QUESTÃO XI.¶
Deve haver algum uso do testemunho dos sentidos nos Mistérios da fé, ou deve ele ser totalmente rejeitado? Afirmamos o primeiro; Negamos o segundo.
Estado da Questão. I. Esta questão nos é movida pelos Pontifícios, os quais, para invalidar o argumento que buscamos para impugnar a invenção da Transubstanciação e da Presença carnal de Cristo na Eucaristia, e para confirmar a verdade da substância do pão e do vinho a partir do Testemunho dos sentidos — visto que os sentidos nada veem, nada tocam e nada provam senão pão e vinho —, chegam ao ponto de dizer que o testemunho dos sentidos não deve ser ouvido nos Mistérios da fé, pelo fato de que os mistérios estão acima dos sentidos, e a fé consiste em crermos naquilo que não vemos.
II. Embora os Ortodoxos não queiram que os sentidos sejam ouvidos em todos os Mistérios, sustentam, contudo, que o seu testemunho deve ter o seu devido lugar quando se trata de coisas sensíveis e corpóreas que estão na esfera de sua atividade.
III. Para o estado da questão, deve-se observar que, assim como há três gêneros de coisas que podem ser conhecidas — umas que são pista (de fé), outras noeta (inteligíveis), outras aistheta (sensíveis) —, assim também há três faculdades que se ocupam delas: o sentido, a razão e a fé. O Sentido percebe as coisas sensíveis; a Razão, as coisas inteligíveis; a Fé, as espirituais e sobrenaturais. Assim como o sentido não arroga para si o juízo sobre as coisas que são objeto da razão, muito menos a razão e o sentido podem julgar sobre as coisas da fé; mas cada faculdade possui um objeto próprio sobre o qual versa, as quais, assim como não devem ser confundidas, também não devem ser opostas entre si.
IV. Não se pergunta, portanto, se o testemunho dos sentidos deve ser ouvido em toda parte, de modo a não concedermos nada exceto o que os sentidos podem captar; pois confessamos haver muitos mistérios aos quais a razão, e muito menos o sentido, não pode elevar-se, tais como os mistérios da Trindade, da Encarnação, etc. Mas pergunta-se: quando os sentidos julgam sobre seu objeto próprio e não saem de sua esfera, o seu testemunho deve ser rejeitado ou admitido? Pergunta-se: a fé se opõe ao juízo dos sentidos bem ordenado e o subverte? O que negamos.
V. Alguns mistérios da fé são meramente espirituais e postos muito acima do nosso alcance, como os mistérios da Trindade, da Encarnação, etc.; outros, porém, situam-se em coisas sensíveis e corpóreas, quer Deus as use como órgãos e meios para executar os seus desígnios, quer queira elevar-nos por meio delas a um conhecimento mais claro de mistérios mais sublimes, como são os milagres de Cristo, os tipos e figuras do Antigo Testamento e os Sacramentos do Novo. Os primeiros são propriamente objeto da nossa fé e de modo algum caem sob os sentidos; mas quanto aos segundos, nos quais a coisa espiritual se une à corpórea, a coisa espiritual permanece sempre objeto da fé, mas a coisa corpórea permanece objeto do sentido. Pergunta-se, portanto: a fé utiliza o testemunho dos sentidos em coisas corpóreas, por exemplo, quando julga sobre a substância do pão e do vinho na Eucaristia e sobre a ausência do Corpo de Cristo, ou ela o rejeita?
Prova-se o testemunho dos sentidos. VI. Que o testemunho dos sentidos não deve ser rejeitado, patenta-se: 1. Pelo exemplo de Cristo, que para provar a veracidade de seu Corpo após a ressurreição apela aos sentidos: vede e apalpai, Lc 24:39; o que ele não teria feito de modo algum se o testemunho deles fosse enganoso e duvidoso. Assim também o Anjo utiliza este argumento em Mt 28:6: Não está aqui, mas ressuscitou; vede o lugar onde jazia; e em Atos 1, os Apóstolos usam a mesma prova ao prometerem o retorno de Cristo do mesmo modo como partiu; assim também em 1 Jo 1:1-2 e 2 Pe 1:16-17, fundamentam a razão principal da verdade e da Divindade do Evangelho sobre o testemunho dos sentidos. 2. Porque Deus utiliza a pregação da Palavra e a contemplação das obras para nos conduzir à fé; ora, é certo que esses meios pressupõem não apenas o uso dos sentidos, sem cujo ministério tanto a Palavra quanto as obras de Deus nos seriam desconhecidas, mas também a fidelidade e a verdade do testemunho deles; pois se os sentidos pudessem falhar, que certeza poderia ser gerada em nós, seja pela Palavra, seja pelas obras de Deus? 3. O Espírito Santo utiliza as operações dos sentidos para descrever as ações do intelecto, como a visão, a audição, o paladar, etc.; o que não poderia ser feito se o testemunho do sentido não fosse certo e firme. 4. A fidelidade de Deus não permite crermos que Deus quis iludir os homens, remetendo-os a um testemunho que pudesse enganar e falhar.
Fontes das Soluções. VII. Embora os sentidos não sejam absolutamente infalíveis, não se segue que o seu testemunho deva ser nulo; pois há várias condições que, uma vez estabelecidas, garantem que os sentidos não se enganem: 1. Que o objeto esteja na distância devida. 2. Que o meio seja puro e imune de tudo o que pudesse corromper a imagem. 3. Que o órgão esteja legitimamente disposto. 4. Que todos os sentidos, ao menos aqueles que podem conhecer determinado objeto, sejam consultados e façam o mesmo juízo. 5. Que os sentidos ajam atentamente e não precipitadamente; do contrário, podem ser enganados. 6. Que a fantasia esteja livre e que nela não haja frenesi ou febre; do contrário, costuma ocorrer que creiamos ver e ouvir aquilo que, contudo, não vemos nem ouvimos. Se atentarmos para todas essas condições, ficará claro que todas concorrem no testemunho sobre a verdade da substância do pão e do vinho na Eucaristia, de modo que por nenhuma razão ele pode ser enganoso ou posto em dúvida.
VIII. Não se pode dizer que houve ilusão dos sentidos: Nem em Maria Madalena, que creu ser Cristo o jardineiro (Jo 20:15), pois foi enganada pela precipitação do juízo, o qual corrigiu imediatamente quando, vindo os ouvidos em socorro dos olhos, reconheceu pela voz que era o Salvador. Nem nos discípulos de Emaús (Lc 24:16, 31), que não reconheceram Cristo, pois isso atesta que o conhecimento deles era imperfeito e obscuro, mas não falso, visto que acreditavam ser um homem verdadeiro quem caminhava com eles, embora não pensassem ser Cristo. Nem nos Anjos que apareceram sob forma humana; pois, embora não fossem homens verdadeiros, eram corpos verdadeiros (e não fantasmas) sob os quais apareciam, e neles sempre havia algo pelo qual se podia discernir que não eram meros homens, mas que havia algo sobrenatural, como era aquele esplendor que os cercava, conforme visto no Anjo que anunciava o nascimento de Cristo, e as vestes resplandecentes sob as quais apareciam os Anjos testemunhas da ressurreição de Cristo; de modo que não era difícil aos sentidos e à razão fazerem um juízo reto sobre eles. E se alguns foram enganados, como é crível que tenha ocorrido não raras vezes, o erro não partiu do objeto, que se manifestava suficientemente, mas do sujeito e do princípio do juízo dos sentidos.
IX. Uma coisa é ser atingido por Deus com um escotoma para que não se veja um objeto correta e claramente; outra coisa é enganar os sentidos bem constituídos no testemunho que dão sobre um objeto próprio e bem disposto. O primeiro se diz dos Sodomitas (Gn 19:11) e dos soldados sírios (2 Reis 6:18), que não podiam encontrar a porta de Ló nem reconhecer a cidade de Samaria; mas não o segundo.
X. Se Cristo passou pelo meio da multidão que o queria precipitar do monte (Lc 4:30), nem por isso se deve crer que ele tornou o seu Corpo invisível e imperceptível aos sentidos; mas sim que se escondeu na multidão para se subtrair ao furor deles, quer os tenha atingido com um escotoma, quer tenha subitamente acalmado ou reprimido o furor deles, como querem Ambrósio e Beda.