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QUESTÃO VI.

SOBRE O GÊNERO DA TEOLOGIA.

Qual seria o Gênero da Teologia?

O Gênero da TEOLOGIA Sistemática é a Doutrina. I. A Teologia é considerada ou Sistematica e Objetivamente, por modo de disciplina, ou habitualmente e subjetivamente, por modo de hábito residente no intelecto. No primeiro sentido, nenhum outro gênero lhe pode ser atribuído com maior precisão do que Doutrina, pois é ensinada por Deus e aprendida na Igreja. Mas trata-se de uma doutrina antonomasticamente tal, em muito superior a toda doutrina humana, tanto em razão da origem, quanto em razão da matéria, da forma e do fim. Assim ela é descrita passim na Escritura por δογμᾶ [dogma] em João vii. 17; 1 Tim. iv. 6 e vi. 3; por τύπον ἀδιδασχῆς [forma de doutrina] em Rom. vi. 17, tal como no Antigo Testamento תמ [Thora] designa toda a doutrina da salvação. No segundo sentido, ela é bem descrita por algum hábito da mente.

Qual hábito lhe deve ser atribuído. II. Para que melhor se discirna qual hábito da mente lhe deve ser atribuído, deve-se observar que todo hábito da mente é ou hábito de saber, ou hábito de crer, ou hábito de opinar; visto que são três os assensos da mente aos quais se ordenam: o ato de saber, de crer e de opinar. Pois todo assenso da mente ou se apoia no testemunho, ou na razão; se se apoia no testemunho, é Fé; se se apoia em razão certa e sólida, é Ciência; se apenas provável, é Opinião.

De onde se originou a quíntupla distinção dos hábitos. III. O hábito de saber, enquanto se opõe ao hábito de crer e de opinar, compreende em si cinco hábitos intelectuais enumerados por Aristóteles no livro 6 da Ética: Inteligência, Ciência, Sabedoria, Prudência e Arte; pois nesse caso é tomado latamente por qualquer conhecimento habitual certo e evidente, seja ele sobre coisas necessárias e especuláveis, seja sobre coisas contingentes e práticas. Esta quíntupla distinção nasce da quíntupla variedade de objetos sobre os quais a mente se ocupa. Pois ou ela versa sobre coisas necessárias, que são ou os Princípios aos quais assentimos espontaneamente sem demonstração — e o conhecimento destes chama-se Inteligência — ou as Conclusões às quais assentimos pela Demonstração — que constituem a Ciência — ou as Conclusões conjuntadas com os Princípios — que exprimem a Sabedoria; ou versa sobre coisas contingentes, as quais, novamente, ou são πεφασθά [ações], cujo fim não é outro senão a própria πρᾳγμα [ação], sobre as quais versa a Prudência; ou são τοιαῦτα [produções], que têm por fim a produção, nas quais a Arte se ocupa.

A nenhum hábito se refere propriamente. IV. Nenhum dos hábitos intelectuais, tal como são tratados na Ética e contradistinguidos entre si, pode constituir o gênero verdadeiro e próprio da Teologia, porque: 1. Todos esses hábitos são hábitos de saber, mas a Teologia não é um hábito de saber, mas de crer. 2. São hábitos naturais, inventados e cultivados pela engenhosidade dos homens; mas a Teologia é sobrenatural e θεόδοξος [divinamente ensinada], cujo princípio não é a razão humana, mas a revelação divina. 3. São todos ou puramente Teóricos ou puramente Práticos, mas a Teologia é de gênero misto, partim Teórica, partim Prática.

V. Especificamente, a Teologia não pode ser Inteligência, porque esta é apenas o conhecimento dos princípios, não das conclusões; mas a Teologia é o conhecimento tanto dos princípios quanto das conclusões. Além disso, a Inteligência versa sobre princípios conhecidos pela natureza e claros por sua própria luz; mas a Teologia versa sobre princípios revelados pela Palavra de Deus. Não é Ciência, porque não se apoia na evidência da razão, mas apenas no testemunho; nem repousa no conhecimento, mas o dirige e ordena para a operação. Não é Sabedoria, porque dela se negam todas as partes da Sabedoria [aristotélica], a saber, a inteligência de princípios per se conhecidos e o conhecimento de conclusões [demonstrativas]. Não é Prudência, porque não trata apenas do que deve ser feito, mas também do que deve ser crido, e é uma virtude diretiva de ações espirituais, não civis. Não é, enfim, Arte; porque não é um hábito efetivo e daquelas coisas que se terminam em alguma obra exterior ao agente.

Contudo, contém todos eminentemente. VI. Embora a Teologia não possa ser chamada propriamente e estritamente de nenhum desses hábitos, contudo diz-se corretamente que ela os inclui todos em si de modo eminente; pois, enquanto trata de Deus como causa suprema, assemelha-se à Sabedoria; enquanto contém princípios, à Inteligência; enquanto demonstra conclusões, à Ciência; enquanto dirige as ações, à Prudência; e enquanto é edificativa da Igreja, à Arte. Daí que na Escritura lhe são atribuídos promiscuamente os termos Inteligência, Sl. cxix. 22, 34; Ciência, Sl. cxix. 66; Is. v. 13; Sabedoria, 1 Cor. ii. 6, 7; Prudência, Sl. cxix. 110, e passim no livro de Provérbios, caps. 1, 2, 3, 4, 5; e de Arte, quando a Doutrina da fé é chamada de obra e edifício que devemos construir, 1 Cor. iii. 11; 2 Cor. vi. 1.

Dentre todos, a Sabedoria é o que mais lhe convém ser atribuído. VII. Se algum gênero dentre esses hábitos deve ser atribuído à Teologia, a Sabedoria é o que lhe é mais análogo e que mais se aproxima de sua natureza; não no sentido aristotélico preciso — pois assim não difere muito da Inteligência e da Ciência — mas antes no sentido dos Estoicos, como uma coleção de todos os hábitos, tanto especulativos quanto morais, conforme Estobeu, Serm. 1, sobre a Virtude. De onde Suidas diz que a Sabedoria é ἐπιστήμην ῥηθὼν καὶ τὴν τέχνην καὶ φρόνησιν, καὶ ἐπιστήμην, καὶ νοῦν [o conhecimento das coisas ditas, e a arte, e a prudência, e a ciência, e o intelecto]. Assim, frequentemente na Escritura a doutrina da fé é designada pelo nome de Sabedoria, como no livro de Provérbios e em 1 Cor. ii. 6, 7, etc. E a razão o demonstra: 1. porque a Sabedoria é a ciência das coisas mais excelentes; ora, a Teologia trata de Deus e de suas obras, e de nossa felicidade eterna, que são em absoluto as coisas mais excelentes, das quais trata do modo mais excelente, não pela razão, mas pela revelação divina. 2. A Sabedoria é uma disciplina Arquitetônica, que comanda todas as outras e as dirige; ora, isso é o que há de mais próprio na Teologia, que é de tal modo árbitra e senhora de todas, que julga sobre elas, e ela mesma por nenhuma outra ciência é julgada; pois todas as outras disciplinas devem ser examinadas segundo o seu prumo, de modo que tudo o que nelas não estiver em harmonia com a Teologia seja rejeitado. Assim, embora não prescreva os princípios e objetos às outras disciplinas, contudo domina sobre elas, pois lhes impõe limites, para que nem ousem estabelecer algum objeto contra a Teologia, nem usem seus princípios contra ela; e também em razão do fim último, a saber, a glória de Deus, o qual, embora não o alcancem imediatamente, devem, contudo, dirigir-se para ele.

VIII. Se a Teologia toma certas coisas de outras disciplinas, não o pede a elas como um inferior a superiores, mas como um superior a inferiores, como uma senhora que usa livremente de suas servas; e não tanto toma de outras, quanto pressupõe certas noções prévias sobre as quais sobrepõe a revelação.