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DISPUTA TEOLÓGICA SOBRE O CÍRCULO PONTIFÍCIO.

Respondente ELIAS SAURINO Pratalgidensi.

I. ENTRE os vários argumentos que os Ortodoxos costumam usar contra os Pontifícios na desgastadíssima questão sobre a Autoridade da Escritura, é sabido que se urge principalmente por eles o Círculo no qual estes perpetuamente erram ao demonstrá-la, enquanto se esforçam para provar a Escritura pela Igreja, e novamente a Igreja pela Escritura. Porque, de fato, para se desvencilharem deste absurdo, costumam buscar diversos refúgios e, até mesmo, não se envergonham de imputar-nos reciprocamente o Círculo que lhes objetamos, como se demonstrássemos a Escritura pelo Espírito, e o Espírito pela Escritura. Não nos pareceu inútil dedicar algum esforço para explicar brevemente este argumento, tanto para defender a justiça da nossa acusação contra as exceções dos Adversários, quanto para evidenciar a injustiça da incriminação deles, confirmada a verdade da nossa sentença.

II. Dois pontos, portanto, deverão ser demonstrados por nós aqui. Primeiro, que é justissimamente objetado pelos Nossos o progresso circular aos Pontifícios no estabelecimento de sua fé sobre a Autoridade da Escritura, e que esse inconveniente não pode ser removido por quaisquer invenções deles. Segundo, que é iniquissimamente imputado tal círculo à nossa sentença. Previamente, porém, algumas poucas coisas deverão ser anotadas em geral sobre o Círculo, para que conste o que é e por que é um modo vicioso de argumentar.

III. O Círculo, em grego κύκλος, chama-se prova recíproca pela qual uma coisa é concluída e demonstrada sucessivamente a partir da outra, e assim é dito metaforicamente que parece recorrer a si mesmo à semelhança de um círculo; como quando, demonstrada a conclusão a partir das proposições, a partir dela se demonstram sucessivamente as mesmas proposições, e da conclusão se faz a proposição, e da proposição a conclusão. Sobre isto Aristóteles tratou mais de uma vez, mas peculiarmente no 1º e 2º livro dos Analíticos Anteriores, c. 5, 6, 7, onde mostra eficazmente ser absurda e inútil a demonstração circular pela qual certos antigos Filósofos asseveravam que tudo podia ser conhecido. Alguns costumam distinguir o Círculo em lógico e ἄλογον [álogo] ou sofístico; o Lógico diz-se constar de dois silogismos, dos quais um é deduzido e formado do outro, enquanto a conclusão do primeiro é uma das premissas no segundo, e a esta se junta outra, mas conversa, de onde segue a conclusão que fora a maior do primeiro silogismo, p. ex.: Todos os justificados por Cristo têm paz com Deus; Ora, todos os que creem são justificados; Logo, todos os que creem têm paz com Deus. De onde se deduz o silogismo posterior: Todos os que creem têm paz com Deus; Todos os justificados são crentes; Logo, todos os justificados têm paz com Deus. Ou simplesmente ocorre quando aquilo que é tomado como meio no primeiro silogismo é a conclusão no posterior, e o que era conclusão no primeiro é o meio no posterior: Assim, Quem quer que tenha paz é justificado; os fiéis têm paz; Logo, os fiéis são justificados. Agora, reassumindo a conclusão como meio: Quem quer que seja justificado tem paz; os fiéis são justificados; Logo, os fiéis têm paz. Assim, a partir da paz como efeito provo a justificação, e reciprocamente da justificação como causa provo a paz. Contudo, embora para alguns este modo de argumentar seja chamado Círculo, é melhor chamado por outros de Regresso, que tem lugar na conversão da demonstração ὅτι [hoti] em demonstração διότι [dioti] e vice-versa, quando do efeito para a causa há um progresso, e novamente da causa para o efeito; ignorada a causa, colhe-se o efeito mais notório, e depois, regressando da mesma causa distintamente conhecida, o mesmo efeito é demonstrado.

IV. Portanto, falando propriamente, não se dá nenhum Círculo a não ser o vicioso, a saber, quando há um progresso ao infinito nas provas, e ou o mesmo é demonstrado por si mesmo, ou o duvidoso pelo duvidoso, em um certo âmbito recorrendo em si sem fim. Requerem-se, porém, duas coisas principalmente no Círculo, para que seja formal e perfeito: a primeira é que se faça do mesmo para o mesmíssimo; a outra é que se faça pela mesma via e pelo mesmo gênero de causa, conservado o mesmo gênero de conhecimento ou, como outros dizem, sem que nenhum novo conhecimento dos termos tenha sido adquirido. Daí Tannerus na Disp. sobre a fé, esperança e caridade, e Gretserus no trat. sobre o reconhecimento das escrituras c. 14 dizem: o Círculo é um progresso do mesmo para o prorsus mesmo, sem que intervenha nesse meio qualquer variação dos termos quanto à razão do conhecimento, o que acontece quando o consequente inferido do antecedente, não apoiado nem provado por nenhum outro conhecimento senão o do antecedente, é logo assumido para a prova do seu antecedente; p. ex., para usarmos o exemplo de Aristóteles, haverá Círculo se de A demonstrarmos B, e novamente de B demonstrarmos A, e ambas forem demonstrações potíssimas, que pela causa próxima declarem o porquê de o efeito ser. O Regresso, porém, ocorre entre causa e efeito quando se reciprocam e o efeito nos é mais notório que a causa; pois, como sempre devemos progredir a partir do que nos é mais notório, primeiro demonstramos a causa ignorada a partir do efeito conhecido; depois, conhecida a causa, regressamos dela para demonstrar o efeito, para que saibamos o porquê de ser. De onde patenteia que entre o círculo e o regresso há esta diferença: que no regresso o primeiro processo é a demonstração que (quod), mas o posterior é a demonstração por que (propter quid); mas no Círculo ambos os processos são demonstração por que.

V. Tal círculo, porém, segundo o consenso dos Filósofos, não pode ser admitido, porque se seguiria que a mesma coisa seria anterior e posterior a si mesma, mais notória e mais ignorada, causa e efeito, o que nem mesmo pela imaginação pode ser concebido; pois aquilo que é assumido para a prova de outro deve ser anterior e mais notório, pois aquilo pelo qual cada coisa é tal, deve ele mesmo ser mais tal; mas pelo fato mesmo de ser provado e demonstrado a partir de outro, é necessário que lhe seja posterior e mais ignorado. Dirás que o mesmo pode ser objetado ao regresso, a saber, que a mesma coisa seria mais notória e mais ignorada; nem pode ser salva a instância se disseres: a Causa será mais notória que o efeito segundo a natureza, mas o Efeito será mais notório que a causa segundo nós. Pois ambas as demonstrações se fazem por nossa causa, não por causa da natureza, e por isso ambas devem proceder a partir do que é mais notório segundo nós. Respondo: a razão é diferente em ambos os casos, pois não é a mesma via nem o mesmo conhecimento; decerto no primeiro progresso, se a causa é colhida do efeito, o efeito é mais notório segundo nós do que a causa por conhecimento confuso; mas no posterior, onde do efeito a causa é provada, a causa é mais notória segundo nós do que o efeito por conhecimento distinto; no primeiro faz-se o processo a posteriori pela demonstração ὅτι, no segundo, porém, a priori pela demonstração διότι. Não é, portanto, um processo do mesmo para o mesmo; pois, embora seja do efeito para o mesmo efeito, contudo o fim da demonstração não é o efeito precisamente, mas a ciência dele; esta, porém, não é a mesma no fim do regresso e no princípio, pois o exórdio é tomado do seu conhecimento confuso, e o fim é o seu conhecimento distinto e perfeito. O progresso, portanto, faz-se do conhecimento confuso para o distinto, do conhecimento que é, para o conhecimento por que é. Mas no Círculo há o processo do mesmo para o mesmo; pois em ambos os progressos o meio é a causa próxima do extremo maior, na demonstração por que; portanto o processo é do conhecimento distinto para o mesmo como distinto, e isso plenamente pela mesma via, do que nada mais absurdo pode ser concebido.

VI. Uma vez posto isto, demonstra-se facilmente que os Pontifícios se enredam em um Círculo inexplicável enquanto provam a autoridade da Escritura; pois onde quer que haja um progresso do mesmo para o mesmo, conhecido do mesmo modo e pela mesma via, ali não pode deixar de haver um Círculo formal e propriamente dito. Ora, que os Pontifícios procedem assim neste negócio é patente pela sua prática e doutrina. Pois, por causa da infalibilidade da Igreja no testemunhar, crida com fé divina, eles creem na autoridade da Palavra com fé divina; e, novamente, por causa da autoridade da Palavra de Deus crida com fé divina, creem na infalibilidade da Igreja no testemunhar. Este é um processo da infalibilidade da Igreja crida com fé divina para a mesma infalibilidade crida do mesmo modo, e portanto do mesmo para o mesmo pela mesma via. Digamos mais claramente: se se pergunta aos Pontifícios de onde nos consta que a Escritura é Canônica e divina, respondem imediatamente que isto se dá por causa do testemunho da Igreja, porque a Igreja o diz, afirmam eles; mas se replicas, por que credes na Igreja? porque é conduzida pelo Espírito infalível, acrescentam; mas e isto, por que motivo o credes? porque a Escritura o atesta, repõem, que ela é coluna e firmamento da verdade: 1 Timóteo III, 15; que tem a promessa do Espírito Santo, João XVI, 13, etc. Agora, se perguntas de novo como posso estar certo da verdade deste Testemunho na Escritura, dizem que é porque a Escritura é a palavra de Deus; mas por que credes ser a Palavra de Deus? porque a Igreja, que é conduzida pelo Espírito infalível, o diz, respondem. Portanto, revolvem-se ao ponto de onde haviam partido na disputa. Nem aqui ocorre ou uma questão diversa, ou uma via diversa; em ambos os casos, a questão é instituída sobre a razão e o argumento pelo qual cremos, não sobre a faculdade ou o instrumento pelo qual cremos; pois quando provam a Escritura pela Igreja, entendem isso de tal modo que, por causa do Testemunho da Igreja como argumento inartificial, a fé seja aplicada à Escritura, isto é, que esse Testemunho seja a causa pela qual cremos. Novamente, quando demonstram a infalibilidade da Igreja pela Escritura, querem que esse Testemunho da Escritura seja a causa e o argumento pelo qual cremos na Igreja, como será provado abaixo. Portanto, faz-se o processo do mesmo para o mesmo, do conhecimento distinto e do "por que", para o mesmo conhecimento, o que é a verdadeira e própria razão formal do Círculo.

VII. Daqui patenteia que os Pontifícios procedem ao infinito em suas provas, e não têm nenhum primeiro credível no qual a fé primeiramente se apoie e no qual ultimamente se resolva, o que é o mais absurdo de todos os absurdos; pois, se se desse algum primeiro credível, ou seria a Escritura ou a Igreja: mas nenhum dos dois pode ser dito a partir da hipótese deles. Não a Escritura, porque é crida por causa da Igreja, nem se pode persuadir alguém de sua verdade e autenticidade a não ser pelo infalível testemunho da Igreja. Não a Igreja, porque é crida por causa da Escritura, pois, a menos que a Escritura ensinasse a sua Verdade e Autoridade infalível, nossa fé nunca poderia aquiescer em seu testemunho. Assim, o processo é infinito da Escritura para a Igreja e reciprocamente da Igreja para a Escritura, e nem por toda a eternidade, por mais que se esforcem, poderão livrar-se deste labirinto inexplicável e laço intrincado no qual são mantidos enredados.

VIII. Tentam, porém, escapar de vários modos e, para que alcancem mais facilmente este objetivo, buscam diversos esconderijos de distinções nos quais, como lhes parece, possam recolher-se em segurança. Mas se levarmos a tocha da verdade um pouco mais perto, a falsidade delas e a sua ἀσθένεια [fraqueza] imediatamente se manifestarão. Vários respondem de vários modos; nós tocaremos apenas nas principais respostas e nas que têm maior aparência de verdade, deixando de lado as demais que ou não vêm ao caso, ou podem ser refutadas por si mesmas sem dificuldade. O primeiro a sair ao campo de batalha aqui é Gregor. de Valentia To. 3. disp. 1. q. 1. punct. 1. §. 10., distinguindo 1. a causa principal pela qual cremos, e a condição requisitada para crer. Diz que a infalibilidade da Igreja é crida por causa da autoridade da Palavra, como pela causa principal pela qual cremos; mas que a autoridade da Palavra é crida por causa do testemunho da Igreja não como pela causa principal de crer, mas como pela condição requisitada para crer na autoridade da Palavra; e que, portanto, o progresso aqui se faz de fato para o mesmo, mas por via diversa. 2. Distingue a causa da fé segundo si, na qual como em uma razão principal de crer aquiesce nossa fé, da causa da aceitação da fé, que primeiro nos impele e move para que comecemos a crer; se se perguntar sobre a causa da fé segundo si, deve-se parar o passo na revelação divina como no último momento da resolução, porque a revelação divina seria a única razão de nossa fé na qual, por conseguinte, se deve aquiescer; mas o testemunho da Igreja seria a causa da aceitação da fé, porque, como eles dizem, é a primeira porta pela qual se vai para crer nos livros Canônicos, ou o motivo pelo qual induzidos queremos crer; a qual resposta é também de Becano em seu opúsculo sobre o Círculo Calvinístico.

IX. Mas ambos ou enganam e brincam com os termos, ou abandonam abertamente a causa. 1. Se o testemunho da Igreja não é a causa principal de crer, logo não é por causa dele que se crê na autoridade da Palavra, logo a fé não poderá ser resolvida naquele testemunho; mas esta é, no entanto, a mesmíssima doutrina dos Pontifícios, Bellarm. l. 3. de verbo Dei, c. 10. resp. ad arg. 13.: não sabemos com certeza o que Deus revelou senão pelo testemunho da Igreja: de onde segue manifestamente que a revelação divina não é crida por causa de si mesma, mas por causa do testemunho da Igreja. Assim no lib. 6. de lib. arb. c. 3.: os Católicos creem no que creem porque Deus revelou; mas creem que Deus revelou porque ouvem a Igreja assim dizendo ou declarando. Ora, se isto é verdade, a Igreja será propriamente dita causa de crer, não apenas condição. 2. A condição requisitada para crer pode ser entendida de duas maneiras: ou como notando apenas o instrumento e ministério pelo qual as Escrituras nos são entregues e explicadas, ou como significando algum fundamento que forneça argumentos e motivos. Se Valenciano entende a condição no primeiro sentido, concedemos facilmente que o círculo se rompe, mas ao mesmo tempo rompe-se também o consenso com os Pontifícios, que pretendem que a Igreja obtenha não apenas o lugar de instrumento, o que nós também concedemos facilmente, mas também o de fundamento. Se no segundo sentido, como deve necessariamente entender se fala conforme a sentença recebida entre os seus, então já não se crê na Escritura por causa de si mesma, mas por causa da Igreja, o que ele não queria confessar, e permanece sempre o círculo. 3. É frustrada a distinção de causa da fé segundo si e causa da aceitação da fé, pois o que fundamenta a fé segundo si, o mesmo é também apto por natureza a fundamentar por si a aceitação da fé, porque não se pode dar nenhuma fé no sujeito que pelo fato mesmo não seja aceita por ele; portanto, se a revelação divina é a causa da fé segundo si, deve também ser a causa da aceitação. 4. Aqui há meros rodeios e capciosidades de palavras; dizem que a autoridade da Escritura deve ser crida por causa da revelação divina, no entanto nem ensinam, nem podem ensinar, onde está essa revelação; pois ou é a própria Escritura, ou alguma outra revelação fora da Escritura em alguma tradição não escrita. Se é a própria Escritura, já temos o que queremos, a saber, que a autoridade da Escritura é suficientemente manifestada pela própria Escritura, e que deve ser crida por causa da própria Escritura. Se é uma certa tradição, a mesma questão retornará sobre ela, de onde consta ser divina, pois nem pela Escritura, nem pela própria tradição, nem por outra se poderá saber, porque a mesma questão sempre voltará e assim ao infinito; dificuldade que constrangeu tanto Valenciano que foi forçado a ceder e confessar conosco que a revelação divina não só é crida por causa de si mesma sem outra revelação, mas também que revela a si mesma e manifesta-nos a sua autoridade divina: a fé, diz ele no tom. 3. disp. 1. q. 1. p. 1. §. 5., presta assentimento à revelação como revelada não por outra revelação, mas por si mesma. 5. Se se deve parar na revelação divina, não será necessário progredir até o testemunho da Igreja; mas este é o principal fundamento da sentença dos adversários, como acabamos de ver, enquanto professam não se poder saber com certeza o que Deus revelou, ou que esta ou aquela revelação seja divina, senão pelo testemunho da Igreja.

X. II. Outros respondem que não se observa aqui a mesma via: pois a autoridade da Palavra é crida por causa da testificação infalível da Igreja, como por causa de algo mais notório para nós; e, novamente, a infalibilidade da Igreja no testemunhar é crida por causa da autoridade da Palavra, como por causa de algo anterior e mais notório por natureza. Assim Malderus Bispo de Antuérpia na 2ª 2ae q. 1. art. 1., ao que visa também a distinção comum entre eles de Autoridade quanto a si e quanto a nós: que a Escritura não teria autoridade quanto a si, mas quanto a nós a partir da Igreja. Respondo: Contudo, para que não examinemos agora mais profundamente aquela distinção que costumam repor identicamente, baste notar que é vã e plenamente inadequada, porque, sendo a autoridade algo ἐκ τῶν πρός τι [dos relativos], não deve ser considerada absolutamente; assim, o que quer que dê autoridade a alguma coisa quanto a si, dá-lhe também quanto a nós e vice-versa; se, portanto, a Palavra tem autoridade quanto a si sem a Igreja, deve também obtê-la quanto a nós sem ela; mas se a obtém quanto a nós a partir da Igreja, igualmente a obtém quanto a si: pois o motivo pelo qual sou levado a crer na Palavra é o mesmo que concilia à própria Palavra qualquer autoridade que ela tenha em si. 2. O nó não pode ser desatado pelo referido refúgio; pois facilmente concedemos que onde há processo daquilo que nos é mais notório para o que é mais notório por natureza e vice-versa, e do efeito para a causa e vice-versa da causa para o efeito, varia-se a razão do conhecimento, e assim não é propriamente dito um círculo, pois o conhecimento que é adquirido pelo primeiro processo é confuso e imperfeito, mas o outro que é comparado pelo posterior é distinto. Contudo, aqui a coisa se passa de outro modo, pois não há nenhuma variação de conhecimento no Círculo Pontifício, pois assim como conhecem pelo testemunho infalível da Igreja, com conhecimento certo e de fé divina, a autoridade da Palavra; assim, pela Palavra conhecem sucessivamente a infalibilidade da Igreja, com conhecimento de fé divina: a mesma fé está em ambos os lados, o mesmo conhecimento. 3. Supõe-se falsamente que se crê na Escritura por causa da Igreja, quando, como dissemos, ela é apenas instrumento e meio para a fé, não argumento, e cremos através dela, não por causa dela; ou, se às vezes assume a razão de motivo, é apenas um motivo secundário e menos principal que pode ilustrar de algum modo a fé no crente, mas não fundamentá-la no infiel. 4. Se a infalibilidade da Igreja nos é mais notória que a autoridade da Palavra, de modo que por causa dela se creia na autoridade da Palavra, logo deve ser crida antes da autoridade da Palavra, ou seja, ou é crida com fé divina e infusa, ou com fé adquirida e humana; não com fé divina, porque não se dá tal fé que não se apoie na palavra de Deus, como eles mesmos confessam; se adquirida, não pode ser fundamento idôneo daquele ato de fé divina pelo qual se crê na autoridade da Palavra de Deus, pois tudo o que é fundamento da fé Divina deve ele mesmo ser crido com fé firme e infalível.

XI. 5. Pode-se dar um duplo conhecimento: um confuso, outro distinto e certo. A Igreja pode ser mais notória que a Palavra por conhecimento confuso, enquanto primeiro incorre nos sentidos e propõe e recomenda-nos a própria Palavra ainda desconhecida como um Pregador e Intérprete; e assim não negamos que o testemunho da Igreja possa ser um meio εἰσαγωγικὸν [introdutório] e ministerial para crer na autoridade da Escritura. Contudo, embora deste modo possa preparar e guiar para a fé, não pode, porém, gerar a própria fé, ou aquela fé será apenas humana e falível conforme a razão do seu fundamento; como a mulher samaritana se portou em relação aos seus concidadãos a serem iniciados em Cristo, não fundamentando a fé deles, mas apenas excitando-os e guiando-os a Ele, de onde eles mesmos professam crer não por causa da palavra dela, mas por causa dos sermões de Cristo, porque eles mesmos o haviam ouvido e visto, João IV, 42. Mas se se trata de conhecimento certo e distinto que deve fundamentar a fé não humana e provável, mas certa e divina, sobre o qual aqui discutimos, negamos que a Igreja nos seja mais notória que a Palavra, porque apenas da própria Palavra tal conhecimento distinto da Igreja pode ser buscado; até aqui, portanto, enganam e são enganados os Adversários que, para declinar do Círculo, buscam este mísero subterfúgio.

XII. III. Há quem, para vindicar seu raciocínio do Círculo, alegue que apenas então há Círculo quando o consequente inferido do antecedente, não apoiado nem provado por nenhum outro conhecimento senão o do antecedente, é logo assumido para a prova do seu antecedente; mas que o contrário ocorre na presente questão, pois quando por causa do testemunho da Igreja se crê na autoridade da Escritura, então a infalibilidade da Igreja não é crida a partir da autoridade da própria Escritura, mas a partir dos motivos comuns da fé. Assim, quando por causa do testemunho da Escritura se crê na infalibilidade da Igreja, a Escritura então não é considerada precisamente conforme é aprendida pelo infalível testemunho da Igreja, mas conforme sua autoridade é persuadida pelos motivos comuns da fé; assim Gretserus raciocina no tratado sobre o reconhec. da Escrit. c. 4. e com ele Tannerus disp. sobre a fé, esperança e carit. tese 80. Este mesmo esconderijo foi buscado também pelo Cardeal Richelieu no tratado Francês sobre a conversão daqueles que fizeram secessão da Igreja lib. 1. c. 10.: o conhecimento da Igreja, diz ele, não depende necessariamente da Escritura, pois a Igreja pode ser conhecida sem a escritura, o que é patente pelo fato de que foi reconhecida pelos fiéis desde a criação até Moisés, que foi o primeiro a consignar a palavra de Deus por escrito, e pelos primeiros Cristãos antes que os Apóstolos e seus discípulos tivessem escrito o Evangelho e os livros do N. T.; assim, como o conhecimento da Igreja não depende necessariamente da escritura, embora a escritura não possa ser infalivelmente conhecida senão pela Igreja, não se incorre no Círculo vicioso que prova o mesmo por si mesmo, etc. E se urgires como agora a Igreja pode ser conhecida sem a Escritura, replica que a Igreja Romana é conhecida como verdadeira Igreja, 1. porque nunca até agora pôde ser legitimamente convencida de falsidade. 2. porque obtém todas aquelas notas e caracteres que, pela luz natural, reconhecemos que devem competir à verdadeira Igreja: a saber, Antiguidade, perpetuidade, visibilidade e outras notas desse gênero pelas quais a razão julga sobre a verdade de alguma Igreja; de onde, como todas se encontram na Igreja Rom., disso se conhece suficientemente, mesmo sem a escritura, que ela é a verdadeira Igreja.

XIII. Embora, de fato, os Adversários se aplaudam maravilhosamente nesta invenção, não é difícil mostrar a sua absurdidade. 1. O que se supõe, que a autoridade da Palavra é conhecida de outra parte que não do testemunho da Igreja, repugna abertamente à hipótese deles mesmos: pois se de fato creem, como professam a cada passo, que a autoridade da Palavra não pode ser crida com certeza ou conhecida senão pelo infalível testemunho da Igreja, como podem estabelecer que ela nos seja notória de outra parte, sem recuar da sentença recebida? Confessamos de fato e reconhecemos que a Palavra é provada de outra parte que não da Igreja, a saber, pelas suas notas e caracteres próprios e ínsitos, os quais, se por motivos comuns da fé eles entendem, terão o nosso consenso; mas por isso mesmo cai a necessidade do testemunho da Igreja. 2. Aqueles motivos comuns nos quais querem que a fé se apoie ou são certos, ou não; se certos, rui o princípio papista de que nenhum meio basta para a fé na escritura a menos que se acrescente a infalível testificação da Igreja, como dissemos antes; se não certos, como eles mesmos não negam ao reconhecerem que esta fé não é divina, mas conjectural e falível e, como dizem, um assentimento com prudência prévia, estão em vão aqueles que por eles buscam algo certo; pois o fundamento da fé certa e infalível deve ser certo tanto em si quanto por nós certamente conhecido e crido.

XIV. 3. Digo que é falsíssimo que ou a verdade ou a infalibilidade da Igreja possa ser certamente e verdadeiramente conhecida de outra parte que não da palavra. As razões são: 1. porque a Igreja é fundada na palavra e dela obtém seu ser específico; pois não há Igreja sem vocação, nem vocação senão pela palavra, Ef. II, 20. 2. a fé vem pelo ouvir, Rom. x, 14., o ouvir pela palavra; logo, ou não se pode crer e conhecer por fé divina a verdade da Igreja, ou ela deve ser mantida a partir da Palavra. 3. o modo mais seguro e certo de investigar a Igreja é, sem dúvida, pelas notas e propriedades da Igreja. Mas as notas da Igreja nos são manifestadas ou pela Igreja, ou pelos motivos comuns, ou pela Escritura, e por elas somos tornados infalivelmente certos. Não pela Igreja, porque se questiona sobre a própria Igreja, e a nota deve ser conhecida de outra parte que não da coisa da qual é nota, além de que a verdadeira Igreja ainda é desconhecida para aqueles que a investigam. Não pelos motivos comuns, porque, sejam ditos certos ou incertos, em ambos os casos há dificuldade, como acabamos de dizer; ademais, se motivos desse tipo bastam por si mesmos para se ter a certeza da fé sobre a verdade da Igreja, por que não bastariam também por si mesmos para se ter a certeza da fé sobre a autoridade da Escritura? e, ao contrário, se estes por si sós e sem o infalível testemunho da Igreja não bastam para se ter a certeza da fé sobre a autoridade da Escritura, então tampouco bastam por si mesmos para se ter a certeza da fé sobre a Igreja. Terceiro, esses motivos ou são buscados na razão e na luz natural, ou na luz revelada na palavra. Se nesta, coincidem com a Escritura; se naquela, logo ou não fundarão a fé divina que, contudo, aqui se busca, ou a fé será da razão e não da palavra, contra Paulo, Rom. x, 14. Resta, portanto, que a certeza da nossa fé sobre a verdade da Igreja dependa apenas da Escritura, pois as notas verdadeiras e genuínas e as propriedades da Igreja só podem ser buscadas claramente na palavra; e o que se diz sobre a verdade da Igreja, o mesmo deve ser dito sobre a sua infalibilidade. Como, de fato, seria conhecida fora da Palavra, quando toda ela depende da Palavra e nela se funda? 4. Os Padres concordam. Agostinho ep. 166: Nas escrituras aprendemos a Igreja e no lib. de unit. Ecclesiae c. 3: A Igreja não se demonstra por documentos humanos, mas por oráculos divinos, e no cap. 10: se estes, a saber, os Donatistas, retêm a Igreja, que não o mostrem senão pelos testemunhos das divinas escrituras. Autor da obra imperfeita homilia 50: quem, portanto, quer conhecer a verdadeira Igreja de Cristo, de onde a conheceria senão somente pelas escrituras? 5. Os próprios Adversários confessam: Stapleton tom. 1. princip. doctr. cap. 24: dizemos, portanto, e mui de bom grado dizemos com Agostinho, que nas escrituras deve ser buscada a Igreja, isto é, que se deve investigar quais sejam as Notas, dotes e propriedades da Igreja a partir dos oráculos da Sagrada Escritura, não de documentos humanos. Becanus na apolog. pro Jud. controv. cap. 3. 5. 6. e 7. admite esta proposição como verdadeira: somente a escritura primariamente e infalivelmente termina e define a questão sobre a Igreja por modo de norma. Driedo de Lovaina libr. 2. de dogm. Ecclesiae cap. 3. na solut. art. 4.: a fé, diz ele, não vem a ser provada pelas pessoas, mas as pessoas são provadas por sua fé, assim como pelas Escrituras sagradas se conhece aquela que agora é a Igreja. E nem outra coisa pretende a prática ordinária dos Pontifícios, que quando são instados por nós sobre a verdade e infalibilidade da sua Igreja, a saber, de onde creem que sua Igreja é infalível, logo nos remetem à escritura e sucessivamente alegam as ilustres promessas que são feitas à Igreja, ou os elogios que ali lhe são atribuídos, o que sem dúvida não fariam se não pensassem que a fé na infalibilidade da Igreja não pudesse ser buscada com certeza de outra parte senão da Palavra.

XV. Nem um pouco aproveitam as Razões do Cardeal: pois a Primeira puerilmente confunde a Escritura considerada materialmente e formalmente, isto é, ou quanto à substância da doutrina, ou quanto ao acidente da escrita. Certamente não negamos que a Igreja tenha sido conhecida sem a Escritura formalmente considerada e quanto ao acidente da escrita, visto que por mais de dois mil anos a Igreja careceu da palavra ἔγγραφος [escrita]. Mas negamos que tenha sido conhecida sem a Escritura materialmente, isto é, sem a palavra de Deus, que sempre e em toda parte foi o único fundamento da Igreja; pois a mesma Palavra, que o Senhor quis que fosse consignada por escrito para precaver as fraudes do Diabo e as corrupções dos homens, já antes fora entregue por viva voz aos Patriarcas em visões e sonhos, e em outros modos de revelação, πολυμερῶς καὶ πολυτρόπως [de muitas maneiras e de muitos modos], Heb. I, 1. Os Cristãos, de fato, embora não tivessem desde o início o N. T. escrito, tiveram contudo o Antigo, que foi perfeito e suficiente em seu gênero, 2 Tim. III, 15. A segunda Razão absurdamente toma o princípio como provado e supõe o que deveria ser provado, a saber, que a Igreja e suas notas podem ser conhecidas com certeza pela luz natural; o que antes demonstramos ser falso, porque apenas da Palavra podem ser buscadas as notas e caracteres próprios da Igreja. Silencio que ele nos obtrude como notas verdadeiras aquelas que são verdadeiramente bastardas e adulterinas, como a antiguidade, a visibilidade, etc., que nem convêm apenas à Igreja, nem a toda, nem sempre. Silencio que aqui raciocina sofisticamente do não distribuído para o distribuído, da Igreja em geral para a Igreja Romana hodierna em espécie, supondo que ela é a verdadeira Igreja, o que nem podemos conceder, nem eles provarão eternamente. Pois o que ele gloria-se tão confiantemente de que sua Igreja Romana seja verdadeira porque nunca pôde ser convencida de falso, nisso ou trai uma ignorância crassa, ou impudência; pois quantos e quão grandes volumes dos Ortodoxos surgiram há cem anos, que demonstraram mais claramente que a luz do meio-dia que a Igreja Romana errou repetidamente e que, no estado em que as coisas estão, nem é nem pode ser tida como a verdadeira Igreja de Cristo. E mesmo apenas por este argumento pode ser facilmente provado: Pois a Igreja que não retém a doutrina salvífica entregue por Cristo, essa não pode ser a verdadeira Igreja de Cristo. Ora, a Igreja Romana é tal. Logo... A Menor, que sem dúvida será negada por eles, será facilmente provada quando se chegar ao Exame da Doutrina.

XVI. IV. Outros distinguem entre objeto formal da fé e regra da fé; que a fé pela qual creem na infalibilidade da Igreja apoia-se na autoridade da palavra de Deus como objeto formal da fé, mas que a fé pela qual creem na autoridade da palavra de Deus apoia-se no testemunho infalível da Igreja, não como objeto formal, mas como regra da fé, e que por isso não haveria Círculo formal ou pela mesma via. Respondo: Mas nem por esta razão podem escapar, o que facilmente patenteará se atendermos aos termos da distinção e ao que deve ser entendido por objeto, e igualmente por regra da fé. Um duplo objeto da fé é, portanto, estabelecido: um material, outro formal. O Material é aquilo que cremos e pelo qual respondemos à questão o que crês? O Formal é aquilo por causa do qual cremos e pelo qual respondemos à questão por que crês? p. ex.: tudo aquilo que na Palavra de Deus é proposto para crer, como a Criação do mundo, a providência, a redenção, etc., são objeto material da fé, pois são aquilo que cremos, e por eles responde-se à questão o que crês?; mas a autoridade da palavra é o objeto formal da nossa fé, porque é a razão formal por causa da qual cremos todas as outras coisas, e que não é crida por causa de outra coisa, mas por causa de si mesma. Ora, a Regra da fé soa como algo diverso de ambos; pois nem é simplesmente o objeto material considerado individualmente e em espécie, nem é o formal ou a razão por causa da qual cremos, mas designa o sistema e a coleção de todas as coisas que se devem crer, ou o princípio segundo o qual devemos crer; assim, difere do objeto formal de diversos modos. 1. A regra da fé porta-se ao modo de causa exemplar, que a fé deve seguir em tudo e à qual deve se conformar; mas o objeto formal tem a razão de causa objetiva ou de fundamento por causa do qual principal e formalmente cremos. 2. A regra da fé limita e determina aquela latitude e extensão que a fé tem na ordem aos objetos materiais, enquanto ensina quantos e quais devem ser cridos, mas o objeto formal especifica e fundamenta o assentimento da fé. 3. A regra da fé é a compreensão e συλλογή [coleção] de todas as coisas a serem cridas; mas o objeto formal é aquilo por causa do qual tanto a própria regra quanto todas as coisas que nela são propostas para crer, cremos com fé divina; de onde nossa fé não se resolve ultimamente na própria regra, mas no próprio objeto formal.

XVII. Posto isto, a vaidade da exceção é patente. 1. recebemos a confissão que a verdade lhes extorque, a saber, que a fé se apoia na autoridade da Palavra como objeto formal; pois se professam e creem nisso de boa fé, são obrigados a ceder voluntariamente a nós e abandonar a causa pontifícia; pois se é o objeto formal, logo a análise última da fé terminará na autoridade da Palavra, e não no testemunho infalível da Igreja, que é contudo a sentença recebida entre os adversários que aqui impugnamos. Ouça-se Stapleton lib. 8. princip. doctr. cap. 11.: a razão formal da fé não é Deus revelando, mas como tal isto é, pela Igreja, e na controv. relect. controv. 4. q. 3. art. 2. põe esta conclusão: toda a razão formal completa da nossa fé, falando ordinariamente, é Deus revelando pela Igreja. Se, portanto, creem que a razão formal pela qual cremos é Deus falando pela Igreja, erram esses doutores ao dizerem que a autoridade da palavra não se apoia na infalibilidade da Igreja como objeto formal. 2. E é grandemente falso o que aqui supõem, que a Igreja seja a regra da fé; pois apenas a Palavra, que compreende a soma de todas as coisas a serem cridas, é aquela norma plena e perfeita à qual nada deve ser acrescentado ou retirado, como tantas vezes foi prescrito pelo Espírito Santo. Se, portanto, a Igreja não pode ser dita regra da fé, a palavra não pode ser crida por causa da Igreja como por causa da regra da fé.

XVIII. V. Alguns recorrem a diversos respeitos tanto das pessoas quanto das regras de crer: pois haveria às vezes diversas pessoas errando sobre diversas coisas, p. ex., quando um nega a autoridade da Igreja, outro a da Escritura, então não se admitiria nenhum Círculo se alguém convencesse aquele sobre a verdade da Igreja a partir da Escritura que ele admite e, ao contrário, contra este provasse a Escritura pela Igreja de cuja infalibilidade não duvida: assim Becan. no Tract. sobre o Círculo Calvin. 2. evitar-se-ia o Círculo pelos diversos respeitos das regras de crer que, como tantas causas e causas umas das outras, pela mútua comparação, são mais ilustráveis e demonstráveis umas pelas outras, e então não seria Círculo, mas um regresso tal qual em diversos gêneros de causas todos os Filósofos mais sábios provam com Aristóteles. Respondo: Mas nenhuma dessas respostas remove a dificuldade; não a primeira, porque não apenas arguimos que os adversários progridem circularmente contra aqueles que ou negam a autoridade da Escritura ou a da Igreja separadamente, mas também ao estabelecerem sua própria fé e ao darem a razão dela, enquanto professam que creem na autoridade da Escritura por causa do testemunho da Igreja, e novamente no testemunho infalível da Igreja por causa da Escritura, embora admitam ambas e não neguem nenhuma. 2. esta resposta supõe que aquele que duvida ou nega a infalibilidade da Igreja possa ser convencido pela Escritura, mas isto repugna expressamente à hipótese dos adversários, que professam abertamente que nenhuma controvérsia é suficientemente determinada pelas escrituras, e nenhum dogma pode ser firmemente crido por causa da autoridade da escritura, a menos que se acrescente a infalível testificação e interpretação da Igreja. E certamente, se forem ouvidos, nenhum fundamento da fé podem designar no qual a fé daqueles que duvidam da infalibilidade da Igreja possa parar e aquiescer; pois ou será a própria Igreja, ou a Escritura, ou a Tradição não escrita. Mas nenhum dos três pode ser dito: Não a Igreja, porque sua infalibilidade é aquilo sobre o qual se duvida; Não a Escritura ou a Tradição não escrita, porque a autoridade e o sentido legítimo destas dependem necessariamente, segundo a sentença dos adversários, do testemunho infalível da Igreja, e por conseguinte nada podemos crer simplesmente por causa da autoridade delas, a menos que primeiro creiamos que a Igreja que lhes dá testemunho é infalível; de onde patenteia que nem aqui têm onde fixar o pé.

XIX. Mas não têm um baluarte mais seguro para sua causa no vário respeito das regras de crer que seriam mutuamente causas e se demonstrariam umas pelas outras. Pois 1. supõe-se gratuitamente, o que é falsíssimo, que se deem várias regras de crer: pois apenas uma pode ser total e perfeita; de outro modo, se várias são dadas, nenhuma será regra. 2. a demonstração recíproca das causas pode ser instituída com o fim de que, pela comparação mútua, não propriamente e principalmente ambas sejam provadas a priori, mas apenas para que sejam mais ilustradas e seu consenso apareça. Mas os Pontifícios procedem de modo muito diferente: provam que a Escritura é a palavra de Deus pelo testemunho da Igreja, não para que a fé já iniciada seja mais confirmada, mas para que conste a autoridade de sua escritura, que de outro modo não poderia constar para ela; e novamente pela Escritura provam a infalibilidade da Igreja, para que conste a autoridade de sua Igreja, que de outra parte não pode ser suficientemente provada. Assim querem que a autoridade da Escritura dependa necessariamente da Igreja, e vice-versa que a autoridade da Igreja dependa necessariamente da Escritura, o que nem pela imaginação pode ser concebido, pois assim se seguiria que a Autoridade da Escritura não poderia ser crida a menos que primeiro se creia na infalibilidade da Igreja, e sucessivamente que a infalibilidade da Igreja não poderia ser crida a menos que primeiro se creia na autoridade da Escritura, o que é ἀδύνατον [impossível]. 3. O Regresso aristotélico difere muito do Círculo Pontifício: pois 1. no regresso adquire-se um novo conhecimento, enquanto se procede do conhecimento confuso para o distinto; mas aqui nenhum novo se acrescenta: pois procede-se da autoridade da palavra crida com fé divina, para a mesma autoridade da palavra crida com fé divina. 2. no regresso há um processo diverso do efeito para a causa, da causa para o efeito, da demonstração ὅτι para a demonstração διότι, e vice-versa, de modo que não pode ser o mesmo gênero de causa. Mas no Círculo Pontifício não há processo diverso, mas da mesma ordem e gênero, a saber, da causa objetiva da fé pela qual cremos, para a mesma causa objetiva: em ambos os casos pergunta-se "por que causa" ou se creia na autoridade da Escritura ou na infalibilidade da Igreja.

XX. Finalmente Stapleton na defesa da autoridade da Igreja lib. 3. c. 5. afirma que não há nada de absurdo se a autoridade da Igreja quanto a nós depender da autoridade da Escritura, e novamente a autoridade da Escritura quanto a nós depender da autoridade da Igreja; que ambos podem ser verdadeiros ao mesmo tempo, que a Igreja toma emprestada sua autoridade da Escritura, e a Escritura igualmente a sua da mesma Igreja: como vemos que João deu testemunho de Cristo, e reciprocamente Cristo de João; João Evangelista de seu Evangelho, e novamente o mesmo Evangelho de João, etc. Respondo: Mas aqui há uma múltipla alucinação. 1. uma coisa é dar testemunho a alguém, outra é conciliar autoridade a ele; nem se toma corretamente pelo mesmo o ter testemunho de alguém e o tomar emprestada dele toda a sua autoridade. Certamente nada obsta que por mútuo testemunho João tenha recomendado Cristo, e Cristo João; mas que Cristo tenha tomado emprestada sua autoridade de João, isso é falsíssimo: Eu, diz ele, não recebo testemunho de homem e tenho testemunho maior que o testemunho de João, Jo. V, 34, 36. De onde Jo. I, 7 diz-se que João veio para dar testemunho da Luz para que todos cressem por ele, bem se diz δι' αὐτοῦ por ele, não δι' αὐτὸν por causa dele, porque era apenas o ministro que guiava a Cristo, não o fundamento e a causa formal da fé Nele. 2. confunde-se o testemunho necessário e o não necessário. Testemunho necessário é quando nenhuma certeza sobre a coisa atestada quanto a nós pode ser tida senão por aquele testemunho, ou quando depende necessariamente e por si daquele testemunho. Testemunho não necessário é o que ilustra ou confirma a coisa atestada, de tal modo contudo que a coisa atestada tenha suficientemente de outra parte certeza quanto a nós. Duas testemunhas diversas podem reciprocamente dar testemunho uma da outra e se recomendarem mutuamente, se se tratar de testemunho que ou de ambas ou ao menos de uma das partes não é necessário, tais quais são os mútuos Testemunhos de Cristo sobre João Batista, e de João Batista sobre Cristo, de João sobre seu Evangelho e do Evangelho sobre João. Mas se falamos de testemunho necessário, é totalmente absurdo e implica aberta contradição dizer que a autoridade de duas testemunhas quanto a nós dependa por si e necessariamente do mútuo testemunho delas sobre si mesmas, porque assim, como dizíamos há pouco, a mesma coisa seria mais notória e mais ignorada que si mesma; p. ex., se a Igreja presta testemunho quanto a nós necessário a toda a Palavra de Deus, é impossível que creiamos com fé Divina na autoridade desta senão por causa do testemunho da Igreja; não podemos, porém, crer em algo por causa do testemunho da Igreja a menos que a Igreja obtenha primeiro sua autoridade perante nós, pois aquilo pelo qual sabemos ou cremos em algo, é necessário que seja antes por nós sabido e crido, pois de coisas ignoradas não se faz prova legítima. Ora, se a Escritura presta testemunho necessário quanto a nós sobre a Igreja, é impossível que creiamos na infalibilidade da Igreja senão por causa do testemunho da Escritura; não podemos, porém, crer em algo por causa da autoridade da Escritura a menos que a Escritura obtenha primeiro sua autoridade perante nós. Assim, em qualquer forma que se voltem, são sempre mantidos enredados, nem eternamente poderão se livrar desse labirinto intrincado. De onde patenteia o que se deve pensar daquela Religião que nenhum fundamento e princípio de fé no qual se apoie e no qual se resolva pode designar.

XXI. Mas talvez estejamos presos pelo crime manifesto que objetamos aos outros: certamente isto foi impactado a nós mais de uma vez pelos Adversários, de onde Becano e outros inventaram até um Círculo Calvinístico, que costumam atacar maravilhosamente. Vejamos, portanto, com que direito. Alegam que nós provamos a Escritura pelo Espírito, e novamente o Espírito pela Escritura, e que isto não pode ser feito sem um progresso Circular, porque assim como a Escritura é crida como palavra de Deus pelo testemunho interno do Espírito, assim o testemunho do Espírito é crido por causa da Escritura, na qual o Espírito Santo é prometido aos crentes. Assim Becanus no Opúsculo sobre o Círculo Calvinístico, sect. 6. e Gretser. no Tratado sobre o Reconhec. da Escritura c. 4. De fato, quão torpemente aqui alucinam, apenas a declaração da nossa sentença abundantemente ensinará. Primeiro, julgam os Ortodoxos que se deve distinguir acuradamente entre a Causa eficiente pela qual cremos, e a objetiva por causa da qual cremos, entre o princípio ἐνεργητικὸν [energético/operante] que efetivamente gera a fé de alguma verdade, e o motivo ou argumento que objetivamente nos move e excita para prestar essa fé. Como se se tratasse da caridade, uma coisa é falar de sua causa eficiente pela qual é produzida, outra dos motivos pelos quais é excitada. A causa eficiente única e principal é o Espírito Santo; os motivos são aqueles vários argumentos que na Escritura nos são exibidos sobre o amor inefável que Deus testemunhou para conosco no filho. Assim devemos raciocinar igualmente sobre a fé; neste argumento principal, outra Causa eficiente da nossa fé não pode ser dada além do Espírito, sem o qual não podemos nem querer nem perfazer, aliás, nem mesmo pensar. E nem os próprios adversários o negam, os quais reconhecem ser o Espírito necessário para gerar a fé, como Stapleton frequentemente atesta contra Whitak. e queixa-se de que se lhe faz injustiça como se negasse isto. Mas a causa objetiva por causa da qual cremos é a própria Palavra com suas notas, ou antes aqueles critérios celestes e raios de divindade que brilham na Palavra e que, por sua própria e ínsita luz, majestade e esplendor, provam a si mesmos, assim como o sol por sua própria e nativa luz demonstra a si mesmo. Hinc, conforme aquele duplo princípio da fé, nasce também uma dupla questão à qual se pode responder de modo diverso; pois se se pergunta sobre a causa objetiva por causa da qual cremos na divindade da Escritura, responde-se ser a própria Palavra de Deus por suas notas ínsitas; mas se a questão é sobre a causa eficiente pela qual e por cuja força cremos, diz-se ser o Espírito Santo que nos infunde a virtude de crer, e assim verissimamente dizemos que a Escritura é demonstrada pelo Espírito, isto é, por sua virtude e eficácia, que gera a fé em nossas almas; mas porque facilmente alguém poderia enganar-se a si mesmo e aos outros jactando aquele Espírito que contudo não teria, por isso, para que alguém se convença da verdade daquele Espírito, ele deve ser provado pela própria Escritura, enquanto ela mesma nos subministra várias notas e critérios pelos quais discernimos se aquele Espírito que está em nós é verdadeiramente de Deus ou não, se é o Espírito de Cristo ou do mundo; assim a Escritura prova o Espírito não efetivamente, mas objetivamente por razões e argumentos que nela brilham.

XXII. De onde já lucidamente se colhe que Nós nem progredimos ao infinito na resolução da nossa fé, nem somos agitados em Círculo. Pois quanto ao primeiro, não se pode dar progresso ao infinito, porque paramos finalmente em um certo último credível que não é crido por causa de outro, mas por causa de si, a saber, na própria S. Escritura, que é crida ser a Palavra de Deus não por causa de outro, mas por causa de si. O Posterior também é patente, porque a questão é diversa; pois quando provamos a Escritura pelo Espírito, isto se faz por modo de causa eficiente; mas quando provamos o Espírito pela Escritura, progredimos pela via da causa objetiva. Na primeira questão, pergunta-se por qual faculdade cremos, ou sob qual disposição no sujeito, ou através de que cremos; na outra, porém, por qual argumento, ou sob qual razão formal no sujeito, ou por causa de que cremos. Por isso, sendo as questões diversas, nunca se toma o princípio como provado, ou ocorre processo do mesmo para o mesmo; pois a fé finalmente se resolve de modo diverso em cada um desses princípios: na Escritura como em sua causa objetiva, ou seu objeto formal e primeiro credível, que Stapleton chama de princípio doutrinal; no Espírito, porém, como na causa eficiente principal. Se perguntas de onde sabemos que a Escritura é divina, isto é, por qual força e faculdade, respondo: pelo Espírito Santo, que testifica em nosso coração; se instas, de onde sabemos que temos o Espírito Santo, isto é, por qual argumento, respondo: por aqueles vários caracteres e efeitos que na Escritura são atribuídos ao Espírito Santo, os quais, quando em nós são detectados, daí certamente colhemos que o Espírito está em nós. Se perguntas ulteriormente de onde saibamos que tais efeitos estão em nós, não se vai mais à Escritura que a ninguém nomeia, mas deve-se deter na visão interna do coração e na operação do Espírito, cuja presença não pode ser demonstrada de outro modo senão a posteriori, como o homem bem depreende sua vida pelo sentido, movimento e demais operações vitais. Mas se, de outra parte, perguntas de onde sei que a Escritura é αὐτόπιστον [digna de fé por si mesma] ou por qual argumento e "por que causa"? respondo porque a Escritura é a Palavra de Deus; se instas, de onde sei que a Escritura é a Palavra de Deus? não direi mais que isso é conhecido pelo Espírito, porque o Espírito é apenas a causa eficiente, não a objetiva, mas pelos critérios e notas celestes com as quais é assinalada, e não tendemos além: pois se alguém urgir de novo de onde percebemos aqueles raios e notas, isto é, por qual argumento, respondo que ele age absurdamente, pois nada há nesta ordem de argumentos ou razões no objeto que seja superior, e buscar perpetuamente razões de razões é de demente, não diferente de rogar por qual luz vemos a luz. Assim, crê-se na Palavra imediatamente e por causa de si no gênero de causa objetiva, embora para crer nisto seja maximamente necessária aquela operação interna do Espírito Santo, que move o intelecto eficazmente no gênero de causa eficiente, para crer na autoridade da Escritura: assim como assentimos aos princípios das ciências por causa de si mesmos, embora para produzir aquele assentimento seja necessário o hábito ali da mente, que se chama hábito dos princípios e do intelecto; as quais coisas evidenciam mais claramente que a luz do meio-dia que mal nos é imputado o Círculo, porque provamos a divindade da Escritura pelo Espírito, não por causa dele, mas provamos a verdade do Espírito pela Escritura objetivamente, não através dela eficientemente.

XXIII. Dirás: mas muitos entre os Ortodoxos parecem contradistinguir o Testemunho do Espírito ao Testemunho da Igreja de tal modo que entendam ser um testemunho da mesma ordem e espécie, isto é, no gênero de causa objetiva, não apenas eficiente; veja Withak. controv. 1. q. 3. c. 11. Chamier. lib. 6. cap. 1., nem outra coisa pretende a Confissão Galicana art. 4.: reconhecemos que estes livros, diz ela, são Canônicos, isto é, que os temos como norma e regra de nossa fé, e isso não apenas pelo consenso comum da Igreja, mas também muito mais pelo testemunho e intrínseca persuasão do Espírito Santo, por cuja sugestão somos ensinados a discerni-los de outros livros Eclesiásticos, os quais, embora sejam úteis, não são contudo de tal sorte que deles se possa constituir algum artigo de fé. Respondo 1. Se há quem queira opor o testemunho interno do Espírito ou aquela força "vorticórdia" pela qual produz eficazmente em nós a fé ao testemunho da Igreja como sendo da mesma ordem e espécie, falaram de modo totalmente menos acurado, visto que não se questiona aqui entre nós e os Pontifícios se o testemunho do Espírito ou sua força e eficácia são requeridos para conhecer e provar a divindade da Escritura, pois isto os Pontifícios nos concedem voluntariamente, nem ninguém pode negá-lo sem querer passar abertamente para os acampamentos de Pelágio; mas apenas se o testemunho da Igreja é aquele meio e motivo principal e infalível pelo qual cremos na Escritura, ou se algum outro mais principal é requerido. Portanto, aqueles que colocam muito esforço em amontoar lugares e argumentos da Escritura pelos quais provem que o Espírito deve interceder aqui necessariamente, não parecem ter tocado o principal ponto da questão, que não estava posto em se a obra do Espírito fosse necessária para crer, mas se o Espírito, para persuadir esta autoridade, usava ou apenas do testemunho da Igreja, ou primariamente, o que sustentam os Pontifícios, ou antes de razões buscadas na Palavra, o que querem os Ortodoxos. 2. O Testemunho do Espírito ou é tomado latamente ou estritamente. Estritamente, conforme nota apenas aquela força divina que eficazmente produz em nós a fé. Latamente, enquanto com aquela virtude eficaz se conjuga a razão e o motivo pelo qual ele usa para persuadir as nossas almas sobre a verdade de alguma coisa; no primeiro modo assume apenas a noção de causa eficiente pela qual cremos, no posterior também de objetiva, as quais duas coisas porque sempre se conectam neste testemunho do Espírito, visto que sua operação em nós não tende a outra coisa senão para aplicar potentemente às nossas mentes a verdade celeste entregue na Palavra, e por conseguinte imprimir profundamente aqueles raios de majestade, sublimidade, eficácia, verdade, santidade, etc., que nela brilham, daí resultou que alguns conjugaram no testemunho do Espírito cada uma daquelas σχέσιν [relações], tanto a objetiva quanto a eficiente. E neste sentido deve ser entendida a Confissão Galicana quando diz que não apenas pelo consenso comum da Igreja, mas também muito mais pelo testemunho e intrínseca persuasão do Espírito Santo os livros sagrados são reconhecidos como Canônicos; pois pelo testemunho do Espírito não entende apenas a força eficaz pela qual a fé é eficientemente produzida, mas propriamente a razão e o motivo da palavra que o Espírito usa para persuadir esta verdade, a saber, a própria doutrina celeste aplicada aos corações pelo Espírito, em oposição à razão natural e ao sentido e juízo humano, que é plenamente cego no discernir destes mistérios, 1 Coríntios II, 14. Quando, porém, o testemunho do Espírito é tomado estritamente por aquela eficácia da graça que se mantém da parte do sujeito ou da potência intelectiva, que é tornada hábil e apta para perceber aquelas coisas que são propostas e que está posta na infusão do hábito da fé e na colação do auxílio especial necessário para crer, então ele tem apenas a razão de causa eficiente, não objetiva, nem é bem contradistinguido ao testemunho da Igreja.

XXIV. Antes que se chegue ao fim, deve-se diluir brevemente uma dupla incriminação pela qual costuma ser gravada a doutrina Ortodoxa sobre este Espírito: 1. que ele seria fanático e Anabatista; 2. que ele seria privado. Pois o primeiro ponto é veementemente falso e calunioso, visto que os Fanáticos separam o Espírito da Escritura e entregam-se a certas revelações extraordinárias e ἐνθουσιασμοῖς [entusiasmos]. Mas aquele testemunho do Espírito pelo qual sustentamos que nos é persuadida a divindade da Escritura não infere alguma nova e extraordinária revelação procedida imediatamente do Espírito Santo sem a Palavra; antes, nada mais é do que a aplicação e impressão potente e eficaz da revelação feita na própria Escritura da parte do objeto. De sorte que nem o Espírito sem a Escritura, nem a Escritura sem o Espírito devem aqui ser considerados, mas devem ser conjugados em nexo inseparável conforme a aliança de Deus, Is. LIX, 21: A palavra que pus em tua boca e o Espírito que está em ti não se retirarão, etc. A Palavra é proposta extrinsecamente, o Espírito opera interiormente; a Palavra move e persuade, o Espírito comove e convence; aquela é como a semente lançada na terra, este como a virtude vivificante pela qual se enraíza em nós e germina. Nem outra coisa insinua Cristo, João XVI, 14, quando diz que o Espírito receberia do que é seu: receberá do meu, diz ele, e vo-lo anunciará, pois assim como a operação do Espírito Santo enquanto é Paráclito e Consolador não tende a outra coisa senão à aplicação dos benefícios de Cristo, assim seu testemunho, enquanto é Doutor da verdade, não se refere a outra coisa senão à oblação da própria doutrina entregue no Evangelho. Como, portanto, o Espírito de que falamos nunca se desvia da Escritura, mas guia à Escritura e ocupa-se totalmente em explicá-la, patenteia que não sem insigne calúnia é dito ser Anabatista e fanático.

XXV. Mas não com menor injúria é chamado privado e próprio, como Stapleton clama que um espírito privado de orgulho é jactado por nós, e outros sucessivamente alegam que fazemos a Profecia de ἰδίας ἐπιλύσεως [particular interpretação] contra Pedro, 2 Ep. I, 20. Respondo: Pois o Espírito Privado pode ser dito de dois modos: ou originalmente ou subjetivamente; ou pela razão do princípio do qual nasce, ou pela razão do sujeito e da potência na qual inerente; ou conforme o gênio e arbítrio de cada um, ou como dom de Deus próprio de cada fiel. No posterior sentido, concedemos que o Espírito pode ser dito próprio e privado, porque é dado a cada crente e neles permanece. Mas de modo algum no primeiro sentido, porque não nasce privadamente de nós, mas é dispensado comummente por Cristo a toda a Igreja; nem de fato jactamos um espírito que seja feto próprio do nosso livre-arbítrio, mas que é dom singular de Cristo. Assim como mal chamarias o sol de privado porque ninguém pode ser iluminado por ele se não receber dentro de si a sua luz, assim não chamarias com melhor direito de privado o espírito dado a todos nós por Cristo para nos iluminar, porque não deve apenas afetar extrinsecamente, mas eleger sua sede em cada um dos fiéis. O mesmo deve ser estabelecido sobre a fé, pois embora a fé considerada subjetivamente, e pela qual se crê, seja própria de cada um, porque o justo vive pela sua fé, não pela alheia; contudo a fé objetivamente, ou a que é crida, é comum a todos, pois a mesma Verdade celeste, a mesma Palavra em ambos os lados fundamenta a nossa fé, a qual é recebida igualmente por todos os fiéis. Nem a outra parte pertence o lugar de Pedro citado acima: Sabendo primeiramente isto, que nenhuma profecia da Escritura é de ἰδίας ἐπιλύσεως; pois quer exponhamos ἐπίλυσιν [epilysin] por impulso e sopro, o que agradou mais ao nosso Calvino, quer a traduzamos por interpretação e exposição, que é a sentença mais comum a partir de τοῦ ἐπιλύειν que significa dissolver e explicar, e frequentemente responde ao פָּתַר [pathar] dos Hebreus, nada haverá que favoreça a causa dos Pontifícios. Pois esta ἐπίλυσις particular, seja ela qual for, não deve ser entendida subjetivamente, mas originalmente, a saber, pelo arbítrio e mente privada do homem, em oposição à graça sobrenatural e ao dom adventício do Espírito Santo. Pois nisso está Pedro ao ensinar aos fiéis a verdadeira e certa explicação da Escritura Profética da qual tratara no vers. precedente, a saber, que ela não dependia do arbítrio e do sentido do homem que a lê, quando ele infere algo de seu na Escritura, mas da graciosa revelação do Espírito Santo. Assim, a interpretação privada e tirada de uma invenção do próprio cérebro não tem lugar aqui, mas a pública e divina que é haurida da própria palavra e que é, por assim dizer, αὐτοφυὴς [inata] e intrínseca às próprias escrituras. O que confirma por paridade no vers. 21, a saber, pelo único autor da Profecia; pois como a Profecia foi primeiramente proposta, do mesmo modo deve ser exposta; o mesmo que foi o autor, somente ele pode ser o melhor e legítimo intérprete de suas palavras. Somente o Espírito nos entregou a Palavra: Porque a profecia, diz ele, não foi trazida por vontade de homem, mas os homens de Deus falaram movidos pelo Espírito Santo. Assim, o que no vers. precedente chamara de ἰδίαν ἐπίλυσιν, neste chama de θέλημα ἀνθρώπου, vontade ou desejo do homem; não apenas o que está no homem, mas o que nasce de seu arbítrio. Neste sentido, bem assere Pedro e nós com ele que nem a particular interpretação, nem o Espírito privado devem ser introduzidos no tratamento dos mistérios da fé. Contudo, não nega que o Espírito Santo, que fala a todos na palavra, também testifique privadamente a cada um dos fiéis no coração sobre a sua verdade e divindade; de outro modo, nem João poderia ter dito 1 Ep. V, 6: O Espírito é o que testifica porque o Espírito é a verdade, nem Paulo 1 Cor. II, 12: O Espírito nos foi dado para que conheçamos o que nos foi dado por Deus. Deve-se apenas observar que este testemunho interno do Espírito, sendo de discrição prática e privada, não de autoridade pública, não pode ser urgido em ordem aos outros, mas apenas em ordem a nós mesmos, nem serve para a convicção alheia, mas para a persuasão própria; pois o que me basta para prestar plena fé à palavra, porque o conheço e o sinto em mim, e sua operação não pode ser falaz; frustradamente seria aplicado a outros que não o veem nem o reconhecem em mim, a menos que a mesma força os afete interiormente e, insinuando potentemente nas almas os argumentos latentes na palavra, eficazmente os convença. Até aqui, portanto, fique concluído que tanto o Espírito quanto a Palavra são por nós bem conjugados neste negócio, e bem provados um pelo outro, e que, contudo, somente por suma injustiça o Círculo nos é imputado.

COROLÁRIOS DO RESPONDENTE.

I. Dá-se algum Juiz supremo e infalível das Controvérsias além do Espírito Santo falando na Escritura? Negamos, contra os Pontifícios.

II. Dá-se em Deus uma certa Ciência média, ou Decreto condicionado? Negamos, contra os Socinianos e Remonstrantes.

III. A vontade que comumente é chamada de sinal e aquela que é chamada de beneplácito lutam entre si? Negamos; imò, não há vontade de sinal que não seja também, em sentido são, de beneplácito.

IV. O Direito de Deus distingue-se bem em Natural e Positivo, de modo que algumas coisas são boas porque Deus quer, e outras Deus quer porque são boas? Afirmamos.

V. Porque Deus concorre com permissão e direção não ociosa, mas eficaz, para as más ações dos homens, pode-se dizer que concorre também efetivamente e ser, por conseguinte, considerado autor e causa do pecado? Negamos, contra os Pontifícios e outros que erroneamente e por insigne calúnia costumam gravar nossa sentença com esta blasfêmia, que detestamos de todo o coração.

VI. A fé é imputada para justiça? Distinguimos.

VII. A fé justificadora e a temporária distinguem-se apenas por grau e duração, ou não também específica e essencialmente? Negamos o primeiro. Afirmamos o segundo.