Skip to content

DISPUTAÇÃO OITAVA Que é a Sexta SOBRE A VERDADE DA SATISFAÇÃO DE CRISTO.

Respondendo BENEDICTO CALANDRINO, Genebrino.

I. EMBORA aqueles vários argumentos que foram trazidos nas Disputações anteriores pudessem ser suficientes para fundamentar a Sentença Ortodoxa, Sobre a Verdade da Satisfação de Cristo, porque, todavia, o Espírito Santo empregou tamanha ἀκρίβειαν [precisão] ao transmiti-la, que nada omitiu pelo qual pudesse plenamente estabelecer a fé dela em nossas almas e ocorrer contra a impiedade dos contraditores, não deve parecer admirável se retomarmos de novo esta importantíssima questão, sobre a qual até aqui já falamos bastantes palavras, e acrescentarmos ainda algumas razões às precedentes, a título de acréscimo, bem como a reivindiquemos das exceções dos Adversários.

II. Para que, portanto, prossigamos com a teia que começamos a tecer, a Sexta Classe de argumentos deve ser instruída por nós nesta disputa, a qual buscamos da colação dos Sacrifícios do V. T., visto que eles ensinam de muitas maneiras tanto a sub-rogação que buscamos, quanto a Satisfação. Seja este para nós o argumento principal: Aquele que, como Sacerdote e Vítima, foi prefigurado sob o Ant. Test. e oferecido sob o N., levou nossos pecados sobre o madeiro; certamente ele não morreu apenas para nosso bem, a saber, para confirmação da doutrina e exemplo de paciência, mas também substituído em nosso lugar, expiando plenamente os pecados, verdadeiramente satisfez por nós. Ora, Cristo prestou isso mesmo por nós. Logo, etc. A verdade deste raciocínio apoia-se em dois fundamentos: O primeiro é que Cristo foi verdadeiramente Sacerdote e Vítima, e como tal se ofereceu; o segundo é que cada uma dessas σχέσιν [relações] importa necessariamente na expiação do pecado e, consequentemente, na Satisfação.

III. E quanto àquele primeiro ponto, quase não é necessário que nos demoremos em demonstrá-lo. Pois, além de que os próprios Adversários com quem lidamos não o negam, a Escritura é aqui tão clara que procurar luz ao meio-dia seria duvidar ainda disso; pois, para que não digamos agora que esta é uma parte não pequena do múnus Mediador, a qual lemos ter sido confiada a Cristo por expressa sanção de Deus, e até por juramento para atestar sua eternidade (Sl 110:4), quem não sabe que este foi o objetivo principal de todo o Sacerdócio Levítico e dos Sacrifícios que sob a Lei eram continuamente oferecidos; para que, sob estas como que sombras e figuras, Cristo, o sumo Pontífice da Igreja, e seu Sacrifício expiatório que deveria realizar na morte, fossem adombrados? Como o Apóstolo ensina extensamente na Epístola aos Hebreus. Nem por outra causa lhe é atribuído tantas vezes o nome de Sacerdote e de Cordeiro, senão para designar cada uma dessas partes de seu múnus, que foi necessária para realizar a obra de nossa Redenção e Reconciliação; pois, para aplacar a ira da Divindade e conciliar sua graça, deviam ser sofridas as penas que eram impostas pelas Sanções da Lei, e executadas as ações que os mandamentos da Lei exigiam para alcançar a vida, de modo que de ambas, simultaneamente, surgisse a Satisfação meritória de nosso Fiador, que impetrasse tanto a libertação da morte iminente quanto o direito à vida perdida; devia em Cristo concorrer a razão tanto do sacerdócio quanto da vítima: devia ser Sacerdote para oferecer, Vítima para ser oferecida: Sacerdote para agir, Vítima para sofrer, Sacerdote no espírito, Vítima na carne, o que vemos ter sido de fato cumprido nele quando pelo Espírito eterno se ofereceu (Heb. 9:14 e 10:10-12); visto que não precisou do sangue alheio de touros e bodes como os Sacerdotes Levíticos, mas ele mesmo, sendo Sacerdote e Vítima, tendo obtido eterna redenção pelo próprio sangue, abriu para si o caminho para o céu (ibid.); e em outro lugar diz-se ter-se entregado como προσφορὰν καὶ θυσίαν ΘΕΩ [oferta e sacrifício a DEUS]: Ef. 5:2; e ter-nos remido com seu sangue (1 Pe 1:18-19), o que certamente não poderia ser dito se aquele duplo respeito de Sacerdote e de Vítima não tivesse lugar em Cristo morrendo.

IV. O outro ponto, porém, sobre o qual se disputa principalmente, pode ser comprovado por mais de uma razão. Primeiro, a natureza do Sacerdócio exige isto. Pois se ele foi Sacerdote, não deve apenas ensinar e revelar a vontade do Pai e confirmar sua doutrina, mas também oferecer a Deus algum sacrifício para a expiação do pecado: pois umas são as partes do Sacerdote, outras as do Profeta. A razão do múnus Profético consiste propriamente naquelas coisas que devem ser feitas por Deus perante os homens, pois ele é o intérprete da vontade Divina, a quem cabe cuidar para que os homens entendam o que lhes é necessário tanto para crer quanto para fazer para a salvação: Portanto, quando a Escritura fala do múnus profético de Cristo, ensina que Deus poria em sua boca as suas palavras e ordena que seja ouvido reverentemente, ameaçando que penas seriam exigidas daquele que não lhe desse ouvidos (Deut. 18:18). Mas o múnus do Sacerdote, propriamente e em distinção ao Profético, ocupa-se naquelas coisas que devem ser feitas perante Deus, καθίσταται [é constituído], diz o Ap. Heb. 5:1 e 8:3, τὰ πρὸς τὸν Θεὸν [nas coisas relativas a Deus], para que, a saber, ofereça dons e sacrifícios pelos pecados e, assim, realize algo pelo qual Deus se torne propício ao homem e se reconcilie. Sendo, pois, Cristo um Sacerdote de verdadeiro nome, não tem apenas o que ensinar aos homens, ou o que interceder por nós perante Deus, mas também que ofereceu um verdadeiro e real sacrifício por nossos pecados, de onde se segue que Cristo pretendeu na sua morte algo inteiramente diferente da confirmação da doutrina, como quereria Socino, pois assim teria morrido apenas como Profeta, não como Sacerdote e Vítima. Acrescente-se também que Cristo não foi Sacerdote apenas para aqueles homens que viveram depois dele, mas também para aqueles que viveram sob o V. T., visto que ele é o único Mediador de todos (1 Tim. 2:5), que é o mesmo ontem e hoje (Heb. 13:8), o único nome no qual podemos obter a salvação (Atos 4:12), por cuja graça eles são salvos igualmente conosco (Atos 15:11). Poder-se-ia, porventura, dizer que Cristo salvou pelo só exemplo aqueles a quem tal exemplo nunca foi proposto? Certamente ninguém dirá. Salvou, portanto, pelo mérito, enquanto sua morte devia interceder como Redenção dos pecados precedentes sob o Ant. T. (Heb. 9:15, Rom. 3:25), de modo que, pela virtude do pagamento a ser feito pelo Fiador em tempo certo, o devedor é libertado do cárcere.

V. Isso mesmo prova ainda mais lucidamente a σχέσις [relação] de Vítima que Cristo assumiu neste negócio: Primeiro, porque entre as gentes foi recebido por comum consenso que a vítima é oferecida em lugar do pecador para aplacar a Divindade ofendida e isentar o próprio réu da pena, o que se colhe como vulgaríssimo até destas palavras do poeta:

Se tu mesmo és o culpado, por que morre a Vítima por ti? É estultícia esperar a salvação pela morte de outrem.

Por ti, isto é, em teu lugar e vez: nem outra parece ter sido a causa e origem daquela horrenda ἀνθρωποθυίας [sacrifício humano] que outrora obteve entre tantas Gentes, mesmo as mais celebradas. Pois, como estas, por instinto da natureza, não ignorassem que, quanto maior fosse o que se desse a Deus, tanto mais facilmente se poderia impetrar o perdão, especialmente se houvesse alguma igualdade do ἀντίλυτρον [resgate] com aquilo que se redimia, se um homem fosse a hóstia pelo homem, por isso, da matança de gado na realização de expiações, chegou-se à matança de homens: César traz a causa falando dos Gauleses: Pela vida dos homens, diz ele, julgam que a vontade dos Deuses Imortais não pode ser aplacada a menos que a vida de um homem seja devolvida. Os primeiros que se encontram fazendo isso são os Fenícios ou Cananeus, que se sabe pelas Escrituras costumavam aplacar Moloc, que foi Saturno, pela matança de seus filhos; ao que Tertuliano (Apol. c. 9) referindo-se diz que Saturno deleitou-se primordialmente com a vítima humana, e por isso foi chamado de túmulo dos filhos. Daí o costume passou para os Tirios e Cartagineses, como Justino, seguindo Diodoro, relatou no liv. 18: Imolavam homens como vítimas e levavam impúberes aos altares, implorando a paz dos Deuses com o sangue deles; Plínio narra que esse gênero de sacrifícios foi outrora muitíssimo comum pela Grécia, Itália, Sicília, nem foi revogado em Roma antes do ano 657. A isto pertencem também aquelas devoções públicas de homens pelas quais os antigos julgavam aplacar os Deuses, o que Cícero nota sobre os Décios (l. 3 de Nat. Deor.) e Lívio os chama de expiações de toda a ira dos Deuses, enquanto os próprios homens, devotando-se pela pátria, atraíam sobre a própria cabeça a pena que pendia sobre os outros, desviando-a destes. Ambos os costumes não teriam prevalecido entre as Gentes se não fosse constante entre elas a sentença de que a vítima ou o sacrifício expiatório submete-se ao lugar do pecador para sua Redenção.

VI. Segundo, Deus transmite mais expressamente esta sub-rogação e satisfação nos Sacrifícios Levíticos: Primeiro, na vítima íntegra e pura oblação que devia ser feita pelo réu, pois devia dar do seu a vítima para testificar que ela era suposta em seu lugar para sofrer a pena que lhe era devida: Segundo, na efusão de sangue, que teve a imagem mais expressiva da morte e do suplício merecido, imão, demonstra não obscuramente a substituição, enquanto o sangue é posto pela alma ou vida do homem (Lev. 17:11): A alma, diz, de qualquer carne está no sangue; eu, porém, o destinei para vós no altar para fazer expiação pelas vossas almas, pois o sangue é o que faz expiação pela alma. Do que consta que o sangue foi destinado por Deus para a expiação das Almas, porque nele está a alma da carne, isto é, a sua vida, não porque o sangue seja propriamente ou a alma ou a vida animal, mas por causa dos espíritos vitais que são os órgãos da alma e os veículos de sua virtude, de onde, derramado o sangue, é necessário que ao mesmo tempo a vida se extinga; e esta foi a razão pela qual em Gênesis 9, onde se concede livre o comer de animais, isto é proibido expressamente: não se coma a carne com o sangue, porque a sua alma é o seu sangue ou está no sangue. Assim, da lei antiquíssima propagada a todos os povos, o sangue está no lugar da alma, ao que se refere aquele verso Virgiliano:

Com sangue deve-se buscar o retorno e com uma alma lituar.

Se, portanto, o sangue é dado para expiar as Almas porque está no lugar da Alma, certamente a Alma ou vida do animal é dada e oferecida pela alma ou vida do homem, e o animal, sustentando o lugar e a vez do próprio homem, morre por ele: Nem por outra causa se diz em Heb. 9:22 que sem efusão de sangue não se faz remissão, senão porque Deus não pode perdoar sem prévia satisfação, que exige necessariamente a morte violenta e judicial designada pelo sangue devido ao pecador. Terceiro, o Rito da imposição das mãos, costumado ser usado naqueles sacrifícios, confirma claramente isso mesmo; sobre o qual Lev. 1:4 e Êxod. 29:10 e em outros lugares mais de uma vez. Pois por que aquele que oferecia, ou por si ou pelo sacerdote, era obrigado a impor a mão sobre a cabeça da vítima? Isso era feito, sim, para maior consagração da própria coisa, para que ficasse testificado por esta χειροθεσίαν [imposição de mãos] que o animal se tornava sagrado e próprio para Deus, mas principalmente indicava a substituição da vítima no lugar do pecador, e a transferência da culpa deste para aquela, daí que era chamada de portadora de pecados, e até pecado e a própria execração. Quarto, a Confissão dos pecados que era exigida ou do Sacerdote ou do povo, sobre a qual Lev. 16:21, na descrição do solene e anual sacrifício expiatório: Arão imporá as mãos e confessará todas as iniquidades dos filhos de Israel. Por que assim? Para que, a saber, fossem significados todos os pecados que deviam ser expiados como devolvidos sobre ela, e a purgação deles fosse indicada como buscada da própria vítima: Alexandre ab Alexandro (l. 4, c. 17) nos ensina que o uso desta confissão nos ritos sagrados existia entre os gentios: quem vai realizar uma coisa divina deve, para aliviar sua culpa, em primeiro lugar dizer-se réu e arrepender-se da falta e confessar o cometido, etc. Quinto, para isto concorre também aquela deprecação da praga Divina que costumava ser feita no caso de homicídio (Deut. 21:8). Pois, não sendo encontrado o homicida, o povo que estava próximo ao traspassado devia ser purgado pelo abate de um animal, para que não carregasse a culpa do sangue inocente; de outro modo, a terra não poderia ser expiada do sangue derramado senão pelo sangue do derramador, como diz a lei (Núm. 35:33). Por que, então? Se pela só misericórdia de Deus, sem nenhuma satisfação, essa culpa pudesse ser retirada? Mas o povo reconhece que este sacrifício é oferecido para retirar a culpa: Expia, dizia, o teu povo, ó Deus, aceitando a vítima oferecida, e não imputes o sangue inocente, demonstrando, a saber, que esta vítima sustenta a vez do povo nesta parte para retirar a culpa que, de outro modo, lhes teria sido imposta.

VII. Sexto, finalmente, o Efeito daqueles Sacrifícios prova isto clarissimamente, a saber, a Expiação e a Litação que neles costumava ocorrer; pois se o rito sagrado fosse devidamente realizado, e a vítima fosse dita aceitável a Deus לרצון (Lev. 1:3) e a oblação em odor de boa fragrância ניחוח ריח (Lev. 1:13, 17), seguia-se a remissão do pecado com a libertação do culpado, de onde em Lev. 4, 5, etc., se lê por toda parte: O sacerdote o expiará e ser-lhe-á perdoado: a isto os Gregos chamaram καθαίρειν [purificar], os Latinos Litare [litar], a saber, aplacar a Deus pelo Sacrifício devidamente realizado; Nem todo aquele que sacrifica, também lita, diz Plauto em Pœnulo: se por Hércules isso alguma vez foi feito, então que Júpiter faça que eu sempre sacrifique e nunca lite: sacrificando buscamos o perdão, mas litando o impetramos, como bem observa Nônio. Além disso, esse efeito é expresso por duas vozes, na maioria das vezes entre os Hebreus, כפר [kipper] e חטא [chata], as quais, embora sejam usadas promiscuamente para expiar, aplacar, reconciliar, todavia, peculiarmente, a primeira parece referir-se à pessoa, a posterior à própria coisa e ao fato, que é expiado pela luíção da pena sucedânea. Os Gregos costumam descrevê-lo por três vocábulos principais correspondentes a esses dois: primeiro, por ἱλασμὸν [hilasmón], aplacação e propiciação. 2. por καθαρισμὸν [katharismón], ἁγιασμὸν [hagiasmón], ἄφεσιν [áphesin], purgação, remissão, santificação. 3. por ἀπολύτρωσιν [apolýtrosin], redenção, libertação; pelos quais são designadas apropriadamente as três principais σχέσεις [relações] dos sacrifícios; pois referiam-se a Deus, ao pecado, ao homem: a Deus para que a ira ofendida fosse aplacada, ao pecado para que a culpa admitida fosse expiada, ao homem para que a pessoa ré impetrasse o perdão e fosse libertada da pena. Três coisas, portanto, eram obtidas por esses sacrifícios: a aplacação de Deus, a expiação do pecado, a libertação do homem; mas nenhuma destas três pôde ser obtida sem alguma satisfação, pois nem a pessoa pôde ser libertada sem a sub-rogação da vítima, nem Deus aplacado sem a efusão de sangue, nem o pecado purgado sem o sofrimento da pena; de onde coligimos que nos Sacrifícios tanto a sub-rogação quanto a satisfação, ao menos típica e cerimonial, tiveram lugar.

VIII. Quando, portanto, Cristo, como admitem os próprios Adversários, ofereceu tal Sacrifício expiatório, não se pode negar que Ele até ali satisfez, substituído em nosso lugar. E certamente o que outrora era atribuído às vítimas, observamos não poucas vezes ser atribuído também a Cristo, mas por uma razão muito mais excelente. Ele é a Vítima celeste ἄμωμος [imaculada] e ἄσπιλος [sem mancha] que, substituída por Deus em nosso lugar, devia ser oferecida por nós (Rom. 8:3; Ef. 5:2; Heb. 9 e 10) e verdadeiramente foi entregue. Pois Deus, que rejeitava as vítimas humanas, e que testemunhou muitas vezes que não se satisfazia com o sangue de touros e bodes, aquiesceu apenas na θεανθρωποθυίᾳ [sacrifício do Deus-Homem], e proveu para si mesmo a vítima para o holocausto, de modo que vês cumprido aqui o que outrora fora adombrado no Sacrifício de Abraão (Gên. 22); pois assim como Isaque é libertado e a pena é transferida para o Carneiro; assim a Igreja, de quem ele carregava a figura, é isenta da morte, enquanto esta é devolvida sobre este Cordeiro de Deus enviado do céu. Novamente, se o sangue devia ser posto pela alma, não derramou Ele o sangue por muitos? (Luc. 22:20). Imão, não se diz que ele mesmo pôs a alma em sacrifício pelo delito (Isa. 53:10)? Se os pecados deviam ser impostos à vítima, lemos que, pela imputação de Deus, todos os nossos pecados foram devolvidos sobre Ele (Isa. 53:6); até o ponto em que ele mesmo é dito ter sido feito pecado e κατάρα [maldição] (2 Cor. 5:21; Gál. 3:13). Se a Vítima devia ser mactada e oferecida sobre o altar, não foi Ele também por nós ἐθύθη [sacrificado] e levou os pecados sobre o madeiro? (1 Pe. 2:24; 1 Cor. 5:7). Se o sangue devia ser derramado e aspergido perante o Senhor sete vezes em direção ao véu, não é este o sangue ῥαντισμοῦ [da aspersão] (Heb. 12:24), que derramado perante Deus, realizou tão perfeitamente a expiação que nada mais se deseja, pois o número sete, pelo uso da Escritura, indica a perfeição. Finalmente, se a expiação e aplacação seguiam-se à oblação devidamente realizada, acaso Cristo não expiou plena e perfeitamente nossos pecados, libertou e remiu as pessoas e propiciou a Deus irado e inimigo de nós? Os lugares são mais manifestos do que podem ser eludidos por qualquer sofística: o que mais querem dizer os Escritores Sagrados quando afirmam que Cristo nos reconciliou com Deus e fez a paz pelo sangue (Rom. 3:24, 5:10; Ef. 2:16; Col. 1:20-21); que expiou e purgou todos os nossos pecados (Heb. 1:3 e 9:14-15; 1 Jo. 1:7; Apoc. 1:5, etc.); que remiu nossas pessoas com seu precioso sangue (Ef. 1:7; 1 Pe. 1:18; Heb. 9:15).

IX. Que dizem, porém, aqui os Adversários? Porque sentem-se constrangidos por este argumento, nada deixam de intentar para elevar a força dele por qualquer razão, e com admirável artifício obscurecem e corrompem toda esta doutrina dos sacrifícios do Ant. Test.: Antes, porém, de irmos subverter singularmente suas falsas hipóteses, deve ser refutada a Exceção geral que subitamente ocorre em seus escritos acerca da natureza da Expiação feita por Cristo, da qual acabamos de tratar. Confessam, sim, que Cristo expiou nossos pecados, e que esta expiação foi feita pela oblação de Cristo; Nós mesmos sentimos que nossos pecados foram expiados pela morte de Cristo por parte de Deus, Soc. p. 2, c. 14; e ali: A morte de Cristo, diz ele, tornou-nos livres tanto da culpa de todos os delitos precedentes quanto dos futuros, e nos santifica para sempre, e nos faz inculpáveis perante Deus eternamente; Mas quando se chega a explicar o modo dessa expiação, nada mais querem que seja, senão a plena libertação do pecado e da pena do pecado (Soc. par. 2, c. 13): A expiação de nossos pecados não é na realidade outra coisa senão a plena e perpétua libertação da morte penal. Além disso, atribuem essa libertação àquele Sacrifício não efetiva e meritoriamente, como se nele algum λύτρον [preço de resgate] tivesse sido oferecido à Justiça Divina para sua Satisfação, mas apenas ou antecedentemente, ou exemplarmente, ou declarativamente. Primeiro, Porque, intervindo a vítima e a morte de Cristo, esta expiação ou libertação do pecado nos é concedida na realidade pela sua exaltação, pois se Cristo não tivesse derramado seu sangue, de modo algum teria alcançado o poder de reivindicar os seus da morte eterna, no que se contém a remissão dos pecados. Segundo, Porque a consideração da morte e paixão de Cristo nos move eficazmente à conversão e penitência, à qual Deus propriamente promete a remissão. Terceiro, Porque esta mesma oblação produz em nós a mais certa fé da remissão. Buscam a razão dessas coisas das vítimas legais, como diz Socino (Preleções, c. 23): As vítimas legais não expiavam por isso os pecados pelos quais eram oferecidas, nem porque movessem a Deus a perdoá-los, nem porque houvesse nelas algo que reparasse a culpa emanada dos próprios pecados, mas porque, realizado o Sacrifício, seguia-se a sua expiação decretada antes pela benignidade de Deus; assim a morte de Cristo não expia nossos pecados por isso, nem porque mova a Deus a perdoar-nos, nem que repare de algum modo a culpa de nossos pecados, mas porque, realizado o suplício de Cristo, segue-se a libertação da culpa de nossos pecados, a qual já antes fora constituída pela misericórdia de Deus para conosco. Novamente, como, oferecidas aquelas vítimas, já o povo se reconhecia libertado da culpa do pecado e que Deus lhe era aplacado; Assim, realizado o suplício de Cristo, não apenas somos livres da culpa do pecado, mas também nós mesmos reconhecemos isso, e entendemos que Deus nos é plenamente aplacado, etc. Concedem, portanto, que a libertação ocorre pela intervenção da Morte, mas negam que esta interceda como causa meritória: Nem pode provar-se o contrário pela voz expiação; Primeiro, Porque expiar também se predica de Deus não poucas vezes, como Deut. 21:8: Expia o teu povo, ó Deus e Sl. 51:9: Expia-me com hissopo para que eu seja limpo. No entanto, Ele nem satisfaz nem se pode dizer que satisfaça. Segundo, o verbo כפר [kipper] pelo qual se denota a expiação, a partir do primeiro e próprio significado, significa tecer, cobrir, ungir ou tapar ungindo, de onde obteve metonimicamente o sentido de expiar e retirar a culpa dos pecados, porque os pecados costumam ser expiados e retirados na medida em que são de algum modo cobertos (Sl. 32:1). Terceiro, o verbo de limpar e expiar muitas vezes é entendido não efetivamente, mas apenas declarativamente, como Lev. 14:7, 11 e 16:6; máxime c. 13 e 14, onde se trata de pronunciar o leproso limpo ou imundo, pois o que subitamente se repete, que o sacerdote julgará limpo ou imundo, no texto hebr. é posto assertivamente: limpará ou contaminará. Portanto, nada de alheio se faz ao uso da Escritura se a expiação que se atribui igualmente à morte for entendida declarativamente, não efetivamente.

X. Mas aqui peca-se de muitas maneiras pelos Adversários. Primeiro, enquanto se supõe que a expiação nada mais é do que a própria libertação do pecador, pois assim confunde-se erradamente a causa com o efeito, o antecedente com o consequente; não negamos que a libertação ocorra pela expiação e depois dela, mas não por isso a libertação é imediatamente a própria expiação; o Senhor presta a libertação, o réu ou outro qualquer em seu nome presta a expiação; toda expiação certamente traz após si a libertação, mas nem toda libertação supõe imediatamente uma expiação; pois a Expiação propriamente infere a purgação da falta ou a remoção da culpa pela luíção devida e justa de alguma pena, própria ou vicária, para aplacar a ira de outrem; Assim, por toda parte entre os autores profanos, expiar é punir. Cícero em Pisonem: Os Deuses imortais expiaram teus crimes em nossos soldados, isto é, puniram por causa de ti. Salústio (De Rep. Const.): Nem pelo rito bárbaro deve-se expiar matança com matança, e sangue com sangue. E nada é mais comum entre eles do que os pecados serem ditos piar, isto é, luir, seja pagando a pena própria ou a sucedânea. Virg. Eneida 2:

E com a Morte piarão a culpa dos miseráveis.

Hinc chamou-se piaculum a tudo o que se dava para satisfação do pecado, hóstia piacular que era oferecida para fazer o piaculo, ao que se referem aquelas palavras de Plauto:

Acaso convém que eu me torne piacular pela tua estultícia, Para que submetas o meu dorso como sucedâneo da tua estultícia?

Isto é, convém que a tua estultícia seja expiada pela minha pena? Assim, esta voz transladada para o sagrado nota, sim, a libertação da pena do pecado, mas que não ocorre senão por aflição ou pena sucedânea, nem o Sacrifício expiatório pode ser concebido ou entendido de outro modo: de modo que aqui concorram necessariamente três coisas: 1. Aflição e, decerto, penal como causa. 2. Pena sucedânea pelo crime e pelo pecador, de onde pelos Antigos foram chamadas θυσίαι ἀντεμβαλλομέναι [sacrifícios de substituição] as que sucediam no lugar de outros, espécie de sub-rogação que ocorre em toda vítima piacular. 3. Libertação do culpado e purgação da culpa que ocorre pelo sofrimento de tal pena; isto está patente pela ordem da expiação legal, pois para que o pecador fosse libertado devia ser purgado de seu pecado; a ἄφεσις [remissão] supunha o καθαρισμὸν [purificação]; a purgação não foi de água, mas de sangue, isto é, a que ocorreria pela morte violenta e por algum preço interposto; a efusão de sangue de nada aproveitava a menos que fosse de vítima selecionada e levada ao altar; Vítima não qualquer, mas que se tornasse pecado e execrável para o que oferecia, de modo que para este fosse nefasto prová-la, assim o que o homem merecia já era nela infligido para que o homem saísse livre; de onde resplandece que a libertação não poderia ser obtida sem muitos atos prévios necessários para a Satisfação; Pelo que, quando Socino quer que a expiação não seja nada mais do que a simples libertação, omite e inverte tudo aquilo em que a própria razão da expiação está situada, isto é, nega a verdadeira expiação. E certamente, se a expiação fosse mera e simples libertação, não poderia ser distinguida da remissão, o que, todavia, é feito distintamente em Lev. 5:6: Trará a Jeová sua culpa pelo pecado com que pecou, etc. Assim o sacerdote o expiará de seu pecado e ser-lhe-á perdoado. Assim nos vers. 13, 16, 18, 25, 26: O sacerdote o expiará pelo carneiro da culpa e ser-lhe-á perdoado. Logo, uma coisa é a expiação da culpa, outra verdadeiramente a libertação e remissão que por ela se obtém. Finalmente, a Expiação propriamente respeita o pecado ou a culpa que deve ser retirada, a libertação, verdadeiramente, a própria pessoa do pecador, que deve ser isenta da pena impendente; de onde, embora se conjuguem necessariamente como causa e efeito, não devem, contudo, ser confundidas.

XI. Segundo, alucinam-se também gravemente quando estabelecem que a Morte, embora tenha intercedido para fazer esta expiação, intercedeu, todavia, como algum antecedente remoto, enquanto pela morte abriu para si o caminho para o céu, onde procura nossa expiação ou libertação, tendo obtido o sumo poder de nos livrar dos grilhões da morte e nos dotar com a felicidade eterna, o que Socino estabelece distintamente em 1 João 4:10: Cristo, o filho de Deus, expia nossos pecados, não porque satisfaça à Justiça Divina por nossos pecados, mas porque nos confere a vida eterna, na qual a expiação de nossos pecados, isto é, a libertação da pena deles, está plenissimamente contida. Contudo, se houvesse lugar para esta sentença, esta expiação deveria ser atribuída à ressurreição de Cristo e à sua vida, muito antes do que à morte e ao sangue; pois a morte de Cristo, nesta hipótese, é apenas causa sine qua non daquela expiação, porque se não tivesse morrido não teria entrado na glória na qual nos procura esta expiação; mas a causa própria e por si seria a exaltação, porém a Escritura em lugar nenhum atribui esta expiação à exaltação, mas sempre à Morte e à Paixão. Segundo, se a morte foi apenas antecedente daquela expiação, não causa verdadeira e própria, nada se pode dizer de causa, por que o mesmo efeito não se atribua paritariamente à vida, doutrina e milagres de Cristo, que também foram antecedentes daquela exaltação. Terceiro, Confunde-se o direito da remissão e libertação com o seu exercício. Aquele de fato pertence à exaltação de Cristo, enquanto já glorificado plenamente nos liberta da culpa e das penas do pecado, aplicando-nos poderosamente a força e eficácia de sua propiciação e satisfação. Mas o direito mesmo funda-se em seu Sacrifício cruento e ἱλαστικῷ [propiciatório] que ofereceu na morte, daí que por meio da morte e no seu sangue somos ditos redimidos e justificados (Rom. 5:9 e Ef. 1:7; 1 Pe. 1:18-19); e antes que subisse aos céus a própria expiação com a oblação realizada é dita em Heb. 1:3, como será provado abaixo; Quarto, enervam-se os lugares da Escritura que falam da Expiação, pois todas aquelas vozes καθαίρειν [limpar], ἁγιάζειν [santificar], ἱλάσκεσθαι [propiciar] e semelhantes que os Apóstolos usam, por sua própria natureza e uso perpétuo, não designam apenas a antecedência de ordem, mas também uma certa eficácia, nem se ouviu jamais que se diga expiar aquilo que é requerido apenas como antecedente remoto para obter a expiação.

XII. Terceiro, Mas nem pode ser recebida esta outra glosa deles, falsíssima, que refere a expiação ao exemplo, pela cessação do pecado e destruição dos pecados seguintes; Pois, embora não neguemos que este seja também fruto e fim da morte de Cristo, para que o velho homem em nós seja crucificado, e morramos para o pecado ao exemplo de Cristo, o que Paulo ensina (Rom. 6), negamos, todavia, que este seja o primário e principal; 1. porque esta expiação respeita os pecados passados para que retire a culpa, não os futuros para que desvie deles, pois responde à remissão e justificação, que nota a absolvição dos pecados precedentes, não à santificação, que infere a avocação dos seguintes. 2. A expiação faz-se de nós perante Deus, por isso o sangue era aspergido ao redor do altar sob a lei e a aspersão era feita em direção ao Santuário para que se significasse que tudo isto era peratado perante Deus; Ora, esta cessação do pecado faz-se em nós por Deus. 3. A expiação foi feita de uma só vez e, decerto, só por Cristo, mas esta destruição actual ou exemplar nem se faz de uma só vez, mas continuamente, nem é procurada só por Cristo, mas também pelo Espírito S. que mortifica as obras do corpo (Rom. 8:13), e pelos fiéis servos de Deus que com seu exemplo nos precederam aqui. 4. Os Sacrifícios não destruíam o pecado avocando do pecado, mas impetrando a remissão; de modo que a expiação certamente nunca ocorria ou era entendida ocorrer pela remoção ou cessação do pecado, mas pela retirada da culpa, o que a voz καθάρματος [purificação/bode expiatório] imposta às vítimas, que significa a transferência da pena, suficientemente indica: Nem a voz καθαρισμὸς [purificação] que costuma ser usada neste negócio mais frequentemente (Heb. 1:3 e 9:14), prova outra coisa, embora à primeira vista pareça referir-se melhor à santificação do que à remissão; pois como duas coisas costumam ser atendidas no pecado, a culpa aderente e a mancha inerente, aquela perante Deus, esta em nós, também se constituem duas partes daquela purgação, a primeira da culpa pela remissão, a outra da mancha pela santificação; ambas são bem atribuídas ao sangue de Cristo, mas aquela por razão meritória, esta verdadeiramente em respeito à eficácia que em nós exerce pelo Espírito S.; e assim estão conjuntas e associadas, que a posterior necessariamente supõe a anterior, e a anterior infalivelmente traz após si a posterior.

XIII. Quarto, Com muito menos aparência de verdade afirma-se que esta expiação é atribuída à morte e ao sangue declarativamente, por nos oferecer testemunho da remissão ou do decreto feito sobre ela; Pois, Primeiro, quem não vê que isto é fazer violência manifesta às próprias vozes? pois quem jamais chamou a declaração da vontade alheia de expiação, ou, nomeada a expiação, pôde conceber ou entender tal coisa? quem não colheria ser antes significado por ela a luíção da pena para satisfação e reconciliação do culpado com o seu Senhor? quando, portanto, esse sentido inverte plenamente a própria significação das palavras, por isso mesmo deve ser merecidamente suspeito para nós. Segundo, Se isto prevalecesse, a morte de Cristo nada mais teria contribuído para a expiação do que as Vítimas Legais, pois estas também igualmente podiam declarar a remissão, imão, feitas conforme o prescrito de Deus, não deixavam nenhum lugar para duvidar da remissão do suplício, como fala Volkelius. Mas a Escritura, todavia, nega distintamente que pelo sangue de bodes pudessem ser retirados e expiados os pecados, os quais são expiados pelo sangue de Cristo: Portanto, é necessário que tenha contribuído com algo mais eficaz além da declaração. Terceiro, Visto que esta declaração também compete a outras coisas, e decerto muito mais lucidamente, como à ressurreição de Cristo, à vocação para a graça, à missão do Espírito S. e à sua testemunha interna, ao Verbo e aos Sacramentos, Por que à morte e ao sangue se atribuiria constantemente a expiação, e às outras de modo algum, se a expiação fosse entendida apenas declarativamente? Quarto, No sentido em que Cristo nos remiu por sua morte, nesse sentido somos expiados pelo seu sangue; Ora, remir-nos pela morte não é declarar pela morte a redenção. Logo, expiar e limpar não designa a declaração, mas a ação: assim, como se diz que ele carregou os pecados, até ali deve ser considerado que os expiou, pois é sabido que estas frases são usadas na Escritura como equipolentes. Ora, carregou não declarativamente, mas judicial e meritoriamente, como visto acima. Logo, igualmente expia. Quinto, Se esta expiação fosse declarativa, pertenceria ao ofício Profético, não ao Sacerdotal; Ora, que esta se atribui a Cristo não como Profeta, mas como vítima, não como Pastor e Doutor, mas como Cordeiro, é mais conhecido do que necessite de prova. Sexto, a declaração respeita os homens, aos quais deve ser feita para gerar a fé da remissão; Ora, a expiação que ocorre no sangue respeita o próprio Deus, que veio a ser aplacado e reconciliado por tal λύτρῳ [resgate]: Aquela pertence à vontade divina que deve tornar-se conhecida aos homens, esta aos pecados que devem ser removidos do conspecto de Deus; ora, de um modo a vontade de Deus nos é patenteada, de outro Deus nos é conciliado; o primeiro Cristo presta pelo verbo e espírito, o posterior pela morte e sangue.

XIV. Quinto, Debalde recorre-se às vítimas legais, para que se busque algum amparo para este erro, como se elas mesmas dissessem expiar apenas antecedentemente e declarativamente. Pois, para que não examinemos agora o modo da expiação das vítimas legais, do que se deverá falar mais extensamente depois, observamos de passagem que não há aqui auxílio para os Adversários, visto que estas vítimas podem assumir uma dupla σχέσιν [relação], ou absoluta e carnal em si mesmas, ou relativa e típica em respeito a Cristo, a quem adombravam; no primeiro respeito, não apenas não expiavam antecedentemente e declarativamente, mas nem expiavam de modo algum, imão, eram antes ordenadas para convencer os homens pecadores de sua culpa, enquanto os pecadores, nas vítimas que morriam por si, viam-se réus de morte, e na matança delas davam a Deus um quirografo escrito com o sangue delas, pelo qual se reconheciam obnoxios à maldição e devedores da pena; hinc o Apóstolo nega distintamente que por elas tenha sido gerada a remissão perante Deus (Heb. 9:9-10 e 10:1-2, 4). Mas, no posterior respeito, podem na realidade ser ditas ter expiado, não propriamente e por si, mas tipicamente e figurativamente pela virtude do sacrifício outrora a ser oferecido por Cristo, do qual elas eram sombras e figuras, de modo que o sangue de Cristo a ser derramado já estendia sua eficácia para purgar os fiéis do V. T. (Apocalipse 13:8). Novamente, como a culpa foi dupla, típica quanto à imundícia da carne, e real quanto à consciência, Assim aquela expiação ou foi típica e cerimonial, ou real e mística; para esta na realidade nada puderam conferir por si mesmas, pois era impossível que pelo sangue de touros fossem retirados os pecados, mas quanto àquela nada obstava para que a procurassem eficazmente, como o Apóstolo atesta ter purgado quanto à pureza da carne (Heb. 9:13). Pois, como aquela culpa fora constituída por força da constituição legal, que de outro modo por sua natureza seria nula, assim pela mesma constituição pôde ser retirada e purgada: no primeiro respeito são consideradas opostas a Cristo, no posterior verdadeiramente comparadas. Assim, a colação será otimamente instituída: do mesmo modo que aquelas vítimas prestavam a expiação legal eficiente e meritoriamente, não apenas antecedentemente ou declarativamente, assim também Cristo realizou a verdadeira e real pelo seu sangue: Mas sobre isto no que segue. Agora deve-se satisfazer às razões trazidas.

XV. À primeira, Resp. peca-se pela falácia a dicto secundum quid [do que é dito relativamente], pois embora a expiação se predique de Deus que não satisfaz, não se segue, contudo, igualmente que, quando aplicada à vítima ou ao sacerdote, não infira nenhuma satisfação; pois deve ser interpretada de diversos modos conforme a razão dos sujeitos aos quais é atribuída, ora a Deus, ora ao Sacerdote, ora à Vítima, mas por uma e outra razão: em Deus é admitir a expiação, na Vítima é fazer, no Sacerdote é oferecer. Deus expia o pecado perdoando a culpa porque foi aplacado, o Sacerdote procurando aquela remissão por meio da vítima, a Vítima impetrando-a pela sua substituição e luíção da pena; Deus autoritativa e judicialmente, o Sacerdote ministerial e organicamente, a Vítima eficiente e meritoriamente: Não vale, portanto, dizer que se Deus expia o pecado perdoando por misericórdia, logo, igualmente também a vítima o faz; imão, Deus não poderia expiar os pecados por absolvição se antes não tivessem sido expiados na vítima por satisfação: não ocorre expiação senão interposta a rês e o sangue derramado; sem sangue não há remissão; portanto, estas coisas não devem ser opostas, mas compostas: Deus e o sangue de Cristo expiam os pecados, a saber, Deus por meio do sangue de Cristo que tem em si a força de satisfazer, Deus como causa eficiente principal, o sangue de Cristo como causa procatártica e meritória: Embora de Cristo, como é filho de Deus, pudesse ser dito verdadeiramente que ele expia autoritativa e judicialmente, enquanto ele mesmo com o Pai tem o poder de remitir pecados, e na realidade no-los remite; porque, todavia, aqui é considerado não como Deus, mas como Mediador, não como juiz, mas como sacerdote e vítima, cujas partes são aplacar o Pai para nós, a expiação não pode ser explicada de outro modo senão pela sofrimento da pena sucedânea e morte vicária.

XVI. À segunda, Resp. 1. Nego a conseq. porque a força do nosso argumento não depende apenas do verbo כפר [kipper], que é certo ser tomado de diversos modos, mas tanto de muitos outros que costumam ser usados neste negócio, quanto da natureza da própria coisa que é descrita por tal voz; pois quando a expiação é dita ocorrer assim pelo sangue da vítima, de modo que tanto a culpa seja retirada quanto o réu seja libertado da pena que lhe pendia, quem não vê que o sangue aqui intercede como algum λύτρον [resgate] para alcançar esta remissão? 2. a men. é falsa, a saber, que כפר [kipper] signifique apenas cobrir e ungir; pois embora isto possa ser dado em certos lugares e principalmente na conjugação Qal, não obtém todavia em todos, pois na conjug. Piel é usado frequentissimamente para remiu, expiou, aplacou, mesmo intervindo algum preço. Gênesis 32:20: Jacó diz אכפרה [achapperah] não cobrirei mas aplacarei sua face, isto é, do irmão, com este presente; e 2 Sam. 21:3: Davi aos Gibeonitas lesados por Saul: com que אכפר [achapper] compensarei ou remirei a injúria infligida a vós por Saul? nem em outro sentido vem aquela voz sempre que é atribuída aos Sacrifícios. Hinc o nome כפרת [kapporet] que signi. Preço da Redenção, λύτρον [resgate], ἀντίποινον [satisfação] e o que quer que se dê ou ao Juiz para aplacar seu ânimo, ou ao inimigo irado e mais potente para remir a vida. Os LXX ora por λύτρον como Êx. 21:30 e 30:12, Núm. 35:31, 32, etc.; ora por ἐξíλασμα [propiciação] como Isa. 43:3, Am. 5:12, traduzem; hinc a dita festa הכפורים [hakkippurim] ou das propiciações na qual Deus era aplacado pelo sangue das vítimas e se tornava propício a Israel por causa da oblação dos Sacrifícios. Do que está patente que preposta e falsamente a significação do verbo כפר é restrita à cobertura. Que se alguma razão deve ser buscada daquela primeva significação que é cobrir e ungir, deverá ser buscada do efeito que a expiação feita por este λύτρον obtém, a saber, porque por ela ocorre que nossos pecados sejam cobertos enquanto são perdoados, enquanto em vista dela, aplacado e tornado propício, perdoa ao pecador o que quer que tenha delinquido, nem quer mais lembrar-se de seus delitos: Assim, à cobertura da Arca da aliança foi dado o nome כפורת [kapporet/propiciatório], pelo qual se significasse que pelo mérito e Satisfação de Cristo, em vista do qual Deus nos foi feito propício, assim são cobertos nossos pecados admitidos contra a lei, que nunca mais possam vir ao conspecto de Deus para nos condenar. Portanto, à expiação de fato segue-se a cobertura dos pecados como efeito e consequente necessário, mas na cobertura não está a própria razão formal da expiação; não se expiam os pecados porque se cobrem, mas por isso se cobrem porque pela oblação da vítima são considerados expiados.

XVII. À terceira, Resp. Primeiro, por συγχώρησιν [concessão] damos que este Hebraísmo é frequente na Escritura, reconhecemos que os verbos que significam ação sejam referidos apenas à sua declaração e manifestação, de cuja locução demos vários exemplos em outro lugar (Gên. 22; Tia. 2; e Atos 13:33, etc.); não negamos também que nos lugares louvados que respeitam o juízo que deve ser pronunciado pelos Sacerdotes acerca da lepra (Lev. 13:15, 16), estes verbos devam ser entendidos declarativamente. Mas, 2. negamos que daqui se siga que isso possa ter lugar perpetuamente, pois tais são os predicados quais são permitidos ser por seus sujeitos; aqui, porém, no negócio de que se trata, ensinamos que a declaração não pode ter lugar separadamente da própria efetuação, e se em algum lugar a expiação declarativa é atribuída ao Sacerdote, em inúmeros outros lugares a efetiva e real é conotada, ex. gr. quando continuamente estes verbos são repetidos: o sacerdote o expiará e ser-lhe-á perdoado, é claro que estes não se referem à declaração, mas à própria efetuação, enquanto segundo a lei oferecia a vítima piacular pelo pecador e, assim, efetuava e procurava sua expiação legal. Assim a expiação é proposta como um ato que é feito pelo Sacerdote pela efusão do sangue da hóstia, e pela aspersão das coisas sagradas como o Altar, o Véu, o Altar do incenso, para que a culpa do pecador seja retirada e, no altar, obtenha a reconciliação e remissão dos pecados, e no Santuário verdadeiramente a liberdade de acesso; não certamente apenas declarativamente, mas efetivamente. Terceiro, Se os lugares forem pesados nos quais se faz menção da expiação feita por Cristo, como Apoc. 1:5, 1 João 1:7, Heb. 1:3, patentes estarão que não sem insigne distorção são referidos à declaração, visto que neles não se atende à manifestação da coisa, mas o próprio benefício de Cristo é celebrado.

XVIII. Assim explicada de antemão a natureza da Expiação feita por Cristo, deve-se progredir para as várias Exceções especiais pelas quais tentam enfraquecer nosso argumento buscado do Sacrifício expiatório. Várias coisas movem aqui. Primeiro, que a Oblação de Cristo e o Sacrifício não foram realizados na terra, mas apenas no céu após sua entrada, quando verdadeiramente foi designado e constituído Sacerdote: esta, a saber, querem que seja a diferença entre Cristo e o sumo Pontífice, que este, antes de entrar no Santuário, era verdadeiramente Sacerdote; mas Cristo não tenha sido verdadeiramente constituído Sacerdote antes de ter entrado no Santuário do céu, nem tenha oferecido senão por sua entrada no céu; as demais coisas, porém, como a morte e as paixões, foram de fato requeridas antecedentemente, mas como preparação para o Sacrifício, não como o Sacrifício mesmo. Segundo, pretendem que os Sacrifícios em geral não respeitaram a Cristo, mas apenas os públicos e anuais oferecidos pelo sumo Pontífice, cujo sangue era levado para o Santo dos Santos, não quaisquer outros; e, assim, que nós argumentamos erradamente de todos estes. Terceiro, que não pelos pecados mais graves, mas apenas pelos mais leves foram oferecidos, seja os cotidianos, seja o Sacrifício anual, a saber, por aqueles que podem ser chamados de ignorância. Quarto, que esses Sacrifícios expiaram verdadeira e propriamente por uma certa força sua, porque à sua oblação seguia-se a remissão, não porém ἐν τύπῳ [em tipo] apenas, como estabelecemos por σχέσιν [relação] ao Sacrifício de Cristo. De onde quatro coisas vêm em controvérsia: Primeiro, se Cristo também na terra foi Sacerdote, ou apenas nos céus após sua ascensão, e se apenas no céu e não também na Cruz ofereceu o Sacrifício propriamente dito. Segundo, se não todos os Sacrifícios do Ant. Test. ἱλαστικὰ [propiciatórios] foram tipos do Sacrifício de Cristo. Terceiro, se não foram oferecidos também pelos pecados mais graves. Quarto, se tiveram alguma força por si mesmos de expiar a culpa espiritual? Sobre as quais quatro coisas, o que sentem os Ortodoxos pela Escritura deve ser aberto em poucas palavras.

XIX. Para fazer o início da primeira, Smalcio (Lib. de Divin. Christi, c. 23) exprime sua sentença: Cristo tornou-se sacerdote na realidade e perfeitamente então, pela primeira vez, quando subiu aos céus, isto é, quando começou a gerir tal cuidado de nossa salvação qual prometera antes que geriria. Reconhece, sim, que a aflição e a morte não devem ser separadas de seu sacerdócio, todavia, na morte seu Sacrifício de modo algum foi perfeito, e que Cristo morreu antes de exercer seu sacerdócio, e que sua morte ainda não fora seu próprio sacerdócio. Socino (De Serva. p. 2, c. 15): Pela oblação de Cristo, diz ele, todo aquele Autor da Epístola não entende outra coisa senão a apresentação de si mesmo por nós feita a Deus no céu, por assim dizer, pela efusão do próprio sangue de Cristo, etc. e ibid.: Relativos são sacerdote e oblação, portanto, onde o verdadeiro sacerdote ainda não está, nem a verdadeira oblação pode estar; ora, que Cristo não é dito verdadeiramente sacerdote por aquele Escritor antes de sua ascensão ao Céu, pode constar, etc. Não de outro modo Volkelius (c. 37 sobre o sacerdócio de Cristo): A diferença entre este nosso e aquele sacerdote da lei está em que aquele, mesmo antes de mactar os animais, obtinha verdadeiramente e perfeitamente o múnus de sumo sacerdote; Cristo, porém, não senão após sua acerbiíssima morte, pôde tornar-se Sacerdote verdadeiramente e perfeitamente. Mas a sentença dos Ortodoxos é que deve ser distinguido o duplo ato do Ofício sacerdotal (como as vítimas legais primeiro deviam ser oferecidas no Átrio pelo Sacerdote, depois pelo mesmo seu sangue devia ser levado para o Santuário), primeiro na mactação e oblação da vítima, outro na exibição e aplicação da mesma; aquele pertencia à expiação, este à intercessão; aquele realizado na terra uma só vez; este continuado nos céus diariamente; o primeiro não foi preparação do Sacrifício, mas o próprio Sacrifício; o posterior não tanto o Sacrifício quanto a representação do sacrifício feito: Novamente, confessam que Cristo na terra não completou todas as partes do múnus sacerdotal, pois devia levar o sangue para o Santuário, tanto para sua própria consagração quanto para a intercessão pelo povo, mas negam que Cristo tenha morrido antes de exercer seu sacerdócio, negam que a oblação nada mais seja do que a apresentação de Cristo por nós no Céu, negam que a oblação não tenha sido perfeita antes da exibição do sangue no Santuário; e assim sustentam que Cristo foi verdadeiro sacerdote na terra, e que o Sacrifício expiatório foi verdadeiramente oferecido na cruz, o que agora nos incumbe demonstrar.

XX. Vários argumentos suprem essa questão. Primeiro, o Sacerdote sob o V. Test. foi verdadeiramente tal antes de entrar no Santuário, e quando mactava os bodes ou as vítimas piaculares, exercia verdadeiramente o ofício de Sacerdote, conforme admitem os próprios Adversários. Por que não, então, Cristo, que nele era adombrado, teria sido verdadeiramente Sacerdote na terra e oferecido o Sacrifício? pois fingir aqui alguma diferença é ἀπὸ γραφῆς λέγειν [falar à parte da escritura] e pedir τὸ ἐν ἀρχῇ [petição de princípio]. Segundo, Todo Pontífice assumido dentre os homens é constituído perante Deus para que ofereça dons e hóstias pelos pecados (Heb. 5:1). Ora, isto não nos céus, mas na terra, nem em outro lugar as hóstias são oferecidas. Assim, nem Cristo devia oferecer em outro lugar. Terceiro, Onde está a oblação e o Sacrifício, ali deve estar o sacerdote; Ora, na terra e na cruz de Cristo foi verdadeiro o sacrifício e a oblação, conforme testemunha o Apóstolo (Heb. 7:27): A quem não seja necessário diariamente, como àqueles Pontífices, primeiro oferecer vítimas pelos próprios pecados, depois pelos pecados do povo; pois isto ele fez uma só vez quando se ofereceu a si mesmo. Dessas palavras coligimos duas coisas: Primeiro, que a perfeita oblação de Cristo pela qual se ofereceu a si mesmo responde àquela que os Pontífices legais faziam diariamente pelos pecados do povo; esta, porém, como é sabido, realizava-se pela mactação e imolação das vítimas; Logo, também aquela de Cristo devia ser realizada pela morte, que foi a mactação da vítima por nossos pecados. Segundo, que esta oblação é dita feita uma só vez, ἐφάπαξ, opostamente, a saber, às oblações legais que eram feitas καθ' ἡμέραν [cada dia] ou ἐνιαυτὸν [cada ano]. Ora, não poderia ser dita feita uma só vez se não tivesse sido feita na morte, pois o que é feito jugal e continuamente até a consumação do século, como a apresentação no céu, de modo algum pode ser dito feito uma só vez.

XXI. Quarto, Confirma-se isso mesmo ulteriormente por Heb. 9:25-28, onde o Ap. falando de Cristo Sacerdote: Não para que se ofereça a si mesmo muitas vezes, como o Pontífice entra no Santuário todos os anos com sangue alheio (de outro modo teria sido necessário que ele padecesse muitas vezes desde o lançamento do fundamento do mundo), mas agora, uma só vez na consumação dos séculos, εἰς ἀθέτησιν ἁμαρτίας διὰ τῆς θυσίας αὐτοῦ [para abolição do pecado pelo sacrifício de si mesmo], foi manifestado, etc. onde quantas são as palavras, quase tantos são os pesos das razões. 1. A oblação de Cristo não foi feita πολλάκις [muitas vezes], mas ἅπαξ [uma vez]. Logo, não no céu, mas na cruz. Segundo, se Cristo devesse oferecer-se a si mesmo mais vezes, deveria padecer mais vezes. Logo, foi oferecido quando padeceu, caso contrário o argumento não procederia. Terceiro, então se ofereceu a si mesmo para retirar o pecado pela imolação de si mesmo, quando apareceu e foi feito manifesto. Ora, pelo ingresso no céu foi retirado de nossos olhos, portanto deve ser entendida a aparição na carne e o advento ao mundo, sobre o qual 1 Tim. 3:16. Quarto, a semelhança que o Apóstolo acrescenta restringe manifestamente a imolação à morte (vers. 25, 28); pois debalde se diria que a oblação de Cristo foi feita uma só vez do mesmo modo que a todos está estabelecido que morram uma só vez, se não tivesse sido realizada naquela única morte de Cristo. Quinto, então Cristo deve ser considerado oferecido quando retirou nossos pecados, visto que é dito oferecido para esse fim, εἰς τὸ πολλῶν ἀνενεγκεῖν ἁμαρτίας [para levar os pecados de muitos]; Ora, ele prestou isto na cruz e na morte (1 Pe. 2:24).

XXII. Quinto, Constrói-se a mesma verdade não menos evidentemente pelo c. 10, v. 10, 12, onde o Ap. diz: somos santificados por esta vontade de Cristo pela oblação do corpo de Cristo feita uma só vez, e ele, oferecida uma só vítima pelos pecados, sentou-se para sempre à destra de Deus. Pois destas coisas resplandece: Primeiro, que a oblação de uma única vítima se opõe à sessão εἰς τὸ διηνεκὲς [continuamente]. Ora, se a oblação de Cristo consistisse na jugal comparição de Cristo à destra de Deus por nós, não seria mais μία θυσία [um só sacrifício], mas θυσία igualmente εἰς τὸ διηνεκὲς como sua própria sessão à destra de Deus. Segundo, que Cristo não se sentou antes à destra do Pai para reinar eternamente senão depois de oferecida aquela única vítima pelos pecados; como poderá verdadeiramente a oblação desta vítima ter precedido a sessão de Cristo à destra de Deus, e assim sua ascensão ao céu, da qual aquela foi o termo para o qual, sem que tenha sido feita na própria paixão e cruz? Nem outra coisa quer o mesmo Apóstolo (c. 1:3) quando testemunha que ele não subiu ao céu antes de ter feito, por si mesmo, a purgação de nossos pecados; e c. 9:12, que não entrou no santuário antes de ter obtido a eterna Redenção. Sei que retorquem aqui que estes Aoristos, conotando o tempo ante-actuado, juntos com os verbos, não significam que duas coisas foram feitas sucessivamente, mas exprimem uma e a mesma coisa feita simultaneamente e de uma vez, de modo que seja o mesmo: feita a purgação de nossos pecados, sentou-se, que: sentando-se à destra de Deus, fez a purgação de nossos pecados. Mas primeiro esta resposta destrói os próprios dogmas deles. Pois se Cristo não menos por si do que por nós devia oferecer, como pretendem, porque estava cercado de enfermidades, e ofereceu apenas quando se sentou à destra de Deus, que outra coisa se segue senão que Cristo sentado à destra de Deus está cercado de enfermidades, e que Cristo morrendo preparou-se para que, após a ressurreição e ascensão aos céus, fosse libertado da morte? pois não negam que a morte foi aquele principal mal de que foi libertado pelo seu sacrifício quando o ofereceu por si. Segundo, aquela explicação dos Aoristos não pode ser admitida pelos lugares louvados sem violência manifesta, pois supõem, como é patente até pela simples vista, que a purgação precedeu a sessão, e o que o Ap. diz, ter feito a purgação de nossos pecados por si mesmo (palavras que aqui foram vergonhosamente omitidas por V. V.), não é outra coisa senão, entregando-se à morte, ou como expõe João, ter-nos purgado de todo pecado pelo seu sangue (1 João 1:7). Terceiro, a Escritura nunca atribui a expiação dos pecados a Cristo sentado à destra, mas a interpelação (Heb. 7:25 e Rom. 8:34), os quais dois atos sacerdotais, embora indivisos e conexos entre si, confundem péssimamente: A apresentação no céu não é uma nova oblação, mas apenas a comemoração do sacrifício realizado, nem Cristo entrou no Santo dos Santos pelo próprio sangue para ali o derramar por novo rito; mas para introduzir o corpo entregue à morte e representar a força e o mérito do Sacrifício.

XXIII. Instam que o Apóstolo em Heb. 10:5, 9 fala de tal oblação que foi feita no ingresso pelo qual foram revogados os sacrifícios Legais (v. 5, 6, 8). Ora, pelo ingresso de Cristo no mundo visível os Sacrifícios Legais não foram revogados. Logo, deve ser entendido sobre o ingresso no céu. Resp. Mas este comentário não suporta as palavras do Ap. que expressamente notam o advento ao mundo visível: pelo que, diz ele, v. 5, entrando no mundo diz: Sacrifício e oferta não quiseste: Primeiro, pelo uso triitíssimo da Escritura, o ingresso no mundo em nenhum lugar nota outra coisa senão a encarnação e o nascimento (João 3:17, 19 e 6:14 e 9:39, v. 16:28 e 17:18; e Heb. 1:6; e em outros lugares por toda parte). Segundo, a ascensão de Cristo não pode ser dita ingresso, mas antes egresso e partida do mundo (João 16:28). Terceiro, o Mundo posto absolutamente nunca é entendido sobre o futuro, mas sobre o presente. Quarto, então entrou no mundo quando o corpo lhe foi adaptado para que nele fizesse a vontade do Pai, patente pelo vers. 5 e 7: Portanto, entrando no mundo diz: Sacrifício e oferta não quiseste, mas Corpo me adaptaste e v. 7: Então disse: eis que venho, no volume do livro está escrito de mim, para fazer, ó Deus, a tua vontade, etc. Ora, o corpo foi adaptado a Cristo na terra pela encarnação, e ele fez a vontade do Pai quando se humilhou até a morte de cruz (Filip. 2:8). Novamente, uma coisa é falar do próprio momento do ingresso, outra de todo aquele intervalo que fluiu desde a encarnação até a ascensão; Primeiro, decerto, no momento do ingresso damos que não foram revogados, mas todavia estabelecemos que foram revogados por aquele primeiro advento a nós, quando, a saber, Cristo ofereceu seu Corpo uma só vez, o qual preenchia a vez de todas as vítimas, pois ao Corpo as sombras, e à verdade as figuras deviam ceder lugar. Portanto, o advento deve ser tomado ἐν πλάτει [amplamente], não apenas pelo ingresso, mas por todo o intervalo em que versou na terra, além de que não se nota a própria revogação precisamente, mas apenas que esse foi o fim do advento de Cristo. Terceiro, a revogação também é dupla, ou de direito ou de fato; no posterior respeito, pode ser dita ter seguido a exaltação de Cristo, pois não puderam ser absolutamente revogadas todas as cerimônias senão após a pregação do Evangelho, pela qual sua vaidade e ἀτοπία [absurdidade] era demonstrada; Mas no anterior foi feita inteiramente na cruz, pois as Cerimônias morreram com Cristo, pregado à Cruz e apagado foi aquele Quirografo de ritos (Col. 2:14; Ef. 2:15), foi rompida aquela parede intergerina que estremava os Judeus das Gentes.

XXIV. Sexto, Argumentamos do c. 5 da Epíst. aos Efés., v. 2, onde o Ap. ensina que Cristo nos amou e se entregou a si mesmo por nós como προσφορὰν καὶ θυσίαν ΘΕΩ εἰς ὀσμὴν εὐωδίας, oferta e Sacrifício a Deus em odor de suavidade ou de boa fragrância, do que consta pela mente de Paulo que a entrega de Cristo por nós e sua oblação ou sacrifício coincidem; Ora, Cristo entregou-se a si mesmo por nós quando morreu pelos pecados (Rom. 4:25 e 8:32). Logo, e então se ofereceu a si mesmo. Nem devem ser admitidas aqui as glosas dos heréticos, que pretendem que não se diz que Cristo se ofereceu a si mesmo a Deus por nós, embora muitos tenham crido, porque o verbo παρέδωκεν [entregou] não deve ser conjugado com a voz προσφορὰν [oferta], e que isto é persuadido tanto pelo próprio verbo παραδιδόναι [entregar], de cujo uso na oferta de vítimas talvez nenhum se encontre, quanto pela mente do Apóstolo, que foi apenas a de exprimir a suma caridade de Cristo e dizer abertamente que ele se entregou à morte por nós, o que não teria expresso assim se tivesse dito que Cristo se ofereceu a Deus por nós, visto que alguém pode oferecer-se a Deus e contudo não morrer: que o sentido do lugar, portanto, seja que Cristo nos amou tanto que se entregou à morte por nós; depois, para que os Efésios fossem mais acesos para imitar este singular ato de Cristo, subajuntou por aposição que esta exímia caridade de Cristo, esta sua egrégia obra, foi uma oblação e hóstia gratíssima, plenamente como em Filip. 4:18, falando sobre a beneficência e esmola dos Filipenses, diz que ela foi em odor de suavidade, hóstia aceita, prazendo a Deus, portanto, que se trata não da oblação do corpo, mas de um fato prestantíssimo. Assim Socino e Volkelius.

XXV. Mas esta impudente corrupção do lugar até a só inspeção das palavras subverte; pois quando o Ap. diz que ele se entregou a si mesmo como προσφορὰν καὶ θυσίαν ΘΕΩ, quem não colheria que Cristo se entregou a si mesmo em oblação e hóstia? ou que outra θυσία [sacrifício] e προσφορὰ [oferta] poderá ser fingida aqui feita a Deus, senão a de si mesmo, e assim aquela mesma sobre a qual tantas vezes se faz menção em Hebreus? Nada, portanto, aqui é necessário sonhar com elipse, a ser suprida por estas palavras: a saber, na morte, visto que o sermão de Paulo é tão plano, pelo qual indica não que a entrega mesma tenha sido aquela oblação e vítima, mas Cristo mesmo entregue, de onde não há dúvida que fala não apenas de um fato prestantíssimo, mas da oblação do próprio corpo: assim divindem-se as coisas que devem ser conjugadas, como se o verbo παρέδωκεν devesse ser separado da voz προσφορὰν, quando a própria coisa ensina que deve ser conjugado, nem ocorre outro verbo pelo qual seja regido; não diz simplesmente παρέδωκε, mas ἑαυτὸν παρέδωκε προσφορὰν καὶ θυσίαν, as quais ou não têm nenhum sentido, ou este: a saber, que Cristo se entregou a si mesmo em vítima e oblação: Não apenas, portanto, quis indicar o Apóstolo que Cristo nos amou tanto que se entregou por nós em oblação e vítima a Deus. E certamente se a Entrega por aposição, como eles dizem, é dita oblação, e a entrega foi do corpo e da pessoa, não apenas do fato, mas a oblação da própria pessoa deve ser entendida, como em outros lugares por toda parte se faz menção da oblação de si mesmo. O que se acrescenta sobre o verbo παραδιδόναι, que é decerto raro e insólito nos sacrifícios, é impertinente: pois este verbo não pôde ser aplicado aos sacrifícios de brutos do V. T., visto que eram brutos que eram arrastados ao sacrifício, não verdadeiramente eles mesmos se sistiam e entregavam espontaneamente, mas Cristo se entregou a si mesmo: Portanto, Paulo quis tocar nesta memorável diferença entre o sacrifício de Cristo e os Levíticos, e com isso exaltar mais a excelência de sua caridade. O que verdadeiramente se submete por último sobre o lugar de Filip. 4:18 nada tem de semelhante com aquele, pois a beneficência e esmola dos Filipenses é dita por Paulo ὀσμὴν εὐωδίας θυσίαν δεκτήν [odor de suavidade, sacrifício aceitável], etc., mas não se diz que os Filipenses se entregaram a si mesmos ὀσμὴν εὐωδίας como se diz que Cristo se entregou a si mesmo, portanto peca-se pela falácia dos pares; nós e nossas obras somos bom odor, mas em Cristo, porque prazemos a Deus por causa dele, Cristo verdadeiramente porque aplaca o próprio Deus, ele por si, nós nele.

XXVI. Debalde Volkelius acrescenta que Paulo respeita os sacrifícios pacíficos e voluntários, não os propiciatórios, e que isso é patente pelas últimas palavras, pois ὀσμὴν εὐωδίας aplicar-se-ia principalmente a estes. Pois é falso que o odor de suavidade se aplique apenas aos pacíficos, imão, muitas vezes também aos expiatórios, como em Gên. 8, aos holocaustos de Noé oferecidos após o dilúvio, e Êxod. 29, ao sacrifício jugal, que devia ser oferecido diariamente de manhã e à tarde em odor grato, e por toda parte sobre outros (Lev. caps. 1 e 4). Assim denota-se aptissimamente a aplacação da ira de Deus e a conciliação de sua benevolência com os fiéis, que foi fruto de seu sacrifício expiatório; pois quando o fedor espiritual de nossos pecados feria continuamente as narinas divinas, e sua justiça fora tão gravemente ofendida que ele não podia temperar-se de efundir sua ira sobre nós sem que fosse dada uma pleníssima Satisfação, pelo sacrifício de Cristo o fedor tetérrimo de nossa culpa foi assim abolido do olfato, por assim dizer, da justiça Divina, tal como se nunca tivesse existido, e sua ira fervente e inflamada foi inteiramente sedada e pacificada, imão, desfez-se na mais plácida serenidade de amor e benevolência para com todos os aspergidos pelo cruor desta vítima. Segundo, perversamente opõem-se coisas que devem ser conjugadas, o sacrifício expiatório e o pacífico, pois a verdade de ambos depreende-se no sacrifício de Cristo; pois foi tanto propiciatório para expiar nossos crimes, quanto pacífico ou impetratório para alcançar todos aqueles benefícios que dependem da remissão dos pecados: de onde aqui dois concorrem simultaneamente, como dissemos antes, tanto a Satisfação quanto o mérito, pois satisfez merecendo, e mereceu satisfazendo; sua obediência foi τιμὴ [preço] e λύτρον [resgate] para a redenção do mal, e ao mesmo tempo δικαíωμα [justificação] para a aquisição do bem (Rom. 5:18).

XXVII. Finalmente, Cristo é dito ter entrado no céu como em seu descanso (Heb. 4:10), consumada a obra de nossa salvação que lhe fora demandada pelo Pai, como ele mesmo testemunha (João 17:4 e v. 19:30). Logo, devia ter oferecido na terra o predito sacrifício, de outro modo não poderia verdadeiramente professar que tudo estava consumado, se nada ainda fora perfeito de todas aquelas coisas que ele tinha para fazer. Nem aqui deve obstar a perpétua função do múnus sacerdotal que incumbe a Cristo realizar diariamente no céu, pois uma coisa é falar da aquisição e mérito, outra da conservação e aplicação daquele benefício; esta de fato deve ser contínua, mas a anterior foi tão perfeita e absoluta na terra que nada já resta nem a ser acrescentado nem a ser mudado. Do mesmo modo que a conservação divina das coisas não faz com que a obra da Criação não tenha sido perfeita e absoluta nos seis primeiros dias, nem interfere no descanso ao qual Deus é dito ter passado no sétimo dia; assim Cristo, após a obra da nova criação realizada, entrou num σαββατισμὸν [descanso sabático] eterno, no qual não adquire ou aplica novos benefícios que antes ainda não tivessem sido adquiridos, mas apenas cuida para que sejam aplicados e conservados aqueles que outrora obteve para nossa Redenção.

XXVIII. Do que concluímos que Cristo, embora não tenha preenchido todas as partes do múnus Sacerdotal na terra, obedeceu todavia às principais, mui especialmente verdadeiramente àquele sacrifício ἱλαστικὸν [propiciatório] que ofereceu por nós, e assim que sua morte não foi uma preparação e antecedente do próprio sacrifício, mas mui propriamente o próprio sacrifício: Nem devem mover-nos da sentença recebida as razões que são trazidas em contrário. Primeiro, dizem, Cristo, para que se tornasse Pontífice misericordioso e fiel para expiar nossos pecados, devia tornar-se semelhante a seus irmãos em tudo, e ser tentado em tudo semelhantemente, exceto no pecado (Heb. 2:17 e 4:15). Logo, devia experimentar a morte e provar antes outros males semelhantes antes de ter sido feito Pontífice. Resp. Mas estas coisas são aduzidas fora da questão e do escopo do Ap.; os lugares não ensinam quando Cristo foi feito Pontífice, mas qual devia ser; pois requeria-se um Pontífice partícipe da carne e do sangue que se assemelhasse a nós em tudo para que fosse verdadeiramente nosso ἐγγυὸς [fiador] e גואל [goel/redentor] conjunto por sangue: Novamente, requeria-se um Pontífice que, como ἐλεήμων [misericordioso], pudesse συμπαθῆσαι [compadecer-se] e a quem pudéssemos aclamar com confiança em nossas tentações: Para alcançar ambos os fins, uma dupla semelhança devia interceder entre ele e nós; a primeira de essência e natureza, participando da carne e do sangue (v. 14, 17), a qual olhou para que pudesse ser πιστὸς ἀρχιερεὺς τὰ πρὸς τὸν Θεὸν [fiel sumo sacerdote nas coisas para com Deus], para expiar nossos pecados, visto que o pecado devia ser expiado na mesma natureza em que fora admitido. A outra de enfermidades, tentações e misérias, as quais devia sofrer e experimentar, para que assim pudesse ser mais prontamente afetado pelas nossas misérias e mais facilmente socorrer-nos nas tentações; à semelhança daquela que dizia em Virgílio:

Não ignara do mal, aprendo a socorrer os miseráveis.

Estas coisas, porém, todas demonstram de fato qual devia ser, mas não por meio de quê e quando foi feito Sacerdote: Além disso, não apenas na morte ou depois dela foi-nos assemelhado em tudo; mas já antes quando tanto assumiu nossa carne passível quanto sustentou várias tentações nos dias de sua carne; portanto, não apenas depois, mas já antes começara Cristo a ser Pontífice misericordioso. 3. O Ap. não diz que devia ser assemelhado em tudo e decerto por meio de tentações e misérias para ser Pontífice, mas para que fosse Pontífice misericordioso e fiel, de onde das palavras do Ap. concluirás retamente que Cristo antes da morte não sofreu todas as calamidades pelas quais seria plenamente Pontífice misericordioso, mas não inferirás retamente que antes da morte não foi Pontífice. Nem deve ser feita violência nestas palavras ἵνα γένηται ἀρχιερεὺς [para que se tornasse sumo sacerdote]. Pois além de que não são traduzidas assaz comodamente por V. V., para que se tornasse, que melhor se traduzem por para que seja ou para que fosse, uma coisa é ser Pontífice misericordioso pelo sentido das enfermidades, outra é ser simplesmente Pontífice; Cristo pôde de fato obter o primeiro pelas aflições e misérias, mas o posterior já tinha antes, desde o próprio momento da vocação. Além disso, o que se diz feito Pontífice misericordioso pelo sentido das enfermidades não deve ser entendido simples e absolutamente, mas κατὰ τι [de certo modo] por razão da notícia experimental e efetivamente, em cujo sentido se diz ter aprendido a obediência das coisas que sofreu (Heb. 5:8), não por razão da teoria apenas e afetivamente, pois isto teve sempre pela constituição da natureza.

XXIX. Segundo, Obj. Cristo não assumiu o Sacerdócio antes que lhe fosse dito: tu és meu filho, hoje te gerei (Heb. 5:5). Ora, isto foi feito enfim quando Deus, ressuscitado dentre os mortos, o constituiu Senhor e Cristo, testemunham Paulo (Atos 13:33) e Rom. 1:4. De onde se colhe que o sacrifício expiatório de Cristo não foi realizado na morte da cruz, mas é administrado no Tabernáculo celeste. Resp. 1. por συγχώρησιν [concessão], damos que Cristo não assumiu o múnus sacerdotal antes de ser chamado a ele pelo Pai, pois assim se diz que não se glorificou a si mesmo, isto é, que não se intrujou e voou para aquele múnus voluntariamente sem ninguém o chamar. Segundo, por ἄρνησιν [negação], negamos que estas palavras tu és meu filho, sejam precisamente ordinativas para o múnus Sacerdotal, embora possam fundamentá-lo; pois uma coisa é ser filho e filho gerado, outra ser constituído Sacerdote; aquilo nota a comunicação necessária da natureza, isto a instituição livre do ofício: aquele constituiu Cristo como Pontífice que lhe disse: tu és meu filho, mas não necessariamente enquanto lhe disse isto, a saber, por esta perífrase o Apóstolo quis designar o Autor da vocação e indicar o fundamento legítimo daquela dignidade conferida, pois se o filho da Virgem é chamado por Deus Pai de filho que gerou, segue-se que ele também foi constituído Pontífice por Deus Pai: Pois tal Sacerdote verdadeiramente Emanuel foi prometido pelos Profetas e como θεάνθρωπος [Deus-Homem], que salvaria o povo dos pecados pelo seu sacrifício (Isa. 7:14; Mat. 1:21). Ora, como outrora a dignidade Sacerdotal esteve entre os direitos da primogenitura, assim Deus constituiu bem Cristo como Pontífice porque era seu filho unigênito, o único idôneo que por tão sublime múnus obedeceria. Estas são, portanto, a declaração do Pai sobre Cristo de que ele é seu Filho, contêm a causa do Pontificado a ele deferido e o autor da vocação, mas o tempo de sua instituição não indicam; o Ap. não diz que Cristo não foi criado antes verdadeiramente Pontífice senão quando lhe foi dito tu és meu filho, mas simplesmente que foi constituído Pontífice por aquele por quem lhe foi dito tu és meu filho. Terceiro, é falso também que estas palavras tenham sido ditas a Cristo apenas na ressurreição, ou cumpridas depois dela, pois já antes muitas vezes, tanto no Batismo (Mat. 3) quanto na transfiguração (Mat. 17:5), esta voz fora ouvida do céu; imão, sua filiação é buscada da eternidade (Miq. 5:2), quando seus egressos são ditos ser desde o início, desde os dias do século, e Prov. 8:22, a Sabedoria é dita gerada antes dos outeiros. Por que Paulo refere à ressurreição? Distingamos a coisa da manifestação da coisa, a causa constitutiva a priori, da causa declarativa a posteriori; como é sabido na Escritura, frequentemente se diz que a coisa se faz quando se torna conhecida, e se manifesta o que antes estava oculto, como as estrelas só então são ditas nascer quando começam a aparecer-nos: A ressurreição de Cristo não foi a causa constitutiva da filiação, como se então pela primeira vez tivesse sido feito filho, pois desde a eternidade tal foi, imão, e antes da ressurreição pela hipót. dos Adversários; mas foi a causa declarativa, pela qual na realidade, através da ressurreição como argumento invicto, tal foi comprovado e reconhecido. Nem outra coisa indica Paulo (Rom. 1:4) quando diz que não de fato foi feito, mas ὁρισθέντα [designado], declarado e como que por juízo solene promulgado Filho de Deus pela ressurreição dentre os mortos. Assim em Atos 13, não por isso Cristo é dito gerado em filho de Deus porque foi ressuscitado dos mortos, mas por isso foi ressuscitado dos mortos porque, sendo tal, não foi possível que ele fosse detido pelos grilhões da morte, e este Santo de Deus sentisse a corrupção; de onde, por essa ressurreição, constatou-se mui certamente que ele é o filho unigênito do Pai. Acrescente-se também isto, que este Oráculo do Sl. é referido pelo Apóstolo não tanto para provar a ressurreição de Cristo, o que faz expressamente no vers. 34, 35, louvando o lugar do Sl. 89:28 e Sl. 16, quanto sua exibição e manifestação na carne, que foi a promessa feita aos pais.

XXX. Terceiro, Obj. Heb. 8:4: Se estivesse na terra nem Sacerdote seria, permanecendo aqueles Sacerdotes que oferecem dons segundo a lei como os que servem ao exemplar e sombra das coisas celestiais. Do que se colhe que para constituir seu Sacerdócio foi necessário que consistisse nos céus, de outro modo não seria Sacerdote. Resp. Nego a consequência, nem se a exaltação de Cristo era requerida para a continuação e consumação de seu Sacerdócio, segue-se continuamente que tenha sido requerida para sua constituição; damos de fato que Cristo, o sumo Pontífice, para que consumasse e cumprisse seu Sacerdócio, devia enfim subir aos céus, como os Sacerdotes terrenos que continuariam seu sacerdócio deviam passar do átrio para o santuário, pois o ingresso no Santuário foi de necessidade e plenitude do Sacerdócio, e se assim é lícito falar, o escopo do sacrifício, visto que por nenhum outro conselho o Sacerdote oferecia fora do santuário senão para que entrasse no santuário, nem aquela expiação foi instituída para outro fim, nem por outra lei senão para que, entrado no santuário, se sistisse, peratado o sacrifício, perante o Senhor. Assim, se Cristo não tivesse entrado nos céus, mas tivesse permanecido na terra, nem Sacerdote seria quanto à função, não absoluta a ação sacerdotal, Porque em Cristo, que é o Santo dos santos, não pode o ofício ser separado da legítima função do ofício, daquilo que não exerceria o ofício retamente poderia inferir-se que nem o ofício lhe compete: Mas embora o Sacerdócio de Cristo na terra não tenha sido completado, não se segue que não tenha sido constituído e verdadeiramente iniciado. Imão, tanto dista que Cristo não seria Sacerdote se não estivesse no céu que, ao contrário, no céu não teria subido se já não tivesse sido constituído Sacerdote, pois assim sob a lei o Sacerdote Aarônico não era constituído Sacerdote pelo fato mesmo de entrar no santuário, imão, não teria tido o direito de entrar se já não estivesse com o sacerdócio confirmado e o sacrifício oferecido: Portanto, estas duas coisas não devem ser confundidas, que são diversíssimas: que Cristo na morte de modo algum foi Sacerdote, e que Cristo se permanecesse na terra não seria Sacerdote, pois aquilo respeita a consumação do Sacerdócio, isto verdadeiramente sua primeira constituição; Paulo afirma isto, mas não aquilo.

XXXI. Além disso, para que a força da raciocinação Apostólica, que parece mais obscura, patenteie-se mais claramente, deve-se observar que o Apóstolo está em provar que Cristo subiu aos céus e é o Sacerdote celestial, o que dissera no v. 1. Mostra verdadeiramente disso que se estivesse ainda na terra nem sacerdote seria, permanecendo aqueles Sacerdotes que oferecem dons segundo a Lei, etc., onde duas razões latentes. A primeira que é buscada das pessoas. A segunda do ofício. Das pessoas, pois como o Sacerdócio terreno fora designado apenas aos Levitas por expresso mandato de Deus, não pôde ser possuído por Cristo que foi oriundo de outra tribo (Heb. 7:14). Pois é pálido que nosso Senhor brotou de Judá, sobre cuja tribo nada Moisés falou acerca do Sacerdócio. Do ofício. Porque não podem simultaneamente de direito obter e exercer-se esses dois Sacerdócios, o Levítico e o de Cristo, porque aquele teve a razão de sombra e figura, este de corpo e verdade. Ora, permanecendo Cristo na terra, deviam permanecer os Sacerdotes Levíticos, porque enquanto a verdade e a coisa figurada pelo tipo não é exibida, tanto tempo é necessário que permaneçam a sombra e o tipo: Permanecendo Cristo na terra e não subindo ao Santuário, não poderia ser dita a verdade perfeitamente exibida, visto que o último ato do Sacerdócio que é o complemento e fim do primeiro ainda não chegara, a saber, o Ingresso no santuário: De onde o Apóstolo colhe otimamente que se na terra ainda estivesse Cristo, nem sacerdote seria. Dirás: Mas acaso na própria encarnação de Cristo o corpo das sombras e a verdade das figuras não foram exibidos, por que então foi necessário subir aos céus para que aquele culto legal e típico fosse revogado? Resp. Damos que com o advento de Cristo foi exibido o corpo das sombras e a verdade das figuras, mas não se segue imediatamente que a revogação tenha sido feita de tudo: Primeiro, a revogação foi feita de direito pela morte, como dissemos, mas de fato apenas e perfeitamente após a ressurreição e ascensão. Enquanto verdadeiramente o verdadeiro Sacerdote agia na terra, e ainda não introduzira o sangue no Santuário, tanto tempo foi necessário que o sacerdote típico entrasse no Santo dos Santos no tempo fixo e solene, e por conseguinte imolasse vítimas e oferecesse sacrifícios, porque foi necessário por este pacto significar que o verdadeiro sacerdote ainda não entrara no verdadeiro santuário, nempe o Céu. Esta é, porém, a razão ὁ τύπος καὶ ὃ τυπωθέντι [o tipo e o que é tipificado] da figura e da coisa figurada, que a figura não ceda por partes à verdade, mas por si toda, visto que deve estar toda a figura até que venha em seu lugar toda a verdade. Portanto, aquela dupla função do sumo Pontífice de imolar fora do Santo dos Santos, e de entrar no Santuário, não devia ceder por partes à ação de Cristo que se ofereceu na terra e se sistiu no Céu, mas toda a ação do Sacerdote decebeu a toda a ação de Cristo, de onde se segue que então enfim foi retirado o Sacerdócio Levítico quando Cristo, entrado no Céu, aplicou a última mão a esta obra. E isto mesmo testemunha o Ap. Heb. 9:8: Ter estado o primeiro Tabernáculo enquanto o verdadeiro Sacerdote não entrou no Santo dos Santos. Ora, estando o Tabernáculo, deve estar também seu culto. Mas estando aquele, Cristo não pôde ser Sacerdote porque dois Sacerdócios não podem estar simultaneamente. Nem aqui deve ser reposto que assim se segue que nem Cristo pôde oferecer na terra se não pôde ser Sacerdote estando outro Sacerdócio; pois uma coisa é ser aperfeiçoada e completada a função sacerdotal, outra ser iniciada, não pô pôde de fato o primeiro ser feito estando o culto Levítico, mas nada obsta para que a função do verdadeiro Sacerdote tenha começado estando ainda o Sacerdócio típico. Além disso, uma coisa é oferecer na terra, outra, peratada a oblação, permanecer na terra. O Apóstolo não diz, se Cristo tivesse oferecido na terra não seria Sacerdote, mas se Cristo tivesse permanecido na terra, se não se sentasse à destra do Pai, nem Sacerdote seria, pois não é Sacerdote quem começa e não absolve a ação Sacerdotal.

XXXII. Quarto, Obj. Nosso Sacerdote devia ser feito mais sublime que os céus. Logo, enquanto não foi feito mais sublime que os céus não nos convinha que fosse nosso Sacerdote, nem decerto foi. O primeiro é patente de Heb. 7:26: Tal Pontífice nos convinha, piedoso, inocente, separado dos pecadores feito mais sublime que os céus. Resp. Mas nenhuma conseq. aqui. Uma coisa é que nosso Pontífice devia ser feito mais sublime que os céus porque nos céus tinha coisas a realizar por nós, Outra coisa é que não foi Pontífice senão depois que foi feito mais sublime que os céus; o primeiro reconhecemos com o Apóstolo, mas não o posterior; assim para o Sacerdote Levítico houve coisas a realizar no santuário, quem todavia dirá que ele não foi Sacerdote quando realizava as coisas que são do Sacerdote fora do santuário? não portanto quando começou a ser Pontífice, mas que o Pontífice não devia permanecer na terra, mas feita a oblação ser feito mais sublime que os céus ensina o Apóstolo, caso contrário seguir-se-ia também que não foi piedoso e impoluto antes de ser feito mais sublime que os céus, o que quão absurdo seja ninguém não vê.

XXXIII. Quinto, Obj. Se Cristo por sua morte tivesse aperfeiçoado a oblação e a expiação, não teria sido necessário oferecê-la denovo nos céus para peratá-la, Ora, foi necessário ele ser oferecido denovo nos céus para peratá-la, porque devia sistir-se por nós no conspecto de Deus para interpelar (Heb. 7:24-25), o que não pôde ser feito sem a oblação de si. Resp. Nego a min., pois embora Cristo devesse sistir-se perante Deus nos céus, não deveu isto para aperfeiçoar a oblação iniciada ou imperfeita, pois foi absoluta, como testemunhou na cruz, mas tanto para que a verdade respondesse ao tipo, quanto para que a expiação feita uma só vez na terra pela morte, fosse também ratificada no céu e aplicada pela eficácia da intercessão. Segundo, confunde-se o ἐμφανισμὸς [aparecimento] de Cristo com seu ἱλασμῷ [propiciação]; Cristo de fato devia comparecer perante Deus nos céus para interceder, mas não por isso devia oferecer-se para expiar: e o Apóstolo neste mesmo lugar separa manifestamente o aparecimento da oblação; pois nega que Cristo apareça para oferecer-se mais vezes. Logo, o aparecimento não é a oblação segundo a mente do Apóstolo; a oblação foi única, mas o aparecimento é contínuo, a oblação cruenta, o aparecimento glorioso, a oblação para o ἱλασμὸν [propiciação], o aparecimento para a ἔντευξιν [intercessão]. Das quais coisas já resplandece que Cristo não apenas nos céus, mas também na terra foi verdadeiramente Sacerdote, e realizou na cruz a oblação ou sacrifício propriamente dito.

XXXIV. Pergunta-se em Segundo lugar, Se todos os sacrifícios do V. T. expiatórios foram tipos do sacrifício de Cristo, ou apenas alguns? Os Adversários, para que mais facilmente se expeçam daquele argumento que é buscado desses sacrifícios expiatórios, respondem que não todos esses sacrifícios respeitaram a Cristo, mas apenas os públicos e anuais oferecidos pelo sumo Pontífice, e cujo sangue era introduzido no Santo, mas os demais adombrariam nossos sacrifícios espirituais. Distintas são as palavras de Socino (p. 2, c. 9): Pelo que, como nem todos os sacrifícios da lei, embora feitos pelo pecado, respondam à morte de Cristo como a imagem à verdade: nem todos figuravam a morte de Cristo, mas figura da morte de Cristo eram apenas os sacrifícios que se faziam publicamente e em certos tempos fixos, mui especialmente verdadeiramente aquele que uma vez no ano o sumo Sacerdote realizava entrando no Santo dos Santos, etc. Neste sacrifício, portanto, como dito foi, o potíssimo da morte de Cristo, e assim o próprio Cristo enquanto Sacrificou a Deus por nós, foi adombrado. nos demais verdadeiramente que se faziam pelo pecado, não se figurava a morte de Cristo, mas apenas na pessoa do sumo Sacerdote o próprio Cristo era adombrado, os sacrifícios verdadeiramente adombravam os nossos próprios sacrifícios espirituais. Nossa sentença verdadeiramente é que não apenas aquele sacrifício anual adombrou o sacrifício de Cristo, embora não neguemos que tenha sido a figura ilustre acima dos demais, mas também todos os demais sacrifícios ἱλαστικὰ [propiciatórios] que ou publicamente por todos, ou privadamente por cada um eram oferecidos, o que podemos comprovar por várias razões.

XXXV. Primeiro, Porque toda a Lei Cerimonial foi típica e figurativa de Cristo e de seus benefícios: Pois embora tenham havido vários fins daquela dispensação, tanto para distinção dos Judeus das Gentes, quanto para nota de profissão, o Apóstolo todavia não nos deixa duvidar que a razão principal foi típica quando a chama de Pedagogo para Cristo (Gál. 3:24) e Cristo seu fim (Rom. 10:4). Que aquela teve a sombra (Heb. 10:1), este verdadeiramente seja o corpo (Col. 2:17). E certamente como Cristo é o fundamento do pacto da graça, assim é a base de toda a Escritura, e o centro para o qual todas as linhas das revelações confluem, para que nele todas as promessas, assim também os tipos sejam Amém (2 Cor. 1:20). Assim, a saber, Deus quis erguer os Antigos Pais para a fé do Messias venturo falando tanto por palavras quanto por ações, como diz Agost. (Ad Faust.), não apenas entregando suas promessas e vários oráculos que provassem a certeza da coisa, mas também exibindo aos olhos muitos tipos e figuras, que representassem mais eficazmente o modo e as várias circunstâncias de tão admirável mistério, para que assim por estas sombras e pinturas o povo ainda rude e menor de idade fosse deduzido como que por certos elementos para a apreensão dos bens celestiais a serem adquiridos por Cristo: hinc resultou que nada foi cumprido em Cristo cuja ideia alguma e exemplar outrora não tivesse preexistido, e nada ilustre e memorável ou nas pessoas ou nas coisas ou nas ações existiu que não respeitasse a Cristo: como portanto nos Sacerdotes seu Sacerdócio, assim nos sacrifícios devia adombrar-se seu sacrifício, pois foram tantas pinturas das paixões de Cristo, e como que certos sermões, que comoveriam o povo tanto sobre a miséria do pecado quanto sobre o remédio da graça a ser conseguido na vítima celeste: nem outra coisa quer o Apóstolo quando por toda parte chama todas aquelas coisas na Epíst. aos Hebr. σκιάς [sombras], παραβολὰς [parábolas/figuras], ὑποδείγματα [cópias], ἀντίτυπα [antítipos]: c. 8:5, 9:9, 23, 10:1: com tais títulos todo aquele culto Levítico não teria podido ser insígnia, se não tivesse tido a razão de tipo para Cristo.

XXXVI. Segundo, Todas aquelas vítimas e sacrifícios foram tipos de Cristo que por Cristo foram revogados, pois se aqueles legais não se tivessem tido para o Sacerdócio de Cristo como a sombra para o corpo, o Ap. não teria podido demonstrar firmemente a revogação daqueles pelo advento deste, pois o tipo pela verdade, a sombra pelo corpo é retirada: facilmente de fato poderiam ter excepcionado os Judeus: a posição de um não infere a destruição do outro, visto que esses sacrifícios não respeitavam a Cristo: Mas solidamente o Ap. aos Hebr. argumenta de um para o outro e que o anterior é revogado pelo posterior, o que prova com firmes argumentos. Logo, é necessário que tenha havido entre eles relação típica, cuja razão é esta, que o tipo ao τῷ τυπωθέντι [ao tipificado], e a figura à verdade deva ceder. Terceiro, Se os holocaustos e outros sacrifícios que eram oferecidos no dia das propiciações figuravam a morte de Cristo, como admitem os adversários, nenhuma causa se pode dizer por que esses mesmos sacrifícios, quando eram oferecidos por privados ou diariamente, não tenham respeitado igualmente ao mesmo, pois o fim e o efeito foram os mesmos em ambos os casos, nimirum a destruição da vítima pela efusão do sangue, e pela mesma a expiação dos pecados e a libertação dos pecadores, nem ocorre qualquer diferença que coloque a razão formal do sacrifício naquele antes do que nestes.

XXXVII. Quarto, Os sacrifícios cotidianos e comuns são conferidos com o sacrifício de Cristo como a figura com a verdade. Logo, não apenas no anual foi prefigurado; o primeiro é patente pelo Apóst. Heb. 7:27: Cristo, diz ele, não tem necessidade καθ' ἡμέραν, diariamente, como os Pontífices de oferecer hóstias pelos seus próprios pecados, depois pelos pecados do povo, pois isto ele fez uma vez oferecendo-se a si mesmo. Assim c. 10:11: todo Sacerdote decerto assistiu diariamente realizando os ritos sagrados, e oferecendo as mesmas hóstias muitas vezes, as quais nunca podem retirar os pecados, etc., onde uma dupla prerrogativa de Cristo sobre os Sacerdotes Levíticos é proposta: a primeira que aqueles ofereciam diariamente, iterando os mesmos sacrifícios muitas vezes, Cristo verdadeiramente uma só vez; a segunda que aqueles por si e pelo povo, Cristo verdadeiramente apenas por nós, não porém por si; o que debalde se diria se Cristo não tivesse sido adombrado nesses sacrifícios cotidianos. Duas coisas aqui repõem. Primeiro, que o Advérbio diariamente não significa singulares dias, mas muitas vezes ou em certo tempo perpétuo, que se diz diariamente, diz Socino, quando todavia isso fosse feito pelos Sacerdotes apenas uma vez no ano. Segundo, que nestes lugares se nota o sacrifício público, tanto porque em Heb. 10:3, 4 se comemora distintamente, quanto porque em Heb. 7:27 se faz menção dos sacrifícios que o Pontífice não apenas pelo povo, mas também por si devia oferecer, ora em lugar nenhum se lê que o sumo Sacerdote nos sacrifícios que se faziam pelo povo devia oferecer por si, senão no sacrifício anual. Resp. Mas ambos falsíssimos. Primeiro, Quem suportará esta audácia de contradizer na face o Espírito Santo? o Apóst. diz que estes ritos sagrados são oferecidos diariamente, eles verdadeiramente interpretam anualmente, como se o Ap. onde trata do sagrado anual não o distinga expressamente (c. 9:7, ἅπαξ τοῦ ἐνιαυτοῦ μόνος ὁ ἀρχιερεὺς [uma vez ao ano só o sumo sacerdote]) e c. 10:3 diz que os sacrifícios são oferecidos κατ' ἐνιαυτὸν [anualmente]. Segundo, É falso que o Pontífice nunca nos sacrifícios que se faziam pelo povo devia oferecer por si senão no sagrado anual; pois Lev. 4:3, 13 o Sacerdote é ordenado a oferecer tanto pelos seus próprios pecados quanto pelos do povo, todas as vezes que, a saber, estivesse consciente de seu pecado. Terceiro, não negamos que se faça menção em Heb. 10 do sagrado anual, mas não exclusivamente aos demais, que ou diariamente ou em certos casos eram oferecidos, imão, denotam-se assaz expressamente no vers. 11, onde se faz menção de qualquer Sacerdote que assista diariamente para λειτουργεῖν [ministrar]. Isto, portanto, quer o Apóstolo: que pelo único sacrifício de Cristo todos os nossos pecados foram expiados, os quais nem pelo público e solene que se fazia uma vez no ano, nem pelos privados quaisquer que diariamente eram oferecidos podiam ser retirados.

XXXVIII. Quinto, Os sacrifícios de Cordeiros ἱλαστικὰ [propiciatórios] no público e solene não tinham lugar, mas apenas nos privados e ordinários, puta o sacrifício jugal e outros. Ora, estes todavia adombraram o sacrifício de Cristo, daí que tantas vezes lhe é atribuída a nomenclatura de Cordeiro; não apenas por razão das virtudes, inocência, paciência, humildade, etc., mas mui especialmente em relação ao sacrifício, pois diz-se que tira os pecados (João 1:29), que nos remiu pelo sangue (1 Pe. 1:18-19), que foi mactado (Apoc. 5:12 e 13:8). Nem aqui deve ser admitida a vitilitigação dos Adversários, de que em nenhum sacrifício que fosse feito pelo pecado o cordeiro foi imolado, mas apenas a cordeira ou a cabra pelo pecado do privado (Lev. 4:32). Pois primeiro, no sacrifício jugal quem não sabe que cordeiros eram imolados? ora, este era ἱλαστικόν [propiciatório]. Segundo, nas contaminações a serem expiadas (Lev. 12:6, 14:10, Núm. 6:12, 14), de onde o cordeiro era dito ser oferecido para a culpa e delito (Lev. 14:12). Terceiro, se foi cordeiro ou cordeira pouco importa, visto que ambos bem puderam referir-se a Cristo. Para aqui pertence também o tipo exímio do Cordeiro Pascal, o qual Paulo ensina manifestamente ter respeitado a Cristo chamando-o de Páscoa, atribuindo metonimicamente o nome do signo ao signatário (1 Cor. 5:7); e Pedro, que diz que fomos remidos pelo sangue deste Cordeiro (1 Pe. 1:18-19), como os primogênitos dos Israelitas foram libertados da morte iminente por Abadom pela aspersão do sangue do Cordeiro: Assim pelo sangue deste Cordeiro ἀμῶμος καὶ ἄσπιλος [imaculado e sem mancha], aspergido não nos umbrais e vergas da casa, mas no íntimo recesso da consciência (1 Pe. 1:2), redime-se da ira de Deus e da morte eterna: Ao que também respeita o que em João 19:36 diz-se ter sido cumprido verdadeiramente em Cristo, o que fora dito sobre o cordeiro Pascal: osso nenhum lhe será quebrado. Além disso, duas coisas devem ser notadas aqui. Primeiro, que naquele sacrifício Pascal houve algo de extraordinário que se afastava da regra depois prescrita nos sacrifícios; de onde a alguns parece ser dito sacrifício menos propriamente. Segundo, que não foi apenas sacrifício (Êxod. 12:27), mas também Sacramento, aquele na imolação do cordeiro, efusão do sangue, aspersão do mesmo para a ἀπολύτρωσιν [redenção], este no banquete e na manducação: notava, portanto, duplicadamente a Cristo: Primeiro, no sacrifício como a Vítima que satisfaz a Deus; Segundo, no Verbo e nos Sacramentos como o alimento que nutre as almas: 1. enquanto é oferecido a Deus para a expiação; 2. enquanto nos é oferecido para a aplicação, ambos são indicados pelo Apóstolo (1 Cor. 5:7-8): diz-se mactado no sacrifício, e a ser manducado no Banquete.

XXXIX. Sexto, Quando tão acuradamente o Espírito S. entregou toda esta doutrina dos sacrifícios, foi necessário que existisse inteiramente uma gravíssima razão para instituir culto tão operoso, porém nenhuma mais conveniente pode ser dada do que a representação típica do sacrifício de Cristo; pois por aquelas vítimas piaculares nem a doutrina era confirmada, nem o pacto era percutido, nem o exemplo ou do ofício ou da futura condição era proposto aos que observavam a lei, nem a ira de Deus por si era aplacada; acaso para recomendar ao homem a fé e a penitência, ou para conciliar a graça de Deus foi necessário fundir o sangue de tantas vítimas, queimar a gordura, cremar as carnes? como se Deus, à maneira do Júpiter Homérico, se alimentasse do vapor das vítimas (Sl. 50:13). Mas a culpa típica pela morte infligida pelos pecados era retirada; onde quem não veria a imagem mais expressiva da vítima celeste, que pelo seu sangue devia propiciar a divindade, e deletar nossos pecados?

XL. Sétimo, Hinc resultou que todos os gêneros de sacrifícios propiciatórios são referidos a Cristo frequentemente no N. T. Primeiro, o Holocausto e o Sacrifício jugal de Cordeiros quando se diz o Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo (João 1:29) e decerto no presente para notar sua força contínua, e o Cordeiro morto desde a origem do mundo (Apoc. 13:8). II. A Novilha ruiva de cujas cinzas se fazia a água da purgação (Núm. 19): pois se o sangue de Touros e Bodes e a cinza da novilha aspergindo os inquinados santificava quanto à pureza da carne, quanto mais o sangue de Cristo, etc. (Heb. 9:13-14). III. Sacrifício pelo pecado em Heb. חטאה [chattaah] dito, em Grego περὶ ἁμαρτίας [peri hamartias]: Deus enviando o filho em semelhança da carne do pecado καὶ περὶ ἁμαρτίας, isto é, para que fosse vítima pelo pecado, condenou o pecado na carne (Rom. 8:3). Assim Heb. 10:5, 6, o corpo de Cristo e sua oblação se opõem e sucedem aos holocaustos e sacrifícios pelo pecado; e Heb. 13:11, 12, aqueles sacrifícios pelo pecado cujos corpos eram cremados fora do acampamento, e o sangue era levado para o santuário, dizem-se cumpridos em Cristo. IV. A Hóstia pela culpa que se dizia אשם [asham], porque Cristo foi posto לאשם [le'asham] (Isa. 53:10) e foi feito pecado (2 Cor. 5:21).

XLI. E certamente até a só consideração um pouco mais atenta desses sacrifícios, se agora tratássemos disso, poderia ensinar-nos que em nenhum outro lugar senão em Cristo deve ser buscado o complemento; Quem não veria a Ele, no Holocausto, oferecendo-se todo a Deus sem nenhuma parte sua reservada, sem ter tido nenhuma razão de si mesmo, de modo másculo e generoso, inculpado e imerecido pelo Espírito eterno, e aceso e queimado pela suma força da caridade com fogo verdadeiramente celeste, sistindo-se perante o eterno Pai à porta do céu e derramando seu sangue ao redor do Altar, e pela sua paixão e efusão da alma satisfazendo plenissimamente à Justiça de Deus, de modo que nesta oblação ignita Deus verdadeiramente aquiesça e odore o odor do descanso? (Efés. 5:2; Heb. 9:13-14; Rom. 5:6-10). Quem não reconheceria na novilha ruiva livre do jugo o mesmo cercado pela enfermidade da carne (2 Cor. 13:4) e por causa dos pecados recebidos em si vestido com vestes rubras (Isa. 63:2-3; Isa. 1:18), embora ele mesmo em sua própria pessoa a nenhum jugo nem do pecado nem de Satanás tenha sido submetido de qualquer maneira; Ele, digo, levado para fora do acampamento como piaculo (Heb. 13:11-13; João 19:17-18), queimado pelo fogo da ira divina, consagrando todavia o tabernáculo e as coisas celestiais pelo sangue, e das cinzas repostas em lugar limpo, isto é, pelo corpo morto levado ao céu, efetuando as águas da purgação pela eficácia do espírito enviado do céu, pelas quais as consciências aspergidas das obras mortas e mortíferas do pecado são purgadas (Heb. 9:14-15). Pois veio com água e sangue (1 João 5:6) e deu-se a si mesmo pela Igreja para que a santificasse pelo lavacro da água no verbo (Ef. 5:26).

XLII. Quem, finalmente, não advertiria os vestígios do mesmo Cristo morrendo nos sacrifícios pelo pecado, naqueles mui especialmente cujas carnes eram queimadas fora do acampamento, e o sangue ou era levado para o Santuário naquele solene dia das expiações (Lev. 16), ou para o Tabernáculo, cuja aspersão era feita sete vezes contra o véu, e pelo qual eram tingidos os chifres do altar dos perfumes (Lev. 4). Pois também padeceu fora da porta (Heb. 13) e pelo próprio sangue entrou no Santuário (Heb. 9:12 e 10). Nele houve algo de preciosíssimo e santíssimo a ser oferecido a Deus, nimirum a obediência e a Justiça própria; houve todavia algo de maximamente exoso e detestável que devia ser ejetado e destruído, nimirum o nosso pecado imputado a ele (2 Cor. 5:21). A aspersão foi feita sete vezes porque a expiação foi perfeita, e verdadeiramente ungiu os chifres do altar de ouro, porque sua intercessão é sempre realizada pela virtude do sacrifício oferecido uma só vez? (Rom. 8:34; Heb. 9:12 e 10:12). O Apóstolo certamente não em um só lugar nos abriu estes mistérios, mas potissimamente em Heb. 13:12, onde ensina que Cristo padeceu fora da porta para santificar o povo, e por uma concisa alusão mostra que aqueles que ainda aderem aos sacrifícios e ritos do templo de Jerusalém, não podem ser partícipes do fruto de sua morte, porque deve ser buscado fora dos septos deste Templo, pois neste Templo o verdadeiro sacrifício pelo pecado não foi oferecido; Que é necessário, portanto, sair fora da cidade e do Templo destinado ao culto umbrático, nem deve ser retido o culto externo da Lei Moisaica, para que gozemos da redenção que Cristo nos comparou com seu precioso sangue; finalmente que deve ser seguido com ânimo alacre minimamente impedidos pelos cuidados desta vida, como se estivéssemos incluídos nos septos desta terra, porque aqui não temos cidade fixa e permanente, mas esperamos a celestial; coisas que o Apóstolo persegue todas no lugar citado. Poderíamos demonstrar isto mesmo em quase todos os outros sacrifícios detalhadamente, se não quiséssemos consultar a brevidade; em outro lugar talvez se dará lugar para dissertar mais extensamente sobre este argumento: Entretanto, deve permanecer fixo e ratificado que Cristo foi o Corpo de todas aquelas sombras, e que elas não foram instituídas principalmente por nenhuma outra causa senão por tanto tempo até que viesse o tempo da διορθώσεως [reforma/correção], e o próprio Sol da justiça brilhasse. Daí que Jerônimo (Ep. 103), com este preclaro elogio, adorna o livro do Levítico no qual estes sacrifícios são instituídos: que quase cada uma de suas sílabas respira Sacramentos Celestiais.

XLIII. Mas antes que nos retiremos daqui, não podemos omitir a ilustre história relatada por Moisés em Êxod. 24 sobre a dedicação do pacto realizada pela oblação de vários sacrifícios. Cujo mistério nos abre o Ap. em Heb. 9:19, 20, etc. Nela, de fato, se em algum outro lugar, ocorre o expresso documento da verdade que buscamos; Moisés, ordenado pelo Senhor, sobre o altar construído oferece vários sacrifícios, derrama o sangue das vítimas parte no Altar, parte asperge com ele o povo, o livro da Lei, o Tabernáculo e os vasos sagrados, contestando que este é o sangue do pacto que Deus queria selar com eles: peratado o qual, os Anciãos de Israel, que antes eram proibidos de aproximar-se enquanto a Lei era promulgada, dizem-se ter visto o Deus de Israel de modo que não estendeu sua mão sobre eles, mas comeram e beberam em seu conspecto (v. 6, 7, 8, 10). Coisas que todas eram μυστηριώδη [misteriosas] e típicas. Primeiro, que aquele pacto deveu ser dedicado pelo sangue ensinou luculentamente que o pacto de Deus com a criatura pecadora não pode ser selado senão pela intervenção da Satisfação que era adombrada naqueles sacrifícios expiatórios, de onde em outro lugar o pacto é dito ter sido contraído sobre sacrifícios (Sl. 50:5), como visto em Abraão (Gên. 15:9). Mas o que de modo umbrático e típico o sangue dos animais prestava, isto verdadeiramente presta o sangue de Cristo, que é o fundamento do novo pacto, de onde se diz sangue do novo Testamento (Luc. 22:20). Segundo, o sangue foi aspergido de diversos modos sobre o Altar, o povo, o livro da Lei e o Tabernáculo; pois embora Moisés não faça menção expressa nem do livro da Lei nem do Tabernáculo, todavia subentendeu assaz quando diz que o altar fora aspergido com sangue, e depois o livro assumido (v. 7), a saber, do Altar ao qual é provável que o livro tenha sido imposto quando se fazia a aspersão, de onde o Ap. em Heb. 9:19, por divina inspiração, faz menção distinta do livro aspergido, como também do tabernáculo (v. 21), a saber, por razão da analogia e consequência de Lev. 16. Assim ocorre a múltipla aspersão do sangue de Cristo: na Cruz, no Coração, no Verbo e no Céu. 1. é do Altar perante Deus para a expiação porque aplacou a ira e satisfez à justiça. 2. Do Povo para a remissão e Santificação (1 Pe. 1:2; Heb. 9:14), porque naquele sangue da paz e de nossa justiça está a fonte e origem (Ef. 1:7; Rom. 5:1; 1 João 1:7). 3. Do livro da lei para a confirmação das promessas e do pacto; porque nele, como a Lei é cumprida, assim todas as promessas são fundadas (2 Cor. 1:20). 4. Do Tabernáculo para a consagração porque nosso culto λογικός [racional], que é designado pelo Tabernáculo e vasos, não pode ser aceito por Deus senão na virtude da Satisfação de Cristo na qual tanto as pessoas quanto nossas obras são gratas a Deus (1 Pe. 2:5), ou porque pelo sangue de Cristo o caminho para o Tabernáculo celestial nos foi aberto (Heb. 9:23, 10:19). III. O Efeito nota-se no acesso dos Anciãos de Israel a Deus, a quem dizem ter visto e comido em seu conspecto (v. 10). Assim pela virtude do sacrifício de Cristo, Deus, que de outro modo repele de si o homem pecador, o que era significado pela proibição de aproximar-se do monte na entrega da Lei, torna-se-nos tão propício e aplacado, que não apenas não devemos mais temer que morramos, como visto outrora nos antigos, mas podemos placidamente fruir de seu conspecto pela fé (2 Cor. 3:18) e prometer-nos a comunhão e o uso de todos os bens (Isa. 55:1; 1 Cor. 3:21). E hinc colhe-se a diferença memorável entre os dois pactos, o Legal, cujo espécime foi dado na νομοθεσίᾳ [legislação] sobre a qual Êxo. 19 e 20; e o Evangélico que aqui foi adombrado: Aquele afugenta os homens e repele-os mui longamente de Deus (Êxo. 19:12). Este chama-os benignissimamente e faz aproximar-se mui proximamente (Mat. 11:28; Ef. 2:13; Heb. 4:16). Aquele aterra e consterna (Heb. 12:18-21). Este consola e ergue (Isa. 61:1, 2; Rom. 8:1, 15). Aquele para a servidão à maneira de Agar, Este verdadeiramente à maneira de Sara gera para a liberdade (Gál. 4:24-26). Aquele é a letra que mata e o ministério da morte, Este o espírito vivificante e o ministério da justiça (2 Cor. 3:6-9). Sob aquele o homem réu não pode suportar o conspecto e a voz de Deus Juiz, hinc aquela voz do povo: Deus não nos fale mais para que não morramos (Êxo. 20:19). Sob este os filhos podem intrepidamente receber a voz de Deus Pai, e fruir de seu gracioso e salutar conspecto (Êxod. 24:10, 11; Sl. 85:9; João 14:9; e 1 João 1:1). Mas sobre isto basta.

XLIV. Assim asserta a verdade de nossa sentença, deve-se submeter em poucas palavras o que os Adversários trazem para a confirmação da sua: Assim verdadeiramente eles arguem: À coisa adombrante convém que responda a coisa adombrada; Ora, os sacrifícios de privados que se faziam pelo pecado não respondem retamente à morte de Cristo: Cristo de fato morreu por todos, e isto pela só vontade e decreto de Deus e do próprio Cristo, sem qualquer consenso antecedente daqueles por quem morreu, e não por um pecado qualquer, mas por todos os pecados morreu: Ora, aqueles sacrifícios de privados não apenas não eram oferecidos por todos, mas nem sequer por todos os pecados daqueles privados, mas por um pecado qualquer de cada um, e isto não sem a vontade antecedente de cada um. Os Sacrifícios pelo pecado, portanto, nos quais se pode dizer que a morte de Cristo foi adombrada, eram aqueles que dependiam apenas da própria ordenação de Deus, e eram oferecidos pelo sumo Sacerdote em certos tempos fixos, sem que se esperasse nenhuma vontade do povo, por todo o povo, mui especialmente verdadeiramente aquele anual; os demais verdadeiramente adombravam melhor nossos sacrifícios espirituais. (Socin. Prelect. c. 23). Por duas causas, portanto, estabelecem potissimamente que a morte de Cristo não foi adombrada naqueles: Primeiro, porque não foram prestados por todos os pecados de todo o povo, mas por um apenas. Segundo, porque exigiam a vontade precedente do povo, por isso não eram tanto sacrifícios do sacerdote quanto do povo, e representavam melhor nossos sacrifícios espirituais do que o sacrifício de Cristo que foi realizado pela só vontade de Deus e de Cristo.

XLV. Contudo, nada há aqui que possa ou deva causar-nos embaraço. Primeiro, não negamos que no sagrado anual tenha sido a prestantíssima e acima das demais ilustre figura do sacrifício de Cristo, o que sem dúvida foi a causa de o Apóstolo referir-se tantas vezes a ele, mas não se segue por isso que nas outras não tenha havido nenhuma: pois é sabido que de uma única e mesma coisa são os vários e diversíssimos tipos, para que sua múltipla perfeição conforme suas várias σχέσεις [relações] e aspectos seja representada, a qual não teria podido ser dada em uma única pintura: hinc ocorrem sob o V. T. tantos e tão variadas figuras de um só Cristo, múltiplas sombras de um só corpo, diversíssimos tipos de uma só verdade, porque foram várias as coisas nele tanto quanto à pessoa quanto quanto aos ofícios e benefícios, quanto às paixões e glória, morte e vida, que não poderiam ser representadas por um único tipo adequado; mas todavia esses vários tipos devem ser olhados de modo que não separadamente, caso contrário a plena verdade da coisa não se teria, mas simultaneamente e conjuntamente fossem considerados, para que o que falta em um seja suprido pelo outro. Como portanto o Sacrifício de Cristo perfectíssimo possa ser olhado sob diversa σχέσει [relação], tanto enquanto devia ser oferecido por todos em universo pelos pecados de todos, quanto enquanto por cada um de cada um, tanto por aqueles que foram admitidos por erro e imprudência, quanto pelos ultrôneos e voluntários que se fazem ἐκ προαιρέσεως [por escolha deliberada]; por isso foi necessária uma pluralidade de figuras, para demonstrar de certo modo este mistério, e assim como no público e anual a amplitude de sua eficácia e extensão a todos era demonstrada mais claramente, assim nos privados, sua aplicação a cada um patenteou-se mais expressamente: Portanto, não se infere bem: o sacrifício de Cristo foi por todos, Logo, nos privados que eram oferecidos por cada um Cristo não pôde ser adombrado: pois assim Cristo morreu por todos, como por cada um dos seus, e assim os fiéis participam no λύτρῳ [resgate] comum dele, que especialmente cada um deve e pode referir a força dele para a expiação dos próprios pecados.

XLVI. Segundo, Embora ocorram certas diferenças entre os sacrifícios dos privados e o de Cristo, como que aqueles fossem oferecidos pelo consenso antecedente e vontade do povo, este não igualmente, não obsta todavia para que tenham sido tipos, pois tal semelhança não é a que infere conformidade omnímoda, mas apenas parcial, visto que todos aqueles tipos foram inadequados, que representavam o objeto apenas por uma de suas partes, não por tudo, por isso não é admirável se ocorre múltipla diversidade; o que também pode ser mostrado naquele sagrado público: nele eram muitas hóstias, aqui uma; ali outras pelo Sacerdote, aqui o mesmo Sacerdote e vítima; ali a oblação era iterada todos os anos, aqui feita uma só vez; o Sacerdote por si, Cristo apenas por nós; um era holocausto, outro pelo pecado, outro ἱλαστικὸν [propiciatório], outro pacífico; aqui temos ambos, o único Sacrifício de Cristo contém a verdade de todos, e está no lugar de todos. Terceiro, a Vontade dos que ofereciam os sacrifícios nada retira do sacrifício, de modo que não possa ser ou sacrifício, ou estar entre as figuras de Cristo: pois ela não menos deveu estar presente tanto em relação ao Sacerdote quanto em relação ao povo no sagrado anual. Quarto, é falso que aquelas dependessem da vontade do povo, e não verdadeiramente do prescrito de Deus, pois de expressa ordenação de Deus fluía tanto a instituição destes quanto daqueles, públicos e privados, nem por isso devem ser ditos sacrifícios mais do povo do que do Sacerdote, visto que o povo pelo Sacerdote, o Sacerdote em nome do povo λατρείας ἐπιτελεῖ [realiza os atos de adoração]. Quinto, não negamos que esses sacrifícios tenham respeitado secundariamente a λογικὴν λατρείαν [adoração racional] dos fiéis, mas de modo que primária e principalmente deduzissem ao verdadeiro ἱλασμὸν [propiciação] dos pecados em Cristo: Nem é novo que um só tipo seja aplicado a coisas diversas subordinadas, como o Tabernáculo e o Templo adombrou tanto a humanidade de Cristo (João 1:14; Col. 1:19; Heb. 9:11) quanto a Igreja (Ef. 2:20; 1 Tim. 3:15) e cada um dos fiéis (1 Cor. 6:19; 2 Cor. 6:16) e o Céu (Apoc. 21:2; Heb. 9:8). Assim os sacrifícios foram espelhos da miséria e do débito contraído pelo pecado (Col. 2:14; Heb. 10:2, 3). Segundo, pinturas da misericórdia de Deus, e do mérito a ser adquirido para a salvação pela obediência e morte de Cristo (Heb. 9:13, 14 e 10:5, 6). Terceiro, tábuas do ofício e culto a ser exibido a Deus (Rom. 12:1). Abriam a miséria para a humildade, propunham o remédio da graça para a consolação, e ensinavam a gratidão para a santificação, mas a primeira e potíssima relação foi para Cristo, sem o qual tanto a miséria teria sido detectada debalde, quanto a santidade da vida prescrita inutilmente: Seja portanto concluído que em todos esses sacrifícios Cristo esteve oculto, e que nenhuma força tiveram, de qualquer gênero que fossem, senão da sua morte, na qual deviam alcançar seu complemento.

COROLÁRIOS.

I. Dá-se uma notícia natural de Deus que todavia não é salvífica. II. A presciência de Deus não é causa das coisas. III. Não é lícito nem plasmar imagens da SS. Trindade nem adorar as plasmadas. IV. A Criação do mundo do nada pode ser demonstrada não apenas por claros testemunhos da Escritura, mas também pela luz da reta razão. V. As coisas que se dizem na Escritura sobre a imutação e inovação do mundo devem ser entendidas não intrinsecamente e quanto à substância, mas extrinsecamente e quanto aos acidentes. VI. O decreto da Eleição é de tal modo gratuito que foi feito à parte de toda previsão ou da morte de Cristo antecedente ou da fé e das obras. VII. A determinação da vontade pelo intelecto não luta com a liberdade da natureza racional. VIII. A distinção do bem e do mal moral não pende tanto da vontade e do mandato quanto da própria natureza de Deus. IX. O monstro da transubstanciação Pontifícia não apenas se opõe à Escritura, mas também convulsiona os fundamentos da mais sã Filosofia.