Ir para o conteúdo

EXERCÍCIO TEOLÓGICO TEXTUAL SOBRE A CONCÓRDIA DE PAULO E TIAGO NO ARTIGO DA JUSTIFICAÇÃO.

Respondente: ABRAHAMO PELEO Viviacense.

I. Visto que no importantíssimo Artigo da Justificação, e na gravíssima Controvérsia que sobre isso mantemos com os Pontifícios, nenhum argumento em prol da Justificação pelas obras ocorre de modo mais plausível que o célebre lugar de Tiago, cap. II, e certamente nenhum costuma ser urgido pelos Adversários com mais frequência ou acrimônia; julgamos que faríamos algo de valor se, investigando esse lugar um pouco mais detidamente nesta disputa acadêmica, demonstrarmos, com o auxílio do bom Deus, que ele nem favorece os Sofistas de modo algum, nem contém nada alheio à verdadeira e genuína doutrina da Justificação gratuita transmitida por Paulo.

II. Para que, portanto, esta inquirição possa ser convenientemente instituída, primeiramente deve-se propor a Dificuldade em si, e então ponderar os vários modos de solução ou conciliação. A dificuldade é evidente por si mesma; pois, embora Paulo costume atribuir a Justificação à fé sem as obras em diversos lugares de suas Epístolas, como em Rom. III. 28, Gál. II. 16, Efé. II. 8-9, Tiago, contudo, expressamente a atribui às obras no cap. II. 24: Vedes, pois, que o homem é justificado pelas obras e não somente pela fé. E esta ἀντιλογία [contradição] parece ocorrer não apenas na tese, mas também na hipótese a respeito de Abraão, Pai dos crentes; pois o que Paulo constantemente prega sobre ele — que foi justificado pela fé somente e não pelas obras, Rom. IV. 2-3, segundo o antigo Oráculo: Abraão creu em Deus e isso lhe foi imputado para Justiça — isso mesmo Tiago parece negar abertamente no cap. II. 21: Abraão, nosso Pai, não foi porventura justificado pelas obras, tendo oferecido seu filho Isaque sobre o altar? Daí parece que se deve estabelecer ou que Tiago contradiz Paulo, ou que Paulo não atribui a Justificação à fé de modo tão absoluto que ela não possa e não deva ser também atribuída às obras, conforme Tiago, como pretendem os Pontifícios.

III. Estas coisas, à primeira vista, parecem planos ἀσύστατα [incompatíveis], a menos que se aceda à sentença dos Adversários: mas apenas parecem, pois estamos prestes a demonstrar clarissimamente que nada disso ocorre na realidade. Não ignoramos que alguns, por causa deste único lugar, quiseram expungir toda a Epístola de Tiago do Cânon e referi-la aos livros Apócrifos, como se Tiago não pudesse de modo algum ser conciliado com Paulo e com o restante da Escritura no negócio da Justificação; nesta opinião estiveram os Centuriadores de Magdeburgo, Cent. I. lib. 2. c. 4. seguindo Lutero, seu Mestre, de quem consta ter sido, no primeiro fervor do certame com os Pontifícios, mais injusto para com este escrito; negou, de fato, que fosse uma Epístola verdadeiramente Apostólica; immo, procedeu a tal ponto que a chamou de Palha, não de modo absoluto, mas comparativamente às Paulinas, o que os Pontifícios tanto exageraram, embora não tenha falado de modo mais duro do que Eusébio fizera muito antes, e depois, tendo pesado melhor a questão, tenha deletado estas palavras mais duras e corrigido seu Juízo sobre esta Epístola, como testemunham as edições posteriores da Bíblia Germânica. Nem apenas entre os Evangélicos encontraram-se aqueles que duvidaram da autoridade desta Epístola, houve-os também entre os Pontifícios, principalmente Cajetano, que parece ter ficado preso no mesmo lodo, como aparece no índice de seus erros que Catarino coligiu; mas parece que a ambos precederam Eusébio e Jerônimo, que escrevem que esta Epístola já outrora fora tida por alguns como νοθεύεσθαι, ou seja, adulterada, Euseb. lib. 2. hiſto. Eccleſ. c. 23. Hieron. in Catal. Script. Eccleſiaſticorum.

IV. Mas isto é cortar o nó, não resolvê-lo; nem a dificuldade deste lugar parece ser tamanha que sejamos forçados a chegar a tal ponto, e devamos considerar como ψευδεπιγράφῳ [pseudepígrafa] ou, ao menos, como livro Apócrifo e de fé duvidosa uma Epístola que se declara verdadeiramente divina por tantos τεκμηριοις [provas], tanto no estilo quanto na doutrina, por causa de escrúpulos leves; pois a conciliação poderá ser facilmente instituída, contanto que se ponderem com precisão tanto o escopo quanto as palavras de ambos os Apóstolos. Para que isso se torne mais claro, primeiramente deverão ser refutadas as glosas dos Pontifícios, que tentaram esta conciliação infelizmente; em seguida, deverá ser apresentada a verdadeira e genuína razão da conciliação, defendendo-a das cavilações dos Adversários.

V. Os Pontifícios nem todos se portam do mesmo modo aqui para remover esta ἀντιλογίαν. A maioria pensa que o nó pode ser resolvido mui comodamente pela distinção entre a primeira e a segunda Justificação; pois comumente estabelecem uma dupla: a primeira pela qual o homem, de injusto, torna-se justo; a segunda pela qual o justo torna-se mais justo pelo incremento da justiça. Aquela se realiza pela infusão do hábito da fé e da caridade; esta, que é promovida pelo exercício destas virtudes e pelas boas obras. Para aquela, pressupõem as preparações e os méritos de côngruo; para esta, fundamentam os méritos de condigno. Querem, pois, que Paulo fale da primeira Justificação formal pelo hábito da caridade e a negue às obras; mas que Tiago fale da Justificação actual pelas boas obras e a atribua às obras. Assim o Conciliábulo de Trento, ſeſ. 6. c. 10. Bellarmi. de Juſtif. lib. II. c. 16. & lib. IV. c. 18. Nós, portanto, dizemos que Paulo fala da primeira Justificação, pela qual o homem, de ímpio, torna-se justo, e Tiago da segunda, pela qual o justo é feito mais justo. Assim muitos outros daquela comunhão.

VI. Na verdade, este σοφὸν φάρμακον [remédio astuto] não pode remediar a dificuldade, nem compor bem as sentenças adversas; pois esta distinção da Justificação é um fútil figmento do engenho deles, que não pode subsistir nem com a Escritura, nem com a reta razão. Primeiro, supõe-se uma hipótese falsa, que é o πρῶτον ψεῦδος [primeiro erro] dos Adversários: a saber, que a Justificação é um ato físico que consiste na infusão de hábitos, quando consta pela Escritura que é um ato meramente forense e judicial, que não se perfaz inerentemente em nós, mas por nós e sobre nós diante de Deus de modo relativo, visto que reside na remissão dos pecados e na imputação da Justiça, Rom. IV. 5, 6, 7; de onde se opõe à condenação e à acusação, Rom. VIII. 34, e é descrita por um processo judicial, Rom. III. 22, Rom. IV. etc. Segundo, confunde-se a Justificação com a santificação; pois o que eles dizem, seja sobre a infusão da caridade, seja sobre o incremento da mesma pelas boas obras, pertence de fato àquele outro benefício de Cristo que reside na regeneração, a qual, sendo aperfeiçoada apenas paulatina e sucessivamente, deve aumentar e crescer aos poucos, de modo que os fiéis progridam de luz em luz, de força em força, de glória em glória, e, adicionando virtude à virtude, 2. Ped. I, cresçam em todas as coisas naquele que é a Cabeça, Efé. IV. 15. Mas nada tem em comum com a Justificação forense, que se realiza de uma vez por um único ato diante de Deus; por isso, embora o senso desta possa tornar-se maior ou menor em nós conforme o vário estado do homem — para o que parece olhar o lugar de Apoc. XXII. 11: quem é justo, justifique-se ainda — contudo, o Direito em si, uma vez conferido, permanece sempre o mesmo ἀμεταμελήτως [irrevogavelmente], nem pode ser aumentado ou diminuído. Terceiro, falsamente atribuem à caridade a primeira Justificação da qual querem que Paulo tenha falado, quando ele constantemente a atribui à fé, e jamais à caridade. Quarto, estas duas Justificações excluem-se mutuamente: a primeira destrói a segunda, a segunda enfraquece a primeira; pois, se pela primeira somos perfeitamente reconciliados com Deus e constituídos em estado de felicidade, que necessidade há da segunda? Se a segunda é necessária, logo a primeira não nos justificou verdadeiramente, e assim nem sequer merecerá o nome de Justificação; que a primeira, porém, é absoluta em todos os seus aspectos e perfeita, patet pelos adjuntos e efeitos, pois traz consigo a paz da consciência, Rom. V. 1, a glória diante de Deus, ibid. vs. 2, 12, a felicidade e a salvação sob todos os aspectos, Rom. IV. 6, 7. Quinto, assim não apenas duas Justificações deveriam ser estabelecidas, mas muitas mais; pois conforme são vários e quase infinitos os graus de incremento da Justiça, por que não se admitiria igualmente uma terceira, quarta, quinta e assim por diante para esses vários graus? Sexto, é contumelioso para com o santíssimo mérito de Cristo afirmar que a segunda Justificação, que consiste em nossas obras, é maior, mais plena e mais digna diante de Deus do que a primeira, que se apoia apenas no mérito de Cristo; e que não a primeira, mas a segunda Justificação mereça a vida eterna. Assim, por certo, o mérito de Cristo é deprimido e o veneno da soberba para gloriar-se diante de Deus é insuflado nos corações dos homens, enquanto se finge que o livre-arbítrio coopera com a graça nesta justificação; deste modo, nossas obras ou superariam o mérito de Cristo, o que é blasfemo, ou o aperfeiçoariam, o que é ridículo.

VII. Embora concedêssemos o que é falsíssimo — que esta distinção pudesse ser provada pela Escritura — é certo, contudo, que ela não pode nem deve ser aplicada a este lugar de Tiago. Primeiro, porque ele fala de fato da Justificação, mas sobre o incremento da Justificação não faz menção de palavra alguma; por isso, erroneamente lhe é atribuída esta sentença. Segundo, porque pela sequência patet que ele fala do homem que, jactando-se da fé sem obras, julga-se justificado apenas por ela; mas ele mostra que esta jactância é inane, pois aquela fé que carece de obras está morta, e as obras são necessariamente requeridas para que se justifique. Ora, se a fé sem obras é considerada morta, deve ser igualmente considerado morto espiritualmente quem a atribui a si mesmo, e assim não pode tornar-se mais justo pelas obras, pois assim se suporia que já possui alguma justiça, a qual, contudo, não possui, mas apenas é tornado justo enquanto é justificado por tais obras. Terceiro, se aquela conciliação fosse verdadeira, seguir-se-ia que Abraão, ao mesmo tempo, foi justificado de ambos os modos; mas o segundo destes seria absurdo, porque assim as obras da fé precederiam ambas as justificações, o que os próprios Adversários negam. A consequência patet de Tiago II. 23, onde diz que então se cumpriu aquela Escritura que afirma que Abraão creu em Deus e isso lhe foi imputado para justiça, quando ofereceu Isaque em sacrifício, isto é, quando mostrou sua fé pelas obras; de onde se poderia coligir, conferindo Tiago com Paulo: Quando a fé foi imputada a Abraão para justiça, então ele foi justificado sem as obras, segundo Paulo aos Romanos, e consequentemente por aquela primeira Justificação de Belarmino; Mas quando, pelas boas obras, e nominalmente pela oblação de seu filho, demonstrou sua fé, então sua fé lhe foi imputada para Justiça, segundo Tiago; Logo, então também foi justificado sem as obras e, consequentemente, ao mesmo tempo pelas obras da fé e sem as obras pela fé foi justificado na segunda. Quarto: Toda obra justa e meritória da vida eterna provém da fé, testemunha o próprio Adversário que afirma no lib. 4, c. 18, que ninguém pode realizar as obras pelas quais seja justificado diante de Deus sem que antes se torne justo diante de Deus por aquela primeira justificação que é pela fé sem as obras; Mas aquela fé de Abraão, que lhe foi reputada para Justiça, foi uma obra justa e meritória, e como tal julgada e aceita por Deus, que são as próprias palavras de Belarmino ibid.; de onde aquela fé deveria provir de outra fé, e aquela sucessivamente de outra, pois a razão vale sempre a mesma, e assim ao infinito. Quando, pois, foi justificado pela fé sem as obras, como quer Paulo; foi justificado pelas obras, segundo Belarmino, e consequentemente coincide cada uma destas Justificações que ele estabelece. Viram isto também os próprios Jesuítas; por isso Justiniano na ep. aos Rom. c. iv. rejeita esta conciliação, movido por duas razões principais: 1. porque se o lugar de Gên. XV trata da primeira Justificação do ímpio, como Paulo ensina, é necessário que Tiago abuse deste testemunho para declarar a natureza da segunda Justificação; 2. porque não se pode atribuir bem à segunda Justificação o que Tiago lhe atribui, que Abraão por ela seja dito tornado amigo de Deus, visto que já há muito tempo era amigo e justo. O mesmo sente Estius em Tiago c. ii., escritor não ignóbil da mesma Sociedade.

VIII. Outros Pontíficios, portanto, a quem não agradou tal invenção, tomaram outro caminho de conciliação, não distinguindo a Justificação, mas as obras que ocorrem antes e depois da fé: que Paulo nega, por certo, que sejamos justificados pelas obras, mas por aquelas que precedem a fé e que são feitas apenas pelas forças da natureza sem a graça de Cristo, quais os Gentios exerciam e os Judeus jactavam; mas que Tiago atribui a Justificação às obras, porém àquelas que seguem a fé e são feitas pela graça de Cristo. Assim, não haveria até aqui nenhuma repugnância entre eles. Esta é a distinção mais frequente entre eles, com a qual tentam eludir todos os lugares paulinos que costumamos aduzir contra a Justiça inerente ou Justificação pelas obras; a qual, haurida de Lombardo e Tomás, retêm quase todos os mais recentes, Bellar. Becan. Alphonſus à Caſtro, Salmero, e outros; Justiniano, verdadeiramente, de modo peculiar, Eſtius, Tirinus a urgem para a conciliação desses lugares.

IX. Mas esta solução não é mais cômoda que a precedente. Primeiro, porque se apoia na hipótese falsíssima de que Paulo, em sua Disputação, exclui apenas as obras dos não regenerados que ocorrem antes da fé, e não outras que são feitas pelos renascidos e a seguem. Mas o contrário patet por inúmeros argumentos: primeiro, dizemos com Salmerão, enquanto ele mesmo rejeitava a distinção das obras cerimoniais das morais que costuma ser trazida por outros, que não se deve limitar o que o Apóstolo não limitou; ora, o Apóstolo exclui absoluta e simplesmente da Justificação todas as obras sem qualquer restrição e limitação; logo, entende não apenas algumas, mas todas. Segundo, quanto às obras más, não foi necessário com tanto esforço retirar-lhes a justificação, pois isto era confessado por todos; mas todas as obras feitas sem a fé são más, visto que, pelo testemunho do Apóstolo, tudo o que não provém da fé é pecado, Rom. XIV. 25. Terceiro, a exclusão das obras em Paulo deve ser entendida de modo que se exclua todo gloriar-se, Rom. III. 27. Mas, a menos que se excluam simplesmente todas as obras, mesmo as feitas depois da fé, não se excluirá o gloriar-se, visto que se finge que aquelas obras procedem juntamente com a graça pela virtude do livre-arbítrio, e são estabelecidas como méritos de condigno; mas onde há algum mérito, ali há gloriar-se: se Abraão foi justificado pelas obras, tem de que se gloriar, Rom. iv. 2. Quarto, os Exemplos de Abraão e Davi trazidos por Paulo em Rom. IV não tratam deles antes da conversão e da fé, mas deles já convertidos; se tivesse falado de Abraão quando primeiro foi chamado da Ur dos Caldeus, a exclusividade poderia ser restringida, com alguma aparência de verdade, às obras que precederam sua vocação; mas fala dele já convertido e constituído no meio do curso da piedade, no qual sem dúvida já operara muitas boas obras, e contudo, quando busca a razão de sua justificação, pronuncia que não ao que trabalha, mas ao que crê, a fé foi imputada para Justiça. Assim Davi, quando prega a μακαριδμὸν [bem-aventurança] do homem na remissão dos pecados e depreca o juízo de Deus, Sl. XXXII. 1 e CXLIII. 2, não fala de si como infiel e não regenerado, mas já fiel e convertido. Assim o próprio Paulo não disse apenas das obras precedentes à sua conversão feitas no Farisaísmo que as considerava como perdas e as tinha por nada, mas também de todas as outras que dele, como Cristão, poderiam proceder; pois, depois de ter dito no versículo 7: as coisas que para mim eram lucro, considerei-as como perda por causa de Cristo, falando no presente, diz: ἀλλὰ μενουν γε ἡγοῦμαι ζημίαν εἶναι, não apenas abjuro aquelas, mas também considero todas estas coisas como perda, etc. Fil. III. 8. Quinto, isso mesmo também se colige evidentissimamente pelo escopo da Epístola aos Gálatas e pelo estado da questão que Paulo persegue; pois a questão não era se poderiam ser justificados apenas pelas obras antes da fé e sem Cristo, o que pretendiam os Judeus que se esforçavam por estabelecer sua própria Justiça diante de Deus, mas se as obras deveriam ser conjuntas com a fé no artigo da Justificação, o que urgiam os Pseudo-Apóstolos e outros falsos irmãos judaizantes; pois é certo, pela série da oração e pelo escopo da epístola, que aqueles contra quem o Apóstolo disputa não eram puros Judeus, mas tais que, professando o Cristianismo, tentavam conjugar a Lei com o Evangelho, as forças humanas com a graça de Deus, as obras com a fé no negócio da Justificação; pois se sua lida fosse com Judeus confessos, a maioria de seus argumentos pareceria menos sólida e firme, como quando conclui: se a justiça vem pela Lei, logo Cristo morreu em vão, Gál. II. 21; se a herança é pela Lei, logo não é pela promessa, Gál. III. 18, etc., o que os Judeus dificilmente deixariam de conceder; mas quando disputa contra Semi-Judeus e Pseudo-Cristãos, a conclusão desse argumento é firmíssima, porque nem a mínima parte do ofício prestado por Cristo pode ser atribuída às nossas quaisquer obras, sem que a graça deixe de ser graça.

X. Sexto, se não se excluem todas as obras, absolutamente, mesmo as dos renascidos que seguem a fé, não poderá subsistir a antítese que Paulo tantas vezes urge entre os dois pactos, o Legal e o Evangélico, como plenamente ἀσύστατα [incompatíveis] e incompatíveis, porque naquele somos justificados pela obediência própria, neste pela alheia e imputada, Rom. IV. 5 e X; Gál. III. 12; Fil. III; por aquele em nós, por este em Cristo, 2. Cor. V. 21. Ora, se no pacto da graça também somos justificados pelas obras, por certo o Apóstolo teria erradamente retirado do Evangelho este modo de justificação como próprio do pacto Legal, pois assim não menos sob o Evangelho do que sob a Lei seríamos justificados pelas obras. Sétimo, se aquela foi a sentença de Paulo que lhe é atribuída pelos Adversários — a saber, de excluir apenas as obras da natureza e antes da fé — é de admirar que o Apóstolo tantas vezes, tão clara e constantemente, oponha a fé às obras, mas nunca as obras da natureza às obras da graça, o que, contudo, teria feito primordialmente para o seu propósito, a fim de declinar a inveja com que costumava ser gravado; pois os próprios Adversários costumavam traduzir sua doutrina principalmente a partir disso, como se ele soltasse as rédeas à carne e fosse um travesseiro para os pecados ao prometer a remissão gratuita dos pecados; se, portanto, tivesse acreditado que a Justificação se faz pelas obras da graça, não lhe seria fácil responder que não negava simplesmente a Justificação pelas obras, mas apenas pelas obras da natureza feitas sem fé? Visto que, porém, o Apóstolo tantas vezes, tão clara e constantemente, atribui a Justificação à fé e a retira das obras, sem jamais ter aduzido qualquer exceção ou distinção de obras, é límpido que ele quis que todas as obras, absolutamente, fossem excluídas deste negócio. Pelas quais razões, para não amontoar mais argumentos que poderiam ser trazidos para subverter esta hipótese dos Adversários, consta suficientemente que não se pode por esta via remover a repugnância entre os Apóstolos, dado que Paulo incluiu ambas as obras, da natureza e da graça. Acresce também que, nem mesmo admitida esta glosa, Tiago pareceria consentir consigo mesmo, quando diz que a Escritura que descreve a Justificação pela fé de Abraão cumpriu-se quando ele ofereceu seu filho; pois de dois modos apenas isto pode ser entendido: ou que o sentido seja que Abraão creu e sua fé lhe foi imputada como parte da Justiça, ou como justiça sólida e plena; se for entendido no segundo sentido, cai a sentença dos Adversários, pois se a fé foi reputada como justiça sólida, não houve necessidade de obras; se no primeiro, não menos absurdo será o raciocínio: a Escritura testifica que Abraão foi de certo modo Justificado quando creu; logo, este testemunho da Escritura cumpriu-se quando ele ofereceu o filho; ora, não há aqui nenhuma coesão ou dependência. Sem dizer que erroneamente se divide a Justiça do homem em partes, como se pudesse ser dito imputar-se para Justiça o que ocupa apenas o lugar de uma Justiça parcial e imperfeita.

XI. Deixados de lado, portanto, os Pontifícios que, fascinados pelo cego preconceito de seus erros, nem veem nem querem ver a verdade, e parecem não fazer outra coisa senão por quaisquer modos que podem τῇ ἀληθείᾳ δηλῶσαι [obscurecer a verdade]; vejamos o que estabelecem nesta parte os Ortodoxos; pois estes também se esforçaram por remover este escrúpulo de modos diversos. Alguns distinguindo a Justificação diante de Deus e diante dos homens, de modo que Paulo trataria daquela, e Tiago desta. Outros distinguindo as obras que ou podem ser tomadas propriamente, ou metonimicamente por sua causa, a saber, a fé, de modo que Paulo retiraria a justificação das obras propriamente tomadas, mas Tiago a atribuiria a elas, porém entendidas metonimicamente, isto é, à fé viva e eficaz. Contudo, visto que nenhuma parece satisfazer plenamente — a primeira não, porque, como patet pelo progresso, algo mais em Tiago parece ser insinuado além da demonstração da justificação diante dos homens; a posterior não, porque esta locução metonímica é mais dura e menos usada, nem parece consentir suficientemente com as circunstâncias do texto onde fé e obras são distinguidas e especialmente no vers. 22 — vejamos se não nos supre uma razão mais fácil de interpretar o lugar e remover a dificuldade proposta.

XII. Aqui, porém, duas coisas devem ser pressupostas antes de tudo como fundamento: Primeiro, que esta não é uma contradição verdadeira e real, mas apenas aparente, pois quem diria que estes Apóstolos que uniram as mãos para cooperar, Gál. II. 9, dividiram as línguas para contender? Immo, visto que o mesmo Espírito falou por meio de ambos os Apóstolos, o qual não é Sim e Não, mas Sim em Cristo, 2. Cor. I. 19, sendo a verdade constantíssima, não pode ocorrer que tenha afirmado qualquer coisa adversa e repugnante a si mesma; por isso, se por Paulo refere a Justificação somente à fé, mas por Tiago a refere também às obras, isso certamente deve ser entendido κατ’ ἀλλὸ καὶ ἀλλό [sob um e outro aspecto]. Segundo, deve-se também manter a regra dos Teólogos de que não há dogma da fé que não seja proposto em algum lugar na Escritura com palavras claras e perspicuas; pois, como bem diz Agost. de doctr. Chriſti. l. 2. c. 6., magnificamente e salutarmente o Espírito S. modificou as Escrituras de tal modo que pelos lugares mais abertos socorresse a fome, e pelos mais obscuros limpasse o fastio, pois quase nada se extrai daquelas obscuridades que não se encontre dito mui plenamente em outro lugar; aquela perspicuidade deve ser buscada principalmente naqueles lugares onde o argumento é tratado ex professo e como que em sua própria sede. Donde, quando surge uma questão acerca de tal dogma, deve-se recorrer àqueles lugares, para que a partir deles se faça o juízo sobre os demais nos quais os Escritores sagrados talvez tenham falado sobre o mesmo de modo mais obscuro ou, ao menos, apenas de passagem e tratando de outra coisa. Como, portanto, a questão versa sobre o artigo mais momentoso de nossa Religião, deve-se ver primeiramente onde este dogma é tratado expressamente e como que em sua própria sede. Ora, consta, e creio que ninguém ousará negar, que este argumento é proposto por Paulo com as sentenças mais próprias e claras mais de uma vez nas epístolas aos Rom., Gál. e Efés.; por isso não Paulo a partir de Tiago — que mencionou a justificação apenas uma vez e tratando de outra coisa — mas antes Tiago deve ser exposto a partir de Paulo, que tantas vezes e tão perspicuamente abriu sua mente aqui; e deve-se cuidar diligentemente para que nada seja trazido na elucidação do lugar de Tiago que repugne à analogia da fé constituída por Paulo neste artigo. Isto, porém, poderá ser feito facilmente se ponderarmos com exame diligente estes quatro pontos: I. A ocasião e o Escopo de cada Apóstolo; II. A nomenclatura da fé que é usada em ambos os lugares; III. O vocábulo da Justificação que é mencionado; IV. A variada σχέσιν [relação] do Homem que é justificado. Pois arbitramos que destes quatro pende a plena conciliação de Tiago com Paulo.

XIII. Aqui, portanto, deve primeiramente estar diante dos olhos aquilo de Hilário: A inteligência dos ditos deve ser tomada das causas dos que dizem; pois, da variada ocasião do sermão, surge um vário escopo do falante e um diverso modo de falar, assim como Cristo fala de um modo aos fariseus obstinados e soberbos, de outro aos ouvintes desejosos da verdade e humildes; de um modo Paulo se portou quando circuncidou Timóteo em favor dos fracos, Atos XVI, vers. 3, de outro quando não quis que Tito fosse circuncidado por causa da contenda dos falsos irmãos, Gál. II. 3. Assim aqui, a ocasião e o escopo de cada Apóstolo trazem imensa luz a este negócio. E quanto a Paulo, seu Escopo em suas Epístolas não é obscuro: visto que teve certame principalmente com os Fariseus e Pseudo-Apóstolos que ou substituíam a graça por seus méritos e Justiça, ou a conjugavam com a graça; assim, parece ter estado todo voltado para declarar a verdadeira razão e causa da justificação, e para atribuí-la solidariamente à graça apreendida pela fé, e de modo algum a quaisquer obras nossas, sejam quais forem; e para esse fim aduz os exemplos de Abraão e Davi, que não foram justificados de outro modo. Tiago, porém, pretende algo longamente diverso, pois ataca outro gênero de homens, a saber, os Epicureus e Libertinos que, professando a fé cristã apenas por palavra e boca, negavam a mesma pela vida e pelos fatos, e assim convertiam a graça de Deus em licenciosidade carnal e profana segurança de pecar, aquiescendo entretanto em tal simulacro de fé como se por isso fossem os mais justos de todos. A Tiago, portanto, o propósito é arguir este desprezo das obras e o delírio estultíssimo daqueles que, entre os Cristãos, mediam a fé, cujo nome era ilustre, apenas pela aparência externa e profissão; jactavam a fé, negligenciavam as obras. Estes, porém, porque abusavam do nome da Justificação pela fé e, a partir da sentença de Paulo mal compreendida, bem como do exemplo de Abraão, tinham o estudo das boas obras como inútil e supérfluo, Tiago, com o mesmo exemplo retorcido contra eles, esmaga aquela inane jactância, para que não se pensasse que apenas a profissão bastasse, ou que nela residisse a verdadeira fé. Viu isto Agost. no Sl. XXXI: Tiago, diz ele, quer corrigir aqueles que, entendendo mal a Paulo, não queriam agir bem, presumindo da fé somente. Portanto, contra ambos, assim como a controvérsia foi plenamente contrária, de modo contrário também se devia disputar. Aqueles contra quem Paulo disputa estabeleciam a Justiça das obras; estes com quem Tiago lida, não apenas retiravam a justificação das obras, mas também as próprias obras como que pouco necessárias ao homem cristão. Assim como, contra aqueles, defende-se a gratuita Justificação pela fé de tal modo que as boas obras não sejam eliminadas, mas antes sejam recomendadas mui eficazmente em toda parte, retirando-se-lhes apenas a Força de Justificar; assim, contra estes, é límpido que as obras são estabelecidas não para que se lhes atribua força de justificar, mas para que a verdadeira Justificação seja coligida delas como de efeitos. Lá se indaga sobre a Causa da Justificação, aqui sobre os efeitos. Lá as obras são excluídas como causas da Justificação, aqui são admitidas como efeitos. Lá se discute como somos Justificados, aqui como entendemos que fomos justificados. Lá se nega que as obras precedam os que hão de ser justificados, aqui se diz que seguem os já justificados. Lá se trata com Fariseus e Justiciários, aqui com Epicureus e Profanos. Portanto, pela razão do escopo que pretendiam e dos homens aos quais escreviam, de modo diverso os Apóstolos deveriam acomodar estes mistérios da fé ao seu instituto. Pois, assim como Paulo pouco apropriadamente teria urgido as obras contra os Fariseus que nada buscavam senão obras, assim em vão Tiago teria provado contra os profanos que não somos Justificados pelas obras, eles que nem sequer as exigiam como Testemunhos e efeitos da justiça, muito menos que lhes atribuíssem mais do que o justo.

XIV. Do que já consta suficientemente que não há aqui nenhum certame de Tiago com Paulo, visto que, como olhavam para escopos plenamente diversos, de modo idêntico diverso foi o caminho a ser tomado para que radicitus arrancassem dos corações dos homens aquele duplo erro: tanto a soberba Farisaica pela falsa confiança nas obras, quanto a licenciosidade Profana com a vã jactância da fé. E para esmagar a soberba arrogância daqueles que, jactando suas boas obras, nelas confiavam e delas presumiam que seriam justificados, nenhum exemplo pôde ser trazido de modo mais apto que o de Abraão, o qual, por certo, se qualquer outro mortal devesse ter sido justificado pelas boas obras com que sua vida santa reluzia, visto que o Apóstolo ensina que nem mesmo a ele tal ocorreu diante de Deus, quanto menos qualquer de seus pósteros deveria esperar ou presumir o mesmo? Assim, para desmascarar a piedade larvada dos homens carnais, o exemplo de Raabe, entre outros, foi convenientíssimo: ela que, tendo sido convertida apenas recentemente ao conhecimento e culto do verdadeiro Deus e sendo ainda neófita na verdadeira Religião, comprovou e testou a verdade de sua fé por aquela insigne obra de caridade e misericórdia para com os servos do verdadeiro Deus; quanto mais convém o mesmo aos homens Cristãos nutridos na escola de Cristo sob a luz e a graça Evangélica?

XV. Embora, porém, Bellar. lib. iv. de Juſtific. c. 18. tente replicar algo aqui, enquanto contende que o escopo de Tiago foi não demonstrar qual é a verdadeira fé, mas que a fé verdadeira e Católica não basta para a salvação sem as obras, e que o fiel que opera bem cresce na justiça, e o que opera mal perde a Justiça, e que a fé nele permanece morta e ociosa; o que gostaria de provar, tanto pela autoridade de Agostinho, que no lib. de fid. & oper. c. 14 ensina que a Epístola de Tiago é dirigida contra a heresia então recém-nascida daqueles que diziam que a fé basta para a salvação sem as obras, quanto pelo c. I. verf. 23: Sede cumpridores da palavra e não apenas Ouvintes, e c. II. 1, onde exorta os mesmos a não terem a fé de N. S. em προσωποληψίᾳ [acepção de pessoas]. Isto, digo, é de nenhum peso e facilmente se refuta: 1. peca-se por ignorância do Elenco, pois uma coisa é falar do escopo geral de toda a Epístola, outra do escopo particular deste capítulo, e principalmente de seu último trecho; concedemos, de fato, facilmente que o escopo geral de Tiago nesta Epístola não é apenas mostrar qual é a verdadeira fé, visto que consta que toda a Epístola é parenética, exortando os fiéis à constância nas aflições, à perseverança na fé e ao progresso na vida Cristã; mas negamos que este escopo peculiar seja o deste capítulo. Immo, provamos o contrário pelo próprio texto, pelo qual consta que Tiago não trata primária e principalmente da Justificação, mas da fé; não da justificação do homem pecador, mas da manifestação do homem fiel, e ademais da própria demonstração da fé. Patet tanto pela proposição da disputa Apostólica quanto pela conclusão da mesma. A proposição é dupla, tanto a remota v. 1 quanto a próxima vers. 14. Lá diz: meus irmãos, não tenhais a fé de nosso Senhor Jesus Cristo glorioso ἐν προσωποληψίαις. Aqui: Que utilidade há, meus irmãos, se alguém disser que tem fé, mas não tiver obras? pode porventura aquela fé salvá-lo? Pelas quais coisas é límpido que a questão foi apenas sobre a fé, e sobre mostrá-la pelas obras citra προσωποληψίαν, pois assim como no primeiro versículo ensina que a acepção de pessoas não pode coexistir bem com a fé, assim no v. 14 nota o vício geral dos hipócritas que se gloriavam em inane jactância de fé, embora negligenciassem o cuidado das obras; ocupando-se, de fato, com a objeção de algum hipócrita que, apenas alegando a fé, parecia seguro da justificação e da salvação, diz: que utilidade há, meus irmãos, etc. Nas coisas seguintes, o Apóstolo pede todas as suas provas daqui: que a fé sem obras é nada, que é morta, etc. A Conclusão mostra o mesmo, vers. 26: como o corpo sem o espírito está morto, assim também a fé sem as obras está morta; conclui-se, pois, sobre qual fé é verdadeira e vital, não sobre a justificação; pelas quais coisas é límpido que o verdadeiro escopo do Apóstolo é ensinar que não é verdadeira e salvífica aquela fé que não se mostra pelas obras, da qual se gloriavam aqueles hipócritas, mas apenas um inane simulacro dela, como o corpo vivo não é o que não respira. Portanto, os fiéis, se querem ser de fato o que parecem, devem incumbir-se sedulamente disso: de fazer sua fé testificada pelas obras. 2. Peca-se também por uma hipótese falsíssima: a saber, que a fé que é destituída de obras é verdadeira e Católica, embora não baste para a salvação, quando contudo Tiago a chama de morta e Diabólica. 3. Uma coisa é não bastar para a salvação sem as obras, outra não bastar para adquirir a salvação ou para a justificação; o primeiro concedemos não de má vontade — a saber, que a fé não basta sem as obras para possuir e entrar na salvação, como quem sabe que as obras são o caminho para o céu que Deus preparou para que nele andemos, Efé. II. 10; mas o posterior negamos contra os Pontifícios, que quereriam adjungir as obras à fé no artigo da justificação; quando, porém, é mais claro que a luz meridiana que a Escritura a atribui somente à fé, nem pode ocorrer de outro modo sem que se ab-rogue o pacto da graça. 4. É mero figmento o que diz, que Tiago fala do incremento da Justiça, quando nada tal está contido expressamente em suas palavras, nem pode ser eliciado delas por necessária e evidente consequência.

XVI. Em vão, na verdade, provoca a Agost., pois ele diz que, nos tempos dos Apóstolos, por sentenças de Paulo não bem entendidas, alguns pensaram que, para obter a salvação, a fé sozinha bastava, isto é, apenas a profissão e presunção da fé, o que patet logo pelo próprio lugar quando diz: O Apóstolo, quando diz que o homem é justificado pela fé sem as obras, não quer isto: que, tendo sido dada a regra e professada a fé, as obras de justiça sejam desprezadas, mas para que cada um saiba que pode ser justificado pela fé, mesmo que as obras da Lei não tenham precedido, pois seguem o Justificado, não precedem o que há de ser justificado. Entretanto, nuspiam chama esta fé de verdadeira e Católica, mas, ao contrário, diz disertamente que é morta e, por consequência, inane e ψευδώνυμον [de nome falso]: Até quando, diz ele, enganam-se os que pela fé morta prometem a si mesmos a vida? Assim, Agost. não urge as obras como causas da Justificação, mas como frutos da fé, como ali mesmo testifica. Além de que uma coisa é a fé sem obras não aproveitar, o que Agost. diz e nós com ele reconhecemos; outra a fé sem obras não bastar para a Justificação, o que quer o Adversário, e nós negamos. Nada, portanto, de auxílio tem na autoridade de Agostinho. Nada também o ajudam os lugares aduzidos, pois do primeiro, Tiago I. 23, colige-se apenas o fim geral da Epístola, a saber, a exortação ao estudo da santidade, porque a Lei não requer apenas Ouvintes, mas também cumpridores; pois o Evangelho, com as promessas, tem também seus mandatos, para cuja observação nos exorta. Do outro, c. II. 1, nada pode ser inferido senão que aquela fé é vã quando labora em proſopolepſiâ e é destituída de caridade ou de boas obras, o que é aquilo mesmo que pretendemos.

XVII. Segundo, além da consideração do escopo, que é diverso em cada lugar, deve ser distinguida também a voz da fé, que é tomada de um modo por Paulo, e de outro é entendida por Tiago. Para Paulo, designa a fé verdadeira e viva; para Tiago, porém, a fé morta, apenas uma máscara de fé que καταχρηστικῶς [impropriamente] reivindica para si este nome, e à qual ele, por mera concessão, para não parecer litigar por palavras, honrou com esse título. Que Paulo não entende outra coisa senão a fé viva é mais claro do que o que necessite de prova, visto que testifica mais de uma vez que ela é eficaz pela caridade. Que Tiago, porém, disputa contra a inane jactância da fé, e desta retira a Justificação, há muitas coisas que demonstram. Primeiro, o escopo de Tiago já indicado, que principalmente desembainha o estilo contra aqueles que, entendendo mal a Paulo, não queriam agir bem, presumindo da fé somente, como dizia Agostinho; portanto, a fé para Tiago nada mais é do que a profissão ou presunção da fé, a fé que não quer agir bem, a qual fé não é salvífica, mas inane; não viva, mas mortua; não eficaz, mas ociosa e estéril. Segundo, todas as circunstâncias do texto; pois ele entende aquela fé não que alguém tenha de fato, mas que alguém diga que tem, vers. 14: Que utilidade há, diz ele, meus irmãos, se alguém disser que tem fé. Segundo, aquela que consista apenas em palavras e na profissão externa, como se alguém desse boas palavras ao pobre nu e que pede esmola, mas nada de subsídio, vers. 15; como, pois, esta caridade que consiste apenas em palavras é inane e falsa, assim a fé sem caridade e obras. Terceiro, não nota outra senão aquela que seja morta, vers. 17: Assim a fé, diz ele, se não tiver obras, está morta em si mesma. Quarto, aquela que seja comum ao homem com o Demônio, e que seja apenas da Essência divina, não item da benevolência e graça especial, que é o próprio e peculiar objeto da fé Justificante, vers. 19: Tu crês que há um só Deus; os demônios também o creem, e estremecem. Quinto, aquela que seja vã e torne o homem vão, vers. 20: Queres saber, ó homem vão, que a fé sem as obras é morta? Pelas quais coisas é claro que Tiago fala do inane nome e da meramente externa profissão de fé, que, à semelhança de uma moeda adulterada, mostre por certo a ἔνδειξιν [indicação] e as insígnias do sumo Magistrado, mas tenha cobre em vez de ouro, ou estanho em vez de prata; de onde se colige que uma fé é pregada por Paulo, outra por Tiago, e, por consequência, nenhuma repugnância há entre eles, porque não afirmam o mesmo do mesmo, mas do diverso. Paulo atribui a Justificação apenas à fé, mas à viva e eficaz; Tiago, porém, a retira, mas da morta e hipócrita, que está posta na nua profissão do homem, ou meramente no conhecimento da verdade histórica, qual cabe aos Demônios. Faz aqui conosco Justiniano em Rom. iv: sempre eu julguei que tanto Paulo quanto Tiago disputam sobre a primeira Justificação de Abraão, mas que Tiago retira de sua fé ociosa o que Paulo atribuía à viva; faz Salmerão sobre este lugar de Tiago: Acede-se para confutar o erro daqueles que se gloriam apenas no inane vocábulo da fé, e fazem da liberdade Cristã um véu para seus pecados, e vivem para si e para o mundo, mas não para Cristo, como cães voltando ao seu vômitob; faz Tirinus, que reconhece ser entendida por Tiago a fé que seja vã, inane, infrutuosa para seu possuidor, item seca, exangue, sem vigor e fétida à semelhança de um Cadáver putrescente, elogios que ninguém são ousaria atribuir à fé Justificante que Paulo urge. Ora, isto já fora observado por Agost. lib. de fide & operibus c. 14. & quaeſt. ad Dulciti. q. 1.

XVIII. Embora esta distinção seja mais clara que a luz meridiana, Belarmino contudo não quer reconhecê-la, immo, move cada pedra para subvertê-la e mostrar que Tiago, não menos que Paulo, fala da fé verdadeira e salvífica; traz várias razões: Primeiro, porque Tiago a chama absolutamente de fé, nome que nas sagradas letras sempre costuma significar a fé verdadeira. 2. Porque no mesmo capítulo, vers. 22, falando da mesma fé na pessoa de Abraão, diz que ela cooperou com as obras e que pelas obras foi consumada; ora, a fé de Abraão não foi sombra de fé, nem inane conhecimento de artigos, mas fé veríssima. Terceiro, porque diz que a fé justifica bem, mas não somente: Vedes que pelas obras o homem é justificado e não somente pela fé, vers. 24; supõe, logo, que a fé justifica de algum modo e em parte, ora, a sombra e larva de fé não justifica. Quarto, porque o homem que tem fé sem obras é comparado ao rico que conheça por certo a indigência do pobre, mas contudo nada de subsídio lhe erogue; como, portanto, veríssima é aquela agnição da indigência do pobre, assim também a verdadeira fé, que é destituída de obras, v. 15. É comparada também ao corpo sem espírito, que não se pode negar ser um corpo verdadeiro, embora morto, vers. 26: Assim como o corpo sem o espírito está morto, assim também aquela fé que é sem as obras está morta. Assim ele no lib. 1. de Juſtif. c. 15.

XIX. Na verdade, embora sue esforçando-se, nada porém aproveita com suas ratiunculas. Na primeira, peca-se bifariamente: Primeiro, enquanto se supõe que a fé, quando posta absolutamente, sempre designa a fé verdadeira, isto é, a salvífica e Justificante da qual Paulo trata e sobre a qual nossa questão é instituída (de outro modo, se o nome de fé verdadeira for tomado mais largamente, não negamos que a fé histórica ou temporária também seja verdadeira a seu modo objetivamente, enquanto assente verdadeiramente ao Verbo e crê ser verdade); é falso, porém, que isto possa ser mostrado por inumeráveis exemplos: a fé é atribuída a Simão Mago, Atos VIII. 13, que também se diz ter crido, contudo não verdadeiramente, mas simuladamente; assim os Demônios dizem-se crer, não porém para a confiança e salvação, mas para o terror e desespero; muitos dizem-se ter crido em Cristo por causa dos milagres que praticava, João II. 23; contudo não verdadeira e salvificamente, porque Cristo não se confiava a eles, conhecendo o que havia no homem, vers. 24, 25. Assim, saiba-se que mui frequentemente, quando a fé é posta absolutamente, ou significa a fé dos milagres, 1. Cor. XIII. 2, Mat. XXI. 21, 22, etc.; ou a própria doutrina da fé, Atos VI. 7; ou a profissão da doutrina Evangélica, Rom. I. 8, Atos XVI. 5, etc. Ademais, não é insólito este gênero de fala na Escritura: que aos τοῖς φαινομένοις [aos que parecem] sejam dados os nomes τῶν ὄντων [dos que são], seja κατὰ συγχώρησιν [por concessão] argumentando ad hominem, como Paulo diz: aprouve a Deus salvar os crentes pela estultícia da pregação, 1. Cor. I. 21, não que o Evangelho seja tal em si, mas que tal seja tido pelo mundo e pela carne; seja ironicamente, para redarguir a vaidade dos homens, como 1. Cor. IV. 8: Já estais fartos, já estais ricos, sem nós até aqui alcançastes o reino, o que depois corrige nas coisas seguintes: quisera Deus que reinásseis, para que também nós reinássemos convosco. Assim Tiago, por mera concessão, chama esta fé hipócrita de fé, porque aqueles que a professavam a nomeavam fé e dela se gloriavam, embora de fé nada tivesse além da profissão externa ou de um inane conhecimento dos mistérios sagrados. Viu isto Ecumênio: Ao duplo significado de fé refere-se o nome da fé; pois costumamos usar a fé tanto da simples concepção daquilo que aparece, assim como sabemos que os Demônios creem no filho de Deus; e novamente chamamos pelo nome de fé aquilo que resulta de uma firme disposição com certo assenso. Segundo, falsamente também supõe que Tiago a chama absolutamente de fé, pois o artigo que ele adiciona tem sua força para distingui-la peculiar e διακριτικῶς [distintivamente]: num potest ἡ πίστις [pode porventura esta fé] salvá-lo? não apenas a fé, mas esta fé, tal fé; e as circunstâncias conexas a determinam suficientemente, quando a chama de fé morta e comum aos demônios; principalmente, porém, o prova aquilo: que não se diz que a fé é possuída, mas apenas jactada: Se alguém disser que tem fé, isto de fato é tão geral que compreende não apenas τὰ ὄντα [as que são], mas também τὰ φαινόμεna [as que parecem], como em 1. João II. 4: Aquele que diz: Eu o conheço, e não guarda os seus mandamentos, é mentiroso; e vers. 9: aquele que diz que está na luz, e odeia a seu irmão, está nas trevas, etc.

XX. Quanto ao segundo, falsamente novamente supõe o Adversário que a fé contra a qual Tiago disputa, e sobre a qual se indaga entre nós, seja a mesma com a fé de Abraão de que fala depois; visto que é certo que o Apóstolo as distingue entre si. Pois, para ensinar que aquela fé de que esses hipócritas se gloriavam era falsa e inane, opõe a fé do Pai dos crentes, a qual não foi morta, mas eficaz pelas boas obras; patet pelo vers. 20, 21, etc.: Queres, porém, saber, ó homem vão, que a fé sem as obras é morta? Abraão, nosso Pai, não foi porventura justificado pelas obras quando ofereceu o seu filho, etc.? Como se dissesse: Queres saber disto amplamente: que a fé que jactas não é a verdadeira fé, nem aquela em que possas te apoiar seguramente? Confere aquela fé com o exemplar de Abraão; pois, visto que ele é proposto por Deus como Pai dos crentes, cujos passos da fé convém que todos sigam, não há dúvida de que teve a verdadeira fé; que fez ele, porém? Não ofereceu Isaque? Portanto, não teve uma fé que as obras não seguissem, mas que ele foi verdadeiramente justificado pela fé a própria coisa o mostra quando realizou esta obra de justiça, vers. 22; e então foi plenamente patenteado quão meritoriamente se escreveu dele que creu em Deus e isso lhe foi imputado para Justiça, vers. 23; de onde solidamente colige Tiago que, visto que a fé daqueles nada tem de semelhante com a fé de Abraão, falsamente é alegada como verdadeira e salvífica. Ninguém, portanto, jamais disse o que Belar. nos impõe: que a fé de Abraão foi uma sombra; mas definimos que a fé de todos, e maximamente daqueles que teriam apenas a externa máscara da fé, a partir da fé de Abraão, é iníqua e plenamente contra a mente de Tiago, que compara estas coisas como dissímeis, para que da verdade de uma prove a vaidade da outra. No mais, que a fé se diz ter cooperado com as boas obras ὅτι ἡ πίστις συνήργει τοῖς ἔργοις αὐτοῦ, não deve ser referido à própria Justificação, mas simplesmente à conexão das obras com a fé, para que se signifique que nem as obras foram sem a fé, nem a fé foi sem as obras — o que era principalmente buscado — mas que foi eficaz e fecunda por aquela boa obra, enquanto aquela oblação do filho foi uma egrégia obra da fé, como em Heb. XI. 17 se diz que pela fé ofereceu; e assim não incomodamente este verbo composto que se apõe poderia ser resolvido por uma tmese assaz usada por Tiago, c. II. 6, 13 e IV. 11, em um simples ἡ πίστις ἡ σὺν τοῖς ἔργοις αὐτοῦ ἤργει: a fé existindo com as obras operava, isto é, não permaneceu estéril e ociosa, como eles queriam. Em que sentido, porém, seja dita consumada, não quanto à essência, mas quanto à declaração, diremos logo adiante.

XXI. Na terceira Exceção, peca por falácia de interpretação, como se Tiago, no vers. 24, quando diz: vedes que pelas obras o homem é justificado e não somente pela fé, atribuísse a Justificação à fé de algum modo e em parte como causa sócia com as obras. Mas isto das palavras de modo algum pode ser eliciado; pois ele não partilha a Justificação entre as obras e a fé, mas atribui toda às obras, e retira toda da fé — a saber, daquela fé sobre a qual era a questão e que os hipócritas apresentavam. Não diz: vedes que o homem não somente pela fé, mas também pelas obras juntamente com a fé é Justificado; ou: vedes que também pelas obras é justificado o homem, e não somente pela fé; pois a partícula καὶ ou alguma outra semelhante deveria ter sido adicionada para denotar a conjunção das obras com a fé na Justificação como causas sócias; mas diz simplesmente: Vedes que pelas obras o homem é Justificado, e não somente pela fé, isto é, não por aquela fé solitária e vazia de obras que eles alegavam, que na realidade nada mais é do que sombra e larva de fé. Que o homem, porém, não seja justificado por aquela fé, provou pelo exemplo da fé de Abraão, que foi plenamente outra, a saber, viva e eficaz; de onde colige por consequência necessária, passando da hipótese à tese, que ninguém pode ser justificado por aquela inane fé que não passa da profissão externa da fé que é crida, mas pela fé salvífica que mostre sua verdadeira ἐνέργειαν [operação] pelas boas obras, porque a mesma deve ser a Justificação de todos os fiéis e a fé o seu órgão; pois por qual fé foi justificado Abraão, Pai dos crentes, pela mesma também todos os seus filhos, Rom. IV. 12.

XXII. Ao quarto Respondo: A primeira comparação jugula o adversário; pois assim como aquela caridade do rico que, dando boas palavras ao pobre, nada contudo de real subsídio eroga, é fictícia e inane, e da caridade nada tem senão o nome, visto que, pelo testemunho de João, a Caridade não está na língua, mas na obra e na verdade, 1. João III. 17, 18: pois aquele que tiver bens deste mundo, e vir o seu irmão necessitado, e fechar as suas entranhas para com ele, como a caridade de Deus permanece nele? Amemos, diz ele, não de língua, mas ἔργῳ καὶ ἀληθείᾳ [de obra e de verdade]. Assim omnino a fé que carece de obras é vã e inane. A outra similitude que subjuga não faz mais ao caso; pois, como o Corpo sem o espírito está morto, isto é, pela cessação da respiração reconhece-se estar morto, assim a fé é depreendida como morta pelo defeito das obras. Dirás: Mas assim como o Cadáver é um verdadeiro corpo embora esteja morto, assim também a fé será verdadeira embora morta. Resp.: O Cadáver é, por certo, um verdadeiro Cadáver, mas não é um verdadeiro corpo da mesma espécie e natureza do Corpo vivente; por isso, como o cadáver e o corpo vivente, segundo os Filósofos, diferem em toda a espécie, é necessário também que difiram em toda a espécie a fé viva e a morta; nem σῶμα aqui deve ser tomado precisamente pela massa corpórea cujas partes estão fora das partes, mas antes pelo homem ou pelo animal que se entende viver se ainda respira, mas se for o contrário, seja tido como morto, modo pelo qual não raramente é tomada a voz σώματος (tanto nos Escritores Sagrados quanto nos profanos: em Apoc. XVIII. 13 propõe-se a mercadoria de σωμάτων, isto é, de homens; hinc também aquele σώματα πολλὰ τρέφειν [alimentar muitos corpos], etc.). Assim a voz πνεύματος não denota propriamente a alma, mas o espírito, isto é, a respiração, o hálito ou sopro da vida, cessando o qual cessa a vida e morre o animal; assim em Isa. II. 22; Sl. CIV. 29 e assim a LXX em Sl. CXIX. 132: atraí πνεῦμα [o sopro], isto é, o hálito; no mesmo sentido o vocábulo espírito é usado por Tertull. Apol. c. 6: Por isso também era necessário oferecer ósculos aos parentes, para que pelo espírito [hálito] fossem indicados. A mente de Tiago será, pois: como o corpo pelo defeito da respiração é reconhecido como morto, assim também a fé se carecer de boas obras, pois este é entre todas as gentes o experimento comum do corpo morto; de onde, para maior certeza, costuma-se aplicar um espelho à boca dos mortos, para que pela sua claridade ou obscurecimento se conheça se o Espírito está presente. Não estamos sós nesta sentença: Cajetano, entre os Pontifícios, reconheceu isto mesmo, cujas palavras, porque são exímias, não pigebit referir: Pela apelação de Espírito não se significa a alma, mas o hálito, ou sopro, e aptamente se compara esta ao sopro; pois, assim como o corpo do animal, se não respira, está morto; assim a fé, se não produz obras, está morta; o sopro, de fato, é efeito do corpo vivo, e similarmente a operação é efeito próprio da fé viva, de onde aparece em que sentido disse acima que a fé sem as obras é morta? Não que sinta que as obras são a forma da fé, mas que sinta que as obras são concomitantes à fé, assim como o hálito acompanha a vida do corpo; τὸ πνεῦμα não deve ser entendido οὐσιωδῶς [essencialmente], mas antes ἐνεργητικῶς [energeticamente], a própria vitalis ὀρίτατιο [operação vital], qual é no homem ou no animal a πνοὴ καὶ ἀνάπνοια [sopro e respiração], pela presença da qual permanece o corpo animado, mas, sendo deficiente, torna-se cadáver. Nem por certo de outro modo, sem grave absurdo, pode ser entendido; de outro modo, deveria ser dito que, como da alma e do corpo resulta um terceiro, a saber, o homem, assim da fé morta e das obras resultaria uma terceira coisa, a saber, a fé salvífica. Ora, a fé justificante tem sua própria forma οὐσιώδη [essencial] por sua natureza, não porém pela caridade, que é, por certo, um essencial consecutivado, mas não constituinte da fé; pois a fé não é verdadeira e viva porque opera pela caridade, mas opera pela caridade porque é viva; de modo que a caridade seja efeito e signo da vida da fé, não a causa.

XXIII. Embora esta distinção da fé já confira muito para a conciliação que buscamos, contudo não pode bastar sozinha, a menos que também a Justificação seja distinguida. Pois, como Tiago não diz apenas que o homem não é Justificado pela fé, mas pretende que é justificado pelas obras, o que Paulo nega disertamente, a contradição de modo algum poderá ser removida, a menos que com a fé distingamos também a Justificação e o verbo de justificar; pois pode ser tomado de dois modos e não apenas uma vez é usado na Escritura: ou pela Justificação em si, isto é, por aquela absolvição que conseguimos pela imputação da Justiça de Cristo diante de Deus; ou pela declaração e demonstração da mesma, tanto diante de Deus quanto diante dos homens. A primeira bem se diz Justificação da causa, porque naquela nomenclatura se envolve a consideração da causa e da razão formal pela qual somos pronunciados justos por Deus; a posterior, Justificação do efeito e do signo, enquanto inclui os testemunhos e argumentos a partir dos quais, a posteriori, se conhece e se declara a Justificação. A primeira é da fé, a outra das obras; aquela é a primária e principal significação desta voz; esta é secundária e menos própria, contudo nem plenamente insólita e inusitada na Escritura. Nimirum como diz o Cânon dos Teólogos: Os verbos que significam fazer, ser ou agir algo, às vezes não denotam tanto a essência ou o ato quanto a notificação do mesmo, qualquer que ela seja. Assim no Levít. XIII. 3, onde se trata do leproso que deve ser levado ao Sacerdote, depois que este o inspecionou וטמא אתו então o imputará, isto é, o declarará impuro ou o pronunciará imundo; e vers. 31 וטהרו o purificará, isto é, o pronunciará limpo. Assim em Mat. V. 45: amai vossos inimigos, orai pelos que vos maldizem, para que sejais filhos de vosso pai que está nos céus, de que modo se diz que a filiação segue o amor cuja causa ele é? Pois, se já não fossem filhos, não poderiam prestar tais obras de caridade. Aqui, portanto, deve valer a regra posta: Diz-se então que algo é ou se faz, quando se entende ser ou se declara, para que sejais filhos, isto é, para que de fato vos exibais e demonstreis como tais. Assim em Atos X. 15: o que Deus purificou, não o chames de κοινὰ [profano], isto é, não digas ou julgues ser profano, como o próprio Pedro interpreta no vers. 28. Assim, para não recuarmos para longe de nosso instituto, o próprio verbo de justificar não raro é tomado em Luc. VII. 29: Todo o povo que o ouviu, e os Publicanos ἐδικαίωσαν [justificaram] a Deus, sendo batizados com o batismo de João, isto é, atribuíram a Deus o louvor da bondade e justiça pela humilde confissão dos pecados e pela recepção do Batismo; e vers. 35: A Sabedoria foi justificada por seus filhos, isto é, declarada justa. E em Rom. III. 4. Assim o próprio Cristo se diz em 1. Tim. III. 16: justificado no espírito, isto é, intérprete Paulo aos Rom. I. 4: declarado filho de Deus segundo o Espírito de santidade, pela ressurreição dos mortos. A mesma é a razão deste lugar: Abraão é dito Justificado pelas obras, isto é, declarado e comperto de fato Justificado; pois que Tiago não fala da Justificação da causa, isto é, da própria absolvição, mas da Justificação do signo, isto é, da declaração da mesma, há muitas coisas que o provem.

XXIV. Primeiro, o Escopo e o Conselho de Tiago, que de modo algum é disputar como somos Justificados, mas de qual gênero seja e qual o caráter daquela fé pela qual somos Justificados; não sobre a causa da Justificação, mas sobre a qualidade do justificado, de cujos efeitos e argumentos se possa corretamente coligir quem são os verdadeiramente Justificados. Patet isto pelo vers. 18: Mostra-me a tua fé pelas tuas obras, e eu te mostrarei pelas minhas obras a minha fé. Interpela, a saber, o hipócrita e esmaga sua inane jactância, que, embora professe a fé e a apresente, por nenhum argumento e testemunho externo a pode mostrar; quer, pois, que se faça a demonstração da fé pelas obras, de tal modo que a fé que pelas obras não se exercita, por isso mesmo seja depreendida como falsa e inane. Segundo, a própria série da história, que se nota no vers. 21: Abraão, nosso Pai, não foi porventura Justificado pelas obras, quando ofereceu Isaque, seu filho, sobre o altar? Diz-se, pois, Justificado pela oblação de seu filho; mas diante de Deus Abraão muito antes fora já Justificado, sendo testemunhas Moisés e Paulo, pois no mínimo trinta anos antes de oferecer o filho diz-se ter crido em Deus e a fé lhe foi imputada para Justiça, Gên. XV. Logo, pela obra da imolação não foi Justificado causativamente e meritoriamente, como contendem os adversários, como se por aquela imolação do filho então finalmente tivesse sido verdadeiramente e perfeitamente Justificado; pois já recebera o selo da Justiça da fé, Rom. iv. 11, e fora proposto como exemplar de Justificação a todos os futuros fiéis, tanto Judeus quanto Gentios; mas foi Justificado ostensivamente e declarativamente, porque prestou este testemunho à fé salvífica e Justificante e à sua Justificação por ela. O que se confirma, terceiro, pelas palavras do próprio Anjo a Abraão em Gên. XXII. 12. Pois, tendo oferecido Isaque, ou estando em ponto de já oferecê-lo, com a mão levantada para matar o filho, sendo seu ímpeto inibido, o Anjo lhe fala em nome de Jeová: Não estendas a tua mão sobre o moço, porque agora conheci que temes a Deus e não me negaste o teu filho único, logo, esta obra pertenceu apenas a isto: não a torná-lo justo, pois isto já fora pregado sobre ele, mas para que por algum insigne experimento provasse a todos quão seriamente temia a Deus e quão verdadeiramente a fé lhe fora imputada para Justiça. Quarto, isto se colige das palavras de Tiago, pois se ele não entendesse aquela justificação de Abraão pelas obras declarativamente, por que diria no vers. 23 que a Escritura se cumpriu quando ofereceu o filho, a qual diz que Abraão creu em Deus e isso lhe foi imputado para Justiça? Por certo, isto se diria absurdissimamente se devesse ser entendido sobre a justificação propriamente dita; como, pois, se diz cumprida a Escritura que fala da justificação pela fé, quando foi justificado pelas obras? Mas expõe-se mui comodamente sobre a declaração, porque a fé se provou a si mesma pelas obras, e então apareceu que verdadeira e não hipocritamente Abraão crera em Deus, e que aquela fé, como viva e eficaz, não sem razão lhe fora imputada para justiça, enquanto, a saber, abraçava a promessa da graça. Assim, este cumprimento deverá ser entendido metonimicamente, pela declaração e certeza do cumprimento, que por este efeito clarissimamente se tornou conhecido; modo pelo qual já dissemos que palavras deste gênero são usadas em outro lugar na Escritura.

XXV. Do que se colige que esta justificação de Abraão, de que Tiago trata, deve ser referida propriamente à declaração a posteriori. Ademais, de qual gênero seja aquela declaração? E a quem foi feita, se se indaga? Costuma-se responder, e não mal, que foi feita aos homens; pois, embora aquela oblação do filho tenha sido feita afastadas as testemunhas, sendo Isaque a única testemunha que não pôde conhecer a mente do Pai senão pelo evento, e assim naquele momento esta insigne obediência de Abraão a ninguém propriamente tenha sido conhecida; puderam, contudo, os demais homens, aos quais o rumor daquele fato chegou, conhecê-lo depois; immo, diariamente a fé de Abraão agora também se nos torna conhecida por tal oblação, visto que dela, como de argumento certo e indubitado, coligimos que não foi vã e morta, mas viva e eficaz a sua fé. Contudo, as palavras do Anjo a Abraão nos ensinam que aquela demonstração da fé deve ser estendida ao próprio Deus, pois assim diz o Anjo expressamente: Agora conheci que temes a Deus, etc. Logo, também a Deus se tornou conhecida e aprovada por este fato a fé de Abraão. Mas que necessidade tem Deus de experimento, Ele que é καρδιογνώστης [conhecedor dos corações], ou como pode algo tornar-se conhecido no tempo para Aquele a quem desde a eternidade todas as coisas foram conhecidas e presentes? Atos XV. 18. Este nó não parece leve, e tanto mais digno de solução que aquele infausto Socino, o mais audaz de todos os heréticos, também abusou deste lugar para negar a presciência divina; pois, se Deus conhece todas as coisas por ciência infalível antes que ocorram, diz ele que não se pode explicar como Deus diga que então finalmente conheceu que Abraão fora dotado de verdadeiro temor de Deus, quando não recusou imolar o seu filho caríssimo, Prælect. c. xi. Na verdade, em vain clama a boca impura e emite blasfêmias contra Deus. Por certo, se todas as coisas que na Escritura se enunciam de Deus fossem para ser tomadas ao vivo, e devessem ser entendidas propriamente ao pé da letra como soam as palavras, a razão do herético pareceria ter alguma aparência de verdade; mas quem não sabe que inumeráveis são as coisas na escritura que ἀνθρωποπαθῶς [antropopaticamente] são atribuídas a Deus, e devem ser entendidas apenas θεοπρεπῶς [divinamente apropriadas], a menos que queiramos fingir um Deus corpóreo com os Antropomorfistas, mutável, sujeito à penitência, à dor, à tristeza e a afetos semelhantes? O que os ouvidos Cristãos até agora não puderam suportar, por mais que Conrado Vorstius, discípulo de Socino, tenha ousado palrar impiamente contra a imensidão, imutabilidade e outras propriedades de Deus. Portanto, tanto outrora quanto ainda hoje os intérpretes Cristãos interpretaram este lugar de tal modo que nada quisessem que fosse detraído da presciência divina; mas, de qualquer modo que o tenham vertido, reconheceram e confessaram que nenhuma nova cognição pode propriamente aceder a Deus. Foi exposto este lugar principalmente de dois modos: alguns, com Agost. q. 58. In Geneſim, interpretam aquele conheci transitivamente por fiz conhecer, ידעתי por הודעתי, para que isso se refira tanto ao próprio Abraão quanto a Isaque, e aos outros a quem por este fato, sob a providência de Deus, se tornou conhecida a fé de Abraão; em que sentença esteve também Crisóstomo: νῦν φησὶν ἅπασιν ἔγνωρίσα ὅπως εἰλικρινῆ φόβον ἔχεις πρὸς τὸν θεὸν, por ti declarei, diz ele, e fiz saber a todos como com sincero temor colhes a Deus, pois ali mesmo adiciona: Eu conhecia o meu servo; as coisas que agora foram feitas por ti, são para instrução tanto dos presentes quanto dos futuros. Outros julgam ser melhor e menos forçado que isto se diga de Deus figuradamente e por ἀνθρωποπάθειαν [antropopatia], porque em todo este negócio se portou à maneira de um homem que tenta outro e busca experimento de uma alma latente: assim como, portanto, metaforicamente e figuradamente se diz que Deus tentou Abraão, do mesmo modo se diz que o conheceu pelo evento, porque este experimento eliciou a fé de Abraão. Assim, Deus nada mais quer senão que Abraão por este fato fizesse testificada diante de Deus e dos homens a sua fé e piedade, e que Deus a teve por grata e aceita, o que parece ser a sentença mais cômoda; pois, embora Deus não necessite de experimento, os homens não deixam de oferecer experimento de si a Deus, de onde aquele dito de Paulo: Estudamos para nos aprovarmos a Deus, 2. Cor. v. 9. Pois Deus, como se ama a si mesmo mui veementemente, não pode deixar de aprovar e beijar os lineamentos de sua imagem onde quer que os veja fulgir; assim, embora já conheça desde a eternidade todas as obras dos fiéis quanto à presciência e predestinação, conhece-as contudo peculiarmente pelo evento quanto à complacência e aprovação.

XXVI. Estabelecidas estas coisas, resolve-se facilmente toda a luta entre os Apóstolos; pois se Abraão é dito por Paulo Justificado pela fé sem as obras, deve ser entendida a Justificação da própria causa, enquanto pela fé somente, metonimicamente considerada, foi pronunciado justo diante de Deus e obteve a remissão dos pecados; mas o mesmo bem se diz justificado em Tiago pelas obras, e não somente pela fé, pela Justificação do efeito e do signo, enquanto as obras verdadeiramente declararam que ele era fiel e justificado; pois naquela declaração as obras devem intervir principalmente como argumentos pelos quais a coisa interna e latente no coração se patenteia e se discerne. Ademais, isto não pareceu apenas a nós: reconheceu-o o próprio Tomás no cap. III. epiſt. ad Gal. Lect. iv. onde, para conciliar Tiago com Paulo, diz: as obras não são causa de que alguém seja justo diante de Deus, mas são antes execuções e manifestações da justiça. O mesmo sentem Hugo Cardinal e Dioníſio Cartuxo, o que já a Gloſſa ordinária em Tiago II expressara com estas palavras: Abraão pelas obras que fez não foi justo, mas somente pela fé; mas a sua oblação é obra e testemunho da fé e da justiça.

XXVII. Belarmino, contudo, tem aqui também seus κρησφύγετα [refúgios], com os quais eluda a distinção posta; pretende, por certo, que a justificação em Tiago não pode ser tomada pela demonstração ou declaração da Justiça, mas pelo seu incremento. Primeiro, porque a fé se diz ter cooperado com as obras; ora, a fé, pela nossa hipótese, de modo algum coopera para a declaração da justiça, pois somente as obras nos justificam declarativamente, não a fé. Segundo, a fé pelas obras se diz consumada, vers. 22, o que não pode ser entendido em outro sentido senão que a Justiça, iniciada pela fé, recebeu incremento e perfeição pelas obras; de onde para Tiago a justificação não seria a declaração da justiça, mas o incremento. Terceiro, trata-se da justificação de Raabe, a meretriz, no vers. 25; mas é absurdo dizer-se que foi declarada justa aquela que era meretriz, mas dir-se-á verdadeiramente justificada, isto é, de infiel tornada fiel; Bellar. lib. iv. de juſtificatione c. 18.

XXVIII. Na verdade, é fácil reconhecer que estas cavilações são inanes para quem ponderar as palavras e o escopo do Apóstolo um pouco mais atentamente; pois na primeira, como já observado anteriormente, supõe-se gratuitamente que a fé se diz cooperar com as obras para a justificação, quando Tiago diz apenas que a fé cooperou com as obras, a saber, tanto para a bondade delas — visto que o que se faz sem fé é pecado — quanto para a manifestação sobre as obras, para que Abraão as prestasse e por elas a fé se revelasse exteriormente; pois se aquela fé não tivesse sido eficaz, jamais teria produzido uma obra de obediência tão insigne e rara. Ademais, se se indaga por que o Apóstolo disse antes συνεργεῖν [cooperar] do que o simples ἐνεργεῖν [operar]? A resposta pode ser dada facilmente: isto foi feito por ele porque lidava com hipócritas e Pseudo-Cristãos que pensavam que a única obra da fé fosse τὸ credere [o crer], quando o Apóstolo requer algo mais: não apenas o seu ato eliciado, que reside no crer e é somente da fé, mas também o seu ato imperado, que reside no operar e pertence também à caridade; pois a fé move a caridade para que opere bem, por isso é dita por ela ἐνεργουμένη [operante/eficaz], Gál. V. 6.

XXIX. À segunda: 1. peca-se por ignorância do elenco, pois Tiago não diz que a Justiça, mas que a fé foi consumada pelas obras; não disputamos aqui sobre o incremento ou perfeição da fé, a qual reconhecemos ter seus graus e progressos, mas sobre o aumento da justificação. Em que sentido, porém, as palavras do Apóstolo devam ser entendidas, não é difícil de compreender, se se distinguir a perfeição essencial e constitutiva da perfeição acidental declarativa. A primeira não pode ser entendida aqui, porque a fé a possui por sua própria forma interna; extrinsecamente, porém, ela não a toma de qualquer outra coisa, muito menos da caridade ou das obras que proficiscem da fé como de uma causa. Segundo, porque seguir-se-ia que a fé de Abraão, antes da imolação do filho, não teria sido formada, mas informe e imperfeita, a qual, por consequência, mesmo na mente dos adversários, não pode justificar; e contudo ele é dito justificado trinta anos antes da oblação do filho, e Paulo propõe aquela justificação como o exemplar perfeito da justificação comum a nós até o fim dos séculos. Terceiro, seguir-se-ia também que o início da justificação seria da graça de Deus, mas que a perfeição deveria ser adscrita aos méritos humanos; e assim nossa salvação não seria meramente gratuita, contra Paulo, Rom. III e IV e Efé. II; de onde se segue que se conota a outra perfeição, a saber, a declarativa, enquanto pela obra foi declarada verdadeira e sincera; pois que a εἰλικρινείαν [sinceridade] seja frequentemente denotada pela perfeição na escritura, é mais notório do que necessite de prova. Mat. V. 48; Coloss. IV. 12; e que a coisa se diz ser feita ou ser aperfeiçoada quando é declarada, ou quando se prova perfeita por algum testemunho; assim em 2. Cor. XII. 9: a virtude de Deus se aperfeiçoa na fraqueza, isto é, mostra-se e declara-se perfeita na fraqueza, como em um sujeito, não pela fraqueza como por um efeito; não que a potência de Cristo tome qualquer coisa de nossa fraqueza, mas porque nela se exerce. Assim em Tiago III. 2: homem perfeito se diz o que não tropeça na palavra, pois nisso não reside a perfeição senão como em um signo do qual ela pode ser deduzida. Assim a fé se diz ser aperfeiçoada pelas obras porque por elas se revela; como o ato primeiro é dito pelos Filósofos ser aperfeiçoado pelo ato segundo, como a volúpia é dita por Ariſt. Ethi. X. 4. aperfeiçoar a ação, mas ὡς ἐπιγιγνόμενόν τι τέλος [como um fim que acresce], como um fim que acede e demonstra a perfeição da ação; pois a fé é reconhecida como tanto mais perfeita quanto mais eficazmente exerce suas forças que antes assim apareciam; porque, como julgamos da causa pelos efeitos, parece que de algum modo a força da causa diminui ou aumenta pela proporção dos efeitos; mas isto se entende e se estima pelos efeitos, mas não nasce nem emana deles.

XXX. À terceira sobre Raabe, a meretriz. Primeiro, τὸ βίαιον [o forçado]: se Raabe se diz justificada pelas obras porque de infiel foi feita fiel, logo Tiago não fala do incremento da justiça, mas da primeira justificação; de outro modo, não teria sido feita fiel de infiel, mas de fiel, ou de justa, mais justa. Segundo, diretamente pela negação do antecedente: a saber, que Raabe não foi declarada justa por suas obras, mas de fato tornada; immo, como as obras seguem o justificado, não precedem o que há de ser justificado segundo Agostinho, e visto que nada de bom pode ser prestado senão pelo espírito, e o espírito não pode ser conferido senão por Deus aplacado e propício, jamais teria podido produzir aquelas obras de caridade e hospitalidade se já não estivesse justificada; de onde se deve estabelecer omnino que ela já antes, por peculiar impulso do Espírito Santo a partir dos rumores que percrebuíam sobre as admiráveis obras de Deus para com Israel e seus juízos sobre os inimigos, concebera a fé pela qual foi justificada, o que parece ser insinuado em Jos. II. 8-10, onde professa estar certamente persuadida de que Deus prometera aos Israelitas: sei, diz ela, que o Senhor vos entregou a terra, etc. Ouvimos que secou as águas do mar vermelho à vossa entrada, etc. O Senhor vosso Deus, ele é Deus nos céus acima e na terra abaixo. E que aquela fé foi confirmada pelos discursos dos exploradores, que sem dúvida lhe relataram mais clara e certamente todas estas coisas e maximamente as que pertenciam às promessas da graça feitas ao povo; para que ninguém, porém, julgasse inane aquela fé, demonstra que a provou por exímias obras de benevolência e hospitalidade ao ocultar e despedir pacificamente os exploradores, mesmo com seu próprio perigo; assim, por aquelas obras não foi constituída justa, pois já antes pela fé deveria ser justa — de outro modo não teria podido prestar a boa obra de ocultar e despedir os mensageiros — mas foi declarada justa, porque mostrou fora, por aquelas obras, sua fé e justificação. Terceiro, nem aqui pode obstar que se diga meretriz: pois, para que não digamos agora o que aprouve a alguns depois dos Judeus — que não era tanto chamada meretriz quanto Estalajadeira, como verte o Caldeu, porque זגה, que para os hebreus é prostituir-se, é também ser estalajadeira, talvez porque não raro estas duas coisas se conjuguem — como Tiago, seguindo a LXX, disertamente a chama de πόρνην [meretriz], não há dúvida de que foi verdadeiramente meretriz; mas assim não é chamada porque naqueles tempos em que era justificada pelas obras ainda fosse meretriz no sentido composto, mas καταχρηστικῶς, porque fora meretriz antes no sentido dividido, segundo o modo trito de falar da escritura, que, mudado o estado da coisa, costuma reter frequentemente o nome antigo; assim no Evangelho dizem-se os cegos ver, os coxos andar, isto é, aqueles que eram tais antes; assim Jerusalém é chamada Cidade cheia de juízo e Cidade fiel, Isa. I. 21 [sic], porque tal fora outrora; assim Mat. XXVII. 53; 2. Tess. II. 4 o Anticristo se diz que se assentará no Templo de Deus, que tal foi antes; assim se diz Virgem a que recentemente deixou de sê-lo, Joel I. 8: Chora como a Virgem cingida de saco sobre o marido de sua juventude, o que não pode ser entendido de uma não casada. Assim o Poeta disse de Pasifae sujeitada ao touro: Mas a Virgem infeliz, e Terêncio sobre a donzela desonrada: A Virgem chorando, a saber, que antes fora tal. Assim não é obscuro por que o Apóstolo quis designá-la por este nome por causa da distinção por conta do estado precedente, assim como usou este exemplo para amplificar a graça de Deus e remover toda exceção; pois porque a fé de Abraão, de que tratara anteriormente, poderia parecer extraordinária, e à qual porventura não fosse concedido a todos ascender, produz este exemplo de uma vil mulherzinha, que foi tanto Gentia quanto meretriz; pois se naquela a fé não careceu de suas obras, não devem os Cristãos ser cobertos de pudor jactando a fé sem obras? Assim novamente mostra que não há grau de fé, nem o sublime e excelso qual foi em Abraão, nem o ínfimo e tênue qual foi em Raabe, que não deva e não possa produzir alguns frutos de boas obras.

XXXI. Pelas quais coisas assim discutidas, já se torna plana e aberta a razão da conciliação: para que nenhum escrúpulo possa sobejar, deve-se distinguir IV. A própria pessoa que é justificada; pois, como o homem pode ser considerado sob uma dupla σχέσει [relação] — ou como pecador no estado da natureza, ou como chamado no estado da graça; ou como homem simplesmente que versa no mundo, ou como Cristão e professo da fé na Igreja — conforme este duplo estado do homem, institui-se um duplo juízo de Deus com ele: o primeiro é severo e rígido, de Deus como Juiz, pela lei; o segundo é mais brando e benigno, do mesmo como Pai, pelo Evangelho. A este duplo juízo também responde uma dupla justificação, não por certo no sentido Pontifício que antes refutamos, mas plenamente diverso. A primeira, do homem pecador e ímpio no estado da natureza, que seja por causa da única satisfação de Cristo apreendida pela fé; porque neste foro da justiça Divina não pode haver lugar para a aceitação gratuita, mas é necessária uma solução adequada; por isso, somente a justiça de Cristo, que é perfeitíssima e consumadíssima, pode suportar este exame; e porque somente a fé nasceu apta para receber e abraçar esta justiça, dizemos que somos justificados somente pela fé, sob este aspecto, como causa orgânica. A segunda justificação é a do homem chamado e fiel, já versando no estado da graça, pelas obras; pois neste juízo não se indaga se o homem satisfez a lei para que dela tenha a vida — pois isto no primeiro já se supõe feito, enquanto, a saber, absolve da maldição da lei de Deus o homem em si pecador e réu de morte eterna, por causa da justiça de Cristo pleníssima imputada a ele e apreendida pela fé, e lhe concede o direito à vida — mas indaga-se se o homem Cristão, que professa seu nome entre os fiéis, respondeu ao Evangelho e guardou verdadeiramente conjuntas as duas partes essenciais do pacto da graça que Deus requer do homem: a saber, a fé e as obras. Pois como Deus no novo pacto nos promete dois benefícios — de um lado a remissão dos pecados, que pende do dom do Filho; de outro a santificação, que é produzida pela operação do Espírito Santo, Hebr. X. 16, 17 — assim viciſſim exige de nós dois ofícios: a , pela qual recebamos a graça de Deus e o mérito de Cristo para nossa redenção, e a Caridade ou boas obras, pelas quais rendamos a Deus o devido culto e gratidão. Ora, assim como os dois benefícios que são prometidos por Deus são inseparáveis e unidos por um nexo indivisível — pois para quem Cristo é justiça, para esse também é Santificação; quem tem o Filho tem também o Espírito, e quem não tem o Espírito não tem o Filho, Rom. VIII. 9, conforme na SS. Trindade estas duas pessoas são inseparáveis — assim viciſſim devem estar conexos pelo vínculo mais estreito os ofícios do homem fiel, de modo que a fé nunca seja sem a caridade, nem a caridade sem a fé; pois tanto aquela sem esta é pecado, quanto esta sem aquela é morta; de onde nem uma nem outra possuem os que não possuem ambas, e perdem ambas os que não guardam qualquer uma. Neste juízo, portanto, que a partir do pacto da graça Deus institui com os chamados, ele indaga principalmente se verdadeiramente e sinceramente, se não perfeitamente, tiveram no coração a fé que professaram com a boca, e com a fé a caridade que é sua companheira inseparável. E se são depreendidos como tendo jactado falsamente a fé e a religião, são condenados pela lei Evangélica como Pseudocristãos e hipócritas que, tendo forma de piedade, contudo negaram sua eficácia pelos fatos e, separando estas duas partes do pacto, demonstraram que não possuíam verdadeiramente nenhuma; se, porém, são achados possuidores delas, são justificados pela mesma lei Régia, isto é, declarados e aprovados como verdadeiros fiéis e filhos de Deus que retêm ἀδιαιρέτως [indivisivelmente] o que Deus uniu. Para este exame, porém, são omnino necessárias as obras, como aquelas das quais somente, como de signos e efeitos certíssimos, pode-se demonstrar e provar a verdade e sinceridade da fé. A primeira justificação opõe-se à condenação geral do pecador; a posterior à condenação especial do hipócrita. Na primeira noção, justificar é absolver o homem pecador e ímpio, tal como ele é em si, sujeito à lei e réu de morte, por causa da justiça de Cristo a ele imputada; na posterior, porém, nada mais é do que aprovar, em juízo benigno e Paterno, o homem como fiel e filho de Deus, respondendo verdadeiramente ao pacto da graça pelo exercício da fé e das obras. Na primeira está a própria justificação propriamente aceita; naquela, apenas a declaração e manifestação da justificação. Assim Abraão foi justificado pela fé naquele primeiro juízo enquanto foi em si pecador e ímpio; mas o mesmo, já convertido e crente, foi justificado pelas obras, isto é, declarou-se pelas obras verdadeiramente fiel e por Deus foi reconhecido e aprovado no segundo.

XXXII. Sobre este posterior juízo, que diz respeito peculiarmente aos Cristãos e chamados, parece falar omnino Cristo em Mat. XXV. 31, 32, etc., naquela gráfica descrição do último juízo, como Agostinho observa no sermão 38 sobre os santos; pois, embora o extremo juízo sem qualquer dúvida vá ser universal, contudo pode-se mostrar por várias razões que aqui não se faz sermão sobre ele em toda a sua latitude, mas apenas relativamente àqueles que estão na Igreja. Primeiro, pela própria série da oração: assim como as duas parábolas precedentes, das Virgens e dos Talentos, referiam-se àqueles que eram chamados na Igreja, é verossímil que Cristo fale dos mesmos no mesmo fio de oração. Segundo, por Ezeq. XXXIV, lugar ao qual Cristo parece aludir, onde fala do juízo de Deus que deve ser exercido na Igreja: Eis que eu vou julgar, diz ele, vers. 17, entre as ovelhas pequenas, os carneiros e os bodes e cap. XX. 37: far-vos-ei passar sob a vara, como o pastor quando conta e reconhece o seu rebanho, e introduzir-vos-ei nos vínculos do pacto. Terceiro, porque aqui se faz menção apenas de Bodes e Ovelhas, que são animais domésticos, não porém de Lobos, Leões, Ursos e outras feras desse gênero às quais os ímpios costumam ser comparados, para que, a saber, se note que aqui se trata apenas do juízo daqueles que estão na casa de Deus, na sociedade externa da Igreja, não dos outros que permanecem fora dela. Quarto, porque a causa da condenação dos bodes é trazida como sendo esta: que não alimentaram e não visitaram a Cristo, etc., prestando obras de caridade e misericórdia para com os membros de Cristo; ora, os gentios aos quais jamais se tornou conhecido o Cristo, como poderiam ser condenados meritoriamente por isso? Serão condenados, por certo, por causa da lei da natureza violada que foi insculpada em seus corações; mas pelo defeito da fé ou da caridade para com Cristo, que lhes foi plenamente desconhecido, por direito não poderiam ser condenados. Portanto, resta que Cristo fale daqueles que ou foram recebidos na comunhão da Igreja e, professando a fé pela boca, negligenciaram o estudo das boas obras e nada retiveram dos Cristãos senão o nome e o título; ou daqueles que, respondendo sedulamente à vocação divina, conjugaram as obras da fé. Por isso as obras são aqui aduzidas pelo Juiz não como fundamentos do direito que obtêm à felicidade e à vida, pois a causa própria daquela fruição é indicada nas palavras precedentes, quando os chamou de benditos do pai, para os quais já estava preparado o reino desde a eternidade, e que por isso deviam κληρονομεῖν [herdar], isto é, obter pelo título de herança por serem filhos; mas são trazidas ao meio como argumentos e testemunhos claros e indubitados pelos quais poderia constar sobre a verdade da fé deles, e ao mesmo tempo também sobre a equidade da sentença proferida. Assim não são propostas como ποιητικὰ [efetivas], mas como σημαντικὰ [significativas]; e a partícula γὰρ [pois] não é causal, mas ratiocinativa; a qual não nota a causa eficiente ou meritória, mas a razão e o argumento pelo qual, a posteriori, algo se conhece; como frequentemente em outros lugares, Mat. XVI. 2, 3; 1. Cor. X. 5; causa não do consequente, mas da consequência; não da coisa em si, mas da manifestação e prova; pois, como bem diz Bernar., tract. de Grat. & lib. Arbi.: as obras são os seminários da esperança, os incentivos da caridade, os indícios ocultos da predestinação, os presságios da futura felicidade, o caminho para o reino, não a causa de reinar.

XXXIII. Expliquemos isto mesmo ainda mais claramente, se pudermos. É certo que a justificação se opõe à acusação, segundo o Apóst. Rom. VIII. 32; de quantos modos, portanto, podemos ser acusados diante de Deus, de tantos modos devemos também ser justificados. Ora, somos comummente urgidos por duas acusações principais: Primeiro, somos acusados de pecado e declarados réus da lei violada; Segundo, somos acusados de hipocrisia e de pacto Evangélico violado. Da primeira acusação somos justificados pela fé somente, porque somente a justiça de Cristo apreendida pela fé nos livra da maldição da lei. Da posterior somos justificados pelas obras, enquanto por elas a fé se demonstra ter sido verdadeira e sincera. Se, portanto, Satanás nos acusa diante de Deus e argui que somos pecadores e, por consequência, réus de morte, que podemos responder? Nada mais do que nossa fé, confessando que somos de fato pecadores e, portanto, réus de morte eterna em nós mesmos, mas que nos dá melhor esperança o dileto filho de Deus, nosso Redentor, em quem cremos; pois Ele foi feito κατάραν [maldição] e pecado por nós para que fôssemos bênção e justiça de Deus nele; assim, latentes sob o palio e escudo daquela justiça, nada temos a temer da ira de Deus, porque nenhuma condenação há para os que estão em Cristo pela fé. Ao que, se o Diabo objetasse: Assim é omnino; se creres verdadeiramente, serás salvo; mas por qual argumento provarás que creste verdadeiramente? Não foi porventura falsa e hipócrita a tua fé, que professava o nome de Cristo com a boca, mas o negava com os fatos? Que diremos para nos livrarmos desta nova criminação e deste dardo inflamado do Diabo? Não bastará trazer a fé ao meio, porque se indaga sobre a própria fé, mas já devem suceder as obras, com as quais, diante do Juiz Celeste, façamos testificada a verdade da fé, como por efeitos e argumentos indubitados a posteriori. Assim, A Fé justifica o homem, mas as Obras justificam a fé. Paulo, olhando para a primeira acusação, disse corretamente que o homem é justificado somente pela fé sem as obras; Tiago, porém, olhando para a outra, afirmou meritoriamente que se justifica pelas obras e não somente pela fé.

XXXIV. Donde finalmente concluímos que não há nesta parte qualquer σύῤῥαξιν [conflito] de Tiago com Paulo, mas suma concórdia. Pois, seja que se aplique distinção na voz da , seja no verbo justificar, seja no próprio homem, ou, o que preferimos, nestes três conjuntamente, eles consentirão amigavelmente entre si. Paulo fala do homem pecador no estado da natureza, Tiago do homem chamado e professo da fé no estado da graça. Paulo sobre a fé viva e eficaz, Tiago sobre a morta e ociosa. Paulo sobre a justificação primária e propriamente dita, que consiste na absolvição e remissão dos pecados; Tiago sobre a justificação secundária e menos própria, que versa na declaração e prova externa. Paulo quer que o homem pecador e ímpio seja justificado, isto é, verdadeiramente absolvido diante de Deus e pronunciado justo, somente pela fé sem as obras, isto é, por um único ato da fé apreendendo o mérito e a justiça de Cristo, o que afirma contra os Fariseus e Pseudo-Apóstolos que, tendo postergado a justiça de Deus, esforçavam-se por estabelecer sua própria justiça. A mente de Tiago, porém, é que o homem fiel e convertido seja justificado, isto é, declarado justo diante dos homens e provado por Deus no juízo paterno, não somente pela fé — isto é, pela fé morta e estéril — mas pela fé viva e eficaz que se exerça pelas boas obras, o que urge contra os profanos Pseudocristãos e hipócritas que versam na Igreja. Assim, como é veríssimo o effatum de Paulo, que o homem é justificado pela fé sem as obras, porque nada temos com que possamos estar diante do juízo de Deus além da justiça de Cristo que a fé contempla e a si aplica; a qual, como é de infinito valor e peso, pode sozinha satisfazer à justiça Divina e merecer a remissão dos pecados; assim é certíssimo o pronunciamento de Tiago, de que o Cristão verdadeiramente fiel e justificado é reconhecido demum pelas obras, porque são essenciais consecutivos dos quais, como de frutos, a árvore é conhecida, de modo que quem não tem obras nem tenha também a fé e a justificação, o que falsamente atribuíam a si mesmos aqueles contra quem Tiago disputa. Donde em Paulo temos argumentos de humildade contra o tipo da soberba Farisaica; em Tiago incentivos de Santidade contra a ímpia ἀσέλγειαν [licenciosidade] dos profanos. Assim, como somos obrigados a renunciar às obras que precedem a justificação, segundo a doutrina de Paulo; assim é justo estudar as que a seguem para o progresso da santimônia, segundo a mente de Tiago. Não se deve conjugar o que Deus dividiu, mas nem se deve dividir o que Deus conjugou. Separou a fé das obras no negócio da justificação; conjugou as obras com a fé na vida do justificado. Não podem co-efetuar a justificação, mas devem, contudo, coexistir no justificado; pois justifica pela fé só, mas não solitária. Portanto, abjetos todos os nossos trabalhos, busquemos unicamente em Cristo nossa justiça pela fé, para que não sejamos injustos para com o Seu mérito; mas para que não sejamos ingratos para com o Espírito, nunca sejamos lentos nas boas obras. Elas não podem obter a justificação a priori como méritos, mas podem declarar e provar a posteriori como τεκμήρια [provas]; não conduzem a adquirir a salvação, mas são omnino necessárias para possuí-la; são o caminho para o reino, não a causa de reinar. Sigamos, portanto, este caminho para que finalmente cheguemos à Pátria, o que faça o Clementíssimo Deus Pai, Filho e Espírito Santo, ao qual seja louvor e Glória pelos séculos dos séculos. Amém.

COROLÁRIOS.

I. A fé é melhor definida pela ignorância do que pelo conhecimento, como quer Bellar. l. 1. de Juſtifi. c. 7? N. II. Dão-se méritos quaisquer, seja de côngruo ou de condigno? N. III. Os sacramentos conferem a graça ex opere operato? N. IV. O Pedobatismo deve ser admitido e pode ser provado pela Escritura? Aff. V. Se Adão não tivesse pecado, jamais teria morrido? Aff. VI. Os primeiros Reformadores tiveram vocação legítima? Aff.