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QUESTÃO II.

Se a Teologia existe, e de quantas espécies é?

Prova-se que a TEOLOGIA existe. I. Muitos argumentos provam a existência da Teologia: 1. A Natureza e a Bondade de Deus, que, sendo sumamente bom, é maximamente comunicativo de si mesmo; ora, Ele não se comunica à criatura racional de modo mais proveitoso e conveniente à natureza humana do que pelo conhecimento e amor de si. 2. O consenso dos povos e o afeto inato a todos de conhecer a Deus, o qual não pode ser vão; pois, embora tenham se desviado torpemente da verdadeira Teologia, comprovaram que ela existe ao buscá-la. Por isso, nenhuma nação foi jamais encontrada tão bárbara que não tivesse seus hierofantes, que se ocupassem em conhecer e ensinar as coisas divinas. 3. O fim da Criação; pois Deus criou as criaturas racionais para que por elas fosse reconhecido e celebrado, o que não pode ocorrer sem a Teologia. 4. A natureza da coisa, porque aqui ocorrem as duas coisas que se requerem para a constituição de uma disciplina: τὸ γνωστὸν ou o objeto cognoscível, e τὸ γνωστικὸν ou o sujeito cognoscitivo — a saber, Deus, o τῶν ἐπιστητῶν ἐπιστητότατον [o mais cognoscível dos cognoscíveis], e as criaturas racionais dotadas de intelecto para conhecê-lo. 5. A necessidade da salvação; pois, como o homem é ordenado a um fim sobrenatural, é necessário que lhe seja dado um meio sobrenatural pelo qual alcance esse fim, o qual não é outro senão a fé, que necessariamente infere o conhecimento de Deus.

II. Embora todos os entes sejam tratados nas disciplinas filosóficas, não são tratados segundo tudo o que deles se pode conhecer, mas apenas segundo aquilo que deles se pode perceber naturalmente; por isso, da amplitude do objeto filosófico não se infere nenhum prejuízo à Teologia sobrenatural, que trata de certos entes não enquanto conhecidos pela natureza, mas enquanto conhecidos pela revelação. 2. Embora todos os entes naturais sejam transmitidos nas ciências inferiores, não se retira, contudo, a necessidade da Teologia, onde se ensinam vários mistérios sobrenaturais aos quais nenhuma ciência humana jamais atingiu.

III. Ainda que o sentido não necessite de nenhum conhecimento sobrenatural para sua perfeição, não se segue que o intelecto também não necessite, porque o intelecto é ordenado a um fim sobrenatural que excede a compreensão da razão, o que o sentido minimamente faz. Embora essa indigência do intelecto seja uma nota de imperfeição em relação ao fim ainda não alcançado, e como se significa a ausência do fim, todavia também designa uma perfeição em relação à capacidade de obter o fim.

IV. A Metafísica é a ciência suprema na ordem natural, mas reconhece a Teologia como superior a si na ordem sobrenatural. Quanto ao que dizem os filósofos, que as ciências se distinguem por maior ou menor abstração, e que, portanto, a ciência que mais se abstrai da matéria, como a Metafísica, é superior a todas, deve-se entender isso das ciências meramente teóricas e que versam apenas sobre coisas universais, e que são da ordem natural; pois estas constituem para si o seu objeto pela abstração da mente, e quanto maior a abstração que utilizam, tanto mais superiores são. Mas isso não pode ser aplicado à Teologia, que é mista de teoria e prática, que é superior a toda ordem natural, e não constitui para si o seu objeto por alguma abstração, mas o recebe já constituído e distinto da Revelação.

De quantas espécies é a TEOLOGIA. V. A Teologia costuma ser distinguida de diversos modos. 1. Em verdadeira e falsa. A falsa e assim chamada equivocadamente, que é a doutrina errônea sobre Deus e seu culto, é variada. Primeiro, a dos Gentios, que consta ter sido múltipla; por isso Platão, no livro 2 da Rep., estabeleceu aquela dupla: συμβολικὴν [simbólica], ou seja, as ideias que estavam contidas implicadas em invólucros de sinais, sob os quais era costume dos gentios, especialmente dos egípcios, ensinar os mistérios divinos; e Φιλοσοφικὴν [filosófica] ou ἀποδεικτικὴν [demonstrativa], que se ocupava na meditação das coisas divinas. Varro, em Agostinho, livro VI da Cidade de Deus, cap. 5, e livro VIII, cap. 1, faz uma tríplice: μυθικὴν [mítica] ou fabulosa dos poetas, que era destinada às cenas e teatros; πολιτικὴν [política] ou civil dos sacerdotes e do povo, que era exercida publicamente nos templos, conforme os ritos de cada cidade e nação; e Φυσικὴν [física] ou natural dos filósofos, que era ensinada nas escolas. Por isso, tanto os poetas, devido aos θεολογουμένους μύθους [mitos teologizados], quanto os filósofos e sacerdotes foram chamados de teólogos em Justino, Exort. aos Gregos, e Clemente de Alexandria, Strom. 5; a parte principal da teologia deles, contudo, foi a exposição da θεογονίας [teogonia], porque pensavam que os deuses haviam sido gerados. Segundo, a dos Infiéis e Heréticos, que ou rejeitam Cristo plenamente, como os judeus, maometanos, etc., ou que retêm o nome de Cristo, mas combatem a Palavra de Deus em pontos fundamentais, como é a teologia dos pontifícios, socinianos e outros heréticos desse gênero. Pois, embora a teologia deles tenha algo de verdadeiro, contudo, por ser em sua maior parte falsa e pecar em pontos fundamentais, é corretamente chamada de falsa, denominação feita pela parte predominante.

VI. A Teologia verdadeira distribui-se: 1. em infinita e incriada, que é tanto o conhecimento essencial de Deus sobre si mesmo (Mt 11:27), no qual somente Deus é simultaneamente ἐπιστητὸν, ἐπιστήμων, et ἐπιστήμη [o objeto do conhecimento, o conhecedor e o conhecimento], quanto aquilo que Ele decretou revelar-nos de si mesmo, a qual vulgarmente se chama Arquétipa; e finita e criada, que é a efígie daquela infinita e πρωτότυπον [prototípica], e é ἔκτυπον [éctipa], a saber, a notícia das criaturas sobre Deus e as coisas divinas, formada por aquela suprema e comunicada às criaturas inteligentes: ou pela união hipostática da alma de Cristo, de onde nasce a Teologia da União; ou pela visão beatífica aos anjos e bem-aventurados, que não caminham pela fé, mas pela visão, a qual se chama Teologia da Visão; ou pela revelação que se faz aos viandantes, a saber, àqueles que ainda não chegaram à meta, e se chama Teologia da Revelação, ou do Estádio.

VII. Segundo, a Teologia da revelação divide-se novamente em natural e sobrenatural. A natural versa sobre o τὸ γνωστὸν τοῦ Θεοῦ [o que de Deus se pode conhecer], sendo ora inata, a partir das noções comuns impressas em cada um, ora adquirida, a partir do discurso pelas criaturas; a qual em Adão íntegro foi extraordinária, mas no homem corrompido é perturbadíssima. A sobrenatural é a que transcende nossa razão e nos é comunicada por Deus por uma nova luz da graça, para que cheguemos à fruição do sumo bem; a qual foi revelada tanto aos patriarcas, antes e depois do dilúvio, quanto transmitida por Deus ao povo israelita por meio de Moisés, e se diz do Antigo Testamento; ou do N. T., que se chama peculiarmente Cristã, porque tem Cristo como autor e objeto, procede de Cristo (Jo 1:18) e trata de Cristo (At 1:1; 1 Cor 2:2); e chama-se estritamente Revelada, porque seu princípio é a Revelação divina estritamente tomada, feita pela Palavra, não pelas criaturas.

VIII. A Teologia sobrenatural considera-se: ou sistematicamente, enquanto denota o corpo da doutrina salvífica sobre Deus e as coisas divinas expressa na Escritura, ao modo de uma disciplina disposta em seus preceitos por um método certo, a qual se chama tanto abstrativa quanto objetiva; ou habitualmente e ao modo de um hábito que reside no intelecto, e chama-se concretiva e subjectiva. Por sua vez, a Teologia habitual ou é o hábito dos princípios, pelo qual cada fiel percebe coisas alheias e remotas à razão, ou o hábito das conclusões, pelo qual, a partir dos princípios conhecidos pela luz da fé, explicamos e confirmamos a doutrina salvífica.

IX. Assim como se dão três escolas de Deus — da Natureza, da Graça e da Glória — e três livros — das Criaturas, da Escritura e da Vida — assim a Teologia costuma ser distinguida em três partes, de modo que a primeira seja a natural, a segunda a sobrenatural, a terceira a beatífica; a primeira pela luz da razão, a segunda pela luz da fé, a terceira pela luz da glória: aquela é a dos homens no mundo, esta a dos fiéis na Igreja, aquela outra a dos bem-aventurados no céu.

Unidade da TEOLOGIA. X. Embora a Teologia trate de diversas coisas e pertencentes a diversas ciências, não deixa de ser uma, porque trata delas sob a mesma razão formal, enquanto são coisas divinas reveladas a nós pela Palavra de Deus. A unidade da doutrina depende da unidade do objeto, não considerado materialmente, mas formalmente. Por isso, se outras disciplinas tratam de vários conteúdos da Teologia, não tratam deles do mesmo modo, nem sob a mesma razão formal; pois a Teologia trata deles enquanto nos são revelados pela Palavra de Deus. Além disso, ela os considera segundo as causas remotas — a saber, a causa eficiente primeira de onde provêm, e o fim último ao qual se referem — não as causas próximas; e segundo os acidentes sobrenaturais, não os naturais.

XI. Uma coisa é a Teologia ser uma quanto à substância e gênero de doutrina, outra coisa é quanto ao modo de tratar; no sentido posterior, pode-se dizer que é múltipla conforme o vário παιδείας τρόπον [modo de ensino] segundo o qual pode ser transmitida, e assim distribui-se em Didática, Problemática, Elêntica, Casuística, etc.; mas no sentido anterior não é, nem pode ser múltipla, porque um só e o mesmo gênero de doutrina é sempre nela transmitido.

XII. Daqui também fica claro que ela pode diferir segundo o mais e o menos, quanto aos vários graus de revelação, conforme seja ou mais obscura sob o Antigo Testamento, ou mais clara sob o Novo, ou mais perfeita ou imperfeita conforme a condição dos sujeitos; mas daí não se segue que ela difira quanto à espécie, porque a mesma substância da doutrina é mantida em ambos os casos, assim como Cristo é o mesmo ontem, hoje e eternamente (Hb 13:8).

XIII. A Teologia não perde sua Unidade embora seja dita em parte teórica, em parte prática; porque qualquer ciência é dita uma não por unidade simples e absoluta, que se chama unidade numérica e individual — como se fosse uma qualidade única e simples, por exemplo, a brancura na parede — mas por unidade agregativa, que se chama unidade de coleção, a saber, na medida em que muitos hábitos especiais se fundem e se ordenam para constituir um hábito total de ciência. Assim, a Imagem de Deus é uma, embora compreenda a renovação da mente e dos afetos, e o Livre-Arbítrio é um, embora esteja situado no intelecto e na vontade.