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QUARTA DISPUTA

A Segunda sobre a

VERDADE DA SATISFAÇÃO DE CHRISTO.

Respondente: JOHANNE DE TOURNES, de Genebra.

PRIMEIRA TESE

Até agora, apresentamos e defendemos as principais classes de argumentos que demonstram a verdade da Satisfação. Partimos do Ofício Mediador e de seu duplo efeito: Redenção e Reconciliação. Agora, iniciamos a quarta classe, que abrange as passagens que listam as causas das paixões e da morte de Cristo. Esses textos, seja de forma expressa ou por consequência necessária, sustentam a mesma doutrina. Como são muitos e de grande peso, nós os dividiremos em três ordens para avaliar melhor a força de cada um. Na primeira ordem, examinaremos as passagens que implicam a substituição da pessoa. Na segunda, as que indicam a troca do débito. Por fim, na terceira, as que provam claramente tanto a substituição da pessoa quanto a compensação do débito.

II. Quanto ao primeiro ponto, a sentença constante da Escritura afirma repetidamente que Cristo morreu por nós (ὑπὲρ ἡμῶν) 1. Assim diz Romanos 8:32: Deus não poupou seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós. Romanos 5:6, 8 afirma que ele morreu por nós, ímpios e pecadores. 1 Pedro 3:18 diz: Cristo padeceu uma vez pelos pecados, o Justo pelos injustos. Hebreus 2:9 diz que ele provou a morte por todos. Mateus 20:28 afirma: o Filho do homem veio para servir e dar a sua vida em resgate por muitos. Se essas e inúmeras outras passagens semelhantes não significarem necessariamente uma substituição, elas perdem seu sentido ou tornam-se irrelevantes. Cristo não morreu apenas para nosso benefício, mas em nosso lugar e em nossa vez.

III. Não negamos que o uso da preposição grega huper (ὑπὲρ) e da latina pro seja variado e múltiplo. Muitas vezes, elas designam apenas o fruto e a utilidade para a coisa ou pessoa mencionada. É assim que Paulo diz em Colossenses 1:24 que ele completa o que resta das aflições de Cristo pelo corpo, isto é, para a utilidade e bem da Igreja, confirmando-a e edificando-a pelo seu exemplo de constância. Todavia, quando a Escritura trata da morte e dos sofrimentos de Cristo, devemos ir mais longe e considerar algo mais sublime. Devemos reconhecer que Cristo não padeceu apenas para nos encorajar ou para confirmar a verdade de sua doutrina. Ele sofreu como nosso Fiador, em nosso lugar. Ele suportou o que nós merecíamos para nos livrar da morte eterna, conduzir-nos à vida eterna e satisfazer plenamente a Justiça Divina.

IV. Muitos fatos demonstram que este é o sentido da frase. 1. O significado comum e frequente dessas palavras: em qualquer língua, quando alguém faz ou sofre algo em vez ou no lugar de outro, diz-se que o fez por ele. Escritores gregos e latinos usam essa linguagem constantemente. Em Eurípides (Alcestis), lemos frequentemente: morro por ti (θνήσκω ὑπὲρ σέθεν). O argumento da tragédia mostra que a esposa morre no lugar do marido. Demóstenes diz: eu farei isso por ti, significando "em teu lugar". Em Terêncio, lemos: eu moerei por ti. Virgílio escreve: uma só cabeça será dada por muitas. Cícero diz: Catão vale para mim por cem mil. Nas Escrituras Sagradas, isso é frequente. Davi, chorando por Absalão 2, diz em 2 Samuel 18:33: Quem me dera morrer por ti, ou seja, em teu lugar. Em Gênesis 47:16-17 3, José diz: dai o vosso gado e eu vos darei pão pelo vosso gado. Em Êxodo 4:16 4, Arão falará por ti ao povo, agindo em teu lugar. Em Números 8:16 5, Deus assume os levitas para si em lugar de todo primogênito. No Novo Testamento 6, em Romanos 9:3, Paulo deseja ser anátema por seus irmãos, não apenas em favor deles, mas em seu lugar, querendo resgatar a salvação dos judeus com sua própria perdição (se Deus permitisse). Em 2 Coríntios 5:20 7, diz-se que os Apóstolos exercem a embaixada por Cristo (ὑπὲρ χριστοῦ), ou seja, em Seu lugar, como se Deus exortasse por meio deles. Por fim, Romanos 5:7 8 diz que dificilmente alguém morreria por um justo. Isso não significa apenas "em favor" do justo, mas "em seu lugar", como a versão Siríaca traduz pela palavra chalaph, que denota troca. Concluímos que o uso solene dessas preposições em todas as línguas indica substituição, e não devemos nos afastar desse sentido, pois muitos fatos nos levam a ele.

V. O mesmo se prova pela preposição anti (ἀντὶ), usada neste argumento em Mateus 20:28. Cristo diz que veio para dar a sua vida em resgate por muitos (λύτρον ἀντὶ πολλῶν). Como já provamos anteriormente, essa palavra designa, de forma mais própria e comum, substituição e troca. 1 Coríntios 11:15 diz que o cabelo foi dado à mulher em lugar de (ἀντὶ) véu. Lucas 11:11 pergunta: dará ele uma serpente em lugar de (ἀντὶ) um peixe? Quando se refere a pessoas, essa partícula significa que uma sucede o lugar da outra. Mateus 2:22 diz que Arquelau reinou em lugar de (ἀντὶ) Herodes, seu pai. Em Mateus 17:27, Cristo ordena que Pedro dê a moeda por mim e por ti (ἀντὶ ἐμοῦ καὶ σοῦ). Escritores seculares também dizem "um em lugar de muitos" (εἷς ἀντὶ πολλῶν). Os adversários tentam fugir desse peso argumentativo, mas seus esforços são fracos. Crellius argumenta que anti às vezes é usado apenas como "por causa de". Mas, mesmo que isso ocorra com coisas, quando aplicado a pessoas, deve-se entender como substituição. Ele também alega que nos enganamos ao pensar em uma troca entre Cristo e nós, mas que a troca seria entre o "resgate" (a vida de Cristo) e nós (os cativos). No entanto, a própria Escritura estabelece a troca entre Cristo e nós ao dizer que ele se deu a si mesmo por muitos (Mateus 20:28) e que o justo padeceu pelos injustos (1 Pedro 3:18). Há aqui uma dupla troca: de coisa e de pessoa. Cristo assumiu nosso lugar, e a morte devida a nós foi compensada pela morte imposta a Cristo, nosso Fiador. Além disso, se o resgate é a própria pessoa de nosso Fiador, é inútil distinguir entre a coisa e a pessoa. Se a troca ocorre entre o preço e a pessoa remida, então há verdadeira satisfação. Satisfazer por nós é pagar o preço devido por outro para que o devedor seja liberto. Paulo confirma isso em 2 Coríntios 5:14: se um morreu por todos, logo todos morreram. Ele indica que Cristo substituiu os eleitos de tal modo que a morte que ele sofreu por eles lhes é imputada, como se eles mesmos tivessem morrido e satisfeito pelos seus pecados. Se Cristo assumiu nosso lugar e sofreu as penas que nos eram devidas para nos libertar, ele certamente satisfez a justiça. Pagar o que outro devia para libertá-lo é, por definição, satisfazer a dívida.

VI. Provamos também que essa frase deve ser entendida como substituição porque a Escritura a apresenta como algo próprio e peculiar a Cristo. Ela lhe compete de tal forma que não pode ser atribuída a outro sem grave ofensa a Ele. Ele é o único que morreu por todos (2 Coríntios 5:14). Isso é posto como o testemunho supremo de amor, ao qual nenhum outro se iguala (João 15:13). Paulo afasta isso de si mesmo em 1 Coríntios 1:13: Porventura foi Paulo crucificado por vós? Se essa frase designasse apenas "utilidade", e a morte de Cristo fosse diferente da morte dos Apóstolos apenas em grau, as palavras de Paulo seriam falsas, pois Paulo e muitos mártires morreram para a utilidade e benefício dos fiéis. O adversário tenta encontrar distinções para dar esse título apenas a Cristo, mas seus argumentos são irrelevantes. Ele afirma que a frase se aplica a Cristo porque ele foi o primeiro a morrer por todos. Mas se a diferença fosse apenas de ordem ou grau, os fiéis poderiam ser chamados de crucificados "por nós", ainda que não fossem os primeiros. Paulo, porém, nega a própria coisa a qualquer outro, tornando-a exclusiva ao Redentor e Senhor em cujo nome somos batizados. Ele conclui que ninguém pode ser dito crucificado por nós, exceto o Senhor Jesus, que adquiriu direito sobre nós. O adversário diz que Cristo morreu propriamente por alguém porque sua morte realmente preserva e arranca a pessoa da morte. Mas isso confirma nossa posição: se Cristo nos arrancou da morte e nos trouxe à vida sofrendo as penas que nos eram devidas e dando-se como resgate, então ele satisfez por nós. Nenhuma utilidade, por maior que fosse, tornaria essa frase peculiar a Cristo sem o conceito de substituição.

VII. Por fim, as próprias circunstâncias das passagens reforçam a força satisfatória da morte de Cristo por nós. Não se diz apenas que ele morreu por nós, mas que foi dado para nos remir (Tito 2:14), para nos justificar e reconciliar com Deus (Romanos 5:10), para nos purificar de todos os pecados e nos consagrar a Deus eternamente (Hebreus 9:14 e 10:10, 14). Ele é a vítima que assume o lugar do pecador e suporta a morte devida a este (Efésios 5:2). Essas coisas seriam ditas erroneamente se não houvesse substituição e, por meio dela, compensação da pena. Assim, formulamos o argumento: Aquele que sofreu a morte na cruz não apenas para nosso benefício, mas em nosso lugar e vez, é Salvador não apenas pelo exemplo, mas pelo mérito. Assumir o lugar dos pecadores para que sejam salvos não é apenas dar um exemplo, é apresentar mérito. E Cristo fez exatamente isso por nós.

VIII. Objeções: 1. A satisfação não pode ser deduzida dessas passagens porque os fiéis também são ordenados a dar a vida pelos irmãos (1 João 3:16), e Paulo escreve que completa o que resta das aflições de Cristo pelo seu corpo (Colossenses 1:24). Mas nem os fiéis nem Paulo satisfizeram por ninguém. 2. Se Cristo morreu em nosso lugar, não deveríamos estar sujeitos à morte e ao sofrimento, nem ser incentivados a dar nossa própria vida, pois sua morte em nosso lugar nos isentaria dessa necessidade. No entanto, Cristo nos exorta a tomar nossa cruz (Mateus 10:38), e os Apóstolos propõem seu exemplo para imitação (1 Pedro 2:21). 3. O sentido dessa locução deve ser tirado de outra semelhante, quando se diz que Cristo morreu e foi entregue pelos nossos pecados. Assim como essa frase não significa que Cristo morreu no lugar dos nossos pecados, mas apenas por causa deles, o mesmo se aplicaria a ele ter morrido por nós: apenas por nossa causa ou em nosso favor (1 Coríntios 8:11).

IX. Os heréticos erram ao pensar que a mesma frase deve sempre ter o mesmo sentido. É comum que uma palavra tenha significados diferentes dependendo do assunto e das circunstâncias. Mesmo que a preposição não indique substituição em outros lugares, eles falham se não provarem que ela não indica substituição neste argumento específico. Sobre a primeira objeção: a Escritura fala em sentidos muito diferentes quando diz que devemos morrer pelos irmãos e que Cristo morreu por nós. Nós devemos morrer pelos outros apenas na medida em que podemos ajudar sua salvação e a glória de Deus; mas não podemos dar um resgate (ἀντίλυτρον) por eles nem livrá-los da morte eterna (Salmo 49:8). Cristo fez ambos. Nossos irmãos não podem ser reconciliados com Deus pelo nosso sangue, mas fomos reconciliados pelo sangue de Cristo. Ninguém pode purificar o próximo do pecado pela sua própria morte, o que Cristo fez. João compara a morte de Cristo com a nossa em termos de exemplo de caridade, não de mérito de satisfação. Cristo desempenhou diferentes papéis para nossa salvação. 1. Justificação diante de Deus, removendo a culpa. 2. Santificação em nós, limpando a mancha do pecado. 3. Glorificação total, conduzindo-nos à felicidade. Assim, ele assumiu três relações: Primeiro, como Fiador e Patrocinador que satisfaz (Hebreus 7:22). Segundo, como Guia e Cabeça que flui influência (Efésios 1:22). Terceiro, como Mestre e irmão primogênito que dirige e precede (João 15:12). Como Sacerdote, ele cumpre pelo mérito; como Rei, pela eficácia; como Profeta, pela doutrina e exemplo. Consequentemente, sua morte teve um triplo fim: 1. Satisfação da justiça divina para expiar pecados passados (Mateus 20:28). 2. Impetração do Espírito Santo para purificar a mancha inerente (1 Pedro 2:24). 3. Demonstração de virtudes (caridade, paciência) para promover a santificação (1 João 3:16). Podemos ver sua morte como satisfatória (objeto da fé), eficaz (sustento da esperança) ou ideal (exemplo de imitação). Quanto à satisfação e eficácia, ela é exclusiva de Cristo e inimitável. Quanto ao exemplo, ela nos é proposta para sermos conformes à sua imagem. João foca no exemplo de caridade: se Cristo deu a vida por nós, devemos também nos sacrificar pelos irmãos, não para expiar pecados, mas para demonstrar amor cristão.

X. Quando os Apóstolos usam a morte de Cristo como base para exortações, eles não querem dizer que devemos sofrer exatamente do mesmo modo e com o mesmo fim que Cristo. Eles argumentam por analogia ou exemplo. Para um exemplo, basta uma semelhança geral. Somos chamados a ser perfeitos como Deus é perfeito (Mateus 5:48), embora a perfeição divina seja infinitamente superior à humana. João propõe o exemplo de Cristo para a caridade, mas não para que imitemos o que lhe é exclusivo, como a expiação dos pecados. A morte de Cristo e as nossas coincidem no geral (caridade, paciência), mas diferem imensamente no específico: quanto à causa eficiente (ele foi ferido por Deus como Juiz, nós somos castigados por Deus como Pai), quanto à natureza do sofrimento (ele bebeu o cálice da ira divina até as fezes, nós apenas provamos a borda, sem a amargura da maldição) e quanto ao fim (ele para satisfação, nós para cura; ele para redenção de servos, nós para edificação de irmãos).

XI. O texto de Colossenses 1:24 também não enfraquece nosso argumento. 1. Concordamos que Paulo não ofereceu nenhuma satisfação. As "aflições de Cristo" que ele completa não são os sofrimentos pessoais de Cristo em seu corpo físico, mas as aflições que Cristo sofre em seu corpo místico, a Igreja (2 Coríntios 1:7). 2. Paulo sofreu pela Igreja não para remi-la, mas para edificá-la, selando a verdade com seu sofrimento perante os homens. Ele não se substituiu no lugar da Igreja, mas agiu para o bem dela. Há uma diferença enorme: Cristo morreu para remir e reconciliar, o que Paulo afasta de si mesmo. Cristo morreu para nos libertar do império da morte, algo que Paulo nunca pretendeu fazer.

XII. Sobre a segunda objeção: devemos distinguir os fins formais pelos quais os fiéis ainda sofrem e morrem. Se Cristo sofreu esses males por nós como punição e resgate para satisfazer a justiça, não somos mais sobrecarregados com eles sob essa mesma razão de pena. Cristo cumpriu isso tão plenamente que acrescentar qualquer outro seria blasfêmia. Mas nada impede que os fiéis passem pelos mesmos males com outros fins: não como castigo, mas como remédio; não como suplício, mas como prova de piedade; não para ruína, mas como instrumento de imortalidade. A cruz para o criminoso é suplício; para o mártir, é combate e matéria de vitória. A morte para o ímpio é pena do pecado; para o fiel, Cristo tirou o aguilhão, tornando-a transição para a vida. Porque Cristo cumpriu a lei por nós para mérito, estamos livres da necessidade de cumpri-la para justificação, mas permanecemos obrigados à obediência para santificação e gratidão. Do mesmo modo, porque Cristo morreu por nós, não estamos mais sujeitos à morte maldita que ele suportou; não há mais condenação para os que estão em Cristo Jesus (Romanos 8:1). A Justiça não nos impõe penas punitivas, mas a Sabedoria divina nos envia aflições corretivas ou probatórias para conformar os membros à Cabeça.

XIII. A terceira objeção diz respeito à frase "Cristo morreu pelos nossos pecados" (Romanos 4:25), alegando que isso não implica substituição no lugar dos pecados. Isso é irrelevante. É ridículo dizer que alguém morre no lugar de pecados. O assunto não permite que Cristo morra "em vez" dos pecados, mas que morreu para expiá-los e removê-los. Ele é o Cordeiro que tira o pecado do mundo (João 1:29). Morrer "por nós" para nos salvar é diferente de morrer "pelos pecados" para destruí-los.

XIV. Embora a preposição, quando ligada aos pecados, não implique substituição, ela tem grande peso para provar a satisfação. Ela pode indicar a causa impulsiva (por causa de) ou a causa final (para o fim de). Alguns preferem o sentido final (pela expiação dos pecados), mas o sentido mais adequado é o de causa impulsiva e meritória. Quando se trata de pena, os pecados são a causa da pena pelo modo de mérito. Na Escritura, o sacrifício "pelo pecado" é oferecido por causa do pecado cometido. Morrer e sofrer "pelos pecados" no estilo do Espírito Santo significa sofrer e pagar a pena e o castigo do pecado (Levítico 26:18, 28; Deuteronômio 24:16). Nossos pecados, que mereciam a morte pelo rigor da justiça, moveram Cristo a se oferecer por nós e a receber em si a pena devida. Embora os pecados mereçam a morte, eles não agiram sobre Cristo por si mesmos (pois ele era santíssimo), mas por meio da graça de Deus e da misericórdia de Cristo, que se apresentou como Fiador e Mediador (Hebreus 7:22). Se ele sofreu por causa dos pecados (pelo demérito e culpa deles), e essa culpa só poderia obrigá-lo à morte se lhe fosse imputada como Fiador, então Cristo, ao morrer por nós, assumiu nosso lugar e suportou a pena que nos era devida.

XV. Os adversários tentam enfraquecer esse argumento. 1. Alegam que o fim é apenas nos afastar dos pecados, incitando-nos ao ódio ao vício e ao estudo da virtude (Gálatas 1:4; Tito 2:14). 2. Dizem que ele morreu para nos dar certeza do perdão e obter poder para nos perdoar. 3. Afirmam que, mesmo que se trate de causa antecedente, seria apenas uma "ocasião" que não implica satisfação nem pena propriamente dita. Citam 1 Reis 14:16, onde Deus entrega Israel por causa dos pecados de Jeroboão, alegando que Israel não sofreu para satisfazer pelos pecados de Jeroboão, mas apenas por ocasião deles. Dizem que as aflições de Davi por seu adultério eram castigos para correção, não para satisfação da justiça (Salmo 39:11).

XVI. Essas são meras evasivas. A causa final que eles propõem (morrer para nos afastar do pecado) não pode ser o sentido principal sem absurdos. 1. Não se diria que ele sofreu "pelos pecados", mas "pelo que se opõe ao pecado" (sua destruição). Um médico não age "por causa da doença" como um fim, mas "para a expulsão da doença" e para a saúde. 2. Todo fim tem natureza de bem e é desejável; os pecados não podem ter essa relação. 3. O fim não existe no ato quando o agente opera, mas os pecados já existiam como causa; ele morreu porque os pecados existiam, para destruí-los. 4. Não negamos que o estudo da vida nova é um fruto da morte de Cristo. Ele veio destruir as obras do diabo e trouxe tanto o resgate (sangue) quanto a lavagem (água). Mas disso não se segue que sua morte não foi uma satisfação pelos pecados cometidos. Ele olha para os pecados cometidos para obter o perdão (sacrifício propitiatório) e olha para os pecados futuros para nos afastar deles (sacrifício meritório que obtém a graça da santificação). Um uso é terapêutico, o outro é profilático (Tito 2:14). O fim secundário não exclui o primário (satisfação), do qual o segundo depende.

XVII. Muito menos se pode dizer que ele morreu "pelos pecados" apenas para nos dar certeza do perdão. A confiança no perdão vem da morte de Cristo porque ele realmente obteve o perdão na cruz ao sofrer nossas penas. É absurdo dizer que ele morreu para obter o poder de perdoar. Se ele morreu para dar fé do perdão, o perdão deve ser anterior à morte (em ordem de natureza). Se morreu apenas para obter o poder de perdoar, o perdão seria posterior. Mas Cristo já exercia esse poder na terra, comprovando-o com milagres (Mateus 9:5-6). O direito de perdoar é propriedade de sua divindade, não fruto de sua morte. Ele perdoa não porque morre, mas porque é Deus.

XVIII. Sobre a terceira objeção: 1. Se Cristo morreu "por ocasião" dos pecados, então a ocasião antecede a execução, e o pecado não é apenas um fim. 2. Cristo morreu pelos pecados como o sacrifício era feito pelo pecado; o pecado era a verdadeira causa impulsiva para o sacrifício. 3. Em 1 Reis 14:16, o pecado de Jeroboão que Israel imitou merecia punição; Deus castigou o povo tanto pelos seus pecados quanto pelos pecados alheios nos quais eles participaram. Os próprios adversários admitem que alguém pode ser punido por pecados alheios se houver afinidade na culpa.

XIX. O texto do Salmo 39:11 ("ao castigares o homem por causa da iniquidade") na verdade nos ajuda. Davi quer dizer que, se Deus punisse o pecado com todo o rigor da justiça, o pecador seria destruído imediatamente. Por isso, Davi pede misericórdia para que o castigo seja paterno e moderado, não rígido segundo o demérito do pecado (Salmo 130:3). Embora nem todo sofrimento em homens comuns seja satisfação (ímpios são punidos sem satisfazer, fiéis são castigados sem condenação), em relação a Cristo a situação é diferente. Nele, o castigo não pode ser separado da pena, pois ele não recebeu perdão como os fiéis; ele foi castigado por Deus como Juiz, por justiça, tornando-se maldição e pecado. Ele suportou a pena plenamente e a esgotou, o que caracteriza satisfação. Sempre que se diz que alguém sofre "pelos pecados", os pecados são estabelecidos como causa impulsiva e meritória. Isso prova que houve uma troca de débito entre nós e Cristo.

XX. Isso fica ainda mais claro na terceira ordem de passagens, que unem a substituição da pessoa e a compensação do débito: quando se diz que Cristo se tornou maldição e pecado por nós (Gálatas 3:13; 2 Coríntios 5:21). Em Gálatas 3:13, Paulo diz: Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por nós; porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado no madeiro. 1. O que Cristo fez: nos resgatou. 2. De onde: da maldição da lei. 3. Como: fazendo-se maldição por nós. O termo "resgatar" indica satisfação, pois redenção implica um preço. Não é uma redenção metafórica ou gratuita (como quando se diz para comprar sem dinheiro), mas uma redenção própria: fomos comprados por preço (1 Coríntios 6:20), remidos pelo sangue (1 Pedro 1:18). Cristo deu-se como resgate (ἀντίλυτρον), cancelou o escrito de dívida contra nós (Colossenses 2:14) e pagou o que não roubou (Salmo 69:4).

XXI. Fomos remidos da maldição da Lei. Esta maldição é a sentença de Deus como Juiz que condena os transgressores. Inclui todas as penas estabelecidas na Lei, físicas e espirituais, de perda e de sentido. A maior delas é a ira de Deus. Como a sentença da Lei era imutável e Cristo não veio para dissolvê-la, mas para cumpri-la (Mateus 5:18), ele só poderia nos remir assumindo essas penas sobre si mesmo, por justiça (Romanos 8:3-4).

XXII. Paulo demonstra isso ao dizer que ele se fez maldição. 1. Usa o abstrato ("maldição") em vez do concreto ("maldito") para dar ênfase máxima. Ele sofreu toda a calamidade que a Lei ameaçava aos transgressores. Como o Filho amado pôde ser maldição? Ele sempre foi amado pelo Pai em sua pessoa natural, mas na sua função forense como Mediador e Fiador, ele foi contado entre os pecadores. Ele não perdeu a graça de Deus, mas suportou Sua ira. Se ele não tivesse sentido a ira de Deus em nosso lugar, não teria nos livrado dela. Ele foi ferido por nossos pecados e experimentou Deus como um Juiz irado. Como disse Agostinho: sempre bendito em sua justiça, maldito por causa de nossos pecados na morte assumida como nossa pena. Ele assumiu a maldição devida a nós para vencê-la e aboli-la, tornando-se fonte de bênção para os crentes.

XXIII. Isso rebate a calúnia dos papistas contra Calvino, que afirmou que Cristo sentiu as penas de Deus como se estivesse em estado de condenação. A própria Escritura usa termos de condenação (o ladrão na cruz diz que eles estavam na mesma condenação). Pais da Igreja como Tertuliano, Cipriano e Gregório Magno usaram linguagem semelhante, dizendo que Cristo tomou a forma de um homem condenado para remir os condenados. Até teólogos católicos como Medina, Cardeal Cusa e Ferus admitiram que Cristo sofreu algo semelhante às penas dos condenados (horror da morte, horror do inferno) para vencê-los. Se Paulo diz que ele se tornou "maldição", por que não poderia ser dito "condenado" nesse mesmo sentido jurídico? Ele não foi condenado absolutamente (por seus próprios pecados), mas hipoteticamente (por pecados alheios, segundo a justiça divina), para vencer a condenação. Calvino não disse que Cristo caiu em desespero, mas que sentiu a ira e maldição do Pai que nos eram devidas.

XXIV. Paulo prova que Cristo se tornou maldição citando Deuteronômio 21:23: maldito todo aquele que pende no madeiro. Paulo traduz o sentido, não apenas as palavras precisas. Surge a questão: como Paulo aplica uma lei sobre suspensão em um madeiro ao suplício da cruz? A crucificação era um costume romano, não dos judeus antigos. Os judeus tinham quatro tipos de execução: apedrejamento, queima, decapitação e estrangulamento. A cruz foi imposta por Pilatos, conforme a profecia de Cristo. Paulo pode aplicar a lei da suspensão à cruz porque o gênero (suspensão) inclui a espécie (crucificação). O tipo de ignomínia é o mesmo: ser pendurado em um madeiro. O Espírito Santo já visava a morte na cruz quando enunciou aquela lei.

XXV. Por que os pendurados eram chamados malditos? Para os judeus, era um espetáculo terrível ver um homem feito para andar na terra pendurado no ar, exposto ao sol e aos olhos de todos como um exemplo de pecado horrendo. Para os gentios, a cruz era o "suplício servil", reservado a escravos e aos criminosos mais vis (latrões, sediciosos). Cícero chamava a cruz de o suplício mais cruel e terrível, e a lei romana a chamava de "suplício supremo".

XXVI. Assim, a cruz era maldita por natureza (pela sua crueldade e infâmia) e pela Lei. Pela Lei, porque era aplicada a crimes atrozes que atraíam a ira de Deus sobre o povo. Mas, acima dessas razões, havia uma razão mística: Deus quis prefigurar o gênero de morte de Cristo. Cristo escolheu essa morte ignominiosa para assumir a maldição que nos era iminente. Ele não foi maldito porque pendeu na cruz; ele pendeu na cruz porque assumiu nossa maldição e sentiu a ira de Deus como nosso Fiador. Isso é um argumento fortíssimo para a satisfação: quem assume a maldição devida a outros para livrá-los e dar-lhes bênção, não morre apenas como exemplo, mas como mérito e satisfação.

XXVII. Objeções: 1. Cristo não poderia sofrer a maldição devida a nós, pois esta seria a morte eterna, e ele ressuscitou. 2. Paulo estaria apenas fazendo um jogo de palavras elegante, dizendo que Cristo sofreu uma maldição "judicial" para nos livrar da "verdadeira" maldição, sem que Cristo tenha sofrido realmente a maldição divina. 3. Essas discussões sobre a maldição da Lei se aplicariam apenas aos judeus, não aos gentios.

XXVIII. Refutação: 1. Se Cristo não sofresse a maldição devida a nós, não seríamos libertos. A morte eterna pode ser vista pela intensidade (extensão das dores e sentido da ira de Deus) ou pela extensão (duração eterna). A duração eterna é secundária, fruto da fraqueza da criatura que não consegue esgotar a pena. Como Cristo é uma pessoa divina, ele pôde sofrer em um tempo finito dores de valor infinito. Sua morte de três dias equivaleu à morte eterna em valor e peso. Ele sofreu a agonia, o suor de sangue e o abandono do Pai, o que demonstra que ele satisfeu a Lei.

XXIX. 2. É falso dizer que Cristo sofreu apenas uma maldição "judicial" diferente da nossa. Paulo diz que ele nos remiu da maldição da Lei fazendo-se maldição. Se fosse uma maldição diferente, não haveria libertação. Os Pais da Igreja afirmam que ele tomou nossa maldição devida para aboli-la. A cruz não foi a causa da maldição, mas o símbolo dela.

XXX. 2 (continuação). É falso que a morte de Cristo não teve caráter de maldição. O horror de Cristo no Getsêmani e seu clamor na cruz mostram que ele viu algo muito mais terrível do que a morte física (que muitos mártires enfrentaram com alegria). Ele enfrentou a própria ira de Deus. A morte dos mártires não é chamada de maldição porque eles foram recriados interiormente pela graça, enquanto Cristo foi privado de consolo para sofrer nossas penas. A morte dele foi jurídica e penal; a deles foi testemunho e prova de fé.

XXXI. 3. É falso que as discussões de Paulo sobre a Lei se aplicam apenas aos judeus. Paulo trata da Lei Moral, à qual todos os homens estão sujeitos. Ele diz expressamente em Gálatas 3:14 que Cristo se fez maldição para que a bênção de Abraão chegasse aos gentios. Ele remiu da maldição todos aqueles a quem ele dá a bênção, tanto judeus quanto gentios.

XXXII. O outro texto é 2 Coríntios 5:21: Àquele que não conheceu pecado, o fez pecado por nós; para que nele fôssemos feitos justiça de Deus. 1. Fazer-se pecado é uma expressão enfática. No Antigo Testamento, "pecado" muitas vezes denota a pena do pecado ou a vítima expiatória (Gênesis 4:7; Zacarias 14:19; Hebreus 9:28). Paulo usa a metonímia do adjunto pelo sujeito: Cristo foi feito pecado porque, como vítima piacular, as penas dos pecados lhe foram impostas para aplacar a divindade e purificar nossos pecados.

XXXIII. 2. Foi o próprio Deus quem o fez pecado. Paulo mostra que a reconciliação se baseia na Redenção ordenada por Deus. Deus lançou sobre ele a iniquidade de todos nós (Isaías 53:6) e não o poupou (Romanos 8:32). Aqui, "fazer" significa "ordenar" ou "constituir". Deus constituiu seu Filho como vítima piacular. 3. Paulo destaca a inocência de Cristo: ele não conheceu pecado. Ele não conheceu o pecado na prática ou na experiência, pois era santíssimo. No entanto, foi feito pecado em uma constituição jurídica e forense. O pecado pode ser visto como mancha inerente (qualidade) ou como culpa e reatidão (relação jurídica). Cristo não conheceu o primeiro, mas foi feito o segundo de forma imputativa. Se o inocente sofreu como vítima piacular por nós, ele morreu para satisfação.

XXXIV. 4. O fim de ele ter sido feito pecado é para que fôssemos feitos justiça de Deus nele. Somos justificados não por uma justiça inerente em nós, mas por uma justiça que está em Cristo e nos é imputada. Assim como fomos feitos justiça por imputação (pela justiça de Cristo aplicada a nós), Cristo foi feito pecado por imputação (nosso reatidão foi lançado sobre ele como Fiador). Agostinho explicou bem: Ele foi feito pecado e nós justiça; nem a nossa, mas a de Deus; nem em nós, mas nele; assim como ele foi feito pecado, não o seu, mas o nosso. Houve uma troca admirável: ele recebeu nossos males para nos dar seus bens. Recebeu a maldição para nos dar a bênção. Essa troca exige um vínculo entre as pessoas (união de natureza e união mística), mas difere porque nele a imputação foi por justiça, e em nós por misericórdia. Ele foi feito pecado para aboli-lo; nós somos feitos justiça para preservá-la.

XXXV. Os adversários tentam cavilar: 1. Dizem que "ser feito pecado" não implica substituição, mas apenas que ele sofreu uma aflição "por ocasião" do pecado, ou que foi tratado "como se" fosse pecador. Citam 1 Reis 1:21, onde Bate-Seba diz que ela e Salomão seriam "pecadores" (tratados como culpados). Dizem que "Justiça" também significa apenas ser tratado com os benefícios da justiça, sem mérito de outrem. 2. Concluem que Cristo foi feito pecado apenas porque Deus permitiu que ele fosse morto por homens como se fosse um criminoso.

XXXVI. Essas são nuvens fáceis de dispersar. 1. Não há base na Escritura para dizer que "pecado" significa uma aflição que não tenha caráter de pena. Em todos os lugares citados, refere-se à calamidade imposta como punição. No caso de Bate-Seba, ela temia ser punida sob a acusação de um crime (traição). Da mesma forma, Deus não declara justos aqueles que não possuem justiça alguma (própria ou imputada), pois seu julgamento é segundo a verdade (Romanos 2:2).

XXXVII. 2. A interpretação de que ele foi apenas "tratado como" pecador pelos homens é fria e falsa. Primeiro, porque ele foi feito pecado por Deus, não pelos homens. Deus não agiu para que Cristo fosse tido como ímpio, mas sim para demonstrar Sua justiça. Segundo, a antítese de Paulo mostra que somos feitos justiça do mesmo modo que ele foi feito pecado. Somos feitos justiça não pela falsa estima dos homens (que muitas vezes nos odeiam), mas pela verdadeira declaração de Deus que nos justifica. Portanto, Cristo foi feito pecado não pela opinião humana, mas porque, no julgamento de Deus, nossa culpa foi lançada sobre ele.

Bernardo, Epístola 190, a Inocêncio: O Homem que devia, o Homem que pagou. Pois se um, diz ele, morreu por todos, logo todos morreram; para que, claramente, a satisfação de um seja imputada a todos, assim como aquele único carregou os pecados de todos; e não se encontre mais um que pecou e outro que satisfez, pois a cabeça e o corpo são um só Cristo.

COROLÁRIOS DO RESPONDENTE

I. Para satisfazer por nós, Cristo devia ser verdadeiro Deus? Afirmamos. II. O fundamento da nossa Justificação diante de Deus é apenas a Justiça de Cristo imputada a nós, e não qualquer justiça habitual ou inerente infundida por Deus ou prestada por nós? Afirmamos. III. Dizemos corretamente que somos justificados apenas pela fé, embora ela nunca esteja nem possa estar sozinha? Afirmamos. IV. A fé que apreende a Satisfação de Cristo é a causa impulsiva da Eleição? Negamos. V. A justificação dos fiéis é imutável? Afirmamos. VI. O fiel pode ter certeza de sua justificação e salvação? Afirmamos.


  1. Rom. 8:32; Rom. 5:6, 8; 1 Ped. 3:18; Heb. 2:9; Mat. 20:28; Col. 1:24. 

  2. 2 Sam. 18:33. 

  3. Gen. 47:16-17. 

  4. Ex. 4:16. 

  5. Num. 8:16. 

  6. Rom. 9:3. 

  7. 2 Cor. 5:20. 

  8. Rom. 5:7.