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Apêndice 3: O QUE É O PRESBITERIANISMO? por Charles Hodge


IRMÃOS: — Estamos reunidos esta noite como uma Sociedade Histórica Presbiteriana. Ocorreu-me que não seria inapropriado discutir a questão: O que é o Presbiterianismo? Vocês não esperarão de mim uma oração. Meu objetivo não é nem o convencimento nem a persuasão, mas a exposição. Proponho ocupar a hora dedicada a este discurso na tentativa de desdobrar os princípios daquele sistema de governo eclesiástico que nós, como presbiterianos, cremos estar estabelecido na palavra de Deus.

Deixando de lado o Erastianismo, que ensina que a Igreja é apenas uma forma do Estado; e o Quakerismo, que não prevê a organização externa da Igreja, existem apenas quatro teorias radicalmente diferentes sobre o assunto do Governo Eclesiástico.

  1. A teoria Papista, que pressupõe que Cristo, os Apóstolos e os crentes constituíram a Igreja enquanto nosso Salvador estava na terra, e esta organização foi projetada para ser perpétua. Após a ascensão de nosso Senhor, Pedro tornou-se seu Vigário e tomou seu lugar como o chefe visível da Igreja. Este primado de Pedro, como o Bispo universal, continua em seus sucessores, os Bispos de Roma; e o apostolado é perpetuado na ordem dos Prelados. Como na Igreja Primitiva, ninguém poderia ser um apóstolo que não estivesse sujeito a Cristo, assim agora ninguém pode ser um Prelado que não esteja sujeito ao Papa. E como então ninguém poderia ser um cristão que não estivesse sujeito a Cristo e aos apóstolos, assim agora ninguém pode ser um cristão que não esteja sujeito ao Papa e aos Prelados. Esta é a teoria romana da Igreja. Um Vigário de Cristo, um Colégio perpétuo de apóstolos e o povo sujeito ao seu controle infalível.
  2. A teoria Prelática pressupõe a perpetuidade do apostolado como o poder governante na Igreja, que, portanto, consiste naqueles que professam a verdadeira religião e estão sujeitos aos bispos-apóstolos. Esta é a forma Anglicana ou "High-Church" (Igreja Alta) desta teoria. Em sua forma "Low-Church" (Igreja Baixa), a teoria prelatica simplesmente ensina que havia originalmente uma ordem tríplice no ministério, e que deve haver agora. Mas ela não afirma que esse modo de organização seja essencial.
  3. A teoria Independente ou Congregacional inclui dois princípios; primeiro, que o poder governante e executivo na Igreja está na irmandade; e segundo, que a organização da Igreja é completa em cada assembleia de adoração, que é independente de todas as outras.
  4. A quarta teoria é a Presbiteriana, que é nossa tarefa atual tentar desdobrar. As três grandes negações do presbiterianismo — isto é, os três grandes erros que ele nega são: 1. Que todo o poder da igreja reside no clero. 2. Que o ofício apostólico é perpétuo. 3. Que cada congregação cristã individual é independente. A afirmação positiva desses princípios é: 1. Que o povo tem direito a uma parte substantiva no governo da Igreja. 2. Que os presbíteros, que ministram na palavra e na doutrina, são os oficiais permanentes mais elevados da Igreja, e todos pertencem à mesma ordem. 3. Que a Igreja externa e visível é, ou deve ser, uma, no sentido de que uma parte menor está sujeita a uma maior, e uma maior ao todo. Não é a adesão a um desses princípios que torna um homem presbiteriano, mas a adesão a todos eles.

I.

O primeiro desses princípios refere-se ao poder e aos direitos do povo. Quanto à natureza do poder da Igreja, deve-se lembrar que a Igreja é uma teocracia. Jesus Cristo é o seu chefe. Todo o poder deriva dele. Sua palavra é nossa constituição escrita. Todo o poder da Igreja é, portanto, propriamente ministerial e administrativo. Tudo deve ser feito em nome de Cristo e de acordo com suas instruções. A Igreja, entretanto, é uma sociedade autogovernada, distinta do Estado, tendo seus oficiais e leis e, portanto, um governo administrativo próprio. O poder da Igreja refere-se: 1. A questões de doutrina. Ela tem o direito de apresentar uma declaração pública das verdades em que crê e que devem ser reconhecidas por todos os que entram em sua comunhão. Isto é, ela tem o direito de redigir credos ou confissões de fé, como seu testemunho da verdade e seu protesto contra o erro. E como ela foi comissionada para ensinar todas as nações, ela tem o direito de selecionar professores, de julgar sua aptidão, de ordená-los e enviá-los ao campo, e de chamá-los de volta e depô-los quando infiéis. 2. A Igreja tem o poder de estabelecer regras para a ordenação do culto público. 3. Ela tem o poder de fazer regras para o seu próprio governo; tais como cada Igreja tem em seu Livro de Disciplina, Constituição ou Cânones, etc. 4. Ela tem o poder de receber em comunhão e de excluir os indignos de sua própria comunhão.

Agora, a questão é: Onde reside esse poder? Ele pertence exclusivamente ao clero, como afirmam romanistas e prelatistas? Têm eles o direito de determinar pela Igreja o que ela deve crer, o que ela deve professar, o que ela deve fazer e a quem ela deve receber como membros e a quem deve rejeitar? Ou este poder reside na própria Igreja — isto é, em todo o corpo dos fiéis? Isto, perceber-se-á, é uma questão radical — que toca a essência das coisas e determina o destino dos homens. Se todo o poder da Igreja reside no clero, então o povo está praticamente obrigado à obediência passiva em todos os assuntos de fé e prática; pois todo direito de julgamento privado é então negado. Se reside em toda a Igreja, então o povo tem direito a uma parte substantiva na decisão de todas as questões relativas à doutrina, culto, ordem e disciplina. A afirmação pública deste direito do povo, na época da Reforma, despertou toda a Europa. Foi uma trombeta apocalíptica, i.e., uma trombeta de revelação, tuba per sepulchra sonans, chamando almas mortas para a vida; despertando-as para a consciência do poder e do direito; de um poder que confere direito e impõe a obrigação de afirmá-lo e exercê-lo. Este foi o fim da tirania da Igreja em todos os países verdadeiramente protestantes. Foi o fim da teoria de que o povo estava obrigado à submissão passiva em questões de fé e prática. Foi a libertação do cativo, a abertura da prisão para os que estavam presos; a introdução do povo de Deus na liberdade com que Cristo nos libertou. Esta é a razão pela qual a liberdade civil segue a liberdade religiosa. A teoria de que todo o poder da Igreja reside em uma hierarquia divinamente constituída gera a teoria de que todo o poder civil reside, por direito divino, em reis e nobres. E a teoria de que o poder da Igreja reside em toda a congregação de crentes é o germe da doutrina de que o poder civil reside no povo. Essas teorias Deus uniu, e nenhum homem pode separá-las. Foi, portanto, por um instinto infalível que o infeliz Carlos da Inglaterra disse: "Sem bispo, sem rei"; com o que ele queria dizer que se não houver poder despótico na Igreja, não pode haver poder despótico no Estado; ou, se houver liberdade na Igreja, haverá liberdade no Estado.

Mas este grande princípio protestante e presbiteriano não é apenas um princípio de liberdade, é também um princípio de ordem. 1º. Porque este poder do povo está sujeito à autoridade infalível da palavra; e 2º. Porque o exercício dele está nas mãos de oficiais devidamente constituídos. O presbiterianismo não dissolve os laços da autoridade e resolve a Igreja em uma turba. Embora libertada da autoridade autocrática da hierarquia, ela permanece sob a lei de Cristo. Ela é restrita no exercício de seu poder pela palavra de Deus, que dobra a razão, o coração e a consciência. Nós apenas deixamos de ser servos de homens para sermos servos de Deus. Somos elevados a uma esfera superior, onde a liberdade perfeita se funde na submissão absoluta. Como a Igreja é o conjunto de crentes, existe uma analogia íntima entre a experiência do crente individual e da Igreja como um todo. O crente deixa de ser servo do pecado para ser servo da justiça; ele é redimido da lei para ser servo de Cristo. Assim, a Igreja é libertada de uma autoridade ilegítima, não para que seja sem lei, mas sujeita a uma autoridade legítima e divina. Os Reformadores, portanto, como instrumentos nas mãos de Deus, ao libertarem a Igreja da servidão aos prelados, não a tornaram uma multidão tumultuada, na qual cada homem era uma lei para si mesmo, livre para crer e livre para fazer o que quisesse. A Igreja, em todo o exercício do seu poder, em referência à doutrina ou à disciplina, atua sob a lei escrita de Deus, conforme registrada em sua palavra.

Mas, além disso, o poder da Igreja não é apenas assim limitado e guiado pelas Escrituras, mas o exercício dele está nas mãos de oficiais legítimos. A Igreja não é uma vasta democracia, onde tudo é decidido pela voz popular. "Deus não é autor de confusão, mas de paz (isto é, de ordem), como em todas as igrejas dos santos". A Confissão de Westminster, portanto, expressando o sentimento comum dos presbiterianos, diz: "O Senhor Jesus Cristo, como Rei e Chefe de sua Igreja, nela estabeleceu um governo nas mãos de oficiais da Igreja, distintos do magistrado civil". A doutrina de que todo o poder civil reside ultimamente no povo não é inconsistente com a doutrina de que esse poder está nas mãos de oficiais legítimos, legislativos, judiciais e executivos, para ser exercido por eles de acordo com a lei. Nem é inconsistente com a doutrina de que a autoridade do magistrado civil é jure divino. Assim, a doutrina de que o poder da Igreja reside na própria Igreja não é inconsistente com a doutrina de que existe uma classe de oficiais divinamente nomeados, através dos quais esse poder deve ser exercido. Aparece assim que o princípio da liberdade e o princípio da ordem são perfeitamente harmoniosos. Ao negarmos que todo o poder da Igreja reside exclusivamente no clero, a quem o povo nada tem a fazer senão crer e obedecer, e ao afirmarmos que ele reside na própria Igreja, enquanto afirmamos o grande princípio da liberdade cristã, afirmamos o princípio não menos importante da ordem evangélica.

Não é necessário ocupar o seu tempo citando as Confissões Reformadas ou escritores presbiterianos padrão para provar que o princípio acabado de declarar é um dos princípios radicais do nosso sistema. Basta aludir ao reconhecimento dele envolvido no ofício de presbítero regente.

Os presbíteros regentes são declarados representantes do povo. Eles são escolhidos por eles para agir em seu nome no governo da Igreja. As funções desses presbíteros, portanto, determinam o poder do povo; pois um representante é alguém escolhido por outros para fazer em seu nome o que eles têm o direito de fazer em suas próprias pessoas; ou antes, para exercer os poderes que radicalmente inerem naqueles por quem atuam. Os membros de uma Legislatura Estadual, ou do Congresso, por exemplo, podem exercer apenas os poderes que são inerentes ao povo.

Os poderes, portanto, exercidos por nossos presbíteros regentes, são poderes que pertencem aos membros leigos da Igreja. Quais são, então, os poderes de nossos presbíteros regentes? 1. Quanto a questões de doutrina e ao grande ofício do ensino, eles têm voz igual à do clero na formação e adoção de todos os símbolos de fé. De acordo com o presbiterianismo, não compete ao clero redigir e apresentar autoritariamente um credo a ser abraçado pela Igreja, e a ser tornado uma condição de comunhão ministerial ou cristã, sem o consentimento do povo. Tais credos professam expressar a mente da Igreja. Mas o ministério não é a Igreja e, portanto, não pode declarar a fé da Igreja sem a cooperação da própria Igreja. Tais Confissões, na época da Reforma, procediam de toda a Igreja. E todas as Confissões agora em autoridade nos diferentes ramos da grande família presbiteriana foram adotadas pelo povo através de seus representantes, como a expressão de sua fé. Assim, também, na seleção de pregadores da palavra, no julgamento de sua aptidão para o sagrado ofício, na decisão de se devem ser ordenados, no julgamento deles quando acusados de heresia, o povo tem, de fato, um voto igual ao do clero. 2. O mesmo acontece quanto ao jus liturgicum, como é chamado, da Igreja. O ministério não pode redigir um ritual, ou liturgia, ou diretório para o culto público, e impor seu uso ao povo a quem prega. Todas essas regulamentações têm força apenas na medida em que o próprio povo, em conjunto com seus ministros, considere adequado sancioná-las e adotá-las. 3. Da mesma forma, ao formar uma constituição, ou ao decretar regras de procedimento, ou ao fazer cânones, o povo não apenas consente passivamente, mas coopera ativamente. Eles têm, em todos esses assuntos, a mesma autoridade que o clero. 4. E, finalmente, no exercício do poder das chaves, ao abrir e fechar a porta da comunhão com a Igreja, o povo tem voz decisiva. Em todos os casos de disciplina, eles são chamados a julgar e decidir.

Não pode haver, portanto, dúvida de que os presbiterianos de fato aplicam o princípio de que o poder da Igreja reside na própria Igreja, e que o povo tem direito a uma parte substantiva em sua disciplina e governo. Em outras palavras, não defendemos que todo o poder reside no clero, e que o povo tem apenas que ouvir e obedecer.

Mas é este um princípio bíblico? É uma questão de concessão e cortesia, ou é uma questão de direito divino? É o nosso ofício de presbítero regente apenas uma questão de conveniência, ou é um elemento essencial do nosso sistema, surgindo da própria natureza da Igreja como constituída por Deus e, portanto, de autoridade divina?

Isto, em última instância, é, afinal, apenas a questão de saber se o clero é a Igreja, ou se o povo é a Igreja. Se, como disse Luís XIV da França, "Eu sou o Estado", o clero pudesse dizer: "Nós somos a Igreja", então todo o poder da Igreja residiria neles, assim como todo o poder civil residia no monarca francês. Mas se o povo é o Estado, o poder civil reside nele; e se o povo é a Igreja, o poder reside no povo. Se o clero são sacerdotes e mediadores, o canal de todas as comunicações divinas e o único meio de acesso a Deus, então todo o poder está em suas mãos; mas se todos os crentes são sacerdotes e reis, então eles têm algo mais a fazer do que meramente submeter-se passivamente. Tão abominável é esta ideia do clero ser a Igreja para a consciência dos cristãos, que nenhuma definição da Igreja nos primeiros quinze séculos depois de Cristo foi jamais formulada que sequer mencionasse o clero. Diz-se que isso foi feito pela primeira vez por Canísio e Belarmino. Os romanistas definem a Igreja como "aqueles que professam a verdadeira religião e estão sujeitos ao Papa". Os anglicanos definem-na como "aqueles que professam a verdadeira religião e estão sujeitos aos Prelados". A Confissão de Westminster define a Igreja visível como "aqueles que professam a verdadeira religião, juntamente com seus filhos". Em todo símbolo protestante, luterano ou reformado, diz-se que a Igreja é a companhia de homens fiéis. Ora, como uma definição é a declaração dos atributos ou características essenciais de um sujeito; e como, pelo consentimento comum dos protestantes, a definição da Igreja é completa sem sequer mencionar o clero, é evidentemente a renúncia aos princípios radicais do protestantismo e, claro, do presbiterianismo, sustentar que todo o poder da Igreja reside no clero. 1. O primeiro argumento, portanto, em apoio à doutrina de que o povo tem direito a uma parte substantiva no governo da Igreja é derivado do fato de que eles, de acordo com as Escrituras e todas as Confissões Protestantes, constituem a Igreja.

  1. Um segundo argumento é este. Todo o poder da Igreja surge da habitação do Espírito; portanto, aqueles em quem o Espírito habita são a sede do poder da Igreja. Mas o Espírito habita em toda a Igreja e, portanto, toda a Igreja é a sede do poder da Igreja.

O primeiro membro deste silogismo não é contestado. O fundamento sobre o qual os romanistas sustentam que o poder da Igreja reside nos bispos, com exclusão do povo, é que eles sustentam que o Espírito foi prometido e dado aos bispos como uma classe. Quando Cristo soprou sobre seus discípulos e disse: "Recebei o Espírito Santo; àqueles a quem perdoardes os pecados, lhes são perdoados; e àqueles a quem os retiverdes, lhes são retidos"; e quando ele disse: "Tudo o que ligardes na terra será ligado no céu; e tudo o que desligardes na terra será desligado no céu; e quando disse ainda: "Quem vos ouve a mim me ouve; e eis que estou convosco todos os dias, até ao fim do mundo"; eles sustentam que ele deu o Espírito Santo aos apóstolos e aos seus sucessores no apostolado, para continuar até ao fim do mundo, para os guiar no conhecimento da verdade e para os constituir os mestres e governantes autorizados da Igreja. Se isto for verdade, então, naturalmente, todo o poder da Igreja reside nestes bispos-apóstolos. Mas, por outro lado, se for verdade que o Espírito habita em toda a Igreja; se ele guia o povo tanto quanto o clero no conhecimento da verdade; se ele anima todo o corpo e o torna o representante de Cristo na terra, de modo que aqueles que ouvem a Igreja ouvem a Cristo, e de modo que o que a Igreja liga na terra é ligado no céu, então, naturalmente, o poder da Igreja reside na própria Igreja, e não exclusivamente no clero.

Se há algo claro em todo o teor do Novo Testamento, e em inumeráveis declarações explícitas da palavra de Deus, é que o Espírito habita em todo o corpo de Cristo; que ele guia todo o seu povo no conhecimento da verdade; que cada crente é ensinado por Deus, e tem o testemunho em si mesmo, e não tem necessidade de que ninguém o ensine, mas a unção que nele permanece o ensina todas as coisas. É, portanto, o ensino da Igreja, e não exclusivamente do clero, que é ministerialmente o ensino do Espírito, e o julgamento do Espírito. É uma doutrina inteiramente anticristã que o Espírito de Deus, e portanto a vida e o poder governante da Igreja, resida no ministério, com exclusão do povo.

Quando a grande promessa do Espírito se cumpriu no dia de Pentecostes, ela se cumpriu não em referência apenas aos apóstolos. Foi de toda a assembleia que se disse: "Todos foram cheios do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito lhes concedia que falassem". Paulo, ao escrever aos Romanos, diz: "Nós, embora muitos, somos um só corpo em Cristo e cada um membro uns dos outros. De modo que, tendo diferentes dons, segundo a graça que nos é dada: se é profecia, seja ela segundo a medida da fé; se é ministério, dediquemo-nos ao ministério; ou o que ensina, esmere-se no ensino". Aos Coríntios ele diz: "A cada um é dada a manifestação do Espírito para proveito comum. Porque a um, pelo Espírito, é dada a palavra da sabedoria; a outro, pelo mesmo Espírito, a palavra do conhecimento". Aos Efésios ele diz: "Há um só corpo e um só Espírito; mas a cada um de nós foi dada a graça segundo a medida do dom de Cristo". Esta é a representação uniforme da Escritura. O Espírito habita em toda a Igreja, anima, guia e instrui o todo. Se, portanto, for verdade, como todos admitem, que o poder da Igreja vai com o Espírito e surge da sua presença, ele não pode pertencer exclusivamente ao clero.

  1. O terceiro argumento sobre este assunto deriva-se da comissão dada por Cristo à sua Igreja: "Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura; e eis que estou convosco todos os dias, até ao fim do mundo". Esta comissão impõe um certo dever; transmite certos poderes; e inclui uma grande promessa. O dever é espalhar e manter o evangelho em sua pureza por toda a terra. Os poderes são os necessários para a realização desse objetivo, isto é, o poder de ensinar, de governar e de exercer disciplina. E a promessa é a garantia da presença e assistência perpétuas de Cristo. Como nem o dever de estender e sustentar o evangelho em sua pureza, nem a promessa da presença de Cristo é peculiar aos apóstolos como uma classe, ou ao clero como um corpo, mas como tanto o dever quanto a promessa pertencem a toda a Igreja, assim também, por necessidade, os poderes de cuja posse repousa a obrigação. O comando: "Ide, ensinai todas as nações", "ide, pregai o evangelho a toda criatura", soa aos ouvidos de toda a Igreja. Ele desperta uma emoção em cada coração. Todo cristão sente que o comando é dirigido a um corpo do qual ele é membro, e que ele tem uma obrigação pessoal a cumprir. Não foi apenas ao ministério que esta comissão foi dada e, portanto, não é apenas a eles que pertencem os poderes que ela transmite.

  2. O direito do povo a uma parte substantiva no governo da Igreja é reconhecido e sancionado pelos apóstolos de quase todas as formas concebíveis. Quando julgaram necessário completar o colégio de apóstolos, após a apostasia de Judas, Pedro, dirigindo-se aos discípulos, sendo o número de cento e vinte, disse: "Varões irmãos, é necessário que, destes varões que acompanharam conosco todo o tempo em que o Senhor Jesus entrou e saiu entre nós, começando desde o batismo de João até ao dia em que de entre nós foi recebido em cima, um deles se faça conosco testemunha da sua ressurreição. E apresentaram dois: José, chamado Barsabás, que tinha por sobrenome o Justo, e Matias. E, orando, lançaram-lhes sortes, e caiu a sorte sobre Matias. E por voto comum foi contado com os onze apóstolos". Assim, neste passo iniciatório tão importante, o povo teve voz decisiva. Assim, quando os diáconos deveriam ser nomeados, toda a multidão escolheu os sete homens que seriam investidos no ofício. Quando surgiu a questão sobre a obrigação contínua da lei mosaica, a decisão autorizada procedeu de toda a Igreja. "Pareceu bem", diz o historiador sagrado, "aos apóstolos e aos anciãos, com toda a igreja, eleger varões de entre eles e enviá-los a Antioquia". E escreveram por mão deles o seguinte: "Os apóstolos, e os anciãos, e os irmãos, às igrejas de Antioquia, Síria e Cilícia, saudações". Os irmãos, portanto, foram associados ao ministério na decisão desta grande questão doutrinária e prática. A maioria das epístolas apostólicas é dirigida às igrejas, isto é, aos santos ou crentes de Corinto, Éfeso, Galácia e Filipos. Nestas epístolas, presume-se que o povo seja responsável pela ortodoxia de seus mestres e pela pureza dos membros da igreja.

Exige-se deles que não creiam em todo espírito, mas que provem se os espíritos são de Deus; que julguem se aqueles que vinham a eles como mestres religiosos foram realmente enviados por Deus. Os Gálatas são severamente censurados por darem ouvidos a falsas doutrinas, e são chamados a pronunciar anátema até mesmo sobre um apóstolo, se este pregasse outro evangelho. Os Coríntios são censurados por permitirem que uma pessoa incestuosa permanecesse em sua comunhão; eles são ordenados a excomungá-lo e, depois, em seu arrependimento, a restaurá-lo à sua comunhão. Estes e outros casos do tipo não determinam nada quanto à forma como o poder do povo era exercido; mas provam conclusivamente que tal poder existia. O comando para vigiar a ortodoxia dos ministros e a pureza dos membros não foi dirigido exclusivamente ao clero, mas a toda a Igreja. Acreditamos que, como na Sinagoga, e em toda sociedade bem organizada, os poderes inerentes à sociedade são exercidos através de órgãos apropriados. Mas o fato de esses comandos serem dirigidos ao povo, ou a toda a Igreja, prova que eles eram responsáveis e que tinham uma parte substantiva no governo da Igreja. Seria absurdo que outras nações dirigissem queixas ou exortações ao povo da Rússia em referência a assuntos nacionais, porque eles não têm parte no governo. Seria não menos absurdo dirigir-se aos católicos romanos como um corpo autogovernado. Mas tais endereços podem muito bem ser feitos pelo povo de um de nossos Estados ao povo de outro, porque o povo tem o poder, embora este seja exercido através de órgãos legítimos. Portanto, embora as epístolas dos apóstolos não provem que as igrejas a quem se dirigiam não tivessem oficiais regulares através dos quais o poder da Igreja devesse ser exercido, elas provam abundantemente que tal poder residia no povo, e que eles eram obrigados a tomar parte no governo da Igreja e na preservação da sua pureza.

Foi apenas gradualmente, ao longo de eras, que o poder pertencente ao povo foi absorvido pelo clero. O progresso desta absorção acompanhou a corrupção da Igreja, até que o domínio total da hierarquia foi finalmente estabelecido. O primeiro grande princípio, então, do presbiterianismo é a reafirmação da doutrina primitiva de que o poder da Igreja pertence a toda a Igreja; que esse poder é exercido através de oficiais legítimos, e portanto que o ofício de presbíteros regentes como representantes do povo não é uma questão de conveniência, mas um elemento essencial do nosso sistema, surgindo da natureza da Igreja e repousando na autoridade de Cristo.

II.

O segundo grande princípio do presbiterianismo é que os presbíteros que ministram na palavra e na doutrina são os oficiais permanentes mais elevados da Igreja.

  1. Nossa primeira observação sobre este assunto é que o ministério é um ofício, e não apenas um trabalho. Um ofício é um posto para o qual o ocupante deve ser nomeado, o que implica certas prerrogativas que é dever dos interessados reconhecer e às quais devem se submeter. Um trabalho, por outro lado, é algo que qualquer homem que tenha a habilidade pode empreender. Esta é uma distinção óbvia. Não é todo homem que tem as qualificações para ser Governador de um Estado que tem o direito de agir como tal. Ele deve ser regularmente nomeado para o posto. Assim, não é todo aquele que tem as qualificações para o trabalho do ministério que pode assumir o ofício do ministério. Ele deve ser regularmente nomeado. Isto é claro:
    • (a) Pelos títulos dados aos ministros nas Escrituras, que implicam um posto oficial.
    • (b) Pelas suas qualificações serem especificadas na palavra de Deus, e o modo de julgar essas qualificações ser prescrito.
    • (c) Pelo comando expresso de nomear para o ofício apenas aqueles que, em exame devido, forem considerados competentes.
    • (d) Pelo registro de tal nomeação na palavra de Deus.
    • (e) Pela autoridade oficial atribuída a eles nas Escrituras e pelo comando de que tal autoridade deve ser devidamente reconhecida. Não precisamos argumentar mais este ponto, pois ele não é negado, exceto pelos Quakers e alguns poucos escritores como Neander, que ignoram toda distinção entre clero e leigos, exceto o que surge da diversidade de dons.
  2. Nossa segunda observação é que o ofício é de nomeação divina, não apenas no sentido em que os poderes civis são ordenados por Deus, mas no sentido de que os ministros derivam sua autoridade de Cristo, e não do povo. Cristo não apenas ordenou que houvesse tais oficiais em sua Igreja — ele não apenas especificou seus deveres e prerrogativas — mas ele dá as qualificações necessárias, chama aqueles assim qualificados e, por esse chamado, dá-lhes sua autoridade oficial. A função da Igreja nas premissas não é conferir o ofício, mas julgar a questão se o candidato é chamado por Deus; e, se satisfeita nesse ponto, expressar seu julgamento da maneira pública e solene prescrita na Escritura.

    Que os ministros derivam assim sua autoridade de Cristo, segue-se não meramente do caráter teocrático da Igreja e da relação que Cristo, seu rei, sustenta com ela, como a fonte de toda autoridade e poder, mas: - (a) Do fato de ser expressamente afirmado que Cristo deu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e doutores, para o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério. Ele, e não o povo, constituiu ou nomeou os apóstolos, profetas, pastores e doutores. - (b) Os ministros são, portanto, chamados servos, mensageiros, embaixadores de Cristo. Eles falam em nome de Cristo e por sua autoridade. Eles são enviados por Cristo à Igreja para repreender, rebocar e exortar com toda a longanimidade e doutrina. Eles são, de fato, servos da Igreja, enquanto trabalham em seu serviço e estão sujeitos à sua autoridade — servos em oposição a senhores — mas não no sentido de derivar sua comissão e poderes da Igreja. - (c) Paulo exorta os presbíteros de Éfeso: "Olhai por vós e por todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos". A Arquipo ele diz: "Atenta para o ministério que recebeste no Senhor". Foi então o Espírito Santo que nomeou estes presbíteros e os constituiu bispos. - (d) Isto está envolvido em toda a doutrina da Igreja como o corpo de Cristo, na qual ele habita por seu Espírito, dando a cada membro seus dons, qualificações e funções, distribuindo a cada um particularmente como quer; e por esses dons tornando um apóstolo, outro profeta, outro doutor, outro operador de milagres. É assim que o apóstolo reconcilia a doutrina de que os ministros derivam sua autoridade e poder de Cristo, e não do povo, com a doutrina de que os poderes da Igreja residem ultimamente na Igreja como um todo. Ele refere-se à analogia entre o corpo humano e a Igreja. Assim como no corpo a alma habita em cada parte, e todas as partes estão unidas em um todo vivo, e todo o poder pertence ao corpo, embora a alma dê ao olho o seu poder de ver, ao ouvido o seu poder de ouvir e à mão o seu poder de manusear; assim Cristo, por seu Espírito, habita na Igreja, e todo o poder pertence à Igreja, embora o Espírito que nela habita dê a cada membro sua função e ofício. De modo que os ministros não são mais nomeados pela Igreja do que o olho pelas mãos e pés. Esta é a representação que permeia o Novo Testamento e supõe necessariamente que os ministros da Igreja são servos de Cristo, selecionados e nomeados por ele através do Espírito Santo. 3. A terceira observação refere-se às funções dos presbíteros. - (a) Eles são encarregados da pregação da palavra e da administração dos sacramentos. Eles são os órgãos da Igreja na execução da grande comissão de fazer discípulos de todas as nações, ensinando-os e batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. - (b) Eles são governantes na casa de Deus. - (c) Eles são investidos com o poder das chaves, abrindo e fechando a porta da Igreja. Eles estão revestidos de todos estes poderes em virtude do seu ofício. Se enviados para onde a Igreja ainda não existe, eles os exercem na reunião e fundação de igrejas. Se trabalham no meio de igrejas já estabelecidas, exercem esses poderes em concerto com outros presbíteros e com os representantes do povo. É importante notar esta distinção. As funções acima mencionadas pertencem ao ofício ministerial e, portanto, a todo ministro. Quando está sozinho, ele necessariamente exerce suas funções sozinho, ao reunir e organizar igrejas; mas quando elas estão reunidas, ele se associa a outros ministros e aos representantes do povo e, portanto, não pode mais agir sozinho em questões de governo e disciplina. Vemos isto ilustrado na era apostólica. Os apóstolos, e aqueles ordenados por eles, agiram em virtude do seu ofício ministerial, individualmente na fundação de igrejas, mas depois sempre em conexão com outros ministros e presbíteros. Esta é, de fato, a teoria do ofício ministerial incluída em todo o sistema do presbiterianismo.

    Que esta é a visão bíblica do ofício presbiteral, ou que os presbíteros são investidos com os poderes acima referidos, é claro: - (a) Pelos títulos significativos dados a eles na palavra de Deus; eles são chamados doutores, governantes, pastores, mordomos, bispos ou superintendentes, edificadores, atalaias, embaixadores, testemunhas. - (b) Pelas qualificações exigidas para o ofício. Eles devem ser aptos para ensinar, bem instruídos, capazes de manejar bem a palavra de Deus, sãos na fé, capazes de convencer os contradizentes, capazes de governar suas próprias famílias; pois se um homem não sabe governar sua própria casa, como cuidará da Igreja de Deus? Ele deve ter as qualidades pessoais que lhe dão autoridade. Não deve ser um neófito, mas grave, sóbrio, temperante, vigilante, de bom comportamento e de boa reputação. - (c) Pelas representações dadas de seus deveres. Eles devem pregar a palavra, alimentar o rebanho de Deus, guiá-lo como um pastor; devem trabalhar para a edificação dos santos; velar pelas almas como quem deve prestar contas; devem cuidar da Igreja para guardá-la contra falsos mestres, ou, como o apóstolo os chama, "lobos cruéis"; devem exercer supervisão episcopal, porque o Espírito Santo, como disse Paulo aos presbíteros de Éfeso, os constituiu bispos, Atos 20:28, e o Apóstolo Pedro exorta os presbíteros a alimentar o rebanho de Deus, exercendo a superintendência episcopal (episcopeo), não por constrangimento, mas voluntariamente. Eles são, portanto, bispos. Cada vez que essa palavra, ou qualquer de seus cognatos, é usada no Novo Testamento em relação ao ministério cristão, ela se refere a presbíteros, exceto em Atos 1:20, onde a palavra bispado é usada em uma citação da Septuaginta, aplicada ao ofício de Judas. 4. O ofício de presbítero é permanente. Isto é claro: - (a) Porque o dom é permanente. Todo ofício implica um dom do qual ele é o órgão designado. Se, portanto, um dom for permanente, o órgão para o seu exercício deve ser permanente. Os profetas do Novo Testamento eram recipientes de inspiração ocasional. Como o dom da inspiração cessou, o ofício de profeta cessou. Mas como o dom de ensinar e governar é permanente, assim também é o ofício de mestre e governante. - (b) Como a Igreja é comissionada para fazer discípulos de todas as nações, para pregar o evangelho a toda criatura; como os santos sempre precisam ser alimentados e edificados em sua santíssima fé, ela deve sempre ter os oficiais que são seus órgãos divinamente nomeados para a realização desta obra. - (c) Encontramos, consequentemente, que os apóstolos não apenas ordenaram presbíteros em cada cidade, mas deram instruções para a sua ordenação em todos os tempos subsequentes, prescrevendo suas qualificações e o modo de sua nomeação. - (d) De fato, eles continuaram até o presente momento. Isto, portanto, não é um assunto aberto a disputa; e não é, de fato, disputado por ninguém com quem estejamos agora preocupados. 5. Finalmente, em relação a esta parte do nosso assunto, os presbíteros são os oficiais permanentes mais elevados da Igreja. - (a) Isto pode ser inferido, em primeiro lugar, do fato de que não há funções permanentes superiores atribuídas no Novo Testamento ao ministério cristão além daquelas que nele são atribuídas aos presbíteros. Se eles são encarregados da pregação do evangelho, da extensão, continuidade e pureza da Igreja — se são mestres e governantes, encarregados de poderes e supervisão episcopais, o que mais, de caráter permanente, é exigido? - (b) Mas em segundo lugar, admite-se que houve, durante a era apostólica, oficiais de um grau superior ao dos presbíteros, a saber: apóstolos e profetas. Os últimos, admite-se, foram temporários. A única questão, portanto, refere-se aos apóstolos. Os prelatistas admitem que não existe uma classe ou grau permanente de oficiais de igreja intermediários entre apóstolos e presbíteros. Mas ensinam que o apostolado foi projetado para ser perpétuo, e que os prelados são os sucessores oficiais dos apóstolos originais. Se assim for, se eles têm o ofício, devem ter os dons de um apóstolo. Se têm as prerrogativas, devem ter os atributos dos mensageiros originais de Cristo. Mesmo no governo civil, todo ofício presume qualificações internas. Uma ordem de nobreza, sem superioridade real, é uma mera farsa. Muito mais é isto necessário no organismo vivo da Igreja, no qual o Espírito que nela habita se manifesta como quer. Um apóstolo sem a "palavra da sabedoria" era um falso apóstolo; um mestre sem "a palavra do conhecimento" não era mestre; um operador de milagres sem o dom de milagres era um mágico; qualquer um que pretendesse falar em línguas sem o dom de línguas era um enganador. Da mesma forma, um apóstolo sem os dons de um apóstolo é um mero pretendente. Poderia muito bem haver um homem sem alma.

Os romanistas nos dizem que o Papa é o vigário de Cristo; que ele é seu sucessor como o chefe e governante universal da Igreja na terra. Se assim for, ele deve ser um Cristo. Se ele tem as prerrogativas de Cristo, deve ter os atributos de Cristo. Ele não pode ter um sem o outro. Se o Papa, por nomeação divina, está investido de domínio universal sobre o mundo cristão; se todas as suas decisões quanto à fé e ao dever são infalíveis e autorizadas; se a dissidência da sua decisão ou a desobediência aos seus comandos acarreta a perda da salvação, então ele é herdeiro dos dons tanto quanto do ofício de Cristo. Se ele reivindica o ofício, sem ter os dons, então ele é o anticristo, "o homem do pecado, o filho da perdição, que se opõe e se levanta contra tudo o que se chama Deus ou é objeto de culto, a ponto de assentar-se no santuário de Deus, apresentando-se como se fosse Deus". Os romanistas admitem este princípio. Ao atribuírem ao Papa as prerrogativas de Cristo, são forçados a atribuir-lhe os seus atributos. Não o entronizam? Não beijam os seus pés? Não lhe oferecem incenso? Não se dirigem a ele com títulos blasfemos? Não pronunciam anátemas e barram do céu todos os que não reconhecem a sua autoridade?

Esta é a razão pela qual a oposição ao Papismo nos corações dos protestantes é um sentimento religioso. César Augusto poderia governar o mundo; o Czar da Rússia pode alcançar o domínio universal, mas tal domínio não envolveria a assunção de atributos divinos; e, portanto, a submissão a ele não envolveria apostasia de Deus, e a oposição a ele não seria necessariamente um dever religioso. Mas ser o Vigário de Cristo, reivindicar o exercício das suas prerrogativas na terra, envolve de fato uma reivindicação dos seus atributos e, portanto, nossa oposição ao Papismo é oposição a um homem que afirma ser Deus.

Mas se este princípio se aplica ao caso do Papa, como todos os protestantes admitem, ele também deve se aplicar ao apostolado. Se qualquer grupo de homens afirma ser apóstolos — se afirmam o direito de exercer autoridade apostólica, não podem evitar reivindicar a posse de dotes apostólicos; e se não possuem estes últimos, sua reivindicação aos primeiros é uma usurpação e fingimento.

O que eram, então, os apóstolos? Está claro no registro divino que eles foram homens imediatamente comissionados por Cristo para fazer uma revelação completa e autorizada da sua religião; para organizar a Igreja; para dotá-la de oficiais e leis e para iniciá-la em sua carreira de conquista pelo mundo.

Para qualificá-los para esta obra, receberam, primeiro, a palavra da sabedoria, ou uma revelação completa das doutrinas do evangelho; segundo, o dom do Espírito Santo, de tal maneira que os tornasse infalíveis na comunicação da verdade e no exercício da sua autoridade como governantes; terceiro, o dom de realizar milagres em confirmação da sua missão e de comunicar o Espírito Santo pela imposição das suas mãos.

As prerrogativas resultantes destes dons eram, primeiro: autoridade absoluta em todos os assuntos de fé e prática; segundo, autoridade igualmente absoluta na legislação para a Igreja quanto à sua constituição e leis; terceiro, jurisdição universal sobre os oficiais e membros da Igreja.

Paulo, quando afirmou ser um apóstolo, reivindicou esta comissão imediata, esta revelação do evangelho, esta inspiração plenária e esta autoridade absoluta e jurisdição geral. E em apoio às suas reivindicações, ele apela não apenas para a manifesta cooperação de Deus através do Espírito, mas para os sinais de apóstolo, que ele operou com toda a paciência, por sinais, prodígios e maravilhas. 2 Cor 12:12.

Seguia-se necessariamente da posse real pelos apóstolos destes dons de revelação e inspiração, que os tornavam infalíveis, que o acordo com eles na fé e a sujeição a eles eram necessários para a salvação. O apóstolo João, portanto, disse: "Quem conhece a Deus nos ouve; quem não é de Deus não nos ouve. Nisto conhecemos o espírito da verdade e o espírito do erro". 1 João 4:6. E o apóstolo Paulo pronunciou maldito até mesmo um anjo, se negasse o evangelho que ele pregava e como ele o pregava. Os escritos dos apóstolos, portanto, têm sido, em todas as eras e em todas as partes da Igreja, considerados infalíveis e autorizados em todos os assuntos de fé e prática.

Ora, o argumento é que, se os prelados são apóstolos, devem ter dons apostólicos. Eles não têm esses dons, portanto não são apóstolos. O primeiro membro deste silogismo dificilmente precisa de mais provas. É evidente, pela natureza do caso e pelas Escrituras, que as prerrogativas dos apóstolos surgiram dos seus dotes peculiares. Foi porque eram inspirados e, consequentemente, infalíveis, que foram investidos com a autoridade que exerceram. Um apóstolo não inspirado é tanto um contrassenso quanto um profeta não inspirado.

Quanto ao segundo ponto, a saber: que os prelados não têm dons apostólicos, não é necessário argumento. Eles não têm revelação especial; não são inspirados; não têm o poder de realizar milagres nem de conferir dons miraculosos e, portanto, não são apóstolos.

Tão inseparável é a conexão entre um ofício e seus dons, que os prelados, ao afirmarem ser apóstolos, são forçados a fazer um espetáculo de possuir dons apostólicos. Embora não inspirados individualmente, afirmam ser inspirados como um corpo; embora não infalíveis individualmente, afirmam ser infalíveis coletivamente; embora não tenham o poder de conferir dons miraculosos, afirmam o poder de conferir a graça das ordens. Estas reivindicações, porém, não são menos absurdas do que as presunções de inspiração pessoal. O fato histórico de que os prelados coletivamente, bem como individualmente, não são inspirados e são falíveis, não é menos palpável do que o fato de serem mortais. Os de uma época diferiam dos de outra. Os de uma Igreja pronunciaram malditos os de outra — Gregos contra Latinos, Latinos contra Gregos e Anglicanos contra ambos. Além disso, se os prelados são apóstolos, então não pode haver religião nem salvação entre aqueles que não estão sujeitos à sua autoridade. "Quem não é de Deus", disse o apóstolo João, "não nos ouve". Esta é uma conclusão que romanistas e anglicanos admitem e afirmam audaciosamente. É, no entanto, um completo reductio ad absurdum. Poder-se-ia muito bem afirmar que o sol nunca brilha fora da Groenlândia, como afirmar que não há religião além do pálio das igrejas preláticas. Para manter esta posição, é necessário perverter a própria natureza da religião. Como a fé em nosso Senhor Jesus Cristo, o arrependimento para com Deus, o amor e o viver santo são encontrados fora das igrejas preláticas, os prelatistas sustentam que a religião não consiste nestes frutos do Espírito, mas em algo externo e formal. A suposição, portanto, de que os prelados são apóstolos, conduz necessariamente à conclusão de que os prelados têm os dons dos apóstolos, e isso à conclusão de que a submissão ao seu ensino e jurisdição é essencial para a salvação; e isso, novamente, à conclusão de que a religião não é um estado interior, mas uma relação externa. Estas não são meramente as sequências lógicas, mas as históricas da teoria de que o ofício apostólico é perpétuo. Onde quer que essa teoria tenha prevalecido, ela levou a tornar a religião cerimonial e a divorciá-la da piedade e da moralidade. Rogamos àqueles que amam a Cristo mais do que a sua ordem, e àqueles que acreditam na religião evangélica, que levem esta consideração a sério. A doutrina de um apostolado perpétuo na Igreja não é um mero erro especulativo, mas um erro, no mais alto grau, destrutivo.

Não podemos prosseguir mais neste assunto. Que o ofício apostólico é temporário é um fato histórico claro. Os apóstolos, os doze, destacam-se como um corpo isolado na história da Igreja, sem predecessores e sem sucessores, tal como o próprio Cristo. Eles desaparecem da história. O título, a própria coisa, os dons, as funções, tudo cessou quando João, o último dos doze, subiu ao céu.

Se é uma coisa terrível colocar o Papa no lugar de Cristo e fazer de um homem o nosso Deus; é também uma coisa terrível colocar homens errantes no lugar de apóstolos infalíveis e fazer da fé no seu ensino e da submissão à sua autoridade a condição de graça e salvação.

Desta escravidão terrível, irmãos, estamos livres. Curvamo-nos à autoridade de Cristo. Submetemo-nos aos ensinos infalíveis dos seus apóstolos inspirados; mas negamos que o infalível continue no falível, ou o divino no humano.

Mas se o ofício apostólico foi temporário, então os presbíteros são os oficiais permanentes mais elevados da Igreja, porque, como é admitido por nove décimos, talvez por noventa e nove centésimos dos prelatistas, as Escrituras não mencionam nenhuns oficiais permanentes intermediários entre os apóstolos e os presbíteros-bispos do Novo Testamento. Não há comando para nomear tais oficiais, nenhum registro de sua nomeação, nenhuma especificação de suas qualificações, nenhum título para eles, seja nas Escrituras ou na história eclesiástica. Se os prelados não são apóstolos, são presbíteros, detendo sua preeminência por autoridade humana, e não divina.

III.

Como então os presbíteros são todos da mesma categoria, e como exercem o seu poder no governo da Igreja em conexão com o povo, ou seus representantes, isso necessariamente dá origem aos Conselhos em nossas congregações individuais, e aos Presbitérios, Sínodos e Assembleias, para o exercício de uma jurisdição mais extensa. Isto traz à tona o terceiro grande princípio do presbiterianismo: o governo da Igreja por tribunais (juízos) compostos por presbíteros e regentes, etc. Isto pressupõe a unidade da Igreja em oposição à teoria dos Independentes.

A doutrina presbiteriana sobre este assunto é que a Igreja é uma de tal forma que uma parte menor está sujeita a uma maior, e a maior ao todo. Ela tem um só Senhor, uma só fé, um só batismo. Os princípios de governo estabelecidos nas Escrituras obrigam toda a Igreja. Os termos de admissão e os fundamentos legítimos de exclusão são os mesmos em todos os lugares. As mesmas qualificações devem ser exigidas em todos os lugares para a admissão ao sagrado ofício, e os mesmos fundamentos para a deposição. Todo homem que é devidamente recebido como membro de uma igreja particular torna-se membro da Igreja universal; todo aquele que é justamente excluído de uma igreja particular é excluído de toda a Igreja; todo aquele que é legitimamente ordenado para o ministério em uma igreja é um ministro da Igreja universal e, quando legitimamente deposto em uma, deixa de ser ministro em qualquer outra. Assim, embora cada igreja particular tenha o direito de gerir os seus próprios assuntos e administrar a sua própria disciplina, ela não pode ser independente e irresponsável no exercício desse direito. Como os seus membros são membros da Igreja universal, e aqueles a quem ela excomunga são, de acordo com a teoria bíblica, entregues a Satanás e cortados da comunhão dos santos, os atos de uma igreja particular tornam-se os atos de toda a Igreja e, portanto, o todo tem o direito de ver que sejam realizados de acordo com a lei de Cristo. Daí, por um lado, o direito de apelação; e, por outro, o direito de revisão e controle.

Esta é a teoria presbiteriana sobre este assunto; que ela é a doutrina bíblica aparece: 1. Da natureza da Igreja. A Igreja é representada em todos os lugares como sendo uma. É um só corpo, uma só família, um só rebanho, um só reino. É uma porque permeada por um só Espírito. Somos todos batizados em um só Espírito para nos tornarmos, diz o apóstolo, um só corpo. Esta habitação do Espírito, que assim une todos os membros do corpo de Cristo, produz não apenas aquela união subjetiva ou interior que se manifesta na simpatia e no afeto, na unidade de fé e amor, mas também a união e comunhão exterior. Ela leva os cristãos a unirem-se para fins de culto e de mútua vigilância e cuidado. Exige que sejam sujeitos uns aos outros no temor do Senhor. Traz todos eles à submissão à palavra de Deus como o padrão de fé e prática. Dá-lhes não apenas um interesse no bem-estar, pureza e edificação mútua, mas impõe a obrigação de promover estes objetivos. Se um membro sofre, todos os membros sofrem com ele; e se um membro é honrado, todos se regozijam com ele. Tudo isto é verdade, não apenas para aqueles que frequentam o mesmo local de culto, mas para o corpo universal dos crentes. De modo que uma igreja independente é tanto um contrassenso como um cristão independente, ou como um dedo independente do corpo humano, ou um ramo independente de uma árvore. Se a Igreja é um corpo vivo unido à mesma cabeça, governado pelas mesmas leis e permeado pelo mesmo Espírito, é impossível que uma parte seja independente de todas as outras. 2. Todas as razões que exigem a sujeição de um crente aos irmãos de uma igreja particular exigem a sua sujeição a todos os seus irmãos no Senhor. O fundamento desta obrigação não é o pacto da igreja. Não é o pacto em que um número de crentes entra e que obriga apenas aqueles que dele fazem parte. O poder da Igreja tem uma fonte muito mais elevada do que o consentimento dos governados. A Igreja é uma sociedade divinamente constituída, derivando o seu poder da sua carta fundacional. Aqueles que se juntam a ela, juntam-se a ela como uma sociedade existente, e uma sociedade que existe com certas prerrogativas e privilégios, que eles vêm para partilhar, e não para conceder. Esta sociedade divinamente constituída, à qual todo crente é obrigado a juntar-se, não é a associação local e limitada do seu próprio bairro, mas a fraternidade universal de crentes; e, portanto, todas as suas obrigações de comunhão e obediência terminam em toda a Igreja. Ele é obrigado a obedecer aos seus irmãos, não porque concordou em fazê-lo, mas porque eles são seus irmãos — porque são templos do Espírito Santo, iluminados, santificados e guiados por Ele. É impossível, portanto, limitar a obediência de um cristão à congregação particular de que é membro, ou tornar uma tal congregação independente de todas as outras, sem destruir totalmente a própria natureza da Igreja e dilacerar os membros vivos do corpo de Cristo. Se esta tentativa fosse plenamente realizada, estas igrejas separadas certamente sangrariam até à morte, como um membro quando amputado do corpo. 3. A Igreja, durante a era apostólica, não consistia em congregações isoladas e independentes, mas era um só corpo, do qual as igrejas separadas eram membros constituintes, cada uma sujeita a todas as outras, ou a uma autoridade que se estendia sobre todas. Isto aparece, em primeiro lugar, da história da origem dessas igrejas. Os apóstolos foram ordenados a permanecer em Jerusalém até receberem poder do alto. No dia de Pentecostes, o Espírito prometido foi derramado, e eles começaram a falar conforme o Espírito lhes concedia que falassem. Muitos milhares naquela cidade foram acrescentados ao Senhor, e continuaram na doutrina e comunhão dos apóstolos, no partir do pão e nas orações. Eles constituíam a Igreja em Jerusalém. Ela era uma não apenas espiritualmente, mas externamente, unida no mesmo culto e sujeita aos mesmos governantes. Quando espalhados, pregavam a palavra em todos os lugares, e grandes multidões foram acrescentadas à Igreja. Os crentes em cada lugar eram associados em igrejas separadas, mas não independentes, pois todos permaneciam sujeitos a um tribunal comum.

Pois, em segundo lugar, os apóstolos constituíam um vínculo de união para todo o corpo de crentes. Não há a menor evidência de que os apóstolos tivessem dioceses diferentes. Paulo escreveu com plena autoridade à Igreja em Roma antes de ter visitado a cidade imperial. Pedro dirigiu as suas epístolas às igrejas do Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia, o próprio centro do campo de trabalho de Paulo. Que os apóstolos exerciam esta jurisdição geral, e eram assim o vínculo de união externa da Igreja, surgiu, como vimos, da própria natureza do seu ofício. Tendo sido comissionados para fundar e organizar a Igreja, e sendo tão cheios do Espírito que se tornavam infalíveis, a sua palavra era lei. A sua inspiração garantia necessariamente esta autoridade universal. Encontramos, consequentemente, que eles exerciam em todos os lugares os poderes não apenas de mestres, mas também de governantes. Paulo fala do poder que lhe foi dado para edificação; das coisas que ele ordenou em todas as igrejas. Suas epístolas estão cheias de tais ordens, que eram autoridade obrigatória então como agora. Ele ameaça os Coríntios que irá até eles com vara; ele cortou um membro da sua igreja, a quem eles tinham negligenciado disciplinar; e entregou Himeneu e Alexandre a Satanás, para que aprendessem a não blasfemar. Como um fato histórico, portanto, as igrejas apostólicas não eram congregações independentes, mas estavam todas sujeitas a uma autoridade comum.

Em terceiro lugar, isto é ainda mais evidente pelo Concílio de Jerusalém. Nada precisa ser assumido que não esteja expressamente mencionado no registro. Os fatos simples do caso são que, tendo surgido uma controvérsia na igreja de Antioquia sobre a lei mosaica, em vez de a resolverem entre si como um corpo independente, referiram o caso aos apóstolos e anciãos em Jerusalém, e ali ele foi decidido com autoridade, não apenas para aquela igreja, mas para todas as outras. Paulo, portanto, em sua próxima viagem missionária, ao "passar pelas cidades, entregava-lhes", diz-se, "os decretos para que os guardassem, os quais foram ordenados pelos apóstolos e anciãos que estavam em Jerusalém". Atos 16:4. Não importa se a autoridade daquele Concílio se devia à inspiração de seus membros principais ou não. Basta que ele tinha autoridade sobre toda a Igreja. As diversas congregações não eram independentes, mas estavam unidas sob um tribunal comum.

Em quarto lugar, podemos apelar para a consciência comum dos cristãos, conforme manifestada em toda a história da Igreja. Tudo o que é orgânico tem o que se pode chamar de um nisus formativus; uma força interior pela qual é impelido a assumir a forma adequada à sua natureza. Este impulso interior pode, pelas circunstâncias, ser impedido ou mal direcionado, de modo que o estado normal de uma planta ou animal pode nunca ser alcançado. Ainda assim, esta força nunca deixa de manifestar a sua existência, nem o estado para o qual tende. O que é assim verdade na natureza, não é menos verdade na Igreja. Não há nada mais conspícuo em sua história do que a lei pela qual os crentes são impelidos a expressar a sua unidade interior através da união exterior. Manifestou-se em todas as eras e sob todas as circunstâncias. Deu origem a todos os primeiros concílios. Determinou a ideia de heresia e cisma. Levou à exclusão de todas as igrejas daqueles que, pela negação da fé comum, foram excluídos de qualquer uma, e que recusaram reconhecer a sua sujeição à Igreja como um todo. Este sentimento foi claramente exibido na época da Reforma. As igrejas então formadas uniram-se tão naturalmente como gotas de mercúrio; e quando esta união foi impedida por circunstâncias internas ou externas, isso foi deplorado como um grande mal. Pode servir para homens do mundo atribuir esta característica notável na história da Igreja ao amor pelo poder, ou a alguma outra fonte indigna. Mas não é assim que se deve explicar. É uma lei do Espírito. Se o que todos os homens fazem deve ser referido a algum princípio permanente da natureza humana; o que todos os cristãos fazem deve ser referido a algo que lhes pertence como cristãos.

Tão profundamente arraigada está esta convicção de que a união exterior e a sujeição mútua é o estado normal da Igreja, que ela se manifesta naqueles cuja teoria os leva a negá-la e a resistir-lhe. Suas Consociações, Associações e Conselhos Consultivos são outros tantos dispositivos para satisfazer um desejo interior e para evitar a dissolução a que se sente que a Independência absoluta deve inevitavelmente conduzir. Que, então, a Igreja é uma, no sentido de que uma parte menor deve estar sujeita a uma maior, e uma maior ao todo, é evidente: 1. Da sua natureza como sendo um só reino, uma só família, um só corpo, tendo uma só cabeça, uma só fé, uma só constituição escrita e sendo movida por um só Espírito; 2. Do comando de Cristo para que obedeçamos aos nossos irmãos, não porque vivam perto de nós; não porque tenhamos pactuado obedecer-lhes; mas porque são nossos irmãos, os templos e órgãos do Espírito Santo; 3. Do fato de que durante a era apostólica as igrejas não eram corpos independentes, mas sujeitas em todas as questões de doutrina, ordem e disciplina a um tribunal comum; e 4. Porque toda a história da Igreja prova que esta união e sujeição mútua é o estado normal da Igreja para o qual ela se esforça por uma lei interior do seu ser. Se é necessário que um cristão esteja sujeito a outros cristãos; é não menos necessário que uma igreja esteja sujeita, no mesmo espírito, na mesma medida e pelos mesmos fundamentos, a outras igrejas.

Concluímos agora a nossa exposição do presbiterianismo. Deve saltar à vista de todos que ele não é um dispositivo humano. Não é uma estrutura externa que não tem ligação com a vida interior da Igreja. É um crescimento real. É a expressão exterior da lei interior do ser da Igreja. Se ensinamos que o povo deve ter uma parte substantiva no governo da Igreja, não é apenas porque o consideramos saudável e conveniente, mas porque o Espírito Santo habita no povo de Deus, e dá a capacidade e confere o direito de governar. Se ensinamos que os presbíteros são os oficiais permanentes mais elevados da Igreja, é porque aqueles dons pelos quais os apóstolos e profetas foram elevados acima dos presbíteros cessaram, de fato. Se ensinamos que as congregações separadas de crentes não são independentes, é porque a Igreja é, de fato, um só corpo, cujas partes são mutuamente dependentes.

Se assim for — se existe uma forma exterior da Igreja que corresponde à sua vida interior, uma forma que é a expressão e o produto natural dessa vida, então essa forma deve ser a mais conducente ao seu progresso e desenvolvimento. Os homens podem, pela arte, forçar uma árvore a crescer em qualquer forma fantástica que um gosto pervertido possa escolher. Mas é com o sacrifício do seu vigor e produtividade. Para atingir a sua perfeição, ela deve ser deixada a desdobrar-se de acordo com a lei da sua natureza. Assim é com a Igreja. Se o povo possui os dons e as graças que o qualificam e lhe dão o direito de participar no governo, então o exercício desse direito tende ao desenvolvimento desses dons e graças; e a negação do direito tende à sua depressão. Em todas as formas de despotismo, seja civil ou eclesiástico, o povo é degradado; e em todas as formas de liberdade bíblica, ele é proporcionalmente elevado. Todo sistema que exige inteligência tende a produzi-la. Todo homem sente que não é apenas uma das maiores vantagens das nossas instituições republicanas que elas tendam à educação e elevação do povo, mas que a sua operação bem-sucedida, exigindo inteligência e virtude populares, torna necessário que um esforço constante seja direcionado para a consecução desse fim. Como as instituições republicanas não podem existir entre os ignorantes e viciosos, assim o presbiterianismo deve encontrar o povo iluminado e virtuoso, ou torná-lo tal.

É a combinação dos princípios de liberdade e ordem no sistema presbiteriano, a união dos direitos do povo com a sujeição à autoridade legítima, que o tornou o pai e guardião da liberdade civil em todas as partes do mundo. Esta, no entanto, é apenas uma vantagem incidental. A organização da Igreja tem objetivos mais elevados. Ela é projetada para a extensão e estabelecimento do evangelho, e para a edificação do corpo de Cristo, até que todos cheguemos à unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus; e aquele governo deve ser o mais bem adaptado a este fim, por ser o mais congenia com a natureza interior da Igreja. É sobre este fundamento que repousa a nossa preferência pelo presbiterianismo. Não o consideramos como um produto hábil da sabedoria humana; mas como uma instituição divina, fundada na palavra de Deus, e como o produto genuíno da vida interior da Igreja.