso é herético. E pouco depois: assim também todos os santos sofrem pela Igreja, para que ela seja robustecida pelo exemplo deles. O Cardeal Contarini neste lugar: Não são ditas estas coisas por Paulo por aquela razão como se as paixões de Cristo não bastassem para apagar os pecados, e que lhes faltasse algo que conviesse ser preenchido em nós. Longe disso, mas porque devemos imitar a Cristo e sofrer pela edificação da Igreja assim como Cristo sofreu. Assim o Jesuíta Justiniano neste lugar: Diz que preenche o que falta das paixões de Cristo, não certamente para o mérito ou força de satisfazer (pois o que falta ao infinito?), mas para a força e eficácia de traduzir os mortais para a fé, e isso para que o seu corpo místico, que é a Igreja, seja aperfeiçoado. Pois, ensinando, admoestando, exortando, enfim, promulgando o Evangelho, grandes trabalhos devem ser tolerados, perigos enfrentados, etc. Depois significa, portanto, que sofre pela ampliação ou propaganda da Igreja, para confirmar e estabelecer a sua fé, para que provoque os outros à sua imitação. Deixo de lado muitos outros que aqui fazem causa comum conosco; porque destes consta mais do que suficientemente que as paixões de Paulo foram certamente exemplares e confirmatórias, mas não satisfatórias; e, portanto, erradamente os Adversários usam isto como argumento para estabelecer sua invenção.
X. Não mais solidamente confirmam a partir daqueles lugares nos quais parece ser feita menção de alguma Redenção a ser realizada por homens através de boas obras, as quais também costumam trazer para cá, como em Prov. xvi. 4 [sic, xvi. 6], onde o Sábio diz: pela misericórdia e pela verdade redime-se a iniquidade, e pelo temor do Senhor desvia-se do mal. Sobre o que Bellarmino, lib. 4 sobre a Penit. cap. 3: Aqui, diz ele, temos a voz de Redenção que equivale à voz de satisfação; certamente, de fato, não menos pertence à justiça a Redenção do que a satisfação; embora fosse absurdo dizer que pelos nossos atos se satisfaz pelos pecados, muito mais absurdo seria dizer que pelos nossos atos se redimem os pecados, como eles mesmos (entende a nós) mais comodamente aceitam se quisermos ser chamados de algum modo Redentores do que satisfatórios; como, portanto, na Escritura, não em um só lugar, em palavras expressas, ensina que pelos nossos atos se redimem os pecados, profeticamente não destoa do uso da Escritura o que dizemos: que pelos nossos atos se satisfaz pelos pecados. A este lugar acrescentam outro semelhante de Dan. iv. 27. Onde Daniel, tendo exposto a Nabucodonosor a visão pela qual fora indicada a pena que ele merecia por seus crimes, acrescenta imediatamente: Portanto, ó Rei, aceite o meu conselho, e redima os seus pecados com esmolas, e as suas iniquidades com misericórdias para com os pobres. Sobre o que Salmerón: Consta que pelas obras que precedem a graça a culpa não pode ser redimida, portanto resta que se entenda sobre as penas que restam devidas mesmo perdoado o delito. Para cá também referem vários lugares dos Profetas nos quais Deus promete que perdoará as penas temporais ao seu povo, se de coração se converter e prestar obras satisfatórias pelos pecados, como em Is. i, Jer. xviii, Ezeq. xviii e em outros lugares que certamente não podem ser ditos, a menos que se desse lugar às nossas satisfações.
XI. Resp. Mas que todas estas coisas são ἀπροσδιόνυσα [irrelevantes/fora de propósito], prova-se não obscuramente. Pois, para falarmos do lugar de Provérbios primeiramente: quão nada faz ao caso patenteia-se por várias razões: 1. porque se faz menção do pecado ou iniquidade, mas não da pena, a qual apenas querem que seja expiada pelas satisfações humanas. 2. Porque misericórdia e verdade, das quais se trata, não podem ser referidas a obras penais e molestos nas quais querem que estejam situadas suas satisfações; nem nunca a Escritura fala delas como de penas, mas como de virtudes que em seu exercício costumam trazer grande consolo e alegria aos fiéis; Daí Jansênio julgar que nestas duas virtudes se inclui a observância dos mandatos divinos. Quem, porém, ouviu jamais que a observância dos mandatos divinos fosse numerada entre as penas? 3. misericórdia e verdade podem ser entendidas ou de Deus ou do homem; se de Deo, como alguns querem que se note que, pela misericórdia de Deus como Pai clementíssimo e pela sua verdade, isto é, fidelidade, se perdoa a iniquidade, cai o argumento do Adversário. Se do homem, não será mais forte, porque assim se notará a condição à qual se dá a remissão do pecado, não a causa pela qual é dada, pois assim como o juízo sem misericórdia deve ser exercido contra os que não usaram de misericórdia, assim os misericordiosos alcançam misericórdia, Mat. v. 7. E os que perdoaram aos outros os pecados de verdade e de coração, a esses também o pai celestial certamente perdoará os pecados; Não porque a misericórdia para com os outros seja a causa da misericórdia de Deus para consigo, mas porque é apenas uma certa condição necessária. E assim o sábio quer rebater aqui a vã opinião dos hipócritas que, contentes com sacrifícios externos e carnais, buscavam neles sós a expiação de seu pecado, de modo nenhum solícitos pelo culto interno e moral; mas aqui, ao contrário, o homem de Deus ensina que ela deve ser buscada não tanto nos sacrifícios, quanto nas obras de piedade e caridade nas quais Deus a promete passim: não que sejam causa do perdão que ele insinue por que ele é dado, mas porque são uma disposição necessária do sujeito que ensina a que tipo de pessoas é concedido, como se dissesse que a ira do Senhor cessa onde descansamos de nossos crimes. Assim não se exclui o λύτρον [preço de resgate] que pelo Mediador deveu ser dado, mas indica-se o ofício do homem, sem o qual não pode prometer a si tal benefício.
XII. 4. Não deve ser omitido que a força do verbo כפר [caphar] de que o Sábio usa nem sempre pertence à Redenção propriamente dita, mas mui frequentemente à Remissão e perdão que Deus concede ao pecador penitente; assim muitas vezes os Gregos e Latinos o vertem, como em Is. xxii. 14, o que no Hebraico é אם יכפר העון הזה לכם, os Gregos vertem assim: οὐκ ἀφεθήσεται ὑμῖν αὕτη ἡ ἁμαρτία. Lat. se vos será perdoada esta iniquidade. Assim c. xxvii. 9 לכפר, os Gregos ἀφαιρεθήσεται, Lat. será perdoada. Assim será plano o sentido: pela misericórdia e verdade se redime, isto é, perdoa-se e apaga-se a iniquidade, porque quem se esforça pela misericórdia e verdade, é de tal modo grato a Deus que não pode deixar de obter a remissão do pecado. 5. Como o verbo כפר não apenas se refere à remissão do pecado, mas também à ablação e remoção moral da coisa, como em Is. xxviii. 18. Será apagado vosso pacto com a morte, isto é, será revogado, Heb. כפר, os Gregos vertem por ἀφελεῖν; comodamente pode este sentido ser aplicado aqui, de modo que não tanto o que se faz pela misericórdia e verdade ou pelo exercício delas diante de Deus, mas o que se faz em nós, a saber, que pelo estudo dessas virtudes se faz com que a iniquidade seja tirada e limpa das almas e da vida dos homens: E isso responderá otimamente às palavras seguintes que se acrescentam: No temor de Deus desvia-se do mal, porque o Temor de Deus é o freio potentíssimo pelo qual somos coibidos do pecado; Assim, nestas duas sentenças, como costuma ocorrer frequentemente neste livro, uma mesma verdade será contida, que recomendará o estudo e o fruto do Temor divino e da caridade; mas nada para as satisfações humanas poderá ser extraído dali.
XIII. O outro lugar que se toma de Daniel, embora subitamente costumem instá-lo, tem ainda menos força, e eles, por esta sua hipótese, nem sequer podem expô-lo comodamente, quanto mais poder provar dele o seu dogma. 1. É certo, segundo a sentença deles, que as satisfações são feitas apenas pelos piedosos e por aqueles que estão na Igreja, aos quais, a saber, tanto a culpa quanto a pena eterna já foram perdoadas; Ora, este Rei, como é sabido, foi um Étnico idólatra e alheio à Igreja de Deus: Como pôde persuadi-lo verdadeiramente a satisfazer pelas penas temporais, ele que ainda estava sujeito às penas eternas? II. Querem que a satisfação esteja posta em certas obras penais e laboriosas; Mas aqui se trata de Justiça, pois o que os Gregos e a Vulgata vertem por Esmola, no Heb. é צדקה [tsedaka]. Quem, porém, diria que a justiça pode ser contada entre as penas do pecado? III. Querem que pelas satisfações apenas as penas temporais sejam redimidas, não a culpa ou a pena eterna; Mas nada tal pode ser coligido deste lugar, no qual não se faz menção de uma certa pena temporal, mas apenas de iniquidades e pecados. Assim, se o que pretendem, que os pecados são propriamente redimidos pelas esmolas como por uma verdadeira satisfação, é o que o Profeta quer, segue-se que eles entendem que não apenas a pena temporal, mas também a eterna, não apenas a pena, mas também a própria culpa são expiadas, pois nenhuma razão de distinção pode ser trazida das palavras do Profeta, visto que mencionou apenas os pecados: Mas isso os Adversários não diriam. E isso Vásquez não pôde negar, ele que nega que este lugar deva ser referido a isso. Frustradamente, porém, Bellarmino, lib. 4 sobre a Penit. cap. 8, tenta escapar dizendo que Pecado muitas vezes é tomado pela pena do pecado; pois embora não neguemos que o pecado às vezes conote a própria pena, nunca, porém, isso se faz sem algum respeito à culpa, de modo que quando se diz que o pecado é redimido, não se pode entender apenas a pena sem a culpa, como nem a culpa sem a pena.
XIV. IV. Toda a força do argumento baseia-se no verbo Redimir que não consta no texto original, mas no verbo פרק [peraq] que, em sua primeira e mais usual significação, nada mais é do que quebrar, arrancar e afastar, sentido em que é tomado em Êxodo xxxii. 3 פרקו נזמי הזהב tirai [separai], isto é, arrancai os brincos de ouro, Vulgata Tollite [tirai], LXX ἀφείλεσθε; assim em Gên. xxvii. 40, 1 Reis xix. 11. Daí, tomado por tropo, às vezes significa libertar, porque quem é libertado daquilo em que estava implicado, de certo modo é arrancado: Mas de qualquer modo que seja tomado, não importará nenhuma satisfação. Pois, se o referires ao posterior, notar-se-á certamente a libertação, mas não o modo de libertação por alguma satisfação ou λύτρον; Antes, nem pode mesmo, porque a força da voz infere antes a libertação pelo poder do que pela justiça: Além de que nem se pode dizer dos pecados, visto que não os pecados, mas os pecadores são redimidos neste sentido. Mas se a voz for entendida no primeiro sentido, o que julgamos omninamente mais conveniente, sobre a ruptura do pecado e mudança de vida, todas as coisas serão fáceis e expeditas; Daniel aconselhava, a saber, o Rei ímpio e soberbíssimo, que, lançando fora todo temor de Deus e dos homens, dominara por imensa avareza e crueldade, que rompesse o curso da vida passada e entrasse em um caminho plenamente contrário, lavando as manchas da tirania precedente não apenas com a suma justiça, mas também com benignidade; assim o extermínio iminente talvez fosse afastado e Deus, movido por esta conversão, mudaria as coisas para melhor; Ao que pertencem as palavras seguintes: se porventura houver uma prorrogação de tua tranquilidade; como se dissesse: Exerceste, ó Rei, uma dominação violenta e injusta, oprimiste os humildes, despojaste os pobres, e grassaste impunemente por todo tipo de pecados: Mas agora, se queres escapar da ira de Deus iminente, deves mudar plenamente de vida e, em vez de exações injustas, em vez de violência e opressão, retribuir com misericórdia e justiça, e assim ressarcir as injúrias com beneficência, e romper o curso dos teus pecados para que te vá melhor. Assim notava certamente que a conversão e a penitência eram o único caminho para evitar o juízo de Deus; Mas sobre fazer satisfação à justiça de Deus, nem sequer pensou, tanto está longe de tê-la recomendado aqui.
XV. Nem para outro lugar olham os passos que passim nos Profetas tratam da penitência como necessária para obter a remissão dos pecados ou o relaxamento das penas. Pois não negamos que a penitência seja condição absolutamente necessária para que se obtenha o perdão dos pecados; Não negamos também que frequentemente por ela se faça com que as calamidades iminentes e os juízos de Deus sejam ou declinados ou mitigados; Negamos apenas que seja pena satisfatória ou compensação que se faça à Justiça divina: Porque é algo muito diferente evitar e declinar as penas, e outra coisa verdadeiramente satisfazer; uma coisa obter a coisa, e outra consegui-la pela via do preço e do pagamento; Visto que penas desse tipo, segundo os Adversários, não apenas são graves e molestos aos que as sofrem, mas também são consideradas indevidas; Mas estes exercícios de penitência que pelos Profetas são prescritos, não apenas não são graves e duros, mas suaves e jucundos aos fiéis que neles impensamente se deleitam; Mas de tal modo são devidos que ninguém pode ou deve omiti-los sem crime. Além de que os fiéis versam no trono da misericórdia, onde nenhum lugar se dá ou às obras ou às nossas paixões para a satisfação, mas apenas à graça e ao mérito de Cristo: Não, porém, no foro da Lei, onde a pessoa é julgada pela obra, não a obra pela pessoa. Que se algumas vezes certas obras laboriosas parecem ser instadas com a penitência, como Jejuns, Cilício, etc., não se faz por isso para que intervenha alguma compensação perante Deus pelos delitos, mas apenas para que por elas a verdade e sinceridade da penitência se torne tanto melhor testificada.
XVI. III. Objetam os Adversários vários lugares nos quais Deus, após a culpa perdoada, diz-se contudo ter enviado várias penas aos fiéis: 1. 2 Sam. xii. 14. O pecado é perdoado a Davi por Natã, e contudo a morte do filhinho lhe é decretada em pena, Porque fizeste blasfemar o nome de Deus pelos inimigos do Senhor, por isso o filho que te nasceu morrerá. 2. Núm. xiv. 20. Diz-se que Deus perdoou aos israelitas que murmuravam, aos quais, porém, depois interditou o ingresso na terra de Canaã: e em pena do pecado infligiu-lhes a morte no deserto, o que é chamado de vingança do Senhor [ultio Domini] v. 34. 3. Êxodo xxxii. 10, 14. Deus testemunha que perdoou o pecado de idolatria por causa das preces de Moisés, e contudo por causa daquele pecado muitos milhares de israelitas são mortos. 4. A Moisés e Arão o pecado de incredulidade foi sem dúvida perdoado, contudo permanece a pena a ser paga após a culpa perdoada, porque morrem no deserto, Núm. xx. 24 e Deut. xxxii. 50, 51. De cujos lugares e outros semelhantes coligem que pode acontecer que, perdoada a culpa por causa da Satisfação de Cristo, permaneça contudo para nós alguma pena temporal a ser paga.
XVII. Mas não é difícil repelir também este dardo dos Adversários: se apenas distinguirmos Penas propriamente ditas, de penas analogicamente e impropriamente assim chamadas, isto é, misérias e calamidades: Pois não negamos que haja vários gêneros de penas pelas quais Deus castiga os pecadores: Mas entre elas, contudo, deve-se estabelecer uma grande distinção; visto que, embora todas pareçam procedentes da mesma fonte, o pecado a saber, por cujo reato esta coorte de males incumbiu sobre as terras, embora a face externa em nada difira, o fim e o modo, porém, é diversíssimo. Pois como Deus pode ser olhado de dois modos, ou como Juiz ou como Pai, como Juiz que age pela justiça para a vingança, como Pai que age pelo amor para a correção; como os homens podem ser considerados em ordem dupla; Ou como ímpios que estão sob a maldição da lei; Ou como fiéis que foram recebidos no pacto da graça, Assim duplo é o juízo de Deus, um legal de vingança, outro Evangélico e paterno de castigo; E as aflições que são enviadas aos homens são de dois gêneros; Algumas são contadas como penas propriamente ditas, porque são infligidas ao pecador pela ordem da justiça divina para vingança e Satisfação de Deus ofendido, de cujo tipo são todas aquelas que são infligidas aos ímpios e réprobos ou neste mundo, ou que hão de ser infligidas no outro. Outras, porém, analogicamente apenas são assim chamadas, porque não são penas judiciais, mas paternas; não para vingança, mas para medicina; não pela ira do Juiz, mas pelo amor do pai; não para destruição, mas para correção; não suplícios, mas remédios; não satisfação dos passados, mas precaução dos futuros; quais penas são todas aquelas que são enviadas aos fiéis, as quais segundo os vários fins são distribuídas em três espécies: 1. παιδείαν [paideia/disciplina] & νουθεσίαν [nouthesia/admoestação], que é o castigo paterno que pertence apenas à emenda dos que pecam, sobre o que Heb. xii. 6, 7, Apo. iii. 19. 2. δοκιμασίαν [dokimasia/provação], que é a exploração da piedade que se refere ao exemplo, sobre o que Tia. i. 2, 3, como se viu em Abraão e Jó. 3. μαρτύριον [martyrion/testemunho], que olha para a selagem da doutrina celeste pelo próprio sangue, sobre o que 2 Tim. i. 4 e Apo. vi. 9.
XX. Postas assim estas coisas, resolve-se facilmente a objeção proposta; pois não se pergunta entre nós se, após a culpa perdoada, Deus pode e quer exercitar os fiéis com várias calamidades e penas impropriamente e analogicamente assim ditas; Reconhecemos de bom grado que mui frequentemente estas têm lugar na dispensação de Deus para com seus filhos, para que ou sejam castigados, ou provados, ou no futuro se tornem mais cautelosos; Confessamos que esta é a ordem da sabedoria divina constituída no pacto da graça, que entremos no reino dos céus por várias aflições, e que ninguém obtenha a coroa da glória sem sangue [ἀναίμακτον]: Mas pergunta-se apenas se ainda estão sujeitos ou podem estar a penas propriamente assim ditas, pelas quais se satisfaz à justiça divina, desde que uma vez conseguiram o perdão dos pecados: Pois isso negamos constantemente: Nem os Adversários poderão jamais provar isso a partir dos lugares alegados, nos quais ocorrem certamente exemplos de castigos paternos, mas não de penas judiciais, como patentesará pelo exame de cada um.
XXI. Pois, para começarmos pelo exemplo de Davi que primeiramente Bellarmino propõe: Confessamos certamente que a morte do filhinho, que lhe foi predita por Natã após o pecado perdoado, foi infligida por ocasião do pecado e por causa dele mesmo, para que por esse sentido fosse mais abalado. Não negamos também que tenha sido para Davi uma pena paterna, castigatória e medicinal, pela qual, confuso pelo pecado passado, devia ser instruído para que no futuro não ousasse tal crime; Mas negamos que tenha sido pena propriamente dita, infligida por um Juiz irado para vingança e satisfação da justiça. Nem isso pode ser coligido da dupla razão que Bellarmino alega. Não da primeira, tomada destas palavras do Profeta: Porque fizeste blasfemar o nome do Senhor pelos inimigos, por esta palavra o filho que te nasceu morrerá, as quais parecem mostrar que esta pena é imposta em vingança do pecado passado, não para a emenda do futuro. Pois daí colherias bem que aquele pecado foi a ocasião e a causa da infligição daquela calamidade; Mas não poderás daí extrair imediatamente que ela foi a sua pena: Antes, o Homem de Deus insinua assaz expressamente que esta foi infligida não tanto para pena quanto para exemplo; a saber, como um imenso escândalo fora dado por aquele pecado aos homens profanos, como se Deus fovesse em seu seio adúlteros e homicidas, deveu todo esse escândalo ser ressarcido por aquela razão, para que fosse um documento de que tais pecados desagradavam gravemente a Deus, contra os quais declarara tamanha ofensa em seu filho amado, e assim a disciplina da casa divina, violada por este torpíssimo crime, fosse sancionada por algum exemplo, para que nem o próprio Davi, nem outros, pelo seu exemplo, se entregassem a libidos ou matanças no futuro; Não se inflige, portanto, para pena, mas para medicina; Nem se pode coligir o contrário, em segundo lugar, do fato de Davi com lágrimas, jejum, preces, etc., ter deprecado esta morte, o que o homem santo não teria feito se a reconhecesse útil para si, como diz Bellarmino no lugar citado. Pois não é novo que os santos deprequem aquelas calamidades que, de resto, sabem ser convertidas em bem por Deus, porque esta é a índole de nossa natureza, que tudo o que é duro e molesto imediatamente evite e tente afastar de si; assim Paulo, que sabia que aquela grave cruz lhe fora imposta por Deus não como pena do passado, mas como remédio do futuro, a saber, para que não se exaltasse pela grandeza das revelações, nem por isso deixou de deprecá-la menos, 2 Cor. xii. 7, 8; exatamente como o Enfermo depreca veementemente a moléstia do cautério e a amargura do remédio, embora não duvide que seja remédio e não pena; Assim, se Davi suportou a morte do filhinho com dor, e tentou afastá-la com suas preces e jejum, conclui-se disso certamente que essa morte lhe foi grave e acerba, mas não se pode daí extrair que tenha sido a sua própria pena, ou que não tenha tido nenhum uso para sua emenda.
XXVIII. Além disso, objetam que o Juízo de Deus também se exerce sobre os Fiéis, Antes, segundo Pedro c. iv. 17, 1. começa pela Casa de Deus; Ora, o Juízo traz necessariamente atrás de si alguma pena. Resp. O Juízo é duplo; um de vingança, que procede de um Juiz irado; outro de castigo, que é de um Pai benévolo: Com aquele, Deus persegue seus inimigos até o extermínio; Com este, exercita seus filhos e amigos para a salvação. Aquele é sinal de maldição; Este de amor: Como um Juiz, quando pune um facínora, castiga o próprio delito e exige a pena pelo próprio crime: Mas o Pai, quando corrige o filho com mais severidade, não faz isso para vingar ou multar, mas antes para ensinar e tornar mais cauteloso no futuro. Pedro não fala do primeiro, mas do segundo, de onde os escólios gregos bem notam que κρῖμα [krima] aqui é usado não em lugar de condenação [ἀντὶ κατακρίματος], mas de exame [ἐξετασίας]. Como se usa também em 1 Cor. xi. 31. Porque se nós nos julgássemos a nós mesmos, não seríamos certamente ἐκρινόμεθα, julgados; Ora, para mostrar que não fala do Juízo de vingança, mas do castigo paterno, acrescenta imediatamente: κρινόμενοι δὲ, quando somos julgados pelo Senhor, somos castigados, para que não sejamos condenados com o mundo. Sobre cujo lugar diz otimamente Crisóstomo: Οὐκ εἶπεν εἰ ἐκολάζομεν ἑαυτοὺς, ἢ ἐτιμωρούμεθα... [Não disse: se nos castigássemos a nós mesmos, ou nos puníssemos, mas apenas se quiséssemos reconhecer os pecados, se nos condenássemos a nós mesmos, se déssemos sentença sobre os delitos, seríamos libertados do suplício que está tanto aqui quanto acolá]. Assim Cláudio Guilhardus, dos Adversários: Enquanto somos julgados, não diz que somos punidos, não pagamos penas, mas somos castigados e instruídos, para mostrar que estas aflições (pelas quais aqui se diz que somos julgados pelo Senhor) são antes de admoestação do que de condenação, de medicina do que de suplício, de correção do que de pena. Daí é que se diz que o Juízo começa pela Casa de Deus; Porque, embora Deus seja o Juiz de todo o mundo, quer que sua providência seja reconhecida especialmente na Igreja, de modo que pareça de certo modo poupar os réprobos, conforme é severo para com os eleitos; como o pai de família castiga antes os seus, dos quais tem cuidado singular, do que os servos e alheios: Assim Deus tempera seus juízos, para que os réprobos, que são servos do Diabo e do pecado, deixe-os frequentemente sem disciplina e tolere muitos de seus crimes e para eles como que feche os olhos: Mas seus filhos, a quem ama acima dos outros, castiga-os mais prontamente, não só porque, pecando contra maior luz, ofendem também mais a Deus; mas também porque àqueles que ama mais ternamente costuma castigar mais diligentemente para que voltem a melhor fruto e se tornem participantes de sua santidade, Heb. xii. 10, 11, e nada ocorra na casa de Deus que não responda à pureza e glória de tamanha Divindade.
XXXVI. Quinto, comemoram várias utilidades da satisfação. 1. Que é utilíssimo ao pecador que não permaneça penitus impune, para que, pela facilidade do perdão, não seja incitado a pecar novamente. 2. Porque não só coíbe de pecar, mas também admoesta quão grande seja a gravidade do pecado, e desse modo instrui e ilumina a alma, e dessa luz nasce um certo ódio imenso ao pecado, para que já não pelo temor da pena, mas pelo amor da justiça, se persevere nas boas ações. 3. Serve para erradicar os hábitos do pecado e inserir os das virtudes. 4. Finalmente, para exemplo, porque pela pena de um, especialmente se for pública, frequentemente se corrigem muitos. Estas e coisas semelhantes Bellarmino tem no lib. 4 sobre a Penit. c. 5, para recomendar a necessidade da satisfação em relação aos fiéis pelos quais Cristo satisfez. Resp. Mas aqui ele não se engana de um só modo. Primeiro, porque mede a necessidade e a verdade da coisa por qualquer utilidade dela, quando, ao contrário, não se deve tratar da utilidade antes que conste sobre sua verdade e instituição. Logo, ainda que se desse que houvesse alguma utilidade na satisfação, não se seguiria contudo imediatamente que ela devesse ser admitida como genuína, a menos que constasse ter sido prescrita por Deus. 2. Tanto está longe de haver qualquer utilidade na satisfação, que daí nasce um grande detrimento tanto para a glória de Cristo quanto para a piedade: visto que subtrai muito à satisfação de Cristo ao afastar os homens dela em certa medida e ao partilhar entre os Santos e a própria obra de salvação, como antes visto; e tira a paz às consciências, que nunca podem estar certas se, por aquelas satisfações que elas mesmas se impuseram, ou que foram impostas por outros, Deus foi verdadeiramente satisfeito, e assim flutuarão sempre entre a esperança e o medo. Ora, as utilidades que aqui se fingem, são alegadas fora do propósito; pois, além de que nada tal pode ser coligido destas lúdicas satisfações, estes frutos são obtidos suficientemente de outra parte, tanto pela morte de Cristo quanto pelo exercício da verdadeira penitência. Pois assim como daquela coligimos luculentamente quão grande é a gravidade do pecado e quão certo é para Deus não deixar o pecado impune: assim desta nasce cada vez mais o ódio ao pecado, os hábitos viciosos são gradualmente erradicados e os bons confirmados, e o exemplo é dado a outros para o mesmo estudo: de modo que nada é necessário fingir penas satisfatórias por causa disso.
XXXVII. Finalmente, esperam muito subsídio dos escritos dos Antigos porque é frequente entre eles a menção de Satisfação, pela qual professam não só satisfazer pelos pecados, mas não raro ao próprio Deus. Resp. Mas, embora não seja nosso dever garantir todos os ditos dos Antigos tanto neste quanto em outros capítulos da doutrina, quando por eles não nos mantemos de pé nem caímos; contudo, se a razão do nosso instituto o permitisse, facilmente se poderia demonstrar que essa jactância dos Adversários é vã, e que a palavra Satisfação é usada por eles frequentemente, mas em sentido plenamente diverso do que os Adversários costumam usar; pois pelo nome de Satisfação, os Antigos entendem frequentemente a Exomologese pública que pertence à disciplina eclesiástica e às penas Canônicas; e porque esta razão de satisfazer publicamente à Igreja, desde que permaneça dentro dos limites da Palavra de Deus, procedeu do próprio Deus, daí resulta que os Antigos dizem algumas vezes que aqueles que assim satisfazem à Igreja, satisfazem também a Deus, isto é, observam aquilo que por Deus foi instituído. Depois, a palavra Satisfação é usada às vezes pelos Antigos de modo tão lato que insinua a própria penitência e a séria contrição do coração primordialmente, significação deduzida do fato de que, entre os escritores Latinos, diz-se satisfazer aquele que faz aquilo que apraz ao ofendido. Como, portanto, as obras de penitência são sumamente gratas a Deus, podem os homens ser ditos, através delas, satisfazer a Deus até aqui, não que tenham feito tanto quanto os direitos da Lei exigem dos que pecam, mas tanto quanto basta à suma misericórdia e liberalidade de Deus, como poderia ser mostrado por inumeráveis exemplos se agora tratássemos disso; Assim, as Satisfações dos Antigos diferem longamente das Papísticas; Aquelas satisfaziam pelos próprios pecados; mas estas apenas pelas penas; Aquelas precediam a remissão dos pecados; mas estas seguem-se; Aquelas olhavam para a reparação do escândalo dado à Igreja e para o exemplo; Estas, porém, para a vingança do pecado e Satisfação da justiça divina. Mas basta [ἅλις θεοῦ]: Pois não nos propusemos agora perseguir este argumento e examinar todas as coisas que pertencem às satisfações humanas, sobre as quais haverá lugar para falar mais difusamente em outro momento, se Deus permitir. Que resta, portanto, senão que, reconhecida a perfeitíssima Satisfação de Cristo, nela só, deixadas as vaníssimas satisfações dos homens, descansemos; E contentes com um só Cristo, esperemos dele toda a nossa justiça e salvação; para que assim ele seja tudo em todos para nós aqui na terra pela fé, até que finalmente seja tudo em todos nos céus pela visão. Amém.